15 de novembro de 2024

Cosmovisão Materialista

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A visão materialista da realidade contrapõe-se à visão espiritualista que reinou em toda a Idade Média, parte da antiga e que ainda existe. Ambas têm raízes históricas, mas não estão ligadas a uma só época da História, como a cosmovisão medieval e renascentista, nem a uma cultura particular, ocidental ou chinesa. Tanto a cosmovisão espiritualista como a materialista são passadas e contemporâneas, transversais a muitas culturas.

São mais próprias de um tempo que de outro, assim como mais agarradas a uma cultura particular que a outra. São cosmovisões no sentido mais amplo do termo, pois são mais abrangentes tanto no tempo histórico como no espaço cultural. Historicamente, a Idade Média é toda ela espiritualista, enquanto que a partir do renascentismo, em toda a Idade Moderna e Contemporânea, é mais materialista.

Assumindo um caráter teórico, em forma de filosofia, como o ateísmo ou o agnosticismo, ou prático, como o consumismo capitalista, a auto gratificação e a ausência de valores, o materialismo é hoje a filosofia de vida ou a cosmovisão que governa a maior parte das pessoas. Governa claramente o mundo da política, da economia, porque o dinheiro sempre foi em si mesmo uma religião, além do mundo da ciência, das universidades, dos meios de comunicação e da cultura em geral.

Perguntei certa vez a alguém se era religioso; respondeu-me com um tom de voz de quem ficou ofendido, “como posso ser religioso? Eu sou cientista”. Ser materialista, agnóstico ou ateu, está na moda. Ser religioso está fora de moda e é hoje conotado com ser ignorante. Por isso, até os poucos que o são, não se manifestam como tal para não perder amigos, empregos ou posição social.

Aos materialistas, que vivem sem sentido porque a matéria não dá sentido à vida, pode aplicar-se aquela famosa frase do Dalai Lama: “Vivem como se nunca tivessem que morrer, e morrem como se nunca tivessem vivido”. De facto, o expoente máximo do ateísmo dialético e histórico, Karl Marx, enfrentou a questão da morte da mesma forma cínica dizendo que a morte não deve preocupar-nos, pois enquanto nós existirmos, ela não existirá; quando eventualmente se tornar realidade, não existiremos nós.

Ou seja, a morte não deve ser motivo de preocupação porque nunca coexistiremos com ela, nem nós existimos com ela nem ela existe connosco. O facto é que por muito que a escondamos na sociedade, ela vai aparecendo, quando ao nosso lado caem primeiro os nossos pais e os nossos tios, depois os nossos irmãos mais velhos.

Relativamente à sociedade medieval que vivia reconciliada com a morte, em harmonia com ela, e numa quase amizade, chegando a dar-lhe uma forma feminina, vestindo-a de branco, convidando-a para uma dança de roda e até para jogar xadrez a ver se a vencia ou enganava ou distraía, a sociedade moderna e contemporânea tem medo da morte que lhe vai roubar tudo, porque é eterna, reprimindo por isso tal pensamento, como o sexo era reprimido na sociedade puritana vitoriana.

Do animismo ao ateísmo
Do animismo ao materialismo há uma gradual materialização da matéria e simbioticamente do ser pensante que a analisa e com ela se relaciona, o Homem. Ao princípio, tudo tinha alma, até a própria matéria mais material tinha alma. Num mundo materialista como é o de hoje, custa-nos pensar que assim era no passado; porém, sem irmos mais longe, todos nós vivemos uma etapa de animismo na nossa infância quando, ao magoar-nos com qualquer coisa, batíamos e culpávamos e chamávamos má a essa mesma coisa, como se fosse uma entidade viva.

Ao nível dos adultos, a superstição é um resquício de animismo, ou seja, quando se concede valor ou poder espiritual a algo que é puramente material, como uma chave ou uma ferradura, isso é animismo, hoje chamado de superstição.

O conhecer certas realidades materiais e o saber como e para que funcionavam, roubou-lhes a alma, pelo que se desanimaram e voltaram a ser apenas matéria. Porém, não era possível conhecer cientificamente certas realidades ou estas não eram fáceis de conhecer ou não era possível conhecê-las e dominá-las totalmente. A essas realidades deu-se-lhes o nome de deuses e assim nasceu o deus da guerra, a deusa do amor, o deus do tempo o deus do vinho, o deus do mar, etc. e, consequentemente, surgiu o politeísmo.

Por uma questão de simplificação ou com o fim de unir vários povos e evitar as desavenças de “o meu deus é maior que o teu”, o que podia causar guerras santas ou outras desavenças, o Homem descobriu que Deus seria um só Senhor e criador de tudo e de todos. Nasceu assim o monoteísmo na sua versão absoluta, com o judaísmo e o islamismo e na sua versão trinitária, com o cristianismo.

Por fim, quando o progresso científico permitiu ao homem dominar grande parte da realidade, este decidiu matar a Deus (conceito psicanalítico) para se colocar no seu lugar como super-homem (Nietzsche). Nesta dialética de ir roubando a alma ao conhecido, o ser humano acabou por roubar a alma ao próprio Deus, afirmando, como o fez Feuerbach, que não foi Deus que criou o Homem à sua imagem e semelhança, mas sim, ao contrário, foi o Homem que criou Deus à sua imagem e semelhança.

Nasceu assim o materialismo dialético ou filosófico, depois o materialismo histórico e a revolução comunista com Karl Marx, a psicanálise ateia de Sigmund Freud. Nietzsche declarou “Deus está morto, viva o super-homem” e, depois do enterro de Deus, surgiu o niilismo do próprio Nietzsche, seguido pela náusea ou vómito de Sartre.

Ideologia materialista
Esta visão de mundo tornou-se proeminente no Iluminismo, mas é tão antiga como Demócrito (370 a.C.). A visão materialista do mundo afirma que não há espírito, nem deus, nem alma. Nada que não possa ser conhecido através dos cinco sentidos e da razão.

Nada existe além da Natureza que tenha influência causal ou aja sobre a mesma Natureza. Não existe, portanto, nenhum ser superior que tenha criado a Natureza e que exerça algum poder sobre ela. Só existe a natureza material e nada para além dela. A vida na Terra surgiu por si mesma, quando se reuniram as condições para que surgisse, a partir de substâncias naturais, por seleção natural para fins naturais.

O sobrenatural ou espiritual é uma quimera, não existe, não é observável. Se algo não tem explicação não é por ser sobrenatural, mas simplesmente porque o ser humano ainda não sabe tudo; no futuro, a ciência poderá explicar. Assim foi e assim tem sido: realidades que antes eram vistas como deuses, hoje são completamente explicáveis.

O mundo espiritual é, portanto, uma ilusão, (um consolo infantil, como diz Freud). Não há ser superior, somos meros complexos da matéria e, quando morremos, deixamos de existir e os elementos simples que compõem o nosso corpo voltam à sua simplicidade à medida que o nosso corpo se desintegra.

Como não há nenhum significado intrínseco para o universo, as pessoas têm de criar valores para si mesmas. Não há certo e errado, exceto o que a sociedade estabelece, com propósitos de sobrevivência e tranquilidade.

Muitos não chegam a criar valores pelos quais pautar a sua vida, pois é difícil fundamentar uma ética sem religião. Os materialistas têm a sorte de mais de 90% da humanidade acreditar na existência de um ser superior, fundamento e garante da estrutura social que temos; se assim não fosse, 1% da humanidade não poderia ter mais riqueza do que 99% da mesma humanidade, como hoje acontece. 

Se os seres humanos não acreditassem na vida para além da morte, fundamento último da ética, não haveria exército nem polícia para conter a raiva humana contra a injustiça.  Razão tinha Napoleão Bonaparte quando disse que a religião é o que faz os pobres não matarem os ricos.

Se o fim dos justos e dos injustos é o mesmo, é difícil distinguir a justiça da injustiça, se ambas têm o mesmo fim: o nada. Por isso, a maior parte dos materialistas afogam as suas mágoas no consumismo. A vida é pão e circo, como diziam os romanos, Fugit Tempus, Carpe diem, o tempo escapa-se-nos, aproveitemos o dia que temos pela frente, ou seja, “Morra Marta, morra farta”.

Os processos de evolução ou mudança são essencialmente aleatórios, não têm um objetivo predefinido, pois não existe nenhum desígnio inteligente, como creem os crentes religiosos. Reina o aleatório: os dinossauros não estavam predestinados a desaparecer, se aquele meteorito que destruiu o seu habitat não tivesse caído, poderiam ainda estar vivos e o ser humano nunca ter surgido. Para além do aleatório, o que existe é uma seleção natural governada pela lei do mais forte ou do que melhor se adapta às circunstâncias de um meio ambiente em constante mudança.

É isto e só isto que determina que alguns seres vivos sobrevivam e outros pereçam. Os materialistas creem que este processo de “seleção” inconsciente, não dirigida, juntamente com as flutuações genéticas aleatórias (ou seja, mutações), sejam as chaves que explicam a origem do mundo e dos seres vivos como os conhecemos hoje, nós próprios incluídos.

Ao não haver nenhum desígnio inteligente nem nenhum objetivo que a natureza tenha que cumprir, a própria inteligência e o que nós chamamos espiritual são o resultado de complexos processos naturais e materiais que é possível conhecer e explicar. Não precisamos de Deus para explicar nada na Natureza físico-química. Não existe nada no Universo que seja pessoal, tudo é impessoal. A pessoa humana é uma outra quimera criada pelos espiritualistas, não há nada na pessoa humana para além de complicados processos físico-químicos.

Análise "científica" do materialismo, ateísmo ou agnosticismo
É certo que não podemos provar a existência de Deus nem a sua não existência, pelo que tanto teísmo como ateísmo ou agnosticismo são crenças. Ou seja, uma é fé a outra é anti fé, mas ambas envolvem fé.

Os ateus ou agnósticos gostam de se fazer passar por cientistas, amigos da ciência, racionais e iluminados. A ciência é logico-dedutiva, como a matemática, ou intuitiva, como a teoria da relatividade de Einstein.

O ateísmo ou o agnosticismo não é lógico - O ateísmo ou agnosticismo não é lógico. Não faz sentido que o ser humano seja, como diz Karl Marx, o momento em que a Natureza ganhou pensamento ou autoconsciência, só para nos darmos conta da nossa miséria, ou seja, de que vimos do nada como tudo e ao nada regressaremos com a pulga, o piolho e o percevejo.

Se para isso somos os únicos seres vivos conscientes da nossa miséria, era preferível não sermos conscientes como o resto dos seres vivos. É como saber o dia e as circunstâncias da nossa morte: não creio que haja uma única pessoa que esteja interessada nessa informação.

Ao contrário do resto dos seres vivos, a consciência de que existimos por um tempo e depois deixamos de existir, em vez de ser uma grandeza da evolução é antes ir de cavalo para burro. Que grandeza é essa de termos consciência da própria miséria, sem solução para a remediar?

Ao contrário do resto dos seres vivos que, vivendo em simbiose com a natureza não têm liberdade nem autonomia nem independência em relação a ela, o ser humano tem a vida nas suas mãos, tem uma certa liberdade para fazer com a sua vida o que quiser. Para quê essa liberdade, se independentemente do que fizermos, o fim será o mesmo? Por outro lado, o ter liberdade é também um risco, no sentido em que posso fazer más escolhas e transformar a minha vida num inferno, coisa que os outros seres vivos não podem.

Na vida, os seres vivos são felizes, não precisam de trabalhar, nem de estudar, nem de sofrer. Nós, seres vivos humanos, podemos ser felizes ou infelizes em vida, mas, mesmo os que são felizes, possuem sempre uma felicidade relativa, pois o pensamento de que um dia deixarão de existir, envenena qualquer alegria ou prazer, transformando-a em tristeza e depressão.

O ateísmo ou agnosticismo não é dedutivo – Se o universo não estivesse em expansão, se fosse estático e não dinâmico e em constante devir, como as águas do rio de Heráclito, se sempre tivesse sido o mesmo, se não houvesse nenhuma mudança, nem evolução, nem revolução, poderíamos deduzir que sempre existira, que o universo era deus de si mesmo.

Isto é o que pensava a ciência antes de o telescópio Hubble que se encontra bem longe no espaço, mostrar que as galáxias estão a afastar-se umas das outras, o que nos levou a deduzir que o Universo está em expansão. A teoria dedutiva do Big Bang que afirma que as galáxias estão a afastar-se umas das outras foi criada pelo padre católico belga Georges Lemaître. Segundo ele, o universo começou com uma grande explosão; nessa grande explosão foram criados o tempo/espaço e a matéria/energia.

Na Natureza, as ignições ou explosões não acontecem espontaneamente. Tudo se passa num regime de causa/efeito: não há causa sem efeito, nem efeito sem causa, não há água sem sede, nem sede sem água. Ou, como diz o povo, “quando nasce a panela, nasce o testo para ela”. Por outro lado, não observamos na Natureza nada que se crie a si mesmo; é, portanto, mais lógico deduzir um criador que não o deduzir.

Se o universo nem sempre existiu e depois começou a existir, houve um “tempo” em que não existia. E haverá um tempo em que deixará de existir. Apenas a Bíblia falava do fim do mundo e os tais cientistas riam-se dela e dos cristãos. Como quem ri por último, ri melhor, agora somos nós que nos rimos. A ciência teve de dar o braço a torcer e afirmar que o mundo deixará de existir um dia.

Os ateus reagiram à teoria do Big Bang deduzindo o Big Crunch, ou seja, que o universo estaria em expansão, como se fosse um elástico, até não poder expandir-se mais, iniciando em seguida o processo inverso de contração até colapsar sobre si mesmo, chegando a matéria a concentrar-se toda outra vez e a causar um novo Big Bang. Assim sendo, o universo seria uma sucessão de Big Bangs e Big Crunches.

Porém, a segunda lei da termodinâmica veio desmentir esta teoria, pois a matéria não se transforma em energia sem se desgastar. Se assim fosse, seria possível ter uma máquina que fabricasse a energia de que precisa para se manter em andamento. O sol vai gastar todo o seu hidrogénio e hélio, assim como o universo vai gastar toda a sua energia até desparecer e a pouca matéria existente nesse universo futuro não terá a força da gravidade suficiente para se aglutinar. O universo transformar-se-á num buraco negro.

O ateísmo ou agnosticismo não é intuitivo – A intuição é o contrário da lógica e da dedução, pela intuição e dedução nunca Einstein chegaria à teoria da relatividade, pois não é lógica nem se deduz de nenhuma observação. A intuição é, ao mesmo tempo, um salto qualitativo e quantitativo. Se eu partir da observação da realidade, sou catapultado pela intuição para uma realidade não observável nem experimentável, mas que tem relação com o que observo e dá sentido a tudo o que observo.

Neste sentido, a fé é uma intuição; a Deus chega-se pela intuição, mas não só a Deus: muita da física quântica dos nossos dias, herdeira da teoria da relatividade, é intuitiva. Muita da astronomia de hoje é intuitiva, pois não temos forma de observar certas realidades.

O ateísmo ou agnosticismo é indutivo – O ateísmo ou agnosticismo é instigado, é forçado e supõe a repressão do sentimento religioso que é conatural ao ser humano e que podemos observar em todos os tempos e em todas as épocas e na maior parte dos seres humanos que habitam hoje o nosso planeta.

Os teístas sempre foram mais de 80% dos habitantes deste planeta em todas as épocas e em todas as culturas. Até hoje já houve muitas culturas e civilizações sem ciência e tecnologia, mas nuca houve nenhuma sem religião.

Por isso, o ateísmo ou agnosticismo é induzido pela moda, pela sociedade de consumo, pelo comunismo, ou por qualquer ideologia que pretenda retirar ao ser humano toda a orientação; assim desorientado e desnorteado, é mais fácil de manipular e transformar em consumidor obsessivo e neurótico, muito bom para a economia faz crescer o PIB, mas reduz a saúde dos indivíduos. Quanto mais saudável é a economia, mais doentes são os indivíduos que a alimentam.

E, para tal, o sentimento religioso natural ao ser humano e presente em todas as culturas de todos os tempos tem de ser ignorado num primeiro momento, mas, como sempre ressurge, deve ser reprimido, escondido.

Defendo que não há verdadeiros ateus ou agnósticos, mas sim politeístas, ou seja, negam a existência do Deus verdadeiro para prestarem homenagem, veneração e adoração a muitos e pequenos deuses. O dinheiro seria o Pai desse panteão, tal como Zeus e Júpiter foram os pais dos panteões grego e romano, respetivamente. Depois há deuses que são os patronos de certas realidades com quem o ateu ou materialista se relaciona: o poder, a beleza, o prazer, a fama, a diversão como o futebol etc.

Como seria um mundo governado pela cosmovisão materialista? Seria um mundo sem música, sem arte, sem poesia, sem literatura, sem direitos humanos, sem ética, uma autêntica barbárie, uma autêntica anarquia. Que deixa para a posteridade a sociedade materialista consumista? A quase totalidade dos monumentos e obras mais belas da humanidade, as pirâmides do Egito, as catedrais góticas, as mesquitas, os templos hindus são o reflexo do sentimento religioso. Que nos deixa ou deixou o materialismo para além da náusea de Sarte, dos gulags soviéticos e dos atuais campos de concentração chineses para lavar o cérebro ao povo uigur?

Conclusão: os materialistas sustentam que, na evolução das espécies, o ser humano não é mais que o momento em que a matéria ganha consciência de si mesma. Não faz sentido que a matéria desperte com o único objetivo de se dar conta de que é matéria. A autoconsciência é uma atividade espiritual, por isso a matéria está orientada para o espírito e não vice-versa. Os materialistas, ateus ou agnósticos reprimem o natural sentimento religioso, comum ao ser humano de todos os tempos e culturas, como os puritanos reprimiam o sexo.

Pe. Jorge Amaro,IMC


1 de novembro de 2024

Cosmovisão Renascentista

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O mundo europeu entende que não há uma continuidade cultural, científica e filosófica entre o mundo antigo e a Idade Média. A Idade Média foi como um trauma que paralisou o mundo, que o colocou a dormir por muito tempo. A cidade é o lugar da cultura, pois é na cidade que se concentra o maior número de pessoas, onde acontece um sem-número de transações, comunicações e onde se pratica um sem-número de profissões.

No bucólico campo só se pratica a agricultura, as pessoas vivem isoladas umas das outras. O mundo medieval era um mundo rural. É certo que é do campo que se vive e se come, mas uma vida que se dedica só à autossubsistência dificilmente se pode chamar humana, os animais são os que se dedicam exclusivamente à autossubsistência.

A agricultura é, portanto, a base da cultura. No entanto, o objetivo da agricultura não deve ser a autossubsistência, mas sim criar excedentes que depois serão a base do comércio, que permitirão adquirir outros bens e promoverão o relacionamento entre pessoas, fazendo surgir outras atividades. Em suma, fomentarão a cultura e o desenvolvimento.

No Renascentismo começaram a surgir outra vez as cidades. A Europa, ao dar-se conta da descontinuidade cultural entre a Idade Antiga e os 10 séculos de Idade Média, tentou fazer um bypass, passando por cima da Idade Média e indo ao passado do mundo greco-latino para ressuscitar esta cultura sem a mediação ou as lentes da Igreja.

Inspirado nos valores da antiguidade clássica, o homem renascentista tem a ideia de que tudo o que é medieval é mau e tudo o que pertence ao mundo antigo é bom. Esta perspetiva está equivocada em muitos pontos. A filosofia, por exemplo, embora seja de inspiração cristã, avançou na Idade Média; a arquitetura, sobretudo a gótica, representou um enorme avanço. A arquitetura algo tosca da época grega e romana, foi recriada no renascimento com um estilo monumental que perdeu em beleza para o gótico; não é nada bela, é somente monumental, ou seja, grande, enorme. Por exemplo, a basílica de S. Pedro é monumental, é renascentista; mas não é certamente mais bela que a mais singela catedral gótica.

Com o aparecimento do burgo, termo que significa cidade, no fim da Idade Média, nasceu uma outra classe social no seio do povo, o burguês, ou seja, literalmente o habitante da cidade, que não se dedica, é claro, à agricultura, mas sim ao comércio, artes e ofícios que vão surgindo à medida que a vida se vai diversificando e deixa de girar à volta da subsistência. Esta vertente física é confiada ao povo e ao seu trabalho na agricultura, a vertente espiritual e moral é confiada ao clero e a segurança é confiada aos nobres.

Origem do Renascimento
Na península itálica, as cidades nunca desapareceram totalmente e os povos não deixaram de praticar o comércio, nem de usar moeda. Houve, sim, uma diminuição dessas atividades durante a Idade Média. Em virtude da situação geográfica da península itálica no meio do Mar Mediterrâneo, várias cidades ribeirinhas como Veneza, Génova, Florença, Roma, entre outras, beneficiaram do comércio com o Oriente. Marco Polo terá aberto o caminho.

Estas regiões enriqueceram com o desenvolvimento do comércio no Mar Mediterrâneo, dando origem a uma rica burguesia mercantil. A fim de se afirmarem socialmente, estes comerciantes patrocinavam artistas e escritores, que inauguraram uma nova forma de fazer arte. A Igreja e a nobreza também foram mecenas de artistas como Miguel Ângelo, Domenico Ghirlandaio, Pietro della Francesca, entre muitos outros. A nova classe social burguesa que surgiu no Renascimento tinha dinheiro, mas não tinha estatuto, como o clero e a nobreza; por outro lado, como tinha dinheiro, não se enquadrava nos servos da gleba. Assim, procurava investir esse dinheiro patrocinando obras de arte, a fim de serem reconhecidos socialmente.

Renascer
Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo não poderá ver o Reino de Deus”. Nicodemos perguntou-lhe: “Como pode um homem renascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no seio de sua mãe e nascer pela segunda vez?”. Respondeu Jesus: “Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus.João, 3, 3-5

Em meados do século XIV começou uma transição entre os mundos medieval e moderno. Esta transição é conhecida como o Renascimento ou nascer de novo, como sugere o evangelho.

O movimento começou em Itália que tinha sido o centro da cultura greco-romana e o seu último reduto, o centro do Império Romano. Foi também o lugar mais dominado pela Igreja, pois quase toda a Itália no fim da Idade Média era um Estado Pontifício, formado por terras que Carlos Magno deu à Igreja. Por isso, os que chamam a Igreja de obscurantista esquecem-se que esta foi a maior promotora da Renascença no campo da arquitetura, pintura, escultura e outras artes. E que a cultura greco-romana renasceu precisamente no lugar onde tinha sido extinta pelos bárbaros.

O Renascentismo abrangeu quase todas as facetas da vida, economia, política, filosofia e arte entre tantas e, em especial, da ciência. Os principais contribuintes para o Renascimento (como Petrarca, Leonardo Da Vinci e Dante) classificaram o período medieval como lento e escuro, um tempo de pouca educação ou inovação. Viram o período medieval como uma interrupção da cultura entre o mundo clássico da Grécia e Roma e o Renascimento.

A ideia de comunidade distinguiu o período medieval. As pessoas – clero, nobreza e povo – enfrentaram ameaças reais de fome, doenças e guerras que são perigos que fomentam a dependência da comunidade em áreas como o trabalho, a religião e a defesa. Por exemplo, um artesão medieval pertencia a uma associação que ditava todos os aspetos do seu negócio. A ideia era que todos os artesãos ganhassem a vida equitativamente e não que uns ganhassem mais que outros.  A uniformidade era norma; cada profissão tinha a sua forma de vestir, até as prostitutas tinham o seu hábito, uma forma de vestir que as distinguia das outras mulheres.

A Renascença, por outro lado, veio sublinhar a importância dos talentos individuais. Esta ideia, conhecida como individualismo, é visível na filosofia e na arte da época. Além disso, enquanto estudiosos medievais tinham estudado documentos gregos e romanos antigos para aprender sobre Deus e o Cristianismo, os estudiosos renascentistas estudaram-nos para descobrir mais sobre a natureza humana. Esta nova interpretação era conhecida como humanismo.

Nasceu assim um humanismo não diretamente ligado ao cristianismo, ou seja, um humanismo laico que cresceria exponencialmente durante toda a Idade Moderna. Aliás o Renascimento foi a primeira pedra da cosmovisão humanista materialista contraposta a uma cosmovisão espiritualista, que reinou durante toda na Idade Média.

A arte renascentista também reflete o humanismo. Enquanto a arte medieval se destinava a ensinar uma lição, talvez uma história bíblica, como os vitrais das catedrais góticas, a arte renascentista glorificou a humanidade dos indivíduos retratados. As estátuas medievais tendem a ser de santos e numa posição mística não natural. Em contraste, o David de Miguel Ângelo, a Pietá e Moisés parecem ser mais realistas. As estátuas deixaram de ser imagens congeladas de piedade e passaram a revelar emoções humanas, parecendo prontas para a ação.

Valores renascentistas
Racionalismo – A razão era o único caminho para se chegar ao conhecimento. Tudo podia ser explicado pela razão e pela ciência. A escolástica medieval valorizava também a razão, mas não em exclusivo. A fé é uma outra forma de conhecer, que o renascimento ignora, tal como a cultura em geral depois deste.

Cientificismo – Para os renascentistas, todo o conhecimento deveria ser demonstrado através da experiência científica. É deste tempo a expressão “a experiência é a mãe da ciência”. Hoje sabemos que a experiência não é a única mãe de todas as ciências. Não só da lógica e dedução se faz ciência, mas também da intuição, como aconteceu com a teoria da relatividade.

Individualismo – O ser humano procurava afirmar a sua própria personalidade, mostrar os seus talentos, atingir a fama e satisfazer as suas ambições, através do conceito de que o direito individual estava acima do direito coletivo. Assim nasce o liberalismo em todas as suas vertentes. Teremos que esperar pela revolução socialista para voltar a falar de igualdade, pois a igualdade da revolução francesa era uma igualdade onde uns são mais iguais que outros, como diz George Orwell.

Antropocentrismo – Coloca o homem como a suprema criação de Deus e como centro do universo. É deste tempo a frase “o homem é a medida de todas as coisas”. Deus começa a ser posto de lado, até ser completamente substituído pelo super-homem de Nietzsche.

Classicismo – Os artistas procuram a sua inspiração na Antiguidade Clássica greco-romana para realizar as suas obras. Qualquer momento do passado é melhor que este, era a ideia.

O renascimento das letras
São deste tempo grandes escritores ainda hoje mundialmente famosos, porque escreveram obras mundialmente reconhecidas, para todos os tempos, além de se tornarem ex libris ou representativas da cultura onde surgiram.

  • Dante Alighieri: escritor italiano, autor do grande poema "Divina Comédia". Trata das três instâncias depois da morte – Céu, Inferno e Purgatório – e é uma joia da literatura universal e o ex libris da cultura italiana.
  • Maquiavel: autor de "O Príncipe", obra precursora da ciência política onde o autor dá conselhos aos governantes da época.
  • Shakespeare: considerado um dos maiores dramaturgos de todos os tempos. Abordou na sua obra os conflitos humanos nas mais diversas dimensões: pessoais, sociais, políticas. Escreveu comédias e tragédias, como "Romeu e Julieta", "Macbeth", "A Fera Amansada", "Otelo" e várias outras. Ex libris da cultura inglesa.
  • Miguel de Cervantes: autor espanhol da obra "Dom Quixote", uma crítica contundente da cavalaria medieval. Ex libris da cultura espanhola.
  • Luís de Camões: teve destaque na literatura renascentista em Portugal, sendo autor do grande poema épico "Os Lusíadas", ex libris da nacionalidade portuguesa.

O renascimento das artes
Destacamos Leonard da Vinci que é o ex libris, estereótipo ou protótipo do homem renascentista; o homem dos cem ofícios; foi matemático, físico, anatomista, inventor, arquiteto, escultor e pintor, foi o homem renascentista que dominou várias ciências. Por isso, é considerado um génio absoluto. A misteriosa Mona Lisa e a Última Ceia são as suas obras-primas. Quando alguém nos fala da última ceia de Cristo, a imagem que nos vem à mente é sempre a do quadro de Leonado da Vinci.

Renascimento científico
O Renascimento foi marcado por importantes descobertas científicas, nomeadamente nos campos da astronomia, da física, da medicina, da matemática e da geografia. O polaco Nicolau Copérnico negou a teoria geocêntrica defendida pela Igreja, herdada de Aristóteles e Ptolomeu, ao afirmar que "a Terra não é o centro do universo, mas simplesmente um dos tantos planetas que gira em torno do Sol". O novo centro era agora o sol. Hoje sabemos que nem a terra nem o sol são o centro do Universo. O universo talvez não tenha centro…

Galileu Galilei descobriu os anéis de Saturno, as manchas solares, os satélites de Júpiter. Perseguido e ameaçado pela Igreja, Galileu foi obrigado a negar publicamente as suas ideias e descobertas. “E, no entanto, move-se” dizem que disse Galileu ao sair do tribunal onde foi obrigado a mentir. A Igreja estava enganada ao olhar para a Bíblia como um livro de ciência.

Galileu disse que era a Terra que andava à volta do sol, mas nunca conseguiu prova-lo, pois o que vemos é o sol que anda à volta da Terra: a experiência empírica aqui diz-nos o contrário da verdade. Ao pobre Galileu bastava-lhe ter dito que quando cavalgamos ou nos deslocamos numa carruagem de cavalos, sabemos que somos nós que nos movemos; no entanto, os nossos olhos vêm as árvores a moverem-se. Da mesma maneira, vemos que é o sol que se move, apesar de sabermos que está fixo em relação a nós porque nós, habitantes deste planeta, estamos montados no movimento de um astro que se move, como a carruagem.

Na medicina, os conhecimentos avançaram com trabalhos e experiências sobre a circulação sanguínea, métodos de cauterização e princípios gerais de anatomia. São deste tempo as primeiras autópsias para investigar a causa da morte e para aprender sobre o corpo humano e o seu funcionamento.

Conclusão: ao despertar de um sonho que durou mil anos, o renascentista deu-se conta de que a Idade Média, pelo trauma das invasões bárbaras, não era uma continuação lógica da Idade Antiga que tinha sido sepultada viva. O Renascimento foi um bypass do mundo clássico até à atualidade, sem passar pela Idade Média. Foi um ir beber às fontes e lançar raízes na Idade Antiga como modelo de inspiração, pondo de lado a Idade Média como se esta nunca tivesse acontecido. 

Pe. Jorge Amaro, IMC




15 de outubro de 2024

Cosmovisão Medieval

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Em termos históricos, a Idade Média tem esse nome  porque se situa a meio do percurso entre a Idade Antiga e a Idade Moderna. Começa no século V, com a queda do Império Romano do Ocidente e termina no século XV, com a transição renascentista para a Idade Moderna. Estes dez séculos de História da civilização ocidental costumam dividir-se em dois períodos: a alta Idade Média que vai do século V ao século X e a baixa Idade Média, do século X ao XV.

Causas do retrocesso cultural medieval
Há quem, de forma tendenciosa, culpe a Igreja pelo facto de a Idade Média ter sido um retrocesso cultural. É certo que a Igreja filtrou da cultura greco-romana só o que lhe interessava, mas também manteve muito desta cultura; se não tivesse sido assim, não teria preservado os manuscritos antigos, o que impossibilitaria o Renascimento.  

Para quem não é tendencioso, é claro que o fator principal para que a Europa mergulhasse num limbo ou num sonho de mil anos foi a tomada do poder pelos bárbaros, que levavam um atraso de mais de 2 000 anos em relação à cultura greco-romana. Este é decerto o fator principal, mas há outros que contribuíram ou acentuaram a Idade das Trevas.

 A Europa viveu durante a Idade Média num clima de instabilidade constante. A cultura não cresce em tempo de guerra. A Pax Romana tinha proporcionado o desenvolvimento cultural; o isolamento, a falta de comércio e de comunicações que o feudalismo causou transformou o mundo urbano e a sua cultura num mundo rural e fechado onde a agricultura era a única atividade para além das constantes guerras entre pequenos reinos e, dentro desses reinos, entre os senhores feudais o que não proporcionava um desenvolvimento cultural.

Enquanto dentro da Europa a Igreja se dedicava a educar os bárbaros, fora via-se constantemente ameaçada por outros bárbaros. Pelo lado ocidental, os muçulmanos, que tinham ocupado todo o norte de África, invadido a Península Ibérica e chegado até ao coração de França, até Poitiers, onde foram derrotados por Carlos Martel. O Império Otomano ameaçava pelo oriente estender-se pela Europa fora. A norte, surgiram os vikings, outra tribo germânica da Escandinávia que fazia rápidas incursões nas costas de Inglaterra e de França, com o único intuito de roubar, pilhar e matar.

Estes são todos os fatores que fizeram da Europa, unida pelo Império Romano, um monte de ilhas ou feudos desconectados entre si, com a única preocupação de sobreviver. A Igreja ou o cristianismo estava presente em todos estes estados e em todos eles foi o único fator de união. Por isso, foram possíveis empreendimentos como as cruzadas, porque não havia nenhum outro fator que conseguisse unir os povos e os fizesse sair dos seus feudos.

Alta Idade Média
A alta Idade Média é aquela que está mais longe de nós e mais perto da queda do Império Romano do ocidente. Durante este período de ocupação bárbara do Império Romano, os centros urbanos foram destruídos, o povo voltou ao mundo rural. Os bárbaros formaram pequenos reinos usando as estruturas do Império Romano. No século VII, tanto o Norte de África como o Médio Oriente se tornaram muçulmanos; este último tinha feito parte do Império Bizantino ou Império Romano do Oriente (o mais longo da história). Este Império continuou a existir por mais algum tempo, até 1453, já na baixa Idade Média, quando sucumbiu ao Império Otomano que durou mais 600 anos e acabou já depois da I Guerra Mundial, em 1922.

Durante a alta Idade Média, o cristianismo, que se constituiu a si mesmo como o herdeiro da cultura greco-romana, disseminou-se por toda a Europa e, como vimos no texto anterior, as tribos germânicas foram cedendo a esta narrativa religiosa muito superior à sua. Ao converter-se o chefe da tribo convertia-se toda a tribo por uma questão de lealdade, valor muito importante entre os bárbaros.

Ainda nesta alta Idade Média se dá uma tentativa, por parte dos francos durante a dinastia carolíngia, de restauração do antigo Império Romano. O Império Carolíngio surge nos séculos VIII e IX pela unificação dos reinos francos e germânicos durante a dinástica carolíngia, que se inicia com Carlos Magno. Mais tarde, este Império separou-se desta divisão; a parte oriental da França com o resto da Germânia formam o Império Romano Germânico durante o reinado da dinastia saxónia, com Oton I como imperador. Este foi nomeado como sagrado Imperador pelo Papa, facto que deu origem ao nome Sacro Império Romano Germânico.

Os imperadores germânicos consideravam-se sucessores diretos dos romanos. Estes imperadores eram eleitos por um conselho de quatro duques dos reinos mais importantes: Saxónia, Francónia, Suévia e Baviera. O imperador representava todo o Império, mas cada um dos reinos confederados tinha autonomia sobre o seu território que era governado segundo o sistema feudal. Este Império durou 900 anos: a partir da alta Idade Média, atravessou a baixa Idade Média e a Idade Moderna e entrou na Idade Contemporânea; terminou no ano de 1806, com as guerras napoleónicas.

Baixa Idade Média
A baixa Idade Média teve início no ano 1000; neste período dá-se um grande crescimento demográfico, o feudalismo é o sistema que impera por toda a Europa; o rei de cada estado era só uma figura simbólica, não tinha grande poder executivo. Durante este tempo, a Igreja estabelece-se não só como poder espiritual, mas também temporal, pois consegue incitar os nobres feudais a embarcar numa cruzada de reconquista da Terra Santa que o Império Bizantino tinha perdido para o Império Otomano.

Chegam de facto a conquistá-la, mas por pouco tempo, para logo a perderem, uma vez que o Império Otomano estava no seu apogeu. Não voltará a ser conquistada, nem por Ricardo, Coração de Leão, mas pelos ingleses na I Guerra Mundial. Nas cruzadas, as tribos germânicas mostram o seu lado bárbaro, pelo que fizeram mais mal que bem. Não conseguindo derrotar os muçulmanos, em 1204 na quarta cruzada voltaram-se contra os cristãos do Oriente, saqueando, aterrorizando e vandalizando Bizâncio que, enfraquecida, foi depois presa fácil para o poder otomano.

Os dois últimos séculos da baixa Idade Média ficaram marcados por várias guerras, adversidades e catástrofes. A população foi dizimada por sucessivas fomes e pestes; só a Peste Negra foi responsável pela morte de um terço da população europeia entre 1347 e 1350. Acontece também a Peste Negra Espiritual, com o Grande Cisma da Igreja no Ocidente que teve consequências profundas na sociedade e foi um dos fatores que estiveram na origem de inúmeras guerras entre estados.

A vida cultural foi dominada pela escolástica, uma filosofia que procurou unir a fé à razão, e pela fundação das primeiras universidades. A obra de Tomás de Aquino, a pintura de Giotto, a poesia de Dante e Chaucer, as viagens de Marco Polo e a edificação das imponentes catedrais góticas estão entre as mais destacadas façanhas deste período.

Feudalismo
A invasão bárbara provocou a fuga da cidade em direção ao campo. A Europa ocidental ruralizava-se, e a riqueza era a terra. A agricultura tornou-se na principal atividade económica, e a produção dos feudos era para o próprio sustento. Carlos Magno promoveu a distribuição de terras aos senhores feudais, exigindo em troca a sua fidelidade e auxílio em caso de guerra.

O feudalismo é o termo que usamos para toda organização social, política, cultural, ideológica e económica que existiu na Europa durante a Idade Média. O feudalismo é a ruralização da Europa urbana romana; as cidades só voltam a existir com a abertura do comércio na Idade Moderna, por altura do Renascentismo.

O símbolo do feudalismo é o castelo do senhor feudal, rodeado por terras de cultivo onde trabalham de sol a sol os servos da gleba, o povo, que prestam homenagem e vassalagem ao Senhor feudal ou Suserano, membro da Nobreza. Entre castelo e castelo encontram-se aqui e ali mosteiros onde vivem os monges que constituem a outra classe social, o clero.

Os nobres defendem o feudo pois são eles os proprietários das terras que o povo trabalha; o clérigo mantém a cultura e ensina tanto a religião como técnicas agrícolas ao povo, orando por ele; o povo sustenta com o seu trabalho tanto os nobres como o clero, se bem que este último era em grande medida autossuficiente. A Nobreza (bellatores) defende, o Clero (oratores) reza e o Povo (laboratores) trabalha: assim se resume a vida rural durante o feudalismo.

O ideal da cavalaria
O cavaleiro medieval encarna valores como a coragem, a proeza, a infalível lealdade, a fidelidade à palavra dada, a dignidade e a honra. Tem por norma defender os mais pobres e lutar pela justiça e pela paz. Leva uma vida errante de solidão, pelas batalhas e escaramuças que vai enfrentando. Está apaixonado por uma donzela com quem tem uma relação de amor platónico à distância.

Tem que dar provas de temperança em batalha, de generosidade, tanto em relação aos amigos como aos inimigos, e de cortesia para com as mulheres. A liberalidade do cavaleiro que redistribui todos os seus bens às pessoas e aos pobres faz parte da sua fama. Os valores celebrados pela cavalaria são o fruto de uma longa educação.

O aspirante a cavaleiro, deve fazer a sua aprendizagem junto de um senhor de quem passa a ser o criado e depois o escudeiro. Aprende então tanto o manejo das armas como a ética da cavalaria. Uma vez investido, deverá demonstrar o seu valor atuando nos torneios ou participando das aventuras que lhe surgem pela frente. Na procura de glória e reconhecimento, estes cavaleiros errantes vão realizar igualmente múltiplas buscas, das quais a mais prestigiosa é a do Santo Graal, ou seja, o cálice da Última Ceia de Jesus e tambéma da arca da aliança.

Os Templários
Assim chamados porque nasceram no templo de Jerusalém onde buscavam precisamente o Santo Graal; foram uma ordem religiosa militar. Estes e outros membros de ordens religiosas militares eram quem melhor encarnava o espírito do cavaleiro, pois, ao não casar, dedica toda a sua vida à guerra santa ou justa. Eram os mais temidos pelos muçulmanos pois eram mártires da causa; de facto, quando os muçulmanos aprisionavam um templário não se contentavam em matá-lo como faziam com qualquer cruzado, mas torturavam-no durante muito tempo antes de o matar.

Os Templários cresceram em poder e em riqueza e chegaram a ter em França mais terras, mais poder e riqueza que o próprio rei de França, pelo que este, juntamente com o Papa, combinou a sua dissolução. Antes que isto acontecesse, a armada dos templários zarpou de França e diz-se que veio para Portugal, onde o rei D. Dinis, numa atitude inteligente, em vez de dissolver uma Ordem poderosa em Portugal desde D. Afonso Henriques, mudou-lhe o nome para cavaleiros da Ordem de Cristo. Os Descobrimentos portugueses foram feitos pelos templários, financiados pelos judeus. De facto, as caravelas portuguesas levavam nas suas velas a cruz quadrada dos templários.

Eclesia mater ed magistra
“Em terra de cego quem tem um olho é rei” diz o povo; a Igreja tornou-se uma instituição poderosa e influente não apenas na religião, mas também na sociedade medieval. Os povos germânicos não estavam minimamente interessados na cultura, não sabiam ler nem escrever, mas sabiam que a formação e a informação representam poder, por isso reconheciam na Igreja não só um poder religioso, como também cultural, como herdeira da cultura greco-romana. Consequentemente, era respeitada, apesar de, como mais tarde Hitler afirmou, não ter exércitos para submeter os povos.

O poder da Igreja era só espiritual. No entanto, como o ser humano é um ser espiritual, quando submetes a alma de uma pessoa, submetes o seu corpo uma vez que o corpo obedece aos ditames da alma. Podemos ver uma imagem dessa submissão no seguinte episódio que é iconográfico e representativo da Idade Média e das relações entre a Igreja e os povos germânicos:

quando o feroz chefe e rei dos hunos estava para invadir e saquear Roma, cobiçada por todas as tribos germânicas, o papa S. Leão Magno saiu ao seu encontro e, por meios pacíficos certamente, conseguiu dissuadi-lo desta invasão.

Os reinos germânicos adaptaram os seus costumes aos dos romanos. A Igreja aliou-se aos reis e tornou-se na grande ponte entre o mundo germânico e o mundo romano. Os povos bárbaros abandonaram as suas antigas práticas religiosas e aderiram ao cristianismo. A fé cristã expandiu-se pela Europa ocidental, reforçando o poder do Papa. Foi no Império Carolíngio, no século VII, que a Igreja conseguiu consolidar o seu domínio, continuando depois no Sacrossanto Império Romano Germânico.

Nos séculos IV e V, com uma pregação intensa e geral, em pouco tempo a Igreja converteu ao cristianismo os povos conquistadores do Império Romano. Numa época de guerras, desagregação e fragmentação do poder, como foi o feudalismo, a religião era o único fator de união entre os povos. Era também a única instituição do mundo antigo capaz de fazer frente à hegemonia dos novos dominadores bárbaros.

Era a Igreja que garantia a paz e defendia os povos dos excessos dos invasores bárbaros, opondo-se às injustiças, não pela força das armas que não as tinha, mas pela força da razão, da decência e da ética. Os bárbaros respeitavam a Igreja pelo ascendente que esta tinha perante o povo e por ser a herdeira do grande Império Romano que, de facto, ainda existia no oriente. Com a subjugação das populações nas zonas mais rurais, o único poder era o do bispo; por outro lado, a nível de Roma, o Papa era o único representante do ocidente romano. Desta forma, a Igreja tornou-se num poder político e, como tal, também cometeu alguns erros.

Monaquismo
Os monges e os frades eram os cavaleiros espirituais da Idade Média. A cultura da Idade Média estava concentrada nos mosteiros. A produção da Antiguidade Clássica foi guardada e os monges copistas tinham a missão de copiar os textos antigos para que não se perdessem com o tempo. O acesso às bibliotecas dos mosteiros era restrito e o trabalho era manual.

Na Europa da alta Idade Média, dividida em tantos reinos instáveis, a Igreja era a única instituição forte e eficiente, instruída, rica e presente em todo o lado. Nas cidades, o bispo era frequentemente a única autoridade existente. No mundo rural, afirma-se a presença dos mosteiros com a regra Beneditina de “Orat ed labora”: o monge não deve apenas rezar, mas também trabalhar para se sustentar a si mesmo e a quem necessita.

Em toda Europa, nasceram mosteiros beneditinos e cistercienses que se transformaram em centros económicos e que, através da agricultura e da criação de animais, produziam alimento para as populações.

Estes mosteiros foram oásis de cultura e celeiros da mesma, pois era aqui que se copiavam os antigos textos latinos e gregos. Sem estas cópias, estes textos ter-se-iam perdido. A invasão bárbara do império romano parece ter feito a cultura andar para trás, mas a Igreja preservou essa cultura, pois era a única herdeira das últimas civilizações ilustradas: a da Grécia e a de Roma.

Os americanos chamam a esta idade a Idade das Trevas e de alguma forma o foi. No entanto, custa a acreditar que precisamente nesta época se tenham construído os edifícios mais belos que o mundo já construiu: as catedrais góticas. Cada pedra foi talhada para ocupar um lugar exato, sem cimento e sem ferro, arcos, colunas, ogivas, abóbadas, um conjunto harmonioso e elegante, iluminado pelos vitrais multicolores, um autêntico céu na terra.

A catedral gótica como ex libris da cosmovisão medieval
Foram necessários os templos gregos e as basílicas romanas para que houvesse catedrais góticas; no entanto, qualquer que seja a dívida dos arquitetos medievais para com seus predecessores, a verdade é que os superaram mil vezes. A catedral gótica representa um avanço exponencial em relação à arquitetura grega e romana.

A vertiginosa verticalidade de tais edificações revela plenamente as transformações do gosto, do pensamento filosófico escolástico, dos ideais estéticos, traduzidas, para o plano arquitetónico, por uma renovação das técnicas mediante a introdução de uma série de elementos originais típicos do estilo gótico: a abóbada sustentada por uma cruzaria ogival, a utilização do arco quebrado em vez do arco de volta inteira, ou arco românico, o emprego do arcobotante e dos contrafortes para sustentar o teto de pedra formado por um conjunto de abóbadas.

É a cosmovisão cristã que explica a unidade de espírito que caracterizou a civilização medieval, e daí a razão de existir uma íntima relação entre a escolástica e as catedrais góticas, uma vez que a plena aceitação da conceção católica da vida gerou, não somente um autêntico e inconfundível estilo de vida, como também uma filosofia e um estilo arquitetónico próprios.

Como indicam as teses de S. Tomás de Aquino, fundador da filosofia escolástica, a Deus chega-se não só pela fé, mas também pela razão, ou seja, por um esforço do pensamento complexo mas requintado, rigidamente formal mas rico de subtilezas. Esses mesmos conceitos inspiraram na arquitetura as catedrais góticas, a sua ascensão para Deus, através de construções complexas, mas requintadas, formalmente rigorosas, mas de igual modo ricas de pormenores. Deste modo, pode afirmar-se que o pensamento escolástico se vê perfeitamente expresso na arquitetura das catedrais góticas.

Conclusão: É certo que a constante instabilidade interna provocada pelas invasões bárbaras e pelo fim da Pax Romana, assim como a instabilidade externa causada pela constante ameaça dos vikings a norte e dos muçulmanos a oriente, sul e ocidente, fizeram a Europa mergulhar num limbo de paralisia e retrocesso cultural. No entanto, também foi esta Idade que produziu um alto paradigma de humanidade no ideal de cavalaria, e na catedral gótica com o exponente mais lato da arquitetura mundial.

Pe. Jorge Amaro, IMC






1 de outubro de 2024

Cosmovisão dos Bárbaros

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Para os Gregos, os povos ao norte das suas fronteiras, falavam uma língua que os gregos não entendiam. Para eles balbuciavam algo como um bar-bar, o que deu origem à palavra bárbaro, que passou a designar o estrangeiro. Mais tarde, para os romanos, o termo latino barbarus, era aplicado aos povos estrangeiros que não falavam latim e não seguiam as leis romanas e também não participavam da sua civilização.

Os bárbaros que conquistaram o Império Romano do Ocidente eram tribos germânicas que nunca criaram cultura ou civilização nem estiveram sequer interessados em criá-la. Falamos dos hunos, dos vândalos, de onde vem a palavra vandalismo, dos godos, dos francos, dos lombardos e dos saxões e, mais tarde, já em plena Idade Média, dos vikings. Apelidar estes povos de bárbaros pode parecer depreciativo, mas estes povos eram de facto bárbaros, com uma cultura bem primitiva comparada à greco-romana, poucos valores humanos, dedicavam-se a destruir, matar, roubar, pilhar e violar.

Como ainda não conheciam a escrita, embora ela já existisse há muito tempo, viviam ainda na pré-história, por altura da Idade do Ferro, sendo o ferro o elemento mais importante para as suas guerras. De resto, o seu desenvolvimento cultural ou civilizacional tinha um atraso de mais de 2 000 anos em relação à cultura greco-romana.

A Grécia podia ter considerado a invasão romana como sendo uma invasão bárbara, uma vez que já possuía uma cultura em geral muito mais desenvolvida que a romana, embora os romanos fossem melhores em coisas como a administração do Estado, o Direito e a Arquitetura. A invasão romana da Grécia não foi tida como uma invasão bárbara pelos gregos porque os romanos, apesar de poderosos, eram também mais humildes que os gregos ao não imporem a sua cultura, nem a sua religião nem a sua língua como os gregos tinham feito aos povos dominados.

Os romanos aceitavam a cultura dos outros, respeitavam e eram tolerantes com os seus usos e costumes, e às vezes deixavam, como no caso da Galileia, que fossem governados pelos seus próprios reis, desde que pagassem tributo a Roma. De facto, Roma só fez valer a sua cultura nos povos que a não tinham, ou seja, em todo o Ocidente. Por isso no Ocidente se falam hoje línguas neolatinas; o português, o espanhol, o italiano, o francês, o romeno e 50% da língua inglesa.

No Oriente prevaleceu o grego que foi mais tarde a língua do Império de Bizâncio, o Império Romano do Oriente que durou bastante mais tempo, sendo suplantado por um império político-religioso, o Império Otomano que só acabou depois da I Guerra Mundial.

Com a queda do Império Romano, o mundo ocidental mergulhou naquilo a que os historiadores ingleses chamam a Idade das Trevas. Em relação à Idade Antiga, a Idade Média representou um retrocesso a todos os níveis. Os bárbaros que conquistaram o Império só estavam interessados nas suas riquezas, não em construir uma cultura ou uma civilização. A cultura teve de refugiar-se e esconder-se nos mosteiros, onde foi preservada uma versão cristã do mundo antigo. A Idade Média pode ser vista como um longo período em que a Igreja pacientemente foi educando estes bárbaros que detinham o poder político, com a cultura greco-romana que tinha herdado.

Causas da queda do Império Romano
Dado que o Império tinha crescido desmesuradamente, era imenso e difícil de governar. No século III, o Imperador Diocleciano dividiu-o em dois, entre Ocidente com a capital em Roma e Oriente com capital em Constantinopla ou Bizâncio. A curto prazo esta parecia ser uma boa medida para melhor governar um império tão vasto. No entanto, com o tempo, as partes começaram a divergir; no Ocidente falava-se apenas o latim, no Oriente falava-se apenas o grego. Sem inimigos, o Oriente cresceu em poder e riqueza, enquanto que o Ocidente foi definhando pouco a pouco, tanto a nível económico como militar.

Uma das principais causas da queda do Império Romano do Ocidente foi a invasão dos bárbaros, protagonizada pelos povos germânicos que habitavam a região a leste das fronteiras do Império. Entre outras causas contam-se também a decadência da economia baseada nos escravos que trabalhavam a terra e eram artesãos, a desestruturação militar assim como o gasto militar em guerras fronteiriças que nunca terminavam.

O processo de entrada dos povos germânicos no Império Romano ocorreu inicialmente de forma gradual. A nordeste da Península Itálica, as fronteiras do Império Romano tinham como limite os rios Danúbio e Reno. Os povos e tribos que habitavam para além desses rios eram considerados pelos romanos como germanos.

Desde o tempo de César que os romanos tinham conhecimento da existência desses povos. Estavam organizados em clãs, não possuíam uma instituição estatal como a romana, e as suas leis eram baseadas na tradição, transmitida oralmente, pois não conheciam a escrita. Dedicavam-se à agricultura e ao pastoreio. Pelo clima frio em que viviam eram destemidos e aguerridos. Eram povos guerreiros, o que lhes valeu a fama de serem violentos e cruéis.

Ao princípio no espírito da famosa Pax Romana, os romanos estabeleceram pactos com estas tribos; como dissemos anteriormente, os romanos só estavam interessados no pagamento do tributo a Roma e, quando os povos dominados o faziam, era-lhes concedido um elevado grau de autonomia. Porém, com o enfraquecimento do poder central, estes povos foram adquirindo cada vez mais autonomia e independência, constituindo-se em autênticos reinos que a enfraquecida Roma já não tinha poder para enfrentar.

Por volta do ano 300 d.C., grupos bárbaros como os godos invadiram as fronteiras do Império. Os romanos resistiram a uma revolta germânica no final do século IV, mas em 410 o Rei visigodo Alarico saqueou com sucesso a cidade de Roma. O Império passou as décadas seguintes sob ameaça constante, antes de "a Cidade Eterna" ser invadida novamente em 455, desta vez pelos vândalos.

Finalmente, em 476, o líder germânico Odoacer encenou uma revolta e depôs o Imperador Romulus Augustulus. A partir daí, nenhum imperador romano voltaria a governar a partir de um posto na Itália, levando muitos a citar 476 como o ano em que o Império Ocidental sofreu o seu golpe mortal.

Origem das tribos germânicas
Os povos germânicos são originários das planícies da Dinamarca e do sul da Escandinávia. Existem vestígios de assentamentos humanos nesta zona que datam do Neolítico, quando o homem começou a controlar a Natureza, domesticando a terra e as plantas assim como algumas espécies de animais para o seu sustento.

Quando falamos de tribos germânicas, falamos de muitas tribos das quais as mais importantes são os hunos, os vândalos, os godos, os visigodos e os ostrogodos, os francos, os lombardos, os saxões e os anglo-saxões.

Os vikings eram também fundamentalmente uma tribo germânica que habitava mais a norte, na Escandinávia e que assolou a Europa como piratas durante a Idade Média, quando as tribos germânicas já estavam estabelecidas, formando os primeiros Reinos depois da queda do Império Romano.

Como a população germânica crescia e o Império enfraquecia, os povos germânicos começaram a emigrar em todas as direções, mas mais para o sul e oeste, em busca de melhores terras pois as suas já não chegavam. Ostrogodos, visigodos e lombardos entraram em Itália; vândalos, e francos e visigodos conquistaram grande parte da Gália e dos celtas que ali habitavam, vândalos, suevos e visigodos invadiram a Península Ibérica. Destes, os vândalos chegaram a estabelecer-se no norte de África, em Cartago e os alanos estabeleceram-se no Reno e nos Alpes.

Na Grã-Bretanha, os saxões uniram-se aos anglos e a outras tribos locais, formando os anglo-saxões que dominaram a Inglaterra até à conquista dos normandos, já na Idade Média. No resto das ilhas, Escócia, País de Gales e Irlanda continuaram a ser maioritariamente celtas. Os celtas não eram uma tribo germânica. Tinham cultura própria e habitavam a Europa Central. Eram os famosos habitantes da Gália, os gauleses conquistados por Júlio César. Também tinham invadido a Península Ibérica antes dos romanos, unindo-se aos primeiros povos que a tinham invadido, os iberos, provenientes do norte de África.

Cultura e organização das tribos germânicas
A sociedade germânica primitiva caracterizava-se por um rigoroso código de ética, que valorizava sobretudo a confiança, a lealdade e a coragem. Adquirir honra, fama e reconhecimento era uma ambição primordial. A independência, a autonomia e a individualidade eram valores muito enfatizados.

É provavelmente esta a razão pela qual os povos germânicos nunca constituíram um grande império ou mesmo um Estado germânico unificado. O ambiente em que os povos germânicos emergiram, nomeadamente a sua ligação à floresta e ao mar, desempenhou um papel importante na formação destes valores. A literatura oral germânica está cheia de desprezo por personagens que não conseguiram viver os ideais germânicos.

Na língua germânica, ger-man significa o homem da lança. Para os povos germânicos, a perda da lança ou do escudo era o equivalente à perda da honra. Os germânicos eram guerreiros por natureza, nasciam na guerra e para a guerra; desde pequenos, eram treinados na arte da guerra tal como os espartanos. A lealdade e devoção ao clã a que pertenciam e, por este, à tribo e ao seu líder, era um dos valores mais altos do germânico; este sentido de união conseguiu-lhes muitas vitórias.

A realeza é, portanto, um elemento fundamental que une a sociedade germânica. Como aconteceu com outros povos, a sua origem como instituição é sagrada e, por isso, o rei combina as funções de líder militar, sumo sacerdote, legislador e juiz.

A monarquia germânica era, em parte, eletiva; o rei era eleito pelos homens livres de entre candidatos elegíveis de uma família que pudesse traçar a sua ascendência até ao fundador divino ou semidivino da tribo. Embora a sociedade germânica fosse altamente estratificada entre líderes, homens livres e escravos, a sua cultura também enfatizava a igualdade. Ocasionalmente, os homens livres da tribo chegavam a anular as decisões dos seus próprios líderes.

Por influência do Império Romano, o poder dos reis germânicos sobre o seu próprio povo aumentou ao longo dos séculos, em parte porque as migrações em massa do tempo exigiam uma liderança mais severa.

Literatura
Como os germanos não conheceram a escrita antes do seu encontro com a cultura romana, a literatura germânica passava oralmente de geração em geração. O seu conteúdo estava ligado ao seu objetivo principal que era honrar os deuses ou louvar os antepassados tribais, chefes, guerreiros e seus associados, esposas e outros familiares.

Religião
Segundo o escritor romano Tácito, os povos germânicos adoravam principalmente "Mercúrio", mas também "Hércules" e "Marte". Estes eram geralmente identificados com Odin, Thor e Týr, os deuses da sabedoria, trovão e guerra, respetivamente. Também veneravam as deusas Nerthus e Freya.

As descobertas arqueológicas sugerem que os primeiros povos germânicos praticavam alguns dos mesmos rituais “espirituais” que os celtas, incluindo o sacrifício humano, a adivinhação e a crença na conexão espiritual com o ambiente natural que os rodeava. Como os romanos, havia uma diferença entre o culto doméstico e o culto da comunidade; em casa, o pai de família desempenhava o papel de sacerdote.

As cerimónias religiosas eram executadas em bosques, lagos e ilhas considerados sagrados, e não em templos; os povos germânicos não construíram templos para realizar os seus ritos religiosos. Para os sacrifícios oferecidos aos deuses, todo o tipo de gado era abatido, e até mesmo pessoas, sendo o sangue aspergido sobre o povo que depois fazia brindes aos deuses e comia a carne. As vítimas, tanto humanas como animais eram penduradas nas árvores. Uma das árvores do bosque seria a mais sagrada entre todas as outras e por baixo dela estaria um poço no qual um homem vivo seria sepultado.

Não se conhece nenhuma conceção comum a todas as tribos germânicas sobre a vida após a morte. Alguns acreditavam que os guerreiros heróis caídos iriam para Valhalla para viver felizes com Odin, enquanto que os maus poderiam perseguir os vivos depois de mortos; se isso acontecesse, teriam de ser mortos mais de uma vez para deixarem de perseguir os vivos. Provavelmente foi aqui que a série “Guerra dos Tronos” se inspirou para criar os “Walkers”, mortos-vivos que tinham de ser mortos pelo fogo para permanecerem mortos.

Depois da conquista do Império Romano, os povos germânicos foram-se paulatinamente convertendo ao cristianismo em diferentes períodos: os godos no século IV, os saxões nos séculos VI e VII, por pressão dos francos já convertidos; os dinamarqueses, sob pressão alemã, no decorrer do século X. O paganismo aguentou-se por mais tempo nas terras mais a norte, Islândia, Noruega e Suécia.

Conclusão: Apesar de levarem um atraso significativo de mais de 2000 anos em relação ao desenvolvimento cultural e à civilização greco-romana, os povos germânicos contribuíram para a Europa medieval com os seus valores de autonomia, independência e liberdade, fundamentados no princípio de que todos somos iguais em dignidade.

Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de setembro de 2024

Cosmovisão Muçulmana

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Cosmovisão rival com a vocação implícita, explícita e até histórica (pelas tentativas) de conquistar o mundo, suplantar o cristianismo e impor a sua forma de ver a vida e o mundo, a sua cosmovisão. Esta vocação ainda não a perdeu, sendo este o objetivo principal da jihad de hoje, do terrorismo, da imigração invasora e do crescimento demográfico de muçulmanos nos países ocidentais.

Como aconteceu na Idade Média, quando uma cultura inferior, mais agressiva e violenta, se impôs a uma cultura superior, seguindo-se um tempo de trevas e ignorância, o mesmo poderia acontecer no Ocidente. A história pode repetir-se e as mudanças sociais não são sempre progresso e melhoria.

Inconsistências teológicas da narrativa do Corão
Do ponto de vista teórico ou teológico, o cristianismo que nasceu na cultura ocidental tem sido ao longo dos séculos exposto à crítica, ao refinamento e purificação pela cultura racional ocidental. O mesmo não acontece com a narrativa muçulmana que, apesar de pretender ser histórica, continua envolta no mito e vive de uma fé muito pouco razoável, plausível ou humanamente credível, como, por exemplo, que o Corão foi ditado por Deus ao profeta Maomé que escreveu tim tim por tim o que Deus lhe ditou. Eis outras inconsistências:

Maomé, o último profeta, Jesus o filho de Deus
O Islão aceita como válida a tradição religiosa judaica descrita no Antigo Testamento que eles consideram também seu. Maomé é, portanto, o último dos profetas que Deus enviou ao mundo, sendo o penúltimo Jesus.

Se a humanidade viver mais 10 000 ou 20 000 anos, que sentido faz que o último tenha vindo no ano 524? Mais mudanças sofreu o mundo e a humanidade desde o ano 524 que em todos os milhões de anos anteriores; por que motivo então antes desta data os profetas se sucediam uns aos outros com frequência e depois do ano 524 deixaram de ser precisos?

Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por meio de quem fez o mundo. Hebreus 1, 1-2

No caso do cristianismo, mesmo que a humanidade viva até ao ano 20 000, faz sentido que a revelação tenha acontecido no ano zero. Como explica o autor da carta aos Hebreus, o enviado não é um profeta mais, mas sim o próprio Deus que vem viver entre nós.

Há aqui um salto qualitativo; os profetas trazem mensagens para um tempo, a palavra de Deus é eterna para todos os tempos e lugares porque Deus não precisa de falar duas vezes. Por outro lado, Cristo não é só uma palavra proferida, é uma palavra vivida e só se vive uma vez.

Em que sentido é o último profeta? É porque o Islão tem uma doutrina mais refinada e, num caminho ascendente, já chegámos ao topo? Mas o topo até parece o cristianismo, com o amor aos inimigos. O Islão, na sua prática e doutrina, até se assemelha mais ao Antigo Testamento que ao Novo, quando pensamos que ainda hoje se apedrejam mulheres e Cristo foi contra isso já nos seus dias.

Deus é uno e trino, é comunidade
O Islão herdou o monoteísmo simples dos hebreus. Por isso, tanto judeus como muçulmanos não têm forma de fundamentar teologicamente que o homem é feito à imagem e semelhança de Deus. Se Deus é amor e o amor que não sai fora de si mesmo é egocentrismo, Deus é mais que um; Deus é uma família, Pai, Filho e Espírito Santo e nela encontramos o modelo da família humana: pai, mãe e filho(a).

Deus é uno e trino, tal como uma família humana é chamada a ser uma unidade de três pessoas onde a existência de uma só não é possível sem a existência das outras duas; um homem não é pai sem ter uma mulher e um filho(a); uma mulher não é mãe sem ter um filho(a) e um marido; e um filho(a) não existe por si mesmo sem ter um pai e uma mãe.

Como Cristo é o modelo para a vida humana individual, a Santíssima Trindade é o modelo para a vida humana social; um modelo de paz, harmonia e amor. O Judaísmo e o Islão carecem de modelos, de pontos de referência teológicos para a vida em família e em sociedade, concebendo a Deus como um grande solitário.

O profeta Isa (Jesus) filho de Maria sempre virgem
Com um capítulo inteiro (sutra) dedicado só a ela, a Virgem Maria é a única mulher indicada com o seu próprio nome no livro do Alcorão; de todas as outras se fala em relação a um varão; por exemplo, não há referências a Sara, mas sim à mulher de Abraão. Sobre a virgindade de Maria, o Alcorão afirma claramente que está em pecado aquele que não acredita nela ou a põe em causa.

Segundo as duas tradições, tanto a cristã como a muçulmana, tanto Maria como o profeta Maomé recebem a visita do Arcanjo Gabriel que a ambos sopra a Palavra. A Palavra em Maomé tornou-se num livro, o Alcorão, em Maria, num homem, Jesus de Nazaré. Pelo que, dizem alguns estudiosos do Islão, Jesus ou o profeta Isa como é chamado no Islão, é o Alcorão em forma de homem e o Alcorão é Jesus em forma de livro.

Face a estes factos, vejamos outra inconsistência na religião muçulmana; se para a fé muçulmana, como para nós, Maria, a mãe de Jesus é virgem, quem é o pai de Jesus? É óbvio que não pode ser José, o carpinteiro, pois se fosse, Maria não poderia ter permanecido virgem.

E se José não é o pai de Jesus e Maria permanece virgem depois de conceber, então a conceção não pode ter sido natural e o pai não pode ter sido humano; se não é obra humana, só pode ser obra de Deus e, se é obra de Deus, então Deus tem um filho e não é como o Judaísmo o concebe, um Deus solitário, mas sim como o concebe o cristianismo e como nos foi revelado por Jesus Cristo, um Deus de amor, família, comunidade.

Quem não deve não teme
Nunca somos tão violentos como quando lutamos pela nossa sobrevivência. Enquanto a religião cristã, posta em causa pela revolução francesa, pela idade da razão, pelo iluminismo e, ultimamente, pelas filosofias ateias sobreviveu, a religião muçulmana opõe-se a todo o pensamento crítico interno e externo e ameaça de morte quem o faça.

“Quem não deve não teme”, esta agressividade mais não é que uma forma de esconder as graves deficiências do ponto de vista filosófico, histórico e teológico. Alimentada pelo petróleo e pelo ódio contra o Ocidente, a expansão muçulmana é como um gigante com pés de barro: no dia em que as deficiências vierem à luz da razão, talvez não fique pedra sobre pedra.

Segundo Carl Jung, o fanatismo é uma forma de sufocar uma dúvida interior. Assim explicava Jung o fanatismo de S. Paulo contra os cristãos antes da sua conversão. A dúvida de S. Paulo era entre a segurança que dá a lei, uma falsa segurança e a liberdade da graça que S. Estêvão oferecia.

É claro, até pela forma como tratam as mulheres como seres humanos de segunda categoria, que a religião muçulmana estava bem para a Idade Média, mas não para o mundo de hoje. Como a forma de pensar de hoje se infiltra de muitas formas, mesmo nos países muçulmanos, pela TV, pela Internet, eles sentem-se intimidados e temem perder fiéis, temem que a sua religião não aguente o embate da razão, como o cristianismo aguentou reformulando-se.

Islão e violência
Há dois conceitos que foram talvez mal interpretados, ou interpretados de forma a satisfazer, justificar e abençoar a sede de poder de alguns. O certo é que foi esta “má interpretação” dos conceitos que escreveu História e fez correr muito sangue. Refiro-me ao conceito de JIHAD, que significa esforço, luta, guerra santa, e o conceito de ISLÃO que significa submeter-se à vontade de Deus.

Como dizem os estudiosos, a JIHAD refere-se à luta que todo o ser humano deve travar dentro de si mesmo contra o mal. O caso é que, historicamente, a luta interior que devia permanecer interior, tornou-se numa luta exterior; na prática, essa luta traduziu-se e ainda atualmente se traduz na luta contra os que o Islão considera infiéis, declarando-lhes uma guerra que se justifica por si mesma porque é santa, por ser por uma boa causa. Nesta altura, não tinham ainda entendido que “Os fins não justificam os meios”.

O cristianismo tem também a sua versão de guerra santa, as cruzadas. A primeira cruzada nasceu como resposta ao pedido do Imperador cristão do Oriente, Aléxis I, para o ajudarem a reconquistar a cidade santa de Jerusalém e libertar os cristãos orientais do domínio muçulmano. No entanto, rapidamente se transformou numa forma de travar o avanço dos muçulmanos que ameaçavam acabar com o mundo cristão. Começou por ser um direito à autodefesa que rapidamente se transformou em agressão, conquista e massacre em nome de Cristo.

Islão significa submeter-se a Deus; a base da religião muçulmana reside nesta submissão simbolicamente representada pela postura física que os muçulmanos adotam quando rezam. Era este o propósito da Jihad, o esforço, a luta para submeter toda a personalidade de cada pessoa a Deus; aliás, é mesmo isso que significa adorar a Deus, submeter-se à sua vontade. Os cristãos fazem-no por gosto, não por dever, porque o seu Mestre lhes diz “já não vos chamo servos, mas amigos” … (João 15, 15)

Enquanto a religião não passou da esfera pessoal, enquanto se manteve reflexiva e intransitiva tudo correu bem e sem problemas; mas não é desta submissão que reza a história. Submeter-se a Deus rapidamente se transformou em submeter os outros a Deus. Por isso, tal como o judaísmo chama gentio a todo o que não é judeu, o Islão chama infiel a todo aquele que não é muçulmano.

Ao contrário do cristianismo que nasceu num mundo adverso dominado pelos romanos e durante 5 séculos foi uma religião clandestina e perseguida que se propagava pelo exemplo de vida e pela pregação, o Islão nasceu numa conquista bélica de Meca e na submissão dos cristãos e politeístas que ali havia à nova fé.

Ressentimento contra o mundo ocidental cristão
Com a vitória dos cristãos contra os muçulmanos na batalha de Lepanto, em 1571, a cultura e civilização cristãs acabaram de uma vez por todas com a constante ameaça do Islão e cresceram até serem o que são hoje, ao passo que a civilização muçulmana, cujo auge tinha sido Averróis e Avicena, estagnou numa mentalidade medieval.

O mundo muçulmano ainda não recuperou do ressentimento e ódio que essa derrota causou; e do sucesso da civilização ocidental que se sobrepôs ao reto do mundo. Este ódio motiva as ações da Al Qaeda, Estado islâmico e outras organizações, em especial contra os Estados Unidos, que representam o mundo ocidental.

Atualmente não há nenhum país tradicionalmente cristão que persiga muçulmanos só pelo facto de o serem, enquanto nos países tradicionalmente muçulmanos os cristãos são sistematicamente perseguidos: Egito, Paquistão, Irão, Iraque, Indonésia…

Os muçulmanos no Ocidente estão amparados pela democracia e o direito à liberdade religiosa; os cristãos no mundo árabe não têm direitos, estão à mercê do fanatismo. Os muçulmanos no Ocidente podem construir as suas mesquitas, os cristãos no mundo árabe não têm direito a construir igrejas nem a reparar as que existem há seculos e, na Arábia Saudita, os cristãos não podem sequer usar um crucifixo ao pescoço.

Diferenças na vivência de valores
Como já dissemos, a cosmovisão muçulmana é fundamentalmente uma reedição do judaísmo do Antigo Testamento para árabes.

Unidade - Ou união é um valor humano tanto para muçulmanos como para cristãos, porém enquanto que os cristãos advogam a unidade na diversidade, desde Jesus que escolheu um grupo de pessoas tão diferentes que até eram inimigas, para os muçulmanos união é uniformidade, unicidade, não aceitam nem toleram a diferença.

Tempo - Em relação ao tempo, os cristãos estão mais orientados para o futuro, os muçulmanos ficaram parados no passado. Agarrados às suas tradições que lhes dão identidade e segurança, temem o futuro e a mudança. Mudança no Ocidente é progresso, no mundo muçulmano é perda de identidade, insegurança.

Família – Ao contrário do que acontece no Ocidente, a família alargada tem mais importância que o núcleo familiar de pai, mãe e filhos. E há mais solidariedade entres os membros de uma família. Com a submissão da esposa ao marido, a taxa de divórcios é baixa. O Ocidente é mais individualista e livre, pelo que a família nuclear é a única que conta.

Paz – É a saudação dos judeus e dos muçulmanos, significa não só a ausência de conflito como no Ocidente, mas também sucesso, prosperidade e felicidade.

A honra – É um valor muito importante no Islão; a desonra é a pior tragédia que pode acontecer numa família. O Ocidente valoriza a honra de igual forma, mas só a aplica individualmente, ou seja, os membros da família não pagam pelos desacatos de um deles.

Estatuto – Nos muçulmanos é atribuído ou herdado. No Ocidente nem é herdado nem é atribuído, mas sim conquistado a pulso pelo próprio mérito.

Individualismo – O muçulmano não valoriza a independência, a liberdade, a autonomia, mas mais a interdependência e o sentido social e comunitário da vida. Por isso, suportam mais facilmente as ditaduras dos seus países. A conformidade e a obediência são valores mais importantes.

Secularismo – Nos países muçulmanos o Césaro-papismo é ainda aceite. A religião mete-se na política e vice-versa. A religião nos países ocidentais é matéria privada, não transparece na vida pública desde Jesus que disse “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, existe uma divisão nítida entre os dois poderes.

Conclusão: Parado no tempo, o mundo muçulmano parece que ficou preso no passado, olha para o presente e para o futuro com ansiedade; resiste à mudança e ao progresso, pois teme que lhe roubem a paz interior, a segurança e a identidade. 

Pe. Jorge Amaro, IMC








1 de setembro de 2024

Cosmovisão Cristã

Sem comentários:


O poder divino deu-nos tudo o que contribui para a vida e a piedade, fazendo-nos conhecer aquele que nos chamou por sua glória e sua virtude
. 2 São Pedro 1, 3

O cristianismo, como herdeiro do judaísmo, assumiu, assimilou e implementou tudo o que de bom os judeus trouxeram ao mundo. Jesus de Nazaré é fundamentalmente um judeu que veio, não abolir o judaísmo e as suas leis (Mateus 5,17), mas sim purificá-lo; o importante não é a letra da lei e o seu cumprimento formal, mas o espírito da lei e a sua vivência na vida real.

Como Jesus se apresentou ao Homem como o único modelo de humanidade, medida de referência, paradigma, único caminho, única verdade e única forma de viver a vida, (João 14, 6), ser cristão e ser autêntica e genuinamente humano são uma e a mesma coisa. Não há uma moral cristã e uma moral ou ética humana, porque Cristo é o único padrão de referência para nos medirmos e avaliarmos até que ponto somos humanos.

Para além de um programa de salvação individual, caminho, verdade e vida para a saúde mental, espiritual, moral e física do ser humano de acordo com a sua natureza, Cristo apresentou também um programa de salvação da sociedade, do ser humano enquanto ser social: o Reino de Deus que é, como diz São Paulo (Romanos 14.17), justiça e paz.

A cosmovisão cristã é enxergar o mundo, é ver e entender o mundo com os olhos de Cristo, a partir da sua perspetiva, da sua ótica. Partindo desta perspetiva, a cosmovisão tem que ver também com a forma como atuamos com o mundo e no mundo, o lugar que nele ocupamos. Enquanto a cosmovisão materialista responde com NADA à pergunta sobre a nossa origem, o nosso destino e o sentido da nossa vida, a cosmovisão cristã responde a estas mesmas perguntas da seguinte forma:

De onde vimos? – Vimos de Deus, criador do Universo, de tudo e de todos, do tempo, do espaço e da matéria ou energia. Tudo fez bem feito e criou por amor. A nós, humanos, criou-nos à sua imagem e semelhança. Ou seja, para além de sermos, como tudo o resto, seres espácio-temporais que ocupam um espaço durante um tempo, ao contrário das outras criaturas, temos em nós uma semente de eternidade, uma vertente espiritual que está em nós para que a façamos crescer, para entrarmos na eternidade com Deus.

Para onde vamos? – Vamos para Deus que sustém a nossa vida para além da morte, pelo que esta não é o nosso destino final, mas uma passagem para a eternidade. Como o nascimento foi uma passagem do seio da nossa mãe para o seio do mundo, a morte será o nascimento para o Céu, ou seja, a passagem do seio deste mundo para o Seio de Deus, o regresso à casa Paterna parafraseando a parábola do filho pródigo, ou o fim da nossa peregrinação.

Que sentido tem a vida? – “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (João 10, 10). O sentido, o objetivo da nossa vida é dar glória a Deus. Dar glória a Deus que nos criou é a melhor forma de usarmos os talentos recebidos e de nos autorrealizarmos, atingindo a felicidade que é a vida em abundância que Deus quer para nós.

Fomos tirados do nada para fazermos alguma coisa com as nossas vidas, para que, usando o nosso corpo físico, recursos, matérias e talentos de que dispomos, como andaimes do corpo espiritual, façamos germinar a tal semente de eternidade que está em nós.

Todo o bem material pode ser espiritualizado no alambique da nossa vida, tal como de toda a fruta ou vegetal se pode destilar álcool ou extrair um perfume de flores que sobe a Deus. Criados do nada à imagem e semelhança de Deus, está em nós fazer alguma coisa com a nossa vida, ou voltar ao nada que seria a morte eterna.

Vivendo como Cristo e medindo-nos constantemente em relação a Ele, como modelo e paradigma de humanidade para a humanidade, adquirimos a filiação divina, transformamo-nos em filhos adotivos de Deus, segundo o direito romano com os mesmos direitos que o Filho Unigénito de Deus, Cristo. (Romanos 8,14-16)

Por outro lado, como somos um ser não só individual e cultivador de liberdade, mas também um ser social cultivador de igualdade, lutamos como Cristo por um mundo melhor, de mais justiça, paz e fraternidade, buscamos alargar o reino de Deus, projeto que Cristo trouxe à Terra.

É nesta luta que nos realizamos individualmente, pelo que não há autorrealização individual sem dimensão social. Quem não é útil para os outros é um inútil para si mesmo. Quem não vive para servir não serve para viver, não serve para nada e o que não serve para nada é lixo.

O evangelho, a melhor narrativa humana de todos os tempos

O cristianismo no Novo Testamento, em especial nos evangelhos que relatam a vida, o talante e os ditos de Jesus de Nazaré, possui a narrativa mais fascinante de todos os tempos. A cosmovisão, a ética, a filosofia de vida, os direitos humanos, o que é verdadeiramente humano, está exposto no evangelho.

O cristianismo é uma religião histórica porque os evangelhos não são relatos mitológicos, como os livros sagrados de outras religiões. Os evangelhos falam de uma personagem histórica, Jesus de Nazaré, da sua vida, do seu comportamento em situações do dia a dia, dos seus milagres e curas, dos seus feitos e das suas pregações e ensinamentos.

Desde que foram escritos por quatro autores diferentes, têm sido objeto de estudo e pesquisa. Nunca nenhuma obra literária foi tão submetida à critica literária, histórica, hermenêutica, gramatical, minuciosamente palavra por palavra.

A parábola do Filho Pródigo talvez seja o conto mais pequeno e mais significativo que a humanidade criou. Inspirou poetas, pintores, músicos, a literatura e formatou a ideia universal do perdão incondicional. É difícil falar de perdão sem mencionar esta parábola.

A parábola do Bom Samaritano entrou na mente e no imaginário de todos os homens como sinónimo de solidariedade com o que sofre ou com o que pontualmente precisa da nossa ajuda. Samaritano hoje, mais que habitante de Samaria, significa pessoa empática que chora com quem chora e sofre com quem sofre.  

O evangelho é a magna carta da vida humana, o padrão de referência, o critério máximo de humanidade que serve de genuína e autêntica referência a cada indivíduo. Não há no mundo qualquer narrativa que supere os evangelhos em humanidade. Os evangelhos têm sido o texto inspirador da civilização ocidental, o farol que a ilumina.

A carta dos direitos humanos das Nações Unidas, que quase todos os países assinaram, está clarissimamente decalcada do evangelho. O cristianismo desempenhou um importante papel na extinção de práticas como o sacrifício humano, a escravidão, o infanticídio e a poligamia. De forma geral, afetou o estatuto das mulheres, condenando o infanticídio (bebés do sexo feminino tinham maior probabilidade de serem mortos), o divórcio, o incesto, a infidelidade, o controlo de natalidade, o aborto e defendendo o casamento e a família como célula da vida social.

O cristianismo é a religião mais praticada no planeta, mãe e mentora da civilização ocidental, que é a mais desenvolvida e mais estendida no mundo. Por isso, o cristianismo formatou não só a mente dos cristãos, mas também a mente de quase todos os seres humanos habitantes deste planeta, mesmo até de muitos que se recusam a reconhecê-l’O, como as sociedades muçulmanas.

As festas da Páscoa e do Natal são marcadas universalmente como feriados; o calendário gregoriano (do Papa Gregório XIII) foi adotado internacionalmente como o calendário civil; e o próprio tempo é medido pelo Ocidente a partir da data calculada do nascimento de Jesus de Nazaré: a AD (Anno Domini). Na lista das 100 pessoas mais influentes na história humana, 65% são figuras cristãs de diversas áreas.

Libertação das mulheres

O direito das minorias em relação às maiorias, o respeito pela orientação sexual de cada um, a libertação das mulheres, os valores próprios da civilização ocidental que a colocam na vanguarda dos direitos humanos, não se explicam sem o evangelho.

Jesus foi a pessoa mais feminista que o mundo conheceu; o único fundador de uma religião que nunca fez uma afirmação contra as mulheres, que as tratou como iguais aos varões, que teve discípulas - coisa nunca vista antes ou depois dele (ainda hoje os rabinos não têm discípulas). É certo que os seus discípulos seguiam a mentalidade patriarcal do mundo circundante mais que o comportamento do mestre. Porém, não podemos negar a importância do evangelho na conversão das mentes e dos corações para a igualdade de género, que começou na civilização ocidental e, pouco a pouco, vai sendo assumida pelas outras civilizações, sendo a muçulmana a mais reticente na matéria.

É certo que nem no Ocidente a mulher goza ainda de plena igualdade, mas é certamente no Ocidente cristão que a mulher goza de mais direitos. O que faz variar o grau de igualdade de género não é a riqueza ou pobreza; ou seja, não é necessariamente nos países mais ricos que a mulher é tratada de igual para igual. A Arábia Saudita é rica e, no entanto, as mulheres ali são tratadas como cidadãs de segunda classe. O fator determinante é a cultura, não a riqueza.

O Japão e as Filipinas são dois países asiáticos não muito distantes um do outro; o primeiro é bem mais rico que o segundo e, no entanto, há muito mais igualdade de género nas Filipinas que no Japão. Como países asiáticos que são, há elementos culturais que são comuns. A grande diferença é que as Filipinas são um país cristão desde há 500 anos, enquanto que no Japão o cristianismo nunca conseguiu penetrar de forma a influenciar a cultura. Os restaurantes onde a comida é servida no corpo nu de um adolescente não existem nas Filipinas e é de todo impensável que alguma vez possam existir.  

Consciência moral e objeção de consciência
Num dia de sábado, o Senhor caminhava pelos campos e seus discípulos, andando, começaram a colher espigas. Os fariseus observaram-lhe: “Vede! Por que fazem eles no sábado o que não é permitido?”. Jesus respondeu-lhes: “Nunca lestes o que fez Davi, quando se achou em necessidade e teve fome, ele e os seus companheiros?

Ele entrou na casa de Deus, sendo Abiatar príncipe dos sacerdotes, e comeu os pães da proposição, dos quais só aos sacerdotes era permitido comer, e os deu aos seus companheiros”. E dizia-lhes: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado; e, para dizer tudo, o Filho do Homem é senhor também do sábado. Marcos, 2, 22-28

Num dos seus discursos inflamados, com o intuito de guiar o povo alemão para a II Guerra Mundial, Hitler reconheceu que a consciência moral foi invenção judaica. A lei aplicada, sei epiqueia, transforma-se em injustiça, pelo que os antigos romanos diziam “sumum jus summa injuria”: uma coisa é ser justo, outra é ser justiceiro. A consciência moral como a objeção de consciência, são criações do cristianismo.

Sobre a nossa consciência moral não há nenhum poder, é na nossa consciência moral que somos livres, pessoas de direitos e deveres, de responsabilidade e de opções livres. Posso objetar em pegar em armas e ir para a guerra matar irmãos meus; posso objetar praticar um aborto ou auxiliar alguém a morrer. O Estado não pode obrigar-me a nada a que a minha consciência moral não me obrigue.

Outros valores mais altos se levantam, como diria Camões. A nossa consciência moral, bem formada e informada pelo evangelho, doutrina e tradição da Igreja, numa hierarquia de valores discerne em cada situação com a ajuda do Espírito Santo o que fazer ou não fazer. Se eu estiver a caminho de uma Igreja num domingo para participar na Eucaristia e alguém me pedir a ajuda urgente, eu devo deixar o valor da eucaristia para assistir o meu irmão.

O texto acima cita Jesus que diz que é Senhor do Sábado, todos somos senhores do Sábado, da lei, da regra, da norma; aí está a dignidade e liberdade da pessoa humana. Jesus cita a exceção de David que, pelos vistos, também já usava a sua consciência moral para discernir o que fazer em cada momento. Roubar é pecado, mas roubar para comer não é pecado, diz o povo.

Pecado está naquele que tem em demasia e não compartilha com o que não tem. “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado. A lei existe em função da vida, da autorrealização e da felicidade humana e não ao contrário.

Liberdade e igualdade
O valor humano da dimensão individual do ser humano é a liberdade; o valor humano da dimensão comunitária do ser humano é a igualdade. Liberdade e igualdade são os valores sobre os quais assenta a vida humana e sobre os quais assentam os sistemas políticos e económicos da sociedade.

O capitalismo exacerba a liberdade, o socialismo exacerba a igualdade. O equilíbrio ou harmonia da liberdade e da igualdade são tão difíceis de interiorizar para o indivíduo como para a sociedade. O mundo mundano não tem uma fórmula ideal para harmonizar as duas dimensões; mas o cristianismo tem: o mandamento do amor.

A cruz, símbolo do cristianismo, é onde a verticalidade do amor a Deus sobre todas as coisas e a horizontalidade do amor ao próximo como a si mesmo se encontram e harmonizam. Sem liberdade não há vida humana, sem igualdade não há vida social, sem fraternidade não há uma nem outra.

Estado social

O Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que saiu ao romper da manhã, a fim de contratar operários para a sua vinha. Ajustou com eles um denário por dia e enviou-os para sua vinha. (…) pela undécima hora, encontrou ainda outros na praça e perguntou-lhes: “Por que estais todo o dia sem fazer nada?” Eles responderam: 

“É porque ninguém nos contratou”. Disse-lhes ele, então: – Ide vós também para minha vinha. Ao cair da tarde, o senhor da vinha disse a seu feitor: “Chama os operários e paga-lhes, começando pelos últimos até os primeiros”. Vieram aqueles da undécima hora e receberam cada qual um denário. Mateus 20, 1-2, 6-9

O Estado Social não foi inventado por Karl Marx quando disse que o Estado deveria exigir de cada um segundo as suas possibilidades e dar a cada um segundo as suas necessidades. O Estado Social, como tantas coisas que hoje assumimos como parte da nossa cultura, foi criado por Jesus e já aplicado pelos apóstolos na primeira comunidade cristã de Jerusalém, onde tinham tudo em comum e a cada um se lhe dava segundo as suas necessidades (Atos dos Apóstolos 2 44- 47).

Quando, como diz a parábola acima descrita, o patrão pagou aos que trabalharam uma única hora o mesmo que os que trabalharam o dia todo, o patrão não pagou segundo o trabalho feito, mas segundo as suas necessidades.

Os trabalhadores que estiveram na praça o dia inteiro porque ninguém os contratou tinham as mesmas necessidades que os que trabalharam o dia todo, uma mulher e filhos para sustentar. O patrão, consciente disso, pagou-lhes o mesmo que aos que suportaram o peso do dia e o calor. Nisto Jesus inventou o Estado Social onde a cada um é exigido segundo as suas possibilidades e dado segundo as suas necessidades.

O cristianismo é uma religião não religiosa, mas civil
Os justos lhe perguntarão: “Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos? Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar?”. 

Responderá o Rei: “Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes. (…) todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer”. “E estes irão para o castigo eterno, e os justos, para a vida eterna”. Mateus, 25, 37- 40, 45, 46

Quando Jesus aparece a Paulo, não lhe pergunta “Porque persegues os meus discípulos?”, mas sim “Porque me persegues?”. Jesus, o irmão maior, o irmão universal, está do lado do injuriado contra o injuriador, do lado do pobre contra o rico, do lado do oprimido contra o opressor, é Ele que faz com que a injustiça não tenha última palavra.

Se uma adolescente regressasse a casa de noite sozinha e fosse alcançada por um grupo de delinquentes com o intuito de a violar, decerto essa violação seria consumada, pois a menina não teria como defender-se. Porém, se um desses delinquentes reconhecesse a moça como sendo a irmã de um polícia temido e destemido, o grupo pensaria duas vezes antes de consumar a violação e muito provavelmente buscaria outro alvo. Cristo é o nosso irmão maior, o nosso irmão temido e destemido, com Ele a nosso lado nada temos a temer.

O verdadeiramente revolucionário no texto de Mateus é que Jesus converte a religião numa questão civil; já o tinha feito ao dizer que os únicos dois mandamentos que valem são o do amor a Deus, garantia de liberdade, e o do amor ao próximo, garantia de igualdade. Neste último texto, não há nenhuma pergunta religiosa, as perguntas do Juízo Final não são acerca da religião que praticaste, a que igreja ias ou mesmo se eras ou não ateu; todos serão julgados pelo grau de humanidade e não pela sua prática religiosa.

Cristo, de facto, veio ao mundo para ensinar o Homem a ser homem; os que, com Cristo ou sem Cristo, mostraram na vida do dia a dia um alto grau de humanidade, entram na vida eterna; os que ao contrário viveram para si mesmos cultivando valores temporais, reduziram a nada a sua vida e ao NADA voltarão, morrendo eternamente.

Conclusão: O cristianismo revela a natureza humana e mostra o caminho como esta pode ser vivida, de modo a alcançar a plenitude da vida neste mundo e no próximo. Ser autêntica e genuinamente humano e ser cristão são uma e a mesma coisa. 

Pe. Jorge Amaro, IMC