15 de maio de 2026

Santa Maria

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A Santa Igreja de Deus acrescentou ao louvor da primeira parte da Ave Maria uma petição e uma invocação à Santíssima Mãe de Deus. Tal inclusão implica que devemos, com piedade e humildade, recorrer a ela, a fim de que, por sua intercessão, sejamos reconciliados com Deus, nós que somos pecadores, e alcancemos as bênçãos de que tanto necessitamos no presente e no futuro da nossa vida.

Assim se pronuncia o Catecismo do Concílio de Trento sobre a segunda parte da Ave Maria. Não se conhece o seu autor concreto; trata-se do fruto de muitos anos de reflexão, prática litúrgica e oração. Começou por ser integrada em alguns breviários das antigas ordens religiosas, até passar ao uso regular do povo de Deus por volta do século XV. Como toda a Tradição, não foi simplesmente copiada da Bíblia, mas está profundamente enraizada nela.

Santa Maria – Ao contrário de Eva, que, com orgulho diante de Deus, desejou usurpar o poder divino, submetendo-se à serpente, símbolo do Mal, Maria, humilde diante de Deus e totalmente submissa à Sua vontade, esmaga a cabeça da serpente. Ao tornar-se Mãe de Deus, Maria alcançou, pelo caminho da humildade, aquilo que Eva pretendia alcançar pelo orgulho: “ser como Deus” (Génesis 3,5). Eva, a pretensiosa, queria ser como Deus em omnipotência; Maria, a humilde serva de Sião, aspira ser como Deus em santidade.

Se Abraão é o nosso pai na fé, Maria é a nossa mãe na fé; nela se cumprem, em plenitude, a fé e a esperança transmitidas ao longo dos séculos.

Mãe de Deus – Um entusiasta pregador protestante, ao entrar num autocarro, afirmou: “Esta é a carta e este é o envelope que a continha; ficamos com a carta e deitamos o envelope ao lixo. Cristo é a carta; Maria, o envelope.” Alguém respondeu: “A tua mãe também é um envelope que atiras para o lixo?”

Na verdade, não se deita fora o envelope. Os amantes que guardam cartas de amor conservam-nas com os respectivos envelopes. Cristo é a carta de amor de Deus à humanidade. Maria é esse envelope florido e precioso que transporta essa carta. Quem é mãe, é sempre mãe. Por outro lado, o envelope traz o remetente — a direção de quem envia a mensagem. Precisamos dessa indicação para poder responder, assim como precisamos da mediação de Maria para nos dirigirmos plenamente a Cristo.

Mãe é aquela que leva um filho no seio e contribui geneticamente para a sua formação. Maria é mãe em ambos os sentidos. Se Maria é mãe de Jesus, e Jesus é Deus, então Maria é Mãe de Deus. É um silogismo incontornável.

Ela não é Mãe de Deus no sentido de ser a origem de Deus ou anterior a Ele, nem é a fonte da divindade de Jesus. É Mãe de Deus porque concebeu e deu à luz Aquele que é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e porque contribuiu com o seu ser para a natureza humana da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Rogai por nós, pecadores – Nova Eva, novo Abraão, novo Jacob, Maria é também novo Moisés. Abraão intercedeu por Sodoma e Gomorra; Moisés, continuamente, intercedia pelo povo, mesmo quando já não conseguia manter os braços erguidos. Na Nova e Eterna Aliança, instituída por Cristo, o papel de intercessora pertence a Maria, pois não há criatura humana mais próxima de Deus do que ela.

Já durante a peregrinação terrena do seu Filho, Maria exerceu esse papel de intercessora e mediadora de todas as graças. O primeiro milagre de Jesus, nas bodas de Caná, foi realizado a pedido de Maria (João 2,1-11). Ela não impõe, mas aponta; não exige, mas confia; e o Filho atende à súplica da Mãe.

Agora – “Águas passadas não movem moinhos.” A vida acontece no presente. No entanto, há pessoas que permanecem prisioneiras do passado, de acontecimentos traumáticos ou culpabilizantes, que funcionam como maldições e lhes impedem a liberdade interior e a responsabilidade plena pelo seu comportamento atual.

O pecado é cometido no passado e perdoado no presente. O perdão de Jesus liberta-nos e desfaz os grilhões do passado, que passa a ser integrado no conjunto da vida com um novo significado. Com Cristo, podemos entoar o nosso “Felix Culpa” — “Ó culpa feliz!” — pois “não há males que por bem não venham” e “Deus escreve direito por linhas tortas”.

As três virtudes teologais moldam a nossa existência nos três tempos. Vive-se apenas no presente, mas é a fé que nos chega do passado que ilumina esse presente, e é a esperança no futuro que o anima. A caridade, no entanto, é a única ação própria do presente: viver é amar — a Deus e ao próximo.

E na hora da nossa morte – “Quero morrer”, disse a minha mãe em agonia, quando percebeu que a morte a vinha buscar para Deus. Jesus declarou: “Ninguém Me tira a vida; Eu dou-a livremente” (João 10,18). Se vivermos amando a Deus sobre todas as coisas, a morte não nos priva de nada nem de ninguém. Largar o pouco para nos entregarmos ao Tudo que é Deus não deve ser motivo de temor. Vivamos com a esperança firme de que o melhor ainda está para vir.

Ámen – “Assim seja”, “eu creio” — é o nosso selo, a nossa assinatura no final da oração. Com esta palavra, subscrevemos tudo quanto acabámos de dizer, com fé e confiança.

Conclusão – A primeira parte da Ave Maria refere-se ao passado e ao papel de Maria na história da salvação da humanidade. A segunda parte trata do presente e do futuro, e do papel de Maria na salvação de cada um de nós.

Rezar a Ave Maria é, pois, entrar na eternidade de Deus, acolhendo o dom da Sua Mãe como intercessora e companheira de caminho, desde agora até à hora da nossa morte.

Pe. Jorge Amaro, IMC



1 de maio de 2026

Ave Maria

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A Ave Maria é, sem dúvida, a oração mais popular e mais repetida pelos católicos. Só no Rosário — tão querido por sábios e simples — ela é recitada cinquenta vezes, mas também se repete em inúmeras outras situações e circunstâncias.

Tal como a oração do Pai-Nosso, a Ave Maria divide-se em duas partes; contudo, ao contrário daquela, não é inteiramente bíblica. Num movimento ascendente, a primeira parte — retirada diretamente da Sagrada Escritura — compõe-se de cinco degraus que se elevam até Jesus. Num movimento descendente, a segunda parte, nascida da Tradição, é igualmente formada por cinco degraus que nos conduzem até à nossa realidade humana, culminando na hora da morte.

Esta oração não pode ser plenamente compreendida pelos defensores do princípio protestante “sola fide, sola scriptura, solus Christus”, pois nela se unem, de forma harmoniosa, a Escritura — Palavra de Deus, presente na primeira parte — com a Tradição da Igreja, ou seja, a fé viva da comunidade cristã ao longo dos séculos, expressa na segunda parte. Jesus, Alfa e Ómega, centro da história da salvação, é o elo que une ambas as partes.

A Ave Maria é, por isso, um compêndio da história da salvação: nela se encontram o Céu, representado pelo anjo Gabriel, e a Terra, representada por Isabel, prima de Maria. Une o passado — a Anunciação e a Visitação — com o presente, quando pedimos a intercessão de Maria “agora”, e com o futuro, ao invocá-la para “a hora da nossa morte”.

Avé” - Significa “alegra-te”; ecoa o anúncio profético: Alegra-te, filha de Sião, o Senhor está no meio de ti. É assim que o anjo Gabriel saúda Maria. Poucos versículos antes, apresenta-se a Zacarias com estas palavras: Eu sou Gabriel, que estou sempre na presença de Deus (Lucas 1,19).

Maria, sendo humana, e os humanos estando afastados de Deus por causa do pecado, é aqui exaltada pelo próprio arcanjo, que reconhece nela uma dignidade superior à sua. Esta saudação insinua já o dogma da Imaculada Conceição: Maria foi concebida sem pecado, preservada desde o primeiro instante por singular graça divina.

Maria” - O nome “Maria” pode ser interpretado como “iluminada” e “iluminadora”. Iluminada interiormente por Cristo, o Sol nascente, é, como a lua, que reflete a luz do sol. Assim, Maria não brilha por si, mas por referência a Cristo. Ela é o espelho mais puro da luz divina, o dedo que aponta sempre para o Senhor.

Cheia de graça” - A graça é a presença viva de Deus. O anjo reconhece que Maria está plena dessa presença. Cheia de graça porque foi concebida sem o pecado original; cheia de graça porque, ao acolher Jesus no seu seio, tornou-se medianeira da Graça por excelência. Por isso, é medianeira de todas as graças que Deus concede aos que O amam.

O Senhor é convosco” - Maria é a morada do Altíssimo. É a nova Arca da Aliança. Se a arca antiga continha sinais e testemunhos da presença e das maravilhas de Deus, Maria contém o próprio Deus feito homem. Simultaneamente, é templo e esposa do Espírito Santo.

A antiga arca da Aliança continha:

Maná - que alimentava o povo temporariamente — mas Maria contém Cristo, o novo maná, o pão vivo descido do Céu, que sacia para a vida eterna;

As tábuas da Lei - mas Maria contém Cristo, a Nova Lei, a Lei do Amor, que não apenas proíbe o mal, mas convida ao bem sem medida;

O cajado de Moisés - símbolo da autoridade — mas Maria traz no seu seio o Bom Pastor, que dá a vida pelas suas ovelhas.

“Bendita sois vós entre as mulheres” - Terminada a Anunciação, começa a Visitação. Se, no primeiro episódio, Maria contempla a Deus e acolhe a Sua Palavra, no segundo, ela age: parte apressadamente para servir Isabel, sua prima. A oração e a ação unem-se. Maria é exemplo de quem vive a Palavra escutada.

Fazemos nossa esta saudação de Isabel, inspirada pelo Espírito Santo. É de Isabel que provém a primeira bem-aventurança do Evangelho:
Feliz de ti que acreditaste, porque se há-de cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor (Lc 1,45).

Maria é o culminar da fé de Abraão, transmitida de geração em geração. Não por Jacob, mas por Maria, tem Abraão uma descendência mais numerosa que as estrelas do céu e as areias do mar: ele é pai de todos os crentes, dentro e fora de Israel.

“Bendito é o fruto do vosso ventre”
O trigo que Deus semeou no seio de Maria tornou-se para nós o Pão vivo, que dá vida e salvação eterna. (Cântico de Fátima)

Maria é discípula porque escutou e praticou a Palavra de Deus. É Mãe porque foi, primeiro, discípula. É o terreno fértil por excelência: nela, a Palavra deu fruto abundante. É também a escada de Jacob — a ponte entre o Céu e a Terra.

Sempre que recitamos a Ave Maria, unimos o Céu e a Terra: o anjo Gabriel e Isabel, a Palavra de Deus e a resposta humana. Pela escada que é Maria, desce Deus à Terra, e por ela sobe a humanidade, em Cristo, até ao Pai.

Jesus - Por paradoxal que pareça, a Ave Maria é uma oração profundamente cristocêntrica. Jesus é o centro e o coração da oração. É n’Ele e por Ele que Maria é louvada. Jesus é o ponto de união entre a parte bíblica e a parte tradicional da oração.

Tal como uma pedra lançada ao lago cria círculos concêntricos que se expandem até aos limites da água, assim também Jesus, vindo ao mundo, tornou-Se o centro da história da humanidade. A Sua ação continua a expandir-se até que Deus seja tudo em todos (1 Coríntios 15,28).

Jesus é a pedra angular (Atos 4,11), o alicerce firme da Igreja, aquele que mantém tudo unido de forma harmoniosa e segura.

Conclusão - As palavras do Anjo, seguidas pelas de Isabel, constituem a parte bíblica da Ave Maria, que culmina em Jesus, o centro e a razão de ser desta oração. Ele é o elo que une a Escritura à Tradição da Igreja, representada na segunda parte da oração.

Assim, a Ave Maria é um eco contínuo da história da salvação. Cada vez que a rezamos, reavivamos a memória do mistério da Encarnação e abrimo-nos à intercessão daquela que, com humildade e fé, se fez morada de Deus entre nós.

Pe. Jorge Amaro, IMC