Os homens que desafiaram o Evereste, não desistiram nem à primeira nem à segunda derrota. De facto, as expedições falhavam uma detrás da outra e não foram poucos os que perderam a vida.
Durante uma cerimónia comemorativa na qual se recordava a Mallory e os seus valorosos companheiros, o orador expressa e resume o espírito e os sentimentos daquela assembleia. Olhando para a janela dirigiu-se ao Evereste dizendo:
Evereste! Falo-te em nome de todos os homens corajosos. Tu derrotaste-nos não uma nem duas, mas muitas vezes. No entanto, um dia, seremos nós a vencer, porque tu não podes crescer mais do que és; nós podemos…
O atractivo do Monte
Desde sempre o monte exerceu uma atracção sobre o Homem pois desafia a sua coragem, o seu espírito de aventura, criatividade, força e resistência.
O monte é o ponto mais elevado da terra e, simultaneamente, o mais baixo do céu. É o lugar onde o céu e a terra se tocam; onde o Homem sobe até Deus e Deus desce até ao Homem. Isto implica, da parte de Deus, uma kenosis, um rebaixamento cujo ponto culminante foi a encarnação do seu Filho. Da parte do ser humano, implica uma ascensão, uma superação da natureza decaída pelo pecado, rumo à vida nova em Cristo, que é o Caminho, a Verdade e a Vida.
O Zigurate
Os primeiros templos da antiga Mesopotâmia, chamados zigurates, eram construídos em forma helicoidal, como escadas em espiral. Esta estrutura não era casual, mas antes um símbolo arquitectónico do caminho espiritual que todo o ser humano é chamado a percorrer se deseja unir-se a Deus.
São João da Cruz, no seu livro A Subida ao Monte Carmelo, interpreta essa
ascensão como um percurso de purificação e auto-transcendência. O autor convida-nos a abandonar tudo aquilo que é obstáculo à união com Deus — bens, afetos, desejos — a fim de alcançar o cume da vida espiritual.
Santa Teresa de Ávila, companheira de João da Cruz e reformadora do Carmelo, propõe um percurso análogo na sua obra O Castelo Interior. Utiliza a imagem de um castelo com muralhas concêntricas, onde a viagem espiritual se faz em direção ao centro mais íntimo de nós mesmos, onde habita Deus. Como dizia Santo Agostinho: “Deus intimior intimo meo” — Deus está mais íntimo a mim do que eu próprio.
Essa ideia de progresso espiritual, autossuperação e purificação também aparece na obra de Dante Alighieri. Na Divina Comédia, o Purgatório é representado precisamente como um zigurate, uma montanha que se sobe gradualmente até ao Paraíso.
Os montes da Bíblia
Monte Hermon - (ou "montanha sagrada") é a montanha mais alta da antiga Israel, picos cobertos de neve até junho, quando sobe 2.814 metros acima do nível do mar. Alguns estudiosos acreditam que o Monte Hermon foi o local da transfiguração de Jesus, um evento sobrenatural no qual Cristo apareceu em Sua verdadeira glória como o Filho de Deus, revelando Sua identidade como Messias e cumprindo a lei e os profetas (Mateus 17:1–8).
Se assim não foi, foi no sopé desta montanha, onde o rio Jordão abre o Vale do Rift, que se estende até ao Mar Vermelho, na Etiópia, até ao oceano Índico, em Moçambique, que os apóstolos descobriram a identidade de Jesus de Nazaré como o messias que estava para vir, o filho de Deus.
No Monte Moriah – A fé de Abraão é posta à prova, quando Deus lhe pede que sacrifique o seu filho Isaac. Ao superar este teste, Abraão transformar-se no nosso pai na Fé aprendendo que a Deus é preciso ama-lo sobre todas as coisas e sobre todas as pessoas.
No Monte Sinai – Moisés recebe de Deus os dez mandamentos que constituíram na altura uma pedagogia educativa para constituir os Judeus no Povo de Deus com uma idiossincrasia própria.
No Monte Carmelo – O profeta Elias desafia e expõe os que abandonaram a verdadeira fé num Deus que os fazia livres para se subjazerem a um sem número de ídolos que escravizam. Hoje os idólatras pretendem ser ateus ou agnósticos mas se olhamos para as suas vidas no dia-a-dia verificamos que têm pequenos ídolos que adoram e a volta dos quais orbitam.
No Monte Nebo – Moisés avista a terra prometida sem entrar nela. Martin Luther King disse no dia anterior ao seu assassinato, “O senhor concedeu-me ver a terra prometida, é possível que eu não entre nela convosco mas tenho a certeza de que nós como povo um dia entraremos na terra prometida. O sonho com um mundo mais justo e mais fraterno, o Reno de Deus, deve sempre inspirar a luta do nosso dia-a-dia.
No Monte das Bem-aventuranças – Neste monte, Jesus, o novo Moisés, proclama o seu Sermão da Montanha, propondo as Bem-Aventuranças como caminho único e inadiável para a verdadeira felicidade. Este monte é o novo Sinai do Novo Testamento.
No Monte da Transfiguração - Ali, Jesus revelou a sua identidade divina aos discípulos, preparando-os para a provação da sua Paixão. Este monte é, por isso, o novo Monte Nebo do Novo Testamento: uma visão antecipada da glória antes da travessia dolorosa do sofrimento.
No Monte do Calvário – Jesus encontra a sua morte pagando o preço por ter sido quem foi e vivido como viveu. Por um momento a injustiça parecia ter a ultima palavra, mas Jesus ressuscitou fazendo triunfar a justiça sobre a injustiça, a graça sobre o pecado. A ressurreição de Jesus levou a Igreja a entender o valor salvífico da Sua morte. O Calvário é o novo Monte Moriá: ali o Pai ofereceu o seu Filho amado pela salvação de todos. Ali Jesus foi testado como Abraão no monte Moriah.
No Monte da Ascensão – Cristo termina a sua missão terrena e sobe ao Céu, levando consigo a nossa humanidade. O anjo que aparece exorta os Apóstolos a descer do monte e levar o Evangelho a todos os cantos da terra. Este é o novo Monte Carmelo: depois da contemplação, segue-se a missão. Não uma missão violenta como a de Elias impondo a verdade, mas sim uma missão pacifica propondo a verdade.
Conclusão - A Bíblia é marcada por uma geografia espiritual onde cada monte nos fala de um passo na história da salvação — e na nossa própria caminhada interior. Subir o monte é aceitar o desafio da fé, da purificação e da entrega. Mas nenhum cume é fim em si mesmo: cada monte aponta para o Céu, mas também para a missão cá em baixo.
Como Abraão, Moisés, Elias e Jesus, somos chamados a subir — não para fugir do mundo, mas para ver de outra perspetiva e, depois, descer transformados, levando aos outros a luz, a esperança e a promessa que do alto recebemos.
Pe. Jorge Amaro, IMC
