1 de julho de 2018

CNV - Um mundo de girafas e chacais

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Marshall Rosenberg conducting a workshop
Tomei o livro das mãos do anjo e comi-o: na minha boca era doce como mel; mas, depois de o comer, as minhas entranhas encheram-se de amargura. Depois, disseram-me: «É necessário que continues a profetizar contra muitos povos, nações, línguas e reinos.» Apocalipse 10, 10-11

Marshall Rosenberg (1934-2015)
O fundador da Comunicação Não-violenta, ao dar-se conta do potencial desta nova língua, para mudar a mente o coração das pessoas com vista a estabelecer novas relações e definitivamente construir uma sociedade nova de harmonia e paz, decidiu que este deveria ser o seu contributo para a humanidade, a sua missão, a sua luta pessoal. Por isso, abandonou o seu consultório de psicoterapeuta para se lançar na aventura e missão de espalhar a boa nova da comunicação não violenta. Dentro dos Estados Unidos, conduziu milhares de quilómetros para fazer workshops nas principais cidades, acampando fora da cidade e dormindo no carro a fim de tornar os workshops disponíveis e acessíveis para todos.

O sucesso destes workshops fez com que rapidamente Rosenberg trocasse o seu velho carro pelo avião, levando esta nova linguagem de paz a mais de 50 países, dando o seu contributo para a resolução de conflitos crónicos como o da Irlanda do Norte, de Israel e da Nigéria, entre outros. Estabeleceu escolas Girafa, como ele lhes chamava, para que as crianças do futuro fossem educadas nesta nova língua e filosofia de vida. A clarividência das suas ideias, o dom da palavra e o seu sentido de humor arrebatavam multidões. Facilmente conquistava mentes e corações para a sua causa.

Parafraseando o livro do Apocalipse no texto acima citado, o sabor da CNV na boca é doce como o mel; ou seja, facilmente nos delicia, entusiasma e nos dá esperança de com ela nos podermos transformar interiormente, de transformar o nosso pequeno mundo e, eventualmente, o mundo em geral. Porém, quando a ruminamos ou digerimos, damo-nos conta que não é fácil substituir, de um momento para o outro, uma língua que já cá anda há milhares de anos e na qual fomos educados, formados e até formatados.

A digestão desta língua é difícil porque os nossos estômagos não têm os ácidos necessários para a decompor e assimilar. Requer tempo e quando eventualmente começamos a usá-la, não sai automaticamente como a linguagem violenta reativa provinda do nosso cérebro reptílico. Leva tempo e, frequentemente, temos de parar o jogo e pedir um intervalo, como os treinadores num jogo de basquete, tempo para nos ligarmos ao neocórtex, ao cérebro que é autenticamente humano e produto da evolução. Desta forma, é uma linguagem que parece artificial, como se estivéssemos a ler o texto de um livro, seguindo normas precisas.

Mas assim tem de ser até se transformar numa segunda natureza. Aprender CNV é como aprender uma língua estrangeira: precisamos de pensar para falar e precisamos de aprender a nova gramática que é bem diferente da gramática da linguagem violenta. A CNV é de facto simples de aprender, mas não é fácil de integrar na vida diária, não é fácil de encarnar e usar na vida do dia a dia, requer tempo e paciência.

Para simplificar a aprendizagem desta nova língua e mostrar as diferenças entre duas línguas ou dois estilos diferentes de comunicação e filosofia de vida, Rosenberg usava dois animais como mascotes. A comunicação violenta foi representada pelo carnívoro Chacal, símbolo de agressão, domínio e autocracia; a não violenta pela herbívora Girafa, por ser pacífica e ter o maior coração de todos os animais terrestres.

O Chacal
A célula da sociedade Chacal é composta por um casal monogâmico, que defende o seu território de potenciais agressores. Estes territórios são defendidos vigorosamente, perseguindo e expulsando rivais intrusos, delimitando o seu território com urina e fezes.

Representa a linguagem que o mundo tem usado desde o mito babilónico da criação. Desde a infância, a nossa cultura ensina-nos a falar "Chacal", uma linguagem autocrática coerciva, agressiva que provoca submissão ou resistência e contra-ataque.

Por ser uma linguagem estática, combina vai bem com a antiga física mecanicista de Newton, para quem a natureza com as suas leis era de facto estática e funcionava com a precisão de um relógio suíço; para a nova física, a física quântica, as leis da natureza têm exceções; aliás o princípio de incerteza de Heisenberg demonstra que são tantas as exceções quanto as regras. Até a nova medicina demonstra que o mesmo medicamento não tem o mesmo efeito em pessoas diferentes e até já se pensa em criar medicamentos para homens e medicamentos para mulheres.

Para os chacais, as pessoas têm uma identidade fixa que não está em evolução nem pode converter-se. Mas a verdade é que somos um ser em construção, pelo que não somos classificáveis nem rotuláveis.

Em geral, a linguagem do chacal é caracterizada por tentativas de forçar a realidade a caber em caixas estáticas: “do que deveria ser” e “o que não deveria ser”, “o que é errado”, “o que é certo”, “o que as pessoas são” ou “o que não são”. Vive no mundo das ideias e análises de casualidades passadas ou do que deveria ser o futuro, raramente vive o momento presente.

A Girafa
É o símbolo ou mascote dos que usam esta nova linguagem não violenta, o idioma do mundo do futuro. Do ponto de vista do cristianismo, que é na sua génese uma religião não-violenta, porque o seu fundador foi quem desafiou a violência do sistema dominante, acreditamos ser o idioma que se fala no Reino de Deus, que se define como justiça, paz e integridade da criação.

A girafa é o animal terreste que tem o maior coração – representa a compaixão que é o fundo e a forma da CNV. A compaixão é algo natural que todos os seres humanos têm; por isso, quando somos compassivos com o violento, desarmamo-lo da sua violência e ajudamo-lo a ligar-se à sua compaixão natural, que reside lá bem no fundo do seu coração e da qual vive desligado. A personagem Scrooge do conto de Natal de Charles Dickens demonstra esta verdade.

O seu pescoço longo dá-lhe uma visão mais ampla e lúcida – a Girafa tem de facto um coração grande, pois este tem de bombear o sangue até à sua cabeça, lá bem no alto. Uma cabeça tão alta, dá-lhe a possibilidade de ver tudo desde cima, com um ângulo de visão mais amplo que qualquer outro animal. Os que falam a linguagem não violenta são objetivos nas suas observações, que conseguem colocar num contexto maior; se há algo que a girafa não tem é uma visão de túnel, pois esta é mais própria do Chacal.

Consegue comer e digerir espinhos -  a girafa tem uma língua forte, dura, com uma textura semelhante a borracha ou plástico. Isso significa que ela consegue mastigar espinhos sem se magoar. Traduzido em termos humanos, isto significa que, quando somos girafas, somos capazes de “mastigar” as palavras agressivas dos Chacais, as críticas destrutivas e os insultos, transformando-as em alimento inofensivo que não nos faz mal. Mais propriamente em necessidades insatisfeitas e na frustração pela sua insatisfação.

Girafa versus Chacal: ganha a Girafa
 Como podemos ver na foto que ilustra este texto, nas suas conferências e workshops, Rosenberg usava os dois símbolos - da Girafa e do Chacal -  como fantoches, demonstrando assim de uma forma prática os dois estilos de comunicação em confronto.

Como este tem sido até agora um mundo de chacais, todos nascemos chacais, mas todos estamos chamados a ser girafas. Todas as girafas foram chacais, pelo que todos os chacais podem ser girafas. Toda a girafa tem um passado de chacal, todo o chacal tem ou pode ter um futuro de girafa.

Ante um ataque externo em forma de insulto, avaliação negativa ou crítica destrutiva, o chacal só tem duas alternativas, que fundamentalmente são as que nos dá o nosso cérebro reptílico: luta -rebela-se - vinga-se ou foge -  esconde-se - submete-se. O chacal devolve a acusação, acusando o outro ou aceita a acusação, acusando-se a si mesmo e sentindo-se culpado.

A girafa usa compaixão e empatia, tanto para consigo mesma como para com o outro; para consigo mesma fazendo-se eco e tendo consciência dos sentimentos e das necessidades que a invetiva negativa do outro lhe provocou, expressando-os honestamente; para com o outro, procura entender os sentimentos e as necessidades por trás da acusação, entrando em diálogo com o outro, fazendo pedidos de esclarecimento e de conexão.

Quando ouvimos com ouvidos de girafa, escutamos os sentimentos e as necessidades de quem fala, independentemente das palavras que ele usa. Procuramos não esquecer que satisfazer as próprias necessidades que são universais, é o único objetivo de tudo o que qualquer ser humano diz ou faz.

Usar orelhas de girafa externamente torna a vida muito mais fácil: onde antes ouvíamos críticas e ataques pessoais, agora ouvimos alguém expressando as suas necessidades. Usando as mesmas orelhas internamente connosco mesmos, onde antes ouvíamos dúvidas, autocrítica, autoacusação e culpabilização, agora ouvimos sentimentos e necessidades.



CHACAL - aliena a vida
GIRAFA - serve a vida
Objetivo
Estar certo. Obrigar os outros a fazer o que eu quero.
Ligar-se com os outros empaticamente, compreendê-los.
Avaliações
Juízos morais (bom/mau, certo/errado). Pensamento dualístico (ou… ou…).
Juízos que servem a vida (necessidades satisfeitas ou insatisfeitas).
Motivações
Extrínsecas (prémios e castigos).
Intrínsecas (sentimentos necessidades, valores).
Génese dos sentimentos
Causados por ações externas, pessoas e acontecimentos.
Necessidades insatisfeitas, as nossas ou as dos outros.
Modo de buscar segurança
Pela obediência hierárquica.
Ligação afetiva aos outros; o afetivo é eficaz.
Relações com os outros
Hierárquicas, sistema de castas, poder sobre homo homini lupus, classes sociais, perder – ganhar.
Igualdade, fraternidade, poder com “todos a ganhar” win-win. Satisfazer as necessidades de todos.
Génese da autoridade
Externa, governo, igreja, patrão, pais, professores.
Interna, de origem divina.
Cede por
Sentimento de culpa, vergonha ou ira.
Compaixão ou alegria.
Quer que os outros sintam a sua dor…
Causando dor aos outros.
Pedindo empatia aos outros.
Imagem dos outros
Vilão que merece castigo ou herói que merece um prémio; como
um objeto ou meio para um fim.
Autenticamente humano.
O que necessita, o que nele está vivo, pessoa como fim em si mesma.
Focado
Comportamentos e atos passados, acontecimentos futuros.
No momento presente.

A Girafa tem dois modos básicos de atuar:
Escuta-se si e aos outros com empatia – “Quando vês/ouves…” (observação) “Sentes-te…?” (sentimentos), “Porque precisas…?” “Gostarias de…?”

Expressa com honestidade - “Quando vejo/ouço…” (observação) “Sinto…?” (sentimentos), “Porque preciso…?” “Estarias disposto a…?”

A girafa faz observações objetivas, expressa e responsabiliza-se pelos próprios sentimentos, reconhece e identifica as suas necessidades e, com base nestas, faz pedidos realistas e viáveis. Ao contrário, o Chacal, não observa, avalia, não sente, pensa, confunde necessidades com estratégias e dá ordens em vez de fazer pedidos.

Traduzir agressividade verbal em necessidades
Transformarão as suas espadas em relhas de arados, e as suas lanças, em foices. Uma nação não levantará a espada contra outra e não se adestrarão mais para a guerra. Isaías 2, 4

Funcionando em modo Girafa há sempre duas formas de ligação aos outros e a nós próprios. Voltando as orelhas para si mesma, a girafa dá-se conta dos próprios sentimentos e necessidades; voltando as orelhas para os outros, dá-se conta das necessidades e sentimentos dos outros.

Ante um ataque verbal à nossa pessoa, dentro da linguagem violenta que imita o cérebro reptílico, a resposta é simples: ou te revoltas ou te submetes. Para a CNV há uma terceira via: a de nos responsabilizarmos pelo que ouvimos, desligando o nosso cérebro reptílico, respirando fundo, colocando os nossos olhos em visão raio X para podermos ler nas entrelinhas do que foi dito e aí descobrir, as necessidades insatisfeitas, a fim de traduzirmos a mensagem dessas necessidades. Vejamos no seguinte exemplo:

“És a pessoa mais egoísta que já conheci!
  1. O Chacal externo - culpa os outros e contra-ataca – culpa o seu interlocutor dizendo, “Tu não tens o direito de dizer isso, sempre fui atencioso, o egoísta és tu.”
  2. O Chacal interno – culpa-se a si mesmo submete-se: toma para si e aceita o julgamento da outra pessoa, culpando-se a si mesmo (culpa, vergonha, depressão) e afirmando: " Desculpa, eu deveria ter sido mais ponderado!"
  3. A Girafa interna faz-se consciente dos seus próprios sentimentos e necessidades – “Ao ouvir-te chamar-me egoísta, sinto-me magoado pois necessito de algum reconhecimento pelos meus esforços em ser atencioso para com as tuas preferências..."
  4. A Girafa externa deteta os sentimentos e necessidades dos outros - "Sentes-te magoado porque necessitas de mais consideração pelas tuas preferências?"
Em poucas palavras, o Chacal é egoísta, usa e abusa dos pronomes pessoais, “Eu” “…me” “Eu mesmo”. A girafa é altruísta e usa o pronome Nós. A prioridade do chacal é estar certo pelo que o outro está errado, como quer sempre ganhar, o outro tem de aceitar a derrota:

A prioridade da girafa é ligar-se a outro de forma a que ambos ganhem; a girafa aceita o problema como sendo de ambos e busca uma solução válida para ambos. O chacal está mais interessado em ganhar que em genuinamente resolver o problema; em caso de ataque, o chacal sente-se melindrado e intimidado. A girafa sente empatia por si mesma. O chacal julga, acusa e ordena. A girafa observa, expressa honestamente sentimentos e necessidades e pede.

Em conclusão: a girafa observa, o chacal avalia, a girafa sente, o chacal pensa, a girafa está ciente das suas necessidades, o chacal confunde necessidades com estratégias, a girafa pede, o chacal ordena.

No confronto da Girafa e do Chacal, a girafa sai sempre vencedora se se mantiver girafa; ao agir compassiva e empaticamente, mais tarde ou mais cedo, consegue apelar ao coração do chacal, à sua própria compaixão e empatia, acabando por transformá-lo numa girafa também. - Assim sendo, as girafas vão aumentando e os chacais diminuindo, até se extinguir a sua espécie.
Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de junho de 2018

CNV - Pedir sem exigir

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«Pedi, e ser-vos-á dado; procurai, e encontrareis; batei, e hão-de abrir-vos. Pois, quem pede, recebe; e quem procura, encontra; e ao que bate, hão-de abrir. Mateus 7, 7-8

Dai e ser-vos-á dado: uma boa medida, cheia, recalcada, transbordante será lançada no vosso regaço. A medida que usardes com os outros será usada convosco.» Lucas 6, 38

Depois de aprender a fazer observações, expressar sentimentos, e reconhecer necessidades sem analisar, julgar, criticar ou acusar aqueles com os quais nos relacionamos, estamos preparados para fazer pedidos pois criámos a situação ideal para que esses pedidos sejam atendidos. Quando somos autênticos, nos abrimos e partilhamos com total honestidade o que observamos, sentimos e temos necessidade, provocamos compaixão e empatia nos outros, aumentando assim a probabilidade de que as necessidades de todos sejam satisfeitas e a vida de todos seja mais aprazível.

A fim de satisfazer as nossas necessidades, fazemos pedidos para avaliar qual a probabilidade de obter cooperação para estratégias específicas que temos em mente para atender às nossas necessidades. O nosso objetivo é identificar e expressar uma ação específica que acreditamos que irá servir este propósito e depois verificar com outros envolvidos sobre a sua disponibilidade para participar na satisfação das nossas necessidades desta forma.

A CNV faz recomendações sobre como isso pode ser feito, para maximizar a conexão no relacionamento, de forma a aumentar as probabilidades de que as necessidades de todos os envolvidos na interação sejam satisfeitas.

O que é um pedido em CNV?
Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanece em mim e Eu nele, esse dá muito fruto, pois, sem mim, nada podeis fazer. João 15, 5

O texto de S. João sugere, ao mesmo tempo, que somos indigentes e parte de uma comunidade. Como seres sociais que somos, a nossa felicidade, o nosso bem-estar envolve os outros. De facto, parte integrante e importante das nossas relações com os outros são os pedidos que implícita ou explicitamente lhes fazemos. Rosenberg defende que 80% da nossa comunicação contém pedidos, seja de empatia ou de ação.

No contexto da comunicação não violenta, um pedido é uma oportunidade de contribuir para o nosso bem-estar e/ou o dos outros; consta da solicitação de uma ação específica que tem como objetivo satisfazer uma necessidade concreta nossa ou dos outros. Para isto é preciso estar consciente das nossas necessidades e saber formulá-las.

Quando fazemos pedidos estamos preparados para ouvir “Não”. Como o objetivo final da comunicação não violenta é que todos ganhem, o “Não” tem o valor de Sim. Sabemos que um sim forçado ao nosso pedido seria um presente envenenado que redundaria em perda para ambos os interlocutores. Curiosamente na língua nacional da Etiópia, o amárico, há duas palavras para dizer sim, “Au” ou “Eshi”, e nenhuma para dizer não. Dizer não é pouco cortês.

Pretender que o outro contribua para a satisfação das nossas necessidades sem ter em conta as suas, negando as suas ou mesmo sacrificando-as, é fazer dele um escravo subserviente da nossa vontade; isto não é bom para ele e não pode ser bom para nós. Por outro lado, tal pedido já nem seria um pedido, mas sim uma ordem, uma exigência.

Um “Não” pode ser a resposta a um nosso pedido, mas o que ouvimos é que as necessidades do nosso interlocutor estão, de momento, em conflito com as nossas, o que é compreensível e facilmente aceitável pois em CNV, as necessidades dos outros são tão importantes quanto as nossas. Portanto, se estamos em sintonia com a filosofia da CNV, nunca ouvimos um “Não”; o que ouvimos são os sentimentos e necessidades que, de momento, impedem a outra pessoa de dizer "Sim".

O espírito dos pedidos depende de nossa capacidade para ouvir e encaixar um "não" e continuar a trabalhar connosco mesmos ou com os outros, de modo a encontrar formas de satisfazer as necessidades de todos. Para sabermos se estamos a fazer um pedido ou uma exigência é suficiente ouvir se a resposta ao nosso pedido foi um não.

As ordens forçam o outro a uma obediência cega e o incumprimento levará a consequências punitivas; pelo contrário, os pedidos dão à outra pessoa liberdade de escolha, mesmo que a resposta seja um "Não", já que significa um "Sim" às necessidades da outra pessoa que a impediram de dizer “Sim”. Então, um pedido negado, na maioria das vezes, levará simplesmente a mais diálogo.

Se confiarmos que através do diálogo podemos encontrar estratégias para satisfazer as necessidades de ambos, um “Não" é simplesmente a informação para nos alertar que dizer "Sim" ao nosso pedido podia sair-nos muito caro em termos de necessidades da outra pessoa.

Uma ordem negada pode ter consequências punitivas; um pedido negado mais frequentemente levará a mais diálogo. Reconhecemos que "Não" é uma expressão de uma necessidade que está a impedir que a outra pessoa diga "Sim". "

Se aceitamos em boa fé o “Não” do outro, podemos continuar a procurar a ligação e o entendimento para permitir o surgimento de estratégias adicionais no sentido de satisfazer as necessidades de ambos. “Não queiras do teu amigo mais do que ele quer contigo”, já dizia o meu pai.

Portanto, em CNV, o que aparentemente parece um “Não” absoluto à satisfação das minhas necessidades, na realidade é um “Sim” do outro às suas próprias necessidades; como amo o outro como a mim mesmo, as necessidades dele são tão minhas quanto as minhas pelo que, do ponto de vista da CNV, o que eu ouço é fundamentalmente um “Sim”.

E as minhas necessidades, aquelas que motivaram o meu pedido, como lidamos – eu e ele - com elas? Ele, na resposta em que refere a razão pela qual não pode satisfazer as nossas necessidades, porque as suas o impedem, pergunta-nos se concordamos em adiar as nossas para um tempo próximo e concreto.

Se formos psicologicamente maduros e amarmos o outro como a nós mesmos, aceitamos de boa vontade, esse adiamento; se não o formos, rebelamo-nos como uma criança que exige a satisfação imediata das suas necessidades. A capacidade psíquica para adiar a gratificação ou prazer que se sente pela satisfação das nossas necessidades é uma prova de maturidade psicológica, como prova o bem conhecido “Teste da Guloseima”.

A várias crianças entre os 4 e os 5 anos foi dada individualmente a possibilidade de comerem uma guloseima no momento ou duas se aguardassem 15 minutos pela segunda sem comer a primeira. Com o decorrer dos anos, seguido o percurso destas crianças, ficou provado que aquelas que conseguiram adiar a gratificação não comendo a guloseima durante os 15 minutos estabelecidos, foram mais bem-sucedidas que aquelas que não conseguiram adiar a gratificação.

Apesar de na interpretação violenta do cristianismo se ter martelado constantemente na ideia de que o outro vem primeiro que eu, de que as necessidades do outro são mais importantes que as minhas, de que devo colocar-me ao serviço do outro, esquecendo-me de mim mesmo, a CNV sugere o contrário, que as minhas necessidades devem ser satisfeitas em primeiro lugar. É precisamente isto que sugere o amor ao próximo como a ti mesmo. Se o “violento altruísmo cristão” é a verdade, então o mandamento deveria ser formulado ao contrário:

Agora entendo algo que me fazia confusão sempre que viajava de avião e me era dito que, no caso de repentinamente haver uma queda da pressão da cabine, devia colocar primeiro a minha máscara de oxigénio e só depois ajudar as crianças ou qualquer outra pessoa a colocar a sua. A julgar pelo “violento altruísmo” de matriz cristã, eu deveria primeiro ajudar os outros a colocarem as suas máscaras e só depois colocar a minha.

Se assim fizesse, porém, podia acontecer que enquanto tentava colocar a máscara nos outros eu mesmo perdesse a consciência; o resultado seria catastrófico pois pereceria eu por não ter colocado a minha máscara primeiro e pereceriam os outros porque não tinha conseguido ajudá-los.

A caridade começa em casa. Como o exemplo anterior, podemos referir muitos outros: na cultura etíope, os que são o sustento e ganha-pão da família comem antes das crianças. Isto pode parecer estranho na nossa cultura ocidental, mas o facto é que se uma mãe a amamentar um bebé, não se alimentar primeiro, o bebé não será nutrido. Em CNV, se um perde todos perdem, se um ganha todos ganham. Ou ganham todos ou não ganha ninguém

Se alguém acede ao nosso pedido por medo, culpa, vergonha, obrigação ou desejo de recompensa, compromete a qualidade da ligação e confiança entre nós. Os nossos pedidos devem ser expressados de forma a deixar a pessoa livre e com capacidade de escolha; desta forma, podemos não conseguir aprovação imediata para os nossos desejos, mas aumentamos a probabilidade de as nossas necessidades serem atendidas a longo prazo, pois estamos a passar a mensagem de que não só as nossas necessidades contam, mas as dos outros também contam.

Existem, portanto, dois tipos de pedidos: pedidos de ligação e pedidos de ação. Os pedidos de ligação devem preceder os de ação, uma vez que só depois de ser estabelecida a ligação entre as pessoas, ou seja, o entendimento mútuo dos sentimentos e necessidades de cada um, é que devem ser procuradas soluções ou vias para a satisfação das necessidades de ambos.

Partir para a solução de problemas sem nos certificarmos de que ambos os interlocutores estão sintonizados no mesmo comprimento de onda é uma receita para o fracasso. A palavra de ordem é então ligação primeiro, soluções depois.

Pedidos para uma maior ligação, empatia e mútuo entendimento
É o grau de ligação que temos com determinada pessoa que vai determinar a qualidade da sua resposta ao nosso pedido. Por isso, os nossos pedidos devem ser primeiro de ligação, com vista a uma compreensão e entendimento mútuos que determinarão se a ligação que existe entre nós é suficiente para avançar para um pedido de ação. São vários os pedidos que promovem um maior entendimento entre as partes:

Pedidos de entendimento – Para nos certificarmos de que o que expressámos foi entendido pelo outro: “Podes repetir o que me ouviste dizer?”, ou seja, foi a minha mensagem recebida e entendida tal como eu a enviei? Não devemos nunca dar por garantido que fomos capazes de expressar o que verdadeiramente queríamos e que o outro interpretou as nossas palavras exatamente como nós as interpretamos.

Para termos a certeza de que estamos em sintonia, perguntamos ao outro, “Podes, por favor repetir o que me ouviste dizer?” Caso a pessoa não tenha entendido o que dissemos, concluímos, "Fico-te agradecido por me teres dito o que ouviste, chego à conclusão de que não me expressei tão claramente como queria; vou tentar de novo”.

Pedidos de empatia - “Como te sentes acerca do que te disse?” Podemos entender-nos a nível de pensamentos, mas não a nível de sentimentos. Os sentimentos dizem mais de uma pessoa que os pensamentos, por isso, a ligação a nível de sentimentos é extremamente importante para depois podermos formular um pedido de ação.

Pedido de pausa- Estou confuso, gostaria de ter algum tempo para pensar, para evitar dizer mais do que o que deveria. A CNV não é tão automática como a comunicação violenta; reagir e comunicar a partir do nosso cérebro reptílico, é fácil e rápido; ligarmo-nos ao neocórtex é mais difícil e requer mais tempo.

Pedidos de ação, solução ou estratégias para satisfazer necessidades
Os pedidos de ação devem ser feitos no presente e para o presente e não para o futuro, devem ser concretos e específicos e não vagos ou genéricos, devem usar palavras e verbos de ação tom positivo e não usar linguagem negativa; devem ser viáveis e realistas e não abstratos.

Presente versus futuro – Um pedido não deve ser feito para ser cumprido vagamente no futuro, como por exemplo “Podias lavar o carro amanhã?” “Prometes-me agora que amanhã de tarde lavas o carro?” O carro é para ser lavado amanhã de tarde, mas estou a conseguir hoje um compromisso de que assim será feito. Vale mais um pássaro na mão que cem a voar.

Concreto versus vago e genérico – “Gostaria que respeitasses a minha privacidade” é um pedido genérico pois pode referir-se a muitas coisas - não é realista nem viável. Em vez disso, podemos pedir “Gostaria que batesses à porta antes de entrar no meu escritório” - este é um pedido de uma ação concreta que pode ser realizada e que contribui para respeitar a privacidade ou tem esse como objetivo final.

Positivo versus negativo – Pedir o que queres e não o que não queres. Pelo receio de pedir diretamente o que desejamos, formulamos o nosso pedido em linguagem negativa, ou seja, dizemos o que não queremos que o outro faça na esperança de que leia nas entrelinhas e adivinhe o que queremos que ele faça.

Usar esta estratégia pode fazer com que o tiro nos saia pela culatra, como acontece no exemplo que Rosenberg cita no seu livro: desejando que passasse mais tempo comigo em casa, pedi ao meu marido que não passasse tanto tempo no trabalho; algum tempo depois, ele disse-me que tinha decidido praticar golfe. Devemos, portanto, pedir o que queremos e não o que não queremos.

Viável e realista versus abstrato – Além de genéricos, muitos dos nossos pedidos são abstratos pois não se referem a algo concreto que pode ser feito imediatamente, mas a algo que tem mais a ver com atitudes do que com atos. Por exemplo, “Gostaria que me aceitasses como sou” refere-se a uma atitude e não a um ato concreto. Pode ser substituído por “Podes dar-me um exemplo de algo que eu tenha feito e que tu gostaste?”

Formular pedidos não dar ordens
O objetivo da CNV é criar uma qualidade de empatia e mútuo entendimento tal que nos permita dar um ao outro, com compaixão e gratuidade. Quem pensar que o objetivo é mudar o comportamento do outro, ou que as coisas se façam como nós queremos, está fora do espírito e da filosofia da CNV.

De facto, desde o momento em que o outro se apercebe da nossa determinação e obstinação em obter o que queremos, vai entender o nosso pedido não como solicitação, mas como uma ordem mais ou menos camuflada.

Quando o requerente não faz acompanhar o seu pedido pela expressão dos seus sentimentos e necessidades, mais facilmente este é recebido como ordem e não como solicitação. As ordens incluem ameaças de castigos ou promessas de prémios, e usam o medo, a culpa, a vergonha e a manipulação para obter submissão ou conformidade.

As solicitações são recebidas como ordens quando os que as ouvem creem que serão chamados a contas ou punidos se não cumprirem. Os pedidos levam à cooperação, as ordens, provocam resistência. Ante uma ordem só há duas opções, submissão ou rebelião; ambas têm preços muito altos e causam estragos nas relações interpessoais.

A perceção de um pedido como coercivo diminui de imediato a possibilidade de uma resposta compassiva; quanto mais as pessoas ouvem ordens, menos gostam de se relacionar connosco.

Às vezes, não é fácil diferenciar um pedido de uma ordem; um bom teste para saber se a solicitação foi feita como ordem ou como pedido é a reação da outra pessoa ante um “não”. Se a resposta a um não é um argumento, um dever ou uma crítica, então foi emitida uma ordem e não um pedido. Observemos a resposta a um não no seguinte diálogo:

- “Sinto-me só, queres passar a noite comigo?”
- “Hoje não, estou muito cansado.”
- “Se me amasses realmente e sabendo que me sinto só, passavas a noite comigo.”

O bom uso do quarto elemento da CNV é a prova de que assimilámos os anteriores e estamos capacitados para contribuir para o nosso bem-estar e para o bem-estar dos outros, enriquecendo a vida em geral. Deixar de emitir ordens para fazer pedidos significa que estamos mais focados na qualidade da ligação que queremos construir com os outros do que na satisfação das nossas necessidades.

CNV em ação
Observação – Disseste que só tens o relatório pronto na próxima semana.
Sentimento – Sinto-me frustrado e preocupado.
Necessidade/Valor – Para mim, é importante cumprir prazos para melhorar a eficiência da empresa.
Pedido – Poderias dizer-me qual é o problema, e o que pode ser feito para estar resolvido amanhã às 16h00?

Observação – Quando me devolveste o carro, o depósito de combustível estava vazio.
Sentimento – Senti-me irritado.
Necessidade/Valor – Necessito do carro para chegar ao emprego amanhã.
Pedido – Podias meter combustível esta noite?

Observação – Disseste que gostarias de ir à discoteca hoje.
Sentimento – Mas eu sinto-me cansado e stressado.
Necessidade/Valor – Preciso de descansar e relaxar.
Pedido de conexão– Como te sentes ante o que acabo de te dizer?

Para além de construir uma maior empatia e entendimento entre todos, ironicamente, a CNV é também o único caminho pelo qual as necessidades de todos são satisfeitas voluntária, compassiva e gratuitamente, sem custos acrescidos para ninguém.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de junho de 2018

CNV - Necessitar sem planear

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Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um. Como se tivessem uma só alma, frequentavam diariamente o templo, partiam o pão em suas casas e tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração. Atos dos Apóstolos 2, 44-46

Sentimentos versus necessidades
As necessidades são a principal motivação do comportamento, tanto humano como animal. Se os sentimentos são o fumo, as necessidades são o fogo; onde há fumo há fogo e vice-versa.

Os sentimentos são como um termómetro que mede a temperatura do corpo e acusa ou não febre. Se sinto que a temperatura do meu corpo subiu, é porque algo de mau se passa com o meu corpo. Pode ser uma infeção, que precisa de ser tratada.

Tanto o sentimento de dor como o do prazer são sintomas ou reações do corpo; a condição que as causa, encontra-se no interior do mesmo corpo. Por exemplo, sinto fome, necessito de alimento; sinto frio, necessito de abrigo. Da mesma forma, os sentimentos de alergia ou tristeza, medo ou coragem são reações do espírito; a condição que causa estas reações encontra-se no interior da nossa alma. Por exemplo, sinto-me só, necessito de companhia, sinto-me nervoso, necessito de relaxar, etc.

Os sentimentos são quase sempre causados por necessidades (valores) que são percebidas como sendo satisfeitas ou insatisfeitas. Estes são geralmente “provocados” pela perceção interna e externa de eventos. Porém, os sentimentos de raiva, culpa e vergonha são exceções, porque são causados por avaliações e interpretações internas de acontecimentos externos. Por exemplo, a raiva é causada quando entendo que algo ou alguém está errado.

Assumir a responsabilidade pelos nossos sentimentos
Depois de identificar os nossos sentimentos, separando-os dos pensamentos, o passo seguinte é assumir a responsabilidade pelos mesmos. Podemos fazer isto à priori, quando estamos convencidos de que os outros não podem fazer-nos sentir desta ou daquela maneira, podem espoletar um sentimento, mas não podem produzi-lo. Os sentimentos são nossos, bem nossos e não nos cabe outra alternativa senão assumir a paternidade dos mesmos. O que os outros fazem pode estimular os nossos sentimentos ou emoções, mas não são eles a causa desses mesmos sentimentos ou emoções.

Assumir os nossos sentimentos à priori não chega, não nos convence plenamente; só ficamos verdadeiramente convencidos quando os assumimos à posteriori, ou seja, quando descobrimos a necessidade pessoal que está a produzi-los, só assim evitamos a tentação de culpar os outros pelos nossos sentimentos.

Desafortunadamente, temos tendência a seguir um processo errado: em vez de fazermos um exercício de introspeção e investigar de onde vem o fumo para descobrir o fogo, em vez de indagar qual é a necessidade que está a produzir este sentimento, fazemos o contrário, um exercício de extroversão, saímos fora de nós e culpamos os outros pelos nossos sentimentos, buscando um bode expiatório.

Negar a nossa responsabilidade usando pronomes impessoais
Às vezes usamos expressões nas quais sacudimos a água do capote, mas não responsabilizamos ninguém em concreto pelos nossos sentimentos. Por exemplo:  "Fico furioso quando vejo que os nossos catálogos contêm erros ortográficos.”. Quando estamos conscientes de que a causa dos nossos sentimentos é uma necessidade insatisfeita então podemos transformar esta afirmação na afirmação seguinte: "Fico furioso quando vejo que os nossos catálogos contêm erros ortográficos porque necessito que a nossa empresa projete para fora uma imagem de profissionalismo.”

Negar a nossa responsabilidade mencionando só as ações dos outros
Uma outra forma de sacudir o capote quanto aos nossos sentimentos é mencionar as ações dos outros como sendo as causadoras deles, na esperança de que os outros se sintam culpados e façam o que nós queremos. Isto é chantagem afetiva que pode levar o outro a atuar movido pela culpa. Vejamos como isto acontece no seguinte exemplo: “a mamã fica desiludida contigo por tu não acabares a comida do prato.”

Tomando responsabilidade pelos nossos sentimentos, neste caso, leva-nos a reconhecer perante o outro a necessidade que os causa, livrando-o de toda culpa: “a mamã fica desiludida contigo por tu não acabares a comida do prato, porque quero que cresças forte e com saúde”

Negar a nossa responsabilidade culpando os outros
Quando estou desconectado das minhas necessidades tendo a responsabilizar os outros pelos meus sentimentos, usando a seguinte expressão: “Sinto… porque TU…” Exemplo: "Sinto-me irritado porque tu não compareceste ao encontro que tínhamos marcado".

Pelo contrário, quando nos conectamos com as nossas necessidades, descobrimos que é a sua insatisfação que é a verdadeira causa dos nossos sentimentos: “Sinto … porque EU” – “Senti-me irritado quando não compareceste ao nosso encontro porque eu tinha necessidade de desabafar contigo”.

Expressamos os nossos sentimentos de forma que denota que assumimos plena responsabilidade pelos mesmos; isto ajuda os outros a dar-se conta do que é importante para nós; por outro lado, ao não ouvirem críticas nem serem responsabilizados pelos nossos sentimentos, aumenta a probabilidade de que as necessidades de ambos sejam satisfeitas.

Quatro opções ante a receção de uma mensagem negativa
Experimentamos sentimentos positivos quando as nossas necessidades são atendidas e satisfeitas e sentimentos negativos quando as mesmas não são atendidas nem satisfeitas.

"Nunca queres passar tempo comigo... por que és tão egoísta?"
Quando alguém, verbalmente ou não verbalmente expressa uma mensagem negativa, temos quatro opções quanto à forma como a recebemos:

Culpabilizamo-nos a nós mesmos – Aceitamos a apreciação da outra pessoa como verídica e deixamos que esta afete a nossa autoestima; o sentimento de culpa, vergonha ou depressão podem minar a forma como nos conceptualizamos. O que quer que façamos pelo outro, no sentido de compensar o nosso egoísmo, não vai ajudar-nos nem a nós nem ao outro, pois acontece a partir do sentimento de culpabilidade.

Culpabilizar os outros - Quando culpamos os outros pelos nossos sentimentos... tendemos a estimular sentimentos de culpa nas outras pessoas. Estas podem até fazer um esforço para satisfazer essas nossas necessidades, mas fazem-no movidas por esse sentimento de culpa e não voluntariamente, pelo que, no fim, o necessitado e o que satisfaz as necessidades vão pagar um alto preço.

Detetar os nossos próprios sentimentos e necessidades – “Quando te ouço dizer que sou egoísta, sinto-me magoado porque preciso de algum reconhecimento pelo que tenho feito por ti.” Quando nos voltamos para dentro e concentramos a nossa atenção nos nossos próprios sentimentos e necessidades, tornamo-nos conscientes de que o nosso sentimento atual de dor deriva da necessidade de reconhecimento dos nossos esforços e não da crítica que nos foi feita.

Detetar os sentimentos e necessidades dos outros – Uma quarta opção é perscrutar com empatia os sentimentos e necessidades que estão por detrás da crítica negativa que nos dirigiu. Aqui somos chamados a ler nas entre linhas, a voltar a nossa atenção não tanto para o que a pessoa diz mas para o que quer dizer.

Somos chamados a psicanalisar o discurso dos outros; a comunicação não violenta dá-nos uns olhos raio X para ver numa crítica, ou até num insulto, uma expressão trágica dos sentimentos e necessidades de quem a faz.

Neste caso concreto, ao ouvirmos empaticamente a crítica negativa, sem a tomar pessoalmente, podemos perguntar, “Sentes-te magoado porque não te tem sido dada a atenção devida ou precisas de mais consideração pelos teus gostos ou preferências?"

Bem diferentes são as coisas quando aceitamos responsabilidade pelos nossos sentimentos e expressamos a necessidade que os provoca em vez de culpabilizar os outros pelo que nos vai na alma, como é o caso no seguinte exemplo:

"Dececionaste-me porque não apareceste ontem à noite” – Neste caso reportamos um facto, o nosso sentimento e culpamos e responsabilizamos uma pessoa pelo nosso sentimento. Frequentemente o nosso intuito é que se sinta culpado e que nos recompense para se redimir da culpa. Se não o faz, o nosso ressentimento aumenta e podemos entrar em conflito. Por outro lado, se o faz ambos pagaremos, tarde ou cedo, um alto preço porque o faz a partir da energia negativa do sentimento de culpa e não da energia positiva do dar gratuitamente do coração, simplesmente porque se sente bem contribuindo para o bem do outro.

Fiquei dececionado quando não te vi ontem à noite pois necessitava de partilhar algo importante contigo” – Quando, pelo contrário, eu expresso genuinamente os meus sentimentos juntamente com as necessidades que lhes estão subjacentes sem culpar o outro, tenho mais probabilidade de encontrar aceitação e empatia junto da outra pessoa e de esta atender a qualquer solicitação que eu faça depois.

É preciso entender que o sentimento de deceção não provém do facto de que o outro não compareceu, mas sim da necessidade que ficou insatisfeita. Com os meus olhos e ouvidos não violentos eu não vejo ou ouço um “NÃO” do outro à satisfação da minha necessidade, mas um “SIM” à satisfação das suas necessidades (que também são minhas porque o amo como a mim mesmo) que fizeram com que não pudesse comparecer.

Faz-te responsável apropriares-te de qualquer sentimento que surge em ti. Se ele surge em ti, é teu; os sentimentos não são aéreos, não viajam pelo ar, não vêm de fora de ti: são terrestres, procura no teu interior a sua causa e origem. Ao fazê-lo, e ao encontrares uma necessidade que não está a ser satisfeita, dá-te conta que exatamente a mesma coisa - uma necessidade não satisfeita - foi o que fez o outro fazer o que fez e dizer o que disse.

Em CNV, nunca devemos esquecer e devemos ter sempre presente nas nossas mentes que todas as análises, avaliações, críticas e comportamentos negativos – nossos ou dos outros – percecionados por nós são simplesmente trágicas expressões alienadas e alienantes de necessidades não satisfeitas e inconscientes. Se os outros e nós mesmos nos dermos ao trabalho de descobrir as necessidades subjacentes aos nossos sentimentos, não precisamos de expressar os nossos sentimentos de forma tão trágica ou violenta como habitualmente fazemos.

O que são necessidades?
As nossas necessidades são a expressão da nossa mais profunda humanidade. Todos os seres humanos partilham necessidades fundamentais para a sobrevivência: hidratação, nutrição, descanso, abrigo e conexão, entre outras. Também partilhamos muitas outras necessidades, embora possamos experimentá-las em diferentes graus, com maior ou menor intensamente em vários momentos.

No contexto da CNV, as nossas necessidades são o que há de mais vivo em nós: os nossos valores centrais e os nossos mais profundos desejos humanos. A identificação, compreensão e conexão com as nossas necessidades ajudam-nos a melhorar a nossa relação connosco mesmos e com os outros, ficando todos mais propensos a empreender ações que atendam às necessidades de todos.

Sentimentos e necessidades são a linguagem da vida. Porém temos sido educados em culturas de dominação desde há 10.000 anos, de tal maneira que nos desligámos das nossas necessidades. As pessoas não são bons escravos, obedientes à autoridade, quando estão vivas e plenamente conscientes de seus sentimentos e necessidades.

Os poderes instituídos querem que neguemos as nossas necessidades, que não estejamos conectados com elas porque elas são um peso; fazem-nos dependentes dos outros. Por que é que as estruturas do poder nos induzem a fazer esta associação? Porque isso faz com que outro grupo de pessoas sacrifique as suas necessidades. Ou seja, somos induzidos a pensar que as nossas necessidades sempre serão satisfeitas à custa das necessidades dos outros; alguém tem de sacrificar as suas necessidades para que as nossas sejam feitas.

A minha mãe pode ter sacrificado as suas necessidades para que 10% das minhas fossem satisfeitas; acredito que 90% de tudo o que fez por mim foi por amor. Isto faz com seja difícil confiar nas pessoas: quando me dão, nunca sei ao certo se é por amor ou por qualquer outra razão que me faça devedor perante quem me dá.

Esta ideologia parece supor que o nosso mundo tem recursos escassos e que não há outra forma de satisfazer as nossas necessidades sem que alguém sacrifique as suas, o que não é verdade. A CNV diz-nos precisamente o contrário: não somos co dependentes, mas interdependentes. O nosso mundo tem suficientes recursos para que as necessidades de todos sejam satisfeitas e ninguém tenha de sacrificar as suas.

Temos tido uma formação cultural segundo a qual é vergonhoso ter necessidades; o que as tem e tenta satisfazê-las é tido como egoísta. O sistema de dominação educa-nos, malvadamente, para nos esquecermos de nós mesmos, dos nosso sentimentos e necessidades e para sermos “robôs altruístas” ao serviço do sistema. Por exemplo, as mulheres não devem ter necessidades, devem sacrificá-las em beneficio das suas famílias... Os homens fortes não têm necessidades, estão dispostos a sacrificar as suas vidas ao serviço do seu país, do seu rei, da sua bandeira.

Apesar de todas as tentativas para negar a sua existência, as necessidades fazem referência aos recursos necessários para sustentar e enriquecer a vida. Mais uma vez, referimos que a natureza humana é imutável, não muda ao longo do tempo nem do espaço. Por isso, tal como os sentimentos, as necessidades humanas são universais, transcendem os costumes culturais, as latitudes e longitudes assim como os condicionamentos históricos ao longo do tempo.

Frequentemente as necessidades são expressadas em forma de valores éticos ou morais, havendo de facto uma verdadeira equivalência entre os dois conceitos: uma necessidade existe com referência a um valor, assim como um valor moral existe com referência a uma necessidade.

Em CNV, as necessidades ou valores são salientadas como sendo a componente mais importante para uma conexão compassiva com o outro. A qualidade da conexão pretendida na comunicação não violenta é improvável enquanto não nos ligarmos a este nível connosco mesmos e com os outros.

Nove necessidades básicas
Pois, que aproveita ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma? Ou, que daria o homem pelo resgate da sua alma? Marcos 8:36,37

A saúde das chamadas “economias saudáveis” é inversamente proporcional à doença dos trabalhadores que as sustêm. Para que serve ter uma economia saudável se a saúde desta é à custa da saúde física, psíquica, moral e espiritual das pessoas? O que é mais importante a economia ou as pessoas?

Manfred Max-Neef, o pai da economia do “pé descalço”, desenvolveu um sistema económico baseado na satisfação das nove necessidades básicas. Segundo ele, o sucesso económico não está baseado no produto interno bruto, mas sim em como estas nove necessidades básicas são satisfeitas por todos na população. Fundamentalmente, o que interessa numa economia não é a riqueza que se produz, mas a qualidade de vida que proporciona às pessoas abrangidas por essa economia.
  1. Sustento – ar, água, comida, exercício, expressão sexual…?
  2. Segurança – abrigo, proteção, 
  3. Amor - amar e ser amado, confiança, integridade, respeito, honestidade
  4. Empatia - solidariedade, colocar-se no lugar do outro e o outro no nosso lugar
  5. Diversão – jogo, recreação, atividades de tempos livres
  6. Comunidade – interdependência, pertença, afiliação
  7. Criatividade - criar coisas novas, inovação
  8. Autonomia – liberdade, independência, autodeterminação, autoestima
  9. Necessidade de significado - sentido último, contribuir para a vida, é importante para viver as nossas vidas plenamente; sentido da vida
Avaliações - sentimentos - necessidades
Às vezes descrevemos os nossos sentimentos com substantivos ou até verbos, vejamos como podem ser descritos.


Avaliações
Sentimentos
Necessidades
Sinto-me abandonado
mágoa, tristeza, solidão
Conexão, companhia, ajuda, pertença
Sinto-me atacado
Medo, desafio, hostilidade
Consideração, segurança
Sinto-me humilhado
Ira, mágoa desilusão
Respeito, apreço
Sinto-me traído
Ira, desilusão
Confiança, honestidade, honra, compromisso
Acusado
Confusão, medo, hostilidade
Justiça, responsabilização
Acossado
Medo, pressão
Autonomia, segurança, consideração
Enganado
Ressentimento, ira, mágoa
Honestidade, justiça, confiança, fé
Criticado

dor, ansiedade, frustração, humilhação
Compreensão, reconhecimento, respeito
Ignorado
solidão, mágoa, tristeza, embaraço
Respeito consideração, reconhecimento
Insultado
Irritação, embaraço
Respeito, consideração, reconhecimento
Intimidado
Medo, ansiedade
Segurança, igualdade, validação
Ignorado
Tristeza, solidão, ansiedade
Inclusão, pertença
Isolado
Solidão, medo
Pertença, comunidade, inclusão, contribuição
Julgado
Ressentimento, medo, mágoa
Justiça, igualdade, consideração
Manipulado
Irritação, impotência, frustração
Confiança, igualdade, autenticidade
Incompreendido
preocupação, frustração
Ser ouvido, clareza, compreensão
Provocado
Irritação, hostilidade, ressentimento
Respeito, consideração


Necessidades e valores
A comunicação não violenta, como sugere a imagem que acompanha este texto, divide as necessidades em grupos: sobrevivência, proteção, sentido, autonomia, interdependência, honestidade, empatia, bem-estar, regeneração, transcendência.

Maslow coloca estas mesmas necessidades numa pirâmide hierárquica na perspetiva do que é mais importante e mais urgente, entendendo que o ser humano não tem, por exemplo, necessidade de realização pessoal enquanto não tiver as necessidades básicas satisfeitas.

A satisfação da necessidade inferior leva a sentir a necessidade posterior ou a que se lhe segue e assim por diante, até ao cimo da pirâmide; e vice-versa, a insatisfação da necessidade imediatamente inferior leva a não sentir a necessidade imediatamente superior.

Assim, na base da pirâmide estão as necessidades fisiológicas, seguidas, num movimento ascendente, pelas necessidades de segurança, necessidades sociais, necessidades de estatuto, autorrealização e espirituais ou de transcendência.

Para a CNV as necessidades e os valores são sinónimos. Quando se referem ao corpo, ou seja, as que estão mais na base da pirâmide de Maslow, a designação “necessidades” é mais comum; pelo contrário, quando se referem mais ao espírito, as que correspondem às partes superiores da pirâmide de Maslow, é mais comum designá-las como valores.

É importante também referir que a CNV pratica ou pressupõe a prática do segundo mandamento do amor, “Ama o próximo como a ti mesmo”. De facto, as necessidades dos outros são vistas e tidas como necessidades minhas e vice-versa. Eu tenho necessidade de que tu te alimentes, que sejas amado e respeitado. Em CNV não queremos Deus para nós e o diabo para os outros, porque sabemos que se o outro perde nós também perdemos.

No nosso próprio interesse, não devemos ser egoístas; o egoísmo não traz vantagens para ninguém, nem mesmo para o egoísta. Nunca ninguém foi ou será verdadeiramente feliz à custa dos outros. Como dizia o teólogo Paul Tillich, “a crueldade para com os outros, é sempre crueldade contra nós mesmos”. Rosenberg chega a dizer que “a nossa sobrevivência como espécie depende de nossa capacidade de reconhecer que o nosso bem-estar e o bem-estar dos outros, na verdade, são uma e a mesma coisa."

Necessidades - estratégias – preferências - desejos
As necessidades são as principais qualidades e valores que todos compartilhamos como seres humanos, elas são o que dirige as nossas ações e comportamentos. Do ponto de vista da CNV, todo o comportamento humano surge de uma tentativa de satisfazer uma necessidade humana. Tudo o que os seres humanos fazem é para satisfazer as suas necessidades.

As necessidades são o fim ou objetivo a conseguir, as estratégias são o meio para atingir esse fim, as preferências são o modo como satisfazer uma necessidade e o desejo é esse mesmo modo projetado no futuro. As necessidades são universais, enquanto que as estratégias não o são, variam de pessoa para pessoa, de geração para geração, de cultura para cultura; de facto, as necessidades não fazem qualquer referência a uma pessoa específica fazer um ato específico, já que isso seria uma estratégia não uma necessidade.

A estratégia ou preferência é um método específico para satisfazer uma necessidade. Quando por exemplo dizemos “necessito do teu amor”, confundimos necessidade com estratégia. Neste caso a necessidade é a de amar e ser amado, o outro é somente a estratégia para satisfazer essa necessidade. É preciso ter em conta que há mil e uma estratégias para a satisfação de cada necessidade.

Confundir necessidade com estratégia, no caso do amor, pode até ser perigoso. “Necessito do teu amor” pode muito bem levar a crimes passionais e ao suicídio. Ninguém é imprescindível, a necessidade de amor pode muito bem ser satisfeita por muitas milhares de pessoas. Confundimos na vida real necessidades com preferências, estratégias e desejos. As necessidades são universais; preferências, estratégias e desejos são individuais ou pessoais e podem variar de cultura para cultura e de geração para geração.

A chave para nos ligarmos, identificarmos e expressarmos as nossas necessidades é concentrarmo-nos em palavras que descrevem a nossa experiência humana comum em vez de palavras que descrevem estratégias específicas para satisfazer essas necessidades. Sempre que incluímos uma pessoa, um local, uma ação, uma vez ou um objeto na expressão do que nós queremos e necessitamos, estamos a descrever uma estratégia, em vez de uma necessidade.  Por exemplo: "Eu quero que venhas à minha festa de aniversário" pode ser uma estratégia particular para satisfazer a necessidade de amor e conexão.

A gramática do amor na CNV
- Amas-me?
- Antes de responder, preciso de saber se estás a usar a palavra amor como sentimento?
- Claro!
- Em CNV é uma necessidade e não um sentimento. Mas uma vez que estamos esclarecidos a respeito disto, pergunta-me outra vez.
- Amas-me?
- Quando?
- Quando?
- Sim porque os sentimentos mudam de minuto para minuto, por isso preciso de saber a que momento te referes
- Hummm…  e se for agora mesmo!
- Não, mas pergunta-me daqui a pouco pode ser que a resposta seja outra
Marshall Rosenberg

Ao longo dos séculos, o amor tem sido apresentado ao mesmo tempo como necessidade, sentimento e ação; por isso, nomeadamente em inglês, a palavra “amor” – (love) pode ser usada simultaneamente como substantivo, verbo ou adjetivo. Em CNV, porém, a mesma realidade não pode ser ao mesmo tempo uma necessidade, um sentimento e uma ação. Os sentimentos são alertas para necessidades satisfeitas quando são positivos e para necessidades insatisfeitas quando são negativos; por outro lado, as ações são requeridas ou motivadas pelas necessidades.

Para a CNV, o amor não é uma ação, porque não é um verbo, mas é uma necessidade que motiva muitos tipos de ações que levam o indivíduo a satisfazer a necessidade de amar e ser amado. Como dizia S. Tomás de Aquino, amar é querer o bem do outro. Neste sentido, o amor traduz-se nas boas obras que os outros nos fazem ou que nós fazemos aos outros.

O amor não é um sentimento porque não é um adjetivo que qualifique um substantivo. Como refere Rosenberg, os sentimentos são voláteis e efémeros; à exceção do luto, não podemos sentir um sentimento por mais de 40 segundos. É claro que o amor envolve sentimentos porque são eles que nos dizem se a necessidade de amar e ser amado está ou não a ser satisfeita. Por exemplo o sentimento de empatia revela que a minha necessidade de amar está a ser satisfeita; pelo contrário, o sentimento de ciúme revela que a minha necessidade de ser amado não está sendo satisfeita.

Concluindo, o amor como necessidade suscita sentimentos, mas não suscita um específico, pois suscita muitos e variados. Leva a pessoa a atuar, mas não a realizar uma única ação específica; os atos de amor são muitos e variados.

Sendo a primeira necessidade humana não física, para a CNV o amor é um substantivo, uma necessidade que, como todas as outras necessidades, busca satisfação. A necessidade de comida, por exemplo, faz-se sentir tanto no nosso psiquismo como no nosso corpo; uma vez sentida, move a pessoa a fazer algo para a satisfazer. Assim é a necessidade de receber amor e a necessidade de dar amor; faz-se sentir no nosso psiquismo de forma a levar a pessoa a fazer obras que satisfaçam tanto uma como a outra; para a criança, o prioritário é ser amado, apesar de já ser capaz de amar, para o adulto o prioritário é amar, apesar de também necessitar que o amem.

O amor é uma necessidade universal e, como tal, não faz referências a uma determinada pessoa fazer uma ação específica. Cada necessidade humana tem mil e uma formas ou estratégias para ser satisfeita. No caso da necessidade de amar e ser amado, em teoria, o mundo tem 7 mil milhões de pessoas que a podem satisfazer. Podendo entrar em colisão com a forma como o amor romântico é conceptualizado, em CNV não confundimos estratégias ou preferências com necessidades.

Portanto as várias formas de satisfazer a necessidade de amar e ser amado, assim como as pessoas por nós escolhidas para satisfazer estas necessidades, pertencem ao âmbito das estratégias ou preferências pelo que, em princípio, nada têm que ver com a necessidade em si.

Expressões como “Estou perdidamente apaixonado por ti”, “Necessito do teu amor”, “Sem ti não sei viver” parecem confundir necessidade com preferência. Mesmo quando estas expressões são genuínas, e mesmo quando, com o passar do tempo, o amor se confunde com a pessoa amada de forma a serem uma única realidade, mesmo aí, e por razões de clareza, o amor é a necessidade, a pessoa amada a preferência; ou seja, em 7 mil milhões de possíveis amantes e destinatários do meu amor, escolho-te a ti, prefiro-te a ti.

Exercícios de reconhecimento de necessidades
Irritas-me quando esqueces documentos da empresa na sala de conferências” – Esta afirmação parece supor que o comportamento do outro é responsável pelos sentimentos de quem a faz; não revela nem os pensamentos nem as necessidades que estão por baixo do sentimento de irritação. Para que tal acontecesse, a pessoa teria de dizer “Fico irritado quando deixas documentos da empresa na sala de conferências porque necessito que os nossos documentos estejam guardados em segurança.”

Sinto-me desapontado porque disseste que o fazias e não o fizeste” – Há aqui uma acusação implícita; para expressar sentimentos e necessidades, o interlocutor teria de dizer, “Quando disseste que o fazias e depois não o fizeste, senti-me desiludido porque tenho necessidade de confiar nas tuas palavras”.

Sinto-me intimidado quando levantas a voz” – Para ser fiel aos seus sentimentos e necessidades, o interlocutor deveria ter dito, “Quando levantas a voz, tenho medo que alguém seja magoado e eu preciso de saber que todos aqui estão em segurança”.

Sinto-me contente por teres recebido aquele prémio - Para expressar os sentimentos e necessidades por trás da afirmação, deveria dizer, “Quando recebeste aquele prémio, senti-me contente porque estava à espera que fosses reconhecido por todo o trabalho que tiveste no projeto”.

Sinto-me agradecido por me teres dado uma boleia pois ontem tinha necessidade de chegar a casa antes dos meus filhos” – Perfeita afirmação de sentimentos e necessidades.
Pe. Jorge Amaro, IMC