15 de abril de 2017

Fátima: Coincidência ou Providência?

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“Kairós” – O momento oportuno
Inspirado num texto publicado por Vittorio Messori, a 14 de dezembro de 2011, no jornal italiano Corriere della Sera, dei-me conta que Fátima é protagonista de inúmeras coincidências, ligadas à sua mensagem e significado para o mundo, durante o século XX. Os menos crentes chamar-lhe-ão meras coincidências; mas, mesmo entre os não crentes, são cada vez mais aqueles que afirmam que nada acontece por acaso, uma frase que com muita frequência vemos no Facebook, aplicada a mil e uma situações existenciais.

Para aquilo que de bom acontece, e não tem explicação plausível, os não crentes chamam-lhe sorte; ao contrário, para o que de mal acontece chamam-lhe azar. O sinónimo de sorte ou azar, para os crentes, é Providência. Os crentes não perdem a cabeça em tempos de sorte, nem se desesperam em tempos de azar, pois sabem que “não há mal que sempre dure nem bem que sempre ature”.

Se até os cabelos da nossa cabeça estão contados, como diz o Evangelho, tudo é Providência divina. Ou seja, tudo o que acontece, de bom ou de mau, é querido ou permitido por Deus, “que escreve direito por linhas tortas”. E para aquele que põe a sua confiança e segurança em Deus, “Não há males que por bem não venham”.

O sim da Igreja a Fátima
O processo eclesiástico, que, para além dos interrogatórios do pároco de Fátima, o Pe. Manuel Marques Ferreira, e do Cónego Manuel Nunes Formigão, constou de uma comissão que instaurou um inquérito canónico oficial para averiguar a veracidade das aparições.

A comissão começou os seus trabalhos no dia 13 de maio de 1922, 5 anos depois do começo das aparições, e acabou no dia 13 de outubro de 1930, exatamente 13 anos depois do encerramento das aparições. Nesse dia, com o conhecimento e aprovação do Papa Pio XI, o então Bispo de Leiria, D. José Correia da Silva, anunciou o resultado da investigação permitindo, oficialmente, o culto a Nossa Senhora de Fátima.

Fátima e os papas
Em plena I Guerra Mundial, a 5 de maio de 1917, o Papa Bento XV exortou a todos os cristãos que pedissem a intercessão de Maria para obter a “aspirada paz para o mundo desvairado”. Tão só 8 dias depois, Maria aparece em Fátima com o seu plano para a paz mundial. Um ano mais tarde, em 1918, o mesmo papa, em carta dirigida aos bispos portugueses para restabelecer a diocese de Leiria, à qual pertenciam os videntes, referiu-se às ocorrências de Fátima como "uma ajuda extraordinária da Mãe de Deus."

No mesmo dia em que a Nossa Senhora apareceu em Fátima pela primeira vez, a 13 de maio de 1917, era ordenado Bispo o Padre Pacelli, mais tarde eleito papa com o nome de Pio XII. Vinte cinco anos mais tarde, quando celebrou o seu jubileu de prata, viu nesta coincidência os secretos desígnios da Providência.

Apesar de não o conhecer pessoalmente, Jacinta amava muito o Santo Padre e por ele rezava todos os dias; numa das suas visões, viu-o muito angustiado, a rezar. Gostava tanto dele, e era tanto o desejo de o ver que, ao observar como tanta gente acorria à Cova da Iria, durante as aparições e depois delas, na sua simplicidade e singeleza, chegou a afirmar: “Vem tanta gente aqui só o Santo Padre é que não vem!”.

Não veio, de facto, durante a sua curta vida, mas veio durante a vida da sua prima. Paulo VI celebrou o cinquentenário das aparições e encontrou-se com a irmã Lúcia, a qual faleceu no dia 13 de fevereiro de 2005. Mas, antes de falecer, 5 anos antes, em a 13 de maio de 2000, assistiu à beatificação dos seus primos Francisco e Jacinta. O então papa, João Paulo II, recordou nesse dia as palavras de Jacinta e agradeceu-lhe o seu amor e as suas muitas orações e sacrifícios pelo papa, quando ele ainda nem tinha nascido.

Atentado do Papa João Paulo II
No mesmo dia e na mesma hora em que o papa João Paulo II foi baleado, a 13 de maio de 1981, 64 anos antes, aparecia a Nossa Senhora em Fátima. Não é segredo para ninguém que a bala foi disparada pela União Soviética, pelo apoio que o papa dava à organização sindical “Solidariedade”, que, na altura, atuava como um cavalo de Tróia dentro do Império Soviético, e que acabaria por ser a sua ruína. Não foi a União Soviética que prevaleceu, mas a Nossa Senhora de Fátima que, milagrosamente, desviou a bala, no entender do papa.

Das três balas disparadas contra o papa João Paulo II, duas não provocaram lesões graves. Os estragos causados pelo terceiro projétil foram bem maiores. A bala perfurou o abdómem do papa, atingiu o intestino grosso e o intestino delgado, resvalou pelo osso sacro - a penúltima parte da coluna vertebral - e saiu pelas costas.

Nesse percurso, a bala passou a providenciais centímetros de órgãos vitais, em especial a artéria aorta. Se essa artéria fosse atingida, é improvável que Karol Wojtyla sobrevivesse à corrida entre a Praça de São Pedro e o Policlinico Agostino Gemelli, onde chegou abalado por uma intensa hemorragia, prontamente neutralizada por uma transfusão de 3 litros de sangue e uma cirurgia que consumiu cinco horas e meia.

João Paulo II que, até aquele momento, apesar de amante fervoroso de Maria, à qual se referia o seu moto “Totus Tuus”, ainda não tinha manifestado grande interesse por Fátima, acabou por visitá-la um ano depois, em 1982, para agradecer a Maria que o tinha protegido. João Paulo II visitou duas vezes mais Fátima, porque se deu conta que ele era o papa do segredo; o segredo que os seus antecessores leram e mantiveram guardado.

O papa João XXIII ficou tão sensibilizado com ele que o manteve sempre no seu quarto de dormir, mesmo depois de ter afirmado estar convencido de que o segredo não se referia nem a ele nem ao seu pontificado.

O conhecimento que os pastorinhos tinham do seu futuro
Sim, a Jacinta e o Francisco levo-os em breve. Mas tu ficas cá mais algum tempo. Jesus quer servir-se de ti para Me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. Aparição do dia 13 de junho

Logo na segunda aparição, anos antes, quando ainda gozavam de perfeita saúde, os pastorinhos já conheciam o que os esperava: que Francisco e Jacinta em breve morreriam e que a Lúcia ficaria ainda por mais um tempo, para ser testemunha da mensagem de Fátima e propagar a devoção ao Imaculado Coração de Maria.

Mais ainda, em aparições privadas da Nossa Senhora, a Jacinta soube, com antecedência, tudo sobre as circunstâncias da sua morte: o dia e a hora; que iria para dois hospitais, para sofrer mais, mas não se curaria; que, para o hospital de Lisboa, seria acompanhada pela sua mãe, que a deixaria lá sozinha; o que mais a torturava foi o saber que nunca mais iria ver a sua querida amiga Lúcia e morreria sozinha.

Coroa de glória e coroa de espinhos
A coroa da Nossa Senhora de Fátima é de ouro puro, pesa 1200 gramas e está adornada com 950 diamantes, 313 pérolas, uma esmeralda grande, 13 esmeraldas pequenas, 33 safiras, 17 rubis, 260 turquesas, uma ametista e quatro águas-marinhas. Estas jóias foram oferecidas por centenas de portuguesas, para agradecer o facto de Portugal não ter entrado na Segunda Guerra Mundial.

Quando o papa João Paulo II doou a bala para ser colocada na coroa, em primeira análise não sabiam onde colocá-la; foi, por isso, com surpresa, que a joalharia que fez a coroa de Nossa Senhora de Fátima, em 1942, descobriu que a bala que atingiu João Paulo II tinha precisamente o mesmo diâmetro da anilha que une as hastes do diadema; aí foi, portanto, colocado o projétil, quase meio século depois; quando a coroa foi feita ela já continha, naquele momento presente, o lugar do futuro.

A suntuosa coroa, fruto do trabalho e do amor dos Portugueses por Maria, estava incompleta; faltava-lhe ainda uma pérola, a bala que atingiu o papa, e, providencialmente, o lugar que esta iria ocupar esteve sempre lá à sua espera. Ao ser colocada no seu lugar, a coroa de glória passa a ser também a coroa de espinhos e, assim, condiz mais com a vida da Nossa Senhora e com a vida à qual todo o cristão está chamado, à glória pela via da cruz, do sofrimento, representado na bala.

Fátima e Rússia
Se atenderem aos meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz, se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja, os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim o meu Imaculado Coração triunfará. 13 de julho 1917.

Três meses depois de a Nossa Senhora ter dito isto aos pastorinhos, Lenine faz-se com o poder na Rússia e começa a revolução bolchevique, que iria aniquilar as nações vizinhas, transformando-as, com a Rússia, na grande nova Babilónia, a União Soviética.

Quantos exércitos tem o papa?” – perguntou, no seu tempo, Estaline, para ridiculizar o potencial político e militar do Vaticano. A história demonstrou que quem se ri no fim ri-se melhor, o poder espiritual é bem mais potente que o militar, pois o ser humano é, ante tudo, espiritual e os motivos espirituais, até mesmo negativamente, como força motriz de comportamento, são sempre mais fortes que a ganância e todos os outros motivos mundanos e terrenos.

Por fim, (disse Maria em Fátima) o meu Coração Imaculado triunfará, com efeito, no fim o sentimento religioso, a crença em Deus, triunfou sobre o ateísmo iluminista e racionalista; a fé triunfou sobre a razão, tanto na Rússia, como em Portugal e no mundo inteiro.

Isto mesmo disse, a 10 de maio de 1985, numa visita a Portugal, o presidente norte-americano Ronald Reagan, de certo inspirado por Deus, afirmou: “Atrevo-me a sugerir que é no exemplo de homens como ele (referindo-se ao Papa João Paulo II) e nas orações de pessoas de todo o mundo – pessoas humildes como os pastorinhos de Fátima – que reside um poder maior de que todos os grandes exércitos e estadistas do mundo”. Dois anos depois, era assinado o primeiro tratado de desarme nuclear entre os Estados Unidos e a URSS.

O Azul de Maria prevalece sobre o vermelho
Retirada do Exército vermelho da Áustria - O dia 13 de maio 1955 – Depois de longos 10 anos de campanha, promovida pelo sacerdote Franciscano Petrus Pavlicek, que constava em inúmeras e constantes procissões e a reza do rosário em público um pouco por todo o país, sobretudo em Viena. Ante este protesto silencioso, pacífico, mas proactivo, dos austríacos, a Rússia retirou-se da Áustria, que tinha ocupado desde 1945.

A bandeira da Comunidade Europeia - A 8 de dezembro do mesmo ano, 1955, também, na festa da Imaculada Conceição da Virgem Maria, foi eleita como a bandeira do Conselho da Europa, a que hoje representa a União Europeia. Azul é a cor da Virgem Maria e as estrelas são aquelas que rodeiam a cabeça da mulher do Apocalipse, em que a tradição reconhece Maria.

O fim da União Soviética - Por fim, no mesmo dia 8 de dezembro de 1991, na mesma festa da Imaculada Conceição, 74 anos depois de Maria ter dito em Fátima que, por fim, o seu Imaculado Coração triunfaria, a Rússia, a Ucrânia e a Bielorrússia assinaram um documento que punha fim à União Soviética. Na noite de Natal desse ano, a bandeira vermelha, com a foice e o martelo, foi retirada para sempre da cúpula mais alta do Kremlin e, em seu lugar, foi hasteada a bandeira tricolor do Império de Pedro, o Grande.

Consagração da Rússia ao Imaculado Coração - Uma das petições de Maria, ou condições para que a Rússia se convertesse, foi que o papa a consagrasse ao seu Imaculado Coração. Depois de inúmeras consagrações incompletas, desde o Papa Pio XII, em que o nome Rússia nunca era nomeado, finalmente o Papa João Paulo II, no dia 25 de março de 1984, fez uma consagração que encontrou aceitação perante a vidente Lúcia.

Dois anos depois subia ao poder Mikhail Gorbatchov, que iniciou uma série de reformas sociais e políticas, uma das quais acabava de vez com a perseguição religiosa e o ateísmo militante. A estas reformas ele mesmo deu o nome de Perestroika, conversão em russo.

O muro de Berlim - O muro que durante anos dividiu as duas Alemanhas começou a ser construído pela Republica Democrática da Alemanha, no dia 13 de agosto de 1961. A sua demolição começou, oficialmente, no dia 13 de junho de 1990 e foi completada dois anos depois.

Não poucas são as coincidências entre Fátima e vários factos históricos que aconteceram no passado século XX. Quando são muitas casualidades, e quando todas elas apontam na mesma direcção, não pode não haver uma intenção deliberada. Em Fátima e por meio de Fátima, a Divina Providência interveio no século mais belicoso da história da humanidade.
Pe. Jorge Amaro, IMC


1 de abril de 2017

Fátima: Intervenção Sociopolítica

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Fátima é o maior acontecimento religioso da primeira metade do século XX, uma explosão transbordante do sobrenatural neste mundo enleado na matéria. Paul Claudel – Poeta Francês, dramaturgo e diplomata

Fátima - a mais política de todas as aparições marianas. Clodovis Boff – Teólogo, filósofo e professor

A pintura e a escultura, ao longo dos tempos, têm-nos habituado a uma imagem estereotipada de Maria como “humilde serva de Sião”, passiva, de rosto sereno e calmo, que, em vez de falar abertamente e expressar os seus pensamentos e sentimentos, guarda as coisas no seu coração (Lucas 2, 19). Não negamos que tudo isto seja verdade, mas é só uma faceta da sua personalidade.

Não sei por que razão, ao largo dos séculos, a outra cara de Maria nunca foi pintada nem esculpida; a mulher do Magnificat que, a plenos pulmões, cheia de energia, quase contradizendo o paradigma antes descrito, proclama: “manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias.” Lucas 1. 51-53

Maria pro ativa – Quando recito estes versos, a imagem que me surge na mente tem mais parecido com a Padeira de Aljubarrota ou com a mulher de peito nu, empunhando a bandeira diante das tropas da tomada da Bastilha, que aquela a que a Igreja nos tem habituado. Admito a exageração, sobretudo por causa do elemento violento implícito nas duas imagens da minha fantasia; mas também há exagero na figura estereotipada, pelo que a verdade seja um misto das duas figuras. Uma Maria, obviamente não agressiva, mas mais proativa que passiva.

Sendo a aparição de Nossa Senhora em Fátima, a mais política de todas as aparições, como diz Boff, até para verificar a autenticidade das aparições de Fátima, era mister encontrar alguma manifestação política na figura bíblica de Maria. Pelo Magnificat podemos concluir que Fátima não foi a primeira vez que Maria “se meteu na política”. Assim sendo, a mensagem de Fátima é verdadeiramente revolucionária ao estilo do Magnificat, e revela-nos a outra cara de Maria, a da intervenção sociopolítica, como pré-anúncio do Reino de Deus que o Seu filho veio trazer ao mundo.

Em Fátima, Maria, mãe da Igreja, mãe da vida, visita os seus filhos com uma mensagem de vida e de paz, para um mundo imerso na guerra, na morte genocida e ideológica; vem anunciar que Deus continua vivo e bem vivo, a todos aqueles que o proclamaram morto, como o filósofo Nietzsche no materialismo ideológico e histórico, assim como no ateísmo militante que, partindo da Rússia, se alastrou pelo mundo inteiro.

Em Fátima, Maria visita o seu povo como outrora visitou a sua prima Isabel; pede aos pastorinhos que se ofereçam e participem com Deus no projeto de salvação do mundo, vítima de si mesmo, do seu racionalismo e niilismo cruel e sem coração, que causou os horrores da guerra e a crueldade da tortura e o irracionalismo das perseguições e genocídios étnicos e religiosos do século XX. E, a título de esperança, para consolar os seus filhos nas horas amargas, deu-lhes a certeza de que, no fim, o seu coração imaculado triunfaria.

(…) coloco hoje diante de ti a vida e o bem, a morte e o mal. Deuteronómio 30, 15. Tal como Moisés, Maria, em Fátima, coloca lado a lado a esperança e a ameaça, a salvação e a ruina, a promessa e o aviso, a graça e o juízo e, ainda tal como Moisés, insta-nos a optar pelo bem e pelo caminho do Evangelho para sair dos horrores nos quais o mundo se tinha metido.

O contexto histórico e social das aparições
 As duas guerras mundiais – Na primeira guerra mundial morreram cerca de 12 milhões de pessoas, na segunda 60 milhões. Nunca nenhuma guerra anterior tinha dizimado tantas vidas, se pensamos também no número de feridos, que duplica estes números e dos quais muitos ficaram deficientes o resto da vida.

Os totalitarismos, Nazista, Fascista e Comunista, com os seus genocídios, limpezas ideológicas étnicas e religiosas – Aos mortos na guerra, somamos os milhões de vítimas dos regimes totalitaristas que, a escala nunca antes vista, praticaram limpezas étnicas, como o extermínio dos Judeus nos campos de concentração nazis, as limpezas ideológicas comunistas praticadas nos Gulags siberianos e os torturados e desaparecidos dos fascismos europeus e latino-americanos.

O ateísmo militante comunista e a perseguição religiosa – na antiga União Soviética e países satélites pertencentes ao Pacto de Varsóvia; China, Cuba, onde ainda não existe liberdade religiosa, e os vários países africanos comunistas de orientação chinesa ou soviética, durante décadas, o ateísmo militante impôs-se, perseguindo os que se manifestavam religiosos. Segundo Eloy Bueno, no seu livro a Mensagem de Fátima, o número de mártires do século XX acende a 26.685.000

O armamento nuclear e a guerra fria – Com a bomba atómica que os Estados Unidos lançaram sobre as cidades de Hiroxima e Nagasaki, seguiu-se uma escalada de armamento nuclear que fazia uma ameaça constante para a Paz mundial. Ao fim da guerra fria, havia armas nucleares capazes de destruir o mundo, não uma, mas dez vezes.

Neste contexto lúgubre e tenebroso, antes de acabar a primeira guerra mundial, anunciando a segunda como pior que a primeira, deixando antever a possibilidade de uma terceira no segredo, surge Fátima como luz da paz que é possível; como um chamamento à conversão da Rússia, de uma forma especial, por ser responsável do ateísmo ideológico e militante mas, de uma forma geral, de todos os pecadores para os tirar do inferno, não tanto daquele inferno que os pastorinhos viram em visão, mas no inferno em que a vida dos homens se tinha tornado.

"Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; fazei penitência e crede no Evangelho." Marcos 1, 15

“Para grandes males, grandes remédios” - Com a mesma urgência de Jesus no inico da sua pregação, por Maria em Fátima no ano de 1917, Deus intervém, direta e visivelmente, na história humana para reorientá-la para Cristo seu filho. Ajuda e protege os agentes do Evangelho da paz e do bem e pede a três crianças que se ofereçam pela conversão dos pecadores, da Rússia e pela paz no mundo.

A tríade de conversão, penitência e oração é ao mesmo tempo o centro do Evangelho e o núcleo da mensagem de Fátima. Assim sendo, podemos dizer que Fátima ecoa no dramático e negro século XX a mensagem do Evangelho de há dois mil anos.

“O meu Coração Imaculado triunfará”
Fátima em 1917 pode ser vista como o prolongamento de Lourdes em 1958, quando a Nossa Senhora se apresentou a Santa Bernardete como sendo a Imaculada Conceição, dogma que Pio XI proclamara anos antes e que Bernardete desconhecia o significado.

O ser humano é mente e coração, os racionalismos exagerados do seculo XX levaram aos horrores das guerras e genocídios que foram perpetrados por gente sem coração. Deus é Pai e é Mãe, é homem e mulher. Se Jesus representa a Deus como Pai e homem, pois como Ele disse a Filipe, quem me vê a mim vê o Pai, Maria, a mãe de Jesus, representa a Deus como mulher e mãe.

Por isso, a um mundo de excessivo machismo e racionalismo frio e cruel, tinha Deus que enviar uma mulher, Maria, para que as mulheres deixassem de permanecer em casa com a perna quebrada como mães e domésticas e se juntassem aos homens no comando dos destinos políticos do mundo.

Para que trouxessem à politica e à vida social o seu coração sensível e feminino. Pois o coração, como diz Pascal, tem razões que a razão desconhece. E é precisamente a isto que temos vindo a assistir no mundo ocidental e um pouco no resto do mundo, depois da segunda metade do século XX.

O feminino e o masculino são como as duas ases de um pássaro; um pássaro a voar com uma só asa voaria em círculos, e em círculos viciosos de facto tem a humanidade voado até aqui, repetindo os mesmos erros uma e outra vez, de geração em geração. A nossa esperança é que com a mulher ao lado do homem dando o seu contributo em todas as células da atividade humana, o mundo se torne mais humano. O século XX foi um século de demasiado cérebro e demasiado pouco coração. Um mundo mais inclusivo, não só das mulheres, mas também dos homossexuais e outros de certo será um mundo melhor.

O Imaculado Coração de Maria triunfará - Um coração imaculado sempre triunfa; quando a política é feita com coração - com generosidade, compaixão misericórdia, com amor - e não só com a razão. Quando este coração é puro e imaculado, sem a podridão da corrupção, da malícia e do interesse mesquinho e egoísta, então haverá igualdade e paz no mundo quando triunfe o coração sobre a razão e a pureza sobre a corrupção.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de março de 2017

Fátima: Que viram os pastorinhos?

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Uma senhora, vestida de branco, mais brilhante que o sol
Tinha um vestido branco, e um cordão de oiro ao pescoço até ao peito ... A cabeça estava coberta por um manto branco, também, muito branco, não sei, mas mais branco que o leite . . . e tapava-a até aos pés ... era todo bordado de oiro .... Aí que bonito! ... tinha as mãos juntas, assim, - e a pequena levantava-se do banquito, juntava as mãos à altura do peito a imitar a visão.
Jacinta

Jacinta, mais expansiva e sensível à beleza, não conseguia conter dentro de si a alegria sobrenatural que a inundava e não parava de exclamar: “Aí, que Senhora tão linda! Ai, que Senhora tão bonita!” Era alegria demasiado grande para permanecer num peito tão pequeno pelo que não tardou em dize-lo à sua mãe que se mostrou incrédula. Porém o seu pai, o Sr. Marto desde o primeiro momento acreditou, pois, conhecendo bem os seus filhos, sabia que nunca mentiriam amantes da verdade como eram.

Como podemos então conceptualizar as aparições, tanto as do anjo que se deram um ano antes a modo de preparação e as de Nossa Senhora de Maio a Outubro de 1917?

Aparição ou visão?
A teoria da autossugestão diz que, num ambiente em que as pessoas esperam que haja aparições haverá aparições. Não enquadram as aparições de Cristo ressuscitado aos apóstolos, nem a do mesmo a Paulo de Tarso, nem as aparições marianas aprovadas pela Igreja. Comum a todas estas é que a “aparição” apanha os videntes de surpresa.

Também não é uma visão, pois esta é sempre privada, e é expressão de uma forte experiência religiosa, sem público e sem uma mensagem para os outros",; por outro lado implica uma experiência religiosa anterior, frequentemente é um fenómeno místico que implica um longo processo de ascese.

Ao contrario da visão, a aparição é sempre profética, pois está confinada a um lugar e tempo específico, (Fátima Lourdes ou Guadalupe) há testemunhas desde o primeiro momento; há sempre uma mensagem profética para o tempo e para o lugar, e é sempre acompanhada de fenómenos, ou milagres que não têm uma explicação científica.

Foi, portanto, uma aparição a experiência dos pastorinhos em Fátima, mas foi esta como a de Cristo ressuscitado aos apóstolos? Partimos do principio de que a humanidade transfigurada de Jesus Cristo, o Seu corpo glorioso após a sua ressurreição e ascensão ao céu nunca mais se manifestou diretamente na terra na sua realidade corpórea como O viram os apóstolos. O mesmo pode ser dito em relação a Maria Sua mãe. Assim sendo os pastorinhos não tiveram uma visão de Maria na sua realidade corpórea, mas sim uma visão imaginativa, uma fantasia, uma alucinação. Jacinta de facto, num dos interrogatórios, referiu que a Senhora tinha pouco mais que um metro de altura.

Recordamos o princípio tomista: Quidquid recipitur ad modum recipientes recipitur. Para explicar o facto de que na ultima aparição enquanto a multidão estava entretida com o milagre do sol, os pastorinhos viram parte da corte celestial imaginada a seu modo: assim viram São José com o menino Jesus nos braços, a Nossa Senhora das Dores, Jesus Cristo abençoando o mundo e, por fim, a Nossa Senhora do Carmo.

Rejeitamos a presunção mesquinha de que tudo o que não é natural ou “normal” é patológico; os génios não são normais e, no entanto, não são patológicos. A Igreja, antes de permitir ou apoiar quaisquer aparições observa os seguintes critérios: 1. A mensagem está de acordo com o Evangelho e a doutrina da Igreja; 2. Os videntes gozam de perfeita saúde física e mental; 3. Os videntes são honestos e humildes e a sua vida é exemplar do ponto de vista espiritual e moral.

Alucinação divina
Assim qualificamos a experiência dos pastorinhos de Fátima. Alucinação, porque a Nossa Senhora não apareceu real e objetivamente; se assim tivesse sido, todos os presentes a teriam visto; divina, porque não foi provocada pela mente hipoteticamente doentia dos pastorinhos, porque eram perfeitamente sãos mentalmente, mas sim por Deus, para por intermédio deles, fazer passar uma mensagem para Portugal e o mundo inteiro.

A alucinação é uma perceção que ocorre na ausência física ou corpórea do objeto percebido; à semelhança do que ocorre com os sonhos noturnos, cuja sensação de realidade é tão viva que só ao despertar nos damos conta de que não era real. Portanto, no caso dos videntes de Fátima eles aperceberam-se da presença de Nossa Senhora sem ela estar realmente ou corporeamente presente.

Que há então de sobrenatural nesta experiência? O sobrenatural está no facto de que não foram os pastorinhos que se autoinduziram a esta experiência, mas sim foi causada por Deus. Este é de facto o critério principal para a sua autenticidade. Os pastorinhos não causaram a experiência, não a buscaram e nada fizeram para a ter é aqui que se situa o âmbito da intervenção divina assim como depois no conteúdo da mensagem que de modo nenhum podia ter sido por eles inventada, dada a sua condição de rudes e ignorantes, como os define o Cónego Manuel Formigão.

Não digo que seja a última palavra sobre o assunto; o que me faz ter a certeza de que as crianças experimentaram algo sobrenatural, é que, em conformidade com todas as pessoas que tiveram este tipo de experiências, as suas vidas mudaram radical e dramaticamente. Os videntes não só tiveram uma aparição e ouviram uma mensagem, eles encarnaram e viveram essa mensagem o resto das suas vidas.

A visão do inferno
Quidquid recipitur ad modum recipientes recipitur. Sto. Tomás de Aquino
O que é recebido, é recebido segundo a capacidade do recebedor. Este princípio tomista ajuda-nos a entender e conceptualizar as visões e no caso de Fátima é fundamental para a explicação da visão do inferno.  Quando a Nossa Senhora lhes mostrou o inferno não lhes podia mostrar a realidade verdadeira do inferno tal qual ele é. Seria como colocar o mar dentro de um buraco na areia, parafraseando o conto de Sto. Agostinho na compreensão do mistério da Santíssima Trindade.

O que os pastorinhos viram foi a recriação, na sua mente de todas as pregações que até ali tinham ouvido dos padres que, naquele tempo não se cansavam de amedrontar as pessoas com o fogo do inferno; também as representações gráficas em pagelas e nas “alminhas” que ainda hoje abundam à beira dos nossos caminhos.

Mais uma vez que há de revelação divina nesta experiência? De certo não a forma como as crianças viram o inferno, mas a ocorrência da visão, provocada pela Senhora.  Portanto, a experiência em si, foi provocada pela Nossa Senhora, a forma como essa experiência foi vivenciada pelas crianças tem que ver com a capacidade de compreensão destas e com a forma com que elas imaginavam o inferno com a ajuda da catequese e pregações. Parafraseando o principio tomista, o que as crianças viram, viram-no segundo os arquétipos e as imagens da sua mundividência.

O milagre do sol
Depois de tanto sofrer pela incredulidade e pelas pressões da sua mãe e pároco para que desmentisse as aparições, na aparição de 13 de Julho, Lúcia pediu à Senhora que fizesse um milagre “para que todos acreditem que Vossemecê nos aparece”. A Senhora prometeu que o faria e renovou a promessa a 19 de agosto e a 13 de setembro. E foi assim que uma grande multidão de pessoas se reuniu na Cova da Iria a 13 de outubro:

E, precisamente na hora vaticinada em julho - às 12h; -, algo de espantoso começa. Inesperadamente - porque uma chuva torrencial enchera de lama a Cova da Iria -, a Lúcia diz à multidão para as pessoas fecharem os guarda-chuvas (…) (nisto) o sol tremeu, o sol teve nunca vistos movimentos bruscos, fora de todas as leis cósmicas, - o sol bailou, segundo a típica expressão dos camponeses…

«Era como um globo de neve a rodar sobre si mesmo» (Padre Lourenço)

«Este disco tinha a vertigem do movimento. Não era a cintilação de um astro em plena vida. Girava sobre si mesmo numa velocidade arrebatada.» (Dr. Almeida Garrett)

«A certa altura, o sol parou e depois começou a dançar, a bailar; parou outra vez e outra vez começou a dançar» (Ti Marto)

«Uma luz, cujas cores mudaram dum momento para o outro, refletiu-se nas pessoas e nas coisas» (Dr. Pereira Gens – que o viu a 40 Km de Fátima)
Jornal O Século (diário liberal, anticlerical e maçónico de Lisboa)

Testemunhas são também as fotografias tiradas nesse dia nas quais se vê, primeiro como chovia torrencialmente e depois toda uma multidão olhando para o sol. Não seria possível haver tanta gente ao mesmo tempo a olhar para o mesmo lugar se aí não houvesse nada que captasse a sua atenção.

Mais uma vez repetimos algo aconteceu, não nada, e desta vez algo que tinha sido anunciado três meses antes e que acontece no dia e na hora indicada. O fenómeno foi testemunhado desta vez não só por pobre analfabetos e rudes e toscos ignorantes, mas também por professores padres médicos e catedráticos de universidade. Que aconteceu então?

De todas as explicações para este fenómeno a que nos parece mais plausível é a do físico e monge beneditino Stanley Jaki (1924-2009) professor onde Einstein também o foi em Princeton, New Jersey, que se deu ao trabalho de vir a Portugal para inquirir alguns dos que presenciaram o fenómeno (1924-2009). Isto foi o que concluiu:

Trata-se de um raríssimo fenómeno meteorológico, resultante da convergência e interação entre nuvens do tipo cirro (a altas altitudes, constituídas por cristais de gelo), com nuvens de baixa altitude (feitas de partículas de água em estado líquido), em interação com ventos que faziam rodopiar as partículas de água e gelo numa roda espiralada, que por sua vez gerou em simultâneo um feixe de cores cintilantes (resultantes da refração dos raios solares nas partículas de água e gelo) e um raro efeito de “lente”, que explica a estupefação das pessoas na Cova da Iria, que achavam que o Sol, aparentando aumentar de tamanho, se iria precipitar sobre elas.. Stanley L. Jaki, God and the sun at Fatima, Real View Books, 1999.

Se não foi um fenómeno astronómico, se o sol não dançou nem as leis da física foram violadas, mas apenas se tratou de um fenómeno meteorológico raro, mas possível, onde está então o milagre? O milagre está no facto de ter sido previsto pelos pastorinhos, 5 meses antes, e de ter sido indicado por Lúcia, o dia e o exatíssimo momento em que iria acontecer assim como aconteceu.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de março de 2017

Fátima: Como se "impôs" à Igreja?

1 comentário:

Na Celebração do cinquentenário das aparições, a 13 de maio
de 1967, depois da missa o povo gritou ao papa Paulo VI que 
queria ver a Lúcia…
«Não foi a igreja que impôs Fátima, foi Fátima que se impôs à Igreja» Cardeal Cerejeira, em 1943

A Igreja não declara nem nunca declararia Fátima com a infalibilidade de um dogma. O que ali aconteceu ocorreu num âmbito intermédio entre o natural e o sobrenatural, portanto, como tudo em matéria de fé, não pode ser demonstrado de uma forma plenamente convincente ao pensamento racional, como também não pode ser demonstrado o contrário. A Igreja limita-se a declarar que o que aconteceu pode ser aceite com uma certeza razoável, e plausível; como aliás sempre acontece em matéria de fé. A fé nunca pode ser racional ou racionalizada, só pode ser e sempre tem de ser razoável.

Fátima fez um caminho longo e árduo até ser aceite pelas autoridades eclesiásticas e tolerada pelas autoridades civis. Um caminho onde certamente mais que uma vez interveio Deus para que não fosse ignorada. Sim Deus, pois os três pastorinhos não fazem apologia do seu testemunho e de alguma forma, pelo que se desprende dos interrogatórios aos quais foram submetidas, pouco lhes importa que acreditem ou não na sua palavra

Voz do povo voz de Deus
O povo continuava a afluir a Fátima às centenas de milhar: mesmo depois da morte de Francisco em 1919 e de Jacinta em 1920; apesar de ser ridicularizado nos jornais laicos, obstaculizados pelas autoridades civis, a ponto de dinamitarem a capela que ali tinha sido construída; em suma desde que Jacinta contou à sua mãe, as multidões juntavam-se às centenas de milhar.

Porque Jacinta não foi capaz de manter a aparição de 13 de maio em segredo nas restantes aparições, nos dias 13 de cada mês até à última no dia 13 de outubro, as crianças nunca mais estiveram sozinhas. No dia 13 de junho, estavam com elas cinquenta pessoas; em 13 de julho, de duas a três mil; no dia 13 de agosto, apesar dos videntes terem sido postos na prisão, 18.000 reuniram-se no lugar das aparições; nesse mesmo mês, os videntes viram a Senhora no dia 19, nos Valinhos, depois de serem libertadas da prisão. No dia 13 de setembro, era já uma multidão de 30.000 pessoas e no último, a 13 de outubro, cerca de 70.000 presenciaram o bem anunciado e esperado milagre, como a senhora tinha prometido a Lúcia três meses antes, no dia 13 de julho.

Não era só a fé que levava as pessoas a acorrerem em massa à Cova da Iria desde a segunda aparição, mas a participação na mesma aparição que começava sempre pelo rezar do terço liderado pela Lúcia. é certo que só os videntes viam a Nossa Senhora e entre eles, só a Lúcia falava com ela, mas o resto do povo também experimentava algo...

Todos são unânimes em dizer que ao meio dia solar de cada dia 13, incluído o 13 de Agosto em que as crianças estavam ausentes por terem sido detidas pelas autoridades, a luz do sol diminuía de intensidade, corria um ar fresco e uma pequena nuvem descia sobre a azinheira onde os pastorinhos diziam que a Nossa Senhora se pousava.

No decorrer das aparições viam a Lúcia em êxtase e ouviam-na a falar; em resposta às suas perguntas ouviam como um “zumbido de abelhas”. A Lúcia avisava sempre quando a visão terminava dizia que a Nossa Senhora se estava retirando para o Oriente desde onde sempre surgia.

Um dia a Jacinta cortou um raminho da azinheira onde a Nossa Senhora tinha pousado o Seu pé e todos os que o cheiraram deliciaram-se com um perfume desconhecido. Por fim o milagre do sol selou para o povo a autenticidade de Fátima que, desde então, é visitada às centenas de milhar e até milhões.

“Voz do povo voz de Deus”. - Quem defendeu e promoveu Fátima, impondo-a à Igreja perplexa e prevalecendo sobre as investidas insidiosas do republicanismo ateu, anticlerical e maçon, foi o povo simples, que ali começou a afluir aos milhares logo após a primeira aparição. Sem este, Fátima teria sido ignorada e esquecida. Uma vez mais se verifica o paradigma da Bíblia:  os ignorantes confundem os sábios. Mateus 11, 25

Aqueles que afirmam gratuitamente que foi a Igreja que criou Fátima, ignoram a documentação histórica que prova precisamente o contrário. Fátima só foi aprovada em 1930 depois de 13 longos anos de investigação. A relutância inicial da Igreja, em relação a Fátima é notória no testemunho do Pe. Lacerda diretor de um Jornal da época “O Mensageiro”, acerca do pároco de Fátima, em que afirma:

Como ultima nota elucidativa devo dizer que o pároco da Fátima, o meu amigo Pe. Manuel Marques Ferreira, se conservou sempre alheio a tudo, levando o seu proceder a nunca ter ido á Cova da Iria no dia das aparições. Só a muitos rogos lá foi no ultimo dia”.

Ainda acerca do pároco de Fátima, o Sr. Marto, o pai de Francisco e de Jacinta, e, ao contrário da mãe de Lúcia, o primeiro em acreditar na palavra dos seus filhos, refere que o Sr. Prior não acreditava e não deixava a gente acreditar. A incredulidade do pároco, explica e influencia a relutância da Sra. Maria Rosa, mãe da Lúcia, a admitir, quase até ao fim da vida, a graça que a Virgem concedeu à filha, amargando a vida desta.

Foi o povo que acorria à Cova da Iria aos milhares que manteve a chama de Fátima bem viva para obrigar as autoridades civis a respeita-la e as eclesiásticas a tomar uma posição favorável. O que aconteceu precisamente no dia 13 de maio de 1922, o dia em que D. José Alves Correia da Silva, bispo de Leiria, publica a “Provisão sobre os acontecimentos da Fátima”.

Nela resume os acontecimentos ocorridos em Fátima nos últimos anos, salientando precisamente a enorme adesão popular, apesar das perseguições das autoridades civis e do alheamento das autoridades religiosas, e nomeia uma Comissão, para estudar os acontecimentos extraordinários segundo as leis canónicas.

Apela, ainda, aos fiéis da sua e outras dioceses que “dêem conta de tudo quanto souberem quer a favor quer contra as aparições ou factos extraordinários que lhes digam respeito, e testifiquem especialmente se nelas houve ou há qualquer exploração, superstição, doutrinas ou cousas deprimentes para a nossa Santa Religião”. 

Como foram encaradas as aparições pelas autoridades
Não é verosímil que três crianças de tão tenra idade, (…) rudes e ignorantes, mintam e persistam na mentira durante tantos meses, posto que sejam obsidiadas com perguntas e interrogatórios (…) e ameaçadas pelo representante da autoridade eclesiástica e civil (…) Nenhum temor é capaz de demovê-las de afirmar que vêem Nossa Senhora (…) A naturalidade e franqueza com que se expressam, a simplicidade e candura com que se manifestam, a indiferença e desinteresse que mostram quanto ao facto de se lhes prestar ou não crédito. – Documentação critica de Fátima

Esta é a conclusão a que chega o Cónego Manuel Nunes Formigão, depois de inúmeros interrogatórios levados a cabo por ele, pelo Pároco de Aljustrel e Fátima, o Pe. Manuel Marques Ferreira, e outros clérigos. Todos eles muito críticos e até sarcásticos, mas nunca fizeram mal às crianças embora às vezes os interrogatórios levavam-nas à exaustão, especialmente no dia do milagre do sol, depois deste ter ocorrido.

Menos condescendentes, foram as autoridades civis quando chegaram ao extremo de as submeter à tortura psicológica.  Anunciaram aos pequenos que no quarto ao lado os aguardava uma caldeira de azeite a ferver-se não se retratassem. A primeira a ser interrogada foi a Jacinta, seguida do Francisco e da Lúcia. Um a um, os três entraram na câmara aterradora na certeza de que seriam fritos em azeite; o Francisco pensando que a sua querida irmã já estava morta, a Lúcia pensando que os seus queridos amigos e primos já estavam no Céu, como a Senhora tinha prometido que cedo os levaria.

A esta tortura há que juntar a pressão constante do povo; uns que ameaçavam outros que ridiculizavam outros ainda que lhes prometiam mundos e fundos se lhes revelassem o segredo. Era impossível que as crianças aguentassem tanto se não houvesse nada e que o que acontecia todos os meses no meio de tanta gente fosse apenas teatro. Abalados por todas as ameaças, os pais da Jacinta pensaram afastar as crianças de Fátima. Mas estes recusaram dizendo: ‟Se nos matam, não faz mal! Iremos mais rapidamente para o céu!”

Para o dia 13 de outubro esperavam-se grandes multidões, pois a Lúcia desde a aparição do dia 13 de julho disse que a Senhora ia fazer um milagre que para que todos acreditassem. Um dia antes, a pressão e a tensão era tanta nas famílias dos videntes que logo de manhã, a mãe da Lúcia sugeriu à filha que se fossem confessar pois iam-nos matar a todos se o milagre não se realizasse. 

Calmamente e cheia de convicção, a Lúcia consolou a mãe dizendo-lhe que se podiam ir confessar, se a mãe se quisesse, mas ela tinha certeza que a Senhora iria realizar o milagre pois não só tinha prometido como tinha renovado, a promessa nas aparições de agosto e setembro.

Sozinhas contra tudo e contra todos só a divina providência lhes valeu, pois também os seus familiares mais chegados, especialmente os de Lúcia, contribuíam para o seu sofrimento ao considerá-las mentirosas.

Estavam certamente dispostas a pagar com a suas vidas o testemunho que deram, porque não só proclamaram a mensagem da Nossa Senhora como elas mesmas a encarnaram nas suas vidas.  (… vão deitar-vos as mãos e perseguir-vos, (…) metendo-vos nas prisões; (…) assim, tereis ocasião de dar testemunho. (…) não vos deveis preocupar com a vossa defesa, porque Eu próprio vos darei palavras de sabedoria, a que não poderão resistir ou contradizer os vossos adversários (Lucas 21, 12-19).

Os que dizem que Fátima foi inventada pela Igreja, não têm documentos para comprovar as suas calúnias e não leram de certo a documentação crítica de Fátima que descreve:

Por um lado, os estratagemas seguidos pela autoridade civil, para desacreditar e calar as crianças e impedi-las a elas e ao povo de acorrer ao lugar da Cova da Iria. Por outro o processo rigoroso que foi seguido pela autoridade eclesiástica, que para além dos interrogatórios do pároco e do Cónego, constou de uma comissão que instaurou um inquérito canónico oficial para averiguar a veracidade das aparições. Finalmente, a 13 de outubro de 1930, 13 anos depois, com o conhecimento e aprovação do Papa Pio XI, o Bispo D. José Correia da Silva anunciou os resultados do inquérito numa carta pastoral:

(…) invocando humildemente o Espírito Divino e colocando-nos sob a proteção da Santíssima Virgem, e depois de ouvida a opinião dos nossos Reverendos Conselheiros, declaramos dignas de crédito as visões dos pastorinhos na Cova da Iria, freguesia de Fátima, desta diocese, de 13 de maio a 13 de outubro de 1917. Permitimos oficialmente o culto de Nossa Senhora de Fátima.

Fátima e os papas
A 5 de Maio de 1917, quando a 1º Grande Guerra ainda estava no seu apogeu, o Papa Bento XV, em carta dirigida ao Secretário de Estado Cardeal Gasparri, rogou com veemência o auxílio do Céu, por meio da Mãe de Deus:

“Encarregamos portanto a Vós, Senhor Cardeal, de fazer conhecer a todos os bispos do mundo o nosso ardente desejo que se recorra ao Coração de Jesus, Trono de graças, por meio de Maria (…) a piedosa e devota invocação e leve a Ela o angustioso grito das mães e esposas, o gemido dos meninos inocentes, o suspiro de todos os nobres corações; possa mover a Sua amável e muito benigna solicitude a obter para o mundo desvairado a aspirada paz, e possa lembrar depois aos séculos futuros a eficácia de Sua intercessão e a grandeza do benefício por Ela obtido a Seus filhos”.

Oito dias depois Nossa Senhora apareceu em Fátima, anunciando ao Papa e ao mundo o seu plano de paz. Um ano mais tarde o mesmo Papa, em carta dirigida aos bispos portugueses para restabelecer a diocese de Leiria, referiu-se às ocorrências de Fátima como "uma ajuda extraordinária da Mãe de Deus."

Pio XI, sucessor de Bento XV, ofereceu pessoalmente estampas da imagem de Nossa Senhora de Fátima a seminaristas.  Pio XII referiu-se a Fátima pela primeira vez em 1940, na encíclica Saeculo exeunte.   Em 1950 o Papa Pio XII disse mesmo ao Superior Geral dos Dominicanos: "Dizei aos vossos religiosos que o pensamento do Papa está contido na Mensagem da Fátima."

Em 1964, no fim do Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI ofereceu a Rosa de Ouro a Fátima, e encomendou toda a Igreja ao cuidado de Nossa Senhora de Fátima, ele mesmo visitou Fátima no quinquagésimo aniversário da primeira aparição. O Papa João Paulo II visitou Fátima três vezes – em 1982, 1991 e 2000. Na sua visita do ano 2000, beatificou os dois videntes falecidos, Jacinta e Francisco. Também fez universal a Festa de Nossa Senhora de Fátima, ordenando a sua inclusão no Missal Romano. Por fim o Papa Francisco pediu ao Patriarca de Lisboa que consagrasse o seu pontificado à virgem de Fátima, o que ocorreu a 13 de maio de 2013.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de fevereiro de 2017

Fátima: Algo deve ter acontecido, Não nada

4 comentários:
Desde o principio, que, tanto a nível nacional como internacional, não lhe têm faltado inimigos a Fátima. Depois de investigar os factos e a mensagem de Fátima, ao ler os escritos dos seus detratores, verifiquei que as suas afirmações são tão fúteis como preconceituosas, e ignorantes da realidade e verdade dos factos. São tão mesquinhas, e tão fáceis de refutar as suas afirmações que nem me dou ao trabalho de o fazer. Prefiro gastar o meu tempo e energia com os factos e a mensagem; dando ao leitor elementos de sobra para refutar os detratores de Fátima caso os encontre.

Entre os inimigos de Fátima, há quem pense que tudo é invenção da Igreja daquele tempo; há quem se agarre às contradições das crianças submetidas a demasiados e extenuantes interrogatórios; e também há quem, desde dentro da Igreja, se alavanque nas incongruências teológicas da mensagem de Fátima para a refutar na sua totalidade.

Há ouro na areia do rio, mas nem toda a areia é ouro
Esta é a metáfora que uso quando quero explicar como a Bíblia contém a Palavra de Deus, sem ser Palavra de Deus, tudo o que nela está escrito. Assim como precisamos de peneirar a areia do rio para encontrar o ouro nela escondido, também precisamos de peneirar a Bíblia para encontrar nela a Palavra de Deus.

Quando fazemos passar a Bíblia: pela crítica literária, pela crítica histórica, pela exegese e muitas outras ciências como a arqueologia, a psicologia, a filosofia, podemos distinguir e colocar de lado o que são mitos, crenças, usos e costumes, história daquele tempo, a personalidade e carácter do autor, os seus preconceitos e, quando tudo isto é exposto e separado, encontramos o que é pura inspiração de Deus, ou seja, a ipssissima Dei verbum.

O critério que usamos para a Bíblia, como revelação pública de Deus, pode ser usado também para revelação privada de Fátima, sobretudo para as incongruências teológicas que a mensagem de Fátima possa conter, como por exemplo:

levai as almas todas para o céu, especialmente as que mais precisarem – É claro que, em português, esta terminação da oração não faz sentido, pois todos precisamos da salvação de Deus. Fora de Portugal, os católicos de outras línguas acrescentam: "especialmente as que mais precisarem da vossa misericórdia". Ou seja, os que mais afastados estão de Deus, os que mais na miséria estão,  mais da divina misericórdia precisam, que outros que não estão assim tão longe de Deus

Penitência e oração pela conversão dos pobres pecadores – Dá a entender que, quem faz penitência e reza pela conversão dos pecadores, não se inclui ele mesmo na categoria de pecador, ou seja, já não é pecador. Isto seria contrário à Palavra de Deus, que diz: Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós. 1ª João 1, 8

Mas, na verdade, os videntes reconheciam-se pecadores, e tiveram também o seu processo de conversão; por exemplo, depois das visões diziam “Já não podemos rezar o terço como rezávamos”: dizendo só Ave Maria Santa Maria, para terminar depressa; mais que isso, depois das visões, tudo faziam para não pecar, pois amavam tanto a Deus que temiam agravá-lo, ainda mais do que já estava agravado, por causa de outros pecadores.

“Houve algo, não nada”
Voltando aos tempos de estudante de teologia positivista, depois de ler todas as teorias sobre a ressurreição de Jesus, desde as mais ousadas às mais ilógicas e literais, como conta o Evangelho, agarrei-me a esta fórmula do então teólogo “best seller” Hans Kung. Para Kung, a ressurreição apanhou os apóstolos de surpresa, como as aparições os três pastorinhos.

É difícil, para quem quer que seja, não só para Kung, descrever que tipo de experiência os apóstolos tiveram, mas de certo “houve algo, não nada” afirma, veementemente, o teólogo. Do nada só Deus cria; os homens só criam a partir do já criado por Deus.

Algo teve que acontecer, para transformar uns discípulos amedrontados e covardes, os quais até já tinham regressado à vida que tinham antes de conhecer a Jesus, nuns evangelizadores destemidos e corajosos, como mostra o discurso de Pedro no livro dos Atos os Apóstolos 2, 14-36.

É certo que a experiência que os apóstolos tiveram de Jesus Ressuscitado, não tem, provavelmente, todo o realismo que vem descrito nos evangelhos; mas teve que ser real, de alguma forma; se assim não fosse, não seria descrita com tanto realismo, mas de uma forma tlavez mais mística.

O mesmo raciocínio invoco para as aparições da Virgem Maria às três crianças em Fátima. Algo deve ter acontecido, pois, pela sua tenra idade e a sua ignorância, não é possível que eles tivessem maquinado, tanto o evento, como o conteúdo da mensagem.

A mudança radical de vida que os apóstolos experimentaram, foi também experimentada por aquelas três crianças; também neste caso, algo de grandioso deve ter acontecido que posa explicar a mudança radical que as suas vidas sofreram. Não só exteriormente pelo facto de passarem a viver debaixo do olhar escrutinador dos habitantes do lugar, mas interiormente ao configurarem as suas vidas à mesma mensagem da Senhora experimentando assim uma verdadeira conversão.

Há detalhes do fenómeno Fátima que podem ter uma explicação meramente humana, tais como a visão do inferno, e as visões em forma de flashes da Nossa Senhora das Dores, São José e o menino Jesus, Cristo abençoando o povo e Nossa Senhora do Carmo; no entanto, os acontecimentos principais de Fátima, assim como a mensagem não é suscetível de ter uma explicação meramente humana ou natural. Algo de sobrenatural, fora do comum, e da experiencia de todos os dias, deve ter passado

Os videntes não sabiam nada do que acontecia fora do seu pequeno mundo, tanto a nível nacional como internacional; e, ainda que eles tivessem ouvido alguma coisa, não seriam capazes de entender ou conceptualizar o que quer que fosse que ouvissem; o nível de cultura era tão baixo que nem sabiam da existência de um país chamado Rússia; de facto, Lúcia pensava que se tratava de uma mulher de má vida que precisava de ser convertida.

Isto leva-nos a concluir que algo suficientemente objetivo e real deve ter acontecido; as experiências místicas nunca são coletivas, mas sim íntimas e individuais, e acontecem ao fim de um longo processo que envolve ascética e oração contemplativa.

Tal como nas aparições de Cristo Ressuscitado aos apóstolos, a visão do anjo em 1916 e da bem-aventurada Virgem Maria em 13 de maio de 1917 apanhou as três crianças de surpresa. No momento da primeira aparição de Maria, as crianças nem sequer estavam a rezar, mas sim a guardar o rebanho.

Quando viram um relâmpago, pensando que ia vir trovoada, correram para se abrigar; foi neste momento que elas se deram conta de algo incomum e inesperado; eis que uma senhora mais brilhante que o sol se apresentou diante deles, de pé, em cima de uma azinheira; e, como em todas as teofanias, tanto no Antigo como no Novo Testamento, a senhora disse-lhes para não terem medo dela, pois não lhes queria fazer mal.

Como aconteceu com os apóstolos, em Fátima deparamo-nos não com uma, ou duas, mas três testemunhas logo na primeira aparição; muitos mais estavam presentes nas aparições que se seguiram até à última, na qual umas 70.000 pessoas presenciaram "o milagre do sol", como a senhora tinha prometido aos pastorinhos.

Em todas as aparições, houve pessoas que testemunharam sentir e ver algo. Tanto os três videntes, como o resto das pessoas, presenciaram o mesmo fenómeno sobrenatural, cada um à sua maneira, mas o mesmo. Nem sequer os pequenos videntes experimentaram as aparições da mesma maneira: Francisco via a Senhora, mas não a ouvia; Jacinta via e ouvia; só Lúcia tinha com a Senhora uma comunicação completa, via, ouvia, falava e a Senhora respondia.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de fevereiro de 2017

Fátima - Lourdes - Guadalupe

Sem comentários:
A Igreja aceita como verídicas e dignas de consideração estas três aparições de Maria. É provável que haja muitas mais, mas não me compete a mim julgar da sua autenticidade, pelo que me refiro aqui só a estas. Como alguém dizia, é preferível estar errado em comunidade que certo sozinho.

Para verdadeiramente entender Fátima, não podemos enquadra-la só no seu significado, nacional, internacional e teológico, mas também no contexto das anteriores aparições da Nossa Senhora em Guadalupe e Lourdes igualmente aprovadas pela Igreja.

Nestas três aparições em lugares e tempos diferentes, há semelhanças e diferenças. Vamos analisar primeiro, certificar-nos de que há razões para afirmar que houve teofania, que o que aconteceu em cada um dos lugares não tem uma explicação meramente humana, mas sim sobrenatural. Analisaremos a razão da visita de Nossa Senhora a estes lugares, e, por fim, a mensagem que veio trazer.

Maria – Embaixadora, enviada especial, porta voz
Antes de analisarmos cada uma das aparições, debrucemo-nos sobre a razão por detrás delas todas. Porque, de tempos a tempos, em diferentes lugares, visita Maria o seu povo? Seguindo o dito de Lutero “Solus Christus, sola Fide sola Scriptura”, sabemos que os protestantes só dão valor ao que está na Bíblia, descartando tudo o que não está; como podemos arrazoar as visitas de Maria com aqueles que assim pensam?

A visita de Maria à sua prima Isabel, Lucas 1, 39-45 – A nossa fé nunca se fundamentou na religião – esforço do homem em relacionar-se com um ser superior, Deus, buscando o seu beneplácito - mas sim numa revelação, ou seja, é Deus que vem até nós. “Não fostes vós que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi a vós… (João 15,16). Já na pré-história da nossa fé, no Judaísmo, Deus visita o Seu povo, e, tal como Maria nas bodas de Caná, se compadece dos que não têm vinho, Deus  compadece-se do seu povo escravo no Egipto e tira-o de lá.

Maria soube pelo anjo que a sua prima estava a precisar de ajuda e foi visitá-la. Desde aquele tempo, é ela que nos visita; é a ela que Deus envia, pois, ao partir para a casa do Pai, o Seu filho no-la deu como Mãe. Sendo a imagem da feminidade e maternidade de Deus, exerce estas caraterísticas de Deus de uma forma sacramental; atua em persona Deus.

Porque é Maria a enviada? Porque ela é carne da nossa carne; toda ela é humana, nascida, como nós, de um ato de amor humano com a diferença da sua imaculada conceição, por estar destinada a ser a mãe do filho de Deus feito homem e princípio de uma Nova Humanidade.

As bodas de Caná, João 2, 1-11 - Maria é a melhor embaixadora entre a Terra e o Céu. Representa a humanidade no Céu, porque é uma de nós inteiramente humana; representa também Deus na Terra porque foi concebida sem pecado original, ou seja, ela é o ser humano que Deus tinha intenção de criar, a Eva antes de pecar, a natureza humana ainda não adulterada pelo pecado.

Como embaixadora, enviada especial ou como porta voz de Deus e da humanidade, o seu cometido é referir a Deus os assuntos dos homens e aos homens os assuntos de Deus. A Deus ela refere as necessidades da humanidade como em Caná ao dizer, “Não têm vinho” acerca de Guadalupe ele provavelmente disse, a evangelização não progride; acerca de Lourdes ela pode ter dito, não têm saúde, e acerca de Fátima, de certo disse não têm paz. Aos homens, porém, diz em Caná, “Fazei tudo o que Ele vos disser”, em Guadalupe, mandou construir uma Igreja, em Lourdes, rezai o Terço eu sou a Imaculada Conceição, e em Fátima, oferecei-vos a Deus na penitência e na oração.

Guadalupe – Intervenção Missionária
No dia 9 de dezembro de 1531, dez anos depois da conquista da cidade de México pelos espanhóis, quando a paz já se tinha estabelecido entre os povos beligerantes, Maria apareceu a um índio de nome Juan Diego.

Provas da intervenção de Deus por intermédio de Maria
Como sempre e por prudência, as autoridades eclesiásticas manifestam, primeiro perplexidade e, no caso de Guadalupe, o Bispo, Frei Juan de Zumarraga, até exigiu uma prova. A Nossa Senhora aceitou o desafio e enviou Juan Diego com o manto cheio de rosas frescas e viçosas, fora da estação, pois era inverno; ao desenrolar o manto para as mostrar ao bispo, elas caíram ao chão e deixaram ver a imagem da Nossa Senhora de Guadalupe, a mesma que ainda hoje é venerada.

A tela em que a Nossa Senhora está impressa já foi analisada por inúmeros cientistas; estes não encontram explicação para muitos fenómenos. A forma como a pintura ou as tintas impregnaram o tecido é desconhecida, não há pinceladas. Não se entende como sem ter sido preparado, o tecido e a pintura se conservam.

Até aos nossos dias, a imagem não tem parado de nos surpreender; ultimamente foi descoberto que o olho da Nossa Senhora na tilma, contém a modo de fotografia, a imagem do que aconteceu historicamente; ou seja, dento da íris do olho da imagem, um fotógrafo descobriu, a imagem fotográfica na qual se vê o Índio a desenrolar o manto ante o bispo. A Nossa Senhora deixou-nos, não só uma imagem impressa da sua aparição, mas também a fotografia do momento em que a prova pedida pelo bispo foi produzida; uma mensagem que permaneceu escondida durante séculos para que pudesse ser produzida quando fosse descoberta a fotografia, e a fé na veracidade da visita de Maria vacilasse.

Razão da Visita
A Evangelização das Américas fazia-se com muito dificuldade. Os Maias, os Aztecas e os Incas eram povos orgulhosos da sua cultura e dos seus deuses; os seus templos e pirâmides demonstram uma civilização avançada para o tempo, por isso não iriam, de bom grado, aceitar uma religião estrangeira. A ideia de um Deus que se sacrifica pelo povo, ao contrário dos deuses deles, que exigiam sacrifícios humanos.

Por outro lado, a conquista da América tinha sido violenta, seguida de massacres que hoje seriam tidos como crimes contra a humanidade. Como iam estes povos indígenas aceitar a religião de quem os dominava e escravizava? A intervenção de Deus, por intermédio de Maria, foi providencial para o bom sucesso da Missão nas Américas.

"O Acontecimento Guadalupano - assinala o episcopado do México - significou o início da evangelização, com uma vitalidade que extravasou todas as expectativas. A mensagem de Cristo, por meio de Sua Mãe, tomou os elementos centrais da cultura indígena, purificou-os e deu-lhes o definitivo sentido de salvação." E o Papa completa: "É assim que Guadalupe e João Diego tomaram um profundo sentido eclesial e missionário, sendo um modelo de evangelização perfeitamente inculturada" (Missa de Canonização, 31/7/2002).

Mensagem
A palavra “Guadalupe” significa “aquela que esmaga a serpente”; uma referência ao deus Quetzalcoatl, ou serpente de pedra, ao qual os Aztecas costumavam oferecer sacrifícios humanos. Em 1487, devido à dedicação de um novo templo em Tenochtilan, cerca de 80.000 cativos foram imolados em sacrifícios numa só cerimónia que durou quatro dias. Maria esmagou o deus serpente Quetzalcoatl, e orientou os índios ao verdadeiro Deus, ao Deus da vida e não da morte. Ao Deus que se sacrifica, que se imola Ele mesmo pelo seu povo.

Se entendemos o aborto como os novos sacrifícios humanos ao deus do, egoísmo do prazer, das minhas conveniências, então a mensagem da Virgem de Guadalupe não ficou no seculo XVI, mas ainda hoje é atual.

Lourdes – Intervenção teológica
Em Lourdes, na França, Maria apareceu a uma menina de 14 anos chamada Bernardete Soubirous, oriunda de uma família extremamente pobre. A Virgem Maria apareceu 18 vezes, tendo a primeira sido o dia 11 de fevereiro de 1858, e a última a 16 de julho de 1858.

Provas da intervenção de Deus por intermédio de Maria
O regato de água que se formou, quando a Senhora na nona aparição, em 25 de fevereiro de 1858, ordenou a Bernardete que bebesse agua. Mas na gruta nunca tinha havido nenhuma nascente de água; ela começou a esgravatar a terra e a água começou a borbulhar e a sair. No dia seguinte, era já um pequeno regato.

Na decima sexta aparição a bonita Senhora identificou-se como sendo a Imaculada Conceição. Bernardete referiu esta notícia ao seu pároco, o qual concluiu que as aparições eram autenticas pois ele tinha a certeza que a menina desconhecia a proclamação do dogma da Imaculada Conceição pelo Papa Pio IX em 1854, quatro anos antes.

Na aparição número 17, a 7 de abril, inconscientemente, Bernardete colocou uma mão em cima da chama da vela enquanto continuava a rezar e a multidão gritava, horrorizada, enquanto as chamas envolviam a sua mão sem a queimar.

Bernardete morreu a 16 de abril de 1879; o seu corpo foi exumado em 22 de setembro de 1909 na presença de dois médicos e foi encontrado sem cheiro e incorrupto. As curas que se deram, durante o tempo das aparições e todos estes anos, dão testemunho de que em Lourdes, o Céu desceu à Terra, como em tempos de Jesus para, trazer saúde e salvação.

Razão da Visita
Parte importante da mensagem de Lourdes é a confirmação do Céu, no ano de 1858, do dogma da Imaculada Conceição, instituído pelo papa Pio IX quatro anos antes em 1854. Uma outra razão é comum com Fátima e outras aparições marianas, o binómio Penitência e Oração, duas realidades importantes que facilmente esquecemos na nossa vida cristã; pelo que Maria, aquela que diz “fazei tudo o que Ele vos disser”, nos recorda uma e outra vez, em Lourdes e em Fátima, que Jesus, o seu filho, nos mandou que abraçássemos a cruz, todos os dias, e que rezássemos para não ceder e cair nas tentações ou testes que a vida nos coloca.

Lourdes, desde o princípio, foi associada ao conceito de pureza, via da água da nascente milagrosa. Com efeito são muitos os que ali têm sido limpos das suas doenças. Comparando Lourdes com Fátima podíamos chegar à conclusão que Lourdes é o santuário dos milagres do corpo pelas muitas curas que ali têm acontecido, enquanto que Fátima é o santuário dos milagres da fé e da alma pelas muitas conversões que lhe são atribuídas.

Mensagem
A mensagem de Lourdes pode ser resumida a quatro palavras:
Pobreza -  Deus escolheu Bernardete por pertencer a uma família extremamente pobre em todos os sentidos da palavra. Deus nunca abandona os pobres; longe de ser imparcial, Deus está sempre do lado dos pobres contra aqueles que causam a sua pobreza.

Oração - A importância da oração, sobretudo o rosário; de facto, em algumas das aparições, a única coisa que a Senhora e Bernardete fazem é rezar.

Penitência – Oferecimento de sacrifícios pela conversão dos pecadores; algo contrario à nossa tendência a fugir do sacrifício e rejeitar a cruz que o mestre nos convida a abraçar.

Imaculada Conceição - Por fim, o fenómeno mais desconcertante e que deu credibilidade às mesmas aparições de Lourdes o facto de Nossa Senhora se ter apresentado a uma menina, sem qualquer instrução, escolar ou religiosa, como sendo a Imaculada Conceição, confirmando assim, o dogma proclamado quatro anos antes.

Fátima – Intervenção politica e não só…
Precedida das aparições do anjo, no ano anterior, Maria apareceu em Fátima, nos dias 13 de cada mês desde maio a outubro de 1917, entre as duas guerras mundiais, com uma mensagem e um plano de paz, para o século mais sangrento da História da humanidade, o século XX.

Se é que assim se pode chamar, Fátima é a mais completa das aparições; influenciou não só Portugal, mas o mundo inteiro, não só por algum tempo, mas todo o século XX, não só espiritualmente, mas também politica e socialmente. Há quem se atreva a dizer que não se pode falar da história do século XX sem falar de Fátima.

Provas da intervenção de Deus por intermedio de Maria
São muitas as provas da veracidade de Fátima. Maria escolheu três crianças que tinham por hábito não mentir em nenhuma circunstância, sem nenhuma exceção. Não conheciam, como nós, hoje, o conceito de mentira piedosa, que não prejudica ninguém e de alguma maneira defende a nossa privacidade. Esta, aliás, foi a razão pela qual o Sr. Marto, o pai de Jacinta e Francisco, acreditou nas aparições no momento em que delas tomou conhecimento pela sua filha Jacinta, pois sabia os seus filhos incapazes de uma mentira.

A vida dos pastorinhos mudou-se por completo depois das aparições, converteram-se e incarnaram a mensagem nas suas vidas, de tal forma, que nem precisavam de contar ou provar nada. Jacinta conhecia ao detalhe o que lhe iria acontecer, ela e o seu irmão sabiam que pronto iriam para o Céu e disso falavam sem a mínima lágrima ou tristeza; ao contrário, ansiavam por que chegasse o momento.

A partir da segunda, as outras aparições foram um evento publico, porém, a experiência varia de pessoa para pessoa a começar pelos videntes. Além de Lúcia que tinha uma comunicação plena com a Senhora, a Jacinta via e ouvia, Francisco só via, há testemunhas que dizem que no momento das aparições o sol brilhava com cores esquisitas, a temperatura descia e sobre a azinheira havia uma bruma, uns dizem uma nuvem outros nevoeiro e outros que era fumo.

Alem disto está o assim chamado milagre do sol presenciado por 70.000 entre as quais havia padres, médicos, professores universitários, jornalistas e até ateus. O fenómeno atmosférico é perfeitamente explicável, o que não é explicável é que a Lúcia tenha predito o dia e a hora em que iria acontecer, seis meses antes.

Do ponto de vista social e político, os pastorinhos profetizaram muito do que aconteceu no século XX: a Aurora boreal como sinal do início de uma guerra pior, a segunda grande guerra; o ateísmo militante da Rússia e a consagração deste país ao Imaculado Coração de Maria para que cesse este ateísmo militante que tanto fez sofrer os fiéis de muitos países. O princípio da União Soviética no mesmo ano das aparições e o seu fim a 8 de dezembro de 1991, o dia da Imaculada Conceição e a vitória de Maria; pois, como tinha dito, no fim “o meu Imaculado coração triunfará”.

Razão da Visita
A visita de Maria em Fátima pode não ter sido uma iniciativa unicamente divina. É um facto que o Papa Bento XV exortou a todos os cristãos que pedissem a intercessão de Maria para obter a “aspirada paz para o mundo desvairado”.

Maria apareceu a três crianças, tão só oito dias depois, com um programa para a paz, mas não só. O ateísmo militante era um problema bem mais difícil que as duas guerras mundiais e durou mais tempo. Hoje não é militante, mas continua a existir mais em forma de agnosticismo.

Fátima, por isso, tem para além do significado político um apelo à Nova Evangelização avant la lettre. A conversão dos pecadores, dos que vivem sem a luz da fé, é um tema central na mensagem de Fátima e talvez a razão principal da visita de Maria

Mensagem
Entre duas guerras mundiais, Maria propôs em Fátima, entre outras coisas, a “Penitência e a Oração” como meios para fazer frente, naquele tempo e ainda hoje, ao comunismo materialista e ateu, assim como ao capitalismo materialista e consumista e, portanto, não menos ateu.

O terceiro segredo, ou a terceira parte de um único segredo, foi revelado e na sua interpretação foi dito que Fátima é coisa do passado. Ficou intimamente e exclusivamente ligada ao seculo XX. Porém, a sua mensagem de penitência e oração é perene e atemporal. Neste sentido, Fátima é e será sempre um eco do Evangelho.

Por outro lado, o nome “Fátima” pode, em si mesmo, ainda encerrar um quarto segredo. Por ser um nome querido no mundo muçulmano e por ser Maria venerada pelos muçulmanos, poderia a Nossa Senhora de Fátima ainda ter uma palavra a dizer neste século dominado pelo fundamentalismo muçulmano e pela reação ao mesmo?
Pe. Jorge Amaro, IMC