15 de janeiro de 2019

A noção de Deus: Animismo - Politeísmo - Monoteísmo

Sem comentários:
Quando todas as necessidades - como sustento, segurança, amor, liberdade - estão satisfeitas, surge no ser humano a necessidade de sentido, de significado. Se a morte não existisse talvez nunca nos perguntássemos qual o sentido da vida; simplesmente viveríamos em simbiose com a natureza; talvez o pensamento discursivo nem sequer existisse: os animais vivem sem saber que morrem e, talvez por isso, não pensam.

A morte – autoconsciência ou pensamento discursivo – e a existência de Deus parecem estar intimamente ligadas. Com a morte, nasceu a consciência de existir e a necessidade ou desejo de nunca deixar de existir. A morte provocou o pensamento e as três perguntas basilares, de onde venho, para onde vou, e que sentido tem a vida. Assim nasce a necessidade de existir sempre, assim nasce o desejo de Deus. Um desejo não existiria se fosse impossível de satisfazer.

Ao longo dos tempos, desde que o ser humano se fez consciente de si mesmo e do seu meio ambiente, a conceção de Deus foi evoluindo. Nesta evolução podemos distinguir três etapas: animismo, politeísmo e monoteísmo. Estas etapas, porém, não se sucedem no sentido em que uma ocupa o lugar da outra, eliminando completamente a anterior; ou seja, o animismo não desapareceu com a introdução do politeísmo, nem este se extinguiu por completo com o surgimento do monoteísmo. Nenhuma das etapas anteriores desapareceu, mas coexiste minoritariamente com a que lhe sucedeu.

Também podemos olhar para a evolução do conceito de Deus a partir de uma outra perspetiva da dialética entre o espiritual ou sobrenatural e o material ou físico. Desde que a morte escavou no nosso corpo físico (entendido como matéria viva) um vazio, o espírito nasceu para ocupar esse vazio. Desde esse momento, não só o ser humano como, tudo se transformou em ser espiritual. O espiritual dominava o material, pois só o espiritual pensa e sabe que existe. O material é bruto, tosco e inanimado.

Nos primórdios da civilização humana, o coeficiente espiritual dominava o material. Com a civilização, o espiritual foi diminuindo gradualmente, mesmo antes dos ateísmos filosóficos do século XIX e XX, (Feuerbach, Marx Freud Nietzsche) com o renascimento, mas sobretudo depois destes séculos, chegando a tocar no fundo, no mínimo dos mínimos.

Com o surgimento do sincretismo religioso da Nova Era, parece haver um incremento do coeficiente espiritual, pois as pessoas, mesmo sendo adversas a qualquer forma institucionalizada de religião, declaram-se espirituais. Esta espiritualidade vaga e difusa, não institucionalizada tem muito de comum com a primeira etapa do sentimento religioso, o animismo. Estaremos nós a voltar ao princípio, como no mito do eterno retorno?

Animismo
Achou-o numa terra deserta, e num ermo solitário cheio de uivos; cercou-o, protegeu-o e velou por ele, como à menina dos seus olhos. Deuteronómio 32:10

Quando a raça humana tomou consciência de si mesma também tomou consciência da sua miséria e da desvantagem que tinha em relação aos outros seres vivos, aos quais a Natureza dotou de tudo. Completamente desamparado, à mercê das forças da natureza e dos outros animais, o ser humano encontrou-se como Moisés no deserto, como refere o texto acima.

Nesta situação os nossos antepassados viviam na crença de que tudo estava animado; tanto os objetos materiais, animais, plantas rios rochas, etc., como os fenómenos naturais, o trovão o raio, o vento, a chuva, etc. e até mesmo o próprio universo possuía uma alma, ou seja, qualidades, significados ou poderes espirituais ou sobrenaturais.

Um pouco como a magia, o animismo baseia-se na crença de que o mundo, tanto na sua totalidade como nas suas partes, tem uma alma ou espírito; até mesmo o ar que respiramos, está povoado por espíritos que são forças impessoais e que podem ser invocados ou convocados e manipulados por xamãs, médiuns, magos, feiticeiros, bruxas, usando fórmulas, rituais e palavras mágicas.

O animismo acredita na existência de um Deus supremo, mas ao qual não se pode aceder diretamente, mas sim por intermédio destes espíritos; como estes podem ser contrários aos desígnios dos humanos, devem ser permanentemente apaziguados. O animista vive continuamente no medo de desgostar algum espírito, pelo que usa amuletos ou talismãs para se proteger.

Ao contrário das religiões organizadas e institucionalizadas, o animismo sobrevive na mente do povo por meio da tradição oral, sem qualquer ajuda institucional. Em relação às religiões organizadas é, portanto, uma religião desorganizada, ainda hoje praticada por tribos indígenas onde estas ainda existem: na América tanto do Norte como do Sul, na Ásia, em África, na Austrália e nas ilhas do Pacífico.

Para além destas, no mundo moderno, todas as formas de superstição e adivinhação como a astrologia, a cartomância, a bruxaria, a feitiçaria, são resquícios de animismo que têm uma enorme aceitação popular. Objetos que dão sorte e outros que dão azar, rituais para conjurar a sorte e rituais para evitar o azar, continuam a fazer parte do nosso dia a dia. Entrar com o pé direito, a crença no poder dos cornitos, das ferraduras, das figas…

A religião New Age que pretende ser a síntese de todas as religiões, tem muito de neopaganismo ou animismo. Se quisermos, até a espiritualidade franciscana pode ser vista sob esta perspetiva, ao chamar irmão ao lobo e ao sol, e irmã a água e à lua. São Francisco estava a devolver a estas realidades a alma que antes possuíam.

O monoteísmo, mais que o politeísmo, lutou contra toda a forma de animismo. A Igreja Católica, como tristemente sabemos, chegou ao ponto de criar um organismo como a Inquisição para purificar a crença de toda e qualquer manifestação animista.

Depois do banho de materialismo que tem vindo a aumentar desde o Renascentismo, hoje a maioria das pessoas dá-se conta de que um objeto material não pode ter poder espiritual. Só um ser espiritual tem poder espiritual. Porém ainda há quem seja supersticioso, recordando-nos sempre do animismo dos nossos antepassados.

Se compararmos a evolução da noção de Deus com o amadurecimento do homem, o animismo corresponde à infância - as crianças têm de facto a tendência para ver tudo o que as rodeia com alma, falam com os seus bonecos e brinquedos, vivem num mundo animado de fadas, bruxas e papões e acreditam no Pai Natal e na magia; Walt Disney, nos seus filmes para crianças, soube explorar este lado da fantasia infantil.

Politeísmo
Eis o que diz o Senhor, rei de Israel, o seu redentor, o Senhor do uni­verso: «Eu sou o primeiro e o último. Não há outro Deus além de mim. Isaías 44, 6

Como dissemos, à medida que o ser humano vai conhecendo e dominando o ambiente que o rodeia, este vai-se materializando. Todas as realidades que o ser humano conhece, controla e domina perdem a sua alma, o seu poder, de alguma forma; este passa para o espírito inventivo do ser humano. Desta forma, vai aumentando a esfera do material e diminuindo a esfera do espiritual. O que o ser humano domina deixa de ter poder sobre ele, deixa de ter poder espiritual para ser um bem material controlável. Com o conhecimento das coisas, o ser humano rouba-lhes a alma e, à medida que o mundo se vai materializando, o ser humano vai-se espiritualizando.

Há realidades que o ser humano não domina com o conhecimento. Estas, porém, são cada vez menos e aquelas ante as quais o ser humano se vê completamente impotente e desamparado, à mercê delas, dá-lhe o nome de deuses. Desta forma, ao animismo sucede o politeísmo, a crença de que as principais realidades, poderes e forças da natureza são dominadas por um deus. Com efeito existe um deus para cada realidade, sendo o senhor dessa mesma realidade.

Os deuses proliferaram de tal modo que, quanto mais importantes eram para a sobrevivência do homem, maior importância, de número de fiéis tinham. Os deuses da fertilidade por exemplo, da guerra, do amor, etc., viram formar-se à volta do seu culto as grandes religiões. O hinduísmo é a primeira grande religião e continua a ser ainda praticada por mais de um bilião de pessoas de pessoas. Os principais deuses das mitologias grega e romana são os seguintes:

Zeus/Júpiter - O filho mais novo de Cronos e Réia (ver Início titânico) é o líder dos deuses que vivem no monte Olimpo. Ele impõe a justiça e a ordem, lançando relâmpagos construídos pelos cíclopes. Zeus teve diversas esposas e casos amorosos com deusas, ninfas e humanas.

Hera/Juno - Terceira mulher de Zeus e rainha do Olimpo, Hera é a deusa do matrimónio e do parto. É vingativa com as amantes do marido e com os filhos de Zeus que elas geram. Para os gregos, Hera e Zeus simbolizam a união homem-mulher.

Hades/Plutão - Mesmo sendo irmão de Zeus e Poseidon, não vive no monte Olimpo. Hades, como deus dos mortos, domina seu próprio território: o mundo dos mortos. Apesar da sua função, não é como o diabo, um deus associado ao mal.

Poseidon/Neptuno - O irmão mais velho de Zeus, é o deus do mar; com um movimento do seu tridente, causa tempestades e terramotos.

Atena/Minerva - É a deusa da sabedoria e filha de Zeus com a primeira mulher, Métis. O seu símbolo é a mais sábia das aves, a coruja. Habilidosa e especialista nas artes e na guerra, Atena carrega uma lança e um escudo chamado Égide.

Hermes/Mercúrio - Filho de Zeus com a deusa Maia, o mensageiro dos deuses é o protetor de viajantes e mercadores. Representado como um homem de sandálias com asas, Hermes tinha um lado obscuro: às vezes trazia mentiras e falsas histórias. Já naquele tempo existiam as “fake news” de Trump…

Apolo/Apolo - O deus da luz (representada pelo Sol), das artes, da medicina e da música, é filho de Zeus com uma titã, Leto. Na juventude, era vingativo, mas depois tornou-se um deus mais calmo, usando o seu talento para curar, para a música e previsões do futuro.

Artemis/Diana - Irmã gêmea de Apolo, é a deusa da caça, representada por uma mulher com um arco – contraditoriamente, também é a protetora dos animais… Artemis é uma deusa casta (virgem), que fica furiosa quando se sente ameaçada.

Hefesto/Vulcano - Filho de Zeus e Hera, Hefesto nasceu tão fraco e feio que foi atirado ao mar pela mãe. Resgatado por ninfas, transformou-se num famoso artesão. Impressionados com o seu talento, os deuses levaram Hefesto para o Olimpo e nomearam-no deus do fogo e da forja.

Afrodite/Vênus - O nome da deusa do amor significa “nascida da espuma”, porque diziam que ela havia surgido do mar. Afrodite é a mais bela das deusas. Apesar de ser esposa de Hefesto, teve vários casos amorosos – com deuses como Ares e Hermes e também com mortais.

Ares/Marte - O terrível deus da guerra é outro filho de Zeus e Hera. No campo de batalha pode matar um mortal apenas com o seu grito de guerra! Pai de vários heróis – humanos que são protegidos ou filhos de deuses - Ares foi também um dos amantes de Afrodite.

A forma como um determinado Senhor governa e tutela a realidade que lhe foi confiada, explica-se pelo mito. O mito é um conto ou lenda sagrada que é transmitido por tradição oral de geração em geração; quando se perde a sua autoria humana, passa a ser atribuído a Deus. O conto em si busca explicar a verdade de cada coisa e o seu funcionamento numa mentalidade pré-científica. Os mitos serviam para o ser humano conhecer o seu meio ambiente e ter uma explicação plausível de como as coisas são e se processam. Não são históricos esses contos, mas são verdadeiros, no sentido em que transmitem a inteligibilidade do homem primitivo acerca de cada realidade.

Tomemos como o exemplo o mito do deus do Tempo chamado Cronos, termo de ondem derivam as palavras cronómetro, cronologia e crónica. Cronos, como muito bem pinta Goya num dos seus quadros, era um deus que dava à luz filhos e, depois de os dar à luz, comia-os. É verdadeiramente fantasmagórico, mas, explica bem o que é o tempo - cada dia em que nos levantamos e vemos a luz do sol estamos a dar à luz um dia mais e, ao anoitecer, antes de voltar a dormir, consumimos esse mesmo dia. Cada dia da nossa vida é um dia a mais pela manhã e um dia menos ao anoitecer.

O mundo greco-romano apresenta o mundo celestial em paralelo com o mundo terrestre - o que acontece no Céu também acontece na Terra e vice-versa. Os vícios dos deuses são iguais aos vícios dos humanos, pelo que não há progresso, pois os deuses não são modelos que a humanidade possa seguir. Como diria Feuerbach, não foi Deus que criou o Homem à sua imagem e semelhança, mas ao contrário, foi o Homem que criou Deus à sua imagem e semelhança.

Monoteísmo
Escuta, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor, amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder. E estas palavras que hoje te ordeno estarão no teu coração; e as intimarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te, e levantando-te. Também as atarás por sinal na tua mão, e te serão por testeiras entre os teus olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas. Deuteronómio 6, 4-9

Senhor, tu és o nosso Pai. Nós somos o barro; tu és o oleiro. Todos nós somos obra das tuas mãos. Isaías 64:8

A pré-história do monoteísmo acontece quando o ser humano agrupa todos estes deuses e lhes dá um líder - Zeus na mitologia Grega e Júpiter na mitologia romana. Daqui ao monoteísmo é um passo. O primeiro ser humano a proclamar que só há um deus foi o faraó do Egito chamado Akhenaten, também conhecido por Amenhotep IV, que reinou no Egito no século XIV antes de Cristo, muito antes da cultura grega e romana.

Quando Amenhotep IV subiu ao trono, muitos eram os deuses adorados no Egito, sendo Amun o rei dos deuses. Inicialmente, permitiu o culto dos deuses tradicionais do Egito, mas logo tomou medidas para estabelecer o deus sol, Aton, como o deus Supremo do Egito. No ano nove do seu reinado, Akhenaton declarou que Aton não era meramente o deus Supremo, mas o único deus. Este foi um passo radical e a primeira instância do monoteísmo em toda a história.

À sua morte, o povo do Egito mergulhou outra vez no politeísmo. Mas a raiz, a ideia ou intuição estava lançada. Akhenaton deu-se conta de que um país onde os seus cidadãos veneram vários deuses é um país dividido social e moralmente e, por isso, mais difícil de governar. O monoteísmo tinha, portanto, para o faraó, o objetivo de unir o país e os seus habitantes.

A ideia não progrediu entre os egípcios daquele tempo, mas foi acolhida anos mais tarde por um povo, na altura escravo, na terra do Egito - o povo judeu. Acima dissemos que no politeísmo os deuses eram semelhantes aos homens, tinham as mesmas virtudes, e os mesmos, defeitos, as divisões e conflitos que se veem entre eles, também se veem entre os humanos, pelo que não há neles nenhuma normatividade ou modelo a seguir pelos humanos.

A descoberta do povo hebreu, neste sentido, é a de um Deus pessoal que concentra em si tudo o que são aspirações humanas, o bom e o perfeito. Como os judeus eram nómadas e os nómadas não podem ter deuses locais, já que se deslocam de um lado para o outro e seria muito - incómodo - carregar os seus ídolos, pensaram então numa realidade concreta que estivesse em todos os lugares - olharam para cima e encontraram-na no Céu.

Os povos sedentários têm tendência a ser politeístas, os povos nómadas, ao contrário, são monoteístas. Os Turkana, um povo nómada do norte do Quénia, têm a mesma palavra para designar Céu e Deus. Os mongóis, os turcos e os tártaros, adoravam um deus comum chamado Tengri, o deus do céu azul.

Daqui a intuir que Deus é um ser espiritual, foi um passo muito curto dado pelos Judeus: para eles, Deus era espiritual e estava em toda a parte, dentro da nossa mente e sobretudo no nosso coração, em todo tempo e em todo lugar. É um ser pessoal pois é um Deus de pessoas, de Abraão, Isac e Jacob. Intuíram também que é um Deus criador de tudo e de todos.


Quando Egerton Young primeiro pregou o Evangelho aos peles vermelhas de Saskatchewan a ideia da paternidade de Deus fascinou de imediato estas gentes que até então tinham visto Deus apenas no trovão, no relâmpago e no estrondo de tempestade.

Ao ouvir o missionário invocar a Deus como pai, um velho chefe exclamou: "Ao falares do Grande Espírito como acabas de fazer, será que te ouvi dizer, 'Pai Nosso'?" "Sim," disse Egerton Young. "Isso é muito novo e doce para mim," continuou o chefe. "Nós, índios, nunca vimos o Grande Espírito como Pai. Ouvíamo-lo no trovão ou víamo-lo no raio, na tempestade e nos nevões, e ficávamos aterrorizados com medo.

A noção de que o Grande Espírito é nosso Pai, é nova, mas sublime para nós. O velho chefe pausou, parecendo meditar… foi então, que de repente, num vislumbre da glória, a sua face se iluminou como num relâmpago e clamou. " Oh Missionário, disseste que o Grande Espírito é teu Pai?" "Sim", disse Egerton. "E," continuou o chefe, " também afirmas que Ele é Pai dos índios?" "Evidentemente", disse o missionário. "Então", exclamou o ancião, como se tivesse feito a maior descoberta, "tu e eu somos irmãos!"
Barclay commentary of the New Testament

O progresso do monoteísmo em relação ao politeísmo é a união entre os humanos sob um mesmo Deus ao qual podem chamar Pai. A revolução francesa, por muito laica que pareça, não seria possível num país de cosmovisão politeísta como é por exemplo a Índia, onde a existência de vários deuses justifica a existência de castas e os homens não são iguais. A igualdade e a dignidade humanas não coexistem com o politeísmo, são conquista do monoteísmo.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de janeiro de 2019

As questões basilares: origem - destino - sentido

Sem comentários:
Introdução
Depois de escrever sobre a comunicação não violenta durante o ano que terminou, senti que uma força interior me impelia a escrever sobre o mistério da Santíssima Trindade. A princípio, defendi-me, respondendo a esse apelo que num pequeno texto esgotaria o tema e ainda me sobrariam palavras.

Foi então que tive a revelação ou intuição de que não era possível que um Deus uno e trino não  tivesse deixado a sua impressão, o seu selo, a sua marca em tudo quanto criou. A Trindade ou a tridimensionalidade não é só a verdade de Deus, mas também a verdade de tudo quanto Deus criou. Cada criatura é uma metáfora de Deus, uma imagem, um reflexo do seu Criador. Deus deixou o seu ADN, a sua identidade, em tudo quanto criou.

Se provarmos que a tridimensionalidade é transversal a tudo quanto Deus criou e se, como afirma a espiritualidade franciscana, pelas criaturas se pode chegar ao Criador, pois todas elas são uma manifestação do seu amor criativo e criador, então fica provado irrefutavelmente e sem lugar a dúvidas, que Deus é um em três e três em um porque tudo à nossa volta também o é.

O cristianismo reconhece nas outras religiões ou conceções de Deus “semina verbum”, sementes de verdade, mas apresenta-se a si mesmo como sendo a verdade plena. Se provarmos que a tridimensionalidade é a verdade de tudo quanto Deus criou, fica provado então que a fé cristã pode apresentar-se ante as outras conceções de Deus, Judaísmo, Islão e outras crenças, como a verdade plena acerca de Deus.

Ao longo deste novo ano e talvez nos sucessivos vou tentar descobrir o mistério da Santíssima Trindade, a marca tridimensional de Deus em todas as suas criaturas e verificar que o Universo, este mundo e cada uma das realidades que contém, é intrínseca e extrinsecamente trinitário ou tridimensional.

De onde vimos? -  Para onde vamos? – Que sentido tem a vida?
Antes dos seis e sete anos é frequente ouvir as crianças falarem de si mesmas na terceira pessoa. Por exemplo: “O Pedro não gosta de sopa” - o Pedro é ele mesmo, mas não diz “Eu não gosto de sopa”.  A criança só ganha consciência de si mesma, de que está viva, por volta dos seis ou sete anos.

Quando eventualmente chega a esta idade, também chamada a idade da razão, dá-se conta da existência do seu ser. Nesse mesmo dia dá-se também conta da sua finitude e limitação, ou seja, de que um dia deixará de estar vivo, deixará de ser, morrerá. É precisamente o pensamento da morte que inexoravelmente espoleta e faz aflorar à sua consciência as questões basilares sobre a sua origem: de onde venho; do seu destino: para onde vou; e do sentido: quem sou eu. Que sentido tem a vida, que tenho nas minhas mãos? Ou seja, por quê e para que vivo e que fazer com a minha vida.

Como a constatação da morte, a autoconsciência e as três perguntas basilares ocorrem ao mesmo tempo no desenvolvimento da criança, podemos presumir que na evolução humana a aptidão de pensar é filha da morte. A perceção da nossa finitude como um fato inegável e inevitável, escavou dentro do nosso corpo material um vazio imaterial ao qual demos o nome de alma ou espírito e a aptidão para pensar como uma das suas manifestações. Como diz Feuerbach o túmulo do homem é o berço dos deuses; ante o cessar da vida da matéria nasce a vida do espírito.

Estas perguntas não podem ser respondidas pela ciência, por muito que o tente ou tenha tentado ao longo dos séculos. A ciência diz-nos o COMO, não o POR QUÊ. Como funcionam as coisas, os elementos, a natureza, a vida, o cosmos, mas não o por quê de tudo isto.

Por volta dos 5 anos, a criança começa a fazer muitas perguntas, questiona tudo e todos. É um bombardeamento de perguntas - ainda uma não está respondida e já duas ou três novas estão formuladas. O interessante é que a criança pergunta mais o por quê das coisas e menos o como funcionam. Quer uma explicação racional ou razoável para a razão de ser de cada coisa, de como funciona. Ela mesma pode investigar e descobrir, como de facto faz. Uma criança não pergunta como funciona um tablet, um computador ou telemóvel, descobre por si mesma. 

Ao crescermos perdemos o espírito inquisitivo e começamos a aceitar acriticamente tudo o que nos dizem, começamos a padecer de preguiça mental. Por esta e por outras atitudes que temos em crianças e que depois perdemos, é que Jesus nos admoesta dizendo: “Se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no Reino do Céu”. Mateus 18,3.

Posturas teísta – ateísta - agnóstica
Perante estas três questões basilares, há também três tipos de resposta ou três diferentes atitudes: a teísta, a ateísta e a agnóstica. Como resposta à questão da existência de Deus que é fundamentalmente o pano de fundo das questões sobre a origem, o destino e o sentido, o teísta responde afirmativamente, o ateu negativamente, o agnóstico de forma neutra: não sabe, ignora, não quer saber.

Com efeito, o homem pós-moderno já não é religioso nem ateu, é agnóstico já não se faz perguntas, vive instalado na pura mundanidade, diz que não há forma de conhecer ou de conhecer totalmente, por isso não quer sequer investigar e expulsa o assunto da sua consciência ignorando-o.

Ante estas três questões que envolvem a fé, tanto o religioso como o ateu são crentes. Como a existência de Deus não pode ser nem demonstrada nem desmentida pela ciência, tanto a afirmação da existência de Deus como a negação da sua existência são questões de fé. Assim sendo, tanto o religioso como o ateu são crentes - o religioso acredita na existência de Deus, o ateu acredita na sua inexistência.

O agnóstico, porém, é farinha de outro saco. Enquanto o ateu vive preocupado com o problema da existência ou não existência de Deus, o agnóstico não se ocupa com o problema em absoluto. Ele é, portanto, o verdadeiro ateu. A título de metáfora, a mesma coisa acontece no tema do amor: quem odeia já amou e pode voltar a amar. O ódio, de alguma forma, relaciona duas pessoas ainda que negativamente; diz-se que uma criança prefere levar uma bofetada do seu pai, a ser totalmente ignorada por ele.

O agnóstico é o que ignora totalmente a Deus, não se ocupa com o tema nem se preocupa, não investiga nem quer conhecer. É o morno do livro do Apocalipse (3,16) o que nem é quente nem é frio, mas sim morno e que o Senhor vomita da sua boca.

Agnosticismo significa falta de conhecimento de Deus para poder acreditar, porque o agnóstico pretende usar com Deus o mesmo método de conhecimento que usa com as coisas físicas; esse método não funciona com Deus porque também não funciona com as pessoas.

Conhecer significa controlar, ganhar poder sobre o que se conhece a ponto de poder manipular o objeto conhecido. Se eu souber como se processa o fenómeno da chuva, tenho a possibilidade de o controlar a ponto de fazer chover, se quiser, como de facto já aconteceu. Evidentemente que não é possível conhecer Deus desta forma, até pelo facto de que se acreditamos na sua existência, a nossa mente é só um cisco comparado com a sua mente; é lógico que a parte não pode englobar o todo.

Por outro lado, Deus é um ser pessoal e as pessoas não se nos revelam, não abrem o seu coração nem a sua mente se suspeitarem que queremos controlá-las ou manipulá-las. Como dizia o meu pai: Ninguém descubra o seu peito por maior que seja a dor, pois quem o seu peito descobre de si mesmo é traidor.

As pessoas só se revelam se lhes dermos alguma garantia de que podem confiar em nós. Esse tipo de confiança só acontece em clima de amor - o amor leva à confiança e ao conhecimento: quanto mais se conhece mais se ama, quanto mais se ama mais se conhece. É na medida em que amamos que conhecemos. Por isso, amar deixa-nos vulneráveis e suscetíveis à traição.

Tanto o ateu como o agnóstico gostariam de poder colocar Deus num tubo de ensaio para o analisar, mas isso não é possível de fazer com Deus nem com uma pessoa humana. Como muito bem disse Jesus, Deus só se revela aos que o amam, ou seja, aos que dão um passo de fé e optam por acreditar: “Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada”. João 14,23

Há quem distinga dois tipos de agnósticos: o que se desinteressa pelo tema porque não há evidências suficientes que provem a existência de Deus, este seria uma espécie de ateu não praticante; e o que não só não vê razões para acreditar, como acha que não as há nem para ele nem para ninguém, o que faz dele mais ateu que agnóstico ou agnóstico fundamentalista. A ambos dizemos que não é possível conhecer a Deus da forma como o querem conhecer, como se fosse uma coisa, mas é possível conhecê-Lo da forma como se conhece uma pessoa.

Como seria o mundo, o desenvolvimento e o progresso humano e científico se todos nós em todas as matérias tivéssemos esta atitude agnóstica? Não haveria progresso científico, pois não é impossível conhecer tudo. A ciência em todos os seus ramos está envolta em mistério; há coisas que conhecemos e coisas que desconhecemos; quando mais conhecemos, mais há para conhecer. Se concluirmos que por não conhecermos o suficiente rejeitamos o conhecimento ou voltamos as costas ao conhecimento, - então não haverá nenhum progresso humano em nenhuma das suas facetas ou conhecimentos.

Concluindo, de Deus é impossível saber tudo porque ele é mistério; mas é possível saber cada vez mais; o mesmo acontece com qualquer ramo da ciência: é impossível saber tudo mas é possível saber cada vez mais. A única diferença entre o conhecimento científico e o conhecimento de Deus ou de uma pessoa humana está no método.

Porque as pessoas foram feitas para serem amadas e as coisas para serem usadas, é possível conhecer as coisas sem as amar, mas não é possível conhecer as pessoas nem Deus sem amor. Quem não tem fé em Deus pode também não ter fé nas pessoas; e, quem não ama as pessoas, pode cair na armadilha de amar as coisas e usar as pessoas. Quem não ama não conhece a Deus nem nenhuma pessoa. (1 João 4, 8)

A imagem que ilustra esta crónica não foi escolhida causalmente; trata-se de uma pintura do pintor francês Paul Gauguin que se intitula precisamente: De onde vimos, quem somos e aonde vamos, questões que podemos ver em francês no canto superior direito da pintura. Em si mesma, a pintura é a resposta que este pintor dá a estas questões e que nos deixou antes de sobreviver ao seu intento de suicídio. Para ele este era o seu legado à humanidade, o ponto mais alto da sua carreira.

Como se pode verificar da esquerda para a direita a pintura está dividida em três painéis e cada um deles procura responder a cada uma das questões pela ordem que Gauguin estabelece; o painel da esquerda responde de onde vimos; o do centro, o que somos ou que sentido tem a vida e o da direita, aonde vamos. A estas perguntas Gauguin responde com simbolismos que só um cristão poderia conhecer.

De onde vimos?
O Senhor Deus formou o homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem transformou-se num ser vivo. Génesis 2, 7

A ciência diz que viemos de África, mais precisamente nascemos no Vale de Rift há 5 milhões de anos; mas de onde vieram as espécies anteriores a nós e a vida neste planeta e a criação do Universo?

O cristão responde a esta questão dizendo vimos de Deus que para nós é amor, Pai, criador e sustento da nossa vida. Que nos entregou a criação inteira para nós administrarmos e para a aperfeiçoarmos.

Os ateus dizem que vimos do Nada; contradizendo a física moderna depois da descoberta do Big Bang, que diz que o mundo teve um começo e terá um fim, muitos ateus continuam a afirmar, contrariamente às leis da termodinâmica, que o mundo sempre existiu e há-de existir. Os agnósticos pretendem desconhecer e ignorar esta pergunta ou provavelmente dirão “não sei nem quero saber”.

Em cada ato da criação, em cada um dos setes dias da criação, Deus concluiu que gostou do que fez. Não há aqui nenhum interesse da sua parte, criou-nos porque nos amou, porque gostou de nós, por puro prazer de nos criar, porque se alegra com a nossa existência.

Para onde vamos?
Caríssimos, agora já somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. O que sabemos é que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque o veremos tal como Ele é. 1 João 3,2

Em busca da sua própria identidade, um boneco de sal viajou milhares de quilómetros por um deserto, até que, finalmente, alcançou o mar. Fascinado pela massa estranha e móvel, completamente diferente de tudo quanto tinha visto até então, perguntou:
- Quem és tu?
 Com um sorriso, o mar respondeu:
- Sou o mar.
- Mas o que é o mar? inquiriu o boneco.
- Vem, toca-me e saberás.
O boneco de sal colocou o pé na água e imediatamente ficou sem ele.
- Que fizeste? perguntou assustado.
- Para me conheceres tens de te dar, respondeu o mar.
Então o boneco de sal foi adentrando o mar e, antes de uma onde o cobrir por completo, disse num suspiro:
-  Finalmente descobri quem sou.

Fizeste-nos, Senhor, para ti e o nosso coração anda inquieto enquanto não repousa em ti. Santo Agostinho

Criados à imagem e semelhança de Deus, a nossa vida é uma peregrinação para a terra prometida: no decurso desta peregrinação, vamos fazendo como aquele pote de latão furado cheio de água que se ia perdendo quase na totalidade e que, ao contrário do seu companheiro, chegava ao seu destino quase vazio. Aflito por isto, julgou-se inútil em comparação com o seu companheiro que sempre chegava cheio, sem perder nem um pingo, até que um dia o dono dos dois potes lhe fez ver que do seu lado do caminho cresciam bonitas flores que ele, sem querer, havia regado.

Na nossa peregrinação vamos espalhando felicidade e alegria, paz e justiça, vivendo como se não houvesse outra vida, fazendo com que o Reino de Deus esteja já presente entre nós, mas sabendo, por outro lado, que por muito que façamos por ele sempre diremos, “mas ainda não conseguimos” - na sua totalidade, na sua plenitude. Na sua totalidade só com Deus. Por isso, embora não recolhamos aqui muito do que semeámos, vamos recolher tudo e muito mais do que semeamos com Deus. "Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam." 1 Coríntios 2:9

Porque não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a vindoura. Por ele, pois, ofereçamos sempre a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome. Mas não vos esqueçais de fazer o bem e de repartir com outros, porque com tais sacrifícios Deus se agrada. Hebreus 13:14-16

Vimos de Deus Pai amoroso e caminhamos à luz da fé e na esperança para Deus, juiz justo e lento na ira e rico em misericórdia e perdão (Efésios 2, 4). Quanto aos ateus, estes caminham para a morte. Caminham para o Nada, como dizia Heidegger que define o ser humano como sendo um ser para a morte, pois a morte que para nós é só passagem para a vida eterna, é a estação final da sua viagem, pois vem do Nada. Os agnósticos caminham de olhos fechados ou andam às voltas sem rumo nem objetivo e, como diz o provérbio, para quem não sabe para onde há-de ir não há ventos favoráveis.

No ventre de uma mãe havia dois bebés. Um perguntou ao outro: "Acreditas na vida após o parto?" O outro respondeu: "É claro. Tem que haver algo após o parto. Talvez nós estejamos aqui para nos prepararmos para o que virá mais tarde." "Disparate", disse o primeiro. "Que tipo de vida seria essa?" O segundo disse: "Eu não sei, mas haverá mais luz do que aqui. Talvez nós possamos andar com as nossas próprias pernas e comer com as nossas bocas. Talvez tenhamos outros sentidos que não conseguimos entender agora." O primeiro retrucou: "Isso é um absurdo. O cordão umbilical fornece-nos nutrição e tudo o mais de que precisamos. O cordão umbilical é muito curto. A vida após o parto está fora de cogitação."

O segundo insistiu: "Bem, eu acho que há alguma coisa e talvez seja diferente do que é aqui. Talvez a gente não vá precisar deste tubo físico." O outro contestou: "Além disso, se há realmente vida após o parto, então, por que ninguém jamais voltou de lá?" "Bem, não sei", disse o segundo, " mas certamente vamos encontrar a Mamã e ela vai cuidar de nós." O primeiro respondeu: " Mamã? Acreditas mesmo na Mamã? Isso é ridículo. Se a Mamã existe, então, onde está ela agora?" "Ela está ao nosso redor. Estamos cercados por ela. Nós somos dela. É nela que vivemos. Sem ela este mundo não poderia existir." Disse o primeiro:" Bem, eu não consigo vê-la, então, é lógico que ela não existe." Ao que o segundo respondeu: "Às vezes, quando estás em silêncio, se te concentrares e realmente ouvires, vais perceber a presença dela e ouvir a sua voz amorosa”.
Este foi o modo pelo qual um escritor húngaro explicou a existência de Deus.

Segundo o famoso argumento ou aposta de Pascal, suponhamos que dois amigos - um ateu e outro religioso - apostam uma quantia de dinheiro na hipótese da existência ou não existência de Deus e da vida para além da morte. O ateu aposta que Deus não existe, o religioso que sim, existe. À morte dos dois se o ateu ganhar a aposta, ou seja, se não houver nada para além da morte, não vai poder receber o prémio, não vai sequer saber que ganhou e o que a perdeu, o religioso, também não vai saber que perdeu.

Ao contrário, se houver vida para além da morte e Deus que a sustém, o religioso ganhou essa vida eterna e o ateu perdeu-a. Concluímos que quem acredita tem tudo a ganhar e nada a perder; quem não acredita, tem tudo a perder e nada a ganhar.

Que sentido tem a vida ou o que somos nós?
Mas, a quantos o receberam, aos que nele crêem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. João 1, 12

É Ele a imagem do Deus invisível, (…) todas as coisas foram criadas por Ele e para Ele. -  Ele é anterior a todas as coisas Colossenses 1, 15, 16, 17

(…) muitos dos seus discípulos voltaram para trás e já não andavam com Ele. Então, Jesus disse aos Doze: «Também vós quereis ir embora?» Respondeu-lhe Simão Pedro: «A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! Por isso nós cremos e sabemos que Tu é que és o Santo de Deus.» João 6, 66-69

A nossa identidade é ser filhos de Deus, mas isto acontece se aceitamos a Deus como Pai. Jesus de Nazaré é a encarnação da segunda pessoa da Santíssima Trindade, feito homem para nos mostrar o caminho, a verdade e a vida (João 14, 6). Verdadeiramente, Deus e homem veio para que tenhamos vida e a tenhamos em abundância (João 10, 10); ele é o pão nosso de cada dia (João 6, 51) e a vinha da nossa alegria (João 2, 1-11), o sentido da nossa vida (Mateus 5, 13-14). Só ele tem palavras de vida eterna, palavras que para além de nos ajudarem a viver esta vida com sentido, nos levam efetivamente à vida eterna. (João 6, 68)

Neste caminho, nesta peregrinação, somos ajudados, consolados e inspirados pela presença constante do Espírito Santo, terceira pessoa da Santíssima Trindade que nos ajuda a concretizar e aplicar o evangelho em cada tempo e em cada lugar e situação.

Para o ateu, aquele que acredita que vimos do nada e que vamos para o nada, a conclusão lógica é que esta vida não tem sentido. Algo que começa em nada e termina em nada não pode ser grande coisa, pois nada mais nada, é igual a nada.

O ateu carece de razões para viver; o agnóstico finge que estas questões não o preocupam, vive instalado no momento presente, desligado do futuro e do passado tal como o resto dos seres vivos, não se questiona tal como o resto dos seres vivos, de consciência adormecida, ante o perigo esconde a cabeça sob a areia, como dizem que faz a avestruz, e fazendo jus ao provérbio “Olhos que não vêem, coração que não sente”
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de dezembro de 2018

CNV - O idioma do Reino de Deus

2 comentários:
“Someday, after mastering the winds, the waves, the tides and gravity, we shall harness for God the energies of love, and then, for a second time in the history of the world, man will have discovered fire.” (“Um dia, depois de dominarmos os ventos, as ondas, os mares e a gravidade, dominaremos para Deus as energias do amor, e então, pela segunda vez na História do mundo, o homem descobrirá o fogo.” Pierre Teilhard de Chardin

No fim desta longa digressão por esta nova forma de falar com os outros e connosco mesmos, de ouvir os outros e a nós mesmos e de pensar sobre nós, sobre os outros e sobre o mundo em geral; depois de verificar que esta nova linguagem, para além de ser um idioma ou forma de falar, é uma filosofia de vida que é transversal a todas as ciências humanas, uma nova matriz ou paradigma para a vida humana em todas as suas vertentes sociais e individuais, concluímos que se trata da língua que se fala ou falará no Reino de Deus.

A CNV leva-nos a ser compassivos e a dar e receber compassivamente; o que quer que façamos, os serviços que prestamos aos outros e a nós mesmos, tudo tem como motivação única enriquecer a vida - a nossa e a dos outros - e a felicidade. Por isso nada fazemos por obrigação, dever, medo de castigos, nem na esperança de um prémio, por vergonha ou por sentimento de culpa. Entendemos que está na nossa natureza, nos nossos genes, o gosto pela gratuidade; nada fazemos que não seja por gosto; servimos os outros porque nos faz felizes contribuir para a sua felicidade.

Em CNV, não fazemos juízos de valor moral ou ético sobre o desempenho dos outros: não insultamos, nem humilhamos, nem criticamos, nem etiquetamos, não fazemos análises nem comparações, porque sabemos que tais atitudes colocam as pessoas na defensiva. Avaliamos o nosso desempenho e o dos outros na medida em que satisfaz as nossas necessidades/valores e as deles, com vista a aprendermos com os nossos erros e não para nos sentirmos culpados ou para culpabilizar os outros.

Sentimo-nos responsáveis pelos nossos próprios sentimentos e ações. O que os outros fazem ou dizem pode desencadear em nós sentimentos e emoções, mas não os causa. A causa destes está na forma como recebemos, julgamos e interpretamos o que os outros dizem ou fazem, assim como no facto de irem ou não ao encontro das nossas necessidades e expectativas nesse momento. Ao expressar os nossos sentimentos, expressamos também a necessidade satisfeita ou insatisfeita que lhe dá origem, usando sempre a fórmula: “Sinto-me… porque tenho necessidade… ou dou valor a…”

O Reino de Deus não a Igreja
“Jesus anunciou a vinda do Reino de Deus, mas o que veio foi a Igreja.” - Alfred Loisy (1857-1940)

Há uma descontinuidade entre Jesus de Nazaré e a Igreja; de facto, enquanto que a palavra “Ekklesía” só aparece duas vezes, e apenas no evangelho de S. Mateus 16,18; 18,1, em dois textos muito discutíveis, a expressão Reino de Deus ou Reino dos Céus, como prefere Mateus, aparece quase cem vezes.

Jesus inaugura o Reino, não a Igreja; não uma organização cultual ao serviço de uma religião ou sistema político, como foi mais tarde, mas sim um movimento igualitário de homens e mulheres, que não admite discriminações por razões de etnia, cultura, sexo, religião, classe social, ou procedência geográfica, e que tinha como finalidade uma sociedade onde reinasse a justiça, e a paz.

O anúncio do Reino de Deus teve um carácter subversivo, inconformista, utópico e desestabilizador do sistema de dominação violenta vigente antes de Jesus, durante o seu tempo e até aos nossos dias. É claro que o Reino de Deus não era tarefa de um só homem, mesmo sendo Jesus de Nazaré, nem de uma só geração, a dos seus discípulos e apóstolos.

Neste sentido, a Igreja nasce como fermento do Reino de Deus, como depositária da doutrina de Jesus e como corpo místico de Cristo, a reincarnação de Cristo em todos os aqui(s) e agora(s) da História da humanidade.

A Igreja está ao serviço da Missão que começou quando Deus enviou o seu filho ao mundo. A finalidade da Missão não é a “implantatio Ekklesia”, a implantação da Igreja, mas sim o Reino de Deus.

A absolutização da instituição eclesiástica e a sua identificação com o Reino, são heresias e perversões do movimento de Jesus. A Igreja tem a tentação de se idolatrar a si mesma, para evitar isto, o melhor antídoto é, como Jesus fez, colocar-se ao lado dos pobres, assumir a sua causa e trabalhar pela sua libertação e pela vinda do Reino de Deus.

Jesus e a violência religiosa
Jesus de Nazaré não cai de para-quedas na história de Israel, mas integra um movimento que começou antes dele e o levou até às últimas consequências: a destruição do Templo de Jerusalém (Mateus 24, 2), a destruição de si mesmo como Templo (João 2, 19) e a instituição de cada um de nós como templo do Espírito Santo. (1 Coríntios 6, 19-20)

Tudo começou quando uma seita do judaísmo, os monges do Qumran, abandonaram a religião oficial de Israel por a considerarem corrupta e violenta e se refugiaram em cavernas na margem do Mar Morto. Enquanto que todo o israelita para reentrar em comunhão com Deus, depois de violar a lei de Moisés, necessitava imolar um animal que atuava como bode expiatório: no mesmo momento em que Jesus morria na cruz, no Templo de Jerusalém imolavam-se mais de 3 mil cordeiros e cabritos.

A mim pertence todo o primogénito. E assim todo o primogénito macho do teu gado, quer graúdo quer miúdo, oferecê-lo-ás em memorial. Mas resgatarás com um cordeiro o primogénito do jumento ou, então, quebrar-lhe-ás a nuca. Resgatarás sempre o primogénito dos teus filhos e não aparecerás diante de mim de mãos vazias. Êxodo 34, 19-20

Não parece muito diferente das antigas religiões dos Maias e Aztecas onde se ofereciam sacrifícios humanos aos deuses. À volta do Templo criou-se a classe sacerdotal e, com esta, - o negócio e a corrupção instalaram-se; Anas e Caifás instruíam os oficiais do Tempo para que rejeitassem, classificando-os como defeituosos e impróprios para serem oferecidos a Deus, os cordeiros e cabritos que as pessoas traziam dos seus rebanhos, forçando-os assim a comprar os que procediam dos rebanhos dos sumos sacerdotes.

João Batista, sacerdote por ser filho de sacerdote, abdicou do Templo de Jerusalém para oficiar nas margens do Rio Jordão, trazendo assim a purificação dos pecados por via de água para fora dos muros do mosteiro de Qumran e, oferecendo-a a todos os descontentes da religião judaica.

Nem neste monte, nem em Jerusalém, haveis de adorar o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, (…) os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade. João 4, 21, 23

Jesus vai além do Batista e oferece não já um batismo de água mas sim do Espírito Santo: perdoa os pecados da mesma forma que cura e traz a religião para onde as pessoas vivem, não no Templo de Jerusalém, nem no deserto onde por 40 anos o povo se relacionou com Deus, mas nas vilas e cidades onde o povo está. Deus volta a habitar com o seu povo, como outrora no deserto, morando numa tenda e caminhando com o povo.

Em Jesus, Deus volta a caminhar com o seu povo como a Arca da Aliança que ia para todo o lado, até para as batalhas. Deixou de estar confinado a um Templo, do qual alguém tinha uma chave e o usava como instrumento de poder. Deus é Espírito e, como tal, está em toda a parte, é inerente a tudo o que Ele criou.

Fim do pensamento dualista
O lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito; o novilho e o leão comerão juntos, e um menino os conduzirá. A vaca pastará com o urso, e as suas crias repousarão juntas; o leão comerá palha como o boi. A criancinha brincará na toca da víbora e o menino desmamado meterá a mão na toca da serpente. Isaías 11, 6-8

No reino de Deus não há ódios porque não há inimigos, os antagonismos são todos superados: os animais, antes inimigos uns dos outros, vivem agora em harmonia uns com os outros e com o ser humano.

Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus. Gálatas 3, 27-28

Entre os humanos dá-se uma autêntica revolução francesa, extinguem-se as classes sociais e as castas, o sangue azul, a escravatura e o senhorio, o sexismo, a xenofobia e a homofobia; todos são iguais perante Deus que é Criador de tudo e Pai de todos, pelo que Jesus nos aconselha a que não usemos o título de Pai, ou mestre, ou doutor com outro que não Deus; não admitamos ninguém a  cima de nós, nem vejamos a ninguém abaixo de nós.

Vi, então, um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido e o mar já não existia. Apocalipse 21, 1

O reino de Deus é o novo céu, a nova terra, onde o mar, que para os hebreus era o símbolo do mal, já não existe; como nos encontramos para além dos antagonismos humanos e animais, também a diferenciação entre mal e bem deixa de existir: Deus é bom e só criou coisas boas. - O ser humano é a obra prima da criação de Deus, portanto só pode ser sumamente bom.

Transformarão as suas espadas em relhas de arados, e as suas lanças, em foices. Uma nação não levantará a espada contra outra, e não se adestrarão mais para a guerra. Isaías 2, 4

Como o mal deixa de existir, deixa de existir também a sua expressão máxima, a guerra, pelo que as armas de guerra, agora obsoletas, são forjadas e derretidas outra vez para fazer delas armas de paz. O próprio Jesus ao entrar em Jerusalém como rei não vem montado num cavalo, animal usado para a guerra e símbolo de poder e ostentação, vem montado num animal que é um verdadeiro símbolo de paz e humildade - o burro - pois os burros ainda hoje nos países pobres são o único transporte de mercadorias.

No monte Sião o Senhor do universo preparará para todos os povos um banquete de carnes gordas, acompanhadas de vinhos velhos, carnes gordas e saborosas, vinhos velhos e bem tratados. Neste monte, Ele arrancará o véu de luto que cobre todos os povos, o pano que encobre todas as nações. Isaías 25, 6-7

Por fim, tanto para Isaías como para Jesus, quatro séculos mais tarde, a melhor forma de representar o reino é através de um banquete, onde há prazer e alegria, diversão e convivência humana baseada no respeito e no amor. Um banquete no qual, na eventualidade de faltar o vinho da alegria, Jesus transformará a água, destinada à purificação, no vinho mais generoso que jamais se produziu. (João 2, 1-11)

CNV – A solução para todos os males
Our survival as a species depends on our ability to recognize that our well-being and the well-being of others are in fact one and the same. (A nossa sobrevivência enquanto espécie depende da nossa capacidade de reconhecer que o nosso bem estar e o bem estar dos outros são, na verdade, uma só coisa.) Marshall Rosenberg

A comunicação não violenta é a panaceia, o medicamento que cura todos os males, individuais e sociais, a pedra filosofal que transforma tudo em ouro, a teoria geral de tudo, o paradigma, a matriz de um mundo novo, do Reino de Deus.

A CNV pode ser eficazmente aplicada a todos os níveis de comunicação e em diversas situações: íntima, em relacionamentos, famílias, escolas, organizações e instituições, terapia e aconselhamento, negociações diplomáticas e de negócios, disputas e conflitos de qualquer natureza.

Ajusta a cosmovisão do ser humano, afirmando que o homem não é naturalmente mau como afirma o mito babilónico, mas naturalmente bom como afirma o mito bíblico e que a violência não está nos nossos genes, mas é antes uma doença, um problema que devemos resolver.

Desmascara também o mito da violência redentora, onde a violência se apresenta como a solução para si mesma. A violência não resolve nenhum problema e cria outros. Não é com ódio que se vencem os nossos inimigos; ao contrário do ódio que só os faz mais fortes, só o amor derrota verdadeiramente os nossos inimigos.

Ao amar os nossos inimigos, como Jesus nos disse que fizéssemos, expomos a falácia do mito da violência redentora e privamos o sistema de dominação de sua justificação moral. Ao longo da história, para sobreviver, o sistema de dominação acusava e declarava certas pessoas como "maus" e "inimigos" e assim justificava o uso da violência contra eles.

Substituindo a justiça retributiva pela justiça reparadora, reconcilia-se de uma forma sã e positiva a vítima com o criminoso de uma forma que os dois saram a ferida infligida e o infrator repara ou paga pelo seu crime não ao Estado, apodrecendo numa prisão, mas à vítima restabelecendo dignidade inicial desta e reabilitando-se a si mesmo para voltar a viver em sociedade

Estabelece uma nova relação com o nosso planeta baseada num desenvolvimento sustentável e numa coexistência pacífica e não numa exploração desenfreada dos recursos do planeta, pensando só nos próprios interesses mesquinhos de hoje, numa atitude irresponsável que pensa “quem vier depois de mim que se arranje”.

Nas escolas, como diz Rosenberg, para além das competências básicas de leitura, escrita e matemática, as crianças precisam de aprender a pensar por si mesmas, a encontrar por si mesmas o sentido e o significado do que aprendem, assim como a trabalhar e a viver juntas.

A CNV é a forma melhor e mais positiva de lidar com a ira e resolver conflitos, mesmo os de longa duração, desde que, como diz Rosenberg, as pessoas abdiquem de se criticar, julgar e analisar uns aos outros e entrem em contacto com as próprias necessidades e com as necessidades dos outros. Uma vez identificadas as necessidades de cada um dos envolvidos no conflito, é possível resolvê-las sem cedências e para satisfação de todos.

Subjacentes a toda a ação humana estão necessidades que as pessoas procuram satisfazer. O conhecimento, a identificação e a compreensão dessas mesmas necessidades, cria certamente um ponto de encontro e uma base que possibilite a cooperação e, mais globalmente, a paz.

Compreendermo-nos uns aos outros, ao nível das nossas necessidades, cria comunhão porque, a este nível humano mais profundo, as semelhanças entre nós superam as diferenças, o que origina uma maior compaixão.

Quando focamos a nossa atenção nas nossas necessidades mútuas, sem interpretar, criticar, culpar, esta observação nua e crua espevita a nossa criatividade, de tal modo que as soluções afloram naturalmente à nossa consciência. A esta profundidade, conflitos e mal-entendidos podem ser resolvidos com maior facilidade.

Seguindo os passos de seu mestre Carl Rogers, inspirado no conceito de compaixão presente em todas as religiões,  na compreensão teológica e antropológica de Walter Wink e na visão do futuro de Teilhard de Chardin, com a comunicação não violenta sendo, muito mais do que uma língua, Marshall Rosenberg recriou à sua maneira, o paradigma, a matriz, a cosmovisão do Reino de Deus, tal como Jesus de Nazaré a tinha idealizado há dois mil anos.

10 etapas para a paz
  1. Observa objetivamente o que os outros dizem ou fazem. Sempre que necessário, repete essa observação para os outros, sem incluir análises, interpretações, julgamentos ou avaliações de qualquer espécie. No caso de teres de incluir algum destes elementos, assume essa responsabilidade.
  2. Os sentimentos e as necessidades constituem a essência de uma pessoa; são a manifestação mais real da nossa vida no momento presente. Como tal, os sentimentos e as necessidades são universais, ou seja, todos os seres humanos de todos os tempos e lugares têm os mesmos sentimentos e necessidades.
  3. Conhece-te a ti mesmo, aumentando o teu vocabulário de sentimentos e necessidades para estares mais consciente do que se passa contigo e assim poderes ajudar os outros no mesmo processo. Certifica-te de que estás tão interessado em conhecer e satisfazer as necessidades dos outros como estás em satisfazer as tuas.
  4. Como alternativa ao tomar a peito o que te dizem, reagir, concordar ou discordar, tenta sintonizar-te com os sentimentos e necessidades implícitos no que a pessoa disse, pois, todas as críticas, insultos, explosões de ira e todo tipo de mensagens negativas são trágicas expressões de sentimentos e necessidades.
  5. Se te sentires, irritado, triste, deprimido, tenta descobrir que necessidade tua não está a ser satisfeita e que estratégia usar para a satisfazer, em vez de atribuíres um veredito e concluir que algo de mal se passa contigo ou com os outros. Usa o mesmo processo com os teus erros e faltas; faz o luto, em vez de te culpares e humilhares.
  6. Certifica-te de que estás ligado empaticamente a alguém antes de lhe pedires alguma coisa; e, quando eventualmente pedires, certifica-te de que é um pedido e não uma exigência.
  7. Em vez de afirmares o que não queres que os outros façam, na esperança que o outro adivinhe o que tu verdadeiramente queres, diz concretamente o que desejas que o outro faça.
  8. Em vez de declarar o que queres que alguém seja, afirma que ação em concreto gostarias que a pessoa realizasse de modo a orientá-la na direção do que queres que ela seja.
  9. Quando alguém te solicita algo, em vez de dizeres “não”, refere a necessidade que te impede de dizer “sim”. Quando alguém responder “não” a um pedido teu, ouve a necessidade que o impediu de dizer “sim”.
  10. Em vez de elogiar alguém por ter feito algo do teu agrado, expressa a tua gratidão referindo que necessidade tua a sua ação satisfez.

Termino com um pequeno conselho, do criador e fundador da linguagem da não-violência, (Marshall Rosenberg 1934-2015): por muito impressionados que estejamos com os conceitos da CNV, é somente através da sua prática e uso que as nossas vidas serão transformadas... e, acrescento eu, o Reino de Deus se tornará numa realidade.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de dezembro de 2018

CNV - Para além do bem e do mal

Sem comentários:
Marshall Rosenberg iniciou a sua carreira como psicoterapeuta na área da psicanálise ou psicologia humanista. Ao dar-se conta do pouco sucesso que a psicoterapia tinha na resolução, dos problemas das pessoas e na mudança do seu comportamento, mesmo quando descobriam por intermédio da psicanálise a origem dos seus males, mudou radicalmente de orientação. Inspirado pelas religiões, por filósofos e teólogos, descobriu a técnica da comunicação não violenta e fez-se à estrada, dando, partilhando a sua descoberta gratuitamente, através de workshops em mais de cinquenta países.

Rosenberg pouco se preocupou com as implicações da sua técnica para saberes como a filosofia do direito, a ecologia, a antropologia cultural, a sociologia, a teologia e a ética. Fez afirmações aqui e ali sobres estes temas, mas não desenvolveu sistematicamente nenhum deles. Na verdade, escreveu muito pouco, praticamente só um livro, onde explicou de forma muito coloquial, a sua técnica. - A única exceção foram as escolas-girafa que ajudou a criar para que as crianças fossem educadas nesta nova linguagem e filosofia de vida, na esperança de que se alastrasse ao resto do mundo.

Muitos dos que entram em contacto com a comunicação não violenta, dão-se conta de que, mais que uma linguagem ou técnica linguística, a CNV é uma filosofia de vida. Vimo-nos na obrigação de desenvolver alguns temas porque entendemos que esta nova filosofia de vida requer uma mudança de mentalidade na forma como temos vindo a estudar as ciências humanas. A ética é talvez o assunto mais espinhoso sobre o qual Rosenberg fez afirmações soltas, mas que nunca abordou sistematicamente.

Sabemos que foi contra todas as avaliações moralistas e dualismos, como certo/errado, mau/bom, correto/incorreto, adequado/inadequado. Como ele disse: na vida, em vez de jogarmos o jogo “como tornar a vida maravilhosa”, jogamos o “quem está certo/quem está errado, quem tem razão/ - quem a não tem. Conheceis este jogo? É um jogo onde ninguém ganha, todos perdem”. Será que Rosenberg era contra a ética? Será que defendeu que esta devia desaparecer por sempre ter sido um instrumento de dominação?

A origem do mal
Eu sou o Senhor e não há outro, não existe outro Deus além de mim. (…) Formo a luz e crio as trevas, dou a felicidade e mando a infelicidade. Eu sou o Senhor, que faço todas estas coisas. Isaías 45, 5, 7

 “Disseste-me, meu Deus para acreditar no inferno. Mas proibiste-me de pensar…em qualquer homem como maldito”.   Pierre Teilhard de Chardin

O jesuíta francês Teilhard de Chardin, no intuito de reconciliar o livro do Génesis com a ciência da evolução das espécies, começa por afirmar sem rodeios que Adão, como figura histórica, que ao pecar trouxe o mal, o sofrimento e a morte, nunca existiu.

Logo a seguir, opõe-se a S. Paulo em Romanos 8, onde se diz que o sofrimento, o mal e a morte, são consequências do pecado de Adão e Eva, afirmando que o sofrimento, o mal e a morte sempre existiram. Para Teilhard de Chardin, e como sugere o texto de Isaías 45, se o mal existe no mundo é porque sempre existiu e, de alguma forma, Deus é responsável por isso pois, como afirma o mesmo texto, não há outro Deus.

O Jardim do Éden foi criado por Deus, a árvore do conhecimento do bem e do mal foi lá colocada por Deus; ou seja, Deus para preservar a liberdade do Homem, criou uma alternativa a si mesmo abrindo a possibilidade ao mal. Não criou o mal em si nem os males concretos, esses são da única responsabilidade do Homem pelo uso errado da sua liberdade.

Deus que existe na eternidade para além do bem e do mal, criou uma criação boa em si mesma porque Deus é bom, mas aperfeiçoável e colocou nesta criação um homem livre, com a capacidade para a aperfeiçoar; um mundo já perfeito seria uma pura extensão de Deus não diferente de Deus, e o homem não teria nada que fazer e, claro, não seria livre.

Porém, algo que pode ser aperfeiçoável pode ser também suscetível de se degradar. Logo, na sua primeira ação sobre a criação, Adão, em vez de a aperfeiçoar, arruinou-a; como dizem os provérbios, “Saiu-lhe o tiro pela culatra” ou “Foi pior a emenda que o soneto”.

O pecado original: usurpação do critério de bem e de mal
O Senhor Deus levou o homem e colocou-o no Jardim do Éden, para o cultivar e, também, para o guardar. E o Senhor Deus deu esta ordem ao homem: «Podes comer do fruto de todas as árvores do Jardim; mas não comas o da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque, no dia em que o comeres, certamente morrerás.» Génesis 2, 15-17

Deus criou o ser humano e colocou-o num Jardim para que vivesse a vida em plenitude; tinha liberdade plena para fazer tudo o que desejasse, mas, como cláusulas de um contrato em letra pequenina, não podia comer do fruto, nem tocar na árvore do conhecimento do bem e do mal que estava no centro do Jardim.

Que significa a árvore do conhecimento do bem e do mal e por que está colocada no centro do Jardim? Se o Jardim significa vida em plenitude, felicidade e a realização de todas as nossas potencialidades, um rigoroso discernimento entre o mal e o bem, entre o que contribui ou não para essa felicidade, é o centro dessa vida em plenitude.

De quem é a prerrogativa do discernimento entre o bem e o mal? Decerto não é nossa, pertence a Deus, o critério é Dele; sabe melhor o Criador como deve funcionar a criatura que a própria criatura. Portanto, se a prerrogativa ou o critério do discernimento entre o bem e o mal tivesse permanecido com Deus, a nossa vida teria sido até agora um mar de rosas.

Ao comerem do fruto proibido, na sua mente, na sua vontade e na sua liberdade, tornaram-se eles mesmos no critério do bem e do mal, usurpando essa prerrogativa a Deus. Fizeram o que Prometeu fez na mitologia grega: roubar o fogo aos deuses. De agora em adiante, somos nós quem decide o que é certo e o que é errado, o que é mau e o que é bom. Este foi o erro fundamental de Adão e Eva.

A serpente tinha razão, eles de facto seriam “como deuses”, por terem usurpado uma prerrogativa que era só de Deus. Mas é claro que, na realidade eles não se tornaram deuses, muito pelo contrário foi tudo uma ilusão, pois tiveram de pagar o preço da sua usurpação. Pensaram que estavam a fazer o correto – na verdade, ninguém faz o mal pensando que está a fazer o mal, nem mesmo Hitler que pensava que estava a livrar o mundo de uma peste, exterminando 5 milhões de judeus.

Enquanto Deus era Deus e a criatura era criatura, todos olhavam para Deus em busca de inspiração e orientação para as suas vidas, havia um único critério. Enquanto Deus era Pai todos éramos irmãos; a usurpação do lugar de Deus criou divisão, rivalidade e conflito, pois todos querem ocupar esse lugar.

Quando eu digo que sou o critério do bem e do mal e tu dizes que também o és; quando eu quero ocupar o centro e tu também queres, entramos em conflito, somos como dois grandes planetas que querem ocupar o mesmo lugar, o lugar do Sol.

A partir do momento em que os nossos pais comeram do fruto, sentiram-se nus, ou seja, inseguros e vulneráveis, pois todos queriam ser deuses. A violência, a rivalidade e a competição estabeleceram-se, porque todos tinham que se vestir e proteger para se defenderem uns dos outros. Os deuses não se dão bem uns com os outros:  já encontramos esta rivalidade tanto na mitologia babilónica, como na grega e na romana.

Parafraseando Rosenberg a este respeito, podemos dizer que enquanto estávamos no Jardim do Éden jogávamos o jogo de "Como tornar a nossa vida maravilhosa"; quando roubamos a Deus a prerrogativa e o critério do bem e do mal, começámos a jogar o jogo de "Quem está certo/- quem está errado", e temo-lo jogado desde aquele tempo até agora…

Jesus devolve a Deus a prerrogativa sobre o bem e o mal
Quando se punha a caminho, alguém correu para Ele e ajoelhou-se, perguntando: «Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?» Jesus disse: «Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão um só: Deus». Marcos 10, 17-18

Parece insólita a reação de Jesus ao ser chamado “Bom Mestre”. Sabemos que Ele aproveita todas as deixas para ensinar algo. Se não quisesse ensinar nada neste caso podia ter ignorado a forma como o jovem o qualificou, passando ao ponto seguinte que, segundo o evangelho, era certificar-se do cumprimento dos mandamentos. Ao contrário Jesus rejeita a qualificação dizendo “Porque me chamas bom? quem és tu para me julgar, porque tomas para ti e o critério do bem e do mal?” A prerrogativa do bem e do mal pertence a Deus e somente a Ele.

Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Lucas 6, 37

Tanto na forma como viveu, no seu comportamento, como nos seus ensinamentos, Jesus devolve a Deus a prerrogativa do bem e do mal. Por isso Ele não condenou Zaqueu, o publicano, pelos seus muitos crimes financeiros (Lucas 19, 1-10) ou a mulher apanhada em adultério pelos seus pecados sexuais (João 8, 1-11), nem sequer a Samaritana pelos seus divórcios compulsivos (João 4, 1-42). Ao contrário dos fariseus, nunca se considerou a si mesmo justo e os outros pecadores. Nunca julgou ninguém e aconselhou-nos a fazer o mesmo.

A parábola do trigo e do joio mostra isto mesmo claramente; o trigo cresce com o joio e um parece-se com o outro de tal forma que só Deus ao fim da ceifa pode discernir o que é trigo do que é joio (Mateus 13, 24-43). No nosso mundo, na nossa sociedade, há muitos lobos vestidos de cordeiros e cordeiros vestidos de lobos; só Deus conhece verdadeiramente a identidade de cada um, por isso dizemos “Livre-me Deus dos meus amigos, que dos meus inimigos me livro eu”. Nós julgamos pelas aparências, Deus vê o coração de cada um.

Só no Reino de Deus, ou segundo a parábola, só no tempo da colheita é que o bem e o mal podem ser perfeitamente diferenciados. Até lá, e enquanto vivemos ainda nesta terra, devolvamos a Deus o que só a Ele pertence e evitemos julgar os nossos irmãos tal como Jesus fez e nos aconselhou a fazer.

Alguém poderia ainda pensar que a capacidade para diferenciar o bem do mal afinal não é um castigo, mas sim um prémio, uma vez que, esta faculdade existe em todas as religiões e sistemas éticos. Maimonides, judeu do Reino de Granada, convertido ao Islão no século XII, aristotélico em quem S. Tomás de Aquino se inspirou, responde a esta questão dizendo que definitivamente foi um castigo e não um prémio.

Longe de ganhar uma faculdade, Adão e Eva perderam uma: quando roubaram a Deus o critério de diferenciação do bem e do mal, entrando no Seu domínio, perderam o paraíso real de estar em harmonia com a ordem natural das coisas.

Isto leva-nos mais uma vez ao coração da CNV que consiste em diferenciar observações ligadas ao que é objetivamente observável, das interpretações e avaliações subjetivas do que observamos e que nos levam à arbitrariedade e ao relativismo, definitivamente à área da opinião, ao campo da moral, ao declarar isto ou aquilo como bom/mau, certo/errado, agregando à realidade observável algo que objetivamente não está lá.

No momento em que avalio o meu próximo e o julgo como bom ou mau, abandono o mundo do que é direta e objetivamente observável, sou expulso do paraíso para entrar no campo do subjetivismo e arbitrariedade; abandono o campo natural do ver, sentir, necessitar e pedir, para ocupar o lugar Daquele que tudo sabe e se considera como o padrão, a medida exata de tudo - Deus.

Nunca poderemos saber se algo é verdadeiramente mau ou bom. “Não há males que por bem não venham” e “Deus escreve direito por linhas tortas”, diz o povo. Tudo o que podemos saber e nos interessa saber é se algo vai ao encontro e satisfaz, ou não, as nossas necessidades e as dos outros.

Até ao pecado, Adão e Eva, eram inocentes como crianças e, como tal, observavam sem julgar. Ao perderem a inocência com o erro que fizeram, passaram a julgar sem ver e julgaram mal, sempre julgarão mal porque o julgar pertence a Deus. Só Ele pode julgar porque só ele sabe tudo.

Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti. Nietzche

O que acontece quando colocamos de lado as nossas competências e começamos a emitir vereditos sobre o que está mal e o que está bem? Acabamos por interferir com a possibilidade de entendimento humano, ligação e colaboração, e semeamos as sementes da divisão, violência e guerra. É precisamente isto que temos feito nos últimos 10.000 anos, uns tentando convencer os outros da sua visão individual ou coletiva do que é o bem e do que é o mal.

O objetivo da CNV é voltar ao Jardim do Éden abdicando ou transcendendo a nossa tendência ou vício de julgar, voltando ao estado natural de observar e sentir, tomando consciência das nossas necessidades e das dos outros e, em conjunto, pedir e procurar a melhor estratégia para as satisfazer. Desta forma, seremos capazes de voltar ao estado de “verdadeiramente vivos”, de S. Ireneu, readquirindo a filiação divina que tínhamos perdido e finalmente ter vida e vida em abundância, como Jesus disse que veio trazer (João 10,10).

Sede perfeitos ou misericordiosos?
Sede perfeitos como Deus vosso Pai é perfeitoMateus 5, 48

Sede misericordiosos para com os outros, assim como vosso Pai é misericordioso para convosco. Lucas 6:36

São Lucas deu-se conta da falácia do perfeccionismo e deu a volta ao texto judaizante de Mateus; não estamos chamados a imitar a perfeição de Deus pois nunca conseguiremos ser perfeitos como Ele. Estamos sim chamados a imitar a sua misericórdia e compaixão, palavras e conceitos bem conhecidos da bíblia que inspiraram Rosenberg a criar a técnica e a filosofia da comunicação não violenta.

A minha perfeição pode ser uma razão de orgulho, como era para os fariseus no tempo de Jesus e certamente não aproveita a ninguém; pelo contrário, pode ser razão para discriminar e julgar os outros que achamos menos perfeitos que nós.

Ao contrário da perfeição, valor individual que me afasta dos outros, a misericórdia é também um valor individual, mas tem alcance social, pois não se pode ser misericordioso sem praticar misericórdia e não se pode praticar misericórdia sem fazer atos de misericórdia para connosco mesmos e para com os outros. O misericordioso é tolerante com os seus próprios defeitos e com os dos outros; o perfeccionista é intolerante para consigo próprio e para com os outros.

The goal of life is not to become perfect but to become progressively less stupid  (O objetivo de vida não é tornarmo-nos perfeitos mas tornarmo-nos progressivamente menos estúpidos) M. Rosenberg – O perfeccionismo não é um valor, a perfeição objetiva não existe; não há uma meta objetiva uma bitola para todos. O perfeccionismo é doentio pois coloca-nos num estado de permanente angústia, stress e ansiedade. Não somos, portanto, chamados a ser perfeitos, mas sim a aperfeiçoarmo-nos, não somos chamados a dar o melhor, mas a dar o nosso melhor.

Tem, portanto, razão Rosenberg ao dizer que o objetivo da vida não é sermos perfeitos, mas sermos cada vez menos estúpidos, ou seja, o nosso objetivo é conquistar terreno à estupidez. É certo que conquistar terreno à estupidez tem como consequência sermos cada vez mais perfeitos, mas este não é o objetivo, é um subproduto do crescimento. Tomando como analogia os efeitos primários e secundários de um medicamento, a perfeição é um efeito secundário, o efeito primário é ser menos estúpido.

Anything worth doing is wort doing poorly(Tudo o que vale   a pena fazer vale a pena fazer mal) M. Rosenberg – Para conquistar terreno à estupidez devemos aceitar os nossos erros, como parte do progresso, e nunca deixar de atuar ou tentar pelo medo de não nos sairmos bem; vale sempre a pena tentar, mesmo que o resultado seja muito fraco, pois é errando que aprendemos.

“Pecado” em hebraico é falhar o alvo – A noção de pecado, tão central no cristianismo, vista como um ato horrendo que nos faz impuros e se cola à nossa consciência escrupulosa que não cessa de nos acusar e perseguir e que finalmente nos leva ao inferno, ou seja, ao eterno castigo, é alheia ao judaísmo. Em hebraico pecado é “chait” e não significa nada do que acabámos de dizer, apenas significa falhar a diana, falhar ou errar o alvo.

O livro dos Juízes, (20,16) fala de atiradores de funda que podiam acertar num cabelo sem falhar o alvo. A palavra pecado pode ser reenquadrada fora do paradigma moralista de pecado/virtude, mau/bom. No livro dos Reis 1, 20-21 Bathsheba visita o seu marido David já moribundo e diz-lhe que “se Salomão não for o seu sucessor, ela e o seu filho Salomão serão vistos e tratados como” chataim”, pecadores. Este conceito de pecado, aliás o original, não tem conotações moralistas pelo que se enquadra perfeitamente na CNV.

“Errare humanum est”, como errar faz parte da natureza humana, Jesus também errou; de facto, pensava que o fim do mundo estava muito perto; o mesmo pensava S. Paulo, mas equivocaram-se os dois e S. Pedro teve que dizer, num dos últimos escritos do NT, que mil anos para Deus são como um dia e um dia como mil anos. Cristo tarda em vir para dar uma hipótese a todos de se converterem. (2 Pedro 3, 8-9)

Enquadrando-se perfeitamente com a CNV, “pecado” significa então que erramos ou nos enganamos na nossa tentativa de satisfazer as nossas necessidades. O pecado é um erro de estratégia: o que pensávamos que as satisfazia não as satisfez; ou quando satisfizemos as nossas necessidades à custa dos outros, ou quando satisfizemos as necessidades dos outros à custa das nossas, ou até quando satisfizemos algumas das nossas necessidades à custa de outras nossas necessidades.

Ao definir o pecado desta forma passamos de uma moral heterónima para uma moral autónoma; não tenho que me medir em relação a um ideal de perfeição abstrato e fora de mim, mas tenho de procurar o melhor de mim mesmo. Desta forma, não dependo de uma autoridade externa para saber o que é bom ou o que é mau, mas somente da minha consciência moral que, bem formada e informada, me dita a cada momento o que devo ou não devo fazer.

A moral dos senhores vs a moral dos escravos
É pelas nossas virtudes que somos mais bem punidosNietzsche

Nos seus livros “Genealogia da moral” e “Para além do bem e do mal” Friedrich Nietzsche demonstra que a moral não é inata nem imutável, nem se deduz da natureza humana, mas é produto da história. Na pré-história, quando a linha entre o humano e o animal ainda não estava bem definida, alguns homens sobrepuseram-se aos outros subjugando-os pela lei do mais forte e mais capacitado que vigora entre os animais. Os vitoriosos são os senhores e os derrotados são os escravos.

Os senhores, ao terem êxito, julgam a realidade por si mesmos e pelos seus atos, em virtude da situação privilegiada de que gozam após a sua vitória sobre os escravos. O forte é criador de valores por isso para os senhores “bom” é o modo como sou e como ajo; é a violência, a guerra, a aventura, o risco, o poder, o prazer, a crueldade, a força física, a ação, a liberdade, o poder a autonomia e independência: foram estes valores que os colocaram numa situação privilegiada em relação aos outros.

Os senhores, os que podem, querem e mandam, podem exteriorizar todos os seus instintos, ou seja, podem atuar com base neles sem nenhuma limitação; podem matar e esfolar, roubar, violar, ter as mulheres que querem, banquetear-se, embebedar-se que ninguém os chama à razão pois eles são os aristocratas, os que mandam, estão a cima da lei pois são eles que a ditam. Por exemplo, ainda nos dias de hoje, o patrão tem mais liberdade para expressar os seus instintos que o empregado.

Quando os guerreiros, senhores ou aristocratas, lutam entre si pela hegemonia ou poder absoluto, os que ganham são chamados nobres de sangue azul, enquanto que os derrotados, não sendo da plebe ou escravos, encontram-se agora também submetidos aos senhores de mais alto estatuto. Ao ser-lhes negada, como outrora eles mesmos tinham negado aos escravos, a liberdade para expressarem os seus instintos, estes vêem-se obrigados a reprimi-los, interiorizá-los, ou seja, a voltá-los contra si mesmos.

Os instintos inibidos e reprimidos cavam uma caverna no íntimo do homem; nasce assim o mundo interior, o pensamento, a inteligência, a vida interior, a espiritualidade, Deus e é claro a religião e a casta sacerdotal. O instinto de crueldade, por exemplo, voltado contra o próprio indivíduo, transforma-se na consciência moral escrupulosa que o persegue e que nunca está contente com o desempenho uma vez que o ideal, por sua própria definição, é inalcançável.

Temos agora três classes, a nobreza, o clero e o povo. Como guerreiros derrotados, os sacerdotes ao não poderem exteriorizar os seus instintos como antes faziam, invertem a moral dos senhores: surgem os pensadores, a casta dos hábitos interiores, dos cientistas, dos filósofos e matemáticos que, tal como os sacerdotes, procuram agora dominar pela mente porque não conseguiram fazê-lo pela força física e das armas. São, por isso, pacifistas, contra a guerra ou qualquer forma de violência, são contemplativos em vez de ativos, pensadores em vez de atores.

Os sacerdotes ressentidos pela derrota e com um grande desejo de se vingar, ao não poderem defrontar e vencer os nobres fisicamente, tecem um plano para os vencer sorrateira e mentalmente. Tal como a raposa que, não podendo chegar às uvas, as declara verdes, assim fazem os sacerdotes à moral dos senhores.

Nasce assim a moral dos escravos, que não conseguiram impor-se no mundo real e inventam o mundo ideal ascético, o espírito, Deus; refugiam-se em mosteiros e negam a vida real que afirmam ser um vale de lágrimas, para afirmar a vida no além onde voltarão a ser felizes. Negam a terra para afirmar o céu, ou seja, transferem o valor da vida para fora da vida, o real para o abstrato. Surge Sócrates com os seus valores, o mundo das ideias de Platão.

Em nome de Deus e na outra vida abdicam desta, dos seus instintos sexuais, do poder, do prazer de tudo o que antes possuíam quando eram senhores. Valores agora são o pacifismo, a humildade, a obediência, a pobreza, a prudência, o jejum, a abstinência, a igualdade, a fraternidade, a justiça.

Sócrates e Platão, toda a filosofia grega e a ciência encaixam-se no quadro da moral dos escravos, pois encontram a sua força não nos braços, mas na mente; todo o povo judeu encaixa neste quadro; de facto, começam a sua história sendo escravos no Egipto, derrotando posteriormente os seus mestres não pela força das armas, mas pela inteligência.

Eles mesmos assim interpretam a sua saga pela forma como contam a história de Jacob. Astutamente, com a ajuda de sua mãe, engana seu pai Isaac e derrota o seu irmão mais velho Esaú que era muito mais forte fisicamente, roubando-lhe o direito de primogenitura. Jacob, cujo outro nome é Israel gera 12 filhos que são as cabeças das 12 tribos de Israel.

Nietzsche chama aos judeus um povo sacerdotal e a moral dos escravos é de facto a moral do judaico- cristianismo que, pouco a pouco, se impôs. De facto, tanto o judaísmo como o cristianismo nasceram na escravidão: os judeus foram escravos no Egipto, os cristãos foram durante cinco séculos a classe mais pobre perseguida pelo império romano, acabando por prevalecer sobre este.

A moral dos senhores é autónoma, os valores são definidos a partir da experiência do indivíduo; a moral dos fracos ou dos escravos é heterónima, os valores são normas que surgem a partir de fora do indivíduo, a moral é ideológica: “Deus disse, a Bíblia manda”.

A moral dos senhores é vital, baseada no corpo e nos seus apetites e necessidades, a moral dos escravos é abstrata, baseada em valores que negam e sacrificam a vida real.

A moral dos senhores é naturista, avalia o desempenho na medida em que satisfaz ou não os instintos e as necessidades; a moral dos escravos, nega a necessidade, coloca-lhe a etiqueta de pecaminosa, feia, impura, coloca etiquetas, criminaliza em nome de uma ideologia e ideal inalcançável.

Ética naturalista ou regresso ao Jardim do Éden
Vi, então, um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido e o mar (símbolo do mal) já não existia. Apocalipse 21, 1

“Somewhere beyond right and wrong, there is a garden. I will meet you there.” (Algures para lá do certo e do errado, existe um jardim. Encontrar-me-ei lá contigo.) Jalaluddin Mevlana Rumi

Rumi é um poeta persa e místico sufi que viveu no século XIII; para ele o amor universal é a pedra angular da vida espiritual e a solução do binómio bem/mal. - Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal, pois o amor supera a dicotomia entre o bem e o mal.

It doesn’t matter who is right or wrong. It only matters that you are not hurt. And that we both can benefit. All true benefits are mutual.” (Pouco importa quem está certo ou errado. Apenas importa que não sintas mágoa. E que ambos possamos colher os benefícios. Todos os benefícios verdadeiros são mútuos. Donald Walsh

A dicotomia mal/bem não existe entre os animais e por isso eles não são violentos, unicamente procuram satisfazer as suas necessidades. As diferenças entre os humanos e os animais são apenas duas: os humanos têm mais necessidades que os animais e têm o uso da razão, que lhes dá mais recursos para satisfazer as necessidades de todos, não as de uns em detrimento das necessidades dos outros. A função da dicotomia bem/mal só pode ser a de uns, os que se designam como bons, dominarem aqueles a quem designam como maus.

Só temos que tirar conclusões e parafrasear o que já foi dito. Entendemos que a CNV não tem ética na medida em que se abstém de julgar as pessoas e os seus atos; situa-se, neste sentido, para além do bem e do mal na medida em que o seu objetivo não é avaliar quem é bom e quem é mau, quem procedeu bem e quem procedeu mal, mas sim verificar se as necessidades humanas foram ou não satisfeitas.

Neste sentido é naturista pois é terra, a terra que guarda semelhanças com a moral dos senhores; não é uma ideia abstrata, artificial e inalcançável de valores, ao serviço de uma religião ou de uma ideologia. Não julga as pessoas, nem lhes coloca uma etiqueta, ao contrário da moral dos escravos, cujos valores surgem de fora da vida, sendo, portanto, uma moral heterónima.

A moral da CNV é autónoma porque confere valor às nossas necessidades, das mais básicas e físicas até às mais altas e espirituais. É moral o que satisfaz as minhas e as necessidades dos outros e imoral o que nem satisfaz umas nem outras ou apenas satisfaz umas.

A ética da CNV difere, porém da moral dos senhores e aproxima-se da moral dos escravos ao considerar a satisfação das necessidades dos outros tão importante como a satisfação das minhas; e mais: as necessidades dos outros também são necessidades minhas. A CNV entende que todos ganham quando um ganha e todos perdem quando um perde; ou ganham todos ou perdem todos; ninguém pode ser feliz à custa da infelicidade dos outros.

Assemelhando-se à moral dos senhores, a ética da CNV é autónoma, natural e naturista, porque os seus valores brotam da natureza do homem:
  • BOA - é a estratégia ou a ação que vai ao encontro das minhas necessidades, bem como das necessidades dos outros.
  • - é a estratégia ou a ação que só vai ao encontro das minhas necessidades em detrimento das necessidades dos outros ou, vice-versa, vai ao encontro das necessidades dos outros em detrimento das minhas.
Assemelhando-se à moral dos escravos, a ética atual, a ética do sistema de dominação é heterónima, artificial e arbitrária, porque os seus valores brotam de uma ideologia que em grande medida desconsidera a natureza humana:
  • BOA - é a estratégia ou a ação que espelha e é subserviente à ideologia dominante e ao que arbitrária e autocraticamente os poderes instituídos comandam, mesmo que vá contra a natureza humana, desconsidere a liberdade da pessoa, as suas necessidades e valores.
  •  – é a estratégia ou a ação que se rebela contra a ideologia dominante e os seus valores artificialmente impostos. Aquele que tenta ser fiel mesmo e busca a emancipação é visto como uma ovelha negra e é rotulado como egoísta pelos poderes instituídos. Se as suas ações chegassem a constituir uma ameaça aos poderes instituídos, seria declarado “persona non grata” e depois ostracizado ou eliminado.

Isto pode parecer muito simplista e de facto é; a simplificação é propositada para facilitar o entendimento. Quanto a como as coisas realmente são, sabemos que a ética que governa o nosso mundo moderno não corresponde 100% à moral dos escravos, adotada pelo sistema de dominação, nem à moralidade dos mestres, mas a uma combinação de ambas. Isto faz com que a ética atual, não estando já totalmente contra a natureza humana, seja ainda acentuadamente ideológica.

A CNV é uma volta ao Jardim do Éden, à inocência primogénita, à natureza antes do aparecimento da avaliação moral dos atos, num tempo em que a nossa única preocupação era satisfazer as nossas necessidades e as dos outros. Jesus dizia que se não formos como crianças não entraremos no Reino dos Céus; a criança observa e não julga, situa-se para além do bem e do mal ou fora deste binómio; tem consciência das suas necessidades e naturalmente solicita a sua satisfação. A ética não violenta é, portanto, uma ética naturalista, a sua única preocupação é que todos satisfaçam as suas necessidades.

A moral da CNV baseia-se na satisfação ou não das necessidades e valores de todos. Como assenta radicalmente no mandamento do amor ao próximo como a mim mesmo, e como ninguém pode ser feliz sozinho ou à custa dos outros, em CNV as necessidades dos outros são também minhas: não há vitoriosos nem derrotados, não há ganhadores nem perdedores, ou ganhamos todos ou perdemos todos.

Contrária à moral dos escravos, por ser uma ideia artificial e mais semelhante à moral dos senhores uma vez que se baseia nas necessidades e valores humanos que são universais, a moral da comunicação não violenta é uma moral natural, naturalista ou ecológica. É, portanto, bom o que satisfaz as minhas necessidades e as dos outros e mau o que não satisfaz as minhas necessidades nem as dos outros ou o que só satisfaz as minhas, ou o que só satisfaz as dos outros.

A falácia da dicotomia do Bem contraposto ao Mal
Pondo-se a caminho, correu para ele um homem, o qual se ajoelhou diante dele e lhe perguntou: “Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” E Jesus lhe disse: “Por que me chamas bom? Ninguém há bom senão um, que é Deus.Marcos 10, 17-18

Quando pensamos sobre as implicações morais ou éticas do bem e do mal, na prática, na ética real, que é ainda em grande medida a ética do sistema de dominação, chegamos à conclusão de que tal dicotomia é fictícia, artificial, ideológica e arbitrária. Se existe, é porque serve os interesses de alguém; serve aqueles que, farisaicamente, se consideram bons designando os outros como maus.
Jesus recusou-se a ser chamado bom pelo jovem rico.

Durante a sua vida e em todos os casos que lhe foram apresentados, sempre se recusou a desdenhar ou condenar aqueles considerados maus ou pecadores pelo sistema de dominação. A este respeito, é muito icónica a sua oposição à monda das chamadas ervas daninhas que crescem lado a lado com o trigo (Mateus 13:24-30), também aqui, tal como no texto anterior, transfere para Deus a prerrogativa do bem e do mal, pois só Deus pode diferenciar um do outro. Qualquer tentativa de o fazer por parte dos seres humanos, é ideológica e serve sempre um propósito oculto ou seja uma ideologia.

Por outro lado, acerca do mal, nunca ninguém fez o mal por mal; aliás em português é típico que quando alguém faz algo de mal diga logo, “não foi por mal”. Todo os que na nossa perspetiva fizeram coisas más, na sua perspetiva, estavam a fazer o bem.

Nenhum suicida islamista acha que está a dar sua vida por uma coisa má. No momento da redação deste texto, um marido e uma esposa usaram os seus quatro filhos numa sequência de ataques suicidas mortais em três igrejas na cidade de Surabaia, na Indonésia. Ao sacrificarem as suas vidas, segundo eles por um bem maior, aquela família de 6 pessoas pensava certamente que estava a fazer o bem.

Ética das necessidades
A originalidade da CNV é a promoção do conceito de “necessidade” ao estatuto de valor. O sistema de dominação considera a “necessidade” como algo negativo. Não deveríamos ter necessidades, mas se as temos não devemos ceder ao seu poder sobre nós. Pelo contrário, é salutar aquele que consegue abdicar delas, sacrificá-las por altos valores e ideais no altar do sistema de dominação.

Um agricultor alemão na cidade de Schilda tinha um bom cavalo que trabalhava no campo. A sua única queixa contra o animal era que ele consumia muita aveia; gradualmente, foi-lhe cortando a ração, na esperança de chegar ao dia em que o animal trabalhasse sem comer. Esse dia de facto chegou, o animal trabalhou o dia inteiro sem ter comido, só que no dia seguinte de manhã foi encontrado morto.

Houve um tempo em que o ato sexual era visto com algo sujo, feio e pecaminoso; só era visto como um mal menor quando era realizado dentro de um matrimónio com a única finalidade de procriar. Mas mesmo nesse caso, os casais cristãos eram aconselhados a não desfrutar do prazer do sexo e a abster-se por completo de relações sexuais durante a Quaresma. De resto, era visto como um “remedium concupiscência” paliativo para a voluptuosidade, não como um ato de amor.

Em CNV necessidades e valores são usados indistintamente como sinónimos; as necessidades são valores e os valores são necessidades. Para o sistema de dominação, satisfazer as próprias necessidades é ser egoísta; para a CNV, é simplesmente ser fiel a si mesmo. Em CNV só as necessidades são valores e os valores que não são atribuíveis a uma necessidade não são valores de modo algum; porque se opõem à natureza humana são instrumentos ideológicos do sistema de dominação.

A moral do amor
Precisamos ter em mente que em CNV o amor não é um sentimento, embora existam sentimentos ligados a ele, mas sim uma necessidade. Todas as necessidades têm, de facto, sentimentos ligados a elas, pois são os sentimentos que nos alertam e dizem se a necessidade está a ser satisfeita ou não. O amor como necessidade não parece, à primeira vista, estar ligado com a moral, mas realmente está.

Quando julgamos não amamos, quando amamos não julgamos; o amor universal sobretudo o amor aos inimigos supera o pensamento dualista do bem contraposto ao mal, o que nos leva para a eternidade que é Deus que faz chover sobre justos e injustos e ama a todos incondicionalmente. Somos chamados a ser como Ele.

Diz-se também que o amor é cego; que os amantes tendem a não ver os defeitos e deficiências um do outro e que se abstêm naturalmente de se julgar um ao outro. E também parece que quando o amor desaparece só se vêm defeitos e deficiências. Isto leva-nos a concluir que só o amor nos pode livrar de ser hipercríticos com os outros, levando-nos de volta ao Jardim do Éden.

Quando os amantes estão juntos perdem a noção do tempo e do espaço e experimentam virtualmente a eternidade, provando que ela existe. Porque Deus é amor, só o amor te pode conduzir à eternidade real. Só o amor pode trazer o céu à terra e fazer esta voltar ao Jardim do Éden. O próprio Nietzsche diz: “Aquilo que se faz por amor está sempre para além do bem e do mal”
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de novembro de 2018

CNV - Gestão da ira & Resolução de conflitos

Sem comentários:
A ira é uma expressão suicida de uma necessidade  insatisfeita M. Rosenberg 

Se vos irardes, não pequeis; que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento, (…) Toda a espécie de azedume, raiva, ira, gritaria e injúria desapareça de vós, juntamente com toda a maldade. Sede, antes, bondosos uns para com os outros, compassivos; perdoai-vos mutuamente, como também Deus vos perdoou em Cristo. Efésios 4, 26, 31-32

São Paulo reconhece, no versículo 26, que a ira faz parte da nossa natureza, que há muitas situações existenciais no nosso dia a dia que a podem desencadear; mas aconselha-nos logo a seguir no mesmo versículo a não lhe dar espaço, ou seja, a não fazer nada motivados por ela. Não devemos atuar exteriormente com base na nossa ira porque a ira é um sentimento e, como todos os sentimentos ou emoções, aponta para uma necessidade insatisfeita.

A ira não é então mais que um alarme que dispara no nosso sistema e que nos pede um “intervalo” para parar, respirar fundo e fazer um exercício de introspeção que tem como objetivo descobrir a sua causa em nós e não nos outros. Desta forma, evitamos o ressentimento que naturalmente leva ao azedume nas relações, à raiva, gritaria e injúria, tal como adverte S. Paulo.

Quando a ira é desencadeada em nós, são várias as respostas possíveis. Responder agressivamente no âmbito do “olho por olho dente por dente”; ser passivo / passivo, ou seja, voltar a agressividade contra nós próprios reprimindo assim a ira; ser passivo / agressivo, procurar a vingança de uma forma sorrateira do tipo “dar uma bofetada e esconder a mão”; ser assertivo defendendo-nos, mas sem atacar o outro.

Distinguir entre o que desencadeia a ira e o que a causa
A linguagem não violenta tem uma nova abordagem à ira: não se reprime, por, ser má, nem se descarrega, dando murros em almofadas, pois isso só  faz com que aumente e, eventualmente, um ou outro murro pode acertar naquela que julgamos ser a causa da nossa ira.

O primeiro passo é ilibar o outro de toda e qualquer responsabilidade pela minha ira; ou seja, não dizer “irritas-me” porque nunca ficamos irritados pelo que o outro faz ou diz; o outro pode desencadear a nossa ira, mas não a causa. Num mundo violento, onde a culpa é uma tática de controlo, manipulação e coação, interessa confundir o estímulo dos sentimentos com a causa dos mesmos: “fazes-nos sofrer, ao teu pai e a mim, quando tiras más notas”. A mesma tática é usada entre namorados: “desiludiste-me ao não te lembrares do meu aniversário”.

Enganamo-nos a nós mesmos quando pensamos que os nossos sentimentos resultam do que os outros dizem ou fazem. Em vez de buscar em nós mesmos a causa da nossa ira ou de quaisquer outros sentimentos ou emoções, culpamos os outros, procuramos um bode expiatório e frequentemente descarregamos sobre ele a nossa ira em forma de vingança ou punição. A ira está para a sua causa como o fumo está para o fogo - onde há fumo, há fogo, onde há ira há uma necessidade nossa que não está a ser satisfeita. É esta necessidade que causa a ira e não o que o outro disse ou fez.

Rosenberg dá como exemplo o caso de um prisioneiro numa prisão sueca, a quem perguntam o que é que as autoridades da prisão tinham feito para provocar a sua ira; ele responde, “há já três semanas que fiz uma petição e eles ainda não responderam”. O prisioneiro fez uma pura observação sem misturar nenhuma avaliação, ou seja, sem qualificar o comportamento das autoridades prisionais; porém, o estímulo parece coincidir com a causa, ou seja, ele culpa as autoridades pela sua ira.

Identificar a causa da nossa ira na forma como julgamos o comportamento do outro
Ao voltar-se para si mesmo para encontrar a razão ou causa da ira, o prisioneiro descobriu que, de facto, o que sentia era medo de sair da prisão sem ter um curso, uma profissão para se poder sustentar. O que causa a nossa ira não é o que os outros dizem ou fazem, mas a nossa interpretação e avaliação negativa do que dizem e fazem, assim como o que nós dizemos a nós mesmos.

O prisioneiro descobriu que estava zangado por achar que não era justa a forma como estava a ser tratado, não era assim que se tratavam seres humanos. Sentimos ira porque interpretamos e julgamos como, mau, injusto, inumano, o comportamento do que desencadeia a nossa ira. O comportamento desencadeia a ira, mas o que a causa é a minha interpretação desse mesmo comportamento e o veredito que atribuo às pessoas, julgando-as egoístas, injustas, cruéis, etc….

A raiva resulta de concentrarmos a nossa atenção no que a outra pessoa "deve" ou "não deve" fazer e julgá-la como "errada" ou "ruim", “egoísta”, etc. A ira mantém-nos focados sobre o que não gostamos, em vez de nos ajudar a ligarmo-nos às nossas necessidades. Mudando o foco da nossa atenção, perguntando-nos pelas necessidades que ficam insatisfeitas enquanto acusamos os outros, o sentimento da raiva desaparece ou é substituído por sentimentos que servem a vida, como o medo, a desilusão a tristeza ou a dor.

Substituir o julgamento pela necessidade insatisfeita que lhe subjaz
As sentenças que pronunciamos ao julgar aquele cujo comportamento desencadeou a nossa ira são expressões alienadas e trágicas de necessidades nossas que se encontram insatisfeitas. Em vez de olhar para dentro de nós para nos ligarmos ao que necessitamos, saímos para fora de nós e acusamos e culpamos os outros pela insatisfação das nossas necessidades.

“Não é com vinagre que se caçam moscas” e esta não é certamente a melhor forma de as satisfazer. As acusações não provocam a cooperação dos outros para a satisfação das nossas necessidades, pelo contrário provocam defesa e retaliação. Mesmo que provocassem e conseguíssemos a sua cooperação por medo, vergonha ou culpa, mais tarde ou mais cedo pagaríamos esta forma de cooperação forçada.

Voltando ao prisioneiro sueco, Rosenberg perguntou-lhe que necessidades insatisfeitas estavam por detrás das acusações feitas às autoridades da prisão? Não foi fácil a resposta, pois estamos mais habituados a reagir e julgar os outros que a fazer exercícios de introspeção e ligação com o que verdadeiramente necessitamos; por fim, o prisioneiro disse “Bom, a minha necessidade é ser capaz de sobreviver conseguindo um emprego depois de sair da prisão; o pedido que eu fiz às autoridades era aprender um ofício durante o tempo de reclusão.

Perguntou Rosenberg, “Como te sentes agora?”; “com medo”, respondeu o prisioneiro. Ao ligar-se com a necessidade que provocava a raiva contra as autoridades, esta dissolveu-se por si mesma e deixou de se fazer sentir. 

Reunindo-se com as autoridades da prisão depois deste trabalho de introspeção, depois de descobrir as suas necessidades, já não necessitou de os acusar, pelo que ao referir as suas necessidades e o seu medo, provavelmente encontrou a satisfação do seu pedido.

Se hipoteticamente, enquanto esperava a resposta das autoridades, o prisioneiro tivesse acesso à Internet e conseguisse inscrever-se num curso, ao ter encontrado, por outra via, a satisfação da sua necessidade, deixaria eventualmente de sentir raiva contra as autoridades prisionais. Isto prova uma vez mais que o que provoca a ira não é o que os outros dizem ou fazem, mas a nossa interpretação do que eles dizem ou fazem; a génese, raiz ou causa da ira porém está numa necessidade insatisfeita.

Ligarmo-nos com as nossas necessidades é muito difícil na nossa cultura porque fomos educados para não as ter, ou para não estarmos cientes de que as temos, e assim poder colocar-nos dócil e subservientemente ao serviço da pátria, do rei, da bandeira, do patrão, dos filhos, dos alunos, da instituição, da empresa…. Reconhecer e expressar necessidades é associado com egoísmo.

Fazer o ponto da situação na partilha do processo
Por fim partilhamos com a outra pessoa o processo que seguimos no nosso íntimo:

1. Começamos por revelar o que desencadeou a nossa ira, o que a pessoa fez ou disse que estimulou a minha ira. Às vezes é bom escrever para vermos tudo com maior clareza.

2. Expressamos a ira, tomando consciência de que estamos irados e que esta ira resulta não do que o outro faz ou diz, mas sim do que nós dizemos a nós mesmos como interpretação do que o outro faz ou diz. Perguntamo-nos o que é que dissemos a nós mesmos que causou a nossa ira?

É o julgamento que fazemos do que o outro disse ou fez, qualificando-o como errado, cruel, insensível, preguiçoso, injusto, etc. que provoca a nossa ira. Nós e só nós somos os criadores da nossa ira quando julgamos o comportamento dos outros como errado.

3. Procuramos a necessidade que não estava a ser satisfeita e que estava escondida atrás da forma como julgámos a pessoa que desencadeou a nossa ira. Assim sendo, traduzimos ou substituímos a apreciação que fizemos da outra pessoa pela nossa necessidade não satisfeita.

Evitamos dizer “estou zangado porque tu…” (fizeste… ou disseste… ou és…) e dizemos, “estou zangado, porque eu necessito… (revelo a necessidade insatisfeita).

No exato momento em que nos ligamos a essa necessidade, reconhecendo que é ela a causa da nossa ira, deixamos de sentir a ira, esta é substituída por um outro sentimento mais positivo e fácil de lidar. No caso do prisioneiro foi substituída pelo medo de não ter um trabalho depois de sair da prisão. Também é importante ligarmo-nos aos sentimentos e necessidades da pessoa que desencadeou a nossa ira.

4. Agora estamos prontos e capacitados para fazer um pedido à pessoa que me pode ajudar na satisfação da minha necessidade.

No caso do prisioneiro, seria assim: “há três semanas, fiz um pedido para o qual ainda não obtive resposta; estou com medo, pois tenho necessidade de ganhar a vida quando sair desta prisão; sinto que sem tirar um curso ou aprender um ofício, vai ser difícil sobreviver lá fora”.

A tristeza facilita a introspeção que nos impulsiona a encontrar a satisfação das nossas necessidades. Ao contrário, a ira atira-nos para fora de nós e, num primeiro momento, leva-nos a culpar os outros pela insatisfação das nossas necessidades. A ira, que resulta da forma punitiva como julgamos os outros, distrai-nos de tal forma que ignoramos por completo a necessidade ou necessidades que são a causa dessa ira. - Neste sentido, pode servir como chamada de atenção de que estamos completamente desligados das nossas necessidades - só aplacaremos a ira se encontrarmos dentro de nós a sua causa e não nos outros.

RESOLUÇÃO DE CONFLITOS
Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. Mateus 5, 9

Todos conhecemos os efeitos nocivos dos conflitos mal resolvidos: violência destrutiva, ódio, vingança, ressentimento, ansiedade, insónia, depressão, medo. Por isso, temos uma tendência inata a evitar os conflitos e a fugir deles como o diabo da cruz. Porém, a arte de viver conjuntamente não é a arte de evitar os conflitos, mas sim a arte de os experimentar e vivenciar positivamente para todos os envolvidos. Tal como a ira que não deve ser reprimida, o conflito deve ser vivenciado porque é natural, normal e neutro.

O conflito é natural
Deus não nos criou iguais, mas diferentes: somos diferentes em género, dentro do mesmo género em preferência sexual, idade, fisionomia, personalidade e carácter, gostos, escolhas, valores. A convergência destas divergências, não é fácil nem naturalmente harmoniosa.

Muitas arestas devem ser limadas para que a divergência natural resulte em convergência harmoniosa e, eventualmente, em complementaridade. A unidade de facto acontece quando olhamos para as nossas diferenças como uma mais valia e não como um defeito, quando descobrimos que nos complementamos e que essa complementaridade só é possível na aceitação das diferenças entre nós.

O conflito é normal
O conflito é inerente ao ser humano, tanto no plano individual com os conflitos internos, como no plano social como conflitos externos; por isso, é também transversal a toda a atividade humana -onde quer que a pessoa esteja há conflitos, no lar, na fábrica, na empresa, na escola, no hospital, na Igreja, em todas as instituições.

Como a nossa cultura nos ensina que o conflito é mau, não nos capacita para o resolver de forma a procurarmos a satisfação das necessidades de todos. Pelo contrário, só nos oferece as três formas clássicas de reação do cérebro reptílico: luta, submete-te ou foge e evita o conflito. O confronto é normal. O mau, funcionamento da sociedade ou de qualquer instituição vem da incapacidade de gerir os confrontos.

O conflito é neutro
Em si mesmo, o conflito não é bom nem é mau, não é adequado nem inadequado, não é certo nem errado. Tudo depende da forma como lidamos com ele. Tal como no caso da ira, no início, o conflito faz soar um alarme, é um sintoma de divergência, de uma crise que, como todas as crises bem geridas, levam a um maior crescimento.

Quando o conflito é mal gerido ou evitado, por medo, serve para manter o “status quo” e ainda lhe acrescenta um clima de insatisfação e uma violência contínua que envenena e corrói as relações, levando eventualmente a uma perda maior para todos os envolvidos se, por uma razão ou por outra, o conflito deflagrar efetivamente.

Quando a gestão acontece depois de muito tempo de guerra fria, o problema assumiu proporções dificilmente difíceis de gerir até porque, nessa altura a guerra fria já vai demasiado longa e já não há vontade de resolver o conflito.

O teu inimigo esconde-se de ti porque te odeia, tu escondes-te dele porque o conheces – diz um provérbio africano. Numa comunidade religiosa, empresa ou instituição, cujos membros vivem em clima de guerra fria, vemos como estes se movem à volta uns dos outros, como peixes num aquário e, quando acidentalmente se tocam, fazem faísca e repelem-se mutuamente.

Algumas causas de conflitos
•    Não ouvir a opinião do outro porque não gostamos dele
•    Querer que todos sejam iguais
•    Não aceitar o outro como ele é
•    Inferir motivos por trás de comportamentos
•    Bloqueio de pessoas em papéis atribuídos
•    Preconceitos, encaixar o outro em papéis atribuídos, impedindo-o de crescer e mudar
•    Racismo, sexismo, chauvinismo
•    Rivalidade, inveja, autocracia
•    Crenças religiosas
•    Narcisismo e exagero das pequenas diferenças, ignorando o que temos em comum
•    Fixação nos pequenos detalhes, ignorando as grandes questões
•    Crítica destrutiva constante
•    Imposição de decisões a pessoas que não participaram na sua tomada
•    Medo de enfrentar e confrontar alguém
•    Negação e fuga de situações conflituosas
•    Usar o silêncio como arma para controlar os outros
•    Manipulação, insensibilidade
•    Falta de reconciliação ou reconciliação prematura sem resolver a questão
•    Ser tratado ou tratar os outros como crianças

Utilização das quatro etapas da CNV para resolver conflitos
Expressar a nossa vulnerabilidade, partilhando os nossos sentimentos, pode ajudar a resolver um conflito Marshall Rosenberg

Também na resolução de conflitos, como acontece na ira e noutros assuntos individuais e sociais, a CNV é como a varinha de condão que transforma os instrumentos de guerra em instrumentos de paz, a pedra filosofal que transforma em ouro tudo o que toca, a melhor matriz, o melhor paradigma ou modelo para resolver satisfatoriamente os conflitos que resultam e surgem da nossa vida em comum.

Ante um conflito ou sempre que nos encontramos no meio de um conflito nas nossas vidas, ou que presenciamos um, dos quatro passos da comunicação não violenta contribuem com uma clarividência que nos ajudará a comunicar com os outros compassivamente.

Observar e descrever objetivamente o que está a acontecer ou aconteceu; descrever os factos que compõem a situação que nos perturba, sem julgar, avaliar ou comparar com conflitos similares ou passados.

Ter consciência dos sentimentos e emoções que afloram em mim, tanto no meu corpo como no meu espírito; identificá-los e dar-lhes um nome, evitando palavras que contêm uma crítica velada aos outros e que me atiram para fora de mim e do meu sentir, como vítima, abandonado, rejeitado, incompreendido; estes não são sentimentos, mas sim palavras que avaliam a ação do outro. Ao nos responsabilizarmos pelos nossos sentimentos, evitamos lidar com a situação conflituosa como vítimas.

Ter consciência das minhas necessidades insatisfeitas e não dar por certo que os outros sabem do que precisamos, quando nem nós o sabemos. Esta forma de pensar provém da nossa infância, quando os nossos pais e educadores adivinhavam o que nos fazia falta sem que nós lho disséssemos ou mesmo sem que nós próprios tivéssemos consciência das nossas necessidades. Como adultos, é importante sermos capazes de identificar as nossas necessidades e fazer pedidos claros e diretos para as satisfazer. Assim, evitam-se os mal-entendidos e aumentam as possibilidades de que as nossas necessidades sejam verdadeiramente satisfeitas.

Quais são os nossos pedidos? Depois de identificar as nossas necessidades, o passo seguinte é fazer um pedido específico, viável, concreto e realista. Para estes pedidos, todas as respostas são “sim” e são positivas, mesmo quando há um “não” que só aparentemente é negativo.

Não devemos estar agarrados às nossas expectativas: a melhor resposta não é a que espero receber, mas a que o outro me dá. Todos precisam de se sentir livres para pedir o que precisam, assim como para dizer sim ou não às solicitações sem serem julgados, culpados ou criticados. Ao expressarmos as nossas necessidades, permanecendo abertos aos resultados, as relações tornam-se mais autênticas e satisfatórias. Como já sabemos, o “não” do outro corresponde a um “sim” às suas necessidades imediatas (que em CNV são também nossas) e a um adiamento das nossas.

Exemplo
Rosenberg fala de uma conferência que deu num campo de refugiados palestinianos; no exato momento em que foi apresentado como sendo americano ouviu-se uma voz estridente, “assassino”. Eis uma situação conflituosa que poderia resultar no insucesso da conferência e dificultar a sua segurança pessoal. Aplicando a CNV, eis o diálogo que se seguiu:

- O senhor está zangado porque gostaria que o meu governo usasse os seus recursos de forma diferente? (Não sabia se meu palpite estava certo, mas o que foi fundamental foi o meu esforço sincero para me ligar ao sentimento do meu interlocutor).
- É claro que estou zangado! O senhor acha que precisamos de gás lacrimogéneo? O que precisamos é de esgotos, casas, escolas, hospitais e uma pátria.
- Ou seja, está furioso porque em vez de gás lacrimogéneo, o senhor gostaria de ter do meu país um apoio para a melhoria das vossas condições de vida e para a independência política?

O diálogo continuou por mais tempo e Rosenberg pôs de lado os insultos e a linguagem dura para perscrutar os sentimentos e necessidades do palestiniano, ligando-se a elas empaticamente, sem concordar, discordar ou defender-se das suas afirmações. Rosenberg refere que, quando o homem se sentiu compreendido, conseguiu continuar a sua conferência, que terminou uma hora mais tarde com um convite para um jantar de Ramadão por parte do homem que lhe tinha chamado assassino.

Concluindo, para além de serem uma expressão dramática de necessidades insatisfeitas, tanto a ira como o conflito não resultam tanto daquilo que os outros dizem ou fazem, mas mais da forma como eu os julgo pelo que dizem ou fazem.
Pe. Jorge Amaro, IMC