15 de janeiro de 2017

Fátima: Revelação Privada, mas não para uso privado

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Revelação pública, privada ou qué?
A Igreja chama revelação pública à vinda de Cristo, filho de Deus ao mundo desde a sua encarnação no seio da Virgem Maria, a sua Vida, Palavra e Obra no meio de nós, a sua morte ressurreição, e ascensão aos Céus, e a vinda do Espirito Santo. Contraposta a esta, estão as revelações privadas, as aparições da Nossa Senhora em Guadalupe, Lourdes, Fátima, assim como as visões místicas dos santos ao longo de 2000 anos de cristianismo.

Se nos detemos um pouco a pensar, damo-nos conta de que nem a revelação pública é verdadeiramente pública, nem a privada é privada; ambas são ao mesmo tempo públicas e privadas. Toda revelação é pública, porque o destinatário dessa revelação, nunca é só, e exclusivamente, a pessoa, ou pessoas a quem a revelação é feita. Por outro lado, toda revelação é privada, porque não é nunca feita “urbi et orbe” para o publico em geral, mas sim em privado para uma pessoa ou grupo de pessoas. O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia; e o que escutais ao ouvido, proclamai-o sobre os terraços. (Mateus 10, 27)

Perguntou-lhe Judas, não o Iscariotes: «Porque te hás-de manifestar a nós e não te manifestarás ao mundo?» Respondeu-lhe Jesus: «Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a Ele e n’Ele faremos morada. (João 14: 22-23)

Ele não foi visto por todo o povo, mas somente por nós, que somos as testemunhas que Deus já havia escolhido. Nós comemos e bebemos com ele depois que Deus o ressuscitou. (Actos 10, 41)

A revelação pública de Jesus de Nazaré, deu-se em privado ao círculo intimo dos que viviam com Ele desde a Galileia e os que O viram na sua glória depois da Ressurreição. Tal como Judas Tadeu, quando eu era pequeno achava que Jesus ressuscitado se deveria manifestar a todo o povo especialmente a Anás, Caifás, Herodes e Pilatos e a todos os que tinham gritado “crucifica-o”! Só mais tarde entendi o que Jesus responde a Judas. Só o amor e a fé podem levar ao conhecimento, à revelação de Cristo. Cristo revela-se só aos que O amam e n’Ele crêem.

Concluindo, a revelação dita pública foi privada, Jesus revelou a Sua identidade somente aos Seus discípulos. Os destinatários dessa revelação, porém, são a humanidade, os homens e mulheres de toda a língua raça, povo e lugar de todo os tempos.

A revelação privada de Fátima, da mesma forma que a de Cristo,  apesar de ter aspetos públicos desde o principio, pois as crianças depois da primeira aparição nunca mais estiveram sozinhas, era uma revelação privada pois só os três pastorinhos foram visitados pela Nossa Senhora; no entanto os destinatários da revelação era o mundo inteiro no século XX e se pensamos na devoção ao Imaculado Coração de Maria que a Lúcia ficara encarregada de propagar, era para todas as pessoas de todo tempo e lugar.

Revelações privadas como ecos do Evangelho
Se não houver profecia, o povo degenera, por isso, em todas as épocas, os homens foram instruídos por Deus sobre o que era necessário fazer de acordo com o que era oportuno para a salvação dos eleitos. – Sto. Tomás de Aquino 

«Desde o princípio do mundo, Nossa Senhora tem aparecido muitas vezes, de diversas maneiras ... E é o que vale ... Se o mundo está mau, se não se tivessem dado muitos casos assim, pior estava ... O poder de Deus é grande! Não sabemos o que é, mas alguma coisa será . . . Seja o que Deus quiser.
Ti. Marto

Desde a sua ignorância, o Sr. Marto, pai de Francisco e Jacinta e o primeiro crente nas aparições, diz praticamente o mesmo que o maior teólogo de todos os tempos, São Tomás de Aquino. O povo é esquecido, já nos tempos da Bíblia Deus suscitava profetas para corrigirem e reorientarem o povo para Deus desde uma situação histórica concreta.

Nos meus tempos de estudante de teologia dizíamos que o Céu já falou em Jesus Cristo Palavra eterna e encarnada para todos os tempos, pelo que não vai voltar a falar. Naqueles tempos entendíamos que o Céu se tinha fechado, não por três anos e meio, como nos tempos do profeta Elias, (Lucas 4,25) mas para sempre.

É certo que depois de Cristo nada de novo vai ser revelado que substitua o revelado em Cristo, mas algo necessita ser feito para que a revelação de Cristo não fique perdida no tempo. Esta é, aliás, a função do Espirito Santo, repetir ou adaptar a uma cultura ou situação específica, aplicar o Evangelho às idiossincrasias de cada tempo e lugar.

Neste sentido, as aparições e as visões são como um eco do Evangelho; surgem para relembrar algum aspeto, mais esquecido e menos vivido deste. Tal como as antenas de telemóvel que passam as nossas mensagens e a nossa voz de torre em torre até ao destinatário, ou as antenas repetidoras e aumentadoras de sinal de Televisão, as revelações privadas, aparições ou visões, prestam um serviço ao evangelho, para que este não se perca nem no tempo nem no espaço e desta maneira, um dia no futuro, possamos responder positivamente à pergunta enigmática que o Senhor nos deixou no evangelho de São Lucas: quando, porém, vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra? (Lucas 18:8)


As aparições no contexto de uma Revelação mais abrangente
Quando muitos teólogos desconsideram as visões e aparições, chamando-as “privadas” e dando-lhes um valor secundário e opcional no sentido de que não as precisamos para a nossa salvação, Karl Rahner, sem dúvida o maior teólogo do século XX considera-as uma ampliação da Revelação no sentido de uma precisão e ou de uma clarificação do querer divino em ordem a uma ação precisa da Igreja ou a uma determinada situação histórica.

Desta forma, Rahner supera a diatribe da revelação Público/Privado e a sua mútua exclusão fundindo as duas numa única Revelação que se dá ao longo e ao largo da história da humanidade. Ao fim e ao cabo a Igreja é em si mesma Revelação ou reveladora em tanto em quanto é a atualização do Evangelho de Cristo aqui e agora.

As Palavras divinas crescem juntamente com quem as lê, dizia São Gregório Magno. A Revelação de Deus não é algo imutável, que ficou congelado no passado, é um processo contínuo e de alguma forma interativo. Esta interação não se dá só entre as Escrituras e quem as lê, mas também entre as escrituras e os processos e contextos históricos em que são lidas e encarnadas.

A função da Igreja no interior da história da humanidade, é fazer desta história uma história de salvação. Neste sentido a Igreja é fermento do Reino de Deus, um fermento vocacionado a levedar toda a massa - o mundo -  para que paulatinamente se vá transformando em Reino de Deus.

Como no mundo há evoluções e revoluções assim acontece no interior da Igreja; uma atividade ordinária e outra extraordinária; a ordinária tem que ver com a evolução gradual do mundo com vistas a tornar-se no Reino de Deus. A extraordinária ou revolucionária tem que ver com o profetismo, com a ação do Espírito Santo que sopra onde quer e quando quer.

Os profetas não são figuras só do passado velho testamento. Todo o batizado é batizado numa vocação comum de ser sacerdote, profeta e rei. Na vida real cada cristão desenvolve mais uma ou outra vocação. No Antigo Testamento os profetas eram catalisadores da vontade de Deus para uma época precisa.

Tanto naquele como neste tempo, o profeta é sempre o portador de uma mensagem concreta de Deus para um tempo concreto; o profeta não só proclama essa mensagem, mas também a encarna faz dela a sua vida. É neste sentido que devemos olhar para os videntes de Fátima Lúcia Jacinta e Francisco; os três, segundo as suas personalidades, encarnaram diferentes aspetos da mensagem de Fátima.

Revelação geral e revelação particular
Muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais, pelos Profetas.
Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por seu Filho, a quem fez herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou o universo. Hebreus 1, 1-2

Revelação pública, é, portanto, a Palavra de Deus proferida e encarnada pela pessoa de Jesus de Nazaré. Esta Palavra apela à natureza humana que não se muda. O que era amor há dois mil anos será amor daqui a dez mil. Os valores, como o amor, verdade e justiça, sobre o qual a vida humana está ancorada, são atemporais, não mudam com o passar do tempo.

Se a natureza humana mudasse, Cristo teria de encarnar várias vezes na história para ser caminho, verdade e vida para os seres humanos de cada geração. Como a natureza humana não muda, no momento em que Lhe pareceu mais adequado, Deus encarnou na história dos homens uma só vez, ou, como se costuma dizer, de uma vez por todas. Neste sentido, o Céu falou e não voltará a falar. Todo aquele que se queira salvar, tanto nesta vida como na que há-de vir, tem de confrontar-se ou medir-se com Cristo, como modelo único de humanidade.

Seja membro de outra religião, ateu ou agnóstico, todo aquele que busca a felicidade e a autorrealização aqui e agora nesta vida e na próxima, tem de medir-se com Jesus de Nazaré, pois ele é o único modelo, o único paradigma humano para todos os que se esforçam para ser plenamente e autenticamente humanos.

Fátima, Lourdes, Guadalupe e muitas outras são revelações privadas; como tal, não são estritamente essenciais para a salvação do género humano, mas podem ser complementares. Para que assim seja, os elementos que elas contenham não podem ser contrários aos do Evangelho. Aliás, este mesmo é o critério principal para discernir sobre a veracidade e validade destas revelações.

Talvez não haja uma palavra ou conceito, para além do público/privado que faça justiça e defina com exatidão os dois tipos de revelação:

Publica, geral ou essencial - porque é para toda a gente de todo tempo e lugar e imprescindível para a salvação.

Privada, particular não essencial-  por ser, de alguma forma, restrita a um tempo, um lugar e a determinadas pessoas, e não ser imprescindível para a salvação do género humano
Pe. Jorge Amaro, IMC


1 de janeiro de 2017

FÁTIMA: O Extraordinário extraordinariamente

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Teologia positivista
A teologia que estudei nos anos 80, numa universidade Jesuíta, era marcadamente positivista e influenciou a minha maneira de entender a fé e atuação de Deus na História. Ainda hoje recordo algumas das máximas que me ficaram gravadas na mente e que em todo o momento funcionam como um metro padrão, para medir e avaliar as coisas de Deus de uma forma talvez demasiado racionalista, onde Fátima de certo nunca poderia encaixar.

A fé é um obséquio razoável – Assim define a fé o concílio Vaticano I. É certo que não pode ser racional, mas tem de ser humanamente credível e plausível, se não for assim não é fé, mas sim superstição. Se Deus nos criou como seres racionais, não nos pode pedir que sacrifiquemos a razão para acreditar n’Ele.

O extraordinário dentro do ordinário – O extraordinário não acontece extraordinariamente, ou seja, de uma forma deslumbrante e objetivamente patente aos olhos de todos, de forma a que a fé nem seja precisa. Ao contrário, o extraordinário acontece no interno do ordinário, de uma forma escondida, que só é perscrutável ou visível aos olhos da fé.

Deus não infringe as leis da Natureza - Se Deus cria as leis da Natureza, não vai ser Ele o primeiro a infringi-las. Nos meus tempos de estudante de teologia, com esta máxima, sancionávamos muitos dos milagres que Jesus fez no Evangelho e buscávamos explicações mais plausíveis; por exemplo, a multiplicação dos pães foi o milagre do partilhar, pois muitos tinham levado o seu farnel.

Deus não é intervencionista – Deus nem castiga nem premeia, não intervém na vida dos homens, deixa-os livres. Não é um bombeiro que vem apagar algum fogo; se intervém, fá-lo de uma forma discreta, misteriosa, por intermédio de pessoas n’Ele inspiradas, mas nunca diretamente.

Ressuscitou a doutrina não a pessoa – O cumulo da teologia positivista, podemos encontra-lo na teoria sobre a Ressurreição de Cristo do teólogo protestante Rudolf Bultmann.  Para ele o que ressuscita não é a pessoa de Jesus de Nazaré, mas sim o “kerigma”, ou seja, a sua doutrina, por esta ser verdadeiramente revolucionária. São Paulo responderia a este teólogo dizendo: se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé. (1 Coríntios 15:17)

Recordo também naqueles tempos a existência de uma certa esquizofrenia teológica; o Jesus histórico de Nazaré e o Cristo da fé, aquele em quem acreditamos, não eram a mesma pessoa. De facto, até eram estudados em duas disciplinas diferentes com dois professores diferentes. Jesus de Nazaré era estudado em Cristologia fundamental, e o Cristo da fé era estudado em Cristologia dogmática.

A todos los tontos se les aparece la Virgen” – Expressão espanhola que ouvi muitas vezes durante os meus anos de teologia na universidade de Madrid. É um facto que muitas das experiências sobrenaturais, que algumas pessoas alegam ter tido, não são mais que manifestações de doenças mentais, como a esquizofrenia. Daí que em Espanha exista esta expressão para descartar qualquer tipo de fenómeno paranormal.

“Não foi a Igreja que impôs Fátima, foi Fátima que se impôs à Igreja”
Já passaram vários anos desde que estudei teologia, a experiência e a vida levaram-me a matizar algumas destas posições. Há milagres que contradizem as leis da Natureza; é certo que foi Deus que criou essas leis, porém a sua atuação não é limitada por elas. Não faria sentido que Deus criasse as Suas próprias limitações, ou que pudesse ficar limitado por algo que Ele criou.

Até mesmo a ciência, já não olha para as leis da Natureza no quadro da física mecanicista de Newton. Para Newton, Natureza nas suas leis funcionava como um relógio de precisão. Depois de Einstein, a física quântica acabou com o determinismo das leis da Natureza que agora já não fixas, certas e absolutas; nas leis da Natureza, o princípio da incerteza de Heisenberg substitui a inflexível certeza em flutuante probabilidade.

Isso significa que as coisas podem realmente acontecer como sempre aconteceram, mas também há uma probabilidade de que elas não aconteçam como sempre aconteceram. O determinismo da física de Newton é substituído pelo acaso na física quântica.

Dentro do quadro mental da física de Newton, era muito difícil de entender os milagres, pois que sempre iriam contra as leis da Natureza; tudo muda quando conceptualizamos os milagres dentro do quadro mental da física quântica. Para a nova física, os milagres acontecem, e acontecem sem contradizer as leis da Natureza; só temos que mudar a nossa compreensão das mesmas leis.

Assim sendo, agora é fácil compreender como o extraordinário também pode, de facto, acontecer extraordinariamente. É neste enquadramento mental que podemos entender e aceitar razoavelmente o que aconteceu em Fátima, Lourdes, Guadalupe e num sem número de revelações privadas ao longo da História.

A frase acima citada foi dita pela primeira vez pelo Cardeal Cerejeira em 1943 e tem sido repetida por muitas pessoas, até por Papas. É provável que ela contenha a experiência, ou a mudança de posição, de muitas pessoas no que diz respeito à revelação de Fátima. Neste sentido, também a faço minha: Fátima impôs-se-me pela profundidade e significado da sua mensagem e pela candura, simplicidade e bondade dos videntes de tenra idade, Jacinta com apenas 7, a sua prima e íntima amiga Lúcia de 10 e o seu irmão Francisco com nove anos.

No meio de uma guerra generalizada na Europa, onde Portugal tragicamente também participou; no contexto social nacional de uma revolução republicana iluminista e ateia, cujo propósito era acabar com a Igreja e laicizar a sociedade, um raio de luz irrompe do céu.

O sobrenatural abre espaço no natural; o extraordinário acontece extraordinariamente para trazer vida e ânimo para o pequeno rebanho de cristãos, vítimas de lobos do racionalismo e do ateísmo, e confundir estes mesmos ateus, deixando-os perplexos e espantados, ante uma realidade que não podiam compreender, pois não cabia nas suas cabeças preconceituosas.

Os “ignorantes” confundem os sábios
«Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelaste aos pequeninos. Mateus 11, 25

Tanto na mensagem, como nos videntes portadores da mensagem, Fátima segue o paradigma evangélico de revelar aos pobres e ignorantes aquilo que ainda hoje desconcerta muitos sábios teólogos, cujo racionalismo pretende limitar a ação de Deus.

E ainda o mesmo paradigma evangélico é seguido em relação à identidade dos portadores da mensagem de Fátima; pastores eram os primeiros a ver Deus feito homem em Belém, e pequenos pastores eram também Lúcia, Jacinta e Francisco.

Em verdade vos digo: se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no Reino do Céu. Mateus 18, 3 - Como os portadores da mensagem eram crianças, só os que são crianças, no sentido evangélico, a podem entender. Fátima só faz sentido ao coração simples e desarmado de preconceitos intelectuais.
Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de dezembro de 2016

A Magia do Natal

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No tempo do grande rabino Israel Baal Shem-Tovvi quando os judeus estavam sob a ameaça de algum infortúnio, o rabino dirigia-se a um lugar secreto da floresta para meditar. Lá acendia uma fogueira, fazia uma oração especial e o milagre acontecia, o povo era salvo da catástrofe iminente.

Mais tarde, quando tocou ao seu sucessor a tarefa de interceder pelo povo, ia ao mesmo lugar secreto da floresta uma vez lá dirigia-se a Deus nestes termos: “Já não sei como acender o fogo, mas ainda posso recitar a oração”, mas mesmo assim o milagre acontecia.

Os anos foram passando até que um dia quando uma catástrofe estava para abater-se sobre o povo e tocava ao rabino Moshe-Lieb de Sasov realizar o ritual de libertação este disse para si mesmo: “Não sei como acender a fogueira nem a formula da oração, mas ainda conheço o lugar suponho que será suficiente para que o milagre se dê”, e assim foi, ao dirigir-se ao lugar secreto da floresta o milagre da libertação do povo aconteceu.

Passados muitos anos tocou ao rabino Israel de Rizhyn realizar o ritual de libertação do infortúnio. Sentado na sua poltrona, com a cabeça entre as mãos, dirigiu-se a Deus nestes termos, “Sou incapaz de acender o fogo, desconheço a oração e o lugar secreto onde iam os meus antecessores; o único que posso fazer é contar a história”; isto fez e o milagre também aconteceu.

Tradições natalícias
As tradições que se foram associando ao Natal, fazem desta festa a mais rica de todas do ponto de vista simbólico e também a mais popular na cultura ocidental. Cada uma destas tradições, por si só não engloba todo o sentido do Natal mas ajuda na sua explicação.

O Natal é o Pai Natal, venerável senhor idoso que não esconde a idade nem quer aparentar ser mais jovem, e que se desfaz em amabilidades dando presentes às crianças, acariciando-as e tomando-as ao colo. As suas vestes vermelhas não têm que ver com esse tal refrigerante castanho, como dizem as más-línguas, mas sim com as vestes vermelhas de um bispo; historicamente, o Pai Natal está associado com o Bispo São Nicolau de aí se chamar Santa Claus em Inglês; miticamente, representa a Deus Pai que nos dá o seu filho como presente.

Natal é a bênção Urbi et Orbe do Papa.O Natal são as inúmeras luzinhas intermitentes que enfeitam e iluminam as nossas cidades e aldeias; O Natal são as ruas e montras de todos os comércios adornadas para a ocasião que convidam os clientes a comprar prendas; o Natal são os presépios de tamanho natural nas nossas praças, mais pequenos nas nossas casas, que evocam a verdadeira história do Natal; o Natal é a árvore do Natal, pinheiro alpino cónico que aponta para o Céu, iluminado e enfeitado tanto em sítios estratégicos das nossas cidades e aldeias como dentro dos nossos lares.

O Natal é o frio que leva a acender a lareira onde origem de calor físico motivante de calor humano; o Natal é a noite escura que congrega todos os homens à luz de uma vela; o Natal é uma casa com janelas flamejantes de cálida luz amarela e fumo na chaminé, que contrasta com uma paisagem nocturna de neve branca e fria.

O Natal são os cartões de boas festas que recebíamos às dezenas e ficavam expostos até ao fim das festas, e que agora escasseiam; o Natal é uma família reunida e unida no amor e na harmonia à volta da mesa da consoada; o Natal é a ceia: as batatas cozidas com bacalhau e couves regadas com um luminoso azeite; é o polvo o peru inteiro dourado no meio da mesa; os doces típicos: as filhoses, as rabanadas, o bolo-rei…

O Natal é o sapatinho na lareira, a alegria dos pais que dão presentes e das crianças de olhos esbugalhados, abrindo-os freneticamente; o Natal é a grande fogueira que arde no adro da Igreja aquecendo os que esperam pela Missa do Galo; o Natal é o canto dos anjos “Gloria a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade” acompanhado pelas campainhas.

O Natal são as canções de Natal, a “noite Feliz” e demais cânticos apropriados, os “Christmas carols” em inglês, os “vilancicos” em Espanhol e as “Janeiras” em Português; o Natal é o beijar do menino Jesus; o Natal é a saudade dos Natais de outrora que nunca mais voltam; o Natal é a tristeza por não poder estar alegres quando estamos sós ou longe dos que amamos… O Natal é tudo isto e muito mais que isto…

“Jesus is the reason for the season”
A nossa sociedade há muito que vive esta quadra sem referencia à verdadeira historia do Natal, o que leva alguns cristãos a levantarem-se em cruzada contra aquilo que o Natal se tornou vociferando: “Jesus is the reason for the season” (Jesus é a verdadeira razão da festa).

É certo que já poucos conhecem a visitação do Anjo a Maria a encarnação do Criador na criatura e o Verbo Divino que se faz homem, Deus um de nós, Deus connosco para nos ensinar desde dentro da nossa natureza como se deve viver a vida humana. Já poucos sabem que o menino Deus de nome Jesus nasceu num curral de animais em Belém e foi depositado por Maria sua mãe numa manjedoura a servir de berço; os anjos cantavam Gloria a Deus e os mais pobres da região, os pastores, não cabiam em si de contentes e felizes.

Parafraseando o conto acima citado, a magia do Natal acontece todos os anos no tempo assinalado apesar do desconhecimento da verdadeira história. Como se estivesse nos nossos genes, o Natal, o seu espirito e magia é espoletado todos os anos pela chegada do Inverno.

A sua chegada tem o mesmo efeito que o pó das fadas nos contos populares; modifica os pensamentos, os sentimentos e as acções de todos. Em tempo de Natal fazer o bem parece o mais natural e todos têm mais força e motivação para evitar o mal. Nas grandes cidades diminui o crime, há tréguas nas guerras, o homem deixa por um tempo de ser lobo do seu congénere.

“Rainha por um dia”
O Natal é o sonho e a utopia de um mundo futuro mais justo mais pacifico e mais fraterno. A realidade do dia a dia está muito longe deste sonho, mas o dia de Natal parece que o sonho se realiza, e o milagre acontece.

Pode ser tal como “rainha por um dia”, mas é o suficiente para que não nos esqueçamos que o nosso objetivo é de facto que todos os dias sejam Natal como de certo simboliza e significa uma loja de Natal na cidade de Québec no Canadá aberta todos os dias do ano.

O Natal já não é o que era, nem será o que foi; independentemente do que quer que se torne , o seu espirito e a sua magia não se perderão, e teremos sempre Natal, nem que seja só um dia ao ano, pois já não podemos passar sem ele.
Pe. Jorge Amaro, IMC


1 de dezembro de 2016

O profeta Isaías - um cristão “avant la lettre”

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Moisés e Elias ao lado de Jesus no monte da Transfiguração simbolizam a Lei e os Profetas, uma forma sintética de referir-se aos livros que compõem o Antigo Testamento. Para os Judeus, como Moisés, o legislador do Monte Sinai ao qual são atribuídos os 5 livros do Pentateuco simboliza a Lei. Elias, que dizimou os profetas do deus Baal no Monte Carmelo, simboliza os profetas por estar considerado para os hebreus, o maior de todos os profetas; tão grande era Elias que nem experimentou a morte como o resto dos mortais, em vida foi arrebatado ao céu do qual se esperava que voltasse como percursor do messias para anunciar a sua vinda.

Diferente da perspetiva judaica, do ponto de vista do Cristianismo, e entendendo o Antigo Testamento como uma preparação para o Novo, o maior profeta é Isaías. Ao contrário de Elias que era tendenciosamente nacionalista e algo xenófobo, Isaías é universalista e está aberto a todos os povos e a todas as raças. Todos os anos no advento nos deleita com a sua visão idílica de uma sociedade aberta e inclusiva onde reina a paz e a harmonia entre todos apesar das suas diferenças:

Então o lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito; o novilho e o leão comerão juntos, e um menino os conduzirá. (Isaías 11, 6) Neste mundo renovado onde as espadas se transformam em arados e as lanças em foices, (Isaías 2,4) Jerusalém não é a capital de Israel mas do mundo pois é lá que o Senhor do Universo vai preparar para todos os povos um banquete de manjares deliciosos e vinhos generosos. (Isaías 25,6).

Cristo de facto no discurso inaugural da sua vida pública cita este mesmo profeta para dizer que a Palavra que Deus proferiu pela sua boca como promessa é hoje em Jesus cumprimento, Palavra encarnada facto. O espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu: enviou-me para levar a boa-nova aos que sofrem… (Isaías 61, 1-2; Lucas 4,16-22)

É Isaías que 300 anos antes de Cristo nos fala das circunstâncias do nascimento de Jesus apresentando-nos a sua visão do mistério da encarnação de Deus; uma virgem dará à luz um filho e o seu nome será Emanuel que significa Deus connosco. (Isaías 7, 14).

É também Isaías que nos antecipa a paixão do Senhor no seu canto sobre o servo de Javé e nos oferece também o sentido expiatório da paixão e morte do Senhor: Na verdade, ele tomou sobre si as nossas doenças, carregou as nossas dores. (…) Foi ferido por causa dos nossos crimes, esmagado por causa das nossas iniquidades. (…) Foi maltratado, mas humilhou-se e não abriu a boca, como um cordeiro que é levado ao matadouro (Isaías 53, 2-7).

Isaías faz no Antigo Testamento o que o autor da carta aos Hebreus faz no novo. Tal como, no Novo Testamento, o autor da carta aos hebreus procura demostrar que o Novo Testamento, a Nova Aliança, não é radicalmente diferente e oposta à Antiga, mas sim uma continuação desta e sobretudo a realização das promessas ali descritas. Assim Isaías com o seu universalismo personifica e preconiza, já no Antigo Testamento de uma forma utópica, o Reino de Deus que Cristo veio trazer à Terra; sobretudo intui já no seu tempo que a salvação é para todos os sem distinção de língua, povo ou nação.

Os dois são personalidades cerneiras para fazer a ponte entre os dois Testamentos. Isaías, desde o Antigo Testamento estende-se ao novo ligando-os detrás para a frente. Ao invés, o autor da carta aos Hebreus da frente para trás, visualizando o Velho como pré-história do Novo.

Como uma árvore que para crescer para cima e alongar os seus ramos precisa de crescer para baixo aprofundando as suas raízes, assim o autor da Carta aos Hebreus, desde o Novo Testamento aprofunda no Antigo para encontrar nele as promessas que agora vê cumpridas no Novo, os cabos soltos que agora são atados, a semente semeada que agora dá fruto, e de como toda a história da salvação estava orientada para a vinda de Cristo.

Como um velho agricultor que planta uma árvore da qual não irá comer fruto, assim foi o sonho utópico do Profeta Isaías acerca de um mundo que havia de vir no qual não houvesse nenhum “povo escolhido” pois se Deus é o Criador logo é também o Pai de todos; um mundo como um teto comum, uma cidade à qual todos chamam lar; uma mesa redonda como o mundo onde lobos e cordeiros partilham a mesma comida; um mundo que não encontra utilidade nas armas ou instrumentos de destruição e as transforma em utensílios de construção.

O autor da carta aos Hebreus é embaixador do Novo Testamento no Antigo porque tenta explicar e conceptualizar o Novo usando os mesmos conceitos teológicos do antigo; por outro lado, Isaías é o embaixador do Novo no Antigo porque apesar de viver no Antigo Testamento, tem uma mentalidade que sintoniza melhor com o Novo que com o Antigo Testamento. Assim sendo, podemos chamar Isaías um cristão “avant la lettre”, e ao autor da carta aos Hebreus um Judeu convertido.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de novembro de 2016

Misericordia, não sacrificios!

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Este Jesus sem abrigo deixa-te um lugar para te sentes ao seu lado, 
e possas ser misericordioso com Ele e todos…
Estou farto de holocaustos de carneiros, de gordura de bezerros. Não me agrada o sangue de vitelos, de cordeiros nem de bodes. (…) Não me ofereçais mais dons inúteis: o incenso é-me abominável; (…) as reuniões de culto, as festas e as solenidades são-me insuportáveis (…) Quando levantais as vossas mãos, afasto de vós os meus olhos; podeis multiplicar as vossas preces, que Eu não as atendo. (…) Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo, socorrei os oprimidos, fazei justiça aos órfãos, defendei as viúvas. Isaías 1, 11-17

Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus mais que os holocaustos.
Oseias 6, 6

Os profetas do Antigo Testamento, eram as pessoas certas para os momentos certos. A sua voz, os seus oráculos provinham de uma análise da realidade, os problemas concretos do povo à luz da Palava de Deus e as soluções que apresentavam para os vários problemas e situações eram de inspiração divina. A solução, intuída pelos profetas, era sempre destabilizadora do “status quo” existente porque, frequentemente, a análise era crítica das estruturas sociais e formas de vida que nada tinham que ver com os desígnios de Deus.

A religião que não transforma a vida é ópio
Conta-se que um muçulmano ia com uma faca a perseguir o seu inimigo para o matar, enquanto o perseguia ouviu a voz do Almuadem no alto do minarete da mesquita chamando os fiéis à oração. Interrompeu abruptamente a perseguição, deixou cair a faca, estendeu o seu tapete no chão voltou-se para a Meca e pôs-se a rezar. Terminada a oração enrolou novamente o tapete empunhou de novo a faca e retomou a perseguição do seu inimigo.

Esta é somente uma caricatura de como a pratica da religião pode chegar a estar completamente divorciada da vida. O mesmo ou parecido pode acontecer com os fiéis de todas as religiões. Quando Karl Marx disse que a religião é o ópio do povo, o seu ponto referencial era mais o cristianismo que qualquer outra religião.

Os que frequentam a igreja vão são os piores – Diz um velho ditado; de facto, frequentemente observamos que a pratica dos rituais prescritos de cada religião, não é fator de crescimento pessoal dos seus fieis; em muitas situações até se comportam pior que os que são ateus ou agnósticos; é como se depois de dar a Deus o seu devido o resto das suas vidas não fosse da Sua conta.

A misericórdia como sacrifício de si mesmo
Os profetas do antigo Israel eram unânimes em condenar um culto separado da vida e uma vida separada de um culto conivente e convivente com a injustiça e a corrupção. Não podendo ter as duas coisas, justiça e misericórdia juntamente com sacrifícios, a ter de escolher, já o Deus do Antigo Testamento, prefere a misericórdia aos sacrifícios. Cristo recordou aos judeus do seu tempo que o Deus seu Pai que o enviou mantém esta mesma escolha quando lhes diz peremptoriamente: Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício. Mateus 9,13

Ao preferir a misericórdia aos sacrifícios, Deus não está de maneira nenhuma a abdicar dos sacrifícios; ele não veio revogar nada da lei só a veio aperfeiçoar. O sacrifício do seu filho na cruz veio substituir os antigos sacrifícios pelos novos sacrifícios; de facto na hora em que Cristo morria na cruz o véu do tempo, o santo dos Santos, rasgou-se como para dizer acabaram-se os sacrifícios da antiga lei e começam os sacrifícios da nova lei.

A nova lei é o amor por isso os sacrifícios que valem, depois de Cristo ter dito e colocado em prática que não há maior amor que dar a vida pelos seus amigos, não são os sacrifícios de cordeiros e bodes; ou seja o dar do que tenho e me sobra aos outros; também não é dar coisas exteriores a mim, mas sim dar-me a mim mesmo. Ante tudo, o sacrifício do meu ego esse é que é agradável a Deus. «Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-me. Lucas 9, 23

No extrañeis dulces amigos que tenga mi frente arrugada, / yo vivo en paz com los hombres / y en guerra com mis entrañas. - É a este sacrifício existencial que o poeta popular, António Machado, alude nesta quadra:  para estar em paz com os homens eu guerreio, sacrifico os meus instintos, as minhas baixas tendências, a ira, o instinto de vingança, o orgulho, o egoísmo, até as minha ideias; tudo isto, eu sacrifico, para viver no amor e na paz com os meus semelhantes.

Ao preferir a misericórdia aos sacrifícios, Deus está a ter as duas coisas numa, pois não há misericórdia que não implique sacrifício; não o sacrifício de algo que me pertence, mas o sacrifício de mim próprio ou uma faceta do meu ego.

Na parábola do Bom Samaritano vemos os dois mundos em confronto; o mundo da antiga aliança, simbolizado no sacerdote e no Levita que obcecados pelo sacrifício de coisas externas a si mesmos passam de largo à necessidade humana sem sentir compaixão, e o mundo da nova aliança, simbolizado no bom samaritano que ante a miséria humana responde com misericórdia; sacrificando-se pelo indigente meio morto, deliberadamente descarrilando-se do seu caminho, pondo de parte a sua vida e os seus negócios.

Esta parábola põe a relevo o quão uma religião que supostamente existe para nos humanizar pode fazer tudo o contrário. Foi precisamente a religião que esvaziou o coração daqueles clérigos de compaixão e os impediu de socorrer aquele que precisava urgentemente de assistência.

Os sacrifícios da antiga lei, os sacrifícios de coisas exteriores a mim, quanto muito fazem-me bem a mim e só a mim. O sacrifício da nova lei, a misericórdia, ou seja, o sacrifício de mim mesmo faz-me bem a mim e aos outros. Nesta óptica, jejuar guardando o que não comi para comer mais tarde é um jejum da antiga lei que me aperfeiçoa só a mim; jejuar dando o que poupei a quem o precisa é um sacrifício da nova lei, pois me aperfeiçoa ao mesmo tempo que me faz solidário com o pobre e desvalido. Quem diz o jejum diz as idas a pé a Fátima, e até as voltas de joelhos na capelinha das aparições.

Sede perfeitos versus sede misericordiosos
Sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito. Mateus 5, 48
Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso. Lucas 6,36

Que ganho eu com a perfeição do outro? Nada, posso até sofrer se ele usa da sua perfeição e superioridade moral para me criticar ou humilhar. Ao contrário, nada tenho que temer daquele que é misericordioso pois ante a minha miséria será solidário e compassivo.

O cristianismo não é como o budismo, um meio de perfeição e progresso espiritual individual para pertencer a uma pretensa elite de iluminados. Aperfeiçoar-se sem ter em conta os outros não é perfeição nenhuma; um melhoramento individual, que nalguma parte do seu processo não leve a um melhoramento dos outros e do mundo em geral, é negativo pois vai estabelecer mais diferenças sociais, e estas, acabarão por criar mais injustiças. No cristianismo o meu progresso espiritual passa pelo progresso social e vice-versa.

No cristianismo sempre que te diriges a Deus, Ele pergunta-te, como o fez a Caim, onde está o teu irmão? E dentro da filosofia existencial que diz que "cada um sabe de si, Deus sabe de todos” responder, como fez Caim: porventura sou eu o guardião do meu irmão, não é a resposta que Deus quer ouvir… Génesis 4, 9
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de novembro de 2016

Confessar-se directamente a Deus

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É muito frequente encontrar católicos que dizem que não precisam de sacerdote para reconciliar-se com Deus; dizem, “se Deus conhece bem os nossos pecados, e é Ele que perdoa, para que serve o sacerdote? Confesso-me diretamente a Deus”.

Com efeito, no sacramento da reconciliação o sacerdote é somente um intermediário, que medeia entre o penitente e Deus; atua “in persona Christi”, ou seja, representa a Cristo que é quem de facto perdoa. Associados ao capitalismo, os intermediários estão hoje muito mal vistos. Mediando entre produtores e consumidores, são vistos como parasitas da sociedade pois são os que mais, e os que sempre lucram em qualquer transacção comercial.

O consumidor procura comprar directamente ao produtor porque compra mais barato; e o produtor procura vender directamente ao consumidor pois vende mais caro. Em cada vez mais situações os intermediários ficam de fora. Quer queiramos, quer não, a prática do sacramento da reconciliação tem sido negativamente influenciada por esta ideologia negativa a respeito da pessoa do intermediário.

No entanto, e apesar do dito, o sacramento da reconciliação continua a fazer sentido por razões que têm que ver com a mesma natureza humana assim como por razões bíblicas e teológicas.

Razões de natureza humana
O homem é intrinsecamente um ser social porque a sua individualidade - carácter e personalidade, é o resultado da interação com os outros, a começar pelos pais, seguidos dos irmãos, tios, primos, professores, catequistas, colegas de escola etc. Porque se formou na interação, esta mesma interação, muito mais que a introspecção, é um meio privilegiado para o ser humano se conhecer a si mesmo como pessoa.

Diz-se que a cara é o espelho da alma pois é a parte do nosso corpo que mais nos define; e precisamente a cara é também a única parte do nosso corpo que não podemos ver directamente. Vemos a sua imagem num espelho, não a vemos tal qual ela é, pois não há espelhos perfeitos. Só os outros a vêm tal qual ela é; da mesma forma, para ver bem o nosso íntimo precisamos da ajuda de outro.

A Janela de Johari diz-nos que o nosso EU, está dividido em 4 instâncias e dessas quatro só somos conscientes de duas:

  • Eu aberto – Constituído por tudo o que, eu e os outros sabem de mim pela minha partilha; actividades e projectos públicos e conscientes, assim como os sentimentos partilhados.

  • Eu Cego – Constituído pela linguagem corporal e por toda a espécie de mecanismos e dos quais os outros se dão conta e eu não. Eu posso ter um cisco na cara que é visível aos outros e não a mim; só os outros me podem ajudar a possuir esta dimensão da minha personalidade. Só quem está fora da floresta pode ver a floresta, quem está dentro só vê arvores. Até Jesus para possuir esta dimensão pergunto aos seus discípulos “Quem dizem os homens que eu sou?”. Precisamos do “feedback” dos outros para saberemos verdadeiramente quem somos.

  • Eu secreto – Constituído pelas motivações secretas do meu comportamento; sentimentos ocultos, a minha privacidade e os meus segredos; ou seja, aquilo que eu conheço, mas não quero que os outros saibam de mim.

  • Eu desconhecido – Constituído pelos mecanismos de defesa, e por tudo o que Freud chama de inconsciente, e que é a causa de uma variedade de comportamentos para os quais nem eu nem os outros têm explicação. Como conhecer significa poder e controle, o que eu conheço de mim eu posso controlar; o que não conheço controla-me a mim. Para conquistar cada vez mais terreno ao meu inconsciente também preciso da ajuda dos outros.

Para atingir a vida em plenitude, a pessoa humana deve possuir liberdade de movimentos e de expressão, ser independente e senhor do seu destino, ser autónomo e responsável pelas suas opções. Neste sentido, o ser humano não obedece a nenhuma instância para além da sua consciência moral que se supõe bem formada e informada.

Porém, como diz o proverbio, “Ninguém é justo juiz em causa própria”. Nem sempre a consciência moral está bem formada e informada; há consciências morais escrupulosas, que veem o mal onde este não existe, e se culpabilizam para além do que é razoável, e há consciências morais laxas que não veem o próprio mal.

Exemplo disto é o caso do rei David que cometeu adultério com a mulher de Urias e enviou este para a frente da batalha para que fosse ferido mortalmente; depois de tudo isto fazer não se sentiu culpado, foi preciso o profeta Nathan lhe contar uma parábola que espelhava bem a magnitude do seu pecado, para que David reconhecesse o crime por si cometido. (2.º Samuel 11- 12).

É certo que quando tenho problemas físicos recorro a um médico; quando tenho problemas psíquicos recorro a um psicólogo; a quem devo recorrer quando tenho problemas morais e a minha consciência me acusa? Como posso eu libertar-me da culpa sem a ajuda de alguém?
   
Há estudos que revelam que os católicos praticantes, porque têm o sacramento da reconciliação, precisam menos de psicólogos e de psiquiatras que os protestantes que não o têm. Todos conhecemos a necessidade de desabafar, para isto precisamos de um amigo, de um sacerdote ou de um psicólogo para faze-lo em segurança; não podemos desabafar sozinhos para uma parede, precisamos de alguém que nos ouça empaticamente.

Só me liberto da culpa se a partilho com alguém o que não sai fora de mim, e é escutado por alguém, fica dentro de mim envenenando o meu íntimo. Os judeus experimentavam uma catarse libertadora quando projectavam todas as culpas sobre um bode, chamado bode expiatório. Há certos pecados e certas culpas das quais não nos podemos libertar sozinhos, e confessa-las directamente a Deus não ajuda, precisamos de as assumir e chorar sobre uns ombros concretos e só assim nos podemos libertar delas.

O remorso da culpa e a obsessão do trauma são mecanismos psicológicos e morais dos quais a pessoa não se pode libertar sozinha. Recordemos o primeiro filme do Exorcista, a rapariga só se sente libertada do demónio que a possui quando este sai dela e entra no sacerdote que a está a exorcizar. Da mesma forma só nos sentimos verdadeiramente livres de assuntos que nos perturbam quando alguém psicologicamente e moralmente qualificado nos ouve.

Porque somos seres sociais, só nos podemos livrar de certas coisas que envenenam a nossa alma, desabafando com uma pessoa qualificada para nos ouvir. Por esta razão, Jesus deu aos sacerdotes a faculdade para perdoar os pecados em seu nome, tanto individualmente no confessionário como comunitariamente numa absolvição geral no contexto de uma celebração penitencial comunitária.

Razões bíblicas ou teológicas
Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem, na terra, poder para perdoar pecados - disse Ele ao paralítico: 'Levanta-te, toma o teu catre e vai para tua casa.» E ele, levantando-se, foi para sua casa. (Mateus 9, 6-7)

Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que
desligares na terra será desligado no Céu.» (Mateus 16, 19 e João 20, 21-23)

“Confessai, pois, os pecados uns aos outros e orai uns pelos outros para serdes curados. A oração fervorosa do justo tem muito poder”. (Tiago 5,16)

O sacerdote, Homem de Deus consagrado para representar a Cristo “bode expiatório” dos pecados de toda a humanidade, cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, é de por si um sacramento, ou seja uma pessoa visível que representa Deus invisível. Continuador da obra de Jesus que incluía a faculdade de perdoar os pecados; pontifex ponte entre Deus e os homens pelo que, não estando ainda com Deus, vive já na terra a vida que todos viveremos no céu, por isso representa a Cristo e é o seu embaixador para continuar na terra aqui e agora o que Cristo iniciou à dois mil anos em Israel.

Absolução individual ou comunitária?
Para que haja sacramento tem de haver alguém que represente a Cristo; esse alguém é o sacerdote que pelo sacramento da Ordem foi revestido e investido com as mesmas funções que Cristo exerceu enquanto viveu entre nós.

Não é imprescindível que o sacerdote ouça os nossos pecados; como acontece em celebrações penitenciais comunitárias e individualmente quando confessamos alguém que fala uma língua que nós desconhecemos, como acontece nos primeiros anos nas missões. O que é imprescindível para que haja sacramento, é a presença do sacerdote.

Em Marcos 2, 1-12 Jesus disse ao paralítico: “Os teus pecados estão perdoados” Jesus perdoou os pecados do paralítico sem os conhecer, sem ouvir o paralítico confessa-los. Perdoo-lhos porque grande era a sua fé de que encontraria saúde junto de Jesus.

Quando o sentimento de culpa é grande, precisamos de desabafar ou de direção espiritual, é bom recorrer à confissão individual; como somos seres sociais, do ponto de vista pastoral, psicológico e pedagógico, a confissão e absolução individual têm mais força e a alegria de nos termos libertado do peso da culpa é muito superior pelo que a confissão individual é de preferir sempre que possível.

Porém quando não é possível e de todo impraticável a confissão uma celebração comunitária onde depois de um exame de consciência extensivo e intensivo guiado pelo sacerdote, que traz à consciência as nossas faltas e provoca no nosso coração o arrependimento, a absolvição geral e comunitária do sacerdote tem o mesmo valor teológico e sacramental que a individual.
Pe. Jorge Amaro, IMC



15 de outubro de 2016

Perdoar com condições

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Os fracos não conseguem perdoar.
A capacidade de perdoar é atributo dos fortes
… Perdoa as nossas ofensas, como nós perdoámos a quem nos tem ofendido; e não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do Mal.' Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai celeste vos perdoará a vós. Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai vos não perdoará as vossas.» Mateus, 6 12-15 

Deus só perdoa se perdoarmos
A oração do Pai Nosso é muito mais que uma simples oração; é o resumo mais resumido da mensagem de Jesus; contem tudo o que devemos praticar para ter vida e tê-la em plenitude. Desta forma a dimensão do perdão não só faz parte do corpo da oração, como merece de Jesus um comentário a modo de “Post Scriptum”.

De todos os temas enumerados nesta oração, como se de uma lista se tratasse, Jesus só comenta um, o perdão, para que fique claro sem lugar a dúvidas ou falsas interpretações tudo o que pensa a respeito. Fá-lo nos versículos 14 e 15 já fora do corpo da oração.

Frequentemente em homilias dialogadas costumo perguntar se Deus nos ama incondicionalmente ao que unanimemente todos respondem que sim; seguidamente pergunto se Deus também nos perdoa incondicionalmente e sem muito pensar todos respondem que sim porque acham que é logico que assim seja.

Quando contradigo a ideia consensual de que Deus perdoa incondicionalmente dizendo que não que o perdão de Deus não é incondicional como o seu amor, mas tem condições, exige alguns requisitos, todos são apanhados de surpresa e muitos, mais uma vez sem pensar, até se apressam a dizer que a minha doutrina é falsa.

Muitos cristãos rezam o Pai Nosso provavelmente mais que uma vez por dia e não se apercebem do que dizem e ao que se obrigam. Do comentário a modo de apêndice, que o próprio Cristo faz, se só podemos concluir que embora Deus não coloque condições para nos amar, não sucede o mesmo à hora de perdoar; Deus não nos perdoa incondicionalmente pelo que devemos satisfazer as suas condições para obter o Seu perdão. Para sermos perdoados, é “conditio sine qua non”, que perdoemos aqueles que nos ofenderam.

De facto, na oração que Jesus nos ensinou, quando dizemos, perdoa as nossas ofensas, como nós perdoámos a quem nos tem ofendido, estamos a dizer a Deus que, como nós já perdoamos, ou seja, já fizemos a nossa parte, que faça também Ele a sua e nos perdoe; colocamos o perdão que devemos conceder aos outros como condição prévia ao perdão que pedimos a Deus; ou seja nós mesmos já condicionamos o perdão de Deus ao perdão que devemos conceder aos outros. O que nos autoriza moralmente a pedir perdão a Deus é o facto de que nós já perdoámos de coração aqueles que nos ofenderam.

Com a medida com que medirdes, assim sereis medidos. (Mateus 7,2). Como o amor que temos por nós próprios deve ser a medida do amor que devemos ter pelo próximo, não podemos querer Deus para nós e o diabo para os outros; não podemos exigir que Deus nos perdoe se nos negamos a perdoar de coração a quem nos fende. Dura é esta linguagem como foi o sermão sobre a eucaristia no evangelho de São João que provocou que muitos já não andassem com o Senhor.

E perdoai nossas ofensas de um modo maior com que perdoamos – A dureza desta linguagem sobre o perdão provocou igual dissidência que aquela sobre a eucaristia. O sacerdote carismático Marcelo Rossi, fazendo ouvidos surdos às palavras de Jesus do versículo 12 pela sua dureza, substituiu-as pelas suas próprias aqui acima citadas.

Perdão revocado
Palavra de rei não volta atrás – Recordemos a promessa do rei Herodes à filha de Herodíade; recordemos Pilatos a respeito do letreiro que escreveu para colocar no alto da cruz do Senhor. Um rei não “rói a corda”, não volta atrás no que disse e prometeu. Muito menos Deus Rei do universo volta atrás.

No entanto, a parábola descrita em Mateus 18, 23-35 sugere que, no caso do perdão Deus volta atrás na sua palavra. A parábola fala de um que devia uma soma exorbitante de dinheiro ao seu Senhor e este, tendo compaixão dele, perdoou-lhe a dívida. Porém como este servo não perdoou a quem lhe devia uma quantia insignificante, o Senhor voltou atrás na sua palavra e revocou o perdão que previamente tinha concedido.

Quando Deus chega ao ponto de tirar o que já tinha dado, algo que uma pessoa sensata nunca faz, quer dizer que não abdica da única condição que exige para nos conceder o seu perdão; ou seja devemos estar preparados para perdoar aqueles que precisam do nosso perdão tanto quanto nós precisamos do de Deus.

Ajudas de custo
Então, Pedro aproximou-se e perguntou-lhe: «Senhor, se o meu irmão me ofender, quantas vezes lhe deverei perdoar? Até sete vezes?» Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Mateus 18, 21-22

Sempre a bater na mesma tecla, estes são os versículos prévios à parábola que acima citamos na qual Deus retira o perdão concedido. Deus não nos dá trégua, devemos perdoar não uma nem duas nem três vezes, mas sempre sem nos cansarmos, como Ele mesmo faz. Nunca poderemos dizer “enough is enough”; nunca podemos desistir de ninguém porque Deus nunca desiste de nós.

Não retirando nada à dificuldade de perdoar, os seguintes pontos podem ser uma ajuda:
  1. Ter em conta a educação da pessoa: os traumas recebidos na infância, os maus pais, os maus professores. Não há educações perfeitas; desde Freud, ninguém discute o determinante que são os primeiros anos para o resto da nossa vida; superar esse determinismo não é fácil e muitos nunca o conseguem. Tendo isto em conta, até que ponto a pessoa é responsável pelo que faz? Se os tribunais de justiça têm em conta estes determinantes porque não nós na hora de perdoar. 

  2. Perdoa-lhes Senhor porque não sabem, o que fazem. Esta foi a razão que o Senhor encontrou para perdoar a quem o matou. Quando fazemos o mal, a maior parte das vezes actuamos sob a influência de uma grande emoção; as emoções fortes enevoam a mente, como o faz o álcool e a pessoa não sabe o que diz nem o que faz. Fora de si estava o filho pródigo quando decidiu abandonar a família, como muito bem refere o evangelho, e como a mesma parábola refere, quando voltou a si, regressou à sua família.

  3. Uma coisa é o pecado outra é o pecador. A pessoa que fez uma má obra também faz muitas boas e nós, tendenciosamente, não olhamos às boas só vemos as más. Chegamos a condenar uma pessoa que nos fez bem uma vida inteira por uma única ação contra nós. Relatamos aos quatro ventos o mal que alguém faz, ao contrario, o bem que a mesma pessoa faça nem em privado o relatamos; criticamos o mal, invejamos o bem. Como Deus devemos fazer uma distinção entre o pecador e o pecado, para que não aconteça que “deitemos fora o menino com a água da banheira”.

  4. Muitas vezes somos hipócritas, criticamos nos outros as mesmas más ações que nós também praticamos, ou não estamos livres de um dia vir a praticar, se fossem dadas as mesmas premissas e circunstâncias. Se honestamente concluímos que faríamos o mesmo então perdoar é pôr em pratica o preceito do Senhor, o que queres que os outros te façam faz tu aos outros.

  5. Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos odeiam. Mateus 5, 44 –, Mais do que uma exortação ou um conselho, eu diria que Jesus nos está a dar uma técnica que milagrosamente funciona. Ninguém tem vontade de rezar aqueles que nos odeiam, mas se forçarmos a faze-lo, se nós comprometermos a fazer o que é certo contrariando os nossos instintos, após algum tempo, o sentimento de ódio começa a enfraquecer acabando por desaparecer por completo. Experimenta e verás por ti mesmo. O evangelho não pode estar errado.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de outubro de 2016

Perdoar e esquecer

1 comentário:
Um Ex prisioneiro de um campo de concentração Nazi foi visitar a um amigo que com ele tinha partilhado tão penosa experiência. “Já perdoaste os Nazis tudo aquilo que nos fizeram?” Perguntou ao seu amigo. “Sim já” respondeu ele. Pois eu não e nunca os perdoarei ainda os odeio com toda a minha alma. Ao ouvir isto, o seu amigo disse-lhe aprazivelmente, “se é assim, ainda te têm prisioneiro”. 

Deus perdoa e esquece é como um computador com muita memória operativa sem disco duro para armazenar dados. Para Deus, que vive num eterno presente, o passado não tem valor. Mal e bem contribuíram para o que somos hoje que é o que a Deus interessa; as boas obras formaram o nosso bom caracter as más ações, se soubemos lidar com as suas consequências, deram-nos uma lição, pois na vida aprendemos mais dos nossos erros que dos nossos acertos.

“Águas passadas não movem moinhos”
Não perdoar é escolher ficar preso numa cela de amargura, cumprindo pena pelo crime de outra pessoa.  Mahatma Gandhi

Deus perdoa e esquece, passa página como costumamos dizer; a água não fica agarrada a nenhum lado corre, “moves on” como se diz em inglês. O que acontece com Deus e com a água que uma vez passada já não pode mover o moinho, não acontece connosco. De facto, muitos de nós, contra todas as leis da física, ficamos amarrados ao passado e vivemos a nossa historia circular e repetitivamente como um disco riscado. Desta forma o passado é contínua e obsessivamente projetado no presente, obrigando as pessoas das nossas relações do presente a representar e atuar os nossos monstros do passado, reagindo nós como reagimos naquele então.

Só perdoando as pessoas que nos magoaram no passado nos libertamos das amarras do ressentimento e outras emoções prejudiciais que andam à solta no nosso ser; como nós não as conseguimos controlar porque não as conhecemos, controlam-nos elas a nós, influenciando o nosso comportamento no presente. Só quando perdoamos a que nos emancipamos totalmente dos que nos ofenderam e lhes retiramos o poder que, no caso de não perdoarmos, ainda têm sobre nós.

Conta-se que no Céu Caim evitava a companhia de Abel até que um dia este não entendendo a razão do comportamento do seu irmão resolve confrontá-lo. Ouve lá porque é que foges de mim? Acaso não somos irmãos? Caim olhando-o cabisbaixo e envergonhado responde em tom de pergunta; tu não sabes o que aconteceu lá em baixo na terra entre mim e ti? Tenho uma vaga ideia, disse Abel; foste tu que me mataste a mim ou fui eu que te matei a ti?

Enquanto dura o remorso dura a culpa. Caim não se tinha perdoado ainda a si mesmo… Se Deus perdoa e esquece, passa página nós, pelo nosso bem e equilíbrio anímico, estamos chamados a fazer o mesmo, perdoar os outros e perdoarmo-nos a nós próprios. É certo que os factos não são totalmente esquecidos do ponto de vista cognitivo: mas, se verdadeiramente conseguirmos perdoar, estes são recordados de uma forma diferente, sem emoção; já não provocam stress ou ansiedade, ódio ou ressentimento no nosso coração pelo que verdadeiramente ficaram no passado e podem até ser mesmo esquecidos cognitivamente.

Pecado é dívida contraída
Anulou o documento que, com os seus decretos, era contra nós; aboliu-o inteiramente, e cravou-o na cruz. Colossenses 2, 14

“Perdona nuestras deudas asi como nosotros perdonamos a nuestro deudores” Assim rezavam os espanhóis o Pai Nosso há uns anos. Quando pecamos, contraímos uma dívida contra quem pecámos; as relações com essa pessoa, a ordem, o equilíbrio e a harmonia não ficam restabelecidas se a dívida não for paga. A ideia de satisfazer, compensar ou recompensar a quem lesámos vem do facto de nos sentirmos devedores para com essa pessoa. A palavra ofensa, que usamos em português é também agora a que usam os espanhóis para estar em sintonia com a América Latina, não confere o mesmo sentido.

Precisamos de olhar para o pecado como dívida contraída para entender o que São Paulo diz aos cristãos de Colosso. Fala-lhes de facto de uma factura que contem extensivamente e em detalhe os pecados da humanidade e os nossos próprios.  Essa factura que é um documento da nossa dívida, de por si fala contra nós, pois relata todo o mal que fizemos.

Em Cristo, Deus Pai aboliu ou anulou a fatura; no original grego São Paulo não usa o termo chiastrein que significa anular ao colocar um X em todo o corpo da factura. Não usa este termo porque mesmo depois de anularmos uma factura sempre a podemos ler e depois arrependermo-nos de termos perdoado a dívida. O termo que Paulo usa é exalaifein, que significa apagar.

Naquele tempo não havia papel, como há hoje; os papiros, e peles eram usados uma e outra vez por isso se escrevia com uma tinta que se apagava facilmente como até há bem pouco fazíamos com as nossas ardósias. Uma vez apagada a factura já não pode ser lida. Mas para que não restasse nenhum vestígio de tal factura Deus crucificou-a ou seja destruiu-a por completo, ou seja é como se tivesse sido queimada; já não pode ser lida não só porque foi apagada, mas porque já não existe.

Jesus de Nazaré pagou a fatura da nossa divida; ao assumir os nossos pecados e de alguma forma Ele incarnou a fatura da divida de toda a humanidade, e com a sua morte destruiu-a.

Subindo ao madeiro, Ele levou os nossos pecados no seu corpo, para que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça: pelas suas chagas fostes curados. 1 Pedro 2, 24

Ao assumir os nossos pecados, Jesus de alguma forma encarnou, ou transformou-se na velha fatura que continha todos os pecados ou dividas da humanidade para com Deus; ao morrer na cruz destruiu-a para sempre. Se em Jesus Deus perdoa e esquece as nossas faltas também nós estamos chamados a perdoar e esquecer as ofensas dos outros e assim como o mal que nos fizemos a nós próprios.
Pe. Jorge Amaro. IMC