15 de março de 2019

A natureza do ser humano: Pai - Mãe - Filho/a

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Mito do Andrógino
No banquete de Platão, Aristófanes levanta-se para fazer o seu discurso sobre a natureza do amor, para explicar porque os amantes experimentam a plenitude quando encontram a sua amada. - Aristófanes explica que, no princípio, Zeus criou o ser andrógino, algo assim como um homem e uma mulher unidos pelas costas num só ser.

Na sua plenitude e felicidade, andrógino cresceu insolente e recusou-se a honrar e venerar os deuses e até tentou atacá-los na sua morada nas montanhas. Zeus, um pouco por inveja da sua felicidade e também por vingança, castigou Andrógino e dividiu-o em dois, seguindo a velha ideia “Divide ed impera”, divide e vencerás. Assim nasce a palavra “sexo”, que tem a mesma raiz que “secção”, “seita”, parte de um todo.

Para Aristófanes, passamos a vida à procura da parte que nos amputaram, porque sem ela a vida não tem sentido, é deprimente. Com ela, sentimo-nos completos, voltamos à plenitude e perfeição. O amor é, portanto, a força que faz gravitar o varão e a mulher à volta um do outro, até voltarem a encontrar-se e fundir-se no ser que antes foram.

Amor é o que se sente pela parte amputada quando a encontramos e estabelecemos afetiva e efetivamente a unidade primordial. Em português, as pessoas falam do seu esposo ou esposa como a sua cara metade ou a outra metade da laranja.

Dizem que Aristófanes é o pai do amor romântico e também do amor platónico, o tal amor no qual e pelo qual os amantes gravitam à volta um do outro sem nunca se fundirem num só, como seria o seu desejo consciente ou inconsciente.

O mito bíblico da criação do varão e da mulher
“Façamos o ser humano à nossa imagem, à nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre todos os répteis que rastejam pela terra.” Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher. Génesis 1, 26-27

O Senhor Deus disse: “Não é conveniente que o homem esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele. (…) Então, o Senhor Deus fez cair sobre o homem um sono profundo; e, enquanto ele dormia, tirou-lhe uma das suas costelas, cujo lugar preencheu de carne. Da costela que retirara do homem, o Senhor Deus fez a mulher e conduziu-a até ao homem. 

Então, o homem exclamou: «Esta é, realmente, osso dos meus ossos e carne da minha carne. Chamar-se-á mulher, visto ter sido tirada do homem!” Por esse motivo, o homem deixará o pai e a mãe, para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne. Génesis 2, 18, 21-24

Os judeus arranjaram dois relatos mitológicos para explicar o que os gregos explicam num só. Primeiro, que o homem e a mulher são iguais entre si em dignidade, são duas versões do mesmo ser humano e nenhuma destas versões é superior ou inferior à outra. Segundo, que os dois no fundo são um só, que já foram um só e que agora tendem a ser um só.

Temos a tendência de pensar que Deus no princípio criou o varão e dele tirou a mulher, mas não é isso que a Bíblia diz. Deus, no princípio, criou o ser humano, o Homem com letra maiúscula que em grego é Antropos e em latim Homo. Deste ser humano, Deus tirou a mulher e o que restou foi: Vis vírus, que em português dá “varão”, a verdadeira palavra que designa um ser humano do sexo masculino.

Quando fala do matrimónio é interessante notar que Jesus, quase como os gregos, cita o primeiro e não o segundo relato da criação do ser humano dizendo: desde o princípio da criação, Deus fê-los homem e mulher (Marcos 10, 6), pois estava mais interessado em vincar a igualdade entre o homem e a mulher, coisa que não existia naquele tempo nem nos séculos seguintes até aos nossos dias.

Depois, vai buscar a segunda parte do segundo relato do livro do Génesis para fundamentar o matrimónio: Por esse motivo, o homem deixará o pai e a mãe, para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne. (Marcos 10, 8)

A Grécia inventou o amor romântico e a tendência a buscar a nossa verdadeira cara metade, o amor perfeito, o perfeito homem, a perfeita mulher, e Israel inventou a instituição matrimonial e o casamento arranjado pelas famílias, sem amor entre as partes, com o único intuito da procriação e de estabelecer alianças entre povos para evitar guerras.

Quando um equivale a três
O amante bateu à porta da sua amada. “Quem é?”, perguntou ela de dentro. “Sou eu”, disse o amante. “Vai-te embora, nesta casa não cabemos tu e eu”. O amante rejeitado vagueou pelo deserto, meditando meses a fio, considerando e reconsiderando as palavras da amada. Por fim, voltou a bater à porta. “-Quem és?”. “-Sou tu”, respondeu desta vez o amante. E a porta imediatamente se abriu de par em par.

Este Deus que é uma comunidade de amor criou o homem à sua imagem e semelhança, pelo que também o ser humano é uno e trino, estando chamado a ser uma comunidade de amor; à Trindade de Deus corresponde uma trindade humana.

A pessoa humana é livre, autónoma, indivisível e independente e, no entanto, não se explica por si mesma, precisa de outras duas pessoas: o seu pai e a sua mãe, com as quais forma um triângulo. Pai, mãe, filho(a) são as únicas categorias de vida humana; todo o ser humano pertence sempre a duas delas.

Um homem não é pai sem ter uma esposa e um filho(a); uma mulher não é mãe sem ter um marido e um filho(a), todo o ser humano é filho(a) de um pai e de uma mãe; não existem mães solteiras. A Trindade consiste em que um indivíduo não existe sozinho, mas coexiste com outros dois; a existência de um implica sempre a existência de outros dois com os quais tem laços afetivos, formando um triângulo de amor.

A união que sentimos com os nossos pais é tão intensa, tão forte, que eles são parte de nós e nós parte deles. Quando nos faltam, mesmo sendo na velhice, quando já dependem mais eles de nós que nós deles, parece que o mundo desaba sobre nós. “Partir, c'est mourir un peu / C'est mourir à ce qu'on aime”, diz com razão o poema francês. Quando eles partem, nós morremos um pouco e nunca mais seremos os mesmos.

Consola-nos a possibilidade de construir outro triângulo e de sermos pais também nós, mas nunca recuperamos totalmente do embate que sofremos com a sua morte. O luto pelos pais será sempre um luto incompleto; recordo a minha mãe, já velhinha, que ao pensar na sua, ficava com lágrimas nos olhos… 

Porque o Homem é uno e trino, o ser humano é um todo em si mesmo, mas ao mesmo tempo parte de um outro todo: a sua família. A vida humana é sempre uma vida triangular: fora do triângulo não há vida humana. Quando um filho(a) abandona o triângulo da sua família com outro indivíduo do sexo oposto, forma um outro triângulo. A relação entre todos estes triângulos forma o tecido social, a família, o clã, a tribo, o povo e a nação.

Mas, desde o princípio da criação, Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher, e serão os dois um só. Portanto, já não são dois, mas um só. Marcos 10, 6-8

Um matrimónio católico, para ser válido, deve ser “ratum et consummatum”, retificado na Igreja onde o sacerdote, citando o Evangelho, declara os dois uma só carne, e consumado na intimidade do ato conjugal ou sexual, onde os dois se compenetram numa só carne. E no preciso momento em que os dois são um, são três: dessa união, surge um novo ser, pelo que o ser humano é Uno e Trino.

Seja pai seja mãe ou filho/filha cada um destes indivíduos pressupõe a existência dos outros dois. Os seres humanos não existem por si sós coexistem num elo trinitário de amor, tal como Deus.

Os seres humanos são intrinsecamente interdependentes
  • Génesis 1, 27 - Deus criou o ser humano à sua imagem, (…) Ele os criou homem e mulher. 
  • Génesis 2. 22 - Da costela que retirara do homem, o Senhor Deus fez a mulher 
A vantagem do mito andrógino sobre a criação de seres humanos por Deus, sobre o mito bíblico, é que numa única narração se afirma que nós somos ao mesmo tempo livres e interdependentes, um todo e uma parte. Ao contrário, a Bíblia diz primeiramente que somos livres e iguais em dignidade e só depois que somos interdependentes, e pertencemos um ao outro

A separação das duas verdades da natureza humana, em dois relatos diferentes, criou um problema. Ao longo do tempo, o segundo relato foi visto como machista e posto de lado e ao primeiro dado demasiado valor.

“Homem e mulher Ele os criou” soa como se os seres humanos existissem em duas modalidades diferentes completamente independentes e sem nenhuma relação entre si. Perde-se a intuição do mito grego que diz que num princípio os dois eram um por isso, mesmo divididos em duas metades eles têm a tendência a juntar-se novamente e como se pertencem mutuamente são interdependentes.

A cultura ocidental moderna, nascida da revolução francesa, é individualista pois coloca o valor da pessoa por cima do valor da Comunidade, a liberdade por cima da igualdade e fraternidade, a independência e autonomia por cima da interdependência. Existem demasiadas filosofias que exaltam o valor individual da pessoa humana como se pudesse existir sozinha.

Não existem filósofos e filosofias que apontem para a pessoa humana como sendo metade de um ser, incompleta, intrinsecamente indigente e interdependente no âmago de sua existência. Na verdade, só Deus é completo em si mesmo, e a completa, os seres humanos não existem em plenitude e autossuficiência, como ilhas; eles só existem em metades e têm de encontrar inteireza, fora de si, juntamente com outros seres humanos.

Em vez de referir-se a duas modalidades diferentes ou versões da existência humana como se pudessem existir por si só, varão/mulher deve referir-se a deficiência, indigência e deve ser para nós uma lembrança continua de que em nós mesmos, somos seres inacabados, insuficientes, imperfeitos, parciais, inacabados deficientes mutilados, só metade de um ser humano, não só a nível sexual mas a todos os níveis; somos interdependentes porque somos incompletos.

Completa humanidade completa e o sentido da inteireza só podem vir quando entramos num relacionamento íntimo com outro ser humano. Varão/mulher em vez de serem vistos como uma das duas versões ou modalidades nas quais o ser humano existe, deveriam ser vistos como que, neles mesmos por si sós não fazem sentido.

Entre os humanos a existência é coexistência, pelo que nos faríamos um favor se eliminássemos a palavra e o conceito de existência substituindo-o por coexistência, por como não há existência sem coexistência, nós não existimos, coexistimos.

Pensamento tridimensional
“Os filhos condicionaram a minha existência, desde que nasceram não voltei a pensar em termos individuais, faço parte de um trio inseparável”, diz Isabel Allende sobre a sua experiência familiar

Como já dissemos quando falámos da família divina, somos ao mesmo tempo um todo e uma parte. Cada uma das nossas células, mesmo sendo só uma infinitésima parte do nosso organismo, contém em si mesma por via do ADN a informação completa do nosso organismo. Foi com base neste princípio que a ovelha Dolly foi clonada. Isto é possível porque todas as nossas células são filhas do “matrimónio” entre duas metades de célula que aconteceu quando o nosso pai e a nossa mãe consumaram o matrimónio no ato conjugal.

A célula, sendo um ser vivo em si mesmo (a ameba é um ser unicelular), uma unidade, faz por outro lado parte do nosso corpo. A família, sendo uma unidade em si mesma, é uma célula de um clã; vários clãs formam uma tribo, várias tribos um povo, vários povos um país. Não há nenhum povo que não seja formado por outros povos. O ser simultaneamente, todo e parte, é inerente à natureza humana.

Porque não há vida humana fora da família, porque ao mesmo tempo somos um todo e uma parte, seres livres autónomos, indivíduos, mas também parte de uma família, de uma tribo, de um povo, de uma nação, sempre viveremos em tensão entre o individual e o comunitário. O nosso pensamento individual não pode ser individualista, mas deve ser tridimensional.

Frequentemente, quando celebro um matrimónio, digo ao noivo, “A partir de hoje, nunca mais vais beber uma cerveja sozinho”; ao que ele responde, “Mas a minha mulher não bebe…”, “Bebe sim”, digo eu, “E o teu filho bebe também. As consequências dos teus atos não vão recair só sobre ti, mas também sobre aqueles que a ti se encontram unidos triangularmente. E se as consequências dos teus atos também recaem sobre os outros, o teu pensamento deve ser tridimensional, ou seja, deves tê-los em conta e partilhar e tomar decisões em conjunto, mesmo sobre assuntos aparentemente individuais.”

Não posso ter a mentalidade de Frank Sinatra “I will do it my way”. Nem a da expressão francesa Chacun pour soi, ou da espanhola “Cada um sabe de si Dios sabe de todos”, ou da italiana “Fa per tre chi fa per se”. “Onde está o teu irmão?” pergunta Deus a Caim (Génesis 4, 3-13) - tenho que saber sempre onde está o meu irmão.

A comunicação não-violenta ensina-nos que há formas de satisfazer as nossas necessidades sem ser à custa ou em detrimento das necessidades dos outros e vice-versa. Ou todos ganham ou todos perdem, pois ninguém pode ser feliz à custa do outro. Alguém disse que um camelo é um cavalo desenhado por um grupo de pessoas.

É mais importante o processo que se segue que o resultado final. Tanto no mundo empresarial como nos negócios, saber trabalhar com os outros é muito importante porque leva a um maior bem-estar no trabalho e a uma maior produção.

Triângulo de amor ou triângulo das Bermudas
“Um pequeno passo individual e um grande salto para a humanidade” disse Neil Armstrong quando colocou o seu pé sobre a superfície lunar. O contrário também é verdade: somos todos uma família, um retrocesso individual é um retrocesso para a humanidade.          

Era uma vez dois ouriços que eram muito amigos um do outro. Era Verão e passavam o tempo a brincar. Entretanto chegou o Outono e começou a fazer frio e os ouriços deitavam-se debaixo das folhas para se abrigarem. Chegou o Inverno e as folhas não eram suficientes. Repararam então que os outros animais dormiam juntos, agarrados uns aos outros para se protegerem do frio. Acharam que era uma excelente ideia.

Porém, logo que tentaram fazê-lo, foi vê-los a correr cada um para o seu lado. Tinham-se picado um ao outro com os espinhos eriçados do seu corpo e atribuíam a culpa um ao outro... era necessário encontrar um modo de se acomodarem sem se ferirem. Noite após noite, foram-se acostumando um com ao outro. Com jeitinho, abaixavam os espinhos e deitavam-se lado a lado, entre mil cuidados, para não se ferirem.

Estamos chamados a entender-nos, não há plano B, não há alternativa, não há volta atrás. Na conquista do México, o espanhol Hernán Cortés mandou queimar as caravelas para não deixar nenhuma rota de fuga. Só restava aos seus soldados seguir em frente, se quisessem sobreviver. Um pouco desta mentalidade ser-nos-ia muito útil no Portugal de hoje, onde em cada 100 casais, 70 se divorciam.

Algum dia pra te ver/saltava trinta quintais/ hoje pra te não ver saltaria trinta ou mais – diz uma quadra popular… Lenda ou verdade, o triângulo das Bermudas é popularmente conhecido como sendo um lugar no golfo do México, onde se diz que desaparecem navios e aviões que por ali circulam. Quantos triângulos de amor se transformam em muito pouco tempo em triângulos das Bermudas, onde os indivíduos se perdem.

Pai
Poderás viver, então, do trabalho de tuas mãos, serás feliz e terás bem-estar. Salmo 127, 2

A sua ausência pode ser física, afetiva, cognitiva e espiritual. Esta carência priva os filhos de um modelo adequado de comportamento paterno. O aumento da atividade de trabalho da mulher fora de casa, não encontrou uma compensação adequada num maior compromisso do homem no âmbito doméstico. (Sínodo sobre a família 2016)

Na evolução das espécies, a figura paterna começa por não ter nenhum papel nos répteis e nos mamíferos, para começar a ter algum papel nos primatas. A figura do pai ausente é algo que ainda está nos genes da história da humanidade; o pai ausente de hoje é o mesmo pai inexistente nos primórdios da nossa evolução.

Ao contrário da mulher que se relaciona com o novo ser 9 meses antes de ele nascer, o pai está ausente deste processo, pois só colocou a semente e é sempre um pai adotivo, ausente. Sem poder sentir o mesmo que a mulher, o pai moderno acompanha passo a passo a gestação do seu filho, sente com o ouvido os seus primeiros pontapés e assiste ao parto.

É necessário que Ele cresça e que eu diminua. - João 3:30 – Parafraseando esta frase de João Batista, é necessário que a omnipresença da mãe na vida do filho diminua e aumente a presença do pai. Uma mãe galinha será uma péssima sogra que nunca cortou o cordão umbilical que se julga na posse do seu filho(a), que em vez de o empurrar para fora do ninho como fazem as andorinhas ao fim do verão com os seus filhotes, quer retê-lo e considera inimiga a nora ou o genro que lho(a) “rouba”. Os filhos não são dos pais, não foram eles que lhes deram a vida pois também já eles a receberam. Agora transmitem aos seus filhos, não dão, porque não são proprietários da vida.

Um pai ausente acaba por perder tanto a mulher como os filhos. Como a providência dos pais para com os seus filhos está assegurada pela lei, a mulher facilmente converte a ausência de facto em ausência de direito.

Para os filhos, é mais difícil ter este raciocínio, pois são sempre filhos. Um rapaz que cresce sem pai, cresce sem disciplina, sem modelo de identificação, vive confuso e perdido. A rapariga que cresce sem pai carece de uma experiência positiva com a primeira pessoa que conhece do sexo oposto. Em busca de um pai, namorará cedo demais e repetirá com muitos homens a relação que fracassou com o seu pai.

Mãe
Tua mulher será em teu lar como uma vinha fecunda. Salmo 127, 3
Uma presença mais assídua do pai, permite uma ausência mais prolongada da mãe e uma realização profissional da mesma, assim com um crescimento individual. O tempo da mulher submissa e caseira acabou e verdadeiramente já Jesus era contra os dois clichés que ao longo dos séculos escravizaram as mulheres:

A vocação da mulher é a maternidade
Naquele tempo, enquanto Jesus falava à multidão, uma mulher levantou a voz no meio da multidão e disse: «Feliz Aquela que Te trouxe no seu ventre e Te amamentou ao seu peito». Mas Jesus respondeu: «Mais felizes são os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática». Lucas 11, 27-28

Jesus dá importância a este elogio e, mais importante que a maternidade física, considera que é a maternidade do discípulo, o ouvir e encarnar a palavra, coisa que Maria, sua mãe, fez tendo sido ela primeiro discípula e depois mãe. Ser mãe é algo temporário que fundamentalmente acaba quando os filhos estão criados e educados. Assim é entre os mamíferos e, de alguma forma, isto devia ser incorporado entre os humanos, pois é a ordem natural das coisas.

A mulher também está chamada a ser discípula, a realizar-se como tal, a seguir o Mestre como o fizeram os outros apóstolos varões. Ou seja, realizar-se profissionalmente. Há um lugar para ela na sociedade. Historicamente, a humanidade tem andado às voltas porque rema com um só remo, é ave que voa com uma só asa. Queremos mais mulheres nos governos e em todas as células do tecido social para o mundo ficar mais equilibrado.

O trabalho da mulher é o doméstico
“Senhor, não te preocupa que a minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe, pois, que me venha ajudar.” O Senhor respondeu-lhe: «Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas, mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada.” Lucas 10, 28-42

Maria aos pés do Senhor, ouvindo-O, estava numa atitude de discípulo. Jesus sobrepõe o ser discípulo ao trabalho doméstico; mais uma vez aqui a realização pessoal profissional da mulher não deve ser superada pelo trabalho doméstico.

É claro que alguém tem de o fazer e esse alguém são todos os membros de uma família: pai mãe e filhos. Cada um deve fazer o que cada um pode fazer. O mesmo se aplica aos filhos: se já podem varrer, limpar a casa, os pratos e fazer a cama devem fazê-lo. Os pais não estão a beneficiar-se a si mesmos nem os aos filhos quando os substituem nestas tarefas.

Filho(a)
Teus filhos em torno à tua mesa serão como brotos de oliveira. Salmo 127, 3

A partir do momento em que as duas metades de célula humana se unem e formam uma célula humana, forma-se algo que ninguém pode separar. A célula, como base da vida neste planeta, é indissolúvel. O átomo que é a base da matéria, pode ser separado, como de facto aconteceu, originando a energia atómica; mas a célula é inseparável, inviolável, está feita à prova de bala: podemos matá-la, mas não a dividi-la.

O aborto é crime, é uma ignomínia da humanidade. A espécie humana, que se julga tão racional, é a única entre todos os animais que mata os próprios filhos. Todos nós que hoje vivemos já fomos uma única célula e tivemos a sorte de ninguém intervir no crescimento e progresso da nossa vida até ao nascimento. O mesmo, não acontece com tantos seres humanos neste planeta que são chamados à vida, mas a quem esta lhe é tirada sem que tenham a oportunidade de a viverem como tiveram, os que os matam.

Por outro lado, é simplesmente lógico que a indissolubilidade da célula que precisa de 18 anos de amparo e proteção para vir a ser um autêntico ser humano, requeira a indissolubilidade do vínculo que lhe deu origem. O modelo de família humana só existe na espécie humana; não existe família entre os répteis, pois estes não têm infância, já nascem adultos. À medida que as espécies evoluem, a presença da família vai crescendo. Entre os mamíferos, existe um tempo em que a cria convive com a mãe e entre os primatas um tempo em que a cria convive com os pais.

O ser humano é o ser mais vulnerável à nascença e o que requer mais tempo de proteção até atingir a idade adulta. É por isso que existe a família humana. Se o ser humano nascesse adulto como os répteis, a família humana não existiria, os humanos copulariam como os répteis, mas não passariam tanto tempo juntos. Ante o divórcio, esquece-se isto que é fundamental: o bem dos filhos, a sua educação e proteção. Ao contraio as crianças são muitas vezes usadas como armas de arremesso e chantagem entre os cônjuges desavindos.

Os pais divorciados acreditam que vão ver-se livres um do outro, mas isso nunca acontece. Vão ter de lidar um com o outro para o resto das suas vidas, enquanto existir a criança a quem eles transmitiram a vida; e o mais natural será que isso aconteça por toda a sua vida. Será um encontro num cruzamento ou rotunda enquanto a criança for passar o fim de semana ou as férias com o pai ou a mãe, será a presença numa ocasião importante para esta, como uma festa de anos - o que quer que seja, a separação nunca existe verdadeiramente, pois a mesma criança fala do pai à mãe e da mãe ao pai.

Antigamente havia orfanatos, nasciam muitas crianças sem pai. Atualmente estes locais chamam-se lares e os utentes desses lares são crianças que têm pais, mas que são negligentes para com eles. Não há nenhuma instituição que possa substituir a família: quem não é amado incondicionalmente nunca amará incondicionalmente e quem não ama incondicionalmente nunca será verdadeiramente feliz, pois nunca atingirá a idade adulta. 

Nestes lares e em centros educativos, profissionais e em terapias sofisticadas, o Estado gasta, quase sem sucesso, milhões de euros enquanto que estas crianças só precisam do amor incondicional de uma mãe e de um pai, por mais ignorantes que estes sejam em educação. O amor incondicional de dois pais teria certamente mais sucesso que todos os profissionais da educação com as suas sofisticadas terapias.

Transmitir vida, até os animais conseguem fazer. Por isso hoje cada vez mais se distingue entre progenitores e pais; nem sempre os progenitores são os pais, nem sempre os pais são os progenitores. Dar à luz sem educar é como dar uma máquina a uma pessoa sem a ensinar a usá-la, sem lhe dar o livro de instruções: muito provavelmente ela vai arruinar a máquina. É isto que acontece quando se traz uma criança ao mundo sem a educar depois.

Não é invulgar encontrar bons profissionais que para além disso são pais e pensam que um filho ou uma filha é algo como um gato ou um cão e que basta que não lhe falte água e comida:

Um casal jovem, muito bem-sucedido profissionalmente, buscava numa loja uma boneca adequada para a sua filha. Mas parecia que não conseguiam encontrá-la, apesar de ser aquela a melhor loja de bonecas da região, onde se podia encontrar as mais sofisticadas que dizem Mamã e Papá e até fazem pipi.

Depois de terem analisado inúmeros exemplares e como ainda estavam indecisos, a assistente veio ter com eles e perguntou-lhes que tipo de boneca queriam para filha. “Olhe, nós somos duas pessoas muito ocupadas e passamos muito tempo fora de casa; gostaríamos de comprar à nossa filha uma boneca que a entretivesse de tal forma que não sentisse a nossa falta”. A assistente olhou para eles com um ar de desdém e disse abertamente “Desculpem, mas aqui nesta loja não vendemos pais”.

Até a amizade é trinitária
O amigo do meu amigo é meu amigo tambémProverbio português
O inimigo do meu inimigo é meu amigoProverbio inglês

Tanto o provérbio Português um sentido positivo como o inglês num sentido mais negativo e até traiçoeiro, ambos os provérbios implicam que até mesmo a amizade é de alguma forma trinitária; ou seja, nunca é uma relação que envolve apenas duas pessoas, mesmo quando ambos se tenham por o melhor amigo.

A amizade tem uma tendência inata à expansão vemos isto na sociedade quando um amigo pede a outro um favor, emprego ou posição social para outro amigo ou familiar. Certos empregos e posições sociais são muitas vezes conseguidos não por via de habilitações ou qualificações académicas ou competência, mas por amizades.
Pe. Jorge Amaro, IMC








1 de março de 2019

A natureza de Deus: Pai - Filho - Espirito Santo

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Monoteísmo trinitário
Aquele que não ama não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor. 1 João 4,8

Se Deus é amor não pode existir em solidão, pois o amor implica relação, implica sair fora de si mesmo. Assim sendo, a divindade teria de ser constituída pelo menos por duas pessoas que se amam entre si. Porém, este tipo de amor não é perfeito; um matrimónio que não constitui família é um egoísmo a dois. O filho pode ter em sentido figurado ou físico, mas tem de haver um objetivo no matrimónio.

Cantai e dançai juntos, mas deixai que cada um de vós fique sozinho. Como as cordas de uma lira estão sozinhas embora vibrem ao som da mesma música. (…) E ficai juntos, mas não demasiado juntos: pois os pilares do templo estão afastados, e o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro. Khalil Gibran, O Profeta

O amor matrimonial não dever ser “eu dou-te, tu dás-me, toma lá dá cá”, mas sim os dois olhando na mesma direção. Como dizia Kalil Gibran, são como colunas de um templo que devem estar equidistantes entre si para sustentar o templo; estão juntas, mas não fundidas uma na outra, pois assim não sustentariam o templo. Se vivessem uma em função da outra, também não o sustentariam. Cada uma tem a sua função, sendo o objetivo comum sustentar o templo.

O movimento de vai e vem referente ao dinamismo do amor do esposo pela esposa e da esposa pelo esposo, não existe na natureza nem no universo. É um movimento artificial que, para ser possível, exige que duas rodas estejam unidas por um vetor: as rodas movem-se circularmente, mas o vetor que as une move-se em modo de vai e vem.

O movimento natural é sempre circular. Assim sendo, o amor matrimonial chega à sua perfeição quando supera o binómio e se transforma em triângulo. A família pai, mãe e filho(a) permite o movimento circular entre estas três pessoas distintas, mas um só amor. A família humana é uma metáfora da família divina e vice-versa. Deus é uma comunhão de três pessoas distintas unidas no amor pelo amor, por isso Deus é amor.

Concluindo, se Deus é amor e o amor implica uma relação cujo objetivo não é o olhar um para o outro, mas os dois na mesma direção, então, tanto o amor como Deus, não são “mono” nem “stereo”, mas sim tridimensionais.

O politeísmo refere-se à existência de uma pluralidade de deuses; o monoteísmo absoluto refere-se à existência de um único Deus (Judaísmo e Islão); o monoteísmo cristão ou trinitário refere-se à existência de uma só divindade em três pessoas distintas entre si: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

A Trindade implícita ou latente na Bíblia
A definição e formulação do dogma da Santíssima Trindade é o resultado de longos séculos de reflexão, meditação e oração de inúmeros cristãos. Foi definido em duas etapas, no primeiro Concílio de Niceia (325 d.C.) e no primeiro Concílio de Constantinopla (381 d.C.). Porém a Igreja viu já na bíblia, fonte primordial da revelação, uma Trindade latente ou implícita na qual se enraíza a reflexão teológica.

No Antigo Testamento
A Bíblia abre no primeiro capítulo e primeiro versículo dizendo que, no princípio, o Espírito de Deus pairava sobre as águas (Génesis 1, 1). Enigmaticamente, ao contrário da criação do resto das criaturas, na criação do Homem Deus apresenta-se como um criador plural ao dizer “Façamos o Homem à nossa imagem e semelhançaGénesis 1, 26.

Efetivamente, o Homem é tão uno e Trino como o é Deus. O mesmo acontece no episódio da Torre de Babel “Vamos, desçamos para lhes confundir a linguagem, de sorte que já não se compreendam um ao outro.” Génesis 11,7). Deus visita em pessoa a Abraão, apresentando-se em forma de três veneráveis senhores (Genesis, 18ss).

No Novo Testamento
Deus é proclamado como Pai em inúmeras passagens. Jesus revelou que Deus é Pai e revelou-se a si mesmo como seu Filho ao dizer “Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar" Mateus 11,27.

São João diz no prólogo do seu evangelho que “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. (...) E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade” João 1,1.14.

São Paulo também apresenta a Deus como, “o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias, Deus de toda a consolação” 2 Coríntios 1,3.

Antes da sua Páscoa, Jesus anuncia aos seus discípulos que o Espírito Santo em ação desde a criação (Genesis 1, 1-2) lhes vai ser enviado como o defensor da verdade e que virá para junto dos discípulos para os ensinar (João14,16) e conduzir à verdade plena (João 16, 13). Assim o Espírito Santo é revelado como uma outra pessoa divina em relação ao Pai e ao Filho.

São Mateus termina o seu evangelho apresentando Jesus que envia os seus discípulos por todo o mundo: “Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos”. Mateus 28, 18-20

A Trindade na tradição da Igreja
A Igreja exprime a sua fé trinitária ao professar um só Deus em três Pessoas: Pai e Filho e Espírito Santo. As três Pessoas divinas são um só Deus porque cada uma delas é idêntica à plenitude da única e indivisível natureza divina. Elas são realmente distintas entre si pelas relações que as põem em referência umas com as outras: o Pai gera o Filho, o Filho é gerado pelo Pai, o Espírito Santo procede do Pai e do Filho”. Catecismo da Igreja Católica, 48

Não professamos três deuses, mas um só Deus em três pessoas. Um só Deus por ser uma só natureza, uma só substância, uma só essência em três pessoas distintas. A natureza é o que se é, a pessoa é quem se é.

É certo que o todo que é a Trindade é composto por três partes que é cada uma das pessoas divinas; o todo não é igual à parte nem a parte é igual ao todo. Porém na Trindade o todo contém a parte e a parte contém o todo. O mesmo acontece no nosso corpo humano: cada uma das nossas células é só uma infinitésima parte do nosso organismo, constituído por milhões delas; porém e apesar de ser só uma infinitésima parte cada uma das nossas células, contém em si todo o nosso organismo por via do ADN que está presente em todas elas.

É o nosso código genético que une milhões de células diferentes entre si, umas de osso, outras de sangue, outras de fígado, etc. num só corpo. O mesmo acontece com a divina Trindade: cada uma das pessoas divinas é um ser único, inteiro, autónomo por um lado, por outro faz parte de um desígnio maior - a Trindade - porque têm o mesmo código genético, ou seja, a mesma natureza a mesma essência.

Por isso, as três pessoas divinas não têm, cada uma delas, uma parte da divindade, ou seja, não há uma divindade a dividir por três, pois cada pessoa divina é Deus por inteiro. Também não são três deuses distintos, pois a única distinção que existe dá-se no interior da Trindade. São distintas na relação entre si e na relação ou compromisso com a humanidade, ou seja, no papel que desempenham na economia da salvação. Constituem uma multiplicação e não uma soma: 3X1=3 ou 1X3=3. 

As três pessoas partilham a mesma essência, portanto não representam uma volta ao politeísmo ou, neste caso, ao triteísmo. As três pessoas são eternas, sem começo nem fim, sempre existiram. O Filho foi gerado, mas não criado, o Espírito procede do Pai e do Filho, pelo que, não é gerado nem criado. Se perguntarmos o que é Deus, a resposta é: Deus é uno e trino, essa é a sua natureza e essência, o seu Ser. Se perguntarmos quem é Deus, a resposta é: Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.

Pai Criador – Deus sobre nós
Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis…

O Senhor disse: «Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egito, e ouvi o seu clamor diante dos seus inspetores; conheço, na verdade, os seus sofrimentos. Desci a fim de o libertar da mão dos egípcios e de o fazer subir desta terra para uma terra boa e espaçosa, para uma terra que emana leite e mel. Êxodo 3, 7-8

Deus sobre nós é a representação da transcendência de Deus. Deus é criador, Senhor de tudo e de todos, da vida que é o dom mais precioso que deu à humanidade. Não nos criou e abandonou à nossa sorte. Desceu ao Egito por intermédio de Moisés; mas ao Egito mais global e generalizado, em que se tinha transformado a sua criação, desceu ele mesmo, na pessoa do seu Filho.

Mas esta é uma longa história que ocupa na bíblia todo o Antigo Testamento; uma história de amor de Deus pelo seu povo e da infidelidade deste para com o seu criador e tantas vezes salvador das vicissitudes da História.

Deus escolhe para si um povo com o objetivo de salvar todos os povos. Há quem tenha entendido isto desde sempre - a corrente universalista do judaísmo representada pelo profeta Isaías - e quem nunca o tenha entendido, a corrente nacionalista xenófoba, representada pelo profeta Elias que pensava que Deus os escolhera para um privilégio.

Deus nunca escolhe ninguém para um privilégio, mas para um serviço. O povo de Israel e a sua cultura seriam o berço onde muitos anos mais tarde nasceria, para toda a humanidade, o seu salvador. Como sonhou Isaías, Jerusalém acabaria mesmo por ser o palco de um banquete para todas as nações. (Isaías 25, 5-12)

1. Una ciudad para todos. LEVANTAREMOS.
Un gran techo común.
Una mesa redonda como el mundo. LEVANTAREMOS.
Un pan de multitud. Un lenguaje de corazón abierto.
Una esperanza: VEN, SEÑOR JESÚS.

NO RECHAZAREMOS LA PIEDRA ANGULAR.
SOBRE EL CIMIENTO DE TU CUERPO
LEVANTAREMOS LA CIUDAD. (bis).

2. Suben los pueblos del mundo.
Suben a la ciudad.
Los que hablaban en lenguas diferentes.
Pregonan la unidad. Nadie grita. ¿Quién eres y de dónde?
Todos se llaman HIJOS DE LA PAZ (Cântico espanhol)

Filho Salvador – Deus connosco
Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigénito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos; Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai…

Depois de ter deixado a família na Igreja para a Missa do Galo, um agricultor canadiano regressava a casa, fugindo da tempestade de neve que se avizinhava. De nada tinha valido a insistência da sua mulher para participar na missa. Para ele, a encarnação de Deus não fazia sentido. Enquanto dormitava ao calor da lareira, foi sobressaltado pelo embate de gansos na porta e nas janelas. Afastados pelo temporal da sua trajetória migratória para o Sul, estavam completamente desnorteados.

Movido de compaixão, abriu os portões do grande celeiro e começou a correr, a esbracejar, a assobiar, a gritar e a enxotá-los para que se abrigassem até a tormenta passar. No entanto, os gansos esvoaçavam em círculos, sem entenderem o que significava o celeiro aberto e os gestos dramáticos do desesperado agricultor (que nem com migalhas de pão espalhadas na direção do celeiro os tinha convencido). Derrotado no intento da salvação das pobres criaturas, suspirou: “Ah, se eu fosse ganso! Se eu falasse a linguagem deles!”. Ao ouvir o seu próprio lamento, recordou a pergunta que tinha feito à sua esposa: “Por que razão havia Deus de querer ser homem?”. E, sem querer, balbuciou a resposta: “Para o salvar!” ... E foi Natal.

Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas perdidas, cada um seguindo o seu caminho. Mas o Senhor carregou sobre ele todos os nossos crimes. Isaías 53, 6 Jesus o Filho de Deus veio mostrar-nos o caminho, a verdade e a vida, trilhando-o ele mesmo ao nosso lado, como fez com os discípulos de Emaús.

Como nos revela a carta aos Hebreus 1, 1-10, Deus falou ao longo da História de muitas maneiras através dos profetas. Mas deu-se conta de que a sua mensagem era sempre mudada, nunca chegava intacta ao seu destinatário. Por outro lado, como sugere Jesus na parábola dos vinhateiros homicidas, no capítulo 21 de Mateus, estes profetas eram todos liquidados.

Ele, que é de condição divina, (…) esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens (Filipenses 2, 6-7). Revelou-se em tudo igual a nós, exceto no pecado, para dizer na sua carne e pela sua carne que o pecado não faz parte da natureza humana, como não fez quando Deus criou o homem e o colocou no jardim do Éden.

Ao contrário do irmão mais velho na parábola do filho pródigo, Jesus, nosso irmão maior, veio devolver-nos a nossa antiga dignidade, fazendo com que Deus seu Pai e nosso Pai nos readmitisse como filhos, colocando-nos no dedo o anel de herdeiros, vestindo-nos a túnica e calçando-nos as sandálias de filhos. (Lucas 15, 11-32)

Espírito Santo – Deus em nós, defensor / consolador / inspirador
Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: Ele falou pelos profetas…

"Ninguém pode dizer “Jesus é Senhor” a não ser no Espírito Santo" (1Coríntios 12,3). O mesmo Espírito é quem nos faz gritar dentro dos nossos corações Abbá Pai (Gálatas 4, 6). Isto mostra a união intrínseca das três pessoas da Trindade que não atuam sozinhas, por elas mesmas, como franco atiradores, mas indissoluvelmente unidas.

Porém, na economia da salvação, que está relacionada com a sua relação histórica com a humanidade, o Espírito Santo é Deus dentro de nós, sendo a representação da imanência de Deus, do Deus que é intimior intimo meo, como dizia Sto. Agostinho. Na sua transcendência, Deus está a cima de tudo e de todos, não se confunde com nenhuma criatura: na sua imanência, Deus é o coração de cada coisa e de cada pessoa.

É quem guia e governa a Igreja, que já estava formada na última Ceia e foi confirmada pelas aparições do Senhor Ressuscitado, mas à qual faltava o ímpeto e a coragem para sair de si mesma. Tal como no princípio Deus formou o Homem do barro e lhe insuflou a vida pelas narinas, assim agora à Igreja formada por Cristo é-lhe insuflado pelas narinas o ímpeto do Espírito Santo no dia de Pentecostes. A partir desse momento, a Igreja começou a viver e a estender-se, levando a mensagem de Jesus a todos os povos.

O mesmo Espírito Santo, sendo Deus dentro de nós, guia, consola e inspira cada um dos cristãos - inspira o que rega a palavra de Deus para o ajudar a interpretar e descobrir a verdade e aplicá-la ao aqui e agora do nosso tempo histórico, e inspira o que ouve para encontrar na pregação o que precisa no momento presente da sua vida e depois ajuda-o a colocar isso em prática.

A interpelação entre o Homem e a Trindade na segunda parte da oração do Pai Nosso
A oração que Jesus nos ensinou é como que um evangelho em miniatura: nela se resume o mais importante da sua doutrina, o que verdadeiramente interessa e devemos praticar. A segunda parte desta oração, a única que Jesus ensinou aos seus discípulos, trata das nossas necessidades: descreve as três principais necessidades humanas e as três dimensões do tempo nas quais a vida do homem decorre.
  1. O pão nosso de cada dia nos dai hoje - Primeiro pedimos pão que é necessário para sustentar a nossa vida na Terra, trazendo assim à presença de Deus as nossas necessidades do tempo presente.
  2. Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido – Em segundo lugar, pedirmos perdão a Deus pelo mal que fizemos, trazendo desta forma à presença de Deus o nosso passado para ser redimido.
  3. E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal – Em terceiro lugar, pedimos força e ajuda na tentação, pelo que confiamos na providência divina e pomos o nosso futuro nas mãos de Deus.
Nestas três breves petições. aprendemos a colocar nas mãos de Deus o nosso passado, o nosso presente e o nosso futuro. Mas esta não é só a oração que traz toda a nossa vida, passado presente e futuro à presença de Deus, também é a oração que traz a totalidade de Deus às nossas vidas.
  1. Quando pedimos pão para sustentar a nossa vida terrena, estamos a dirigir a nossa oração a Deus Pai, o Criador e sustentador da vida.
  2. Quando pedimos perdão, as nossas atenções dirigem-se diretamente a Deus Filho, Jesus Cristo, o nosso Salvador e Redentor.
  3. Quando pedimos ajuda para futuras tentações, este pedido leva-nos a pensar imediatamente em Deus Espírito Santo, o consolador, o guia, o guardião, o que dá força e alento.
De uma forma admirável, a segunda parte do Pai Nosso apresenta a totalidade do Homem no seu passado, presente e futuro à totalidade de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. Jesus ensina-nos a trazer toda a nossa vida à presença de Deus e a trazer a totalidade de Deus à nossa vida.
Pe. Jorge Amaro, IMC










1 de fevereiro de 2019

A existência de Deus: Teísmo - Ateísmo - Agnosticismo

Sem comentários:
Do ponto de vista histórico, a tríade teísmo / ateísmo / agnosticismo está cronologicamente alinhada de forma clara. A maior parte dos seres humanos foram teístas até ao século XIX.

Aparte de algumas ocorrências antes, foi neste século que surgiu o ateísmo e a crença de que, tal como vimos na passagem do animismo ao politeísmo, a ciência iria dominar cada vez mais realidades até deixar Deus e a religião sem chão e entre a espada e a parede.

Ou porque isto não aconteceu, ou tarda em acontecer, ou ainda como acreditamos nunca acontecerá, nasceu uma terceira atitude ante a questão da existência de Deus: o agnosticismo.

Contrariamente à pretensão de alguns, de que a ciência o ateísmo e o agnosticismo se pressupõem de tal forma que podem entender-se como sinónimos, ou seja, que um cientista ou é ateu ou agnóstico ou não é um bom cientista, aqui fica uma lista de cientistas antigos e contemporâneos que eram crentes sem deixar de ser bons ou até os melhores no seu ramo de ciência:

  • Nicolaus Copernicus (1473- 1543), fundador da mundovisão moderna
  • Johannes Kepler 1571-1630, astrónomo
  • Isaac Newton (1643- 1727) fundador da física teórica clássica
  • Carl Linnaeus (1707- 1778) fundador da botânica sistemática
  • Alessandro Volta (1745- 1827), descobriu as noções básicas da eletricidade
  • Andre-Marie Ampere (1775- 1836), fundador da eletrodinâmica, descobriu a lei fundamental da corrente elétrica
  • Augustin-Louis Cauchy (1789- 1857) insigne matemático no campo do calculo e da álgebra.
  • Carl-Friedrich Gauss (1777- 1855), um dos maiores matemáticos alemães
  • Justus von Liebig (1803- 1873), fundador da química orgânica contribuiu muito para a agricultura e biologia química.
  • Julius von Mayer (1814- 1878), cientista, naturalista conhecido pela descoberta da primeira lei da termodinâmica (Lei da Conservação da Energia)
  • Charles Darwin (1809- 1882), Teoria da evolução das espécies
  • Gregor Mendel (1822-1884) monge agostinho, fundador da genética
  • Thomas Edison (1847- 1931), o inventor mais fecundo, 1200 patentes
  • Guglielmo Marconi (1874- 1937), inventor da telegrafia sem fios, Prémio Nobel 1909
  • Albert Einstein (1879- 1955), física contemporânea (teoria da relatividade e Prémio Nobel 1921)
  • Max Planck (1858- 1947), fundador da física quântica, Prémio Nobel 1918
  • Erwin Schrödinger ( (1887- 1961), criador da mecânica ondulatória, Prémio Nobel 1933
  • Georges Lemaître (1894- 1966) padre jesuíta, astrónomo e físico criador da teoria do Big Bang para explicar a origem do Universo
  • Wernher Von Braun (1912- 1977), construtor germano - americano dos foguetes espaciais

Antes do ateísmo e do agnosticismo, a maior parte da população mundial era teísta e, depois do ateísmo e agnosticismo, a maior parte da população mundial continua a ser teísta, pelo que trataremos o teísmo como sendo o que era antes e sempre permanece depois das tormentas do ateísmo e do agnosticismo.

Ateísmo
Neste capítulo vou referir-me aos pais do ateísmo moderno, aqueles que dedicaram grande parte da sua vida e obra a negar a existência de Deus e a denegrir o papel da religião na sociedade e o comportamento religioso do indivíduo.

Ludwig Feuerbach – A religião como projeção do Homem (1804-1872)
Homo homini Deus est - O cristianismo fixou para si mesmo a meta de satisfazer os desejos inatingíveis do homem, mas, por essa mesma razão, ignorou os seus desejos atingíveis. Prometendo ao homem a vida eterna, privou-o da vida temporal, ensinando-o a confiar na ajuda de Deus, retirou-lhe a confiança nos seus próprios poderes; ao dar-lhe a fé numa vida melhor no céu, destruiu-lhe a fé numa vida melhor na terra e o esforço para alcançar essa mesma vida. O cristianismo deu ao homem o que a sua imaginação deseja, mas, por essa mesma razão, não lhe deu o que ele realmente deseja. Preleções sobre a essência da religião

Para Feuerbach a teologia é pura antropologia, pois não foi Deus que criou o Homem à sua imagem e semelhança, mas ao contrário, foi o Homem que criou a Deus à sua imagem e semelhança. Tudo o que se diz de Deus pertence ao homem, as imagens de Deus e tudo o que dele sabemos é antropomórficas. O Homem projeta, fora de si mesmo, num ser abstrato a que chama Deus, todas as suas aspirações, desejos e ideais. “Deus nada mais é do que o espírito humano projetado para o infinito.”

“O meu primeiro pensamento foi Deus, o meu segundo pensamento foi a razão, o meu terceiro e último pensamento foi o homem”.  Este brilhante filósofo começou a sua carreira como estudante de teologia, abandonando-a mais tarde para se tornar discípulo de Hegel. Feuerbach foi o primeiro grande ateu dos tempos modernos. Uma autêntica labareda de fogo, é o que o seu nome significa; na verdade, julgo que todos os que vieram depois dele pouco ou nada disseram de verdadeiramente novo, apenas repetiram as suas ideias basilares por outras palavras.

Por esta razão, Feuerbach é o grande inspirador e é o precursor de Karl Marx, no sentido em que é o primeiro a proclamar e lutar pela emancipação do homem da tutela da religião que o enfraquece e priva do seu próprio poder. Para Feuerbach “A moralidade que não visa a felicidade é uma palavra desprovida de significado.” E avisa-nos de que “sempre que a moralidade se baseia na teologia, sempre que o correto se torna dependente da autoridade divina, as coisas mais imorais, injustas e infames podem ser justificadas e impostas.”

Por brilhante que possa parecer, a crítica que Feuerbach faz à fé e à religião, não passa de um sofisma. A projeção do Homem fora de si nada diz sobre a existência ou não existência de Deus: este pode existir com projeção ou sem ela.

A projeção humana, precisamente porque é humana, tem mais a ver com a natureza humana que com a natureza de Deus. Assim Sendo, a projeção humana pode explicar por que o pensamento de Deus sempre existiu na mente de todos os homens em todos os tempos; mas não tem nada a dizer sobre a hipotética existência de Deus. Ao contrario, a persistência do pensamento de Deus na nossa mente, em si mesmo, é mais uma prova da existência de Deus que uma prova da sua não existência.

Se uma pessoa tem sede ou desejo de beber água é porque deve haver água; é mais lógico pensar que a água cria o desejo que pensar que o desejo cria a água; até porque cronologicamente na história do Universo, quando ainda estava longe a aparição do Homem, já havia água; portanto a água preexiste ao desejo de a beber. Estou certo que se não existisse a água também não existiria a sede.

Voltando à sequencia dos pensamentos de Feuerbach de Deus ao Homem, Infelizmente, Feuerbach não parou no terceiro pensamento, Deus razão homem. Depois de ter rebaixado e degradado Deus à categoria de pura conjetura humana, não parou aí e continuou com o seu quarto pensamento que foi o sensível, com o quinto que foi a natureza e com o sexto que foi a matéria, chegando estupidamente a afirmar “o homem é o que come”.

Ou seja, quando se degrada Deus acaba por degradar-se em consequência a criatura por Ele criada à sua imagem e semelhança. De acordo com o livro de Gênesis, Deus tirou-nos de matéria (argila) e constituiu-nos como pessoas à sua própria imagem e semelhança. Se negamos a existência de Deus como pessoa, também negamos a nossa existência como pessoas pois a Ele a devemos. Se nós não somos uma pessoa, então voltamos ao que éramos antes de Deus nos, ter criado, ou seja, matéria. Em conclusão, o que Feuerbach faz com o ser humano é uma involução darwinista...

Karl Marx – A religião como consolo alienante (1818-1883)
Filho de um judeu convertido ao cristianismo protestante, chegou mesmo a casar-se pela Igreja. Partiu do princípio de que “até aqui, os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diversas maneiras; o que importa é modificá-lo.” Marx foi um revolucionário. Na sua obra emblemática “O Capital”, ele analisou os podres do capitalismo e encontrou na religião um empecilho para o progresso, ou seja, para a evolução do capitalismo em direção ao socialismo e comunismo.

Marx concorda plenamente com Feuerbach: Deus é uma projeção do homem e a religião é então “o suspiro da criança desalentada, o coração de um mundo sem coração, o espírito de uma época sem espírito. Ela é o ópio do povo.” Para além de ser uma projeção, a religião é uma droga, um comportamento alienante, que nos impede de sermos nós mesmos, de tomarmos as rédeas do nosso destino, ou o leme do nosso barco, em conclusão constitui um entrave ao progresso.

O ateísmo de Marx, mais que filosófico, é económico e social. Marx não tem interesse algum na essência da religião, seja ela judaica ou cristã e, de facto, desconhece Cristo e os princípios sociais do cristianismo. O que lhe interessa é o papel que esta desempenha na sociedade. - Portanto o ateísmo de Marx pode dever-se ao tipo de religião praticada naquele tempo, que em si mesma poderia ter pouco a ver com o cristianismo de Cristo. De facto, a sociedade comunista sem classes do futuro poderia muito bem ser a Terra prometida dos judeus, o Reino de Deus de Jesus de Nazaré e dos cristãos.

O que em Feuerbach era só uma ideia filosófica, em Marx é um manifesto, uma ideia operativa. Porém é preciso salvaguardar que Marx acreditava firmemente que tanto o capitalismo como a religião cairiam por si sós sem ser preciso fazer nada como um fruto que amadurece e depois apodrece e cai da árvore. Porém, os seguidores das suas ideias entenderam que era preciso dar-lhes um empurrão e foi precisamente isso que Lenine, Estaline e Mao Tsé-Tung fizeram com o ateísmo militante que tantos milhões de pessoas matou, durante a maior parte do século XX. O pobre Marx, ao dar-se conta ainda em vida que havia tantos marxismos, tantas versões das suas teorias, chegou mesmo a declarar-se não marxista.

Sigmund Freud – (1856- 1939) - A religião como neurose obsessiva
Tal como o pai de Marx, o pai de Freud também era um cristão convertido do judaísmo. A este respeito chegou a dizer que sempre se tinha considerado alemão, até ao dia em que os judeus começaram a ser perseguidos. Já refugiado em Londres, considerava-se judeu.

Freud vê a religião como uma repressão dos instintos básicos do homem, sobretudo do sexual. Isto acontece porque a religião perverte os instintos naturais do ser humano, declara-os maus, impuros feios, sujos e animalescos e, como tal, devem ser reprimidos. A religião é também um código moral que culpa os indivíduos de sentirem e expressarem os seus instintos. - Este tema vai ser retomado por Nietzsche na sua contraposição moral dos escravos, ou seja, entre a moral judaico-cristã e a moral dos Senhores, por outras palavras, a ética natural.

Segundo Freud, esta repressão conduz inexoravelmente a uma neurose obsessiva: o corpo pede algo, a mente não lho dá, esta acaba por entrar em curto circuito e os fusíveis fundem-se. Tal como para Marx o socialismo e o comunismo seriam a solução para a alienação da religião, para Freud a psicanálise vai resolver a questão - removendo os traumas do passado, a pessoa reconcilia-se com ela mesma e com a sua verdadeira natureza.

Tal como acontecia com Marx, também Freud pouco sabia de religião, olhando mais o papel desta numa sociedade repressora e puritana. A sua teoria é mais que tudo uma reação a isto, como a de Marx era uma reação ao capitalismo desumano da época. Até este ponto, o único que tratou o assunto religioso do ponto de vista teórico foi Feuerbach na sua obra “A essência da religião”.

Friedrich Nietzsche -
Nietzsche critica o cristianismo, não tanto do ponto de vista teórico, mas na sua praxis, sobretudo na sua moral. Como já dissemos, entende que a moral cristã, a moral dos escravos, como lhe chama, foi usada ao longo dos séculos como meio para dominar. Os valores cristãos opõem-se aos valores naturais e à própria natureza humana. Um exemplo disto é a sexualidade. Como Freud já havia feito, Nietzsche acusa o cristianismo de a tornar impura, suja e feia.

Do ponto de vista teórico, sobre a existência de Deus, Nietzsche segue fundamentalmente os passos dos seus antecessores ateus. Para ele, a fé em Deus provém de um sentimento de impotência que o homem sente em relação a muitas realidades que o rodeiam.

Feuerbach era teólogo, Marx e Freud são filhos de pais convertidos ao cristianismo; os pais de Marx e de Nietzsche são pastores protestantes. Parece que o ateísmo é filho do teísmo ou é um teísmo ao avesso, ou seja, assemelham-se à dialética entre a matéria e à antimatéria no universo. O ateu vive insatisfeito pois nunca descansa, sempre lhe fica uma dúvida e duvida dos seus próprios pensamentos e conclusões. Por isso, continua a buscar mais provas que o levem a convencer-se plenamente de que Deus não existe e nunca fica totalmente convencido.

O teísta também duvida, mas é uma dúvida metódica que desemboca num “cogito ergo sum”. O teísta optou por acreditar e agora vive instalado na fé que dá sentido ao universo, ao mundo e à sua própria vida, enquanto que o ateu se instala no nada, no vazio e,  como a natureza tem horror ao vazio, o vazio da existência dói e atormenta e acaba por absorver o indivíduo. Talvez por esta razão, Nietzsche terminou louco. Outros optam por encher esse vazio por outras realidades às que religiosamente se dedicam, a busca do poder, o prazer a beleza o dinheiro. Muitos ateus são verdadeiramente politeístas mais que ateus.

Agnosticismo
O conceito e o termo agnosticismo, tal como se entende nos dias de hoje, foi cunhado por Thomas Huxley (1869) que defendia que a existência de Deus, o divino ou sobrenatural, nem é conhecido nem é conhecível. Huxley entende que pretender provar a existência de Deus é ofensivo para a razão mas, pior para ele, é tentar desmenti-la, pois o ateísmo tem a pretensão de ser racional e científico. Fundamentalmente, o agnosticismo defende que a mente humana é incapaz de fornecer razões racionais suficientes para justificar a crença de que Deus existe ou a crença de que Deus não existe.

O catecismo da igreja católica chama ao agnosticismo um indiferentismo, segundo o qual nada se pode saber de Deus…

Indiferentismo – É uma postura cómoda, é a negação do compromisso. Aplicada às áreas do saber, significa preguiça, negar o progresso, não investigar, não investir. Aplicada às relações pessoais e à relação com Deus, é uma delas, significa não se comprometer com nada nem com ninguém. E quem vive sem se comprometer com alguém ou com uma causa humana arrisca-se a chegar ao fim da vida sem nunca ter vivido.

Nada se pode saber de Deus – É esta uma postura radical e, portanto, falsa. Não se pode saber tudo, tal como não se pode saber tudo de nenhuma pessoa, nem de nós mesmos nem de nenhum ramo da ciência. Mistério não é só Deus, mas tudo o que nos rodeia, os outros e nós mesmos - tudo é mistério.

No caso de Deus, se acreditamos Nele como Criador do Universo, devemos compreender e aceitar que a nossa inteligência é um cisco em comparação com a sua, pelo que a infinitésima parte não pode logicamente conter o todo, já que conhecer é, de alguma forma, meter esse todo na minha mente. Por outro lado, sabemos que conhecer significa controlar, ter poder sobre a matéria conhecida. Ora este tipo de conhecimento não é possível com Deus: se pudéssemos conhecer a Deus totalmente, seriamos nós deuses. Portanto a criatura não pode conhecer totalmente o criador, nem dominar o criador.

Se é possível saber o suficiente sobre Deus para estabelecer com Ele uma relação de amor e, quando damos o passo da fé, vamos obtendo cada vez mais provas da sua existência e presença nas nossas vidas, em nós e fora de nós. A porta para Deus é a fé como doação de si, como amor; sem ela, não há acesso a Deus. A chave dessa porta é a opção; a fé como chave ou meio para chegar a Deus, é em si mesma um dom de Deus para todos os homens; os crentes usam esse dom e abrem a porta para Deus; os agnósticos atiram com a chave.

Ante uma existência de Deus que não é possível provar nem desmentir inequivocamente, cabe-nos decidir, ou seja, optar. Tanto o teísmo como o ateísmo são opções, o agnosticismo opta por não optar. Já vários agnósticos me disseram “Não consigo acreditar”. Em psicoterapia, quando alguém diz “Eu não consigo”, o terapeuta traduz por “Eu não quero”. Por exemplo, suponhamos que o paciente diz, “Eu não consigo deixar de fumar”; o terapeuta pergunta, - “Deixar de fumar é impossível?” ao que o paciente responde “Não, já outros deixaram”, e o terapeuta conclui “Tu não queres deixar de fumar, porque se quisesses verdadeiramente, deixavas, pois, como diz o povo, “Querer é poder”.

O mesmo pode ser dito do agnóstico ou ateu que diz “Não consigo acreditar”. Acreditar não é impossível: muitos acreditam, se não acreditas então é porque não queres acreditar ou porque essa atitude é mais conveniente para ti. Tenho encontrado muitos agnósticos que o são porque está na moda e porque estão cheios de preconceitos em relação à fé, à religião, à Igreja e aos que são religiosos.

Teísmo
Neste capítulo, apresentaremos argumentos filosóficos, tal como fizemos no anterior; os argumentos cosmológicos serão apresentados quando falarmos da tríade do Universo: tempo, matéria/energia e espaço.

As cinco vias de S. Tomás de Aquino (1225 - 1274)
Na primeira parte da “Suma Teológica”, nos capítulos segundo e terceiro, apresenta S. Tomás cinco provas a que ele chama “vias que demonstram que Deus existe”:

1ª Via do Movimento – Sabemos pelos sentidos que tudo o que neste mundo se move não contém em si a causa desse movimento, mas é movido por outro, e este outro ainda por outro… uma série infinita de causas é impossível, pelo que tem que haver um primeiro motor imóvel, ou seja, não movido por outro; esse motor primeiro é Deus.

2ª Via da Eficiência – No mundo não encontramos nenhuma coisa que seja causa de si mesma; para assim ser, cada coisa teria de ser anterior a si mesma, o que é impossível. Tudo no mundo se ordena numa sequência de causa-efeito; porém, esta sequência não pode ser levada ao infinito, já que seria a negação do princípio de causa-efeito. Alguém teve de dar o pontapé de saída, ou seja, uma causa primeira sem causa que é Deus.

3ª Via do Contingente e do Necessário - Observamos que existem seres contingentes que existem, mas poderiam não existir, por não ter em si mesmos, na sua essência, a razão da sua existência. Da possibilidade de não existir, fica a necessidade de outro ser que lhe cause a existência. Se, remontarmos ao infinito, chegaremos ao ser necessário, que tem em si a razão absoluta da sua existência. Contendo na sua própria essência a sua existência, seria absurdo não existir. Dessa forma, é necessário afirmar a existência de um ser necessário por si mesmo, e que é a causa e a necessidade de todos os outros: Deus.

4ª Via dos Graus de Perfeição - O nosso entendimento percebe que existe um grau de perfeição em todas as coisas. Esses graus estão presentes desde os objetos mais comuns até aos sentimentos mais obscuros ou nobres. Julgamos sobre tais graus de tais coisas, em comparação ou tendo como referência alguma coisa de grau máximo. Se, para cada coisa existente há um grau máximo, deve existir, portanto, um Ser que contém todos os atributos e coisas possíveis nos seus graus de perfeição ao máximo e que seria gerador de todas as coisas em grau de perfeição menor. Santo Tomás de Aquino diz que “se encontra nas coisas algo mais ou menos bom, mais ou menos verdadeiro, mais ou menos nobre etc. Ora, mais e menos dizem-se de coisas diversas, conforme elas se aproximam diferentemente daquilo que é, em si, o máximo”. Esse Ser é Deus.

5ª Via do Governo das Coisas/da Finalidade do Ser - Se considerarmos a ordem existente no universo, desde os componentes microscópicos existentes até os gigantescos astros do firmamento, a harmonia, a atividade e relação entre eles, facilmente chegamos à seguinte conclusão: houve uma inteligência que criou e ordenou tudo isso; caso contrário, seria absurdo dizer que isso é fruto do acaso. Esse ser inteligente é Deus.

Se Deus não existe, a vida humana carece de sentido
“(…) se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé (…) aqueles que morreram em Cristo, perderam-se. E se nós temos esperança em Cristo apenas para esta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens”. 1 Coríntios 15, 17-19

O enigma da existência humana está intimamente ligado à existência de Deus. Se Deus não existe, o homem, de alguma forma, também não existe como pessoa e a sua existência carece de sentido. Foram os mesmos filósofos que se sucederam à ideia da morte de Deus - Jean-Paul Sartre, Albert Camus e Søren Kierkegaard - que declararam que sem a existência de um ser superior, a vida é um absurdo. Para a vida ter sentido, é preciso haver critérios pelos quais viver, que não sejam de criação humana — princípios dos quais nós não somos a fonte e que de alguma forma têm autoridade sobre nós.

O inferno são os outros, diz Sartre – Como os soldados do sumo sacerdote, Deus foi feito prisioneiro por Feuerbach, julgado por Marx e Freud que, ironicamente, tal como Anás e Caifás também eram judeus, e condenado à morte e executado pelo Pilatos de Nietzsche. Ironia do destino, com a morte de Deus morreu também o homem, pois a vida deixou de ter sentido. Daí, os filósofos depois de Nietzsche serem os filósofos do absurdo e da náusea (Sartre) que causa, não tanto o cadáver de Deus, pois não tem corpo, mas sim o do Homem.

Mas depois de esclarecido que a existência do Homem está unida à existência de Deus, e embora Deus preexista e exista independentemente do homem, o Homem é a criatura para quem Deus existe. Só uma criatura consciente de si mesma pode chegar à consciência da existência de Deus. Tal com dissemos ao falar do animismo, foi a constatação da morte do nosso corpo físico que fez nascer o nosso eu espiritual; foi a constatação da morte, como um deixar de existir, que configurou o nosso existir como um ser. O existir é temporal, o ser é eterno - o desejo de eternidade, contraposto à realidade da nossa temporalidade, deu-nos a crença de que existe Deus, criador de tudo e de todos e da nossa sede de o conhecer.

Nova ironia do destino: agora o outro, o meu semelhante, como afirma Sartre, com quem vivia em harmonia em sociedade, tornou-se num inferno para mim, e só consigo sair deste inferno eliminando-o.

No máximo do absurdo, estes pensadores chegam a negar a natureza humana que é trinitária. Um ser humano não existe sozinho, mas coexiste com outros dois - o pai e a mãe: ou existem três ou não existe nenhum. Como podem os outros ser um inferno? É o amor ao próximo como a mim mesmo, que é o garante da igualdade, princípio fundamental da sociedade e do ser humano, como ser social e membro dela. Sem o amor ao próximo como a mim mesmo a vida em sociedade seria impossível e se esta é impossível também a vida individual cessa de existir. Se toda a gente pensasse como Sartre, este mundo seria verdadeiramente o inferno.

Por outro lado, é o, amar a Deus sobre todas as coisas e pessoas que me garante a liberdade, princípio fundamental em que se baseia a dignidade da pessoa humana. Sem liberdade, não há vida humana individual, não há pessoa humana. Só estamos livres das coisas e das pessoas quando damos o nosso coração a Deus, quando aceitamos um único senhorio: Ele. Quando não prestamos vassalagem a um único Deus que nos faz livres, acabamos por prestá-la a outras realidades humanas e mundanas: o poder, o prazer, a riqueza, a popularidade, a beleza física, fazendo-nos escravos dessas realidades e, portanto, adoradores de ídolos.

Se Deus não existe, tudo é permitido (Dostoievsky)
Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigiam as sentinelas. Salmo 127,1

Os não crentes vivem descansados à custa dos crentes. É de facto Deus que guarda a cidade e não as sentinelas. Se Deus não existisse, não haveria sentinelas suficientes para guardar a riqueza dos ricos. Os não crentes têm a sorte de a maior parte da população mundial ser crente. Deus é o garante último do bem; sem Deus, o bem e o mal carecem de fundamentação.

Geralmente, os ateus e agnósticos costumam ser pessoas instruídas e até bem-educadas e pensam que, por eles o serem, os outros também são. Se um dia fosse possível demonstrar científica ou inequivocamente que Deus não existe, o caos, a anarquia, um autêntico pandemónio sem precedentes estabelecer-se-ia no mundo. Se toda a nossa esperança fosse dedicada a esta vida, este mundo não poderia certamente continuar como é.

Num mundo no qual 1% da humanidade tem hoje 54% da riqueza mundial e os restantes 99% detêm apenas 46% da riqueza, nenhuma polícia ou poderio militar conseguiria conter a raiva a nível mundial. Portanto, é mesmo Deus quem guarda a cidade pois, se Ele não a guardasse, em vão vigiariam as sentinelas.

Alguém disse que se Deus não existisse, teria de ser inventado. Se o justo e o injusto têm o mesmo fim, se duas coisas diferentes chegam à mesma conclusão, essas duas coisas são iguais entre si; se o bem e o mal, a justiça e a injustiça têm o mesmo destino, não há diferença entre uma e a outra.

É a vida eterna que dá sentido a esta vida temporal; pode parecer simplório, mas sem Céu para aqueles que optaram por Deus e viveram no amor, e sem Inferno para os que não optaram por Deus e viveram no ódio e no egoísmo, esta vida não teria sentido. É o Céu que representa os valores humanos e o inferno que representa os valores opostos.

Se Deus não existe, o injusto tem a última palavra. Se o que comete crimes e escapa impunemente à justiça dos homens, não só ficaria em vantagem sobre os outros como perante a falta de uma hipotética justiça divina, esta impunidade levá-lo-ia a ele e a outros a cometerem mais crimes.

Se Deus não existe, o homem não é superior ao resto dos seres vivos
Ó Senhor, nosso Deus, como é admirável o teu nome em toda a terra! Quando contemplo os céus, obra das tuas mãos, a Lua e as estrelas que Tu criaste: que é o homem para te lembrares dele, o filho do homem para com ele te preocupares? Quase fizeste dele um ser divino; de glória e de honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre as obras das tuas mãos, tudo submeteste a seus pés: rebanhos e gado, sem exceção, e até mesmo os animais bravios; as aves do céu e os peixes do mar (…) Salmo 8, 2, 4-10)

Como dizia Karl Marx, o ser humano é o momento em que a Natureza ganha consciência de si mesma. De todos os seres vivos, somos os únicos com capacidade para pensar e com algum domínio sobre o nosso destino e a nossa vida. Não faz sentido que o nosso destino seja o mesmo do piolho e da pulga: o nada. Se isto fosse assim, eu e muitos outros iguais a mim preferiríamos não ter nascido, a partilhar com o piolho, a barata e a pulga o mesmo destino: o nada.

Aqui se verifica o absurdo do ateísmo: não faz sentido que um Universo ordenado inteligentemente e tendo progredido até chegar à vida humana tivesse o mesmo destino que o resto dos seres vivos. Para que chegaríamos até aqui? Para termos maior consciência da nossa miséria e sofrermos mais que todos os seres vivos?

Precisamente no momento em que temos consciência de nós mesmos, da nossa existência e do poder relativo que temos sobre ela, também nos damos conta de que um dia morreremos, ou seja, de que um dia deixaremos de existir. Ao menos os animais, que também morrem, são poupados a este sofrimento. Não pensam, não sabem que existem e não sabem que hão de morrer. Por que motivo temos consciência? Para experimentarmos de forma masoquista o sofrimento, a dor, a angústia, a ansiedade perante a morte, a nossa condição miserável em relação aos outros seres vivos?

Os animais não têm nenhum poder sobre as suas próprias vidas: a Natureza colocou-lhes no sistema um “chip” o instinto que governa automaticamente as suas vidas. Os seres vivos viajam em piloto automático não podem enganar-se, nunca estão certos nem errados, ou melhor, estão sempre certos e sempre realizam a vocação para a qual foram criados. Ao contrário deles, os seres humanos têm algum poder sobre as suas vidas, podem transformá-las num céu ou num inferno, ao equivocar-se. Não seria melhor vivermos nós também em piloto automático, visto que todos temos o mesmo destino?

Para os animais, a Natureza é uma mãe pródiga, tudo lhes dá e até os veste. Ao sair do ventre das suas mães já têm tudo o que precisam para viver. O ser humano nasce como o mais vulnerável e desamparado de todos os seres vivos e leva muito tempo até chegar à idade adulta: anos a fio de educação, escola e universidade e depois, para sobreviver, tem de trabalhar grande parte do seu dia, para ganhar o pão com o suor do seu rosto, enquanto os nossos congéneres animais comem, dormem e se divertem. Para quê tudo isto? Não seria melhor a vida do animal, se tudo acaba em águas de bacalhau?

Se Deus não existe, a natureza do homem é enganosa
Fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti.
Santo Agostinho

O ateísmo são conjeturas intelectuais, o agnosticismo é preguiça intelectual crónica, de uma pequena minoria de gente que vive instalada e aburguesada no consumismo de uma sociedade assente na abundância. A maioria da população mundial é crente e tem sido crente ao longo da sua História e em todas as culturas. O ateísmo ou agnosticismo, já que na prática são um só - ainda não constituiu nenhuma cultura ou civilização e, onde tentou fazê-lo, fracassou. Porquê?

A antropologia, ciência que estuda a natureza humana ao longo da História e em todas as culturas e civilizações, diz que o ser humano é naturalmente religioso. A conceção de Deus pode variar de tempo para tempo, de cultura para cultura.

Na evolução do Universo e das espécies neste planeta, o Homem é o momento em que a matéria se sublima em espírito. Assim sendo, é lógico pensar que este poder mental que temos agora, já existia antes. Por outro lado, só o ser humano chegou à autoconsciência: os outros animais que são tão ou mais antigos do que ele, nunca lá chegaram.

A evolução das espécies resultou num ser humano pensante que se opõe ou sobrepõe ao resto da Criação, tal como o polegar se opõe e sobrepõe ao resto dos dedos na mão. Se isto assim acontece é porque temos um destino diferente do resto dos seres vivos. O dedo grande do pé não se opõe aos outros e a sua função em pouco difere da dos outros dedos. Porém, na nossa mão, a função do polegar é uma das características que define e distingue o ser humano do resto dos animais. O ser humano é o polegar da Criação de Deus.

Só o Homem é um ser aberto ao infinito, anseia eternidade, tem sede de Deus. Se não houvesse água para saciar a sede, a nossa sede seria enganosa e absurda. Se há sede, tem de haver água. Todo o ser humano possui em si mesmo implicitamente o desejo de Deus, a sede de Deus, logo Deus existe para saciar essa sede.

O Universo é constituído por tempo, espaço e matéria. O Criador do Universo tem necessariamente que ser, em relação ao tempo, atemporal ou eterno; em relação ao espaço é, ao mesmo tempo transcendente e imanente, ou seja, está a cima e para além de tudo e de todos e ao mesmo tempo é o coração de cada coisa que existe; em relação à matéria, Deus é um ser espiritual e pessoal.

Conclusão
No meu entender, perante as razões para acreditar e a razões para não acreditar, a decisão de ser teísta, ateu ou agnóstico vai depender de fatores pessoais: educação na infância, estudos académicos, experiências pessoais marcantes ao longo da vida, etc… No meu apostolado, já muitas vezes dialeticamente em diálogo com ateus e agnósticos ofereci argumentos que os silenciaram e, mesmo assim, continuam a não acreditar, o que prova que esta é uma decisão bem mais profunda e para além da razão e que tem a ver com a vida que cada um viveu.

Partindo do pressuposto de que a existência de Deus como criador e pai da humanidade, que vela por cada um de nós, seus filhos, aqui e agora e depois da nossa morte, não pode ser provada nem desmentida científica ou filosoficamente, sempre haverá razões para acreditar e razões para não acreditar.

Por muito que os cientistas se empenhem em perscrutar os mistérios do Universo, com o intuito de alcançarem um maior conhecimento de como as coisas se processam e reduzir assim o campo da religião, nunca encontraram uma prova inequívoca que obrigue todos os seres humanos a acreditar ou não acreditar. A ciência estuda o “como” não o “porquê”. A ciência não tem método nem forma de saber o “porquê” nem o “para que” existe o mundo. As respostas a estas perguntas pertenceram sempre ao campo da fé e da religião.

Perante este estado da questão, as três posturas diante da existência de Deus equivalem a três decisões ou opções vitais. O ateu encontra as suas razões para não acreditar e fundamenta a sua opção nessas razões que satisfazem o seu intelecto.

O teísta encontra as suas razões para acreditar e fundamenta nelas a sua fé. A fé como a define o Concílio Vaticano I é um “obséquio razoável”, ou seja, não é irracional, nem racional, mas plausível e humanamente credível. Porém, como as razões que fazem a fé credível não são nem nunca podem ser irrefutáveis, há sempre na fé uma parte de obséquio, algo que o crente dá, algo no qual deposita a sua confiança e pelo qual dá um salto no escuro.

O ateu estuda a questão e encontra razões para não acreditar e decide não acreditar; o teísta estuda a questão encontra razões para acreditar e decide ou opta por acreditar. Quanto aos agnósticos, há vários tipos com pontos comuns e pontos divergentes. Os menos sérios não estudam a questão nem se colocam o problema, instalados que estão no mundo material. São materialistas no sentido em que só acreditam no que veem, e é acessível aos cinco sentidos.

Os mais sérios estudam a questão e acham que há 50% de razões para acreditar e 50% de razões para não acreditar. Por isso, não se decidem, não são teístas nem ateus, não são carne nem peixe. Em teoria, mantêm a questão em aberto, como se estivessem num cruzamento a vida inteira, sem decidir se viram à direta ou à esquerda, se vão em frente ou voltam para trás.

Na prática, a vida decide por eles e, de facto, vivem como se Deus não existisse tal como os ateus. Os agnósticos só o são se alguém lhes pergunta se acreditam ou não em Deus. De resto, na prática, são tão ateus como os ateus. Enfim acreditando na sua existência como acreditando na sua não existência, ou mesmo sendo indiferente, a posição e a opção que fazes em relação a Deus define a tua vida.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de janeiro de 2019

A noção de Deus: Animismo - Politeísmo - Monoteísmo

Sem comentários:
Quando todas as necessidades - como sustento, segurança, amor, liberdade - estão satisfeitas, surge no ser humano a necessidade de sentido, de significado. Se a morte não existisse talvez nunca nos perguntássemos qual o sentido da vida; simplesmente viveríamos em simbiose com a natureza; talvez o pensamento discursivo nem sequer existisse: os animais vivem sem saber que morrem e, talvez por isso, não pensam.

A morte – autoconsciência ou pensamento discursivo – e a existência de Deus parecem estar intimamente ligadas. Com a morte, nasceu a consciência de existir e a necessidade ou desejo de nunca deixar de existir. A morte provocou o pensamento e as três perguntas basilares, de onde venho, para onde vou, e que sentido tem a vida. Assim nasce a necessidade de existir sempre, assim nasce o desejo de Deus. Um desejo não existiria se fosse impossível de satisfazer.

Ao longo dos tempos, desde que o ser humano se fez consciente de si mesmo e do seu meio ambiente, a conceção de Deus foi evoluindo. Nesta evolução podemos distinguir três etapas: animismo, politeísmo e monoteísmo. Estas etapas, porém, não se sucedem no sentido em que uma ocupa o lugar da outra, eliminando completamente a anterior; ou seja, o animismo não desapareceu com a introdução do politeísmo, nem este se extinguiu por completo com o surgimento do monoteísmo. Nenhuma das etapas anteriores desapareceu, mas coexiste minoritariamente com a que lhe sucedeu.

Também podemos olhar para a evolução do conceito de Deus a partir de uma outra perspetiva da dialética entre o espiritual ou sobrenatural e o material ou físico. Desde que a morte escavou no nosso corpo físico (entendido como matéria viva) um vazio, o espírito nasceu para ocupar esse vazio. Desde esse momento, não só o ser humano como, tudo se transformou em ser espiritual. O espiritual dominava o material, pois só o espiritual pensa e sabe que existe. O material é bruto, tosco e inanimado.

Nos primórdios da civilização humana, o coeficiente espiritual dominava o material. Com a civilização, o espiritual foi diminuindo gradualmente, mesmo antes dos ateísmos filosóficos do século XIX e XX, (Feuerbach, Marx Freud Nietzsche) com o renascimento, mas sobretudo depois destes séculos, chegando a tocar no fundo, no mínimo dos mínimos.

Com o surgimento do sincretismo religioso da Nova Era, parece haver um incremento do coeficiente espiritual, pois as pessoas, mesmo sendo adversas a qualquer forma institucionalizada de religião, declaram-se espirituais. Esta espiritualidade vaga e difusa, não institucionalizada tem muito de comum com a primeira etapa do sentimento religioso, o animismo. Estaremos nós a voltar ao princípio, como no mito do eterno retorno?

Animismo
Achou-o numa terra deserta, e num ermo solitário cheio de uivos; cercou-o, protegeu-o e velou por ele, como à menina dos seus olhos. Deuteronómio 32:10

Quando a raça humana tomou consciência de si mesma também tomou consciência da sua miséria e da desvantagem que tinha em relação aos outros seres vivos, aos quais a Natureza dotou de tudo. Completamente desamparado, à mercê das forças da natureza e dos outros animais, o ser humano encontrou-se como Moisés no deserto, como refere o texto acima.

Nesta situação os nossos antepassados viviam na crença de que tudo estava animado; tanto os objetos materiais, animais, plantas rios rochas, etc., como os fenómenos naturais, o trovão o raio, o vento, a chuva, etc. e até mesmo o próprio universo possuía uma alma, ou seja, qualidades, significados ou poderes espirituais ou sobrenaturais.

Um pouco como a magia, o animismo baseia-se na crença de que o mundo, tanto na sua totalidade como nas suas partes, tem uma alma ou espírito; até mesmo o ar que respiramos, está povoado por espíritos que são forças impessoais e que podem ser invocados ou convocados e manipulados por xamãs, médiuns, magos, feiticeiros, bruxas, usando fórmulas, rituais e palavras mágicas.

O animismo acredita na existência de um Deus supremo, mas ao qual não se pode aceder diretamente, mas sim por intermédio destes espíritos; como estes podem ser contrários aos desígnios dos humanos, devem ser permanentemente apaziguados. O animista vive continuamente no medo de desgostar algum espírito, pelo que usa amuletos ou talismãs para se proteger.

Ao contrário das religiões organizadas e institucionalizadas, o animismo sobrevive na mente do povo por meio da tradição oral, sem qualquer ajuda institucional. Em relação às religiões organizadas é, portanto, uma religião desorganizada, ainda hoje praticada por tribos indígenas onde estas ainda existem: na América tanto do Norte como do Sul, na Ásia, em África, na Austrália e nas ilhas do Pacífico.

Para além destas, no mundo moderno, todas as formas de superstição e adivinhação como a astrologia, a cartomância, a bruxaria, a feitiçaria, são resquícios de animismo que têm uma enorme aceitação popular. Objetos que dão sorte e outros que dão azar, rituais para conjurar a sorte e rituais para evitar o azar, continuam a fazer parte do nosso dia a dia. Entrar com o pé direito, a crença no poder dos cornitos, das ferraduras, das figas…

A religião New Age que pretende ser a síntese de todas as religiões, tem muito de neopaganismo ou animismo. Se quisermos, até a espiritualidade franciscana pode ser vista sob esta perspetiva, ao chamar irmão ao lobo e ao sol, e irmã a água e à lua. São Francisco estava a devolver a estas realidades a alma que antes possuíam.

O monoteísmo, mais que o politeísmo, lutou contra toda a forma de animismo. A Igreja Católica, como tristemente sabemos, chegou ao ponto de criar um organismo como a Inquisição para purificar a crença de toda e qualquer manifestação animista.

Depois do banho de materialismo que tem vindo a aumentar desde o Renascentismo, hoje a maioria das pessoas dá-se conta de que um objeto material não pode ter poder espiritual. Só um ser espiritual tem poder espiritual. Porém ainda há quem seja supersticioso, recordando-nos sempre do animismo dos nossos antepassados.

Se compararmos a evolução da noção de Deus com o amadurecimento do homem, o animismo corresponde à infância - as crianças têm de facto a tendência para ver tudo o que as rodeia com alma, falam com os seus bonecos e brinquedos, vivem num mundo animado de fadas, bruxas e papões e acreditam no Pai Natal e na magia; Walt Disney, nos seus filmes para crianças, soube explorar este lado da fantasia infantil.

Politeísmo
Eis o que diz o Senhor, rei de Israel, o seu redentor, o Senhor do uni­verso: «Eu sou o primeiro e o último. Não há outro Deus além de mim. Isaías 44, 6

Como dissemos, à medida que o ser humano vai conhecendo e dominando o ambiente que o rodeia, este vai-se materializando. Todas as realidades que o ser humano conhece, controla e domina perdem a sua alma, o seu poder, de alguma forma; este passa para o espírito inventivo do ser humano. Desta forma, vai aumentando a esfera do material e diminuindo a esfera do espiritual. O que o ser humano domina deixa de ter poder sobre ele, deixa de ter poder espiritual para ser um bem material controlável. Com o conhecimento das coisas, o ser humano rouba-lhes a alma e, à medida que o mundo se vai materializando, o ser humano vai-se espiritualizando.

Há realidades que o ser humano não domina com o conhecimento. Estas, porém, são cada vez menos e aquelas ante as quais o ser humano se vê completamente impotente e desamparado, à mercê delas, dá-lhe o nome de deuses. Desta forma, ao animismo sucede o politeísmo, a crença de que as principais realidades, poderes e forças da natureza são dominadas por um deus. Com efeito existe um deus para cada realidade, sendo o senhor dessa mesma realidade.

Os deuses proliferaram de tal modo que, quanto mais importantes eram para a sobrevivência do homem, maior importância, de número de fiéis tinham. Os deuses da fertilidade por exemplo, da guerra, do amor, etc., viram formar-se à volta do seu culto as grandes religiões. O hinduísmo é a primeira grande religião e continua a ser ainda praticada por mais de um bilião de pessoas de pessoas. Os principais deuses das mitologias grega e romana são os seguintes:

Zeus/Júpiter - O filho mais novo de Cronos e Réia (ver Início titânico) é o líder dos deuses que vivem no monte Olimpo. Ele impõe a justiça e a ordem, lançando relâmpagos construídos pelos cíclopes. Zeus teve diversas esposas e casos amorosos com deusas, ninfas e humanas.

Hera/Juno - Terceira mulher de Zeus e rainha do Olimpo, Hera é a deusa do matrimónio e do parto. É vingativa com as amantes do marido e com os filhos de Zeus que elas geram. Para os gregos, Hera e Zeus simbolizam a união homem-mulher.

Hades/Plutão - Mesmo sendo irmão de Zeus e Poseidon, não vive no monte Olimpo. Hades, como deus dos mortos, domina seu próprio território: o mundo dos mortos. Apesar da sua função, não é como o diabo, um deus associado ao mal.

Poseidon/Neptuno - O irmão mais velho de Zeus, é o deus do mar; com um movimento do seu tridente, causa tempestades e terramotos.

Atena/Minerva - É a deusa da sabedoria e filha de Zeus com a primeira mulher, Métis. O seu símbolo é a mais sábia das aves, a coruja. Habilidosa e especialista nas artes e na guerra, Atena carrega uma lança e um escudo chamado Égide.

Hermes/Mercúrio - Filho de Zeus com a deusa Maia, o mensageiro dos deuses é o protetor de viajantes e mercadores. Representado como um homem de sandálias com asas, Hermes tinha um lado obscuro: às vezes trazia mentiras e falsas histórias. Já naquele tempo existiam as “fake news” de Trump…

Apolo/Apolo - O deus da luz (representada pelo Sol), das artes, da medicina e da música, é filho de Zeus com uma titã, Leto. Na juventude, era vingativo, mas depois tornou-se um deus mais calmo, usando o seu talento para curar, para a música e previsões do futuro.

Artemis/Diana - Irmã gêmea de Apolo, é a deusa da caça, representada por uma mulher com um arco – contraditoriamente, também é a protetora dos animais… Artemis é uma deusa casta (virgem), que fica furiosa quando se sente ameaçada.

Hefesto/Vulcano - Filho de Zeus e Hera, Hefesto nasceu tão fraco e feio que foi atirado ao mar pela mãe. Resgatado por ninfas, transformou-se num famoso artesão. Impressionados com o seu talento, os deuses levaram Hefesto para o Olimpo e nomearam-no deus do fogo e da forja.

Afrodite/Vênus - O nome da deusa do amor significa “nascida da espuma”, porque diziam que ela havia surgido do mar. Afrodite é a mais bela das deusas. Apesar de ser esposa de Hefesto, teve vários casos amorosos – com deuses como Ares e Hermes e também com mortais.

Ares/Marte - O terrível deus da guerra é outro filho de Zeus e Hera. No campo de batalha pode matar um mortal apenas com o seu grito de guerra! Pai de vários heróis – humanos que são protegidos ou filhos de deuses - Ares foi também um dos amantes de Afrodite.

A forma como um determinado Senhor governa e tutela a realidade que lhe foi confiada, explica-se pelo mito. O mito é um conto ou lenda sagrada que é transmitido por tradição oral de geração em geração; quando se perde a sua autoria humana, passa a ser atribuído a Deus. O conto em si busca explicar a verdade de cada coisa e o seu funcionamento numa mentalidade pré-científica. Os mitos serviam para o ser humano conhecer o seu meio ambiente e ter uma explicação plausível de como as coisas são e se processam. Não são históricos esses contos, mas são verdadeiros, no sentido em que transmitem a inteligibilidade do homem primitivo acerca de cada realidade.

Tomemos como o exemplo o mito do deus do Tempo chamado Cronos, termo de ondem derivam as palavras cronómetro, cronologia e crónica. Cronos, como muito bem pinta Goya num dos seus quadros, era um deus que dava à luz filhos e, depois de os dar à luz, comia-os. É verdadeiramente fantasmagórico, mas, explica bem o que é o tempo - cada dia em que nos levantamos e vemos a luz do sol estamos a dar à luz um dia mais e, ao anoitecer, antes de voltar a dormir, consumimos esse mesmo dia. Cada dia da nossa vida é um dia a mais pela manhã e um dia menos ao anoitecer.

O mundo greco-romano apresenta o mundo celestial em paralelo com o mundo terrestre - o que acontece no Céu também acontece na Terra e vice-versa. Os vícios dos deuses são iguais aos vícios dos humanos, pelo que não há progresso, pois os deuses não são modelos que a humanidade possa seguir. Como diria Feuerbach, não foi Deus que criou o Homem à sua imagem e semelhança, mas ao contrário, foi o Homem que criou Deus à sua imagem e semelhança.

Monoteísmo
Escuta, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor, amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder. E estas palavras que hoje te ordeno estarão no teu coração; e as intimarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te, e levantando-te. Também as atarás por sinal na tua mão, e te serão por testeiras entre os teus olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas. Deuteronómio 6, 4-9

Senhor, tu és o nosso Pai. Nós somos o barro; tu és o oleiro. Todos nós somos obra das tuas mãos. Isaías 64:8

A pré-história do monoteísmo acontece quando o ser humano agrupa todos estes deuses e lhes dá um líder - Zeus na mitologia Grega e Júpiter na mitologia romana. Daqui ao monoteísmo é um passo. O primeiro ser humano a proclamar que só há um deus foi o faraó do Egito chamado Akhenaten, também conhecido por Amenhotep IV, que reinou no Egito no século XIV antes de Cristo, muito antes da cultura grega e romana.

Quando Amenhotep IV subiu ao trono, muitos eram os deuses adorados no Egito, sendo Amun o rei dos deuses. Inicialmente, permitiu o culto dos deuses tradicionais do Egito, mas logo tomou medidas para estabelecer o deus sol, Aton, como o deus Supremo do Egito. No ano nove do seu reinado, Akhenaton declarou que Aton não era meramente o deus Supremo, mas o único deus. Este foi um passo radical e a primeira instância do monoteísmo em toda a história.

À sua morte, o povo do Egito mergulhou outra vez no politeísmo. Mas a raiz, a ideia ou intuição estava lançada. Akhenaton deu-se conta de que um país onde os seus cidadãos veneram vários deuses é um país dividido social e moralmente e, por isso, mais difícil de governar. O monoteísmo tinha, portanto, para o faraó, o objetivo de unir o país e os seus habitantes.

A ideia não progrediu entre os egípcios daquele tempo, mas foi acolhida anos mais tarde por um povo, na altura escravo, na terra do Egito - o povo judeu. Acima dissemos que no politeísmo os deuses eram semelhantes aos homens, tinham as mesmas virtudes, e os mesmos, defeitos, as divisões e conflitos que se veem entre eles, também se veem entre os humanos, pelo que não há neles nenhuma normatividade ou modelo a seguir pelos humanos.

A descoberta do povo hebreu, neste sentido, é a de um Deus pessoal que concentra em si tudo o que são aspirações humanas, o bom e o perfeito. Como os judeus eram nómadas e os nómadas não podem ter deuses locais, já que se deslocam de um lado para o outro e seria muito - incómodo - carregar os seus ídolos, pensaram então numa realidade concreta que estivesse em todos os lugares - olharam para cima e encontraram-na no Céu.

Os povos sedentários têm tendência a ser politeístas, os povos nómadas, ao contrário, são monoteístas. Os Turkana, um povo nómada do norte do Quénia, têm a mesma palavra para designar Céu e Deus. Os mongóis, os turcos e os tártaros, adoravam um deus comum chamado Tengri, o deus do céu azul.

Daqui a intuir que Deus é um ser espiritual, foi um passo muito curto dado pelos Judeus: para eles, Deus era espiritual e estava em toda a parte, dentro da nossa mente e sobretudo no nosso coração, em todo tempo e em todo lugar. É um ser pessoal pois é um Deus de pessoas, de Abraão, Isac e Jacob. Intuíram também que é um Deus criador de tudo e de todos.


Quando Egerton Young primeiro pregou o Evangelho aos peles vermelhas de Saskatchewan a ideia da paternidade de Deus fascinou de imediato estas gentes que até então tinham visto Deus apenas no trovão, no relâmpago e no estrondo de tempestade.

Ao ouvir o missionário invocar a Deus como pai, um velho chefe exclamou: "Ao falares do Grande Espírito como acabas de fazer, será que te ouvi dizer, 'Pai Nosso'?" "Sim," disse Egerton Young. "Isso é muito novo e doce para mim," continuou o chefe. "Nós, índios, nunca vimos o Grande Espírito como Pai. Ouvíamo-lo no trovão ou víamo-lo no raio, na tempestade e nos nevões, e ficávamos aterrorizados com medo.

A noção de que o Grande Espírito é nosso Pai, é nova, mas sublime para nós. O velho chefe pausou, parecendo meditar… foi então, que de repente, num vislumbre da glória, a sua face se iluminou como num relâmpago e clamou. " Oh Missionário, disseste que o Grande Espírito é teu Pai?" "Sim", disse Egerton. "E," continuou o chefe, " também afirmas que Ele é Pai dos índios?" "Evidentemente", disse o missionário. "Então", exclamou o ancião, como se tivesse feito a maior descoberta, "tu e eu somos irmãos!"
Barclay commentary of the New Testament

O progresso do monoteísmo em relação ao politeísmo é a união entre os humanos sob um mesmo Deus ao qual podem chamar Pai. A revolução francesa, por muito laica que pareça, não seria possível num país de cosmovisão politeísta como é por exemplo a Índia, onde a existência de vários deuses justifica a existência de castas e os homens não são iguais. A igualdade e a dignidade humanas não coexistem com o politeísmo, são conquista do monoteísmo.
Pe. Jorge Amaro, IMC