1 de novembro de 2015

A obediência é devida somente a Deus

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Importa mais obedecer a Deus do que aos homens. Actos 5, 29

Ao longo desta reflexão tive sempre o cuidado de me referir aos votos de pobreza, castidade e obediência, não só como coisa de monges, frades, padres e freiras, mas como valores humanos válidos para todos os que confrontam as suas vidas com o evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

De uma forma simplista, poderíamos então dizer que o voto de pobreza define e pauta a nossa relação com as coisas; o voto de castidade a nossa relação com os outros, e o voto de obediência a nossa relação com Deus. É certo que os três têm implicações com as três realidades mas, também é verdade que, para cada um deles, uma delas é predominante.

No que se refere à obediência, a título de exemplo, os apóstolos recusaram obedecer às autoridades mais altas do povo de Israel, o Sumo-sacerdote e o Sinédrio constituído por sacerdotes, escribas, fariseus e anciãos do povo, num total de 71 membros. Justificaram esta desobediência civil ao entender que deviam obedecer a Deus e não aos homens.

O nosso lugar no mundo
Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo. Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã já terá as suas preocupações (Mateus 6, 33-34).

É a obediência que nos faz despertar de altos sonhos de grandeza individual com a convicção de que, como cidadãos deste mundo, não estamos aqui para nós mesmos e que a nossa vida não é acerca de nós. A Obediência reconhece e valoriza, ao mesmo tempo, o direito e o dever de pertencer, participar e ter um lugar na história da humanidade.

É certo que cada um de nós é um ser autónomo, independente, livre, e no entanto a nossa individualidade não se explica por si mesma; eu não existiria sem a existência prévia e a coexistência do meu pai e da minha mãe. Somos ao mesmo tempo livres e interdependentes porque somos parte de uma família, de uma comunidade, de um país, da humanidade.

A um estudante foi-lhe dada a oportunidade de observar bactérias ao microscópio. Pôde de facto ver como uma geração destes seres vivos microscópicos nascia, crescia, se reproduzia e morria, deixando o seu lugar à geração seguinte. Viu, como nunca tinha visto antes, a vida transmitindo-se de geração em geração. Entendendo a lição subjacente a esta observação de que o valor da sua vida dependia do forma como ocupava o lugar que ocupava no amplio contexto do bem comum, afirmou, “comprometo-me durante a minha vida a não ser um elo fraco”.

Esta história sugere que a humanidade também é uma sucessão de gerações ligadas entre si como numa corrida de estafetas. Depois de encontrar o nosso lugar no mundo, para que a nossa vida seja produtiva e não só reprodutiva, deve tornar-se numa contribuição para o progresso da humanidade; devemos comprometer-nos a deixar cá mais do que o que cá encontramos. Neste contexto, a Obediência é, portanto, a minha participação, o meu grão de areia na construção de um mundo melhor, o Reino de Deus.

Ninguém se auto-realiza fora da comunidade ou contra a comunidade, pelo que não há auto-realização que não seja um contributo para a comunidade. Só nos sentimos bem, connosco próprios, quando os outros se sentem bem connosco. É valorizando os outros que nos valorizamos a nós mesmos, é reconhecendo os direitos dos outros que reconhecemos os nossos. Perifraseando Neil Armstrong, cada um dos nossos pequenos passos ou sucessos são um salto para a humanidade.

Para que assim seja, como sugere Jesus no texto acima citado, temos de procurar primeiro o Reino de Deus e a sua Justiça; ou seja, em atitude de obediência, rejeitar a tentação de atender à satisfação das nossas necessidades, pois não é na sua satisfação que encontramos a felicidade e a auto-realização; aliás o texto até sugere que não nos devemos preocupar com esta satisfação, pois no processo de buscar o Reino de Deus ou seja, de realização da tarefa para a qual Deus nos chamou, encontramos a satisfação das nossas necessidades.

Como cristãos, todos nós formamos o corpo místico de Cristo, a Igreja; como tal, estamos chamados a actuar no aqui e agora da história da humanidade, as obras de salvação que ele começou há 2000 anos atrás. Cristo não podia viver duas vezes num corpo físico, por isso, e porque a sua salvação era para toda a humanidade e não só para os seus contemporâneos, os cristãos, de cada tempo e lugar, devem ser as pernas, os braços e a voz de Cristo. Nesta perspectiva, a obediência de cada cristão assemelha-se à submissão de todos, e de cada membro individual como sucede num corpo físico, para a harmonia e o bem comum de todo o corpo.

A sede do poder
Pilatos disse-lhe, então: «Não me dizes nada? Não sabes que tenho o poder de te libertar e o poder de te crucificar?» Respondeu-lhe Jesus: «Não terias nenhum poder sobre mim, se não te fosse dado do Alto. Por isso, quem me entregou a ti tem maior pecado.». João 19, 10-11

Ao contrário de todos os povos, o povo de Israel nunca quis ter um rei. O único Rei era Deus, que em cada tempo suscitava um líder para governar e guiar o povo segundo os seus desígnios. Todos os que ao longo da história da humanidade tiveram poder davam-se conta que, de alguma forma, o seu poder vinha de Deus ou o tinham em representação de Deus, o único verdadeiramente Todo-poderoso. A associação e identificação de Deus com o poder, levou alguns imperadores de Roma autoproclamarem-se deuses.

Francisco Franco, caudilho de España por la gracia de Dios – Assim estavam cunhadas as pesetas durante o fascismo em Espanha. Reconhecendo Franco que não tinha legitimidade para ocupar o lugar que ocupava, pois nem era um presidente de república eleito, nem era filho de monarca, recorreu a este subterfugio que a seu modo confirma o facto de que verdadeiramente o poder vem de Deus, que o delega temporariamente a este ou aquele líder.

Isto mesmo quis dizer o Sto. Tomás Moro quando um dia, em oração, foi várias vezes interrompido por um mensageiro do Rei Henrique VIII que o queria ver de imediato. Com a calma que lhe era característica, o santo disse ao mensageiro, ide dizer a sua majestade que de momento me encontro ocupado com alguém superior a ele, o rei do Universo.

Dura lex sed lex – A lei é dura mas é a lei; o capricho, a arbitrariedade de um ditador ou de alguém que abusa do poder, que lhe foi conferido, e governa por decreto lei é bem mais dura. A lei ao ser, em princípio e por princípio igual para todos, faz a todos iguais perante ela. A supremacia da lei, ou a supremacia da Moral ou Ética, são imagem da supremacia de Deus, que como é Pai de todos nos faz a todos iguais perante Ele. É esta a base da dignidade da pessoa humana.

Voz do povo voz de Deus - Em democracia o poder reside no povo e sempre no povo. Este, periodicamente delega-o em pessoas que o representam no governo da nação. O mesmo sucede ao interno de uma Ordem Religiosa; o poder reside nos confrades que, também periodicamente o delegam, por eleições, na pessoa do superior ou Abade. No caso da vida religiosa o Abade representa ao mesmo tempo a vontade de Deus, e o compromisso que cada religioso assumiu com Deus, a comunidade e a Igreja em geral, quando fez os votos. Como o voto de obediência é feito a Deus, a Ele é também devida a obediência com a mediação ou por intermédio do Superior.

O voto de obediência
Quem recebe os meus mandamentos e os observa esse é que me tem amor. João 14, 21

Desde a desobediência, de Adão e Eva, pela qual entrou o mal no mundo, a história de Israel pode ser lida como uma história onde se mistura a desobediência com a obediência. Para Jesus só pela obediência, à palavra ao coloca-la em pratica, é que se pode construir alguma coisa, de resto palavras inconsequentes, que não operam nada, leva-as o vento. (Mateus 7, 24-27)

Jesus apelou a todos os que o ouviram a aceitar e obedecer os seus ensinamentos, a incorpora-los na sua vida quotidiana, a fazer deles atitudes e comportamentos do dia-a-dia. No entanto, Jesus também chamou a 12 para deixar as suas vidas anteriores; empregos e famílias para se colocarem à Sua total disposição; a estes, disse-lhes detalhadamente como comportar-se, o que fazer, onde ir, como ir e o que dizer.

A Obediência é devida somente a Deus e o voto religioso de obediência não pode ser uma excepção. Não existe porque pertencemos a uma instituição que precisa de uma autoridade; mas porque precisamos de mediações entre nós e Deus. O voto, baseia-se então na fé de que a vontade de Deus vem através de um governo.

Por isso, o primeiro objectivo da obediência, o que mais importa, não é a estruturação da Comunidade mas a auto-realização de cada um dos seus membros; assim, obediência tem menos a ver com a submissão ou a renúncia à sua vontade e mais a ver com a afirmação da vontade de Deus, apesar dos desejos e forças contrárias que operam dentro de nós e também dentro dos superiores.

Não é a nossa vontade que antagoniza a Deus, quando decidimos livremente dedicar-nos ao Reino dos céus; muito pelo contrário, é o mal que reside dentro de nós, que em todo momento antagoniza a nossa opção fundamental. Em última análise, e tal como Jesus a coloca, a obediência é uma consequência do amor, Eu amo o Pai e actuo como o Pai me mandou. (João 14, 31)

Coordenador de carismas
Não vos deixeis tratar por 'mestres', pois um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos. E, na terra, a ninguém chameis 'Pai', porque um só é o vosso 'Pai': aquele que está no Céu. Nem permitais que vos tratem por 'doutores', porque um só é o vosso 'Doutor': Cristo. O maior de entre vós será o vosso servo. Quem se exaltar será humilhado e quem se humilhar será exaltado. (Mateus 23, 8, 12)

Abade, primus inter pares, prior, provincial, superior, responsável, são alguns os títulos que ao longo da história se deram a essa pessoa que, eleita por todos, representa aquilo que prometemos a Deus, sacramento da autoridade divina a quem em última análise devemos obediência. Todos estes títulos de alguma forma vão em contra to texto acima citado pois colocam esta pessoa num nível superior aos outros.

No meu entender, o melhor título para este cargo, é o de coordenador de carismas, porque diferentes são os carismas de cada irmão ou irmã e para que todos esses carismas se harmonizem, com vistas a formação de um só corpo e ao bem comum, é necessário que exista um coordenador.

Como coordenador de carismas, a função do "superior" tem mais que ver com a comunidade como um todo que com cada um dos seus membros. Cada religioso, cada pessoa rege-se pela sua consciência, e esta, além de Deus, não deve satisfações a ninguém. Como seres autónomos livres e independentes, não precisamos que ninguém nos dite o que devemos ou não fazer.

Como o próprio conceito de coordenador de carismas indica, cada comunidade precisa de uma pessoa que tal como o mestre de uma orquestra, harmonize as diferentes individualidades para que vivam ao uníssono. Numa orquestra cada músico toca um instrumento diferente, uma música única e diferente das outras; cabe ao mestre, segundo uma partitura geral à qual ele mesmo obedece, fundir numa só melodia os contributos dos diferentes músicos.

Assim deve ser numa comunidade, cada um deve ser ante tudo autêntico, fiel a si mesmo e ao seu projecto ou Missão, tendo em conta que este não faz sentido se não se enquadra no contexto do bem comum. Cabe ao coordenador velar por este bem comum.

Em caso de conflito
Rebelar-se contra um tirano é obedecer a Deus, Benjamin Franklin

O Poder nem sempre corrompe, mas pode corromper também aquele que na comunidade tem a faculdade de coordenar os carismas de todos para o bem comum. Tanto o coordenador, como o membro da comunidade, devem estar permanentemente à escuta de Deus e em diálogo entre si, para que tanto a coordenação como a obediência sejam segundo a vontade de Deus.

Sempre se deve obedecer, quando o que nos é pedido vai de acordo ao nosso projecto e ao que prometemos a Deus. No entanto, se um membro de uma comunidade tem a certeza de que o seu coordenador demanda obediência por motivos que não se coadunam com a vontade de Deus, em consciência o membro da comunidade pode e deve desobedecer, pois nessa desobediência está obedecendo a Deus.

À falta desta certeza, em caso de dúvida é preferível obedecer; vai requerer certamente um acto de fé no coordenador mas a história da salvação, tal como nos é descrita na bíblia desde Abraão, está cheia de exemplos onde a questão da obediência se transforma, muitas vezes, numa questão de fé… ou acreditas, arriscas, confias e te lanças no vazio e no escuro ou não acreditas te retrais e ficas paralisado.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de outubro de 2015

Ser obediente é ser fiel

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Ser obediente é ser fiel aos compromissos assumidos
Depois de recuperar a liberdade relativamente às ataduras do nosso passado, e desta feita estar capacitados para poder comprometer ou investir o nosso tempo e as nossas energias numa opção fundamental, a obediência é agora uma questão de fidelidade aos compromissos assumidos.

Obediência à verdade
Já que purificastes as vossas almas pela obediência à verdade que leva a um sincero amor fraterno, amai-vos intensamente uns aos outros do fundo do coração (1 Pedro 1, 22).

Jesus não disse que era um dos caminhos, uma das verdades e uma das formas de viver a vida; só há um caminho, uma verdade e uma vida que é Jesus, assim como só há uma natureza humana, que permanece invariável ao longo dos séculos e dos milénios; por exemplo o que era amor há dois mil anos é amor hoje e será daqui a 5 mil anos se ainda existir a raça humana.

A Natureza humana não é uma moda susceptível de mudar com o tempo. Só assim faz sentido que o Céu tenha falado em Cristo uma vez por todas; só assim faz sentido que chamemos ao evangelho palavra de Vida Eterna, pois é a Palavra de Deus encarnada num tempo, há dois mil anos, mas é válida até ao fim dos tempos, para todo o tempo e para todo o lugar, pois a diversidade de culturas ou civilizações também não altera a natureza humana.

… Quem não junta comigo, dispersa. Lucas, 11, 23 - Como Jesus é a única forma de viver a vida, de acordo com a natureza humana por Deus criada, de alguma forma a liberdade é a obrigação de fazer o bem, de escolher este caminho e somos livres enquanto nele permanecermos, perdemos a liberdade quando dele saímos. Por obediência entendemos então a plena submissão à verdade pois é ela, e só ela, que nos faz e nos mantém livres. Não existe vida humana autêntica fora dos parâmetros da natureza humana que Deus criou o Evangelho estabelece.

Como Palavra de vida eterna, o evangelho delineia, ao mesmo tempo, a nossa natureza humana e ensina-nos como viver de acordo com ela. A obediência a esta palavra é imprescindível para que a nossa vida seja significativa tanto para nós como para os outros e o mundo em geral. É evidente que somos livres pelo que podemos rejeitar a única forma de vida; de certa maneira somos livres até usar a liberdade, pois no momento em que a usamos já não a temos e sofremos as consequências da nossa desobediência a qual traz consigo um abuso da natureza humana, tal como fizeram os nossos antepassados Adão e Eva.

Tomemos um exemplo da nossa natureza fisiológica. Em particular, beber vinho o qual não é intrinsecamente mau, como muitos fundamentalistas cristãos afirmam, indo ao ponto de reescrever o evangelho, criando um evangelho "seco", pois era sumo de uva e não vinho o que os apóstolos bebiam. Até que ponto uma ideologia, ou um problema social obriga a reinterpretar de uma forma diferente o evangelho.

Está demonstrado que beber com moderação, especialmente vinho tinto, longe de ser prejudicial à nossa saúde é benéfico. Como podemos definir ou quantificar a moderação? Moderação é quantificada pela quantidade de álcool que o nosso fígado pode processar com segurança.

Uma vez definida esta quantidade, os nossos hábitos de consumo têm que ser ajustados a este valor; beber para lá desta quantidade é desafiar e desobedecer a nossa natureza fisiológica, arruinando a nossa saúde.

Volto a citar Erich Fromm no seu livro, "Ter e ser”: “a satisfação ilimitada dos nossos desejos não produz bem-estar; não é o caminho para a felicidade e nem mesmo um meio de obter o máximo prazer." Daí, afirmar o prazer para além da realidade é o mesmo que negá-lo, um "contraditio em terminis".

Jesus de Nazaré modelo de obediência
Jesus veio ao mundo pela obediência de Maria, enquanto crescia em Nazaré era obediente aos seus pais (Lucas 2, 51). Na vida adulta, em todo o momento, faz a vontade do Pai e não a sua; a vontade do pai tinha-se tornado a sua comida (João 4, 34) e tanto foi esta comunhão, entre o pai e o filho, que "O filho não faz nada na sua própria, mas apenas o que ele vê o pai fazer" (João 5,19).

A carta aos Hebreus (5, 8) sugere que a obediência de Jesus não era inata, mas o resultado de um processo de aprendizagem no qual o sofrimento desempenhou um papel importante, sendo a morte o ponto culminante (Filipenses 2:8). Na vida de Jesus de Nazaré, o processo de aprendizagem da obediência corre em paralelo com dois outros processos de aprendizagem: a consciência da sua identidade, como Filho de Deus, e a da sua missão, como o Redentor da humanidade.

"O pai ama o filho e colocou todas as coisas nas suas mãos" (João 3, 35). Longe de se sentir forçado, obedecer ao Seu Pai era para Jesus algo conatural com sua natureza e a sua identidade. Em essência era algo que ele tinha escolhido, a sua opção fundamental motivada pelo amor que Ele tem pelo Seu Pai, porque Ele e o Pai são um só (João 10,30).

Obediência é fidelidade
Era uma vez um homem que gostava tanto de possuir ouro que se tinha tornado uma obsessão devoradora. O ouro ocupava a sua mente e o seu coração de tal forma que tudo o que não fosse ouro não existia; quando ia às compras só tinha olhos para as montras das ourivesarias, não via mais nada, nem ninguém; não via as pessoas, nem o azul do céu, nem o ruído da cidade, nem o perfume das flores.

Um dia, não resistiu mais, irrompeu numa ourivesaria e começou a encher os bolsos de anéis, pulseiras e fios de ouro, dispunha-se a fugir quando foi agarrado. Estupefactos os polícias perguntaram-lhe: “como pensavas que ias poder escapar com a ourivesaria cheia de gente?” Ao que ele respondeu: “que gente? Eu não vi ninguém só vi o ouro”.

Como devemos obediência à nossa natureza fisiológica, devemos obediência também à nossa natureza sobrenatural, que é nossa vocação ou nossa opção fundamental, como fez Jesus. Todo o nosso tempo e energias devem ser dedicados à vocação que escolhemos, com a mesma determinação do amante de ouro da história.

Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não é apto para o Reino de Deus (Lucas 9, 62). Obediência é sermos fiéis aos compromissos assumidos, ao que Deus nos chamou a fazer, àquilo a que decidimos dedicar as nossas vidas. O amor leva ao compromisso matrimonial, mas depois, é este compromisso que guarda e nutre o amor.

Guarda as regras, que as regras te guardarão a ti
Na vida, obedecemos muitas mais vezes do que gostaríamos de admitir, obedecemos ao nosso corpo, quando este está com fome e pede comida, quando tem sede e pede água; obedecemos a estas e muitas outras directivas referentes a necessidades fundamentais e fazemo-lo sem levantar questões, porque sabemos que é para o nosso próprio bem.

Alem das necessidades fisiológicas, temos também necessidades sociais; como seres sociais que somos, nascemos e crescemos em interação com os outros, com quem formamos grupos; a existência e a permanência destes grupos exigem que haja regras, que definem a identidade e os objectivos do mesmo. Estas regras são obedecidas por todos os membros, não só porque foram decididas por eles, mas porque o grupo satisfaz as necessidades sociais de cada um dos membros, buscando ao mesmo tempo o bem comum.

Para qualquer lado que nos viremos há regras para serem observadas. Na vida, somos livres de escolher o jogo que queremos jogar; uma vez escolhido temos de obedecer às suas regras, guardando estas regras elas guardam-nos a nós dando-nos sentido de pertença e segurança.

A alternativa seria não escolher, mantendo todas as opções abertas, acampar num cruzamento, não investindo nem comprometendo o nosso tempo e energias num projecto como, na parábola dos talentos, fez o servo néscio que escondeu o talento recebido. É certo que seriamos livres mas um dia, perto do fim das nossas vidas olhando para trás, ficaríamos com a impressão de nunca ter vivido pois não teríamos escrito nenhuma história e teríamos gasto o tempo, e as energias, em futilidades e em mantermo-nos vivos.

Mais que sobreviver, a vida humana é implicar, comprometer o nosso tempo e energia num projecto de utilidade social. O que é bom para a comunidade é bom para nós. Quando não somos úteis aos outros somos inúteis até para nós mesmos; a nossa vida só será significativa para nós se for significativa para os outros.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de outubro de 2015

A Rotunda do Relógio

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Como sugere o artigo anterior, sobre a obediência, quando o nosso comportamento deixa de ser reactivo, ou seja uma resposta incontrolável a um estímulo accionado fora de nós, para ser proactivo, ou seja planeado e decidido livremente pela nossa razão, quando nos possuímos e conscientemente estamos ao comando do nosso comportamento, então somos livres, podemos fazer o que queiramos, ou melhor dito, o que Deus quer de e para nós.

Chegados a este momento, sentimos como se tivéssemos a vida nas nossas mãos; sentimo-nos cheios de tempo e energia para dedicar a algo. Quando falamos da castidade, chegamos à conclusão que a vida era de facto composta por tempo + energia + opção fundamental. Também os animais e as plantas, em geral todos os seres vivos, são constituídos por tempo e energia regulados pela natureza; sós os humanos são conscientes de si mesmos, e conscientes de um tempo e uma energia que cabe a eles e não à natureza regular
, usar, dar sentido e ocupação.

Trabalhai não tanto pelo pão que perece mas pelo que permanece até à vida eterna (Jo 6,27)
 Trabalhai não tanto pelo pão que perece… mas também – Depois de multiplicar os pães as multidões, pensando ter encontrado a galinha dos ovos de ouro, foram à procura de mais pão, tal como a Samaritana vinha todos os dias ao poço à procura de mais água. Jesus aconselhou-os que para esse pão, que nos mantem vivos, eles teriam que trabalhar. “Deus alimenta as aves do Céu mas não lhes vai deitar a comida ao ninho”, elas têm que sair e colectar essa comida que Deus providencia para elas na natureza. Quem não quer trabalhar que não coma, diz São Paulo, o pão que sustenta a nossa vida física deve sair do nosso suor e esforço.

Como a vida dos outros seres vivos, a nossa vida não pode reduzir-se ao círculo vicioso de trabalhar para comer e comer para trabalhar, ou pão e circo como diziam os romanos, pão e diversão. Estar vivos e viver não são a mesma coisa; não vivemos para estar vivos mas sim estamos vivos para viver. Sobre este pano de fundo como é triste, e sem sentido, a vida daqueles que gastam o seu tempo e as suas energias buscando meios de vida, ou seja, gastam a vida a preservar a vida, a manter-se vivos como se dessa forma a pudessem manter para sempre. 'Insensato! Nesta mesma noite, vai ser reclamada a tua vida; e o que acumulaste para quem será?' Lc 12, 20

Daí a advertência de Jesus de trabalhar não tanto pelo pão, que perece, mas guardar algum tempo e energias para trabalhar para o pão que permanece para a vida eterna; e mais que algum tempo, o evangelho sugere que esta seja a actividade principal da nossa vida: Não vos preocupeis, dizendo: 'Que comeremos, que beberemos, ou que vestiremos?' Os pagãos, esses sim, afadigam-se com tais coisas; porém, o vosso Pai celeste bem sabe que tendes necessidade de tudo isso. Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo. (Mt 6, 31-33)

Jesus é o pão nós somos o pão
O discurso de Jesus sobre a eucaristia acaba com a declaração de que é ele o pão e portanto quem comer da sua carne, e beber do seu sangue, é que tem a vida eterna; coisa que os judeus, e muitos dos discípulos de Jesus, não conseguiram tragar por saber-lhes a canibalismo e vampirismo; por esta razão abandonaram o mestre ficando só Pedro, que falando em nome dos restantes reconheceu que aquelas palavras de Jesus eram palavras de vida eterna, ou seja, palavras que conduziam à vida eterna.

A natureza do pão que permanece para a vida eterna, que alimenta e torna possível a vida eterna, é diferente da do pão que alimenta esta vida e que perece. Tal como a água, que Jesus promete à Samaritana, este pão também brota desde dentro.

Por outro lado Jesus sendo caminho, verdade e vida, é a pessoa a que devemos imitar para estar na verdade e ter uma vida autêntica, no único caminho que leva ao Pai e à vida eterna. Por isso tal como Jesus foi pão também nós estamos chamados a ser pão. Somos tempo e energia que alimenta e dá vida a um valor ou uma causa humana, a uma opção fundamental. E tal como Cristo estamos também nós chamados a “poner toda la carne en el asador” como se diz em Espanha.

A opção fundamental como compromisso
A opção fundamental é uma decisão que se toma sobre o conjunto da nossa vida, é o objectivo, a meta do nosso viver, que dá sentido, cor e sabor a todos e cada um dos dias da nossa vida. É a chama que é mantida pelo combustível da nossa vida, energia e tempo. É o ponto de apoio da alavanca que levanta o mundo, no princípio de Arquimedes. É a motivação, a inspiração que reúne todos os nossos recursos e os coloca ao serviço de uma meta, de um alvo por nós escolhido.

A vida é feita de muitas opções e decisões; são elas que dão cor, sabor, aroma e sentido à nossa vida. Estas pequenas opções geralmente referem-se a um ou mais aspectos de nossa vida; podem afectar-nos muito ou pouco mas não chegam a afectar o conjunto da nossa vida. A opção fundamental é a decisão das decisões, a opção mestra, a mãe de todas as opções porque se refere a toda a vida presente e futura; na maior parte das vezes é irreversível; é a razão do nosso viver, é a causa que vamos alimentar com o nosso tempo e energia; é a boca para a qual nós somos o pão.

A causa, ou opção fundamental, que Nelson Mandela alimentou com a sua vida foi o fim do apartheit na Africa do sul; para Beethoven foi a música; para Picasso a pintura; para Gandhi a independência da India de uma forma não violenta; para uns pais são os filhos; para os professores são os alunos; para os médicos são os doentes…. Mais que uma profissão a vida é uma missão.

Não há vida sem compromisso
Vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido. Dalai Lama

Quando chega o momento para escolher a nossa opção fundamental estamos na encruzilhada da nossa vida, ou como é mais actualizado pensar pelo menos na Europa, estamos na rotunda da nossa vida. Não podemos estar aí para sempre, nem por mais tempo do que é adequado. Frequentemente quando permanecemos demasiado tempo indecisos, a vida acaba por decidir por nós, ou o governo como acontece em alguns países a respeito das uniões de facto dos jovens; depois de um tempo o estado considera-os casados. Em Lisboa existe uma rotunda chamada “rotunda do relógio”; enquanto permanecemos indecisos o tempo passa e algumas oportunidades não aparecem segunda vez na vida….

"I want to keep all my options open"– Costumava eu ouvir os jovens nos Estados Unidos e no Canadá. Durante a infância, e a primeira juventude, de facto tudo está em aberto. Manter todas as opções em aberto seria como ser uma estátua no centro de um cruzamento, ou andar à roda numa rotunda, como um burro à nora. Seria estar vivo sem viver e morrer sem nunca ter vivido.

Para quem não sabe para onde ir não há ventos favoráveis – “You can't have your cake and eat it too”; “Não se pode ter o sol na eira e a chuva no prado”. Num cruzamento, ou numa rotunda, escolher um estrada, dizer que sim a uma estrada, significa dizer que não a todas as outras. Não se pode contemporizar; a vida acaba por penalizar fortemente os que pretendem viver mais que uma vida; frequentemente quem tudo quer tudo perde… Casar-se com uma mulher, significa dizer não a todas as outras; ordenar-se sacerdote, significa dizer que não ao casamento. Imigrar para um país, significa deixar o próprio país. Todos estivemos, ou estaremos, um dia no cruzamento ou na rotunda das nossas vidas: o dia em que tomamos a vida nas nossas próprias mãos e decidimos o que fazer com ela.

É por isto que meu Pai me tem amor: por Eu oferecer a minha vida, (…) Ninguém ma tira, sou Eu que a ofereço livremente. Jo 10, 17-18 - Eramos livres enquanto parados no cruzamento decidíamos que estrada tomar; somos livres enquanto rodamos numa rotunda sem escolher uma estrada; a vida é um dom e os dons só doando-se podem ser vividos. Não temos opção, de facto, ou damos a vida ou ela nos é tirada, como àquele que escondeu o talento. Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la. (Mt 16, 25)

Outros valores mais altos se levantam, Camões – A liberdade absoluta não existe, nem serviria nenhum interesse. Somos livres até ao momento em que sacrificamos voluntariamente essa liberdade, num compromisso com a vida, a sociedade e o mundo. A partir do momento em que sacrificamos a nossa liberdade começamos a obedecer ao nosso compromisso. A liberdade, como a vida, existe para ser entregue. Uma vez que nos doamos já não nos possuímos, pelo que, viver é obedecer…
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de setembro de 2015

A Verdade vos fará livres

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Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu. Mateus 5, 16

Depois de expor, em artigos anteriores, os votos de pobreza e castidade, completo o tripé sobre o qual assenta a vida religiosa reflectindo sobre o voto de obediência. O religioso está chamado a ser um farol, a guiar os seus semelhantes para o Céu vivendo, no aqui e agora, a mesma vida que se viverá no céu eternamente; está chamado a encarnar os valores do Reino e a guiar a humanidade nas relações: riqueza-desprendimento com a sua vivência do volto de pobreza; amor-sexo com a sua vivência do voto de castidade; e poder-liberdade-fidelidade com o voto de obediência.

Conhecer a verdade
Se permanecerdes fiéis à minha mensagem, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres. João 8 31-32

Administradores, não proprietários – Na Igreja é-nos dito que a vida não é nossa, que é um dom de Deus; nós não fizemos nada para a ter, nem fomos consultados se queríamos ou não viver. Na sua totalidade a vida é de facto um dom. Mas por quanto respeita à primeira parte desta vida, o tempo em que vivemos na terra, ela mais que dom é empréstimo. No livro do Genesis diz que Deus fez um boneco de barro e que lhe soprou nas narinas e que aquele começou a viver. Mas da mesma forma que sopra, retira esse sopro divino quando morremos.

Que a vida é um empréstimo está claro na parábola dos talentos. Todo o empréstimo deve render juros; a nossa vida tem que dar lucro; tem que ser produtiva; pode não ser reprodutiva, mas tem de ser produtiva. Temos de deixar neste mundo mais do que o que cá encontramos; temos de fazer a diferença, ser parte da solução e não parte do problema; que a nossa vida seja um contributo para a solução, para um mundo melhor, e não um contributo para a o problema, ou seja um mundo pior do que era antes de cá chegarmos. Como sugere a parábola dos talentos, temos de fazer algo com a nossa vida, não a podemos entregar tal qual a recebemos.

Todo o bom administrador tem os “livros” em dia pois não sabe nem o dia nem a hora em que, o patrão ou um fiscal do governo, pode vir inspeccionar as suas contas. Por isso devemos de fazer relatórios periódicos da nossa administração. Para isso a Igreja tem um sacramento, o sacramento da penitência; os que recorrem a este sacramento, prestam periodicamente contas das entradas e das saídas, e assim sabem se estão a crescer economicamente ou se estão a caminhar para a banca rota. É também um exercício de autocrítica, imprescindível para o crescimento como pessoa a todos os níveis.

Construtores, não arquitectos - Toda a pessoa que vem a este mundo vem com um projecto. Vem porque Deus assim o quis. As circunstâncias do seu nascimento não interessam: nem retiram nem acrescentam dignidade. Tão filho de Deus é o nascido por amor como o nascido por acidente, o nascido de prostituta, o nascido de uma noite de prazer e até o nascido de uma violação; toda a vida humana que vem a este mundo, desde a sua concepção até à morte natural, é viável e portanto inviolável.

Deus escreve direito por linhas tortas. Para os seus desígnios serve-se tanto do nossos bem como do nosso mal. Para Ele não há filhos ilegítimos nem de sangue azul; para todos é Pai; todos, iguais em dignidade, são herdeiros da vida eterna.

Assim como não se constrói nenhuma casa, nas nossas cidades e aldeias, antes de ser devidamente desenhada e projectada, nenhuma vida vem a este mundo sem que Deus tenha traçado para ela um projecto; sem que Ele tenha desenhado um plano.

Não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos escolhi a vós e vos destinei a ir e a dar fruto, e fruto que permaneça Jo 15, 16 - Não somos portanto nós que desenhamos o nosso destino; estamos chamados a ser uma casa construída sobre a rocha, se ouvirmos a palavra, ou seja, se conhecermos o plano que diz respeito à nossa vida e o pusermos em prática, se o executarmos tal e qual ele está desenhado.

Como não somos proprietários da nossa vida também não somos os seus arquitectos, mas sim os seus pedreiros ou mestre-de-obras. O arquitecto de tudo e de todos, o criador é Deus; o desenho, o projecto, ou plano da nossa vida está com ele, para o conhecermos temos de o consultar periodicamente, à medida que vamos construindo a nossa vida, a nossa casa.

O construtor que não consulta o arquitecto periodicamente corre o risco de construir algo que não está de acordo com o projecto. Como é embaraçoso sempre que isto acontece nas nossas cidades, casas às quais não é dada a autorização para serem habitadas, chegando mesmo a ser destruídas, porque não foram edificadas em conformidade com o desenho: Pior embaraço é apresentar-se diante de Deus com uma vida vivida contra a sua vontade.

A consulta periódica, contínua e constante que o construtor deve fazer ao arquitecto chama-se oração. Jesus passava noites inteiras em oração para saber qual era a vontade de Deus a seu respeito. Outro tanto devemos fazer nós, pois é a sua vontade e não a nossa que devemos actuar. É Ele que nos chama, que nos dá a vocação e os talentos suficientes para que a nossa vida seja viável; numa profissão ou numa missão.

Como o construtor só pede as instruções para o alicerce, se está nos alicerces, e não para o telhado, pois ainda não chegou o tempo de o construir, a oração deve ser um processo contínuo e constante que acompanha a construção a par e passo. A visão da totalidade e do conjunto, o desenho assim como a maqueta do plano, só Deus a tem e só no fim a veremos e seremos confrontados com ela e por ela. Quem nunca reza, nunca sabe qual é o plano de Deus a seu respeito.

O verdadeiro discípulo de Cristo é um obediente, pois já o mestre era obediente ao Pai. Quem me ama cumpre os meus mandamentos; o discípulo é o que que ouve a palavra e a põe em prática. Permanecer fiéis à mensagem do mestre, significa portanto obedecer aos ditames dessa mensagem. 

A verdade leva à liberdade, a liberdade leva à verdade
Dominar-se a si mesmo é o maior dos impérios…
Como pode alguém dizer-se livre se é governado pelos próprios prazeres? Sócrates
Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Jo 14, 6
Antes de nos podermos submeter a um projecto traçado por Deus e ser um contributo real para o mundo; antes de nos podermos entregar, de alma e de coração, a esse projecto pelo qual nos doamos a nós mesmos ao serviço de uma causa, temos de nos possuir: ninguém dá o que não tem, se não nos possuímos não nos podemos doar.

Para nos podermos possuir temos de submeter dentro de nós forças antagónicas, que não obedecem à nossa razão; temos de chegar a ser senhores de nós mesmos, vencendo a guerra civil que todo homem tem dentro de si.

Ao repreendermos um adolescente é frequente ouvirmos: “eu posso fazer o que quero com a minha vida”; muitas vezes os que assim dizem são, precisamente, os que menos poder têm para fazer com a própria vida o que querem. Não existe liberdade para… sem liberdade de… Não somos livres para fazer o que quer que seja se não nos possuímos interiormente; se não estamos livres de vícios, maus hábitos, manias e todo tipo de comportamentos repetitivos, obsessivos e excêntricos, que mais que a nossa inteligência, governam a nossa vida do dia-a-dia e a cada momento decidem o que fazer.

Um homem pode deixar que um mau hábito se assenhoreie dele, de tal forma que não consiga libertar-se. Pode deixar-se amarrar e dominar por um prazer, de tal forma que não tenha força para se soltar. Completamente escravizado pela auto-indulgência, uma pessoa pode chegar à esquizofrenia de, ao mesmo tempo, amar e odiar os seus maus hábitos. O que foi apanhado na rede, na teia do vício perdeu por completo o poder para fazer o que quer. Como diz Jesus ninguém que peca pode dizer que é livre.

A liberdade é para a alma o que o pão é para o corpo. Mas se a liberdade é um valor humano, como todos os outros valores, não é algo com o qual nascemos mas sim algo que vamos conquistando com esforço, sangue, suor e lágrimas.

Uma vida em Presente Prefeito
Assim, o que realizo, não o entendo; pois não é o que quero que pratico, mas o que eu odeio (…) Ora, se o que eu não quero é que faço, então já não sou eu que o realizo, mas o pecado que habita em mim. (…) Quero fazer o bem, mas é o mal que eu não quero, que acabo por fazer. Rom. 7:15-21

Para nos podermos possuir temos de nos conhecer. Em termos de gramática é uma ilusão pensar que a nossa vida decorre no Presente simples, quando 90% do nosso comportamento é influenciado pelo nosso passado. Na realidade, o tempo do verbo em que vivemos é o Presente Prefeito (que não existe em português e que se refere a uma acção que começou no passado e continua no presente).

Vivemos num presente que é frequentemente invadido pelos assuntos não resolvidos do nosso passado. Um passado do qual não somos conscientes, mas que continua a reproduzir-se no nosso presente quando, alheio à nossa vontade, alguma circunstância ou evento o acciona. Desta forma temos a impressão de que caminhamos por um terreno minado e que sem querer podemos accionar uma bomba, ou que funcionamos e nos comportamos em piloto automático.

Conhece-te a ti mesmo – A máxima socrática soa aqui em toda a sua exuberância. Só posso aspirar a ser livre, a possuir-me a mim mesmo para me poder doar se me conhecer. O que conheço de mim mesmo posso controlar, pois todo o conhecimento implica controlo; o que não conheço de mim mesmo controla-me, e alheio à minha vontade, faz-me viver preso a um piloto automático.

A nossa verdade, a nossa identidade, tem uma dimensão histórica, é algo que tem vindo a ser construído. Por isso, tal como as árvores que precisam de crescer para baixo, a fim de poderem crescer para cima, também nós, para podermos crescer como pessoas, temos de visitar o nosso passado.

Como a árvore estende as suas raízes em profundidade para encontrar alimento, assim nós devemos estender o nosso conhecimento, até ao princípio da nossa vida, a fim de compreender totalmente como chegamos a ser o que somos, e assim estar capacitados para nos tornarmos no que Deus nos chama a ser.

Depois de nos apropriamos do nosso passado, e sermos conscientes de tudo o que de bom e de mau fizemos ou nos aconteceu, devemos fugir à tentação de negar, o que quer que seja, e assumir e fazer-se responsáveis da nossa história.

…Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres. Porque conhecemos a verdade do nosso passado, e dele nos fazemos responsáveis, temos agora poder para controlar a sua influência no nosso presente. Desta feita, já não andamos sobre um terreno minado, nem somos conduzidos na vida por um piloto automático; somos livres porque o nosso comportamento é directamente decidido pela nossa razão. Assim podemos agora dispor do nosso tempo e energias e comprometê-los numa causa da nossa escolha.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de setembro de 2015

Em Espírito e Verdade

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Disse-lhe a mulher: «Senhor, vejo que és um profeta! Os nossos antepassados adoraram a Deus neste monte, e vós dizeis que o lugar onde se deve adorar está em Jerusalém.» Jesus declarou-lhe: «Mulher, acredita em mim: chegou a hora em que, nem neste monte, nem em Jerusalém, haveis de adorar o Pai. (…) Mas chega a hora - e é já - em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são assim os adoradores que o Pai pretende. João 4, 19-21, 23

Em duas simples palavras – Espírito e Verdade - Jesus revela à Samaritana e a todos nós a essência da oração. Como Deus é um ser espiritual, está em todo o lado, a oração não precisa de um lugar específico; Deus transcende todos os lugares e ao mesmo tempo é imanente a todos eles. Não sendo condicionada pela
especificidade do lugar, a oração é condicionada pela nossa forma de ser e estar na vida. Só pode rezar, só se pode encontrar com Deus, quem vive e permanece na verdade.

Yahweh, o Deus dos nómadas
Greg Retallack fez um estudo, no qual estabelece uma relação entre a identidade do deus adorado num templo particular e a localização desse mesmo templo. Por exemplo, os nómadas vivendo em solos pobres adoravam Hermes, o deus mensageiro e mediador; os povos instalados em terrenos férteis tendem a adorar deuses da fertilidade como Hera. Retallack conclui que os deuses da Grécia antiga não surgem de uma cidade imaginária e poética, chamada Olimpo, mas personificam a forma de vida daquelas gentes; no fundo, os antigos adoravam os próprios meios de subsistência, ou melhor dito, adoravam Aquele que eles acreditavam garantir esses meios.

Deus é um ser espiritual - Obrigados a guiar os seus rebanhos à procura de novos pastos, os povos dedicados à pastorícia, como o povo Judeu, são necessariamente nómadas. Enquanto os povos sedentários construíam grandes templos e grandes estátuas para representar as suas crenças; os nómadas, para não ter que carregar ídolos pesados nas suas deslocações, conceptualizaram a Deus como sendo um Ser ao mesmo tempo transcendente e imanente.

Transcendente porque ao ser Criador de tudo e de todos, não pode ser representado por nada do que existe; para os nómadas qualquer forma material de representar a Deus é idolatria. Imanente pois está no coração de cada coisa e cada pessoa, logo, fácil de transportar.

Os Turkana, no norte do Quénia, usam a mesma palavra para dizer céu e Deus. Da mesma forma os Mongóis, os Turcos e os Tártaros adoravam Tengri, o Deus do céu azul. Deus, tal como o Céu, está em todo lugar. Uma realidade que é ao mesmo tempo transcendente e imanente não pode ser de natureza material mas sim espiritual.

Deus é um ser pessoal – Longe de tudo e de todos, ao guardarem os seus rebanhos os pastores passam muito tempo sozinhos; a solidão, o medo e a insegurança leva-os a estabelecer uma relação como esse Ser espiritual; um Ser que se preocupa, que protege e que quer ter uma relação pessoal com cada membro do povo. Os deuses dos povos sedentários são materialistas e chamam o povo a ter mais. Os deuses dos nómadas são espirituais e chamam o povo a desinstalar-se e desligar-se dos bens materiais para cultivar o espirito e ser mais.

Templos do Espirito Santo  (1 Cor 3, 16)
Respondeu-lhe Jesus: «Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada. João 14, 23

Deus, um ser espiritual, criou-nos à sua imagem e semelhança; por isso somos, ao mesmo tempo, um corpo, ou seja, temos uma dimensão física e um espirito, temos uma dimensão espiritual. O nosso corpo é o que temos em comum com as outras criaturas que Deus criou; o nosso espirito é o que temos em comum com o Criador.

Como somos intrinsecamente templo do Espirito Santo, não precisamos de mais nenhum templo para nos encontrarmos com Deus; só precisamos de guardar silêncio e fazer um exercício de introspecção entrando dentro de nós mesmos.

O silêncio é capaz de escavar um espaço interior no nosso íntimo, para ali fazer habitar Deus, para que a sua Palavra permaneça em nós, a fim de que o amor por Ele se arraigue na nossa mente e no nosso coração, e anime a nossa vida. Bento XI

Não há oração sem silêncio, nem silêncio sem oração, um leva ao outro. A prática diária da meditação tem benefícios para a saúde em geral, tanto física como psicológica e espiritual. Reduz o stress, a tensão alta, ajuda a concentração, a dormir, a vencer a ansiedade, a asma, o cancro. A meditação é para a alma o que o exercício é para o corpo. Não tem contra-indicações só tem benefícios a todos os níveis.

Que é a verdade?
(…) Para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. Todo aquele que vive da Verdade escuta a minha voz.» Pilatos replicou-lhe: «Que é a verdade?» João 18 37-38

Como não espera pela resposta, mais que pergunta, a afirmação de Pilatos é um amargo desabafo de alguém enfastiado, que não encontra sentido nem conforto na filosofia e no “modus vivendi” dos gregos e romanos do tempo. Esta mesma pergunta foi respondida por Jesus aos seus discípulos, quando Ele mesmo se apresentou a eles como “caminho verdade e vida” (João 14,6)

Jesus veio ao mundo para dar testemunho da verdade, ou seja, para mostrar aos homens como se vive a verdade e em verdade no dia-a-dia. Neste sentido, Como Cristo é a verdade, o metro padrão de humanidade, o que quer ser autenticamente humano, mede-se com Cristo. A oração, sobretudo a oração bíblica ou “Lectio Divina”, é de facto o acto de medir-se com Cristo.

Medir-se com Cristo é encontrar a verdade das nossas vidas; algo assim como ligar um GPS que nos diz onde estamos, o que somos, onde devemos chegar, o que nos falta para lá chegar e o caminho até lá.

Se fores, portanto, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta. Mateus 5,23-24

Quando nos medimos com Cristo não encontramos só a nossa verdade a nível individual, mas também a nossa verdade como membros de uma comunidade. Rezar, portanto, não tem só a dimensão vertical de amar a Deus mas também a horizontal de amar o próximo. Quando me encontro com Deus fico a conhecer os meus défices de amor ao próximo porque Deus sempre pergunta como o fez a Caim, onde está o teu irmão. (Genesis 4,9)

Dois homens subiram ao templo para orar: um era fariseu e o outro, cobrador de impostos. O fariseu, de pé, fazia interiormente esta oração: 'Ó Deus, dou-te graças por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros; nem como este cobrador de impostos. Lucas 18,10-11

Também há quem viva a oração e a participação nos actos litúrgicos como autojustificação das suas vidas na falsidade. O fraco conhecimento de si mesmos leva a um fraco conhecimento de Deus e vice-versa. Sem autocritica não há progresso na vida espiritual, estas pessoas que vivem a religião como opio substituem a autocritica pela autojustificação.

A minha verdade
Quando vires um gigante, examina antes a posição do sol, para certificar-te de que não é a sombra de um anão. Von Hardenberg

Deus revela-se a quem está em contacto com a sua realidade. Quem possui uma falsa imagem de si mesmo terá também uma falsa imagem de Deus; tal pessoa vive fora de si, ao perder o contacto consigo mesma perdeu o contacto com Deus. Perifraseando a afirmação de Hardenberg há muitos anões, que não aceitando a sua realidade, projetam para fora de si mesmos a imagem do gigante que pretendem ser. Tantas vezes se escondem e projectam, nessa imagem idealizada e irreal de si mesmos, que chegam a identificar-se com ela e verdadeiramente pensar que são essa sombra.

Não há complexos de superioridade, o fanfarrão e orgulhoso que projecta para fora de si uma imagem de ser superior, na realidade vê-se e sente-se inferior; ao não aceitar essa inferioridade procura escondê-la, não só dos outros, mas até de si próprio; então enche-se de si mesmo, como a rã que queria ser maior que um boi, para colmatar o vazio que sente. Se estamos chamados a ser Templo do Espírito Santo, não podemos encher-nos de nós próprios; por isso Deus não habita naqueles que não são humildes porque estão cheios de si mesmos.

Quando perdemos o contacto com a nossa realidade, a nossa verdade, então também perdemos contacto com Deus porque Deus não pode relacionar-se com alguém que não existe. Deus só se relaciona comigo, quando estou em contacto com a minha realidade; quando sou honesto comigo mesmo, não desculpando os meus pecados nem escondendo de mim próprio os meus defeitos; quando sou autêntico, não me refugiando em falsas imagens de mim.

Possuir uma imagem falsa de mim mesmo leva a possuir uma imagem falsa de Deus. A consequência é que se eu não sou eu, Deus não é Deus. Assim sendo, a oração não é possível pois ando divorciado da minha verdade.

Deus íntimior timo meo
Conta-se que Deus querendo ser o resultado de uma busca com algum grau de dificuldade, consultou os seus anjos sobre o melhor lugar para esconder-se dos homens. O anjo sugeriu de fazer-se enterrar no fundo da Terra, Deus achou, tarde ou cedo o homem acabaria por escava-lo e encontra-lo. Nas profundezas do oceano, sugeriu outro anjo, também não pois o homem um dia terá a capacidade de explorar o fundo dos oceanos e facilmente o encontraria. Já sei, disse o próprio Deus, vou esconder-me no fundo do coração do próprio homem, ele buscará em todos os lugares menos ali….

Dizia Sto. Agostinho que Deus esta para além do meu íntimo. Como Júlio Verne, na sua viagem ao centro da Terra, para chegar até Deus eu tenho que empreender uma viagem de introversão ao centro de mim mesmo e mais além dele. É por isso que a oração é um exercício de autoconsciência e autoconhecimento. Tal como Deus, o ser humano também é um mistério para si mesmo; quem reza aumenta ao mesmo tempo o conhecimento de si mesmo e o conhecimento de Deus.

O conhecimento de Deus e o conhecimento de nós próprios são partes do mesmo processo. Não é possível conhecer-se sem conhecer a Deus, nem conhecer a Deus sem conhecer-se; porque Deus está para além de mim, para chegar até ele tenho de passar por mim mesmo.

Yoga, Reiki, Zen e meditação transcendental
Buda era indiano e hindu portanto formado e versado no politeísmo e na parafernália de um número ilimitado de deuses. Por reacção a tudo isto fundou o Budismo, uma “religião”, ou melhor dito uma espiritualidade ateia. O budismo tradicional é uma via para a iluminação, para a auto perfeição individual e até egoísta, pois não contempla os outros nem a nossa relação com eles.

Hoje no Ocidente o Budismo vem-nos fornecido misturado com outras filosofias, em forma de sincretismo religioso da New Age. Para a New Age, Deus não é um ser pessoal mas sim uma energia, da qual todos podemos participar. O homem é só uma partícula dessa energia, vivendo no espaço e no tempo. Se Deus não existe como pessoa o ser humano também não é pessoa.

É certo que para nós isto é errado; Deus é muito mais que uma energia é um ser espiritual e pessoal. Um ser que buscou sempre revelar-se ao Homem e assim o fez de uma forma limitada ao longo da história da humanidade, acabando por encarnar-se na criatura que criou para um maior conhecimento e interacção.

Para discernirmos qual a melhor atitude em relação às práticas espirituais do extremo oriente, tomemos como exemplo a reacção da Igreja á teoria da evolução das espécies de Darwim. Pio XII aceitou as conclusões de Darwin, na sua encíclica Humanae Generis, como o próprio Darwin o fez pois era religioso e continuou a acreditar em Deus Criador e Salvador depois das suas descobertas. É irrelevante que Deus tenha criado directamente o ser humano ou pensasse nele ao fim de uma processo evolutivo….

Neste sentido podemos, também, desligar as práticas do budismo e outras práticas espirituais do extremo oriente da sua ideologia ou filosofia ateia. “O que não mata engorda” diz o nosso povo na sua simplicidade, e Jesus diz “Quem não é contra nós é por nós” Marcos 9,40

Nestas férias, com tempo livre, busquemos a ajuda destas técnicas orientais e não demos ouvidos àqueles, cristãos fundamentalistas fanáticos, que gostam de deitar fora o menino com a água da banheira.

Podemos desculpar-nos de não ter ido à Missa um Domingo porque não havia Igreja no alto da montanha ou nas profundezas do vale, na praia fluvial ou na praia marítima onde nos encontrávamos; mas não temos desculpa de não nos termos encontrado com Deus em Espírito e connosco próprios em verdade.

Onde é que eu poderia ocultar-me do teu espírito? Para onde poderia fugir da tua presença? Se subir aos céus, Tu lá estás; (…) Se voar nas asas da aurora ou for morar nos confins do mar mesmo aí a tua mão há-de guiar-me e a tua direita me sustentará. Se disser: "Talvez as trevas me possam esconder, ou a luz se transforme em noite à minha volta", nem as trevas me ocultariam de ti e a noite seria, para ti, brilhante como o dia.- Salmo 139, 7,12
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de agosto de 2015

Castidade: Luzes e sombras

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TERRA SANTA: Barco no mar da Galileia
Também pode acontecer que a sensibilidade desborde. O desejo de prazer sexual pode um dia ser mais forte que a força de vontade e o casto ser seduzido. Para aqueles que se preocupam verdadeiramente pela sua castidade, isto significa experimentar dolorosamente, uma e outra vez a sua miséria; mas também um dar-se conta que a castidade está no espírito e não na carne. Se olharmos cuidadosamente para o fundo do nosso coração, veremos que mesmo quando somos com pena, arrastados à experiência do amor carnal, o nosso coração pode ser como nunca fiel ao Senhor (…) Se, no fundo, não fosse fiel, não lhe causaria tanto sofrimento o pensar que não o é. (…) Errar é o mestre do não errar. RONDET, M. RAGUIN

Depois de, ao longo de 4 crónicas, expor a natureza da virtude da castidade e de cantar o quão sublime é este voto para Igreja, para o mundo e cultura em geral, não queria ficar só pelo mundo das ideias e dos ideais. Nós, gentes de Igreja, frequentemente falamos destes temas de uma forma genérica, idealista, e damos a impressão de que são fáceis. Nesta última cronica sobre o tema quero descer à realidade, aos problemas e dificuldades que acarreta a vivência deste voto. Não quero nem ignorar, nem esconder, nem varrer para debaixo do tapete a vivência real do voto, pois se o fizer invalido tudo o que disse antes.

Castidade falsa
A castidade é virtude em alguns, mas em muitos outros, quase um vício. Esses podem abster-se e ser continentes, mas a carente cadela sensualidade contamina com inveja tudo o que fazem. Até ao cume da sua virtude e ao frio interior da sua alma os segue esta besta descontente e irrequieta. E como sabe a manhosa sensualidade mendigar uma migalha de espírito, quando lhe é negada um bocado de carne! Vós amais as tragédias e tudo o que parte o coração? Mas eu desconfio de vossa cadela. Os vossos olhares parecem-me muito cruéis, e buscais avidamente por sofredores. A vossa volúpia não se teria apenas disfarçado e agora se chama compaixão? Nietzsche

A vivência da castidade, como uma continência física e formal, faz recordar a obediência coagida que o irmão mais velho do filho pródigo tinha ao seu pai, assim como o descompromisso com a vida daquele que escondeu o talento. Nietzsche explica este tipo de castidade com uma hábil subtileza; é que de facto uma energia sexual, mal sublimada, escapa-se ao controlo consciente do individuo e manifesta-se, no talante da pessoa pseudo casta, de mil e uma formas.

Já que não pode ter carne, ou seja já que não se pode manifestar naturalmente na carne, porque é reprimida pela continência voluntariosa do individuo, a sensualidade mendiga uma migalha de espirito, ou seja contenta-se com manifestações sucedâneas substitutivas; é como uma sublimação ao contrário ou negativa.

Omnia munda mundis – Para os puros, tudo é puro e purificam tudo o que tocam; para os impuros, tudo é impuro e conspurcam tudo o que tocam: ou seja, a forma como se relacionam com as pessoas deixa antever que a sua sensualidade não está sublimada, mas simplesmente reprimida, e como tal manifesta-se, de uma forma inconsciente para eles, nas relações que têm com as pessoas. É isto que diz Nietzsche de uma forma repulsiva: a sensualidade desbocada é como uma cadela a salivar que lambuzeia tudo o que toca.

Neste texto, Níetzsche, revela a sua profundidade como psicanalista. Com efeito, qualquer paixão insatisfeita, e mal canalizada, tem tendência a auto compensar-se de mil e uma formas, envenenando a alma. Em consequência, os pseudo castos são irascíveis, neuróticos, mal-humorados, duros, frios, orgulhosos, intransigentes e egocêntricos. A miúdo, no seu talante e no seu comportamento, revelam um cem número de manias e excentricidades.

Limites da sublimação
É claro que o processo de substituição, ou canalização de energia, não pode ser continuado até ao infinito, como também não pode sê-lo a transformação de calor em energia mecânica nas nossas máquinas. Sigmund Freud

Freud refere-se à máquina a vapor, a única conhecida naquele tempo, que fazia uma espécie de sublimação, ou seja transformava o calor, proveniente da caldeira de água aquecida pelo carvão, em energia mecânica. Segundo Freud é impossível sublimar a totalidade do calor; ou seja transformar todo o calor gerado em energia mecânica; algum calor tem de seguir o seu curso natural. Freud dá ainda o exemplo do agricultor que estava a treinar o seu burro a viver sem comer e quando pensava que já o tinha conseguido o burro morreu.

O mesmo acontece com a metáfora da barragem; muita água pode ser canalizada para os campos, outra para a produção de energia, mas há dias, quando a chuva é muita, em que se têm que abrir as comportas e deixar ir a água livremente, pelo leito natural do rio para o mar, ou perdemos a barragem.

Usando ainda a metáfora da barragem; quando chove muito é preciso largar água; a castidade de facto resulta mais difícil nos anos jovens, quando chove muita testosterona e progesterona no organismo; não era por outra coisa que São Francisco de Assis para resistir à tentação se rebolava nu na neve…

Ao comprometerem-se socialmente com as estruturas da civilização os seres humanos, segundo Freud, sacrificam uma parcela da sua felicidade individual pelo interesse comum. Isto é essencialmente uma decisão económica: trocamos a gratificação imediata pela estabilidade a longo prazo. Por outras palavras, renunciamos ao prazer a pronto pagamento e por inteiro, por um pagamento a prestações durante um longo período de tempo.

Depois de descrever e se mostrar favorável ao mecanismo da sublimação, Freud alerta para o facto de que uma repressão excessiva do Eros produz sofrimento e neurose. Em geral, o celibato total, diz ele, produz pessoas bem “comportadinhas”, mas sem vitalidade; não produz pensadores sagazes, arrojados libertadores ou intrépidos reformistas. E acrescenta que a relação e o equilíbrio entre o que é possível sublimar e a actividade sexual necessária varia, naturalmente, de individuo para individuo.

Para aqueles que sentem que os défices e fracassos da prática celibatária invalidam-na inteiramente, eu digo com Freud, “Ninguém como eu, que presume de lutar contra as forças das trevas dentro de nós, pode esperar sair ileso da luta. (Freud, 1905/1953). Apesar de seu historial de falhas e traições, as realizações e conquistas do celibato em nome da raça humana são substanciais, e eu prevejo que assim vai continuar. PETER GAY The historian, 1986

A castidade verdadeira, não é uma continência reprimida e neurótica de alguém que se aparta da vida. O verdadeiramente casto, como se compromete com a vida, pode até sujar alguma vez as mãos e aprender do erro. Santo não é aquele que nunca se suja mas aquele que sempre se lava.

Aos homens é impossível, mas a Deus tudo é possível (Mt, 19,26)
Na verdade, esta Lei, que hoje te prescrevo, não é muito difícil para ti nem está fora do teu alcance. Deuteronómio 30, 11

Para a sociedade e para a cultura, o ideal de castidade é que o casto seja totalmente casto; a ciência, sobre a natureza do Eros, diz que isto não é possível sem criar neurose e outras deficiências comportamentais. Como a cultura só entende e aceita a castidade total, ao não haver uma materialização cultural da sublimação, de acordo com os dados da ciência, o casto ou celibatário está por sua conta na resolução desta incongruência.

Há eunucos que nasceram assim do seio materno, há os que se tornaram eunucos pela interferência dos homens e há aqueles que se fizeram eunucos a si mesmos, por amor do Reino do Céu. Quem puder compreender, compreenda. Mateus 19, 12

Os que se fizeram eunucos pelo reino não estão por conta e risco próprios. Porque escolheram buscar primeiro o Reino sabem que o resto lhes será dado por acréscimo (Mateus 6, 33). Os que escolheram sacrificar pelo Reino a sua afectividade, sabem que podem contar e contam de facto com a ajuda da graça divina que transforma o humanamente impossível em perfeitamente possível.

Os que escolheram sacrificar pelo Reino a sua afectividade fizeram-no na esperança e na certeza de que o resto, as ajudas de custo, lhes seriam dados por acréscimo. “Deus dá o frio consoante a roupa; não chama ninguém a uma Missão sem o equipar com os talentos necessários para a desempenhar bem. A castidade por Deus só é possível com Deus.

Castidade verdadeira
Em verdade, existem os castos do fundo do ser: eles são mais mansos de coração, riem com mais gosto e mais frequentemente do que vós. Riem também da castidade, e perguntam: “Que é a castidade? Não é a castidade uma tolice? Mas essa tolice veio a nós, não fomos a ela. Oferecemos abrigo e afecto a essa visitante: agora ela habita connosco — que permaneça o tempo que quiser!”
Nietzsche

O casto, é sempre um casado com uma causa humana ou cultural à qual devota todo o seu ser, tempo e energias, como se de uma mulher e filhos se tratasse; pode ser a ciência, a medicina, o ensino, a educação, a justiça, os pobres, a revolução, a liberdade, a aventura. A população mundial não pára de crescer; por isso o mundo não precisa tanto de pais biológicos como de pais e mães “adoptivos”; ou seja de pessoas que, renunciando à paternidade e maternidade biológicas, se dedicam aos outros de alma e coração como outrora Jesus de Nazaré e tantos depois dele…

Qualquer causa humana bem justifica o sacrifício da nossa energia afectiva. De facto há pessoas que começaram a dedicar parte do seu tempo e energia a um projecto humano e depois acabaram por dedicar-se plenamente e ele, a “poner toda la carne en el asador” como se diz na Espanha. Mahatma Gandhi era um homem casado; quando entendeu que o seu projecto de vida requeria toda a sua energia fez com a sua esposa um voto de castidade.

Pe. Jorge Amaro. IMC

1 de julho de 2015

A Castidade como atitude

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Um jovem monge, olhando para um prado, maravilhosamente florido, disse ao seu mestre, “Como é difícil para nós monges a castidade; é como estar perante uma multidão de maravilhosas flores perfumadas, sem poder colher uma sequer... O homem casado que por ali passava, ao ouvir estas palavras observou, “Que diremos nós os casados? Colhemos uma flor, inebriámo-nos com o seu perfume, e agora temos um desejo fortíssimo para conhecer outras; não é acaso mais difícil a castidade para nós? Uma mulher ao escutar estas afirmações exclama, “Existe sofrimento maior que o não ser recolhida por quem verdadeiramente queríamos e quando queríamos? Deus ouvindo os três pensou, “Têm razão os três por isso mesmo prometi aos puros de coração de que veriam a minha cara.

A virgindade ou castidade, nem é inata, nem temporária, nem coisa só de padres e freiras. Os valores humanos, para serem valores e serem humanos, devem poder ser aplicáveis universalmente. Consideremos então que todos estão chamados a viver em castidade, embora a prática desta virtude por cada pessoa dependa da sua opção fundamental.

Sexualidade como liturgia do amor
Até há bem pouco tempo, a sexualidade era vista como algo impura e suja. O próprio acto conjugal, apesar de ser o único meio para a transmissão da vida, era visto como negativo. Depois de Sigmund Freud, começámos a olhar para a nossa sexualidade de uma forma mais positiva, superando até as dicotomias sujo-limpo, puro-impuro ao tratar-se de partes da nossa anatomia; desta forma, hoje, a grande maioria das pessoas conceptualiza o seu corpo como puro e limpo, na sua totalidade e em cada uma das suas partes.

Após ter sido dissociada de um hipotético lado sombrio da nossa natureza, a sexualidade começou também a ser entendida num sentido muito mais amplo para além do puramente genital. O ser humano não é só masculino ou feminino no seu corpo, mas também na sua mente, personalidade e carácter. Masculinidade e feminilidade são então duas formas diferentes e complementares de ser, estar, e expressar-se como indivíduo, e não apenas uma referência de género.

No contexto de um casal o ato conjugal é, e deve ser ante tudo, uma expressão de amor e só depois um meio para a procriação e nunca, como era entendido teologicamente, um remédio para a concupiscência. Na eventualidade do acto conjugal ser procreativo, os filhos são, e devem ser, frutos do amor e não do desejo, ou da concupiscência.

Como nem todos os actos conjugais estão naturalmente abertos à transmissão da vida, podemos concluir que, enquanto a procriação nem sempre sucede a todos e cada um dos actos conjugais, o amor deve sempre preceder e acompanhar todos e cada um destes actos.

Castidade para todos
Ao longo da história a castidade, entendida como abstinência, tem sido o atributo distintivo de, uns poucos, monges, padres e freiras. A mesma santidade entendida como sendo o ideal e o objectivo para todo cristão, com poucas excepções, estava somente ao alcance do citado grupo de pessoas, pois à partida considerava-se que estavam numa posição melhor para lá chegar. Os outros estavam vetados a ser candidatos à castidade e à santidade pelo simples facto de estarem casados

Os leigos casados eram encorajados a imitar o clero tanto quanto podiam, especialmente durante a Quaresma estendendo a abstinência e o jejum à prática sexual; alguns foram tão longe que chegaram a fazer o voto clerical de castidade, abstendo-se de qualquer forma de comportamento sexual para o resto das suas vidas, vivendo como irmãos e irmãs.

Como dissemos, para ser um valor universal, a castidade tem de ser aplicável universalmente a todo o ser humano, qualquer que seja a sua forma de ser e estar na vida. Como tal castidade, para a maior parte das pessoas, não pode significar abstinência de sexo pois esta é a forma de expressar amor e união entre os esposos.

Assim sendo, a castidade deve ser buscada mais nas atitudes que nos actos; todo o beijo, abraço e carícia pode ao mesmo tempo ser expressão de amor e de luxúria, tudo depende da intenção de quem os dá. Como tais, não há actos puros e actos impuros, limpos ou sujos em si mesmos; o amor ou a luxúria não se encontram no ato em si mas no actor e nas suas motivações.

Que há de mau no prazer?
Essa é a questão que muitos jovens adultos me fizeram no contexto do Sacramento da reconciliação. A minha resposta tem sido sempre, “O prazer não tem nada de mau com tal de que a obtenção do mesmo não seja o motivo principal de nenhum acto humano”. Por exemplo, apreciamos a nossa comida e criamos até um cem número de diferentes receitas para torná-la mais agradável, mas não comemos por prazer. O prazer não é, nem deve ser, a razão principal para comer.

O Prazer pode ser uma das razões pelas quais comemos, mas a primeira é a sobrevivência e a saúde. Aqueles que cedem ao prazer de comer depressa arruínam a sua saúde. Comemos com prazer, para ter saúde. Quando o prazer se torna uma motivação primordial, facilmente se cai na dinâmica do vício, actos obsessivos e repetitivos sobre os quais não se tem controlo.

O que dissemos sobre a relação comida – prazer - saúde pode aplicar-se à relação sexo – prazer -amor. O prazer degrada, vicia e instrumentaliza as pessoas, quando é a razão principal para a prática do acto sexual. O prazer pode, e deve acompanhar o acto sexual como o faz no acto de comer, mas é o amor que dignifica e dá valor ético ao sexo.

Como dizia Erich Fromm afirmar o prazer, para além da realidade, é equivalente a negá-lo. Qualquer prazer agradável ao longo da vida deve ser restrito dentro dos limites da natureza humana. Abusando do prazer, seja do tipo que seja, para além da condição e natureza humana, encurta a vida e por consequência também o prazer.

Castidade quer certamente dizer abstinência para alguns e às vezes para todos. No entanto, como valor universal ou virtude a ser proposta a todos, sejam casados, solteiros ou religiosos, a castidade refere-se não só à prática ou não prática do acto sexual genital, mas a toda a nossa vida e a todos os nossos actos, pensamentos e sentimentos; sendo a nossa sexualidade, masculina ou feminina, transversal e intrínseca ao nosso ser, não há pensamentos, sentimentos e acções que sejam assexuadas.

Tão casto é o religioso que por amor ao Reino se abstém de relações sexuais, como o casado que as tem com e por amor à sua esposa. Como atitude, a castidade tem mais que ver com a purificação do sexo, ou seja antepor o amor ao prazer, que com a ausência dele.

St. Agostinho, já no século IV, dava mais importância à atitude que ao acto quando dizia: "Ama et fac quod vis." Ama e faz o que queres. Amar como define Sto Tomás de Aquino, é querer o bem do outro pelo que quem ama, verdadeiramente, não pode não fazer o bem.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de junho de 2015

Castidadde como segunda inocência

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Há eunucos que nasceram assim do seio materno, há os que se tornaram eunucos, pela interferência dos homens, e há aqueles que se fizeram eunucos a si mesmos, por amor do Reino do Céu. Quem puder compreender, compreenda. Mateus 19, 12

"Ainda sou virgem!", "Já não sou virgem!"
Pelo tom de voz e o enfase utilizados quando um/a jovem afirma: “Ainda sou virgem”, ou “Já não sou virgem” descobrimos de imediato a forma como conceptualiza e vive a sua sexualidade. Seja com tristeza ou com orgulho como de facto são ditas estas duas expressões, ambas denotam vários mal entendidos com respeito à sexualidade e a virgindade.

O primeiro acto sexual marca fisicamente, psicologicamente e até culturalmente uma mulher de uma forma diferente de um homem:
Fisicamente – A mulher perde o hímen, pelo que deixa de ser fisicamente, ou tecnicamente virgem; o homem nada perde e nada ganha neste aspecto.

Psicologicamente – Para ambos, o acto pode ter sido positivo, se foi vivido no contexto de amor, ou negativo, se foi buscado só por prazer, e até traumático, se foi induzido por violência.

Culturalmente – A cultura patriarcal, ainda dominante em todo o mundo, olha para o primeiro acto sexual de uma forma inócua ou até positiva no caso do varão, negativa e até estigmatizante no caso da mulher.

Para muitas pessoas, a virgindade ou castidade é algo que é tão permanente como um castelo de areia, à espera de render-se às ondas do casamento, 'defendido' até à realização deste ou simplesmente para evitar problemas. Com o casamento, o castelo deixa de existir e portanto não precisa de ser defendido.

A virgindade, como sinónimo de castidade, é um valor e uma virtude tanto para varões como para mulheres, e é vivida por ambos de igual forma; não é portanto física, nem algo que se possui à nascença e logo se perde para nunca se voltar a ter. Os valores e virtudes que nos caracterizam e dão forma e sentido à nossa vida não são inatos, nem se possuem naturalmente, pelo contrário, são o resultado de uma rigorosa disciplina e esforço pessoais com a ajuda da graça de Deus.

Sigmund Freud provou que a castidade, pureza ou virgindade, da criança é um mito; longe de viver num estado de pureza, o bebé vive num habitat de luxúria, sem censura, com formas muito subtis de auto-satisfação sexual. É só pelo quarto, quinto e sexto ano de vida que, através da educação, a criança aprende a estar em conformidade e a viver dentro de certas normas de decência.

A partir desse momento, até a idade de 12, a 'castidade' parece ser a morada natural das crianças. Com o início da puberdade, pouco a pouco, a natureza parece voltar em força e reivindicar os seus direitos.

Escravos da liberdade sexual
Com os estudos de Freud, Wilhelm Reich e outros de finais do século XIX e a revolução sexual dos anos sessenta, em pouco tempo passamos de uma visão negativa, puritana e maniqueia, da sexualidade a uma visão da sexualidade livre de todo e qualquer constrangimento moral. A sociedade actual prostituiu o sexo, entendendo-o como um bem de consumo e usando-o subliminarmente na publicidade do que quer que seja; desta forma conseguiu desligá-lo da reprodução, do amor e até da responsabilidade, fazendo passar a ideia de que fazer sexo é como beber um copo de água. Nem o risco da sida, e outras doenças sexualmente transmissíveis dos anos oitenta, conseguiu parar esta tendência liberal permissiva.

A sociedade está de tal maneira erotizada e permissiva que a todos resulta difícil ser casto, e muito mais àqueles adolescentes e jovens que estão despertando para as vicissitudes do desejo sexual, ou 'libido', como Freud lhe chamou. A primeira experiencia sexual é cada vez mais cedo e muitos, apesar de fisicamente estarem preparados para ela, não o estão psicologicamente, moralmente e espiritualmente.

Os resultados estão à vista de todos: um grau de promiscuidade elevado que leva tanto ao rompimento dos vínculos existentes, 51% de divórcios no nosso país, como ao optar por viver juntos, em vez de casar.

São cada vez menos os que conseguem passar da pureza e inocência da infância à castidade adulta e madura sem passar por experiências sexuais negativas, traumatizantes e estigmatizantes; são cada vez mais são os que aprendem com os erros cometidos, tal como o filho pródigo da parábola de Jesus. Estes têm uma experiencia semelhante à de Adão e Eva, expulsos do paraíso, da inocência por desobediência. No entanto, o poder salvador de Jesus a todos consegue uma segunda oportunidade, uma segunda inocência.

De prostituta a virgem
Em verdade vos digo: Se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no Reino do Céu. Mateus 18, 2

Há valores e virtudes que as crianças têm naturalmente e que nós adultos, por preceito de Jesus, estamos chamados a adquirir para entrar no reino dos Ceus; para que isso aconteça, de alguma forma, temos de nascer de novo, como Jesus aconselhava a Nicodemos. Quando Jesus diz bem-aventurados os pobres, não se refere aos que nascerem e vivem pobremente, devido às suas condições económicas e financeiras, mas sim aos que podendo ser ricos decidiram ser pobres; ou seja trocaram a riqueza material pela riqueza espiritual.

O mesmo sucede com o valor da inocência, virgindade, ou castidade pelo Reino dos Céus; não se trata da inocência ou virgindade inata, em virtude da ignorância e falta de experiencia num tempo em que as hormonas sexuais testosterona e a progesterona não estavam no seu auge de produção; trata-se de uma virtude adquirida pela graça de Deus, pela oração e pelo esforço diário.

O filho pródigo e Maria Madalena aprendem o que é o 'amor verdadeiro' depois de terem experimentado algo que parecia ser amor, mas não era. Depois de conhecer a Cristo, aquela a quem alguns estudiosos se referiam com sendo prostituta, torna-se uma virgem por ter seguido o mestre. Da mesma forma o filho pródigo, só entende o que é o amor e liberdade verdadeiros depois de ter abusado, de ambos estes valores, e ter sofrido as consequências.

Os virgens e as virgens pelo reino dos Ceus são os que, qualquer que seja o seu passado, escolhem prescindir da expressão física do amor, que leva à constituição de uma pequena família humana, para se colocar ao serviço da grande família humana. Escolhem ser e viver como Jesus, o seu mestre e o seu Senhor, que também foi virgem para dedicar ao Reino dos Céus o melhor de si mesmo, todo o seu ser, o seu tempo e as suas energias.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de junho de 2015

Castidade como sublimação de energia

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A fórmula da Vida humana
A minha paixão por simplificar as coisas, levou-me a pensar numa fórmula para a vida humana; usando o grego, por tradicionalmente ser a língua da ciência, achei que a vida humana era igual ao somatório de quatro diferentes elementos ou dimensões: Eros + Thanatos + Cronos + Logos.

Eros & Tânatos - Instinto de Vida e Instinto de Morte, afectividade e agressividade, são em linguagem freudiana o polo positivo e o polo negativo da energia humana;

Cronos - É a dimensão do tempo; somos um ser espácio temporal; ocupamos um espaço durante um tempo, que corresponde aos anos que nos são dados a viver;

Logos - Refere-se à autoconsciência que temos de que estamos vivos e possuímos uma liberdade, mais ou menos relativa, para fazermos o que quisermos com a vida. Os animais e as plantas são tempo e energia regulados pela natureza, como não sabem que existem também não têm poder sobre a sua existência. No exercício da nossa liberdade, Logos é a nossa opção fundamental, é o que decidimos fazer com a nossa vida; a quê e a quem vamos dedicar todos, e cada um, dos nossos dias.

A energia da vida humana
Eros & Tânatos, instinto de vida instinto e de morte, afectividade e agressividade, ying e yang, a força centrípeta e centrífuga, o amor e o ódio, polos positivo e negativo da electricidade ou energia com que fazemos tudo o que fazemos. Sem energia nada funciona, numa sociedade, o mesmo acontece connosco.

No ser humano todos os seus actos deveriam ser inspirados e decididos pelo Logos, pela razão; mas a verdade é que o instinto, de Eros & Tânatos, não só provê a energia para a realização de todos os actos, que a razão determina, como motiva, alimenta e orienta muitos outros que se subtraem ao poder da razão; apesar dos milhões de anos de evolução desde a animalidade, o nosso comportamento é mais movido pelo instinto do que gostaríamos de admitir.

Todos os actos humanos têm uma mistura de afectividade e agressividade, mesmo os mais polarizados, tanto na afectividade, como a educação, como na agressividade, como a guerra, há sempre um pouco do polo contrário; como há um pouco de feminidade num homem e um pouco de masculinidade numa mulher. É óbvio que a educação de um filho, pelos seus pais, tem mais de afectividade que de agressividade e no entanto uma educação só afectiva teria a tendência de ser paternalista. Na educação de uma criança a afectividade, os prémios e as caricias, devem ser doseadas com alguma agressividade, castigos e disciplina.

Sublimação
No seu livro, “O mal-estar da Civilização”, Freud defende que tanto a agressividade como a afectividade desbocadas, ou seja, abandonadas a si mesmas, têm um potencial destrutivo incomensurável; podem destruir o que ajudaram a construir. O ser humano abandonou a animalidade quando ganhou poder sobre estas duas forças, quando as conseguiu domesticar, quando lhes colocou rédeas para as aproveitar positivamente.

Desta forma, o Tabu do Incesto funcionou como o “cabresto” do Eros - afectividade – instinto de vida, proibindo as relações sexuais entre pessoas ligadas por laços de sangue. Sem esta proibição a consanguinidade acabaria com a raça humana. A regra “olho por olho, dente por dente” (que pertence ao código de leis mais antigo do mundo, o código Hamurabi) funcionou como o “cabresto” do Thanatos – agressividade - instinto de morte para limitar a natureza da violência que, de por si, deixada livre, tende a escalar e alastrar-se descontroladamente levando à destruição.

Sublimar significa desviar, substituir ou modificar a expressão natural de um impulso ou instinto para uma expressão que é socialmente e culturalmente aceitável e construtiva. O exemplo de uma energia destrutiva transformada numa energia construtiva é a transformação de um touro, de touradas, num boi que lavra a terra e puxa uma carroça.

Vistas as coisas sob este prisma, a civilização humana pode ser considerada como uma história da sublimação do Eros & Tânatos, ou seja o uso inteligente que a humanidade fez destas forças ou instintos básicos. Da mesma forma, a nossa própria história pessoal consiste também nos esforços para desviar o nosso afecto e agressão naturais de seu alvo natural e primordial, a fim de promover o cultivo dos valores humanos.

A Castidade como desvio de energia
Em consonância com essa forma de pensar, o voto religioso de castidade consiste em desviar a afeição natural do homem e da mulher do seu objecto primordial, casar e ter filhos, canalizando-a para uma finalidade mais cultural. Sacerdotes, religiosos e religiosas escolhem não ter esposas e maridos a fim de estabelecer uma fraternidade mais ampla; Optam por não reproduzir-se biologicamente, e ter filhos próprios, a fim de ampliar e estender a sua paternidade e maternidade para além dos laços de sangue.

O dar à luz uma criança, ou contribuir com material genético, faz de uma pessoa um progenitor, não, de per se, um pai e uma mãe verdadeiros. Há autênticos pais que não são progenitores e progenitores que não são pais autênticos. A verdadeira paternidade envolve a dedicação completa, o dom de si mesmo aos filhos, o acompanhamento contínuo e constante até eles se tornarem adultos, e a valentia de cortar o cordão umbilical e de lhes dar o seu espaço e liberdade, quando eventualmente se tornam adultos. A este respeito, ninguém negaria a maternidade de Madre Teresa, mesmo sabendo que ela nunca deu à luz.

Considerando o facto de que, ao longo da evolução, os laços familiares têm tido mais que ver com o instinto que com o puro afecto, podemos concluir que uma sociedade, em que a interacção social se baseie unicamente em relações de família, será sempre muito fragmentada e frágil. Uma irmandade e paternidade que se estende para além dos limites dos laços de sangue, pode ser um elo de união ou cimento entre famílias; mais concretamente, pode ajudar a resolver os conflitos que surgem entre famílias rivais e contribuir para a paz e bom entendimento entre todos, tal como a cartilagem entre os ossos permite um funcionamento das articulações, evitando que osso toque osso o qual causaria dor.

Recapitulando, o curso natural do impulso amoroso é a formação de uma família, onde as relações se baseiam nos laços de sangue. A castidade sublima, ou desvia, o mesmo impulso do seu fim natural para lhe dar um fim cultural - a fraternidade universal. O amor entre pessoas que não estão ligadas entre si, por laços de sangue, actua como elemento unificador da sociedade.

Marcuse chamou a isto, “erotismo difuso” e Freud chamou-lhe, “um impulso amoroso cortado (“castrado”) do seu objectivo primordial, e dá o exemplo de São Francisco de Assis como sendo o homem que melhor sublimou a sua energia de Eros; o homem que mais e melhor partido tirou dela ao universalizar o seu eros, o seu afecto irmanando-se com toda a criação, tratando tudo e todos como irmãos e irmãs: o irmão sol, a irmã Lua, até os seus antagónicos, o irmão lobo e a irmã morte.

Alguns diriam que este conceito de amor não é natural. Na verdade, não é porque transcende a natureza, mas, nesse mesmo sentido, toda a cultura humana se opõe à natureza. De facto o que é verdadeiramente natural no Homem não é o que é dado pela natureza, mas o que ele mesmo alcança através da sua mente criativa.

A Castidade é como uma barragem
O Amor dentro do voto de castidade pode ser comparado a uma barragem. A Natureza não cria barragens, os rios correm em vales entre montanhas, ou abrindo grandes sulcos em planaltos desertos, e a sua água volta ao mar de onde saiu sem nenhum aproveitamento. Com a construção de uma barragem, o nível de água sobe a ponto de poder irrigar os campos e transformar um deserto num oásis, criando e alimentando uma sociedade agrícola e rural; por outro lado pode também ser aproveitada para fazer energia eléctrica, criando e alimentando cidades industriais onde floresce a cultura urbana.

É claro que a barragem reprime, e comprime, a água impedindo o seu fluxo natural; por isso as suas paredes têm de ser fortes e côncavas. Por outro lado, feita nos limites do possível, a mais-valia e os benefícios que se obtém da força da motriz da água para produzir energia, e da sua canalização para a irrigação, justificam plenamente a sua represa ou repressão.

Tal como as paredes côncavas e fortes da barragem, a sublimação do Eros requer que a pessoa possua um caracter forte e robusto, para conter o impulso natural do Eros que se manifesta no desejo sexual e na paternidade natural, e poder assim canalizar a sua energia para uma paternidade e irmandade mais universal. O bem que se faz aos outros, no contexto desta paternidade e irmandade universal, ecoa em nós em forma de alegria; o ver que os outros estão melhores graças à nossa actuação, compensa largamente o esforço e o sacrifício envolvido no processo de sublimação.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de maio de 2015

Amor universal sem matrinónio

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Nós, os errantes, sempre em busca do caminho mais solitário, não acabamos um dia onde o tivermos começado; e nenhum amanhecer nos encontra onde nos deixou o entardecer.
Khalil Gibran, O Profeta

O padrão dos filmes de cowboys
Nos meus tempos de criança, e de adolescente, gostava muito de ver filmes de cowboys na televisão. Hoje, pensando em retrospectiva, é claro para mim que esses filmes influenciaram, diria mesmo, forjaram de alguma forma o meu futuro. O que é que tem que ver um missionário com um cowboy herói (o bom ou artista dizíamos na altura referindo-nos ao protagonista)? Na verdade, não são assim tão diferentes; de facto têm em comum a mística que os move, a sede e o amor pela justiça e pela liberdade; só divergem na forma de actuar.

A maioria dos filmes de cowboys tem uma narrativa semelhante: No início do filme, ao som de uma música característica deste tipo de filmes, vemos o cowboy cavalgando em direcção a uma cidade. Ao chegar, rapidamente se dá conta de que algo de errado se passa naquela localidade. As ruas estão desertas e as poucas pessoas que se podem ver escondem-se atemorizadas, por detrás das suas janelas. Mesmo dando-se conta da sensação de terror, que paira no ar, o cowboy cavalga, e depois de atar o cavalo, caminha intrepidamente com a descontracção e autoconfiança que sempre o caracterizam em direcção à porta do Bar, que abre com um pontapé..

É lá que encontra os fora da lei (barrascos, como lhes chamávamos na altura) que depois de matarem o xerife, e quantos se lhes opuseram, incutiram o medo aos restantes. Enquanto pede um whisky, ao empregado de balcão, aproxima-se dele um dos bandidos para o desafiar; o whisky termina normalmente na cara do bandido e enquanto este leva a mão à pistola já o cowboy disparou sobre ele, apontando a arma aos restantes. Deste primeiro confronto ficou evidente que o nosso protagonista é um durão e, ao contrário do resto dos homens da cidade, não é facilmente intimidável.

Saindo do bar, com o mesmo à vontade com que entrou, encontra-se com as gentes da cidade para se inteirar da gravidade da situação. Inspira-lhes confiança, coragem e juntos divisam um plano e começam a trabalhar para a libertação da cidade. Muitas vezes ensina-lhe técnicas de autodefesa, que rapidamente aprendem, ganhando assim também confiança neles mesmos.

Como sempre tem que haver algum romance para despertar o interesse do público, os filmes de cowboys não são excepção. Enquanto duram os preparativos para a batalha final, uma mulher apaixona-se pelo nosso protagonista, dando assim início a um romance que se desdobra em simultâneo com o trabalho de libertação.

Eventualmente chega o dia tão esperado. Com a ajuda das pessoas da cidade, o cowboy derrota os bandidos. Aqui o padrão dos filmes de cowboys diverge um pouco; nuns quando as pessoas buscam o cowboy para lhe agradecer este já não se encontra, apenas se vê a sua silhueta cavalgando a galope contra a luz do pôr-do-sol ao som da música com que começou o filme; noutros o cowboy permanece só o tempo suficiente para se despedir daqueles a quem amou, e por quem arriscou a vida, por puro amor, pela verdade e pela justiça, sem buscar nada em troca. É certo que o povo lhe oferece, estabelecer-se ali, ser o seu Xerife, casar com a mulher etc…. Até à data não conheço nenhum filme de cowboys que acabe como os contos: “casaram-se, tiveram muitos filhos e foram muito felizes”.

São-lhe oferecidos poder, dinheiro e amor…. Que mais pode desejar uma pessoa humana debaixo do sol? Mesmo assim ele recusa e não fica, porque a justiça, a verdade e a paz, com quem ele está comprometido, e por quem ele arrisca a vida pedem-lhe que se mantenha livre… Se ele aceitasse e permanecesse na cidade, outras cidades não seriam libertadas.

Abraço inclusivo
Como o cowboy, o missionário ama universalmente. O mundo inteiro é a sua pátria e a humanidade a sua casa. Tem fome de Justiça e sede de paz. Por elas, e para elas, vive cada momento da sua vida e está sempre pronto a sacrifica-la, toda, em cada um desses momentos.

Ao longo de toda a sua vida, o missionário esforça-se para amar a todos, por igual, sem exclusivismos e em liberdade. O seu objectivo não é pertencer a uma pessoa, mas ser um com todos. Na sociedade de hoje, que coloca tanta ênfase no sexo e onde masculinidade se tornou sinónimo de desempenho sexual, um missionário, tal como Jesus no seu tempo, encarna uma maneira não-erótica de amar. Num mundo onde tantos procuram sexo sem amor, os missionários esforçam-se por amar sem sexo.

Um abraço fechado inclui algumas pessoas, mas exclui todas as outras. O missionário não fecha os braços sobre ninguém em particular, o qual não quer dizer que ame menos intensamente. Como uma mãe com vários filhos, no aqui e agora da sua vida, o missionário ama com toda a intensidade a pessoa que tem à sua frente, sem esgotar nela o seu amor, porque o amor nunca se esgota.

Embora a sociedade de hoje tenda a colocar o instinto sexual ao mesmo nível que outras necessidades físicas individuais, tais como comer e beber, a verdade, que poucos querem admitir, é que, à diferença destas apetências que são intrínsecas ao indivíduo em função dele mesmo, a apetência sexual, também intrínseca ao individuo, não se realiza em função dele mas em função da espécie. A relação sexual não é tanto uma necessidade dos seres humanos, como indivíduos, mas uma necessidade da raça humana para sobreviver.

Em função do indivíduo a prática do sexo é completamente inócua, nem tira nem acrescenta nada à pessoa que o pratica ou não pratica. Portanto, o indivíduo não precisa da realização do acto sexual para preservar, afirmar, ou aumentar a sua masculinidade ou feminilidade. Os homens e as mulheres tanto se distinguem como se complementam em todas as áreas de sua masculinidade e feminilidade, não só nos órgãos genitais.

O amor pode existir e subsistir, e faz sentido, sem sexo pois há uma infinidade de situações amorosas onde o sexo não se aplica, não entra nem deve entrar; ao contrário, o sexo sem amor não deve existir, não faz sentido, pois transforma a pessoa num objecto de prazer instrumentalizando-a e degradando-a, mesmo no caso do sexo consentido entre adultos onde ambos são sujeito e objecto.

Amar é, como diz Sto. Tomás de Aquino, querer o bem do outro. Por isso diz o provérbio espanhol “obras son amores y no buenas razones” o amor manifesta-se nas obras tal como a fé. Contrariamente ao que diz o dito popular: praticar sexo não é “fazer amor”, pois o amor manifesta-se nas obras, cresce ou decresce com e por elas.

Longe de ser a única, o acto sexual é tão só uma das muitas formas de dizer: “Eu amo-te”; e não aplica, nem é lícito, nem moral em muitas formas de amar. Mas, mesmo nas situações amorosas em que é correcta e adequada a expressão sexual, esta, por si só, nem tira nem acrescenta nada ao amor, apenas expressa ou não expressa o amor que existe ou não existe.

A necessidade é amar e ser amado
"All you need is love" costumavam cantar os Beatles nos anos 60. De facto, depois das necessidades básicas que não inclui o sexo, amar e ser amado é a única necessidade e condição sem a qual a vida humana nem existe nem subiste. Nenhuma pessoa jamais atingirá maturidade plena, como ser humano, se não for amado incondicionalmente durante a infância e amar incondicionalmente como adulto.

Quem em adulto busca ser amado, mais que amar, comporta-se afectivamente como uma criança. E como a sociedade não tolera que adultos se comportem como crianças, buscará ser amado de forma enviesada, com enganos, manipulações e jogos psicológicos; é disso que tratam as telenovelas. Quem é maduro afectivamente pode passar sem ser amado; não pode passar sem amar. Jesus na sua vida terrena, buscando sempre amar e servir os mais pobres e desfavorecidos, não buscava ser amado, mas também não repelia o amor que lhe devotavam.

Amor universal, paternidade universal
Todo o homem, e toda a mulher, têm uma vocação natural para serem pai e mãe. O missionário está chamado a realizá-la, não de uma forma biológica ou física, mas de uma forma psicológica e espiritual. Mesmo para aqueles que são pais, no sentido biológico, o mais importante não é o escasso tempo do processo de conceção, mas os longos anos do processo educativo.

O missionário não é pai trazendo mais filhos ao mundo, mas contribuindo para a educação e humanização dos que já cá estão. A sua paternidade ou maternidade não se mede pelo número de filhos biológicos que tenha gerado, mas pelas vidas que influenciou positivamente. A sua missão é inspirar os outros para que vivam de forma mais justa, mais pacífica e plena.

O missionário, tal como o vaqueiro solitário dos filmes, nunca fica num só lugar. Continua o seu caminho, levando consigo o seu desejo insaciável de justiça, o seu amor pela verdade e a sua sede de paz. Porque, para ele, a vida não se trata de estabelecer-se num local, mas de continuar a avançar, libertando os cativos e proclamando um amor que não conhece fronteiras nem condições.

E, tal como nos filmes de cowboys, a sua partida deixa uma marca indelével. Embora não busque glória nem reconhecimento, o amor que semeou floresce naqueles que tocou, transformando corações e comunidades inteiras. Assim, a sua missão perpetua-se, para além da sua própria vida, em cada ato de amor e justiça que inspirou.

O missionário ama sem esperar nada em troca. Ama em liberdade, com os braços sempre abertos, pronto para abraçar o próximo que cruzar o seu caminho. Porque, para ele, a vida é uma aventura em que o amor é a única bússola que importa. Do missionário pode-se dizer, como se disse de Jesus: "Passou pelo mundo fazendo o bem."

Conclusão -
O missionário, tal como o vaqueiro solitário, move-se por um amor universal e desinteressado, buscando a justiça e a paz sem se prender a nada nem a ninguém. A sua vida é um ato contínuo de entrega, onde o amor se expressa em obras para além das relações convencionais. Comprometido, mas não preso.

Pe. Jorge Amaro, IMC