1 de junho de 2018

CNV - Necessitar sem planear

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Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um. Como se tivessem uma só alma, frequentavam diariamente o templo, partiam o pão em suas casas e tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração. Atos dos Apóstolos 2, 44-46

Sentimentos versus necessidades
As necessidades são a principal motivação do comportamento, tanto humano como animal. Se os sentimentos são o fumo, as necessidades são o fogo; onde há fumo há fogo e vice-versa.

Os sentimentos são como um termómetro que mede a temperatura do corpo e acusa ou não febre. Se sinto que a temperatura do meu corpo subiu, é porque algo de mau se passa com o meu corpo. Pode ser uma infeção, que precisa de ser tratada.

Tanto o sentimento de dor como o do prazer são sintomas ou reações do corpo; a condição que as causa, encontra-se no interior do mesmo corpo. Por exemplo, sinto fome, necessito de alimento; sinto frio, necessito de abrigo. Da mesma forma, os sentimentos de alergia ou tristeza, medo ou coragem são reações do espírito; a condição que causa estas reações encontra-se no interior da nossa alma. Por exemplo, sinto-me só, necessito de companhia, sinto-me nervoso, necessito de relaxar, etc.

Os sentimentos são quase sempre causados por necessidades (valores) que são percebidas como sendo satisfeitas ou insatisfeitas. Estes são geralmente “provocados” pela perceção interna e externa de eventos. Porém, os sentimentos de raiva, culpa e vergonha são exceções, porque são causados por avaliações e interpretações internas de acontecimentos externos. Por exemplo, a raiva é causada quando entendo que algo ou alguém está errado.

Assumir a responsabilidade pelos nossos sentimentos
Depois de identificar os nossos sentimentos, separando-os dos pensamentos, o passo seguinte é assumir a responsabilidade pelos mesmos. Podemos fazer isto à priori, quando estamos convencidos de que os outros não podem fazer-nos sentir desta ou daquela maneira, podem espoletar um sentimento, mas não podem produzi-lo. Os sentimentos são nossos, bem nossos e não nos cabe outra alternativa senão assumir a paternidade dos mesmos. O que os outros fazem pode estimular os nossos sentimentos ou emoções, mas não são eles a causa desses mesmos sentimentos ou emoções.

Assumir os nossos sentimentos à priori não chega, não nos convence plenamente; só ficamos verdadeiramente convencidos quando os assumimos à posteriori, ou seja, quando descobrimos a necessidade pessoal que está a produzi-los, só assim evitamos a tentação de culpar os outros pelos nossos sentimentos.

Desafortunadamente, temos tendência a seguir um processo errado: em vez de fazermos um exercício de introspeção e investigar de onde vem o fumo para descobrir o fogo, em vez de indagar qual é a necessidade que está a produzir este sentimento, fazemos o contrário, um exercício de extroversão, saímos fora de nós e culpamos os outros pelos nossos sentimentos, buscando um bode expiatório.

Negar a nossa responsabilidade usando pronomes impessoais
Às vezes usamos expressões nas quais sacudimos a água do capote, mas não responsabilizamos ninguém em concreto pelos nossos sentimentos. Por exemplo:  "Fico furioso quando vejo que os nossos catálogos contêm erros ortográficos.”. Quando estamos conscientes de que a causa dos nossos sentimentos é uma necessidade insatisfeita então podemos transformar esta afirmação na afirmação seguinte: "Fico furioso quando vejo que os nossos catálogos contêm erros ortográficos porque necessito que a nossa empresa projete para fora uma imagem de profissionalismo.”

Negar a nossa responsabilidade mencionando só as ações dos outros
Uma outra forma de sacudir o capote quanto aos nossos sentimentos é mencionar as ações dos outros como sendo as causadoras deles, na esperança de que os outros se sintam culpados e façam o que nós queremos. Isto é chantagem afetiva que pode levar o outro a atuar movido pela culpa. Vejamos como isto acontece no seguinte exemplo: “a mamã fica desiludida contigo por tu não acabares a comida do prato.”

Tomando responsabilidade pelos nossos sentimentos, neste caso, leva-nos a reconhecer perante o outro a necessidade que os causa, livrando-o de toda culpa: “a mamã fica desiludida contigo por tu não acabares a comida do prato, porque quero que cresças forte e com saúde”

Negar a nossa responsabilidade culpando os outros
Quando estou desconectado das minhas necessidades tendo a responsabilizar os outros pelos meus sentimentos, usando a seguinte expressão: “Sinto… porque TU…” Exemplo: "Sinto-me irritado porque tu não compareceste ao encontro que tínhamos marcado".

Pelo contrário, quando nos conectamos com as nossas necessidades, descobrimos que é a sua insatisfação que é a verdadeira causa dos nossos sentimentos: “Sinto … porque EU” – “Senti-me irritado quando não compareceste ao nosso encontro porque eu tinha necessidade de desabafar contigo”.

Expressamos os nossos sentimentos de forma que denota que assumimos plena responsabilidade pelos mesmos; isto ajuda os outros a dar-se conta do que é importante para nós; por outro lado, ao não ouvirem críticas nem serem responsabilizados pelos nossos sentimentos, aumenta a probabilidade de que as necessidades de ambos sejam satisfeitas.

Quatro opções ante a receção de uma mensagem negativa
Experimentamos sentimentos positivos quando as nossas necessidades são atendidas e satisfeitas e sentimentos negativos quando as mesmas não são atendidas nem satisfeitas.

"Nunca queres passar tempo comigo... por que és tão egoísta?"
Quando alguém, verbalmente ou não verbalmente expressa uma mensagem negativa, temos quatro opções quanto à forma como a recebemos:

Culpabilizamo-nos a nós mesmos – Aceitamos a apreciação da outra pessoa como verídica e deixamos que esta afete a nossa autoestima; o sentimento de culpa, vergonha ou depressão podem minar a forma como nos conceptualizamos. O que quer que façamos pelo outro, no sentido de compensar o nosso egoísmo, não vai ajudar-nos nem a nós nem ao outro, pois acontece a partir do sentimento de culpabilidade.

Culpabilizar os outros - Quando culpamos os outros pelos nossos sentimentos... tendemos a estimular sentimentos de culpa nas outras pessoas. Estas podem até fazer um esforço para satisfazer essas nossas necessidades, mas fazem-no movidas por esse sentimento de culpa e não voluntariamente, pelo que, no fim, o necessitado e o que satisfaz as necessidades vão pagar um alto preço.

Detetar os nossos próprios sentimentos e necessidades – “Quando te ouço dizer que sou egoísta, sinto-me magoado porque preciso de algum reconhecimento pelo que tenho feito por ti.” Quando nos voltamos para dentro e concentramos a nossa atenção nos nossos próprios sentimentos e necessidades, tornamo-nos conscientes de que o nosso sentimento atual de dor deriva da necessidade de reconhecimento dos nossos esforços e não da crítica que nos foi feita.

Detetar os sentimentos e necessidades dos outros – Uma quarta opção é perscrutar com empatia os sentimentos e necessidades que estão por detrás da crítica negativa que nos dirigiu. Aqui somos chamados a ler nas entre linhas, a voltar a nossa atenção não tanto para o que a pessoa diz mas para o que quer dizer.

Somos chamados a psicanalisar o discurso dos outros; a comunicação não violenta dá-nos uns olhos raio X para ver numa crítica, ou até num insulto, uma expressão trágica dos sentimentos e necessidades de quem a faz.

Neste caso concreto, ao ouvirmos empaticamente a crítica negativa, sem a tomar pessoalmente, podemos perguntar, “Sentes-te magoado porque não te tem sido dada a atenção devida ou precisas de mais consideração pelos teus gostos ou preferências?"

Bem diferentes são as coisas quando aceitamos responsabilidade pelos nossos sentimentos e expressamos a necessidade que os provoca em vez de culpabilizar os outros pelo que nos vai na alma, como é o caso no seguinte exemplo:

"Dececionaste-me porque não apareceste ontem à noite” – Neste caso reportamos um facto, o nosso sentimento e culpamos e responsabilizamos uma pessoa pelo nosso sentimento. Frequentemente o nosso intuito é que se sinta culpado e que nos recompense para se redimir da culpa. Se não o faz, o nosso ressentimento aumenta e podemos entrar em conflito. Por outro lado, se o faz ambos pagaremos, tarde ou cedo, um alto preço porque o faz a partir da energia negativa do sentimento de culpa e não da energia positiva do dar gratuitamente do coração, simplesmente porque se sente bem contribuindo para o bem do outro.

Fiquei dececionado quando não te vi ontem à noite pois necessitava de partilhar algo importante contigo” – Quando, pelo contrário, eu expresso genuinamente os meus sentimentos juntamente com as necessidades que lhes estão subjacentes sem culpar o outro, tenho mais probabilidade de encontrar aceitação e empatia junto da outra pessoa e de esta atender a qualquer solicitação que eu faça depois.

É preciso entender que o sentimento de deceção não provém do facto de que o outro não compareceu, mas sim da necessidade que ficou insatisfeita. Com os meus olhos e ouvidos não violentos eu não vejo ou ouço um “NÃO” do outro à satisfação da minha necessidade, mas um “SIM” à satisfação das suas necessidades (que também são minhas porque o amo como a mim mesmo) que fizeram com que não pudesse comparecer.

Faz-te responsável apropriares-te de qualquer sentimento que surge em ti. Se ele surge em ti, é teu; os sentimentos não são aéreos, não viajam pelo ar, não vêm de fora de ti: são terrestres, procura no teu interior a sua causa e origem. Ao fazê-lo, e ao encontrares uma necessidade que não está a ser satisfeita, dá-te conta que exatamente a mesma coisa - uma necessidade não satisfeita - foi o que fez o outro fazer o que fez e dizer o que disse.

Em CNV, nunca devemos esquecer e devemos ter sempre presente nas nossas mentes que todas as análises, avaliações, críticas e comportamentos negativos – nossos ou dos outros – percecionados por nós são simplesmente trágicas expressões alienadas e alienantes de necessidades não satisfeitas e inconscientes. Se os outros e nós mesmos nos dermos ao trabalho de descobrir as necessidades subjacentes aos nossos sentimentos, não precisamos de expressar os nossos sentimentos de forma tão trágica ou violenta como habitualmente fazemos.

O que são necessidades?
As nossas necessidades são a expressão da nossa mais profunda humanidade. Todos os seres humanos partilham necessidades fundamentais para a sobrevivência: hidratação, nutrição, descanso, abrigo e conexão, entre outras. Também partilhamos muitas outras necessidades, embora possamos experimentá-las em diferentes graus, com maior ou menor intensamente em vários momentos.

No contexto da CNV, as nossas necessidades são o que há de mais vivo em nós: os nossos valores centrais e os nossos mais profundos desejos humanos. A identificação, compreensão e conexão com as nossas necessidades ajudam-nos a melhorar a nossa relação connosco mesmos e com os outros, ficando todos mais propensos a empreender ações que atendam às necessidades de todos.

Sentimentos e necessidades são a linguagem da vida. Porém temos sido educados em culturas de dominação desde há 10.000 anos, de tal maneira que nos desligámos das nossas necessidades. As pessoas não são bons escravos, obedientes à autoridade, quando estão vivas e plenamente conscientes de seus sentimentos e necessidades.

Os poderes instituídos querem que neguemos as nossas necessidades, que não estejamos conectados com elas porque elas são um peso; fazem-nos dependentes dos outros. Por que é que as estruturas do poder nos induzem a fazer esta associação? Porque isso faz com que outro grupo de pessoas sacrifique as suas necessidades. Ou seja, somos induzidos a pensar que as nossas necessidades sempre serão satisfeitas à custa das necessidades dos outros; alguém tem de sacrificar as suas necessidades para que as nossas sejam feitas.

A minha mãe pode ter sacrificado as suas necessidades para que 10% das minhas fossem satisfeitas; acredito que 90% de tudo o que fez por mim foi por amor. Isto faz com seja difícil confiar nas pessoas: quando me dão, nunca sei ao certo se é por amor ou por qualquer outra razão que me faça devedor perante quem me dá.

Esta ideologia parece supor que o nosso mundo tem recursos escassos e que não há outra forma de satisfazer as nossas necessidades sem que alguém sacrifique as suas, o que não é verdade. A CNV diz-nos precisamente o contrário: não somos co dependentes, mas interdependentes. O nosso mundo tem suficientes recursos para que as necessidades de todos sejam satisfeitas e ninguém tenha de sacrificar as suas.

Temos tido uma formação cultural segundo a qual é vergonhoso ter necessidades; o que as tem e tenta satisfazê-las é tido como egoísta. O sistema de dominação educa-nos, malvadamente, para nos esquecermos de nós mesmos, dos nosso sentimentos e necessidades e para sermos “robôs altruístas” ao serviço do sistema. Por exemplo, as mulheres não devem ter necessidades, devem sacrificá-las em beneficio das suas famílias... Os homens fortes não têm necessidades, estão dispostos a sacrificar as suas vidas ao serviço do seu país, do seu rei, da sua bandeira.

Apesar de todas as tentativas para negar a sua existência, as necessidades fazem referência aos recursos necessários para sustentar e enriquecer a vida. Mais uma vez, referimos que a natureza humana é imutável, não muda ao longo do tempo nem do espaço. Por isso, tal como os sentimentos, as necessidades humanas são universais, transcendem os costumes culturais, as latitudes e longitudes assim como os condicionamentos históricos ao longo do tempo.

Frequentemente as necessidades são expressadas em forma de valores éticos ou morais, havendo de facto uma verdadeira equivalência entre os dois conceitos: uma necessidade existe com referência a um valor, assim como um valor moral existe com referência a uma necessidade.

Em CNV, as necessidades ou valores são salientadas como sendo a componente mais importante para uma conexão compassiva com o outro. A qualidade da conexão pretendida na comunicação não violenta é improvável enquanto não nos ligarmos a este nível connosco mesmos e com os outros.

Nove necessidades básicas
Pois, que aproveita ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma? Ou, que daria o homem pelo resgate da sua alma? Marcos 8:36,37

A saúde das chamadas “economias saudáveis” é inversamente proporcional à doença dos trabalhadores que as sustêm. Para que serve ter uma economia saudável se a saúde desta é à custa da saúde física, psíquica, moral e espiritual das pessoas? O que é mais importante a economia ou as pessoas?

Manfred Max-Neef, o pai da economia do “pé descalço”, desenvolveu um sistema económico baseado na satisfação das nove necessidades básicas. Segundo ele, o sucesso económico não está baseado no produto interno bruto, mas sim em como estas nove necessidades básicas são satisfeitas por todos na população. Fundamentalmente, o que interessa numa economia não é a riqueza que se produz, mas a qualidade de vida que proporciona às pessoas abrangidas por essa economia.
  1. Sustento – ar, água, comida, exercício, expressão sexual…?
  2. Segurança – abrigo, proteção, 
  3. Amor - amar e ser amado, confiança, integridade, respeito, honestidade
  4. Empatia - solidariedade, colocar-se no lugar do outro e o outro no nosso lugar
  5. Diversão – jogo, recreação, atividades de tempos livres
  6. Comunidade – interdependência, pertença, afiliação
  7. Criatividade - criar coisas novas, inovação
  8. Autonomia – liberdade, independência, autodeterminação, autoestima
  9. Necessidade de significado - sentido último, contribuir para a vida, é importante para viver as nossas vidas plenamente; sentido da vida
Avaliações - sentimentos - necessidades
Às vezes descrevemos os nossos sentimentos com substantivos ou até verbos, vejamos como podem ser descritos.


Avaliações
Sentimentos
Necessidades
Sinto-me abandonado
mágoa, tristeza, solidão
Conexão, companhia, ajuda, pertença
Sinto-me atacado
Medo, desafio, hostilidade
Consideração, segurança
Sinto-me humilhado
Ira, mágoa desilusão
Respeito, apreço
Sinto-me traído
Ira, desilusão
Confiança, honestidade, honra, compromisso
Acusado
Confusão, medo, hostilidade
Justiça, responsabilização
Acossado
Medo, pressão
Autonomia, segurança, consideração
Enganado
Ressentimento, ira, mágoa
Honestidade, justiça, confiança, fé
Criticado

dor, ansiedade, frustração, humilhação
Compreensão, reconhecimento, respeito
Ignorado
solidão, mágoa, tristeza, embaraço
Respeito consideração, reconhecimento
Insultado
Irritação, embaraço
Respeito, consideração, reconhecimento
Intimidado
Medo, ansiedade
Segurança, igualdade, validação
Ignorado
Tristeza, solidão, ansiedade
Inclusão, pertença
Isolado
Solidão, medo
Pertença, comunidade, inclusão, contribuição
Julgado
Ressentimento, medo, mágoa
Justiça, igualdade, consideração
Manipulado
Irritação, impotência, frustração
Confiança, igualdade, autenticidade
Incompreendido
preocupação, frustração
Ser ouvido, clareza, compreensão
Provocado
Irritação, hostilidade, ressentimento
Respeito, consideração


Necessidades e valores
A comunicação não violenta, como sugere a imagem que acompanha este texto, divide as necessidades em grupos: sobrevivência, proteção, sentido, autonomia, interdependência, honestidade, empatia, bem-estar, regeneração, transcendência.

Maslow coloca estas mesmas necessidades numa pirâmide hierárquica na perspetiva do que é mais importante e mais urgente, entendendo que o ser humano não tem, por exemplo, necessidade de realização pessoal enquanto não tiver as necessidades básicas satisfeitas.

A satisfação da necessidade inferior leva a sentir a necessidade posterior ou a que se lhe segue e assim por diante, até ao cimo da pirâmide; e vice-versa, a insatisfação da necessidade imediatamente inferior leva a não sentir a necessidade imediatamente superior.

Assim, na base da pirâmide estão as necessidades fisiológicas, seguidas, num movimento ascendente, pelas necessidades de segurança, necessidades sociais, necessidades de estatuto, autorrealização e espirituais ou de transcendência.

Para a CNV as necessidades e os valores são sinónimos. Quando se referem ao corpo, ou seja, as que estão mais na base da pirâmide de Maslow, a designação “necessidades” é mais comum; pelo contrário, quando se referem mais ao espírito, as que correspondem às partes superiores da pirâmide de Maslow, é mais comum designá-las como valores.

É importante também referir que a CNV pratica ou pressupõe a prática do segundo mandamento do amor, “Ama o próximo como a ti mesmo”. De facto, as necessidades dos outros são vistas e tidas como necessidades minhas e vice-versa. Eu tenho necessidade de que tu te alimentes, que sejas amado e respeitado. Em CNV não queremos Deus para nós e o diabo para os outros, porque sabemos que se o outro perde nós também perdemos.

No nosso próprio interesse, não devemos ser egoístas; o egoísmo não traz vantagens para ninguém, nem mesmo para o egoísta. Nunca ninguém foi ou será verdadeiramente feliz à custa dos outros. Como dizia o teólogo Paul Tillich, “a crueldade para com os outros, é sempre crueldade contra nós mesmos”. Rosenberg chega a dizer que “a nossa sobrevivência como espécie depende de nossa capacidade de reconhecer que o nosso bem-estar e o bem-estar dos outros, na verdade, são uma e a mesma coisa."

Necessidades - estratégias – preferências - desejos
As necessidades são as principais qualidades e valores que todos compartilhamos como seres humanos, elas são o que dirige as nossas ações e comportamentos. Do ponto de vista da CNV, todo o comportamento humano surge de uma tentativa de satisfazer uma necessidade humana. Tudo o que os seres humanos fazem é para satisfazer as suas necessidades.

As necessidades são o fim ou objetivo a conseguir, as estratégias são o meio para atingir esse fim, as preferências são o modo como satisfazer uma necessidade e o desejo é esse mesmo modo projetado no futuro. As necessidades são universais, enquanto que as estratégias não o são, variam de pessoa para pessoa, de geração para geração, de cultura para cultura; de facto, as necessidades não fazem qualquer referência a uma pessoa específica fazer um ato específico, já que isso seria uma estratégia não uma necessidade.

A estratégia ou preferência é um método específico para satisfazer uma necessidade. Quando por exemplo dizemos “necessito do teu amor”, confundimos necessidade com estratégia. Neste caso a necessidade é a de amar e ser amado, o outro é somente a estratégia para satisfazer essa necessidade. É preciso ter em conta que há mil e uma estratégias para a satisfação de cada necessidade.

Confundir necessidade com estratégia, no caso do amor, pode até ser perigoso. “Necessito do teu amor” pode muito bem levar a crimes passionais e ao suicídio. Ninguém é imprescindível, a necessidade de amor pode muito bem ser satisfeita por muitas milhares de pessoas. Confundimos na vida real necessidades com preferências, estratégias e desejos. As necessidades são universais; preferências, estratégias e desejos são individuais ou pessoais e podem variar de cultura para cultura e de geração para geração.

A chave para nos ligarmos, identificarmos e expressarmos as nossas necessidades é concentrarmo-nos em palavras que descrevem a nossa experiência humana comum em vez de palavras que descrevem estratégias específicas para satisfazer essas necessidades. Sempre que incluímos uma pessoa, um local, uma ação, uma vez ou um objeto na expressão do que nós queremos e necessitamos, estamos a descrever uma estratégia, em vez de uma necessidade.  Por exemplo: "Eu quero que venhas à minha festa de aniversário" pode ser uma estratégia particular para satisfazer a necessidade de amor e conexão.

A gramática do amor na CNV
- Amas-me?
- Antes de responder, preciso de saber se estás a usar a palavra amor como sentimento?
- Claro!
- Em CNV é uma necessidade e não um sentimento. Mas uma vez que estamos esclarecidos a respeito disto, pergunta-me outra vez.
- Amas-me?
- Quando?
- Quando?
- Sim porque os sentimentos mudam de minuto para minuto, por isso preciso de saber a que momento te referes
- Hummm…  e se for agora mesmo!
- Não, mas pergunta-me daqui a pouco pode ser que a resposta seja outra
Marshall Rosenberg

Ao longo dos séculos, o amor tem sido apresentado ao mesmo tempo como necessidade, sentimento e ação; por isso, nomeadamente em inglês, a palavra “amor” – (love) pode ser usada simultaneamente como substantivo, verbo ou adjetivo. Em CNV, porém, a mesma realidade não pode ser ao mesmo tempo uma necessidade, um sentimento e uma ação. Os sentimentos são alertas para necessidades satisfeitas quando são positivos e para necessidades insatisfeitas quando são negativos; por outro lado, as ações são requeridas ou motivadas pelas necessidades.

Para a CNV, o amor não é uma ação, porque não é um verbo, mas é uma necessidade que motiva muitos tipos de ações que levam o indivíduo a satisfazer a necessidade de amar e ser amado. Como dizia S. Tomás de Aquino, amar é querer o bem do outro. Neste sentido, o amor traduz-se nas boas obras que os outros nos fazem ou que nós fazemos aos outros.

O amor não é um sentimento porque não é um adjetivo que qualifique um substantivo. Como refere Rosenberg, os sentimentos são voláteis e efémeros; à exceção do luto, não podemos sentir um sentimento por mais de 40 segundos. É claro que o amor envolve sentimentos porque são eles que nos dizem se a necessidade de amar e ser amado está ou não a ser satisfeita. Por exemplo o sentimento de empatia revela que a minha necessidade de amar está a ser satisfeita; pelo contrário, o sentimento de ciúme revela que a minha necessidade de ser amado não está sendo satisfeita.

Concluindo, o amor como necessidade suscita sentimentos, mas não suscita um específico, pois suscita muitos e variados. Leva a pessoa a atuar, mas não a realizar uma única ação específica; os atos de amor são muitos e variados.

Sendo a primeira necessidade humana não física, para a CNV o amor é um substantivo, uma necessidade que, como todas as outras necessidades, busca satisfação. A necessidade de comida, por exemplo, faz-se sentir tanto no nosso psiquismo como no nosso corpo; uma vez sentida, move a pessoa a fazer algo para a satisfazer. Assim é a necessidade de receber amor e a necessidade de dar amor; faz-se sentir no nosso psiquismo de forma a levar a pessoa a fazer obras que satisfaçam tanto uma como a outra; para a criança, o prioritário é ser amado, apesar de já ser capaz de amar, para o adulto o prioritário é amar, apesar de também necessitar que o amem.

O amor é uma necessidade universal e, como tal, não faz referências a uma determinada pessoa fazer uma ação específica. Cada necessidade humana tem mil e uma formas ou estratégias para ser satisfeita. No caso da necessidade de amar e ser amado, em teoria, o mundo tem 7 mil milhões de pessoas que a podem satisfazer. Podendo entrar em colisão com a forma como o amor romântico é conceptualizado, em CNV não confundimos estratégias ou preferências com necessidades.

Portanto as várias formas de satisfazer a necessidade de amar e ser amado, assim como as pessoas por nós escolhidas para satisfazer estas necessidades, pertencem ao âmbito das estratégias ou preferências pelo que, em princípio, nada têm que ver com a necessidade em si.

Expressões como “Estou perdidamente apaixonado por ti”, “Necessito do teu amor”, “Sem ti não sei viver” parecem confundir necessidade com preferência. Mesmo quando estas expressões são genuínas, e mesmo quando, com o passar do tempo, o amor se confunde com a pessoa amada de forma a serem uma única realidade, mesmo aí, e por razões de clareza, o amor é a necessidade, a pessoa amada a preferência; ou seja, em 7 mil milhões de possíveis amantes e destinatários do meu amor, escolho-te a ti, prefiro-te a ti.

Exercícios de reconhecimento de necessidades
Irritas-me quando esqueces documentos da empresa na sala de conferências” – Esta afirmação parece supor que o comportamento do outro é responsável pelos sentimentos de quem a faz; não revela nem os pensamentos nem as necessidades que estão por baixo do sentimento de irritação. Para que tal acontecesse, a pessoa teria de dizer “Fico irritado quando deixas documentos da empresa na sala de conferências porque necessito que os nossos documentos estejam guardados em segurança.”

Sinto-me desapontado porque disseste que o fazias e não o fizeste” – Há aqui uma acusação implícita; para expressar sentimentos e necessidades, o interlocutor teria de dizer, “Quando disseste que o fazias e depois não o fizeste, senti-me desiludido porque tenho necessidade de confiar nas tuas palavras”.

Sinto-me intimidado quando levantas a voz” – Para ser fiel aos seus sentimentos e necessidades, o interlocutor deveria ter dito, “Quando levantas a voz, tenho medo que alguém seja magoado e eu preciso de saber que todos aqui estão em segurança”.

Sinto-me contente por teres recebido aquele prémio - Para expressar os sentimentos e necessidades por trás da afirmação, deveria dizer, “Quando recebeste aquele prémio, senti-me contente porque estava à espera que fosses reconhecido por todo o trabalho que tiveste no projeto”.

Sinto-me agradecido por me teres dado uma boleia pois ontem tinha necessidade de chegar a casa antes dos meus filhos” – Perfeita afirmação de sentimentos e necessidades.
Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de maio de 2018

CNV - Sentir sem subterfúgios

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O que são as emoções ou sentimentos?
Sentimentos ou emoções, são sinais que recebemos do nosso corpo ou do nosso espírito, alertando-nos para o estado atual das nossas necessidades - satisfeitas ou insatisfeitas.

Como provêm tanto do corpo como do espírito, podem consistir em sorrisos, olhares, expressões faciais, dores de cabeça ou estômago, e emoções como raiva, medo, frustração, culpa, deceção.

Só há uma natureza humana que não muda, nem ao longo do tempo, de geração em geração, nem ao longo do espaço, de cultura em cultura ou civilização: os sentimentos ou emoções, tal como as necessidades que lhes são subjacentes, são universais. Todas as pessoas têm as mesmas emoções ou experimentam os mesmos sentimentos, porque estes derivam dessa natureza humana que não muda.

A chave para identificar e expressar sentimentos é concentrarmo-nos em palavras que descrevam a nossa experiência interior, em vez de palavras que descrevam as nossas interpretações das ações dos outros. Por exemplo: "sinto-me só" descreve uma experiência interior, enquanto que "sinto que tu não me amas" descreve uma interpretação dos sentimentos do outro.

Sentimentos e pensamentos
Os pensamentos são processos cognitivos ou intelectuais que visam a descoberta da verdade; seguem um procedimento dialético, lógico e dedutivo que parte de uma ou mais premissas e leva a uma conclusão que, às vezes, é uma decisão. Os pensamentos podem ser abstratos, mas a maior parte das vezes debruçam-se sobre realidades qualificáveis, quantificáveis e verificáveis.

Quanto à sua natureza, podem incluir crenças, ideais, opiniões, projetos. Os sentimentos são o que de mais pessoal e intransferível existe no ser humano; os pensamentos podem ser copiados, os sentimentos não: de alguma forma, estão sujeitos a “copy-right” ou direitos de autor.

Le cœur a ses raisons que la raison ne connaît point – Como muito bem entendeu Pascal, os sentimentos são mais difíceis de definir, pois não surgem da cabeça, mas vêm do profundo do nosso ser. Não são provocados por nós, ou seja, não estão sujeitos à nossa vontade, não há nada que eu possa fazer para sentir uma emoção particular. Os sentimentos afloram à nossa consciência, automaticamente, sem querermos e sem serem anunciados: são imprevisíveis. Precisamente por causa disto, os sentimentos ou emoções não foram objeto de estudo de nenhuma ciência, nem mesmo da psicologia.

De certa forma, não somos responsáveis pelos nossos sentimentos pois não temos nenhum poder sobre eles nem podemos produzi-los, evitá-los ou apagá-los; no entanto, eles são nossos, porque vêm de dentro de nós e não são provocados por outras pessoas ou circunstâncias.

Quando afloram à nossa consciência não nos resta outra alternativa senão assumi-los e responsabilizarmo-nos por eles. São alertas valiosos, mensageiros do nosso estado tanto físico como moral e espiritual. Ignorá-los é estar divorciados de nós mesmos, é não saber a quantas andamos, é estarmos perdidos. Os nossos sentimentos são um dedo apontado para uma necessidade satisfeita ou insatisfeita.

Espiritualmente, os sentimentos são um pouco como a própria vida: como não temos poder sobre a nossa vida, também o não temos sobre os nossos sentimentos; não podemos comandá-los, não podemos deixar de sentir ou começar a sentir qualquer sentimento especial; tal como acontece com a vida, a única coisa que podemos fazer é administrá-los.

Ao fazê-lo, podemos optar por ignorá-los, reprimi-los, escondê-los ou expressá-los. Para isso, precisamos ter alguma inteligência emocional para os identificarmos e nomearmos. Alguns são hábeis nesta tarefa, porém a maioria, em virtude da nossa educação e formação cultural, é emocionalmente analfabeta.

Os indivíduos “cerebrais” tendem a ver o mundo a preto e branco, não gostam da imprecisão. Entendem que as pessoas são muito incertas e inconstantes, pelo que tendem a concentrar-se mais em coisas tangíveis, fáceis de conceptualizar, buscando a verdade, quantificando e qualificando, aplicando regras gerais. Estas pessoas são vistas pelas sentimentais como frias, sem coração, pedantes e robôs calculistas.

Os emocionais ou sentimentais estão mais voltados para as relações e considerações sociais; estão à escuta do seu coração e têm em conta os sentimentos dos outros. Para os sentimentais, as coisas materiais valem na medida em que estão ao serviço da existência humana que é o mais importante.

No trabalho são sociáveis e prestáveis, as suas decisões baseiam-se mais em valores humanos que em regras gerais. Para os cerebrais, os sentimentais não são pessoas confiáveis, pois os sentimentos são volúveis.

No interior da pessoa humana, os pensamentos e sentimentos estão destinados a entenderem-se porque estão tão interligados que uma confusão emocional é também uma confusão mental. As pessoas emocionalmente sensíveis tendem a ver e experimentar o mundo através das suas emoções. Alguns sentem, mas não conseguem nomear ou identificar as emoções nem as razões ou causas delas. Por outro lado, como as emoções são a sua principal maneira de experimentar os eventos de vida, podem chegar a rotular os seus pensamentos como emoções.

Por exemplo, quando alguém diz, “sinto-me estúpido," tanto o pensamento como o sentimento são expressados de forma inadequada. Entendendo a expressão como pensamento, seria "sou estúpido"; como sentimento, está relacionado com vergonha, tristeza ou dor. Se uma pessoa sente emoções, mas não consegue rotulá-las, torna-se mais difícil lidar com elas. Os rótulos ou etiquetas são fundamentais na gestão das emoções.

Alfabetização emocional – o afetivo é eficaz
A nossa cultura não nos treina para identificarmos sentimentos e, frequentemente, não sabemos como nos sentimos; não temos palavras para expressar o que sentimos emocionalmente ou sentimentalmente, pelo que somos iletrados.

Ser emocionalmente letrado significa saber diferenciar pensamentos e sentimentos, assim como ser capaz de nomear os nossos sentimentos e os dos outros, avaliar a sua intensidade, o que os causa e o que fazer com eles, assumindo a responsabilidade pela forma como os nossos sentimentos pode afetar os outros. É também ser capaz de lidar com as nossas emoções e com as dos outros, de maneira a melhorar a qualidade de vida de ambas as partes. A alfabetização emocional consiste em fazer com que as nossas emoções atuem a nosso favor e não contra nós.  Melhora as relações humanas, cria laços afetivos entre as pessoas, facilita o trabalho em grupo, possibilita a cooperação entre indivíduos desenvolvendo o sentido de comunidade.

Todos temos algo a aprender sobre as nossas emoções. Algumas pessoas crescem com um alto nível de alfabetização emocional, outros são emocionalmente analfabetos. As emoções existem como parte essencial da natureza humana: quando estamos desconectados delas, perdemos um aspeto fundamental do nosso potencial humano. É no reconhecimento e gestão dos nossos sentimentos e na resposta adequada às emoções dos outros, que aumentamos o nosso poder pessoal, tanto na vida profissional como na vida privada.

Ser emocionalmente letrado significa estar capacitado para identificar as emoções que eu e os outros sentimos, a sua intensidade, o que as causa e o que fazer com elas; ser emocionalmente letrado significa saber como lidar com as nossas emoções porque as compreendemos. Também significa desenvolver empatia e aprender a assumir a responsabilidade pela forma como as nossas emoções afetam os outros.

Os jornais estão cheios de histórias de como pessoas bem-sucedidas e inteligentes cometem graves erros emocionais, acabando por arruinar a sua vida. Emoções como a raiva, o medo, a vergonha, o prazer sexual, fazem com que pessoas espertas se comportem de maneira estúpida.

Verdadeira fortaleza
Não descubras o teu peito/ por maior que seja a dor /pois quem o seu peito descobre/ de si mesmo é traidor.

Todos em geral, mas mais os varões, crescemos ignorando as nossas emoções ou sentimentos, na crença de que é vergonhoso, fraco e assustador falar sobre eles. O que fazemos connosco fazemos com os outros, pelo que igualmente desprezamos e ignoramos as emoções e os sentimentos dos outros quando estes têm a coragem de os expressar.

A nossa cultura tende a reservar a vivência dos sentimentos para o seio da família. Fora desta, na vida profissional, no trabalho e nas relações sociais públicas não se devem expressar, pois estas relações querem-se funcionais, neutras, inócuas, impessoais; na esfera da vida pública não se aconselha a que nos envolvamos pessoalmente e, por isso, usamos um sem número de máscaras, que fazem de nós robôs e das nossas relações uma farsa.

Como os sentimentos dizem mais de nós que os pensamentos, a tendência é escondê-los, pois seria dar parte de fraco mostrar o nosso lado vulnerável e ser presa fácil nas mãos dos outros. Só nos abrimos com os amigos e, mesmo com estes, estamos de pé atrás, não vá dar-se o caso de serem falsos; “Livre-me Deus dos meus amigos que dos meus inimigos me livro eu”.

Quando vires a sombra de um gigante, olha a posição do sol para ver se não se trata da sombra de um anão. (Friedrich Novalis)

Aplicamos a lógica que funciona entre os animais: diz-se que um cão consegue farejar o nosso medo e, quando isto acontece, ataca-nos mais facilmente. Escondemos a nossa debilidade projetando uma identidade que não é a nossa. Um jogo que pode não ser bem-sucedido, pois se o outro o percebe terá todo o gosto em nos tirar o tapete debaixo dos pés e assim obrigar-nos assumir a nossa verdadeira identidade com vergonha e desonra.

Por isso me comprazo nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições e nas angústias, por Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte. 2 Cor 12, 10

Para Rosenberg, longe de ser contraproducente revelar os nossos sentimentos, é antes uma mais valia. Cita vários exemplos para provar o que já S. Paulo tinha percebido dois mil anos antes: quando assumimos as nossas debilidades com valentia, passamos a ser fortes pois estamos na verdade; e não há posição mais vulnerável que colocar-se na mentira e projetá-la para os outros.

Rosenberg refere a visita que fez a uma escola secundária, para falar da linguagem não violenta; ao entrar numa sala de aulas, os alunos, que até então estavam animados a conversar uns com os outros, ficaram em silêncio; Rosenberg disse “bom dia” e ninguém respondeu, o silêncio era sepulcral. “Senti-me desconfortável” diz, mas prosseguiu de uma forma profissional como se nada fosse. A turma não parecia interessada no seu discurso e cada um continuou a fazer as suas coisas; o desconforto foi aumentando, mas Rosenberg ignorou-o.

Por fim, um aluno confrontou-me dizendo “Não gostas de negros, pois não?” Apercebi-me imediatamente, diz Rosenberg, que eu tinha sido o culpado desta falsa perceção por parte dos estudantes porque pretendi esconder o desconforto que eu sentia por não estar a conseguir ligar-me com eles. O meu erro foi pretender esconder o que a minha linguagem corporal revelava claramente; o erro dos estudantes foi em interpretar essa linguagem corporal como racismo da minha parte.

Reconhecendo desta vez os meus sentimentos respondi: “Sinto-me nervoso, mas não porque sejais negros, mas sim porque não conheço nenhum de vocês e estava ansioso se iria ou não ser aceite”. Esta expressão de vulnerabilidade foi a varinha de condão que transformou uma turma desinteressada no tema, numa turma participativa e interessada.

Houve um tempo em que se dizia que os homens não choram e em psicologia não se estudavam as emoções pois entendia-se que era impossível abordá-las cientificamente. Depois que vimos lágrimas nos olhos de algumas figuras públicas, em especial de políticos, depois que Daniel Goleman publicou um livro chamado “A Inteligência Emocional” que foi um “best seller”, os sentimentos são agora mais valorizados e já não são tão associados à fraqueza, mas sim ao caráter humano. Ser humano é ser capaz de compaixão e misericórdia ante o próprio sofrimento e o sofrimento dos outros.

Os psicopatas podem facilmente operar sem as restrições que limitam os outros mortais. Podem mentir, roubar, extorquir, mutilar e matar sem se sentirem culpados. Quando ganham poder sobre outras pessoas, podem tornar-se extremamente perigosos. Recordemos o imperador romano, Calígula, Adolf Hitler ou Estaline. A História está repleta de exemplos que se encontram em todas as facetas da vida individual, familiar, na política, nos negócios, nas ruas, etc.

Lista de sentimentos quando as nossas necessidades não estão satisfeitas
Zangado – irritado – em causa – confuso - dececionado – desanimado - angustiado - envergonhado - frustrado - indefeso - infeliz – impaciente - irritado - solitário - nervoso - oprimido - perplexo - relutante – triste - desconfortável - confuso

Lista de sentimentos quando as nossas necessidades estão satisfeitas
Maravilhado - confortável - otimista - confiante - energético – repleto – realizado - inspirado – alegre - feliz esperançoso – orgulhoso - aliviado – grato - surpreendido - sensibilizado - confiante

Identificação de sentimentos
Expressão de sentimentos que contêm uma autoavaliação
“Sinto que não fui tratado com justiça” - Rosenberg adverte para o facto de, frequentemente, confundirmos pensamentos com sentimentos. Por isso, quando a expressão “sinto…” é seguida por qualquer outra palavra que não um adjetivo, não estamos a expressar sentimentos, mas sim pensamentos ou opiniões: “Sinto-me como se estivesse a falar com uma parede” é um pensamento disfarçado de sentimento. Por outro lado, para expressar um sentimento, nem precisamos de dizer “eu sinto”, podemos expressá-lo diretamente: em vez de “sinto-me irritado” pode dizer-se simplesmente “estou irritado”.

Sinto que sou um fracasso como guitarrista” – Não estou a expressar um sentimento, mas uma autocrítica depreciativa da minha habilidade como guitarrista. O sentimento seria, “sinto-me frustrado (impaciente, dececionado) comigo mesmo por causa do meu desempenho na minha última atuação.

Expressão de sentimentos que contêm uma avaliação dos outros
“Sinto que não sou importante para o meu patrão” – Esta é uma descrição de como eu acho que o meu patrão me avalia, não a genuína expressão de um sentimento que seria “sinto-me triste ou desencorajado”. Quando expressamos sentimentos, os outros não fazem parte da equação, pois, como dissemos, os sentimentos são o que há de mais pessoal e privado. Os outros podem espoletar em nós sentimentos, mas a causa destes está sempre em nós e não nos outros.

“Sinto-me incompreendido” – Eis mais uma avaliação da capacidade de compreensão do outro; o sentimento seria “sinto-me ansioso, ou irritado”.

“Sinto-me ignorado” – Mais uma vez, esta é uma interpretação negativa das ações dos outros. A mesma situação ou evento poderia ter duas leituras opostas: se gostamos da pessoa que nos ignora, sentimo-nos magoados, pois queríamos estar envolvidos, mas se não gostamos da pessoa que nos ignora até nos sentimos aliviados.

Para evitar confusões, evitemos a expressão “sinto…” para não cairmos na tentação de expressar um pensamento ou uma avaliação; pelo contrário, usemos o nosso vocabulário emocional e expressemos diretamente o adjetivo que melhor qualifica o nosso estado de espírito: “estou confuso, estou preocupado…”

Como se relaciona a observação com os sentimentos
Depois de ter expressado ao nosso interlocutor o que objetivamente observámos, implicamo-nos pessoalmente nessa observação, não emitindo uma crítica ou uma avaliação, mas expressando o sentimento que a observação desencadeia em nós, nomeando a emoção ou o sentimento que experimentamos, sem nenhuma apreciação moral, o que permite ligarmo-nos à pessoa em questão num espírito de respeito mútuo e cooperação.

Devemos executar esta etapa com o objetivo de identificar com precisão a sensação ou emoção que nós ou a outra pessoa estamos a experimentar naquele preciso momento, não com o intuito de envergonhar o outro pelo seu sentimento nem para tentar impedi-lo de sentir o que sente. Como os sentimentos são difíceis de colocar em palavras, devemos fazer isto tentativamente, consultando e certificando-nos junto do nosso interlocutor se estamos certos ou errados. Vejamos alguns exemplos:
  •  “Já só falta uma hora para o início do programa, vejo que aceleraste o passo, (observação) estás nervoso (indaga acerca do sentimento do outro)?”
  • "Vejo o teu cão a correr e a ladrar sem trela (observação). Tenho medo (sentimento)".
  • "Vi que o teu nome não foi mencionado nos agradecimentos (observação). Ficaste ressentido porque não te apreciam e valorizam como mereces?" (indaga acerca do sentimento do outro)”
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de maio de 2018

CNV - Observar sem julgar

3 comentários:

Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Lucas 6, 37

Se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no Reino do Céu. Mateus 18, 3

O símbolo da justiça, assim como o seu significado, é universalmente conhecido: a senhora de olhos vendados que significa neutralidade e imparcialidade, a balança na mão para avaliar e ponderar equitativamente os atos imputáveis, de espada na mão denotando o poder para executar uma sentença.

Porém, se olharmos para esta mesma figura com os olhos puros de uma criança, que desconhece a sua carga simbólica e cultural, ela pode representar a forma como nos comportamos. Avaliamos e sentenciamos os outros, guiados por preconceitos, pois temos os olhos vendados à realidade observável.

As observações são o que podemos ver e ouvir, que identificamos como o estímulo das nossas reações. O objetivo é descrever de forma objetiva, concreta e neutra o motivo da nossa reação, tanto quanto possível como uma câmara de vídeo teria captado o momento. Isso ajuda a criar uma realidade partilhada com a outra pessoa. A observação é o contexto para a nossa expressão de sentimentos e necessidades e pode mesmo não ser necessária se ambas as pessoas estiverem esclarecidas sobre o contexto.

A chave para uma observação a fazer é separar os nossos próprios julgamentos, avaliações ou interpretações da nossa descrição do que aconteceu. Por exemplo, se dizemos a outra pessoa: "és antipático", ela pode discordar; mas se dissermos "hoje não me cumprimentaste ao entrares na sala" é mais provável que a outra pessoa reconheça o momento descrito.

Quando somos capazes de descrever o que vemos ou ouvimos em linguagem de observação, sem misturar nenhuma avaliação, aumentamos a probabilidade de que a pessoa que vai ouvir-nos neste primeiro passo responda ou não imediatamente à nossa observação, ficando certamente mais disposta a ouvir os nossos sentimentos e necessidades. Pelo contrário, se expressarmos uma avaliação ou crítica, fica logo o “caldo entornado”.

A linguagem não violenta ajuda-nos a distinguir uma observação de uma avaliação e a purificar as nossas observações de todo o juízo moralista e de toda e qualquer avaliação negativa ou positiva. É numa observação desprovida de preconceitos, avaliações e apreciações moralistas e no feedback da mesma à pessoa cujo comportamento observamos, que assenta a comunicação não violenta.

O feedback genuíno de uma boa observação deve ser como um espelho que reflete verdadeiramente o acontecido sem interpretar, analisar, sem tirar nem pôr. Quando, ainda que velada ou sub-repticiamente, deixamos que as nossas observações contenham uma apreciação, análise, interpretação ou crítica, a outra pessoa imediatamente se coloca na defensiva e a comunicação fica envenenada e destinada ao fracasso.

A nossa rapidez excessiva em emitir juízos, faz-nos perder dados observáveis. Pode ajudar-nos o que Jesus diz sobre ser como crianças, ou seja, deveríamos recuperar algumas das qualidades que perdemos quando crescemos. Uma dessas qualidades é conservarmos os olhos puros de uma criança, a sua visão não-subjetiva das coisas, não manchada por qualquer bagagem cultural ou preconceito.

Ao contrário das crianças, os adultos enchem-se frequentemente de preconceitos e opiniões sobre tudo e todos; parecem usar o tipo de palas que os cavalos usam para reduzir o seu campo de visão e olharem só para a frente. Desenvolvem cataratas nos olhos e cera nos ouvidos, pelo que só vêem e ouvem o que querem e como querem. Assim sendo, a perceção, a interpretação e a avaliação são uma e a mesma coisa.

Observação segundo a CNV
Para Rosenberg, uma observação é a descrição do que está a acontecer no preciso momento em que observamos e relatamos a nossa observação. Trata-se de um relatório feito pelos nossos cinco sentidos exteriores: a visão, a audição, o tato, o sabor e o olfato, juntamente com o nosso pensamento e visão interior desprovida de avaliações e preconceitos.

Uma observação não violenta consiste, portanto, no relatório dos factos tal como são percecionados pela nossa experiência sensorial, num determinado contexto de tempo e lugar, livre de qualquer tipo de análise e avaliação.

É difícil observar sem avaliar, sobretudo quando não gostamos do que observamos, quando o que observamos despoleta a nossa ira ou o nosso apreço. Tendemos a envolver-nos pessoalmente no observado, e frequentemente nos precipitamos em juízos temerários dos quais nos arrependemos mais tarde e para os quais já não há remédio se os expressámos; como diz o povo “Palavra fora da boca é pedra fora da mão”

Por causa da nossa formatação violenta, é inevitável que aflorem interpretações e avaliações à nossa consciência acerca de tudo o que observamos.  Quando isto acontece e para evitar conflitos, a CNV manda que guardemos para nós as avaliações, como se fossem um mau pensamento; na eventualidade de formularmos em voz alta uma avaliação, devemos assumir responsabilidade por ela.

A forma mais elevada de inteligência humana é a capacidade de observar sem julgar...
Jiddu Krishnamurti

Observar sem avaliar é “dar o benefício da dúvida”, ou seja, duvidar da nossa avaliação, do nosso pensamento inquisitivo e das suas conclusões quase naturais, para nos mantermos na pura observação natural e naturalista. Julgar e avaliar é encaixilhar, é tirar uma fotografia, é enquadrar, arquivar. Como diria Heráclito, o filósofo grego do devir contínuo, a realidade não é estática, mas sim dinâmica.

A nossa mente tende a operar segundo a filosofia mecanicista da física de Newton, para quem a natureza funciona como um relógio exato. A nossa preguiça mental prefere um mundo onde tudo funciona matemática e inexoravelmente segundo as leis da natureza, onde as exceções são a vergonha da regra, portanto desdenháveis. Um mundo de normalidade, de constantes sem variáveis, perfeitamente previsível e controlável.

Este pode ter sido o mundo de Newton, mas não é o nosso mundo que se encontra melhor representado e explicado pela magia da física quântica e pelo princípio da incerteza e acaso de Heisenberg. As variáveis podem agora ser tantas quantas as leis, levando-nos à confusão; mas este é o nosso mundo.

Para viver em sintonia como este novo mundo dinâmico e em constante mudança, devemos mudar a nossa cosmovisão e a nossa linguagem. Estas não podem ser estáticas nem absolutas, mas relativas e dinâmicas. A CNV retira o foco do que somos, da nossa identidade, da nossa personalidade, apelido, etc. para o colocar no que somos no momento, ou seja, em como nos sentimos, no que se passa connosco. A linguagem estática está fixada no passado, a CNV é dinâmica e está fixada no presente.

Aprender a traduzir sentenças e interpretações em língua de observação afasta-nos do pensar em termos de certo/errado, e ajuda-nos a assumir a responsabilidade pelas nossas reações, direcionando a nossa atenção para as nossas necessidades como a fonte dos nossos sentimentos, em vez de a direcionarmos para outra pessoa.

O clássico exemplo de Rosenberg
Rosenberg conta que um dia foi chamado a uma escola onde os professores estavam zangados e em perene conflito com o diretor. Ao perguntar, numa reunião com os docentes, “O que é que o diretor faz que entra em conflito com as vossas necessidades?”, Rosenberg pedia uma observação concreta do comportamento do diretor, mas tudo o que lhe foi referido foram avaliações: “Ele é um fala barato”, “O diretor fala demasiado”. Ao serem estas declarações expostas como avaliações, um outro professor tentou responder a Rosenberg dizendo “Ele pensa que só ele tem boas ideias”. Por fim, um outro diz “Nas reuniões ele quer ser sempre o centro das atenções”.

Incapazes de referir um comportamento concreto do diretor que fosse isento de avaliações, foi convocada uma reunião na qual o próprio Rosenberg, se deu conta de que o que encrespava os nervos dos professores era o facto de o diretor aproveitar qualquer assunto em discussão para fazer uma longa divagação por histórias da sua infância e juventude, que os levava para fora do tema em debate, aumentando exponencialmente o tempo das reuniões.

Este é só um exemplo da nossa incapacidade de relatar o que observamos sem o contaminar com a nossa avaliação; às vezes, como aconteceu com estes professores, a avaliação invade de tal modo as nossas mentes que até nos esquecemos do comportamento original que a despoletou.

Avaliar sem assumir responsabilidade
Seguindo o livro de Rosenberg, vejamos alguns exemplos em que a observação tem implícita uma avaliação, para nos darmos conta de quão difícil é separar as duas, na vida quotidiana.

“És demasiado generoso” - esta é uma observação coberta por uma avaliação; o sujeito desta afirmação pretende ser a medida de referência do que é menos, mais ou demasiado generoso como tal, faz uma afirmação categórica, pretensamente objetiva, sem se responsabilizar ou implicar nela.

“Ao reparar que deste todos os chocolates sem ficar com nenhum, penso que foste demasiado generoso”. – Esta seria a forma de traduzir a afirmação em pura observação. Fazemos referência a um facto, sem cair na tentação de o interpretar. Mas se quisermos interpretá-lo, então assumimos a responsabilidade por essa interpretação, ou seja, “eu acho” ou “para mim isso é ser demasiado generoso”, deixando assim a realidade aberta a outras interpretações.

Uso e abuso de verbos que avaliam
O João está sempre a adiar” – Esta observação contém uma generalização, mesmo que já tenhamos apanhado o João a adiar, não quer dizer que sempre adie; é a mesma situação daquele que matou um cão e depois passa a ser chamado de “mata-cães”. As generalizações são sempre injustas, assim como rotular uma pessoa, mesmo que esta tenha um comportamento recorrente.

O mais nocivo de todos os verbos dentro da linguagem não violenta é o verbo “ser”, porque batiza as pessoas, amarrando-as a uma etiqueta que as impede de crescer e progredir. O abuso deste verbo na educação de crianças, leva-as a ser o que os outros querem que elas sejam. O verbo “ser” amarra as pessoas a identidades estáticas. Sempre que etiquetamos alguém, metemos essa pessoa numa camisa de forças, condenamo-la a prisão perpétua e não permitimos que que saia de lá.

Somos um ser em construção, em contínuo crescimento, num devir contínuo, em contínuo processo, em contínua evolução. O verbo “ser” não nos define pois não somos pedras, não somos seres estáticos, somos seres vivos; o verbo “ser” só serve para definir coisas mortas e, quando define coisas vivas, mata-as.

O João só estudou para o exame de Física na noite anterior” – O antídoto da generalização que leva ao etiquetar é referirmo-nos a um caso em concreto. Desta forma, observamos ou fazemos eco de algo que aconteceu e somos fiéis à realidade, deixando que seja o João a tirar conclusões em relação à incidência ou reincidência do seu comportamento.

A Mónica é feia” – Denota que temos em nós o padrão da beleza e que, no caso da Mónica, constituímo-nos como porta-voz de 7 mil milhões de pessoas.

O aspeto da Mónica não me atrai” – Desta maneira, responsabilizo-me pela minha apreciação, que é só minha, portanto não extensiva a mais ninguém. Já os romanos diziam “de gustibus non este disputandur”, e o nosso povo afirma “quem o feio ama, bonito lhe parece”.

Profetas da desgraça
O trabalho dela não vai ser aceite” – Manifestamos muitas vezes nas nossas afirmações, a pretensão de sermos profetas, e quase sempre profetas da desgraça. Com certa malícia e prazer no mal dos outros, fazemos prognósticos negativos acerca dos seus pensamentos, ideias, sentimentos, intenções, desejos e ações. É certo que esta não é uma observação, mas uma avaliação à priori, cujo intuito pode ser o de humilhar a pessoa em questão ou fazê-la retroceder nos seus intentos ou mesmo influenciá-la negativamente para que fracasse.

Eu não acho que o trabalho dela seja aceite” – Seria a tradução CNV da avaliação; quem avalia responsabiliza-se pela sua avaliação; desta forma se retira peso e importância ao que se diz.

Se não fizeres refeições equilibradas vais perder a tua saúde” – Aqui está uma observação que nem um médico deveria fazer, pois confunde predição com certeza. A medicina não é uma ciência exata como a matemática; são muitos os fatores que influenciam a saúde ou a doença, pelo que esta observação, podendo conter algo de verdade, não é toda a verdade.

Se as tuas refeições não forem equilibradas, temo que a tua saúde possa ser afetada” – Esta afirmação está mais de acordo com a verdade, por quanto a dieta é só um dos muitos fatores que influenciam tanto o estado de saúde como o estado de doença.

Generalizações
Os estrangeiros são desleixados” -  Eis o exemplo de uma generalização; é talvez o defeito mais corrente no nosso dia a dia. Palavras como “sempre”, “nunca”, “quase sempre” são seguidas por uma generalização. Uma generalização é a universalização da nossa experiência. Se formos suficientemente humildes, damo-nos conta de que a nossa experiência é muito limitada no espaço e no tempo, pelo que não pode nem deve ser universalizada.

A base do racismo, da discriminação é a universalização e generalização das nossas experiências quando fazemos observações sobre grupos de pessoas: os homens…  as mulheres… os negros…  os ciganos… os ingleses…

"A família de estrangeiros que vive no número 24 não cuida o seu jardim” – O antídoto da generalização é ser específico no tempo e no lugar, delimitando a nossa afirmação ou observação a um tempo, lugar e comportamento concretos; “contra factos não há argumentos”.

O Óscar é um mau jogador” – É uma generalização muito ouvida nos círculos futebolísticos e nas discussões acaloradas entre adeptos. Denota frustração, mas nada tem a ver com a verdade.

“O Óscar não marcou golos nos últimos 5 jogos” – Traduzida para afirmação aceite pelos cânones da linguagem não violenta, fazemos referência aos factos e abstemo-nos de conclusões precipitadas. O mesmo jogador ao marcar um golo decisivo para um campeonato seria imediatamente apreciado de forma distinta.

Exemplos de observações com ou sem avaliações
•    “O João estava zangado comigo ontem sem nenhuma razão”. - Avaliação
•    “Ontem à noite, a Nancy roeu as unhas enquanto via televisão”. - Observação
•    “Sam não pediu a minha opinião durante a reunião”. - Observação
•    “O meu pai é um bom homem”. - Avaliação
•    “A Clara trabalha muito”. - Avaliação
•    “O Henrique é agressivo”. - Avaliação
•    “Carlos foi o primeiro todos os dias desta semana”. - Observação
•    “O meu filho, muitas vezes, não escova os dentes”. - Avaliação
•    “O Lucas disse-me que não fico bem de amarelo”. - Observação
•    “A minha tia protesta quando eu falo com ela”. – Avaliação

Os puros de coração verão a Deus
Se a tua vista é para ti ocasião de queda, arranca-a e lança-a para longe de ti: é melhor para ti entrares com uma só vista na Vida, do que, tendo os dois olhos, seres lançado na Geena do fogo. Mateus 18, 9

A lâmpada do corpo são os olhos; se os teus olhos estiverem sãos, todo o teu corpo andará iluminado. Se, porém, os teus olhos estiverem doentes, todo o teu corpo andará em trevas. Portanto, se a luz que há em ti são trevas, quão grandes serão essas trevas! Mateus 6, 22-23

Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Mateus 5, 8

Como sugere Jesus, os nossos olhos estão doentes e, como tal, são ocasião de queda. Não vemos objetivamente, mas vemos apenas o que queremos ver, não vemos sem interpretar, por isso os nossos olhos não são janelas para o mundo, lâmpadas para iluminar as coisas tal qual elas são. Precisamos de purificar o nosso coração e a nossa mente; só assim veremos a Deus e veremos a realidade tal qual ela é e, desta forma, contribuiremos para a harmonia nas relações humanas e para a paz no mundo.

Avaliação ou juízos de valor em CNV
Como é possível viver sem avaliar o comportamento dos outros e o nosso próprio? Não há qualquer tipo de avaliação em CNV? Sim há, em CNV abstraímo-nos de avaliações moralistas, feitas em linguagem estática e que fazem parte do jogo de quem está certo / quem está errado, quem tem razão /quem a não tem, quem é mau / quem é bom, de avaliações que criticam o comportamento dos outros e os julgam como bons, maus, honestos, desonestos, egoístas, altruístas, etc.

A avaliação do observável em CNV está centrada no presente, no aqui e agora, avalia atos concretos e não atitudes genéricas, e é feita de uma forma dinâmica, ou seja, focada no que está a acontecer em nós e nos outros no campo dos sentimentos e necessidades. Em CNV, o nosso comportamento observável, o que dizemos ou fazemos em concreto, e o comportamento dos outros num determinado momento, são avaliados na medida em que vão ou não ao encontro das nossas necessidades, nos fazem sentir bem ou não.

A comunicação violenta assenta em avaliações estáticas e moralistas que, quando proferidas, colocam as pessoas na defensiva porque as classificam e dividem em duas categorias: os bons, que merecem ser elogiados e recompensados, e os maus, que merecem ser repreendidos e punidos. Em CNV, a avaliação baseia-se no que está a acontecer no presente, na medida em que isso vai ou não vai ao encontro das necessidades e valores de todos os envolvidos na interação.
Pe. Jorge Amaro, IMC



15 de abril de 2018

CNV - Os quatro cavaleiros da Não-Violência

1 comentário:

(…) vi que apareceu um cavalo branco; o cavaleiro levava um arco e foi-lhe dada uma coroa. Depois, partiu vencedor para novas vitórias. (…) saiu outro cavalo, que era vermelho; e ao cavaleiro foi dado o poder de retirar a paz da terra e de fazer com que os homens se matassem uns aos outros. (…)  Na visão apareceu um cavalo negro. (…). Na visão apareceu um cavalo esverdeado. O cavaleiro chamava-se «Morte»; e o «Abismo» seguia atrás dele…Apocalipse 6, 1-8

Fome peste guerra morte, são os quatro cavaleiros do Apocalipse e todos os quatro são causas e consequências de si mesmos e uns dos outros. A fome causa a peste, a peste causa a fome, ambos provocam guerras, ambos causam a morte. O mundo já conheceu estes cavaleiros e está sempre em perigo de os conhecer outra vez e de chegar à autodestruição.

Marshall Rosenberg propõe a linguagem não violenta, ou compassiva como alternativa, uma alternativa à matriz da violência sobre a qual está montada a nossa forma de viver, de pensar e as relações que estabelecemos entre nós.

Fome, peste, guerra e morte são os quatro cavaleiros da violência que leva ao apocalipse. A observação, o sentimento, a necessidade e o pedido são os quatro cavaleiros que vão tornar obsoleta a violência e comandar o mundo rumo a um futuro de harmonia e paz entre todos os seres humanos.

Observação
Trata-se de descrever a realidade o mais objetivamente possível, tal como os meus cinco sentidos a captam: o que vejo, o que ouço, o que cheiro e provo com o paladar, o que toco sem julgar, criticar, avaliar ou interpretar. Por exemplo, em vez de dizer a alguém “és rude”, o que nos colocaria em rota de colisão com a pessoa e dificultaria o relacionamento posterior, podemos dizer: “quando chegaste não te ouvi dizer bom dia”. Se tivéssemos dito “Quando chegaste não disseste bom dia” estaríamos a julgar também, porque a pessoa poderia ter dito sem que a ouvíssemos.

Porque alguém matou um cão, a nossa tendência é chamá-lo mata-cães para o resto da sua vida - julgamos uma pessoa por um único ato. A crítica, a avaliação, o julgamento e a interpretação bloqueiam a comunicação, porque são quase sempre injustos e fazem a pessoa sentir-se coagida, arquivada, aprisionada pelo rótulo que lhe colocámos. Não a deixamos ser ela mesma, nem progredir, não nos relacionamos com ela mas com a imagem que fizemos dela, uma imagem que pode até servir o nosso objetivo mesquinho mas não serve a comunicação genuína e saudável. Esta é a forma de fazer um inimigo, não um amigo.

Torna-se muito difícil fazermos uma observação objetiva, nua e crua porque, na maior parte das vezes, projetamos nas nossas observações, os nossos interesses, a nossa inveja, o nosso ódio ou, pelo contrário, o nosso louvor sobre o ato que observamos. É assim que tem funcionado o mundo; por isso, falar de uma outra forma é verdadeiramente uma revolução coperniciana.

A observação desprovida de crítica, avaliação, julgamento, interpretação é dinâmica, pois permanece aberta; ao misturamos uma avaliação ou interpretação, o observado, ou seja, uma pessoa em ação, perde dinamismo e fica fechada, imóvel, estática, como se fosse fotografada. Por isso a CNV evita o verbo “Ser” e usa verbos de ação no seu lugar.

Sentimento
Depois de observar sem analisar e declarar certo ou errado, bom ou mau, o ato seguinte é fazer a  ligação com os nossos sentimentos, fugindo do pensamento que é quase sempre tendencioso e viciado no avaliar e interpretar, para depois criticar e julgar. Os sentimentos dizem mais de nós mesmos que os pensamentos. Se não consigo ligar-me a mim mesmo, dificilmente conseguirei ligar-me ao outro.

Os sentimentos representam a nossa experiência emocional e as sensações físicas associadas às nossas necessidades satisfeitas ou insatisfeitas. Como adiante veremos ao falar de necessidades, os sentimentos estão para as necessidades como o fumo está para o fogo. Qualquer sentimento ou emoção sentida fala-nos de uma necessidade satisfeita ou insatisfeita.

Nesta etapa o nosso objetivo é identificar, nomear e ligarmo-nos aos nossos sentimentos. O pensamento deve, portanto, ser autorreflexivo, desviado do outro e ser colocado ao serviço dos nossos sentimentos, ajudando-nos a interpretá-los e a identificá-los.

Depois de interpretar o que nos vai no coração, podemos e devemos expressar os nossos sentimentos, evitando cair na armadilha e autoengano de responsabilizar os outros por eles. A expressão “sinto-me só” é uma genuína expressão do sentimento interior de solidão. Porém, se digo “sinto que não me amas” é uma ilegítima tentativa de descrever e interpretar os sentimentos do outro, acompanhada por uma acusação implícita.

Devemos expressar os nossos sentimentos assumindo por completo a responsabilidade pela nossa experiência; isto ajuda os outros a ouvir o que é importante para nós, sem se sentirem criticados ou acusados, aumentando a probabilidade de que a sua resposta seja empática e satisfaça assim as necessidades de ambos.

Necessidade
O terceiro elemento da comunicação não violenta é a necessidade que está intrinsecamente ligada ao elemento anterior. Quando um sentimento aflora à nossa consciência devemos saber que é apenas um mensageiro, enviado pela nossa natureza humana, para nos alertar de uma necessidade que está ou não está a ser satisfeita. Por isso, o que deve ser feito imediatamente é descobrir qual é essa necessidade e assumir responsabilidade por ela.

Uma vez mais ao estarmos conscientes dos nossos sentimentos, a nossa tendência é não assumir a responsabilidade por eles, acusando os outros de nos sentirmos desta ou daquela forma. As ações dos outros podem ter despoletado os nossos sentimentos, mas cometemos um grave erro, em termos de comunicação não violenta, se pensarmos que foram os outros que causaram esses sentimentos. A única causa dos nossos sentimentos é a satisfação ou insatisfação das nossas necessidades.

Quando conseguimos ligar os nossos sentimentos às nossas necessidades perfeitamente identificadas, damos um passo importante na comunicação não violenta, ao evitar culpabilizar os outros ou a nós mesmos. A expressão genuína das nossas necessidades, cria uma oportunidade muito provável para que o nosso interlocutor possa sentir empatia e contribuir para a sua satisfação.

As necessidades são universais; todos os seres humanos têm as mesmas necessidades, pois elas provêm de algo que é transversal a todos independentemente de tempo e lugar: a natureza humana permanece invariável ao longo dos tempos e nas diferentes culturas dos povos que habitam este planeta.

No contexto da comunicação não violenta, como Rosenberg gosta de dizer, elas referem-se ao que há demais vivo em nós, ao que é mais central e importante para nós, aos nossos desejos mais profundos.

A compreensão, identificação e ligação com as nossas necessidades ajudam-nos a melhorar a nossa relação connosco mesmos, promovendo um maior entendimento com os outros, aumentando exponencialmente o grau de probabilidade de que as devidas ações sejam levadas a cabo para que as necessidades de todos sejam satisfeitas.

A comunicação não violenta leva sempre ao que em inglês se chama “a win  win situation”, ou seja, um resultado final benéfico para todas as partes envolvidas; todos ganham, ninguém perde.

Pedido
Os seres humanos não são ilhas; temos uma dimensão individual, somos únicos, irrepetíveis e indivisíveis, livres e independentes, mas também temos uma dimensão social pela qual sempre somos parte de uma família, de um grupo, de uma instituição, de um país. Porque esta é a nossa natureza, o processo de satisfação de muitas, se não de todas, as necessidades individuais que envolve de alguma forma, os outros.

Cientes e conscientes das nossas necessidades, o passo seguinte é pensar numa estratégia ou, ação que leve à satisfação dessas necessidades, no nosso entender, e certificarmo-nos de que as pessoas que podem estar envolvidas estão disponíveis, para participar na estratégia que delineámos. Como todos os seres humanos, vivemos num plano de igualdade com os outros e, antes de chegar à formulação de um pedido, devemos certificar-nos também da existência ou não existência de empatia. O afetivo é eficaz e o não afetivo é ineficaz.

O que fazemos são pedidos, solicitações, e não exigências, ordens ou requisições. Entre estes dois conjuntos há uma linha divisória muito fina. Muito depende das palavras que escolhemos ao formular o pedido, além do tom de voz usado, das palavras adequadas poderem ser expressas num tom de voz inadequado que aos ouvidos da outra pessoa soe a exigência ou ordem: muitas vezes só sabemos se demos uma ordem ou fizemos um pedido depois da resposta do outro.

 Devemos estar preparados para um “não”. Um “não” a uma ordem tem consequências punitivas; um “não” a um pedido não deveria intimidar-nos, desequilibrar-nos ou desencorajar-nos, mas sim ser motivo para um maior diálogo com a pessoa.  Devemos ser capazes de reconhecer que um “não" é uma expressão de uma necessidade que impede a outra pessoa de dizer "sim".

Para aumentar a probabilidade de o nosso pedido ser aceite junto do outro, este deve ser claro, concreto, realista e realizável e não genérico no que respeita ao tempo e à ação a executar. Por exemplo, “gostaria que fosses sempre pontual” não é exequível e pode soar a ordem. Por outro lado, “estarias disposto a gastar 15 minutos comigo para falarmos sobre o que poderia ajudar-te a chegar às 09h:00 às nossas reuniões? " é concretizável.

Se alguém aceita o nosso pedido por medo, culpa, vergonha, obrigação ou desejo de recompensa, fica comprometida a qualidade da relação e a confiança entre ambas as partes. Tarde ou cedo, os dois pagarão esta aceitação violenta, pois fundamentalmente cria um credor e um devedor. Em linguagem não violenta ninguém se humilha, ninguém se exalta, ninguém perde, ninguém ganha, ninguém pede favores, ninguém faz favores.

O processo da comunicação não violenta
Boca - A comunicação não violenta processa-se ao nível da boca, no que dizemos e como o dizemos. Neste caso, devemos expressar honestamente e de forma precisa as nossas observações, os nossos sentimentos, as nossas necessidades e, com base nestas, as nossas solicitações. A comunicação não violenta ajuda-me a descobrir e a interpretar o que está vivo em mim, o que se passa comigo, de forma a melhor comunicar comigo mesmo, em gratuidade, compaixão e empatia.

Ouvido – A comunicação não violenta não se processa apenas através do que eu expresso pela minha boca ou linguagem corporal, mas também pela forma como eu ouço as observações, infiro os sentimentos e as necessidades do outro, assim como as suas solicitações. A comunicação não violenta ajuda-me a descobrir e a interpretar o que está vivo no outro e o que se passa com ele, de forma a melhor comunicar com ele, em gratuidade compaixão e empatia.

Portanto, os quatro elementos da comunicação não violenta são usados, tanto na nossa expressão, como ouvindo com empatia a expressão dos outros. Expressar honestamente observações, sentimentos, necessidades e apelos e ouvir empaticamente observações, sentimentos, necessidades e apelos dos outros.

Observação - As ações ou factos concretos que estamos a observar e que potencialmente podem afetar o nosso bem-estar ou fazem referência ao mesmo.
Sentimentos – Como nos sentimos em relação ao que estamos a observar e que sentimentos despoleta em nós.
Necessidades – Descoberta ou tomada de consciência dos valores, desejos e necessidades que são a verdadeira causa dos nossos sentimentos, e não o que estamos a observar ou quem estamos a observar.
Pedidos - As ações concretas ou atos que solicitamos ao outro ou outros, a fim de satisfazer as nossas necessidades e enriquecer as vidas de ambos.

Articulação dos quatro componentes
A CNV é um edifício com três bases e quatro pilares. As três bases são a compaixão, a empatia e a gratuidade que podem resumir-se ao mandamento de amar o próximo como a nós mesmos. Neste sentido, poderíamos dizer que a CNV é uma teoria geral do amor ao próximo como a nós mesmos, ou uma forma de o aplicar no nosso dia a dia.

Uma outra metáfora para explicar como se conjugam na CNV os quatro pilares com a empatia e a gratuidade, seria o funcionamento de um motor. O combustível explosivo, o que o motor gasta e o faz andar, é a gratuidade ou a dádiva do coração. - Observação sentimento necessidade pedido, são os quatro pistões, o que no motor se move; para que estes se movam incessantemente, necessitam de estar lubrificados, envoltos no óleo da empatia ou compaixão.

Na forma como funcionam, os motores de combustão interna, seja a gasóleo a gasolina ou a gás, são também chamados motores de quatro tempos - admissão – compressão – explosão – escape. No primeiro tempo, o pistão desce e permite a admissão de uma mistura de combustível com ar; no segundo, o pistão sobe e comprime a mistura; no terceiro momento, a mistura explode, empurrando o pistão para baixo e provocando o movimento do motor; nesse mesmo impulso, o pistão sobe, expulsando os gases residuais da combustão, e o ciclo recomeça.

Como já estabelecemos uma analogia entre os componentes da comunicação não violenta e os componentes de um motor de combustão interna, podemos agora utilizar o funcionamento de um pistão nos seus quatro momentos numa analogia dos quatro momentos da CNV. Assim, a admissão de combustível corresponde à observação que consta da recolha e admissão de informação do exterior e que vai provocar a nossa reação; à compressão do combustível correspondem os sentimentos que a observação provoca ou estimula, assim como o empurrar para baixo, no sentido das necessidades que são as verdadeiras causas dos sentimentos; a explosão do combustível corresponde à ignição que o sentimento comprimido provoca na necessidade que lhe corresponde.

No motor de combustão interna, a explosão é o que provoca o movimento; no motor da CNV também são, de facto, as necessidades ou os valores que constituem a motivação fundamental do comportamento, tanto humano como animal. Quando o sentimento encontra e acende a necessidade dá-se a combustão ou a explosão que vai motivar o quarto momento que é o sair para fora de si; no motor é a exaustão ou escape, em CNV é a formulação de um pedido.

O ser humano é composto por cabeça, tronco e membros; deixando os membros de fora, ou seja, os braços e as mãos para atuar, as pernas e os pés para se deslocar, ficamos com a essência do ser humano: a cabeça e o tronco. Na cabeça colocam-se as funções de observar e inquirir ou pedir; na parte superior do tronco o sentir, na inferior o necessitar. Na CNV o ser humano resume-se a sentimentos e necessidades, sendo os sentimentos um mero detetor ou o termómetro das necessidades, que indica se aquelas, estão ou não satisfeitas.

Para Rosenberg, o que verdadeiramente nos define não são os pensamentos (crenças, ideias, projetos e opiniões), mas os sentimentos e as necessidades; a estes se refere a expressão tantas vezes por ele repetida - “o que em nós está vivo” – “o que se passa connosco neste precioso momento”.

A observação, o primeiro componente da CNV, só serve para eu me dar conta ou ter consciência do que se passa comigo ou com o outro a nível intelectual; só depois de me conectar empaticamente comigo mesmo e com o outro é que estou em condições de formular um pedido. A cabeça é para observar e pedir, não para avaliar nem julgar nem definir, nem a nós mesmos nem aos outros. Esta é a fórmula: “Quando te vejo…” / “Quando te ouço dizer…” (observa: ação ou afirmação) “Sinto…” (partilha, sentimento), “Porque necessito de…” (revela necessidade) “Importas-te de...” (faz um pedido). Vejamos como se articulam os 4 componentes no seguinte diálogo:

Depois do jantar a esposa diz ao marido:
- Querido, hoje durante todo o dia, senti-me um pouco só e desamparada; o único pensamento que me reconfortou foi a lembrança daqueles serões que passávamos no sofá abraçados a ver um filme. Tenho necessidade de reeditar uma dessas noites e voltar a sentir o que sentia. Queres dar-me esse prazer?

- Gostaria de fazer isso, sim, eu também me lembro desses serões com saudade; mas hoje é a final entre o Benfica e o Porto e eu já prometi aos meus amigos que iria ver o jogo com eles; importas-te que deixemos o filme para amanhã?

Se a esposa não usa a CNV dirá que o marido não a ama, que dá mais importância a um jogo que a ela, etc. Se em vez disso usa a CNV, não ouve um “não” às suas necessidades, mas um “sim” às necessidades do marido pelas quais sente empatia; porque o ama e como o ama tanto como a si mesma, a satisfação das necessidades do marido é tão importante quanto a satisfação das suas que, neste caso apenas ficam adiadas por um dia. Se o marido cedesse à esposa reprimindo as suas necessidades e fizesse o que a esposa queria por culpa ou obrigação, os dois acabariam por pagar uma fatura bem pesada.

Aqui entra outra vez a filosofia do amor ao próximo como a nós mesmos. Dentro desta filosofia, as necessidades do outro são tão minhas como as minhas, porque amar, como diz São Tomás de Aquino, é querer o bem do outro. Por outro lado, não se pode ser feliz sozinho nem à custa do outro, mas só com o outro; em CNV não há ganhadores e perdedores: ou ganham todos ou perdem todos.

Conclusão
Vi, então, um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido e o mar já não existia. Apocalipse 21, 1

Estes são os quatro cavaleiros da nova ordem internacional, de um novo Céu e de uma nova Terra; a verdadeira Terra Prometida, o Reino de Justiça e Paz onde a violência, como meio para estabelecer a paz, se tornou obsoleta, pois as necessidades de todos estão satisfeitas. No livro do Apocalipse a palavra “mar” representa o mal, pelo que, nessa terra de fartura e felicidade, o mal já não existe. E como os instrumentos de guerra se transformaram em instrumentos de paz, (Isaías 2,4) o lobo pasta agora com o cordeiro; não haverá mais mal nem destruição (Isaías 65, 25)
Pe. Jorge Amaro, IMC.


1 de abril de 2018

CNV - Gratuidade, combustível da Comunicação não-violenta

1 comentário:
Santa Páscoa!
Compaixão é o conceito fundador e inspirador da comunicação não violenta. Quando Rosenberg percebeu que não estava a ter muito sucesso na prática da psicoterapia individual, estudou as religiões do mundo em busca do significado e do sentido da vida e descobriu que todas elas afirmam que devemos viver com compaixão, que devemos ser misericordiosos e compassivos como Deus que nos criou é.

Gratuidade
O que eu quero na minha vida é compaixão, um fluxo entre mim e os outros com base numa entrega mútua, do fundo do coração. Marshall Rosenberg

Recebestes de graça, dai de graça. Mateus 10, 8

É a compaixão que nos impulsiona a dar com o coração, com alegria, livremente, sem esperar nada em troca, sem querer nada em troca e certificando-nos de que o fazemos de forma a que o outro não sinta que fica em dívida connosco.

Se a empatia é o lubrificante, o óleo do motor ou o ambiente que facilita o movimento incessante dos quatro pistões no motor da comunicação não violenta, a gratuidade ou o dar naturalmente ou do coração, é o combustível que torna possível a combustão e a explosão dentro dos cilindros, movendo os pistões.

Parece que Rosenberg pode ter tirado o seu conceito - "dar do fundo do coração" - da sua própria experiência de vida. Conta ele que estava à espera de um comboio numa estação, quando avistou um trabalhador negro que se preparava para comer uma laranja depois de terminar o almoço de marmita.

Ao dar-se conta de que um menino sentado ao colo da mãe não tirava os olhos da laranja, o trabalhador levantou-se, limpou a laranja, deu-lhe um beijo e ofereceu-a ao menino. Edificado pelo gesto, Rosenberg teve a oportunidade de perguntar mais tarde ao trabalhador a razão pela qual ele deu um beijo à laranja ao que este respondeu: “Nunca dês nada a ninguém a não ser do fundo do coração”.

Utilizaremos a palavra “gratuidade” quando ele fala de “natural giving” (- dar com naturalidade ou dar naturalmente) e “giving from the heart” (- dar do coração). Gratuidade é de facto dar do coração, amar é amar incondicionalmente “with no strings attached” como se diz em inglês, sem reservas e sem segundas intenções. Sem que a mão esquerda saiba o que faz a direita, como sugere o evangelho (Mateus 6, 1-4)

Uma vez satisfeitas as necessidades físicas, ser amado e amar é a primeira e a mais importante necessidade humana; sem a plena satisfação desta necessidade, não existe vida humana. No entanto, experimentamo-la de forma diferente nas diferentes fases da vida. Quando somos crianças, a prioridade é ser amado, enquanto que quando somos adultos, a necessidade primária é amar, dar livre incondicionalmente, do fundo do coração, sem qualquer tipo de compulsão ou obrigação.

Se um adulto sente mais necessidade de ser amado que de amar, como vemos nas telenovelas, não é verdadeiramente um adulto, pois ainda possui a imaturidade afetiva própria de uma criança ou de um adolescente.

Por outro lado, o conceito de gratuidade diz não só respeito ao dar, mas também ao receber. Frequentemente, quando recebemos, sentimo-nos na obrigação de retribuir. Não vive o espírito de gratuidade quem dá com segundas intenções, para receber em troca ou para aumentar a sua popularidade, nem quem recebe e se sente obrigado ou em dívida para com quem lhe deu.

Dar é receber, receber é dar
Há mais alegria em dar que em receberAtos dos Apóstolos 20, 35

Declarar que há mais alegria em dar que em receber é uma conclusão ou descoberta que se pode fazer depois de uma longa caminhada de crescimento a nível psicológico, afetivo e espiritual. A declaração é, portanto, o que um adulto diria depois de um longo processo de crescimento nas vertentes antes mencionadas, ao chegar à idade adulta. É evidente que uma criança encontra muito mais alegria em receber que em dar.

Portanto somos adultos psicológica, afetiva e espiritualmente quando encontramos mais alegria em dar que em receber. Porém, como a indigência faz parte da condição humana, também necessitamos de receber e deveríamos continuar a receber com a mesma alegria das crianças, pois se assim não fosse estaríamos a declarar-nos autossuficientes, coisa que ninguém é neste planeta. Assim sendo, a perfeita maturidade vem quando podemos exclamar que há tanta alegria em dar como em receber e vice-versa; que dar e receber são uma e a mesma coisa.

No capítulo do seu livro "Dar do fundo do coração” Rosenberg cita a letra de uma canção que diz tudo o que há a saber sobre gratuidade; de acordo com a canção, receber e dar significam o mesmo porque damos ao receber e recebemos ao dar.

Nunca me sinto mais presenteado
Do que quando recebes algo de mim
Quando compreendes a alegria que sinto
ao dar-te algo

E sabes que o meu dar não é
para que fiques em dívida comigo,
Mas porque quero viver o amor
que sinto por ti.

Receber gratuitamente
pode ser a maior dádiva.
Não há forma de separar
as duas coisas.

Quando me dás,
Eu dou-te o meu receber.
Quando recebes de mim, sinto-me tão
presenteado.

O mesmo dizia São Francisco de Assis na sua famosa oração pela paz, muitos séculos antes:


Senhor, fazei-me instrumento da vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre, fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
Compreender, que ser compreendido;
Amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
É perdoando que se é perdoado,
E é morrendo que se vive para a vida eterna.


Gratuidade nas línguas neolatinas
Nas línguas neolatinas respondemos “grazie”, “gracias”, em português respondemos “obrigado”, que provavelmente vem do inglês “I am much obliged” e que desvirtua o espírito de gratuidade. Em Portugal, todos dizemos “obrigado” quando somos agraciados por alguém; só os pobres, que não podem retribuir, dizem “que Deus lhe pague”; não se sentem obrigados pois supõem que quem os agraciou sabe que não lhes podem retribuir. É por isso que faz sentido o conselho que Jesus nos dá no evangelho de convidar para os nossos banquetes aqueles que não podem retribuir-nos, (Lucas 12, 14-12-14).

Quem ama o outro condicionadamente engana-se, achando que ama o outro mas, no fundo ama-se a si mesmo e não o outro. Projeta-se no outro, espelha-se naquele em quem quer ver o que em si não vê. O seu amor é somente uma manipulação do outro. Gratuidade é amar e ser amado sem condições, deixando o outro ser ele mesmo. Quando o outro se apercebe deste amor incondicional coloca de parte a ansiedade, libertando-se da necessidade de ter um bom desempenho ou ser bem-sucedido.

O amor incondicional é pouco comum, mesmo entre pais e filhos. - De facto, não são poucos os pais que condicionam o amor pelos filhos ao seu sucesso escolar e ou profissional. Estes filhos crescem confundindo amor com sucesso, pagando mais tarde na vida um alto preço por este erro. Aquele que ama incondicionalmente é sempre bem-sucedido na vida; aquele que, acima de tudo, busca o sucesso, fá-lo frequentemente a expensas do amor, podendo chegar a ser vitorioso na profissão, mas derrotado na vida. Porque viver é amar…

Quando alguém declara que nos ama, por palavras ou por gestos, ficamos logo de pé atrás e resulta-nos difícil aceitar esse amor sem medo de cair numa armadilha ou de contrair uma dívida com juros altos e difícil de pagar, ficando assim à mercê de um caprichoso gerente de banco que, em qualquer momento, pode apresentar a fatura.

Como “Gato escaldado de água fria tem medo”, as experiências negativas do passado, sobretudo as da infância, colocam-nos tão à defensiva que muitas vezes acabamos por bloquear até aqueles que nos presenteiam com o seu amor incondicional. Ficámos tão desvalidos com as experiências negativas do passado que agora não nos sentimos merecedores de verdadeiro amor, pelo que bloqueamos todo o amor que vier ao nosso encontro. Levantamos uma barreira de resistência e descrédito, pois tememos a sedução, a exploração. Quantas vezes um amor livre de condições encontra o nosso coração defensivamente congelado.

O egoísmo não compensa nem ao egoísta
A roda de um moinho só se move se a água passar por ela. Se o primeiro de vários moinhos ao longo de um regato retivesse a água só para si, de nada lhe serviria, pois, a sua roda também não se moveria. Não há nenhuma vantagem em ser o primeiro no regato nem nenhuma desvantagem em ser o último, pois tanto o primeiro como o último só se movem se a água correr. Ou se movem todos os moinhos, ou não se move nenhum.

O mesmo se passa no contexto da comunicação não violenta; como ninguém pode ser feliz à custa da infelicidade dos outros, ou ganham todos ou perdem todos; se a minha pretensa felicidade faz outros infelizes nunca pode ser uma verdadeira felicidade; tarde ou cedo o mal que causo aos outros faz retorno. Por isso a CNV pratica a filosofia do win-win, no sentido de que todos ganham quando um ganha, e todos perdem quando um perde. O egoísmo nunca compensa, não convém nem ao egoísta.

É por isso que em comunicação não violenta as necessidades dos outros são assumidas como minhas também. Neste sentido, a CNV é uma aplicação prática do mandamento do amor ao próximo como a ti mesmo; assim como da regra de ouro de todas as religiões do mundo que diz “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti”. O cristianismo é a única religião que tem uma versão positiva desta regra: “O que queres que os outros te façam a ti, fá-lo tu a eles” Mateus 7, 12

A compaixão leva à gratuidade
Quando chegou àquele local, Jesus levantou os olhos e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa.» Ele desceu imediatamente e acolheu Jesus, cheio de alegria. Ao verem aquilo, murmuravam todos entre si, dizendo que tinha ido hospedar-se em casa de um pecador. Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: «Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais Lucas 19, 1-9

Acusar, rotular as pessoas, só as leva a fecharem-se defensivamente no seu reduto, confirmando e reforçando as suas atitudes. - Não se vence a violência com violência; a única paz que se consegue pela violência é a paz do cemitério. A violência não é solução para nenhum problema e cria muitos outros; é, portanto, completamente contraproducente. O ódio só pode ser vencido com amor; pretender vencer o ódio com ódio é como apagar fogo com fogo.

“Sê o que desejas ver nos outros” dizia Gandhi. Tal como a violência gera violência, a compaixão gera compaixão e induz à gratuidade. No contexto da justiça retributiva, Zaqueu não merecia a compaixão de Jesus nem o presente da sua visita, mas o castigo. “Com vinagre não se caçam moscas” e os castigos, rótulos, críticas e insultos não fariam Zaqueu mudar de vida e de perspetiva.

Foi a compaixão não merecida, incondicional, que moveu Zaqueu a ser compassivo para com aqueles com quem fora cruel, e proceder a uma restituição voluntária a quem tinha roubado, sem ninguém lha ter pedido.

Um dia, uma mãe veio para suplicar a Napoleão pela vida do filho. O jovem tinha cometido uma infração grave. A lei era clara, a justiça exigia a sua morte. O Imperador estava determinado a garantir que a justiça fosse feita. Mas a mãe insistiu, “Vossa Excelência, eu vim implorar misericórdia, não justiça.”
 - Mas ele não merece misericórdia, retorquiu Napoleão
- Excelência, disse a mãe, não seria misericórdia se a merecesse.
- Assim seja, disse Napoleão. Terei misericórdia dele.- E libertou-o

Quando somos compassivos com aqueles que não merecem, ativamos neles a compaixão, que está bem escondida, esquecida e cheia de pó e teias de aranha no fundo do seu coração. Sabemos que o que foi abusado, física ou sexualmente, facilmente se transforma num abusador, passando o resto da vida a vingar-se em inocentes dos abusos primigénios nos primeiros anos da sua vida de inocente. Só a compaixão gratuita pode salvar a pessoa deste círculo vicioso que destrói a sua vida e as vidas dos que com ele se relacionam.

O que bloqueia a compaixão
Eis algumas afirmações que frequentemente ouvimos e que, a nosso ver, apenas servem para justificar e racionalizar o uso da violência e para continuar o jogo de quem está certo e de quem está errado.

É dar parte de fraco, as pessoas aproveitar-se-iam de mim se eu fosse compassivo – O poder do amor é mais forte que o amor pelo poder. Ninguém pode tirar-nos a nossa dignidade se não lha dermos; ninguém pode obrigar-nos a fazer nada. Podem subjugar o nosso corpo, mas não a nossa alma, a nossa integridade, a nossa pessoa. Como a compaixão desarma os poderosos, os benefícios da compaixão são tanto para a pessoa compassiva como para a pessoa que recebe a compaixão.

Há pessoas que não merecem compaixão – Não entramos no jogo de quem merece e quem não merece; a compaixão, se fosse merecida já não seria compaixão, mas justiça. Deus faz chover sobre justos e injustos; todo o ser humano é, pelo simples facto de ser humano, merecedor de compaixão. E provavelmente quanto mais mau, mais merecedor é, pois só pela compaixão pode sanar a sua maldade.

Ser compassivo para com os que procederam mal é deixá-los impunes – Ser compassivo não significa que aceitamos comportamentos rudes, traição, violação, injustiças sistémicas ou crueldade, ofensas, crimes. Significa antes, que aceitamos que estas coisas acontecem, que podemos defender-nos delas assertivamente, mas não agressivamente, condenando o ato e não o ator. A violência não justifica o uso de violência, pois esta não soluciona nenhum problema e faz o problema maior, uma vez que a violência tende a escalar.

A linguagem que nos aliena uns dos outros
Gratuidade é contribuir livre e incondicionalmente para a vida, felicidade e autorrealização dos outros e deixar que os outros contribuam para a nossa vida, felicidade e autorrealização, sem nos sentirmos em dívida para com eles.

Tudo o que fazemos na vida que não seja por pura gratuidade, tudo o que fazemos por medo de ser punidos ou para receber um prémio ou para agradar a alguém, movidos pelo sentimento de culpa ou por um sentido de dever e obrigação, faz com que ambas as partes envolvidas neste tipo de transação ou relação paguem um alto preço que acabará por destruir a relação. Tal acontece porque  se estabelece um tipo de relação doentia, como a que existe entre o masoquista e o sádico que só permanece enquanto os dois forem doentes, embora ninguém viva feliz na doença.

Diagnósticos, julgamentos, rótulos, análise, crítica, comparações… Todo o pensamento em termos de “este merece um prémio ou uma recompensa”, - “aquele merece um castigo”, tudo o que fazemos por mera obediência, todo o pensamento em termos de negação de responsabilidade, de culpa, negação de escolha (“não tive outra hipótese”, “não há plano B”); representa linguagem violenta que nos aliena e degrada.

Julgamentos e rótulos – Os julgamentos e rótulos arquivam o outro. Frequentemente não são justos, porque julgamos o outro por uma só ação que generalizamos. Não deixamos o outro ser o que é, fixamos-lhe a identidade. Se há algo que a linguagem não violenta rejeita é o verbo “ser”. Todos somos um ser em construção; qualquer definição estática do outro é sempre preconceituosa.

Prémios e castigos – Tanto o bem como o mal ficam com quem o pratica, ou seja, têm os seus benefícios ou malefícios em si mesmos, como o anexo de um email. Evitar fazer algo por medo de ser apanhado, por exemplo, não é suficiente travão para evitar fazer o mal, pois um dia virá em que me sentirei seguro de que ninguém me vê, superarei o medo e farei o mal. Não devo fazer o mal por estar convencido de que é mal. Da mesma forma que fazer isto ou aquilo para receber um prémio também não é gratuidade, é como quem trabalha para um salário: no dia em que não houver um prémio, deixarei de o fazer.

O castigo pode ser uma simples repreensão em público que me envergonha, e o prémio pode ser um simples elogio, mas equivalem à mesma coisa.

"És muito bom!" "Bom trabalho!" "És uma pessoa gentil." Os elogios, para quem os recebe, podem viciar: a pessoa faz o que faz não por gosto mas para receber elogios; podem ser ocasião de falsa humildade, ao negar a importância do que se fez dizendo “não foi nada” ou levar a pessoa a pensar que é melhor do que ninguém. Pelo lado de quem os lança, os elogios são muitas vezes uma forma de manipular o outro, conquistando-o para os seus interesses obscuros. Por exemplo, o patrão que diz ao operário que sem ele a empresa vai à falência, pede-lhe logo a seguir horas extraordinárias.

A recompensa no evangelho –  porque, se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não fazem já isso os cobradores de impostos?  - Mateus 5, 46

«Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para vos tornardes notados por eles; de outro modo, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está no Céu. Mateus 6, 1

Vós, porém, amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem nada esperar em troca. Então, a vossa recompensa será grande e sereis filhos do Altíssimo, porque Ele é bom até para os ingratos e os maus.  - Lucas 6, 35

Jesus exorta os seus discípulos a praticar a gratuidade; a fazer as coisas por elas mesmas, sem esperar uma recompensa imediata. Mas como o bem fica com quem o pratica, assim como o mal, uma certa “recompensa” acompanha o ato:  a que recebemos no Céu. Revela maturidade psíquica aquele que consegue resistir ao prazer imediato ou satisfação imediata e adia um e outro. Jesus pede-nos que adiemos para o Céu o prémio ou recompensa do que fazemos na terra. É isto mesmo que significa “Guardai tesouros no Céu…” (Mateus 6, 20)

Comparações – Os espanhóis dizem que as comparações são odiosas. Quando nos comparamos aos outros ou ao que convencionalmente é tido como inteligente, belo, bem constituído, deixamos de ser nós mesmos (e só podemos ser nós mesmos) para passar a ter inveja e a tentar imitar o outro. Esquecemo-nos de que apenas somos imbatíveis em ser nós mesmos. As comparações vêm por virtude da competição que é por si mesma, violenta. Quando aceitamos os outros e a nós mesmos como somos, não há motivos para competir, pois só podemos ser o que somos e, no ser o que somos, ninguém consegue ser melhor que nós.

Negação de escolha – Todas as expressões que começam com “Eu tenho que…” são uma negação da escolha e da liberdade dos filhos de Deus. Desta maneira, manifestamo-nos como escravos do dever. Para a linguagem não violenta o dever não existe; só fazemos o que gostamos com vista a viver plena e abundantemente. O que fazemos por obrigação não será bem feito e tarde ou cedo deixaremos de o fazer. Pelo contrário e como diz o provérbio, “quem corre por gosto não cansa”.

Rosenberg, nos seus livros e palestras, dá o exemplo daquela mulher que tinha que ir embora pois tinha que ir cozinhar e ela não gostava de cozinhar; até que, baseada na linguagem não violenta, um dia anunciou à família que não iria continuar a cozinhar. Alguns dias mais tarde, os filhos agradeceram que a mãe tivesse deixado de cozinhar, pois a comida não era boa e estavam fartos de ouvir as suas queixas acerca desta obrigação.

Negação de responsabilidade – “Obrigaram-me a fazê-lo”: - acerca do uso abusivo da obediência para negar responsabilidade, Rosenberg cita os oficiais dos campos de concentração nazi que mandaram milhares de pessoas para as câmaras de gás sem se sentirem culpados, pois negavam a responsabilidade pessoal no assunto. Em linguagem não violenta, todos somos responsáveis pelos nossos atos, pelo que ninguém pode obrigar-nos a fazer o que a nossa consciência nos diz que é errado.

A nossa consciência moral é o que nos faz verdadeiramente livres. Quando só fazemos o que ela nos dita, somos autónomos, não nos exaltamos com ninguém, nem nos humilhamos perante ninguém porque os nossos atos são comandados a partir dessa nossa consciência e, deste modo, somos sempre os únicos responsáveis por eles.

A nossa consciência moral, bem formada e informada, é o que nos torna verdadeiramente livres -  neste caso, apenas fazemos o que ela nos diz para fazer. Não nos elevamos acima de ninguém, nem nos submetemos a ninguém. Como pessoas livres, independentes e autónomas, as nossas ações brotam do interior da nossa consciência e são guiadas por ela. Assim sendo, ela e nenhuma outra instância, é responsável pelos nossos atos. A nossa consciência moral só responde perante Deus; nisto consiste a liberdade dos filhos de Deus (Romanos 8,21)

A gratuidade em ação na forma como agradecemos e somos agradecidos
Viver em gratuidade significa que nada fazemos que seja motivado por coação, dever, obrigação, por medo de uma repreensão ou castigo ou na ânsia de receber louvores e prémios. Tudo o que fazemos é por puro amor, pela alegria e prazer que sentimos ao contribuir para o nosso bem e para o bem dos outros.

Tanto o “bem” como o “mal” ficam com quem os pratica, ou seja, o castigo pelo mal praticado é inerente à própria prática do mal, não vem de fora e não vem certamente de Deus. Como alguém disse, Deus sempre perdoa e esquece; os humanos, umas vezes sim, outras vezes não; a Natureza, seja ela a natureza física ou humana, não perdoa nem esquece - “quem semeia ventos, colhe tempestades”. Da mesma forma, o prémio pela prática, do bem é inerente à mesma prática, como o anexo de um email.

Como em CNV não fazemos nada para sermos louvados ou recompensados, também não recompensamos nem louvamos os outros pelo que fazem. Não temos fome dos louvores dos outros e não os esperamos como feedback do bem que fazemos, nem os usamos como isco para caçar os outros e viciá-los nos nossos louvores, com o fim de os manipular e controlar.

Longe destes jogos psicológicos, em vez de pedir ou exigir desculpas pelos nossos erros e pelos erros dos outros, fazemos luto; em vez de louvar e ser louvados, celebramos os acertos e conquistas, tanto os nossos como os dos outros.

Tanto o dar como o receber gratuitamente seguem o paradigma dos quatro componentes da linguagem não violenta. Assim, expressamos e sentimos gratuidade, agradecemos e somos agradecidos:
  1. O que é que eu fiz em concreto que contribuiu para o enriquecimento da vida do outro? O que é que o outro fez especificamente que enriqueceu a minha vida?
  2. Como te sentes quando pensas no que fizeste ao outro? Como te sentes quando pensas no que o outro te fez?
  3. Que necessidade ou valor foi satisfeito pelo que fizeste ao outro? Que necessidade ou valor foi satisfeito pelo que o outro te fez?

Exemplo: quando me ofereceste ajuda esta manhã, senti-me grato porque dou muito valor à interajuda entre os membros da nossa equipa. Expressar gratuidade não é o mesmo que agradecer, por isso é importante, tanto para quem faz a ação como para quem a recebe, expressar gratuidade; expressar como aquela ação enriqueceu a minha vida: a pessoa que fez a ação também precisa de ter algum feedback acerca do que fez.
Pe. Jorge Amaro, IMC