1 de maio de 2018

CNV - Observar sem julgar


Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Lucas 6, 37

Se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no Reino do Céu. Mateus 18, 3

O símbolo da justiça, assim como o seu significado, é universalmente conhecido: a senhora de olhos vendados que significa neutralidade e imparcialidade, a balança na mão para avaliar e ponderar equitativamente os atos imputáveis, de espada na mão denotando o poder para executar uma sentença.

Porém, se olharmos para esta mesma figura com os olhos puros de uma criança, que desconhece a sua carga simbólica e cultural, ela pode representar a forma como nos comportamos. Avaliamos e sentenciamos os outros, guiados por preconceitos, pois temos os olhos vendados à realidade observável.

As observações são o que podemos ver e ouvir, que identificamos como o estímulo das nossas reações. O objetivo é descrever de forma objetiva, concreta e neutra o motivo da nossa reação, tanto quanto possível como uma câmara de vídeo teria captado o momento. Isso ajuda a criar uma realidade partilhada com a outra pessoa. A observação é o contexto para a nossa expressão de sentimentos e necessidades e pode mesmo não ser necessária se ambas as pessoas estiverem esclarecidas sobre o contexto.

A chave para uma observação a fazer é separar os nossos próprios julgamentos, avaliações ou interpretações da nossa descrição do que aconteceu. Por exemplo, se dizemos a outra pessoa: "és antipático", ela pode discordar; mas se dissermos "hoje não me cumprimentaste ao entrares na sala" é mais provável que a outra pessoa reconheça o momento descrito.

Quando somos capazes de descrever o que vemos ou ouvimos em linguagem de observação, sem misturar nenhuma avaliação, aumentamos a probabilidade de que a pessoa que vai ouvir-nos neste primeiro passo responda ou não imediatamente à nossa observação, ficando certamente mais disposta a ouvir os nossos sentimentos e necessidades. Pelo contrário, se expressarmos uma avaliação ou crítica, fica logo o “caldo entornado”.

A linguagem não violenta ajuda-nos a distinguir uma observação de uma avaliação e a purificar as nossas observações de todo o juízo moralista e de toda e qualquer avaliação negativa ou positiva. É numa observação desprovida de preconceitos, avaliações e apreciações moralistas e no feedback da mesma à pessoa cujo comportamento observamos, que assenta a comunicação não violenta.

O feedback genuíno de uma boa observação deve ser como um espelho que reflete verdadeiramente o acontecido sem interpretar, analisar, sem tirar nem pôr. Quando, ainda que velada ou sub-repticiamente, deixamos que as nossas observações contenham uma apreciação, análise, interpretação ou crítica, a outra pessoa imediatamente se coloca na defensiva e a comunicação fica envenenada e destinada ao fracasso.

A nossa rapidez excessiva em emitir juízos, faz-nos perder dados observáveis. Pode ajudar-nos o que Jesus diz sobre ser como crianças, ou seja, deveríamos recuperar algumas das qualidades que perdemos quando crescemos. Uma dessas qualidades é conservarmos os olhos puros de uma criança, a sua visão não-subjetiva das coisas, não manchada por qualquer bagagem cultural ou preconceito.

Ao contrário das crianças, os adultos enchem-se frequentemente de preconceitos e opiniões sobre tudo e todos; parecem usar o tipo de palas que os cavalos usam para reduzir o seu campo de visão e olharem só para a frente. Desenvolvem cataratas nos olhos e cera nos ouvidos, pelo que só vêem e ouvem o que querem e como querem. Assim sendo, a perceção, a interpretação e a avaliação são uma e a mesma coisa.

Observação segundo a CNV
Para Rosenberg, uma observação é a descrição do que está a acontecer no preciso momento em que observamos e relatamos a nossa observação. Trata-se de um relatório feito pelos nossos cinco sentidos exteriores: a visão, a audição, o tato, o sabor e o olfato, juntamente com o nosso pensamento e visão interior desprovida de avaliações e preconceitos.

Uma observação não violenta consiste, portanto, no relatório dos factos tal como são percecionados pela nossa experiência sensorial, num determinado contexto de tempo e lugar, livre de qualquer tipo de análise e avaliação.

É difícil observar sem avaliar, sobretudo quando não gostamos do que observamos, quando o que observamos despoleta a nossa ira ou o nosso apreço. Tendemos a envolver-nos pessoalmente no observado, e frequentemente nos precipitamos em juízos temerários dos quais nos arrependemos mais tarde e para os quais já não há remédio se os expressámos; como diz o povo “Palavra fora da boca é pedra fora da mão”

Por causa da nossa formatação violenta, é inevitável que aflorem interpretações e avaliações à nossa consciência acerca de tudo o que observamos.  Quando isto acontece e para evitar conflitos, a CNV manda que guardemos para nós as avaliações, como se fossem um mau pensamento; na eventualidade de formularmos em voz alta uma avaliação, devemos assumir responsabilidade por ela.

A forma mais elevada de inteligência humana é a capacidade de observar sem julgar...
Jiddu Krishnamurti

Observar sem avaliar é “dar o benefício da dúvida”, ou seja, duvidar da nossa avaliação, do nosso pensamento inquisitivo e das suas conclusões quase naturais, para nos mantermos na pura observação natural e naturalista. Julgar e avaliar é encaixilhar, é tirar uma fotografia, é enquadrar, arquivar. Como diria Heráclito, o filósofo grego do devir contínuo, a realidade não é estática, mas sim dinâmica.

A nossa mente tende a operar segundo a filosofia mecanicista da física de Newton, para quem a natureza funciona como um relógio exato. A nossa preguiça mental prefere um mundo onde tudo funciona matemática e inexoravelmente segundo as leis da natureza, onde as exceções são a vergonha da regra, portanto desdenháveis. Um mundo de normalidade, de constantes sem variáveis, perfeitamente previsível e controlável.

Este pode ter sido o mundo de Newton, mas não é o nosso mundo que se encontra melhor representado e explicado pela magia da física quântica e pelo princípio da incerteza e acaso de Heisenberg. As variáveis podem agora ser tantas quantas as leis, levando-nos à confusão; mas este é o nosso mundo.

Para viver em sintonia como este novo mundo dinâmico e em constante mudança, devemos mudar a nossa cosmovisão e a nossa linguagem. Estas não podem ser estáticas nem absolutas, mas relativas e dinâmicas. A CNV retira o foco do que somos, da nossa identidade, da nossa personalidade, apelido, etc. para o colocar no que somos no momento, ou seja, em como nos sentimos, no que se passa connosco. A linguagem estática está fixada no passado, a CNV é dinâmica e está fixada no presente.

Aprender a traduzir sentenças e interpretações em língua de observação afasta-nos do pensar em termos de certo/errado, e ajuda-nos a assumir a responsabilidade pelas nossas reações, direcionando a nossa atenção para as nossas necessidades como a fonte dos nossos sentimentos, em vez de a direcionarmos para outra pessoa.

O clássico exemplo de Rosenberg
Rosenberg conta que um dia foi chamado a uma escola onde os professores estavam zangados e em perene conflito com o diretor. Ao perguntar, numa reunião com os docentes, “O que é que o diretor faz que entra em conflito com as vossas necessidades?”, Rosenberg pedia uma observação concreta do comportamento do diretor, mas tudo o que lhe foi referido foram avaliações: “Ele é um fala barato”, “O diretor fala demasiado”. Ao serem estas declarações expostas como avaliações, um outro professor tentou responder a Rosenberg dizendo “Ele pensa que só ele tem boas ideias”. Por fim, um outro diz “Nas reuniões ele quer ser sempre o centro das atenções”.

Incapazes de referir um comportamento concreto do diretor que fosse isento de avaliações, foi convocada uma reunião na qual o próprio Rosenberg, se deu conta de que o que encrespava os nervos dos professores era o facto de o diretor aproveitar qualquer assunto em discussão para fazer uma longa divagação por histórias da sua infância e juventude, que os levava para fora do tema em debate, aumentando exponencialmente o tempo das reuniões.

Este é só um exemplo da nossa incapacidade de relatar o que observamos sem o contaminar com a nossa avaliação; às vezes, como aconteceu com estes professores, a avaliação invade de tal modo as nossas mentes que até nos esquecemos do comportamento original que a despoletou.

Avaliar sem assumir responsabilidade
Seguindo o livro de Rosenberg, vejamos alguns exemplos em que a observação tem implícita uma avaliação, para nos darmos conta de quão difícil é separar as duas, na vida quotidiana.

“És demasiado generoso” - esta é uma observação coberta por uma avaliação; o sujeito desta afirmação pretende ser a medida de referência do que é menos, mais ou demasiado generoso como tal, faz uma afirmação categórica, pretensamente objetiva, sem se responsabilizar ou implicar nela.

“Ao reparar que deste todos os chocolates sem ficar com nenhum, penso que foste demasiado generoso”. – Esta seria a forma de traduzir a afirmação em pura observação. Fazemos referência a um facto, sem cair na tentação de o interpretar. Mas se quisermos interpretá-lo, então assumimos a responsabilidade por essa interpretação, ou seja, “eu acho” ou “para mim isso é ser demasiado generoso”, deixando assim a realidade aberta a outras interpretações.

Uso e abuso de verbos que avaliam
O João está sempre a adiar” – Esta observação contém uma generalização, mesmo que já tenhamos apanhado o João a adiar, não quer dizer que sempre adie; é a mesma situação daquele que matou um cão e depois passa a ser chamado de “mata-cães”. As generalizações são sempre injustas, assim como rotular uma pessoa, mesmo que esta tenha um comportamento recorrente.

O mais nocivo de todos os verbos dentro da linguagem não violenta é o verbo “ser”, porque batiza as pessoas, amarrando-as a uma etiqueta que as impede de crescer e progredir. O abuso deste verbo na educação de crianças, leva-as a ser o que os outros querem que elas sejam. O verbo “ser” amarra as pessoas a identidades estáticas. Sempre que etiquetamos alguém, metemos essa pessoa numa camisa de forças, condenamo-la a prisão perpétua e não permitimos que que saia de lá.

Somos um ser em construção, em contínuo crescimento, num devir contínuo, em contínuo processo, em contínua evolução. O verbo “ser” não nos define pois não somos pedras, não somos seres estáticos, somos seres vivos; o verbo “ser” só serve para definir coisas mortas e, quando define coisas vivas, mata-as.

O João só estudou para o exame de Física na noite anterior” – O antídoto da generalização que leva ao etiquetar é referirmo-nos a um caso em concreto. Desta forma, observamos ou fazemos eco de algo que aconteceu e somos fiéis à realidade, deixando que seja o João a tirar conclusões em relação à incidência ou reincidência do seu comportamento.

A Mónica é feia” – Denota que temos em nós o padrão da beleza e que, no caso da Mónica, constituímo-nos como porta-voz de 7 mil milhões de pessoas.

O aspeto da Mónica não me atrai” – Desta maneira, responsabilizo-me pela minha apreciação, que é só minha, portanto não extensiva a mais ninguém. Já os romanos diziam “de gustibus non este disputandur”, e o nosso povo afirma “quem o feio ama, bonito lhe parece”.

Profetas da desgraça
O trabalho dela não vai ser aceite” – Manifestamos muitas vezes nas nossas afirmações, a pretensão de sermos profetas, e quase sempre profetas da desgraça. Com certa malícia e prazer no mal dos outros, fazemos prognósticos negativos acerca dos seus pensamentos, ideias, sentimentos, intenções, desejos e ações. É certo que esta não é uma observação, mas uma avaliação à priori, cujo intuito pode ser o de humilhar a pessoa em questão ou fazê-la retroceder nos seus intentos ou mesmo influenciá-la negativamente para que fracasse.

Eu não acho que o trabalho dela seja aceite” – Seria a tradução CNV da avaliação; quem avalia responsabiliza-se pela sua avaliação; desta forma se retira peso e importância ao que se diz.

Se não fizeres refeições equilibradas vais perder a tua saúde” – Aqui está uma observação que nem um médico deveria fazer, pois confunde predição com certeza. A medicina não é uma ciência exata como a matemática; são muitos os fatores que influenciam a saúde ou a doença, pelo que esta observação, podendo conter algo de verdade, não é toda a verdade.

Se as tuas refeições não forem equilibradas, temo que a tua saúde possa ser afetada” – Esta afirmação está mais de acordo com a verdade, por quanto a dieta é só um dos muitos fatores que influenciam tanto o estado de saúde como o estado de doença.

Generalizações
Os estrangeiros são desleixados” -  Eis o exemplo de uma generalização; é talvez o defeito mais corrente no nosso dia a dia. Palavras como “sempre”, “nunca”, “quase sempre” são seguidas por uma generalização. Uma generalização é a universalização da nossa experiência. Se formos suficientemente humildes, damo-nos conta de que a nossa experiência é muito limitada no espaço e no tempo, pelo que não pode nem deve ser universalizada.

A base do racismo, da discriminação é a universalização e generalização das nossas experiências quando fazemos observações sobre grupos de pessoas: os homens…  as mulheres… os negros…  os ciganos… os ingleses…

"A família de estrangeiros que vive no número 24 não cuida o seu jardim” – O antídoto da generalização é ser específico no tempo e no lugar, delimitando a nossa afirmação ou observação a um tempo, lugar e comportamento concretos; “contra factos não há argumentos”.

O Óscar é um mau jogador” – É uma generalização muito ouvida nos círculos futebolísticos e nas discussões acaloradas entre adeptos. Denota frustração, mas nada tem a ver com a verdade.

“O Óscar não marcou golos nos últimos 5 jogos” – Traduzida para afirmação aceite pelos cânones da linguagem não violenta, fazemos referência aos factos e abstemo-nos de conclusões precipitadas. O mesmo jogador ao marcar um golo decisivo para um campeonato seria imediatamente apreciado de forma distinta.

Exemplos de observações com ou sem avaliações
•    “O João estava zangado comigo ontem sem nenhuma razão”. - Avaliação
•    “Ontem à noite, a Nancy roeu as unhas enquanto via televisão”. - Observação
•    “Sam não pediu a minha opinião durante a reunião”. - Observação
•    “O meu pai é um bom homem”. - Avaliação
•    “A Clara trabalha muito”. - Avaliação
•    “O Henrique é agressivo”. - Avaliação
•    “Carlos foi o primeiro todos os dias desta semana”. - Observação
•    “O meu filho, muitas vezes, não escova os dentes”. - Avaliação
•    “O Lucas disse-me que não fico bem de amarelo”. - Observação
•    “A minha tia protesta quando eu falo com ela”. – Avaliação

Os puros de coração verão a Deus
Se a tua vista é para ti ocasião de queda, arranca-a e lança-a para longe de ti: é melhor para ti entrares com uma só vista na Vida, do que, tendo os dois olhos, seres lançado na Geena do fogo. Mateus 18, 9

A lâmpada do corpo são os olhos; se os teus olhos estiverem sãos, todo o teu corpo andará iluminado. Se, porém, os teus olhos estiverem doentes, todo o teu corpo andará em trevas. Portanto, se a luz que há em ti são trevas, quão grandes serão essas trevas! Mateus 6, 22-23

Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Mateus 5, 8

Como sugere Jesus, os nossos olhos estão doentes e, como tal, são ocasião de queda. Não vemos objetivamente, mas vemos apenas o que queremos ver, não vemos sem interpretar, por isso os nossos olhos não são janelas para o mundo, lâmpadas para iluminar as coisas tal qual elas são. Precisamos de purificar o nosso coração e a nossa mente; só assim veremos a Deus e veremos a realidade tal qual ela é e, desta forma, contribuiremos para a harmonia nas relações humanas e para a paz no mundo.

Avaliação ou juízos de valor em CNV
Como é possível viver sem avaliar o comportamento dos outros e o nosso próprio? Não há qualquer tipo de avaliação em CNV? Sim há, em CNV abstraímo-nos de avaliações moralistas, feitas em linguagem estática e que fazem parte do jogo de quem está certo / quem está errado, quem tem razão /quem a não tem, quem é mau / quem é bom, de avaliações que criticam o comportamento dos outros e os julgam como bons, maus, honestos, desonestos, egoístas, altruístas, etc.

A avaliação do observável em CNV está centrada no presente, no aqui e agora, avalia atos concretos e não atitudes genéricas, e é feita de uma forma dinâmica, ou seja, focada no que está a acontecer em nós e nos outros no campo dos sentimentos e necessidades. Em CNV, o nosso comportamento observável, o que dizemos ou fazemos em concreto, e o comportamento dos outros num determinado momento, são avaliados na medida em que vão ou não ao encontro das nossas necessidades, nos fazem sentir bem ou não.

A comunicação violenta assenta em avaliações estáticas e moralistas que, quando proferidas, colocam as pessoas na defensiva porque as classificam e dividem em duas categorias: os bons, que merecem ser elogiados e recompensados, e os maus, que merecem ser repreendidos e punidos. Em CNV, a avaliação baseia-se no que está a acontecer no presente, na medida em que isso vai ou não vai ao encontro das necessidades e valores de todos os envolvidos na interação.
Pe. Jorge Amaro, IMC



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