2 de março de 2016

Perdidos & Achados - Uma ovelha e uma dracma

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«Quem de vós, que possua cem ovelhas e tenha perdido uma delas, não deixa as outras noventa e nove no deserto, para ir à procura da que anda perdida, até a encontrar? Quando a encontra, põe-na alegremente aos ombros e, ao chegar a casa, chama os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’. Lucas 15, 4-6

A ovelha perdida
Chacais, hienas e lobos são os inimigos declarados das ovelhas. Enquanto a maior parte dos animais matam por necessidade, os lobos não se contentam em degolar uma ovelha e come-la em santa Paz; ao contrário degolam-nas todas e não descansam enquanto virem uma ovelha em pé; parece que sentem prazer em matar.

Quando era criança e pastor levava o meu pequeno rebanho para longe e alguma vez escondia-me das ovelhas para ver a sua reação; as ovelhas comiam tranquilas com um olho na erva outro no pastor, mas se deixavam de ver o pastor levantavam a cabeça, calavam-se os chocalhos, olhavam para todas as direções e se não me viam desatavam numa correria louca à desbandada para regressar a casa, eu levantava-me do meu esconderijo, assobiava e elas voltavam.

Tendo isto em conta, se um pastor estiver sozinho a tomar conta do rebanho, é de todo inverosímil que o abandone, que coloque em risco 99 ovelhas por uma que se perdeu. Ao sumo asseguraria primeiro as 99 e só depois iria em busca da perdida.

Este pastor é especial, e usa uma matemática diferente: para ele, 99 é igual a uma e uma igual a 99. Deus não tem as mesmas prioridades, as 99 são deixadas por uma única.  Conta-se que a uma mãe de 9 filhos, a quem falecera um, lhe foi dito a modo de consolação que não devia chorar pois ainda ficava com 8; ela prontamente espondeu “tenho 8 mas não tenho aquele”. O lugar que ocupamos no coração de Deus não é ocupável por outra pessoa. É aqui que reside a dignidade da pessoa humana, somos únicos para Deus; pelo que, quando alguém se perde Deus fica à espera, como o pai do filho pródigo, que ele regresse. E de facto, no caso da parábola, o filho pródigo veio ocupar o lugar que só a ele pertencia e que ninguém mais podia ocupar.

No entanto, segundo a nossa mentalidade, as 99 têm razão para se ressentir e nós vemos esse ressentimento no filho mais velho da parábola dos dois filhos. Dando voz ao ressentimento do segundo filho, podemos dizer, essa ovelha que se perdeu se calhar não quer ser encontrada, tem o que merecia por se portar mal.

Para cúmulo, quando a encontra não a traz de rastos a xutos ou a pontapés, mas coloca-a aos ombros e não só faz uma grande festa como até tem o desplante de dizer que haverá mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam de se arrepender. (Lc 15, 7).

Pastoral ou Evangelização?
A contrário deste pastor divino, a Igreja pouco se importou com a ovelha perdida dizendo-se ainda temos 99 para cuidar. Para estas 99 apareceram montes de pastorais: pastoral universitária, pastoral da juventude, pastoral dos doentes etc…

Hoje estatisticamente 99 são as perdidas e uma só faz ainda parte do rebanho. Apesar de se ter invertido a parábola, a atitude passiva dos pastores, que agora se dedicam a engordar uma só ovelha, não mudou. Ainda temos uma, dirão agora…

Será que faz ainda sentido continuar a dizer pastoral disto ou daquilo? Quando dizemos pastoral universitária ou pastoral sanitária, não é muita pretensão da nossa parte considerar ovelhas do nosso rebanho os dois mil alunos de uma universidade ou as centenas de doentes de um hospital?

Se colocássemos a palavra evangelização onde antes colocávamos pastoral faríamos mais jus à realidade; seriamos mais honestos connosco próprios e por ventura esta realidade nua a crua nos levaria a trocar a atitude passiva do pastor pela proactiva do “pescador de homens” que Jesus tanto queria que fossemos.

Misericórdia & Missão
E a verdade é que tudo o que foi escrito no passado foi escrito para nossa instrução, a fim de que, pela paciência e pela consolação, que nos dão as Escrituras, tenhamos esperança. Que o Deus da paciência e da consolação vos conceda toda a união nos mesmos sentimentos, uns com os outros, segundo a vontade de Cristo Jesus. Romanos 15, 4-5

Neste sentido podemos ver a misericórdia como forma de Missão e a Missão como obra de misericórdia. E é precisamente isso que sugere o logotipo do ano da Misericórdia, proclamado pelo Papa Francisco. Ir em busca da ovelha perdida é ao mesmo tempo uma obra de misericórdia e missão como nova evangelização. De facto, no logotipo, a guisa de ovelha perdida, aos ombros do bom Pastor não vem uma ovelha, mas sim um ser humano, ou seja, o filho pródigo.

Não havendo melhor consolação que viver o evangelho, que nos acalenta e ser testemunhas dele para que outros usufruam dessa mesma consolação, façamos missão no sentido de Isaías que diz, "Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus". (Is 40,1)

A dracma perdida
Ou qual é a mulher que, tendo dez dracmas, se perde uma, não acende a candeia, não varre a casa e não procura cuidadosamente até a encontrar? E, ao encontrá-la, convoca as amigas e vizinhas e diz: 'Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida.' Digo-vos: Assim há alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte.» Lucas 15, 8-10

Ficamos escandalizados com a atitude de Jesus para com as 99. No entanto para Jesus as 99 também estão perdidas, a diferença é que a ovelha perdida e o filho pródigo perderam-se para fora do redil: a dracma, o filho mais velho, e as 99 nunca saíram de casa mas em casa, viviam como perdidos, de Deus e de si mesmos.

Uma dracma era um dia de trabalho, portanto foi muito o que se perdeu. A mulher varre a casa na esperança de a encontrar ao encontra-la faz festa; Deus faz festa por cada um de nós.

Os que lá vão são os piores
É certo que esta lamuria tem servido a muitos como justificação da sua não participação nos sacramentos, considerando-se, mesmo assim cristãos, mas não praticantes; porém o mau exemplo que dão, nos caminhos da vida, os cristãos praticantes, faz esta afirmação não poucas vezes verdadeira; ou seja, em nada se nota nas suas vidas que as práticas surtam algum efeito existencialmente.

Por esta razão seria bom que se criasse algum mecanismo pelo qual os cristãos pudessem fazer uma psicanalise às razões pelas quais praticam os sacramentos; que se verificasse o lugar que ocupa a pratica religiosa nas suas vidas e verificar se é motor de uma vida nova em continua conversão e progresso, ou se ao contrário, aliena e justifica um certo modus vivendi ou status quo..

Quando vivia na Etiópia verifiquei como a ignorância matava muitos doentes de tuberculose. Virgens aos antibióticos, os doentes etíopes aos dois meses de tomar a estreptomicina sentindo-se completamente curados abandonavam o tratamento. Bem sabíamos nós que não estavam completamente curados e quando a doença voltava era muito mais virulenta e resistente aos antibióticos pelo que muitos morriam.

Neste sentido, a Organização Mundial da Saúde alerta ao abuso de antibióticos para pequenas moléstias pois faz com que o corpo se habitue a eles e quando são realmente precisas já não surtem qualquer feito. Isto mesmo acontece a nível eclesial, os sacramentos são autênticos antibióticos para matar os micróbios e as bactérias do mal; mas quando se abusa deles, ou se praticam por rotina, deixam de surtir efeito.

Também a Palavra de Deus, que muitas vezes ouvem os cristãos praticantes, corre o risco de soar a “Dejà vu” pelo que já nem penetra no nosso íntimo, desta feita transformamo-nos no primeiro terreno da parábola do semeador.

Ao combinar as duas parábolas, concluímos que as 99 ovelhas não estavam menos perdidas que uma. No rebanho do Senhor nem estão todos os que são nem são todos os que estão.
Pe. Jorge Amaro, IMC






1 de fevereiro de 2016

Perdidos & Achados - Quem são os pecadores?

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Nas grandes superfícies comerciais, nas Igrejas e em geral onde se encontram grandes multidões há sempre um local para entregar as coisas que uns perdem e outros acham. As crianças perdem-se com frequência, pois não são ainda autónomas e não sabem como orientar-se. No sentido existencial há muita gente perdida e muitos destes acham que não o estão. O evangelho é a melhor loja de perdidos e achados.

Não há capítulo tão conhecido em todo o Novo Testamento como o capítulo 15 do evangelho de São Lucas. É chamado o evangelho dentro do evangelho, pois apresenta e representa a essência da mensagem de Jesus. É também chamado o evangelho da misericórdia.

Comer com pecadores
Os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles». Lucas 15, 2

O Mestre fala em parábolas quando tem que explicar algo abstracto, como o Reino de Deus, ou quando o interrogam ou criticam o seu comportamento. O capítulo 15, do evangelho de Lucas, é composto por três parábolas sobre a misericórdia; o que motiva estas parábolas foi a crítica dos fariseus sobre o facto de Jesus comer com os pecadores, os socialmente proscritos.

Quem eram os pecadores? – Depois de Sto Agostinho ter dito, “Homo simul justus et peccator”, todos nos consideramos um pouco justos e um pouco pecadores. Afirmar-se justo seria igual a dizer-se santo e por muito fanfarrões que sejamos ninguém se atreveria a tal.

Nos tempos de Jesus não era assim; os mestres da lei, os escribas e os fariseus tinham-se a si mesmos como justos, pecadores eram os cobradores de impostos, porque eram aliados do invasor romano, as prostitutas por razões obvias, os pastores por passarem muito tempo apartados da comunidade e, por regra geral, todo o povo que não se dedicava ao cumprimento da lei com a meticulosidade com que o faziam os profissionais religiosos.

Comer com pecadores - “Junta-te aos bons e serás como eles, junta-te aos maus e serás pior que eles” - Jesus já tinha sido acusado de andar com pecadores, agora porém a acusação é ainda mais forte, ele come com eles à mesa. Na nossa mentalidade ocidental moderna comer com uma pessoa má à mesa nada significa, mas não era assim na mentalidade da gente no tempo de Jesus. No médio oriente a comida é a fonte da vida; os que partilham da mesma fonte de vida estão unidos entre si.

Por esta mesma razão na Etiópia, ainda hoje, os muçulmanos não comem a carne dos cristãos e vice-versa, os cristãos não comem a carne dos muçulmanos. Nas cidades onde vivem cristãos e muçulmanos há talhos de carne para muçulmanos e talhos de carne para cristãos. No acto de abater um animal são ditas orações próprias, pelo que se o animal é abatido por um muçulmano a sua carne é para o consumo exclusivo de muçulmanos; se a comessem os cristãos seriam considerados muçulmanos. Isto mesmo fez um colega meu sacerdote, para ridicularizar esta tradição, em consequência nunca ninguém quis participar nas eucaristias por ele celebradas.

Para os fariseus portanto, se Jesus come com os pecadores significa que é pecador e partilha da mesma vida do pecado com eles. Mas Jesus pensa de outra maneira, come com os pecadores não para se tornar pecador, mas para que os pecadores se tornem como ele. Ao fazer-se amigo dos pecadores e comer com eles, Jesus mostra que a bondade de Deus destina-se a levar os pecadores ao arrependimento (Romanos 2,4)

Mistério da Incarnação - Jesus, viveu com os pecadores, não para se juntar a eles nos seus caminhos pecaminosos, mas para lhes apresentar a boa notícia de que o perdão estava disponível. Muitos foram de facto os pecadores que, ao experimentarem em Jesus o acolhimento, a ausência de crítica, a bondade e o amor incondicional, reconheceram o próprio pecado e converteram-se; exemplo claro disto é o episódio de Zaqueu (Lc 19, 1-10). Do ponto de vista psicológico, ou de “savoir faire”, Jesus usava a melhor estratégia, como dizemos hoje em dia “com fel não se caçam moscas”. Não é com ódio que se vence o inimigo, mas com amor; o ódio ainda o faz mais forte e mais inimigo.

Jesus morreu por nós quando ainda eramos pecadores, (Rom 5,8). A morte de Jesus é o culminar do mistério da encarnação pela qual, segundo Sto Ireneo, “Deus se fez homem para que o homem se faça Deus”. O seu rebaixamento está em função da nossa elevação à categoria de filhos de Deus.

O mistério da encarnação pode ser já antevisto na mensagem do profeta Oseias. Este profeta deliberadamente casa-se com uma prostituta, para que ela se tornasse virgem e voltasse aos tempos do namoro. Com isto queria dizer o profeta que Deus estava casado com um povo infiel, que se prostituía adorando os deuses falsos de Baal; em contrapartida, Deus, representado no profeta, é fiel e não perdeu a esperança de guiar o povo a fidelidade do tempo do noivado ou seja, durante a travessia do deserto desde o Egipto até à terra prometida

Chama a todos porque todos são pecadores
Os fariseus, vendo isto, diziam aos discípulos: «Porque é que o vosso Mestre come com os cobradores de impostos e os pecadores?» Jesus ouviu-os e respondeu-lhes: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.» (Mt. 9, 11-13)

Jesus não pode ter dito isto aos fariseus e aos doutores da lei sem uma pisca de ironia um tanto ou quanto sarcástica. Deus não quer sacrifícios frios e rituais, mas que reconheçamos que somos pecadores, que estamos em dívida com Ele, que aceitemos o Seu perdão e a Sua misericórdia e depois, como sugere a parábola do credor incompassivo (Mt 18, 23-35 sejamos também misericordiosos com os outros.

“Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós” (1ª Jo 1,8). Para Jesus ninguém é justo diante de Deus, todos somos pecadores e precisamos da misericórdia divina. Como refere muito bem São João os que, como os fariseus e doutores da lei, se consideram justos, são mentirosos e desonestos, têm não só uma falsa imagem de si mesmos como também uma falsa imagem de Deus.

As três parábolas que se seguem, no capítulo 15 de Lucas também chamado evangelho da misericórdia, ilustram a razão pela qual Jesus, não só anda e come com pecadores, como até escolhe alguns deles para apóstolos.

As primeiras duas, a parábola da Ovelha e da Dracma perdidas são apenas uma introdução à grande parábola do filho pródigo; nelas enunciam-se temas que são depois melhor explicados e desenvolvidos na terceira parábola. Por si só estas duas parábolas, mais que passar uma mensagem, escandalizariam o ouvinte: que sentido tem que um pastor abandone no deserto 99 ovelhas à mercê dos lobos, para ir à procura de uma perdida e festeje o seu encontro?

Da mesma forma também parece ser muito extravagante que uma mulher chame as vizinhas para festejar o encontro de um dracma que tinha perdido em casa. No entanto, quando são seguidas da parábola do filho prodigo servem para despertar a atenção do ouvinte e coloca-lo num estado de maior concentração e em expectativa da parábola seguinte.

Sendo na primeira parábola protagonista um homem e na segunda uma mulher, Jesus quer-nos dizer que vem chamar a todos os pecadores sem distinção de género, nacionalidade, estatuto social, ou quaisquer outras distinções. Por outro lado, quando olhamos para as três parábolas como um todo Jesus quer que concluamos que todos estão perdidos, ou seja todos são pecadores e todos podem ser encontrados e ser recipientes e destinatários da misericórdia divina.

Portanto tão pecadores são a ovelha e o filho pródigo, que se perderam para fora do rebanho e abandonaram a casa do Pai, como a moeda e o filho mais velho que viviam perdidos dentro da casa. Pecadores fora do rebanho e de casa eram os publicanos, as prostitutas e a raia miúda em geral; pecadores dentro do rebando e de casa eram os que se consideravam justos, os fariseus, os doutores da lei e os escribas.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de janeiro de 2016

Ante a miséria misericordia

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Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai. (…) Tal misericórdia tornou-se viva, visível e atingiu o seu clímax em Jesus de Nazaré. Misericordiae Vultus

Deus que ao longo do Antigo Testamento se revelou como sendo misericordioso e clemente, vagaroso na ira, cheio de bondade e de fidelidade, que mantém a sua graça até à milésima geração, que perdoa a iniquidade, a rebeldia e o pecado, (Ex. 34, 6-7) revela o seu verdadeiro rosto em Jesus de Nazaré. Jesus encarna na sua vida mortal a misericórdia de Deus. Vamos ver como, em diversos episódios da sua vida pública.

Compaixão pelas multidões
Contemplando a multidão, encheu-se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida, como ovelhas sem pastor. (…) Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e, cheio de misericórdia para com ela, curou os seus enfermos. (…) Tenho compaixão desta multidão. Há já três dias que permanecem junto de mim e não têm que comer. Se os mandar embora em jejum para suas casas, desfalecerão no caminho, e alguns vieram de longe. Mateus 9, 36; 14, 14; 15, 32

A palavra usada aqui para significar teve compaixão (splagchnizomai) é a mais forte na língua grega quando se fala de misericórdia, comiseração, ter pena de alguém. Vem de splanxma, que significa entranhas, e descreve o grau de compaixão que comove e faz estremecer uma pessoa até ao mais profundo do seu ser. Aparte do seu uso em algumas parábolas, nos evangelhos só é usada nos episódios que aqui nos propomos estudar: Mateus 9,36; 14,14; 20, 34: Marcos 1, 41 e Lucas 7, 13.

O pão da alma - Jesus sente compaixão pelas multidões, pelo povo em geral, porque andam como ovelhas sem pastor. Como dizia Paulo VI, a fome do espirito é bem pior que a fome do corpo. Um espirito subalimentado não é autónomo, não pode guiar a sua vida, não pode chegar à auto-realização e à felicidade. Ante estas multidões errantes, que não encontram o sentido da vida, Jesus ensina-os e apresenta-se ante eles como caminho, verdade e vida; como modelo a seguir.

Em verdade todos nós, tal como ovelhas perdidas, andamos errantes; cada ser humano tomou o seu próprio caminho… (Isaías 53,6). Jesus deu-nos razões para viver, como pessoas individuais e como membros de um povo de um rebanho do qual Ele é o pastor.

A saúde – Cheio de compaixão ante o sofrimento humano causado por varias doenças, Jesus curou-os; afligido com as aflições dos outros, não suportava ver ninguém a sofrer, logo tratava de terminar esse sofrimento. Em vez de dizermos que Jesus é a nossa salvação bem podíamos dizer que é a nossa saúde. “Salus” do latim significa saúde e não salvação. Grande parte da vida de Jesus foi passada sendo médico, curando todo o tipo de doenças porque sem saúde não há vida. Jesus traz saúde para o corpo, saúde para o nosso psiquismo, saúde para a nossa alma, para o nosso espirito, saúde para a nossa consciência moral e a vida passada, saúde para o nosso corpo.

O pão do corpo – Por causa da fome do espírito as pessoas, ávidas das palavras do Senhor, ( porque falava com autoridade dizem os evangelhos ou seja era um autoridade em tudo o que dizia) permaneceram três dias como ele e por fim tinham fome. Jesus não os podia despedir sem lhes dar algo para comer e restaurar as suas forças para o caminho. Isso queriam os apóstolos despacha-los, que fossem eles buscar a comida, mas Jesus insistiu que fossem eles a providenciar….

Primum vivere deinde philosophari - Bem conhecia Jesus a hierarquia das necessidades de Maslow, por isso não se preocupa só com uns aspectos da vida humana, como pretendiam os discípulos que fizesse, mas com todos, por isso não podia deixar ir a multidão sem dar-lhes ele mesmo de comer…. Pão para as nossas bocas, a satisfação das nossas necessidades materiais é o que também pedimos no Pai Nosso.

Compaixão pelos marginados
Quando iam a sair de Jericó, uma grande multidão seguiu Jesus. Nisto, dois cegos que estavam sentados à beira da estrada, ao ouvirem dizer que Jesus ia a passar, começaram a gritar: «Senhor, Filho de David, tem misericórdia de nós!» (…) Jesus parou, chamou-os e perguntou-lhes: «Que quereis que vos faça?» Responderam-lhe: «Senhor, que os nossos olhos se abram!» Dominado pela compaixão, Jesus tocou-lhes nos olhos. Imediatamente recuperaram a vista e seguiram-no. Mateus 20, 29-34

Jericó, a cidade mais antiga do mundo, data do ano 9.000 antes de Cristo. Na bíblia significa e é o símbolo do pecado. A parábola do Samaritano fala-nos de um homem que caiu nas mãos dos salteadores porque descida de Jerusalém para Jericó; vinha da graça para o pecado. Jesus quer salvar a humanidade do pecado, por isso vem a Jericó; encarnou na raça humana que era pecadora. O evangelho mostra-nos Jesus já a sair da cidade acompanhado pela multidão dos que tendo experimentado a salvação agora o seguiam como discípulos.

À beira deste caminho, que leva à salvação, estavam dois cegos, que não podiam andar pela estrada pois não a viam. Ouviram falar daquele que é caminho, verdade e vida e não queriam perder a oportunidade única que agora se lhes apresentava. Há de facto oportunidades que só aparecem uma vez na vida. Por isso apesar do obstáculo da multidão, que os mandava calar, eles gritaram mais forte agarrando-se à única tábua de salvação que era o Senhor.

Jesus pergunta-lhes o que querem, pois podiam não querer mudar de vida, podiam só querer umas moedas para perpetuar a vida de dependência que levavam sem ter de trabalhar; muitos de facto preferem que lhes deem um peixe e não uma cana para pescar. Por isso respeitoso Jesus pergunta e só depois, de ouvir a sua resposta de que de facto querem mudar de vida e também eles abandonar Jericó, o pecado, é que Jesus é dominado pela compaixão e os cura.

Na versão de Marcos (10,46-52) o cego é um só e devia ser bem conhecido pois tem nome e chama-se Bartimeu; é encorajado pelos que antes o queriam calar quando Jesus o chama, e este tão ávido de salvação dá um salto para Jesus, abandonando a capa que o cobria e o ligava a uma vida de dependência, da qual ele se queria libertar.

Compaixão pelos excluídos
Um leproso veio ter com Ele, caiu de joelhos e suplicou: «Se quiseres, podes purificar-me.» Compadecido, Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: «Quero, fica purificado.» Imediatamente a lepra deixou-o, e ficou purificado. Marcos 1, 40-41

Naqueles tempos e em grande medida ainda hoje, como vi na Etiópia, não há doença mais terrível que a lepra; desfigura o rosto, mata-te socialmente muito antes de te matar individualmente. O leproso ainda hoje é forçado a deixar a sua família e a viver numa aldeia onde só vivem leprosos.

Nos tempos de Jesus viviam escondidos e tinham de gritar impuro, se alguém inadvertidamente se abeirava dos lugares onde eles habitavam. O leproso era um vivo morto, e um morto vivo. Quando Jesus envia os seus discípulos em Missão diz-lhe para curar os doentes e limpar os leprosos, (Mt 10,8).

O leproso quebrou a lei de Moisés ao vir ter com Jesus; no entanto Este em vez de o mandar embora, respondeu ao seu desespero com compreensão e compaixão. Jesus quebrou também a lei quando o tocou, mas para Ele o leproso não era um impuro, mas sim uma alma desesperada à procura de ajuda.

Compaixão e projecção
(…) Levavam um defunto a sepultar, filho único de sua mãe, que era viúva; (…) Vendo-a, o Senhor compadeceu-se dela e disse-lhe: «Não chores.» Aproximando-se, tocou no caixão, e os que o transportavam pararam. Disse então: «Jovem, Eu te ordeno: Levanta-te!» O morto sentou-se e começou a falar. E Jesus entregou-o à sua mãe. Lucas 7, 12-15

Filho único de sua mãe, que era viúva – Ao revelar-nos a identidade do defunto, São Lucas, com o mínimo de palavras descreve o máximo de dor; a dor mais excruciante que um ser humano pode suportar. O normal é que os pais partam antes dos filhos e não os filhos antes dos pais; é quase contra as leis da natureza que uma mãe vá sepultar um filho. “Eu não vou sepultar o meu filho, o meu filho é que me vai sepultar a mim” palavras de um pai que sequestrou a sala de operações de um hospital e obrigou os médicos a operar o seu filho, apontando-lhes uma pistola pois ele não tinha dinheiro para pagar a operação.

Para cúmulo, como nos diz o evangelho, esta mulher já era viúva. O seu único filho era também a sua única esperança de vida, pois as mulheres naquele tempo não podiam ter propriedade. Jesus observa a situação e ainda de longe já esta cheio de compaixão pelo que, ao aproximar-se, é ele que toma a iniciativa e dirige a palavra àquela a quem ele quer enxugar as lágrimas.

Tenho para mim que Jesus projectou na viúva de Nain toda a dor que a sua própria mãe, Maria, iria sentir quando, sendo ela também já viúva, fosse sepultar o seu único filho Jesus. Então Jesus fez pela viúva de Nain o que não ia poder fazer pela sua própria mãe. Pôde enxugar as lágrimas da viúva de Nain, mas não pôde enxugar as da sua própria mãe. Não há cena mais enternecedora que a Pietá de Miguel Ângelo, toda uma antítese do Natal, Jesus adulto morto no regaço de sua mãe.

Ante a miséria misericórdia
Os doutores da Lei e os fariseus trouxeram-lhe certa mulher apanhada em adultério, colocaram-na no meio e disseram-lhe: «Mestre, esta mulher foi apanhada a pecar em flagrante adultério. Moisés, na Lei, mandou-nos matar à pedrada tais mulheres. E Tu que dizes?» (…) «Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra (…) Ao ouvirem isto, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher que estava no meio deles. Então, Jesus ergueu-se e perguntou-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?» Ela respondeu: «Ninguém, Senhor.» Disse-lhe Jesus: «Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecar.» João 8, 3-11

Os Judeus queriam colocar o talante misericordioso de Jesus, para com os pecadores, em contradição com a lei de Moisés que no livro do Levítico (20, 10) mandava de facto apedrejar tais mulheres. A atitude de Jesus é tanto mais de louvar se pensarmos que depois de dois mil anos, actualmente, nos países muçulmanos governados pela Sharia isto ainda acontece.

Não é a primeira vez que Jesus é colocado ante um dilema; se não a condena transgride a lei, se a condena contradiz a sua atitude de misericórdia para com os pecadores. Como em outras ocasiões Jesus não obedece aos termos da questão, com o seu silêncio convida os acusadores e também a mulher a um exame de consciência. Ante a insistência dos acusadores, Jesus questiona a sua autoridade como juízes; ao escrever na areia com o dedo recorda, segundo Sto Agostinho, que Deus escreveu as tábuas da lei com o seu dedo, ao mesmo tempo afirma-se como o verdadeiro legislador, aquele que é mais que Moisés. Jesus nem desrespeitou a lei nem contradisse a sua misericórdia.

A nossa tendência é deitar fora o menino com a água da banheira; não conseguirmos distinguir entre o pecado e o pecador. Como era o caso dos fariseus, condenamos mais o pecador que o pecado, porque de facto não estamos isentos; é hipocrisia que pecadores julguem pecadores. Neste, como noutros episódios, Jesus condena o pecado sem condenar o pecador.

Esta mulher foi usada primeiro como instrumento de prazer, por aquele que cometeu adultério com ela; objecto de deleite para todos os que contemplam a sua nudez e se regozijam com a sua vergonha; no seu intento de apedreja-la os fariseus querem usa-la como bode expiatório dos seus próprios pecados; o povo em geral pretende usa-la como objecto do prazer sádico que envolve todos os espectáculos cruéis de linchamentos populares.

Humilhada, ao ver exposto o seu pecado, envergonhada no meio da multidão, desgraçada por ter perdido a sua reputação, aterrada ante a tortura que a esperava. É provável que ante tanta miséria ela mesma desejasse a morte.

Depois de expor a hipocrisia dos que a expuseram, ao fim ficaram só os dois; como diz Sto Agostinho a miséria e a misericórdia. Para não vexa-la ainda mais, sem olhar para ela desde a mansidão, empatia e misericórdia, com que trata as mulheres no evangelho de Lucas, Jesus dirige-se a ela como pessoa e fala-lhe com uma ternura incomensurável, devolvendo-lhe a vida e a dignidade.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de janeiro de 2016

O amor e a eternidade

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Mira que eres linda, que preciosa eres, estando a tu lado, verdad que me siento más cerca de Dios... Antonio Machín

O tempo e o espaço
O tempo é um continuum, ou um devir não espacial, no qual os acontecimentos ocorrem numa sucessão aparentemente irreversível desde o passado, através do presente, em direcção ao futuro. O espaço é a realidade tridimensional na qual toda a matéria existe.

Como ser espácio temporal, o Homem, ocupa um determinado espaço, durante um determinado tempo. É, portanto, um ser limitado, porque está confinado a um espaço e finito porque a ocupação desse espaço tem os dias contados. O amor porém, desfazendo as limitações do tempo e do espaço, faz o Homem eterno.

O amor
Não é fácil definir “amor”. É uma palavra demasiado usada e abusada pelo que tem muitos significados, alguns deles variando até de pessoa para pessoa. Fugindo da complexidade e confusão, que o emaranhado de diferentes conceitos e realidades abrangidos pela mesma palavra gera na nossa cabeça, podíamos reduzir o conceito de amor a dois termos; um mais ético, a benevolência e outro menos ético ou mais natural, o desejo ou a atracção que se sente pela pessoa amada.

Amor como benevolência
Sto. Tomás de Aquino definia amar como querer o bem do outro. Ágape em grego, traduzido para Caritas em latim, amar é descentrar-se de si próprio e fazer o outro objecto e razão do nosso existir. Este é o tipo de amor que permitiu a São Francisco de Assis beijar um leproso, por quem não se sentia minimamente atraído, e a Cristo e os seus seguidores amar os inimigos.

Amor como desejo e atracção
Unindo os dois conceitos gregos de “Eros” e “Filia”, o amor é um sentimento de intenso desejo e atracção, por uma pessoa com quem se busca unir espiritualmente, afectivamente e sexualmente, numa relação intima e romântica.

É certo que as duas acepções de amor podem, e até devem, unir-se numa só. No entanto para simplificar, nesta reflecção, vamos colocar de parte a primeira definição dado que, sempre que vulgarmente se fala de amor fora do contexto religioso, a maior parte das pessoas entende o amor romântico e não o de benevolência.

Amar é experimentar a eternidade no aqui e agora da nossa existência
Fui toda a vida coleccionador de momentos de eternidade Artur Rubinstein.

Para os amantes, ou enamorados, todo o tempo é pouco para estar juntos, e só se apercebem do “fugit tempus” depois de muitas horas em que não foram conscientes dele. Durante essas horas, em que o amor os fez abstrair-se do tempo e do espaço, experimentaram a eternidade. Quando estás junto da pessoa amada o espaço que ocupas com ela esfuma-se, e o tempo pára, porque se perde a consciência de um e de outro; só existes tu e a pessoa amada.

Só o amor pulveriza, faz desaparecer e anula o tempo e o espaço; portanto, a eternidade não existe só na eternidade ela pode ser já experimentada aqui, como prova da sua existência. O ser humano está vocacionado à eternidade e a ela acede pelo amor; aqui e agora de uma forma virtual, para além do espaço e do tempo de uma forma real.

Quando os amantes estão juntos perdem a noção do tempo e do espaço e experimentam virtualmente a eternidade provando que ela existe. Só o amor te pode conduzir à eternidade real porque Deus é amor. Como sugere Artur Rubinstein, quantos mais momentos de eternidade coleccionamos, mais eternos nos tornamos.

“Quality time”
É uma expressão inglesa de difícil tradução. Refere-se ao tempo dedicado exclusivamente para nutrir uma pessoa, ou pessoas amadas, assim como uma actividade de tempo livre, um hobby. Por exemplo, um pai decide não ir ao bar à noite para passar “quality time” com a sua mulher e filhos; um namorado decide pôr os livros de parte para passar “quality time” com a sua namorada.

Time is Money dizem os mesmos ingleses; mas o tempo dedicado à angariação de dinheiro não é tão salutar como o tempo dedicado ao amor; não nos faz perder a noção do tempo e do espaço como o amor o qual prova que não são bens eternos mas temporais; por outro lado, não nos enche as medidas porque o nosso coração foi feito para amar pessoas não bens materiais. Ao contrário dos seres humanos, o tempo dos animais é todo ele gasto na angariação do que precisam para viver; pelo que mortais seremos nós, como eles são, se os copiarmos no uso do nosso tempo.

Eternidade – Amor – Deus - são conceitos que se auto implicam. O acima citado cantor, António Machin, sentia-se mais perto de Deus na companhia e na contemplação da beleza da sua amada. Deus é eterno, existe para além do tempo e do espaço que Ele mesmo criou. 1 João 4, 8 diz que aquele que não ama não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor.

Quem não ama não conhece a Deus nem acede à eternidade, porque a eternidade é Deus e Deus é amor; e se Deus é amor a única forma de O conhecer é amando. O amor é a porta do céu e faz desta terra o Céu para os que amam. Como o amor leva à eternidade, faz experimentar essa mesma eternidade no aqui e agora de quem ama. Vocacionados e chamados a “ser como Deus” é pelo amor, ou seja quando amamos, que participamos da Sua essência e somos como Ele.

O amor é mais forte que a morte
Grava-me como selo em teu coração, como selo no teu braço, porque forte como a morte é o amor, Implacável como o abismo é a paixão; os seus ardores são chamas de fogo, são labaredas divinas. Cântico dos Cânticos 8, 6

Se o amor existe, Deus existe porque é amor; se Deus existe, a eternidade existe, e se a eternidade existe o amor é eterno, e se o amor é eterno não é tão forte como a morte, como diz a amada no Cântico dos Cânticos, mas sim mais forte que a morte. O nosso Camões diz que o amor é fogo que arde sem se ver… A amada do Cântico dos Cânticos diz que essas labaredas são divinas portanto eternas.

Ars lunga vita brevis, o amor é uma arte e como tal é eterno; a vida porém é breve, no entanto quando é gasta no cultivo do amor torna-se eterna, pois só o amor traspõe os umbrais da morte e conduz à eternidade.

Isto mesmo conclui Camões ao narrar num dos seus sonetos o amor bíblico de Jacob por Raquel. Este por causa de esse amor foi obrigado pelo seu tio Labão a servir de pastor por sete anos; depois dos quais o seu tio em vez de lhe dar Raquel deu-lhe Lia a irmã mais velha, com a desculpa de que não podia casar a mais nova sem primeiro casar a mais velha.

O soneto fecha-se com as palavras de Jacob que ao preparar-se psicologicamente para servir o seu tio por mais sete anos para conseguir Raquel exclama: “Mais serviria, se não fora, para tão longo amor tão curta a vida”. O amor é de facto eterno, não pode realizar-se plenamente no tempo, por isso nos conduz à eternidade para aí se realizar na sua plenitude; o amor concede-nos a eternidade quando nós lhe dedicamos a nossa temporalidade, o tempo da nossa vida.

É também por isso que, como Jesus fez, é possível morrer de amor e por amor, pois quem por amor morre nunca morre pois o amor é eterno. Quem por amor dá a vida, nunca a perde; ao contrário, como garante Jesus, é quem não a dá que a perde. (Lc 9,24). Só se dá o que se tem e só se tem o que se dá.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de dezembro de 2015

O menino refugiado que não morreu afogado

Sem comentários:

(...) ama o estrangeiro e dá-lhe pão e vestuário. Amarás o estrangeiro, porque foste estrangeiro na terra do Egipto. Deuteronómio 10, 18-19

A crise dos refugiados
Para avaliar de uma forma adequada a crise dos refugiados, como qualquer outro tema e evitar as visões reducionistas a que levam os preconceitos e as xenofobias, não há como enquadrar o tema num contexto espácio temporal mais amplo. Um olhar histórico de maior amplitude geográfica diz-nos que desde que a raça humana nasceu em Africa, no vale de Rift à 5 milões de anos, não parou nunca de deslocar-se.

Dali povoou todos os continentes, e foi na interacção com os diferentes habitats que foram surgindo povos com diferenças fisiológicas, culturais e linguísticas. Estas características ficaram demarcadas em três grupos humanos, não raças pois todos vimos de um tronco comum: Negróide, Caucasianos e Mongolóide.

Nem sempre desenvolvimento significa progresso humano. Os nacionalismos, e a consolidação das fronteiras entre as nações nos séculos XIX e XX, fizeram mais difícil a natural deslocação e mistura de povos, aumentando o racismo e a xenofobia. No mundo antigo os povos moviam-se com relativa facilidade, não havia fronteiras bem definidas, nem guarda das mesmas. Por isso podemos dizer que não há raças, nem raças puras, todo o povo é formado por outros povos.

Costumamos marcar diferenças entre o povo português e os outros povos e, no entanto, também nós somos um povo constituído por várias etnias, por outros povos: Iberos, Celtas, Gregos, Fenícios, Cartagineses, Romanos, Judeus, Alanos, Suevos, Vândalos, Visigodos e Mouros.

Situação na Síria
Governada desde os anos sessenta pela família Al-Assad, a Síria pertence ao conjunto de países muçulmanos que têm resistido ao governo da Sharia. O atual presidente Bashar Al-Assad nem foi derrubado pela América, como Saldam Hussein, nem pela primavera Árabe e pela América como Kadhafi.

Porém ao abusar da força contra a Primavera Árabe, para se manter no poder, criou uma guerra civil complexa entre diferentes etnias e grupos religiosos que lutam, não já só contra o ditador, mas também entre si, em coligações que mudam todos os dias. Aproveitando-se desta confusão surge o Estado Islâmico, em zonas não controladas do Iraque e da Síria. Desta feita, os Sírios viram-se acurralados entre o regime, grupos rebeldes e o extremismo religioso do Estado Islâmico.

Não é difícil entender por que fogem do seu país. O regime de Bashar al-Assad mata impiedosamente civis, com armas químicas e bombas de tambor; O autodenominado Estado Islâmico comete todo tipo de atrocidades como sabemos, assassina todos os que não estejam com eles, tortura, crucifica, viola e submete mulheres e meninas à escravidão sexual; outros grupos como Jabhat al-Nusra fazem outro tanto. 

Os Sírios fogem de um lado para o outro dentro do seu próprio país; de facto, actualmente um terço da população da Síria é refugiada no seu próprio pais; outros 4 milhões deixaram o país, destes 95% vivem em países vizinhos como o Líbano, a Turquia, a Jordânia. Os estados mais ricos do Golfo persa não aceitaram nenhum refugiado, Arabia Saudita, Qatar, Emiratos Árabes, Baharain, Kuwait, Irão.

O mundo não estava preparado para uma crise de refugiados nesta escala, por isso muitos dos campos não tem suficientes recursos pelo que estas populações estão sujeitas à fome, ao frio e à doença. Perdendo a esperança alguns decidiram buscar asilo na Europa, depois de uma viagem por terra e por mar explorados por traficantes, chegam às costas de uma Europa que lhes vira as costas e que ergue muros para que não entrem. Há meses que debatem como reparti-los entre si e ainda não chegaram a um acordo.

Teorias da conspiração preconceitos, clichés, xenofobias e islamofobia
Circulam nas redes sociais opiniões para todos os gostos; pelo geral negativas, cheias de preconceitos clichés e racismo. Na sua grande maioria estas opiniões nada dizem sobre o tema; fazem mais luz sobre a personalidade de quem as cria e sustenta que do tema dos refugiados. Recolhi algumas delas para as expor.

Os países árabes que os ajudem – É certo que os países árabes mais ricos os do golf pérsico não os ajudaram, mas como acima ficou dito a esmagadora maioria dos refugiados vivem nos países árabes vizinhos da Síria.

Por outro lado, o médio oriente não é uma zona estável onde todos querem ir morar; se são xiitas temem os sunitas ou vice-versa, se são cristãos temem os dois, se são ateus os três. O facto de alguns não ajudarem devia a motivar mais a nossa ajuda.

 "Primeiro estão os nossos sem-abrigo!!!" os sem emprego, combater a pobreza infantil etc…  - Pobres sempre os tereis convosco, diz Jesus, desigualdades e problemas sempre os haverá, se esperamos solucionar primeiro estes, para depois nos dedicarmos aos outros, nada faremos nem por uns nem por outros. “Primeiro o pão que está no forno”, este é um problema urgente que requer uma solução já; há homens, mulheres e crianças extenuados depois de uma longa viagem a viver em campos, em condições infra-humanas, que não vão resistir este inverno.

"Se são refugiados, porque é que a maioria são homens?!" – Há mulheres e crianças, famílias inteiras entre os refugiados, mas é fácil de entender o facto de serem, muitos deles, homens. Na nossa imigração também iam primeiro os homens. Os homens vão em busca de um local melhor e de condições, para depois poderem trazer a família, sem a ter de a sujeitar a uma viagem que poderá ter como destino a morte.

“Os refugiados são um cavalo de Tróia do Estado Islâmico!" – A actual crise de refugiados é uma consequência directa da guerra civil na Síria. O que normalmente se entende por islamização da Europa, é um fenómeno que há muito acontece e em grande medida é mais um mito islamofobico, ou uma teoria da conspiração, que outra coisa.

Mesmo que a EU aceitasse os 4 milhões de refugiados, e todos eles fossem muçulmanos, a totalidade dos muçulmanos só aumentaria em 1%, passaria dos atuais 4% para 5%. Diz ainda a teoria da conspiração que os muçulmanos crescem mais que os cristãos; o caso é que uma vez aqui a taxa de crescimento é igual à dos outros europeus. Na Síria a população estava a decrescer antes da guerra civil.

Também dizem que aumenta a criminalidade. A experiência diz-nos que ao obter um emprego começam a descontar para o sistema e a Europa de facto precisa deles. Acetando-os, e integrando-os na nossa sociedade, temos mais a ganhar que perder.

Ante a dita, “potencial” Islamização da Europa, a Chanceler da Alemanha Ângela Merkel opina que, a melhor resposta não é fechar as portas, ou combater os que já entraram, mas sim voltar à Igreja, ter a coragem de ser cristãos, fomentar o diálogo, e aprofundar de novo a Bíblia. Isto nos diz a incontestável líder da Comunidade Europeia, filha de um pastor protestante, nomeada prémio Nobel da Paz 2015 pela sua resposta adequada à crise dos refugiados, apesar de, por isso mesmo, ter perdido popularidade no seu próprio país.

O menino refugiado que não morreu afogado foi, como todos sabemos, o menino Jesus. Para evitar a ira de Herodes, que queria matar o menino, a Sagrada Família fugiu para o Egipto. Afortunadamente o Egipto daquele tempo não era como a Europa de hoje, e o menino Jesus pôde crescer “em sabedoria e em graça” no Egipto até à morte do ditador.

Dejá vue
Quando a Alemanha se quis desfazer de 5 milhões de Judeus houve várias soluções, em cima da mesa, para o problema, antes da solução final que todos conhecemos. Uma dessas soluções era colocar os judeus em comboios para Espanha e dali em barcos para a América. As nações americanas recusaram-se a recebê-los e do Canadá veio a resposta, nenhum são demasiados.

Alguém pode achar um exagero estas comparações ou só o facto de ter mencionado este episódio da segunda guerra mundial. Mas as noticias dizem que esta é a principal crise de refugiados depois da segunda guerra mundial e não há muito, numa manifestação contra os refugiados no leste da Europa, uma das frases em cartaz lamentava os campos de concentração não estarem abertos.

Travar com as rodas ou travar com o motor
Quando nas auto-estradas encontramos descidas de mais de 6% é aconselhável travar com o motor e não com as rodas. Ao travar com o motor, reduzimos a velocidade na sua origem vencendo a inércia e a força da gravidade, de uma forma eficiente e segura; ao contrário, quando não atuamos na origem do movimento, mas na sua manifestação nas rodas, desestabilizamos o carro podendo causar um acidente, porque uma roda pode travar mais que a outra e porque nada fazemos quanto à inércia e força de gravidade, que continuam a empurrar o carro para a frente.

Travar com as rodas - É certo que temos que travar o movimento dos refugidos, mas devemos travá-lo na sua origem, não quando já estão às nossas portas. Quando a União Europeia tinha uma acordo com a Líbia de Kadhafi para impedir que os refugiados cruzassem o mediterrâneo, estava a travar com as rodas. A Inglaterra quer que eles fiquem em França, os Franceses querem que fiquem em Itália, os Italianos que fiquem na Grécia e os Gregos, como o resto dos europeus, querem que fiquem na Turquia. O mesmo se está agora a fazer, com o acordo com a Turquia, para impedir que passem para a europa; ou o que fazem alguns países que os deixam passar para que o problema o tenha o próximo país. Enquanto isto acontece alguns países, do leste europeu, estão já a construir muralhas nas suas fronteiras.

Travar com o motor – Seria procurar resolver o conflito na Síria, coisa que se apresenta difícil; os Sírios sozinhos já provaram, ao longo de 4 anos, que não conseguem; as potências mundiais são tão facciosas como as facções ao interior da Síria. A última conferência de paz, celebrada em Viena, revelou que o mundo em relação à Síria também está dividido numa espécie “fria guerra civil”; temo que enquanto esta não acabar, ou seja, enquanto os Estados Unidos, a Rússia e o Irão não se puserem de acordo, não acabarão as hostilidades na Síria e o fluxo de refugiados.

O menino refugiado que não morreu afogado
Já passaram alguns meses desde que o corpo de um menino refugiado deu à costa desencadeando um onda de solidariedade. Recordemos neste Natal que o menino Jesus, fugindo da ira de Herodes que o queria matar, também teve que buscar refúgio noutro país. Como foi para o bem da humanidade que a fuga da Sagrada Família teve sucesso, assim são e assim sejam todas as fugas.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de dezembro de 2015

Consagrado para a Missão

2 comentários:

Pe. Jorge em Etiópia com crianças e jovens doentes de poliomielite
Quem sou, de onde venho, a onde vou
Quero terminar esta reflexão sobre a vida consagrada com o meu próprio testemunho de sacerdote religioso consagrado para a Missão.

Sou natural de Loriga, uma vila do concelho de Seia, na Serra da Estrela. Há 30 anos que vivo ao serviço da Missão em vários países, Etiópia, Espanha, Inglaterra, Canadá, Estados Unidos e agora em Portugal.

Porque aos 6 anos de idade eu quis ser o que hoje sou, resulta-me difícil ajudar jovens adultos de 20 e mais anos no discernimento da sua vocação; e também me custa entender como tantos sacerdotes abandonam os Institutos Missionários Ad Gentes para serem padres diocesanos. Deixam de ser pescadores de homens, como Jesus queria que fossem os seus discípulos, para serem pastores de um rebanho cada vez mais diminuto.

É certo que a razão que me levou a escolher esta vida não é a mesma pela qual me mantenho nela. A minha vocação surgiu num dia em que um missionário visitou a minha escola e falou das suas aventuras em Africa com tanto entusiasmo que logo despertou, no meu coração de criança, a ânsia de vir um dia a ser aventureiro como ele. Mais tarde, é claro, descobri que o gosto pela aventura foi somente a isca que Deus usou para pescar, para Ele, o meu coração de menino. Fui pescado por Deus como um peixe para mais tarde me transformar, tal como os apóstolos, em pescador de homens.

Os sonhos de criança são incontornáveis; de tal forma estava eu irremovível desta minha resolução que cheguei a bater o pé ao meu pároco, que me queria mandar para o seminário diocesano. Não era o sacerdócio o que mais me atraia na altura, nem agora, mas sim a vida missionária. Depois de fracassadas tentativas de entrar nos Missionários do Verbo Divino em Tortosendo e nos Combonianos de Viseu, entrei para os Missionários da Consolata, em Vila Nova de Poiares, por sugestão do meu mesmo pároco que ante a minha insistência deu o braço a torcer.

“Deixar a vida pelo mundo em pedaços repartida”
Dentro da mesma Igreja existe uma igreja orante e uma militante, seguindo estas linhas, a Vida Consagrada na Igreja divide-se em duas grandes vertentes activa e contemplativa. Variando os carismas a vida contemplativa baseada fundamentalmente na regra de São Bento, “Ora et Labora” é uma vida completamente dedicada à oração e contemplação do mistério de Deus.

Hoje esta maneira de viver é muito contestada pelo frenesi dos tempos modernos, nos quais a vida humana parece justificar-se pelas obras, por aquilo que uma pessoa faz. Ante este cenário activista, a vida contemplativa vem nos recordar que mais importante é o ser que o ter e o fazer. Por mais anos que vivamos neste mundo, a fazer coisas, mais serão os anos em que viveremos contemplando a Deus no seu reino; e se assim é porque não começar já agora?

Dentro da vida activa os religiosos dedicam-se segundo o seu carisma a mil e uma actividades no campo da educação, da saúde física e mental, da promoção humana etc. O meu carisma, digo com orgulho citando o meu fundador o Beato José Allamano, é a vocação mais perfeita da Igreja, a Missão; é de facto a razão mesma pela qual e para a qual a Igreja existe: levar o evangelho a toda a criatura; levar Cristo a todos os povos e ou trazer todos os povos ao Seu conhecimento.

Há quem viva toda a sua vida no mesmo lugar, convivendo com as mesmas pessoas, fazendo sempre a mesma coisa. Há em Portugal párocos, que estão ao serviço da mesma comunidade há mais de 50 anos. Quanto a mim, cedo me dei conta de que a minha vida não seria vivida desta maneira. De facto desde os 10 anos, quando entrei para o Instituto, nunca estive mais de 3 ou 4 anos no mesmo sítio.

Vejo a minha vida com um puzzle de peças dispersas em sítios tão longe como dispares; com pessoas de varias etnias, línguas, povos e nações; quando esta chegar ao fim e todas as peças estiveram reunidas e colocadas no seu lugar, espero que, no seu conjunto, formem uma imagem que agrade a Deus. O missionário é uma pessoa sem eira nem beira, um peregrino sempre em caminho a quem o entardecer não o encontra onde o deixou o amanhecer, como diz Kalil Gibran no seu livro o Profeta.

Ser consagrado significa ser posto de parte, reservado para um serviço extraordinário que requer, da parte do candidato, colocar de lado o que configura e dá forma à vida da maior parte das pessoas. Os votos de pobreza, castidade e obediência são comuns a todos os consagrados; o consagrado, não possui bens materiais para dedicar-se exclusivamente ao cultivo de bens espirituais; ama universalmente com um amor que não exclui ninguém, pelo que o seu abraço é aberto; não busca poder, nem poleiro, nem fama nem nome; submete-se ao plano que Deus tem para ele, obedecendo-lhe através dos superiores e dos sinais dos tempos.

O consagrado para a missão, ecoa ainda hoje no seu interior aquelas palavras do mestre “ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda a criatura". Como as torres de TV o missionário aumenta o sinal, neste caso, o sinal da fé que vai passando de geração em geração, de povo em povo, de terra em terra.

Missionário, ontem, hoje e amanhã
Se soubesse aos 6 anos o que hoje sei, passados 30 anos da minha ordenação, voltaria a escolher a vida missionaria. Vejo-me de tal forma identificado com ela que aquela intuição que eu tive aos 6 anos, e a opção que fiz aos 10, não pode ter sido só humana; foi um autêntico chamamento de Deus. Nunca me senti galinha de capoeira mas águia, que voa bem alto sem limites de fronteiras, línguas, sem preconceitos contra outros povos e sem apego desmesurado e paralisante pela minha família, a minha terra, o meu pais e a minha cultura.

Recordo um dia, estando eu de férias e em vésperas de voltar para a Etiópia, o meu pai estava a tentar convencer-me que não devia regressar, que os anos que tinha estado na Etiópia eram suficientes que aqui também fazia missão etc etc. A minha mãe ouviu-o e disse-lhe em tom severo: “Cala-te homem que Deus pode-te castigar”, e o meu pai logo se calou. Deus, que já tem a minha mãe consigo, deve estar muito contente com ela pois não foi uma mãe galinha; foi uma mãe que soube superar o instinto materno, coisa que muitos pais de hoje não conseguem.

Quantas vocações se têm perdido para a vida religiosa e para o sacerdócio por causa de pais que se agarram aos seus filhos, privando-os da “liberdade dos filhos de Deus” e muitos destes pais até são católicos e praticantes; eu sempre me perguntei com que cara, vão aparecer diante de Deus, quando tudo fizeram para destruir a vocação à vida consagrada dos seus filhos e filhas.

A missão está no seu começo
Nunca ficarei no desemprego; foi o papa João Paulo II que o disse, a missão está no seu começo. O maior dos continentes está ainda sob-evangelizado pelo que trabalho não faltará. Por outro lado muitos dos países, que outrora eram cristãos, abandonaram a fé e vivem numa espécie de paganismo moderno adorando a vários deuses: já não baptizam os seus filhos, nem os mandam à catequese, pelo que um eventual contacto com o evangelho pode ser considerado tão primeira evangelização como aquela pessoa, que na distante Mongólia, onde praticamente não há cristãos, ouve falar de Cristo pela primeira vez.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de novembro de 2015

Vocações goradas

1 comentário:
Porque a nossa vida é espácio-temporal, Cristo só podia existir uma vez em carne humana. Mas Ele não veio só salvar os homens do seu tempo, e do seu país, mas sim toda a humanidade: todos os que tinham vivido antes Dele, por isso diz a escritura que desceu aos infernos depois da sua ressurreição, e todos os que iam viver depois Dele aos quais Ele mesmo faz referência, no episódio da aparição aos 12 e a Tomé, quando diz que são felizes os que acreditam sem terem visto; os que iam viver depois de Cristo, são ainda nomeados na oração sacerdotal quando Jesus pede pelos que vão acreditar no testemunho dos apóstolos.

Cristo, que é salvação para os homens de todos os tempos e de todos os lugares, tinha que arranjar forma para que essa salvação de facto fosse estendida de facto a todo tempo e a todo o lugar.

A Igreja é Cristo em todo tempo e todo lugar
Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos Mt 28, 20
A Igreja, corpo místico de Cristo, é a maneira que Jesus arranjou para estender a sua mensagem e ação no tempo e no espaço. Ele mesmo o disse, se tiverdes fé fareis tudo o que eu faço e obras ainda maiores. Deus não está limitado pelas coordenadas do tempo e do espaço; Cristo era Deus mas, em tanto em quanto viveu entre os homens, ficou também ele limitado por aquelas coordenadas.

Cristo é caminho, verdade e vida para os homens de todo tempo e lugar. A Igreja somos todos nós, mas dentro da igreja há carismas que precisam de um chamamento especial porque requerem uma especial consagração. Os sacerdotes e os religiosos estão ao serviço da Missão e da fraternidade universal porque consagram toda a sua vida a este serviço; como dizem os espanhóis põem toda a carne no assador.

É de supor que Cristo, continue a chamar e talvez mais ainda que antes pois, para os pastores o rebanho cresceu, para os pescadores de homens a messe é ainda maior (Mt 9,32-38);  e se Cristo continua a chamar, como é que hoje há cada vez menos missionários, gente disposta a deixar a sua terra e a sua família para levar o evangelho a outras latitudes e longitudes? Se Cristo continua a chamar porque é que o clero é cada vez mais idoso e há sacerdotes com 3 e 4 e até 5 e mais paróquias?

Tal como na parábola do semeador, o problema não está na semente nem no próprio semeador que é Cristo; o problema está nos diferentes terrenos onde esta semente cai. Cristo continua a chamar mas as respostas a esse chamamento são cada vez mais como a do jovem rico…

Maus exemplos
Uma das razões pela escassez de vocações são os maus exemplos, que alguns de nós religiosos e sacerdotes damos. É o tal escândalo dos pequeninos do qual o evangelho nos fala; cada um de nós pode ser uma pedra de calçada, que facilita o caminho, ou uma pedra de tropeço, que faz cair. Em grego escândalo significa mesmo pedra de tropeço.

É um facto que com o escândalo da pedofilia muita gente abandonou a Igreja; mas foram os “pequeninos” do evangelho que a abandonaram, os de fé pequena ou uma fé que precisava de crescer para se tornar adulta. Num cesto de maçãs é inevitável que haja alguma podre. Já assim aconteceu nos primórdios da Igreja com o grupo de 12 apóstolos que Jesus escolheu; um deles, Judas Iscariotes, era traidor.

Os que abandonaram a Igreja de Cristo, pelo escândalo de algum sacerdote demonstraram que a fé deles não era em Cristo mas no sacerdote em questão. Deitaram fora o menino com a água da banheira; desqualificaram a fé em Cristo e o próprio Cristo por causa do mau exemplo de um cristão.

O sacerdote é um sacramento, representa a Cristo e actua em nome de Cristo, mas não é Cristo. Como há bons actores e maus actores, há sacerdotes que representam bem a Cristo e outros que o representam mal. O sacerdote é um ícone de Cristo a nossa fé é em quem ele representa e não nele mesmo.

Jovens auto-referenciais
Não peças o que o teu país pode fazer por ti mas o que tu podes fazer pelo teu país. John F. Kennedy

Uma jovem de 17 anos dizia-me na escola: “em vez de acreditar em Deus eu acredito em mim mesma, aliás eu sou o deus de mim mesma”. Como esta, muitos jovens de hoje não têm ideais, são auto-referenciais, giram à volta de si mesmos. O mundo tem muito para oferecer e o jovem olha para o mundo, não como uma messe grande onde os trabalhadores são poucos mas sim, como um grande buffet de cosias belas e prazenteiras que não querem perder por nada. Para eles, aceder a estes bens é ganhar a vida, renunciar a eles ou ver-se privado deles é perder a vida. Assim pensando não podem entender o que Cristo disse: “Quem quiser ganhar a vida há-de perde-la, e quem a perder pelo evangelho há-de ganha-la (João 12, 25).

A maior parte dos santos da Igreja católica eram de famílias ricas, nobres e famosas, tinham tudo o que estes pobres jovens e hoje tanto desejam e tudo puseram de lado e tudo consideraram porcaria com tal de ter Cristo (Filipenses 3, 7-10). Tal como São Paulo estes jovens ricos belos e nobres, não renunciaram simplesmente às riquezas mas encontraram em Cristo uma riqueza maior e tal como o comerciante de perolas ao encontrar uma de grande valor colocou as outras de parte  (Mateus 13, 45-46) Pena que estes jovens nunca encontrem a Cristo.

Para o jovem de hoje, resulta muito difícil entender que a sua vida não é acerca dele mesmo; que a sua vida é um valor relativo, que o que lhe dá valor é o que faça ou não faça com ela. Bethoven sem a música seria um Zé Ninguém; o mesmo seria Picasso sem a pintura; os talentos individuais estão orientados antes de mais ao bem comum só depois ao bem individual. Não vivemos para ser felizes mas sim para ser uteis à sociedade e é na medida em que somos úteis que somos felizes, quando não, somos inúteis até para nós mesmos.
   
Que somos um ser social prova-o o facto de que quando partilhamos a nossa tristeza com um amigo ficamos menos tristes; ao contrário, ficamos mais alegres, quando partilhamos alegria. O bem social harmoniza-se com o bem individual e vice-versa; não se é feliz rodeado de infelicidade, nem se é feliz à custa dos outros mas só quando contribuo para a sua felicidade.

A felicidade é o efeito secundário do nosso altruísmo, sendo o efeito principal o bem dos outros. Ninguém toma um medicamento pelo efeito secundário mas pelo efeito principal; toda a nossa actuação tem um feedback, um retorno, um efeito boomerang; What goes around comes around.

Jesus diz de si mesmo: “Eu vim ao mundo para servir e não para ser servido”. É certo que ninguém diria, em público, que veio ao mundo para ser servido, no entanto se colocarmos a nossa hipocrisia de lado e formos honestos, connosco próprios, reconheceremos que não é o serviço que buscamos mas sim o poder, e o ser servidos pelos que estão abaixo de nós, por isso somos infelizes.

O caminho da grandeza é de facto o serviço, os grandes na nossa vida foram os que nos serviram e não os que se serviram de nós, ou nos dominaram. Os grandes para a humanidade foram também os que a serviram e não os que se serviram dela, como Hitler, Estaline e outros tantos ditadores…

Diabos de Deus os pais paternalistas
Começou, depois, a ensinar-lhes que o Filho do Homem tinha de sofrer muito e ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos-sacerdotes e pelos doutores da Lei, e ser morto e ressuscitar depois de três dias. E dizia claramente estas coisas. Pedro, desviando-se com Ele um pouco, começou a repreendê-lo. Mas Jesus, voltando-se e olhando para os discípulos, repreendeu Pedro, dizendo-lhe: «Vai-te da minha frente, Satanás, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens. Marcos 8, 31-33

Deus chama sempre, porém os poucos jovens que dizem que sim, depois de vencer a auto-referencialidade e o atractivo da sociedade de consumo, ainda têm que vencer aqueles de quem são mais próximos, os seus pais. Estes movidos mais pelo instinto materno, que um verdadeiro amor de pai e de mãe opõem-se a Deus tal como Pedro a Jesus. Como se opõem aos planos de Deus, o mesmo que Jesus chamou a Pedro, haveria que chama-lo a estes pais paternalistas, de facto Diabolus ou satanás significa opositor.

Há inúmeras histórias de pais que se opuseram, “com unhas e dentes”, a que os seus filhos seguissem a vida para a qual Deus os chamou. Um pai deixou de falar a uma filha por 30 anos por esta rejeitar o casamento e se fazer missionária. Outros pais, quando não conseguiram demove-los totalmente do chamamento de Deus modificaram-lhes a vocação missionaria em sacerdócio diocesano, para os terem mais debaixo das suas asas.

Um sacerdote cujo pai sendo médico obrigou o filho a seguir a carreira de medicina, ao terminar o curso, por amor e respeito ao pai, no dia em que se graduou, entregou o diploma ao seu pai dizendo: “aqui tens o que querias de mim, agora vou fazer o que Deus quer de mim…”.

Eu mesmo, sempre ficarei agradecido à minha mãe porque nem por activa nem por passiva me tentou desviar do meu caminho. Recordo que depois dos primeiros três anos de Etiópia, um dia ao ouvir o meu pai que tentava convencer-me a não voltar, com voz forte repreende-o: dizendo “cala-te homem que Deus pode-te castigar”. É certo que Deus não castiga, mas de qualquer maneira eu não queria estar na pele destes pais que um dia se terão de colocar diante Dele e justificar a sua posição de diabulos, opositores do seu desígnio para com os seus filhos.

Conselho aos pais
Muitas mães e pais nunca chegam a cortar o cordão umbilical, amam como um amor possessivo, paternalista que cria dependência e impotência, nunca saindo da vida dos filhos na qual querem sempre ter voz e voto, mesmo depois de casados.

A boa educação é aquela que visa a liberdade, a autonomia e independência dos educandos. O bom educador tem como objectivo o não ser mais necessário. Ao contrário, muitos pais querem sentir-se sempre fundamentais na vida dos filhos, acabando por anula-los.

Conselho aos filhos
A oposição dos que nos são mais queridos não é coisa que Jesus já não tivesse contemplado: 

Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada. Porque vim separar o filho do seu pai, a filha da sua mãe e a nora da sua sogra; de tal modo que os inimigos do homem serão os seus familiares. Quem amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Quem amar o filho ou filha mais do que a mim, não é digno de mim. Mateus 10, 34-37

E disse a outro: «Segue-me.» Mas ele respondeu: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar o meu pai.» Jesus disse-lhe: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Quanto a ti, vai anunciar o Reino de Deus.» Disse-lhe ainda outro: «Eu vou seguir-te, Senhor, mas primeiro permite que me despeça da minha família.» Jesus respondeu-lhe: «Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não é apto para o Reino de Deus. Lucas 9, 59-62

Tal como outrora, Cristo continua a chamar. Os jovens porem, invadidos pelo ego dos seus pais, ofuscados pelas criaturas - o mundo de hoje que parece ter tanto para lhes oferecer, voltam as costas ao Criador e único Senhor de tudo e de todos.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de novembro de 2015

A obediência é devida somente a Deus

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Importa mais obedecer a Deus do que aos homens. Actos 5, 29

Ao longo desta reflexão tive sempre o cuidado de me referir aos votos de pobreza, castidade e obediência, não só como coisa de monges, frades, padres e freiras, mas como valores humanos válidos para todos os que confrontam as suas vidas com o evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

De uma forma simplista, poderíamos então dizer que o voto de pobreza define e pauta a nossa relação com as coisas; o voto de castidade a nossa relação com os outros, e o voto de obediência a nossa relação com Deus. É certo que os três têm implicações com as três realidades mas, também é verdade que, para cada um deles, uma delas é predominante.

No que se refere à obediência, a título de exemplo, os apóstolos recusaram obedecer às autoridades mais altas do povo de Israel, o Sumo-sacerdote e o Sinédrio constituído por sacerdotes, escribas, fariseus e anciãos do povo, num total de 71 membros. Justificaram esta desobediência civil ao entender que deviam obedecer a Deus e não aos homens.

O nosso lugar no mundo
Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo. Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã já terá as suas preocupações (Mateus 6, 33-34).

É a obediência que nos faz despertar de altos sonhos de grandeza individual com a convicção de que, como cidadãos deste mundo, não estamos aqui para nós mesmos e que a nossa vida não é acerca de nós. A Obediência reconhece e valoriza, ao mesmo tempo, o direito e o dever de pertencer, participar e ter um lugar na história da humanidade.

É certo que cada um de nós é um ser autónomo, independente, livre, e no entanto a nossa individualidade não se explica por si mesma; eu não existiria sem a existência prévia e a coexistência do meu pai e da minha mãe. Somos ao mesmo tempo livres e interdependentes porque somos parte de uma família, de uma comunidade, de um país, da humanidade.

A um estudante foi-lhe dada a oportunidade de observar bactérias ao microscópio. Pôde de facto ver como uma geração destes seres vivos microscópicos nascia, crescia, se reproduzia e morria, deixando o seu lugar à geração seguinte. Viu, como nunca tinha visto antes, a vida transmitindo-se de geração em geração. Entendendo a lição subjacente a esta observação de que o valor da sua vida dependia do forma como ocupava o lugar que ocupava no amplio contexto do bem comum, afirmou, “comprometo-me durante a minha vida a não ser um elo fraco”.

Esta história sugere que a humanidade também é uma sucessão de gerações ligadas entre si como numa corrida de estafetas. Depois de encontrar o nosso lugar no mundo, para que a nossa vida seja produtiva e não só reprodutiva, deve tornar-se numa contribuição para o progresso da humanidade; devemos comprometer-nos a deixar cá mais do que o que cá encontramos. Neste contexto, a Obediência é, portanto, a minha participação, o meu grão de areia na construção de um mundo melhor, o Reino de Deus.

Ninguém se auto-realiza fora da comunidade ou contra a comunidade, pelo que não há auto-realização que não seja um contributo para a comunidade. Só nos sentimos bem, connosco próprios, quando os outros se sentem bem connosco. É valorizando os outros que nos valorizamos a nós mesmos, é reconhecendo os direitos dos outros que reconhecemos os nossos. Perifraseando Neil Armstrong, cada um dos nossos pequenos passos ou sucessos são um salto para a humanidade.

Para que assim seja, como sugere Jesus no texto acima citado, temos de procurar primeiro o Reino de Deus e a sua Justiça; ou seja, em atitude de obediência, rejeitar a tentação de atender à satisfação das nossas necessidades, pois não é na sua satisfação que encontramos a felicidade e a auto-realização; aliás o texto até sugere que não nos devemos preocupar com esta satisfação, pois no processo de buscar o Reino de Deus ou seja, de realização da tarefa para a qual Deus nos chamou, encontramos a satisfação das nossas necessidades.

Como cristãos, todos nós formamos o corpo místico de Cristo, a Igreja; como tal, estamos chamados a actuar no aqui e agora da história da humanidade, as obras de salvação que ele começou há 2000 anos atrás. Cristo não podia viver duas vezes num corpo físico, por isso, e porque a sua salvação era para toda a humanidade e não só para os seus contemporâneos, os cristãos, de cada tempo e lugar, devem ser as pernas, os braços e a voz de Cristo. Nesta perspectiva, a obediência de cada cristão assemelha-se à submissão de todos, e de cada membro individual como sucede num corpo físico, para a harmonia e o bem comum de todo o corpo.

A sede do poder
Pilatos disse-lhe, então: «Não me dizes nada? Não sabes que tenho o poder de te libertar e o poder de te crucificar?» Respondeu-lhe Jesus: «Não terias nenhum poder sobre mim, se não te fosse dado do Alto. Por isso, quem me entregou a ti tem maior pecado.». João 19, 10-11

Ao contrário de todos os povos, o povo de Israel nunca quis ter um rei. O único Rei era Deus, que em cada tempo suscitava um líder para governar e guiar o povo segundo os seus desígnios. Todos os que ao longo da história da humanidade tiveram poder davam-se conta que, de alguma forma, o seu poder vinha de Deus ou o tinham em representação de Deus, o único verdadeiramente Todo-poderoso. A associação e identificação de Deus com o poder, levou alguns imperadores de Roma autoproclamarem-se deuses.

Francisco Franco, caudilho de España por la gracia de Dios – Assim estavam cunhadas as pesetas durante o fascismo em Espanha. Reconhecendo Franco que não tinha legitimidade para ocupar o lugar que ocupava, pois nem era um presidente de república eleito, nem era filho de monarca, recorreu a este subterfugio que a seu modo confirma o facto de que verdadeiramente o poder vem de Deus, que o delega temporariamente a este ou aquele líder.

Isto mesmo quis dizer o Sto. Tomás Moro quando um dia, em oração, foi várias vezes interrompido por um mensageiro do Rei Henrique VIII que o queria ver de imediato. Com a calma que lhe era característica, o santo disse ao mensageiro, ide dizer a sua majestade que de momento me encontro ocupado com alguém superior a ele, o rei do Universo.

Dura lex sed lex – A lei é dura mas é a lei; o capricho, a arbitrariedade de um ditador ou de alguém que abusa do poder, que lhe foi conferido, e governa por decreto lei é bem mais dura. A lei ao ser, em princípio e por princípio igual para todos, faz a todos iguais perante ela. A supremacia da lei, ou a supremacia da Moral ou Ética, são imagem da supremacia de Deus, que como é Pai de todos nos faz a todos iguais perante Ele. É esta a base da dignidade da pessoa humana.

Voz do povo voz de Deus - Em democracia o poder reside no povo e sempre no povo. Este, periodicamente delega-o em pessoas que o representam no governo da nação. O mesmo sucede ao interno de uma Ordem Religiosa; o poder reside nos confrades que, também periodicamente o delegam, por eleições, na pessoa do superior ou Abade. No caso da vida religiosa o Abade representa ao mesmo tempo a vontade de Deus, e o compromisso que cada religioso assumiu com Deus, a comunidade e a Igreja em geral, quando fez os votos. Como o voto de obediência é feito a Deus, a Ele é também devida a obediência com a mediação ou por intermédio do Superior.

O voto de obediência
Quem recebe os meus mandamentos e os observa esse é que me tem amor. João 14, 21

Desde a desobediência, de Adão e Eva, pela qual entrou o mal no mundo, a história de Israel pode ser lida como uma história onde se mistura a desobediência com a obediência. Para Jesus só pela obediência, à palavra ao coloca-la em pratica, é que se pode construir alguma coisa, de resto palavras inconsequentes, que não operam nada, leva-as o vento. (Mateus 7, 24-27)

Jesus apelou a todos os que o ouviram a aceitar e obedecer os seus ensinamentos, a incorpora-los na sua vida quotidiana, a fazer deles atitudes e comportamentos do dia-a-dia. No entanto, Jesus também chamou a 12 para deixar as suas vidas anteriores; empregos e famílias para se colocarem à Sua total disposição; a estes, disse-lhes detalhadamente como comportar-se, o que fazer, onde ir, como ir e o que dizer.

A Obediência é devida somente a Deus e o voto religioso de obediência não pode ser uma excepção. Não existe porque pertencemos a uma instituição que precisa de uma autoridade; mas porque precisamos de mediações entre nós e Deus. O voto, baseia-se então na fé de que a vontade de Deus vem através de um governo.

Por isso, o primeiro objectivo da obediência, o que mais importa, não é a estruturação da Comunidade mas a auto-realização de cada um dos seus membros; assim, obediência tem menos a ver com a submissão ou a renúncia à sua vontade e mais a ver com a afirmação da vontade de Deus, apesar dos desejos e forças contrárias que operam dentro de nós e também dentro dos superiores.

Não é a nossa vontade que antagoniza a Deus, quando decidimos livremente dedicar-nos ao Reino dos céus; muito pelo contrário, é o mal que reside dentro de nós, que em todo momento antagoniza a nossa opção fundamental. Em última análise, e tal como Jesus a coloca, a obediência é uma consequência do amor, Eu amo o Pai e actuo como o Pai me mandou. (João 14, 31)

Coordenador de carismas
Não vos deixeis tratar por 'mestres', pois um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos. E, na terra, a ninguém chameis 'Pai', porque um só é o vosso 'Pai': aquele que está no Céu. Nem permitais que vos tratem por 'doutores', porque um só é o vosso 'Doutor': Cristo. O maior de entre vós será o vosso servo. Quem se exaltar será humilhado e quem se humilhar será exaltado. (Mateus 23, 8, 12)

Abade, primus inter pares, prior, provincial, superior, responsável, são alguns os títulos que ao longo da história se deram a essa pessoa que, eleita por todos, representa aquilo que prometemos a Deus, sacramento da autoridade divina a quem em última análise devemos obediência. Todos estes títulos de alguma forma vão em contra to texto acima citado pois colocam esta pessoa num nível superior aos outros.

No meu entender, o melhor título para este cargo, é o de coordenador de carismas, porque diferentes são os carismas de cada irmão ou irmã e para que todos esses carismas se harmonizem, com vistas a formação de um só corpo e ao bem comum, é necessário que exista um coordenador.

Como coordenador de carismas, a função do "superior" tem mais que ver com a comunidade como um todo que com cada um dos seus membros. Cada religioso, cada pessoa rege-se pela sua consciência, e esta, além de Deus, não deve satisfações a ninguém. Como seres autónomos livres e independentes, não precisamos que ninguém nos dite o que devemos ou não fazer.

Como o próprio conceito de coordenador de carismas indica, cada comunidade precisa de uma pessoa que tal como o mestre de uma orquestra, harmonize as diferentes individualidades para que vivam ao uníssono. Numa orquestra cada músico toca um instrumento diferente, uma música única e diferente das outras; cabe ao mestre, segundo uma partitura geral à qual ele mesmo obedece, fundir numa só melodia os contributos dos diferentes músicos.

Assim deve ser numa comunidade, cada um deve ser ante tudo autêntico, fiel a si mesmo e ao seu projecto ou Missão, tendo em conta que este não faz sentido se não se enquadra no contexto do bem comum. Cabe ao coordenador velar por este bem comum.

Em caso de conflito
Rebelar-se contra um tirano é obedecer a Deus, Benjamin Franklin

O Poder nem sempre corrompe, mas pode corromper também aquele que na comunidade tem a faculdade de coordenar os carismas de todos para o bem comum. Tanto o coordenador, como o membro da comunidade, devem estar permanentemente à escuta de Deus e em diálogo entre si, para que tanto a coordenação como a obediência sejam segundo a vontade de Deus.

Sempre se deve obedecer, quando o que nos é pedido vai de acordo ao nosso projecto e ao que prometemos a Deus. No entanto, se um membro de uma comunidade tem a certeza de que o seu coordenador demanda obediência por motivos que não se coadunam com a vontade de Deus, em consciência o membro da comunidade pode e deve desobedecer, pois nessa desobediência está obedecendo a Deus.

À falta desta certeza, em caso de dúvida é preferível obedecer; vai requerer certamente um acto de fé no coordenador mas a história da salvação, tal como nos é descrita na bíblia desde Abraão, está cheia de exemplos onde a questão da obediência se transforma, muitas vezes, numa questão de fé… ou acreditas, arriscas, confias e te lanças no vazio e no escuro ou não acreditas te retrais e ficas paralisado.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de outubro de 2015

Ser obediente é ser fiel

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Ser obediente é ser fiel aos compromissos assumidos
Depois de recuperar a liberdade relativamente às ataduras do nosso passado, e desta feita estar capacitados para poder comprometer ou investir o nosso tempo e as nossas energias numa opção fundamental, a obediência é agora uma questão de fidelidade aos compromissos assumidos.

Obediência à verdade
Já que purificastes as vossas almas pela obediência à verdade que leva a um sincero amor fraterno, amai-vos intensamente uns aos outros do fundo do coração (1 Pedro 1, 22).

Jesus não disse que era um dos caminhos, uma das verdades e uma das formas de viver a vida; só há um caminho, uma verdade e uma vida que é Jesus, assim como só há uma natureza humana, que permanece invariável ao longo dos séculos e dos milénios; por exemplo o que era amor há dois mil anos é amor hoje e será daqui a 5 mil anos se ainda existir a raça humana.

A Natureza humana não é uma moda susceptível de mudar com o tempo. Só assim faz sentido que o Céu tenha falado em Cristo uma vez por todas; só assim faz sentido que chamemos ao evangelho palavra de Vida Eterna, pois é a Palavra de Deus encarnada num tempo, há dois mil anos, mas é válida até ao fim dos tempos, para todo o tempo e para todo o lugar, pois a diversidade de culturas ou civilizações também não altera a natureza humana.

… Quem não junta comigo, dispersa. Lucas, 11, 23 - Como Jesus é a única forma de viver a vida, de acordo com a natureza humana por Deus criada, de alguma forma a liberdade é a obrigação de fazer o bem, de escolher este caminho e somos livres enquanto nele permanecermos, perdemos a liberdade quando dele saímos. Por obediência entendemos então a plena submissão à verdade pois é ela, e só ela, que nos faz e nos mantém livres. Não existe vida humana autêntica fora dos parâmetros da natureza humana que Deus criou o Evangelho estabelece.

Como Palavra de vida eterna, o evangelho delineia, ao mesmo tempo, a nossa natureza humana e ensina-nos como viver de acordo com ela. A obediência a esta palavra é imprescindível para que a nossa vida seja significativa tanto para nós como para os outros e o mundo em geral. É evidente que somos livres pelo que podemos rejeitar a única forma de vida; de certa maneira somos livres até usar a liberdade, pois no momento em que a usamos já não a temos e sofremos as consequências da nossa desobediência a qual traz consigo um abuso da natureza humana, tal como fizeram os nossos antepassados Adão e Eva.

Tomemos um exemplo da nossa natureza fisiológica. Em particular, beber vinho o qual não é intrinsecamente mau, como muitos fundamentalistas cristãos afirmam, indo ao ponto de reescrever o evangelho, criando um evangelho "seco", pois era sumo de uva e não vinho o que os apóstolos bebiam. Até que ponto uma ideologia, ou um problema social obriga a reinterpretar de uma forma diferente o evangelho.

Está demonstrado que beber com moderação, especialmente vinho tinto, longe de ser prejudicial à nossa saúde é benéfico. Como podemos definir ou quantificar a moderação? Moderação é quantificada pela quantidade de álcool que o nosso fígado pode processar com segurança.

Uma vez definida esta quantidade, os nossos hábitos de consumo têm que ser ajustados a este valor; beber para lá desta quantidade é desafiar e desobedecer a nossa natureza fisiológica, arruinando a nossa saúde.

Volto a citar Erich Fromm no seu livro, "Ter e ser”: “a satisfação ilimitada dos nossos desejos não produz bem-estar; não é o caminho para a felicidade e nem mesmo um meio de obter o máximo prazer." Daí, afirmar o prazer para além da realidade é o mesmo que negá-lo, um "contraditio em terminis".

Jesus de Nazaré modelo de obediência
Jesus veio ao mundo pela obediência de Maria, enquanto crescia em Nazaré era obediente aos seus pais (Lucas 2, 51). Na vida adulta, em todo o momento, faz a vontade do Pai e não a sua; a vontade do pai tinha-se tornado a sua comida (João 4, 34) e tanto foi esta comunhão, entre o pai e o filho, que "O filho não faz nada na sua própria, mas apenas o que ele vê o pai fazer" (João 5,19).

A carta aos Hebreus (5, 8) sugere que a obediência de Jesus não era inata, mas o resultado de um processo de aprendizagem no qual o sofrimento desempenhou um papel importante, sendo a morte o ponto culminante (Filipenses 2:8). Na vida de Jesus de Nazaré, o processo de aprendizagem da obediência corre em paralelo com dois outros processos de aprendizagem: a consciência da sua identidade, como Filho de Deus, e a da sua missão, como o Redentor da humanidade.

"O pai ama o filho e colocou todas as coisas nas suas mãos" (João 3, 35). Longe de se sentir forçado, obedecer ao Seu Pai era para Jesus algo conatural com sua natureza e a sua identidade. Em essência era algo que ele tinha escolhido, a sua opção fundamental motivada pelo amor que Ele tem pelo Seu Pai, porque Ele e o Pai são um só (João 10,30).

Obediência é fidelidade
Era uma vez um homem que gostava tanto de possuir ouro que se tinha tornado uma obsessão devoradora. O ouro ocupava a sua mente e o seu coração de tal forma que tudo o que não fosse ouro não existia; quando ia às compras só tinha olhos para as montras das ourivesarias, não via mais nada, nem ninguém; não via as pessoas, nem o azul do céu, nem o ruído da cidade, nem o perfume das flores.

Um dia, não resistiu mais, irrompeu numa ourivesaria e começou a encher os bolsos de anéis, pulseiras e fios de ouro, dispunha-se a fugir quando foi agarrado. Estupefactos os polícias perguntaram-lhe: “como pensavas que ias poder escapar com a ourivesaria cheia de gente?” Ao que ele respondeu: “que gente? Eu não vi ninguém só vi o ouro”.

Como devemos obediência à nossa natureza fisiológica, devemos obediência também à nossa natureza sobrenatural, que é nossa vocação ou nossa opção fundamental, como fez Jesus. Todo o nosso tempo e energias devem ser dedicados à vocação que escolhemos, com a mesma determinação do amante de ouro da história.

Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não é apto para o Reino de Deus (Lucas 9, 62). Obediência é sermos fiéis aos compromissos assumidos, ao que Deus nos chamou a fazer, àquilo a que decidimos dedicar as nossas vidas. O amor leva ao compromisso matrimonial, mas depois, é este compromisso que guarda e nutre o amor.

Guarda as regras, que as regras te guardarão a ti
Na vida, obedecemos muitas mais vezes do que gostaríamos de admitir, obedecemos ao nosso corpo, quando este está com fome e pede comida, quando tem sede e pede água; obedecemos a estas e muitas outras directivas referentes a necessidades fundamentais e fazemo-lo sem levantar questões, porque sabemos que é para o nosso próprio bem.

Alem das necessidades fisiológicas, temos também necessidades sociais; como seres sociais que somos, nascemos e crescemos em interação com os outros, com quem formamos grupos; a existência e a permanência destes grupos exigem que haja regras, que definem a identidade e os objectivos do mesmo. Estas regras são obedecidas por todos os membros, não só porque foram decididas por eles, mas porque o grupo satisfaz as necessidades sociais de cada um dos membros, buscando ao mesmo tempo o bem comum.

Para qualquer lado que nos viremos há regras para serem observadas. Na vida, somos livres de escolher o jogo que queremos jogar; uma vez escolhido temos de obedecer às suas regras, guardando estas regras elas guardam-nos a nós dando-nos sentido de pertença e segurança.

A alternativa seria não escolher, mantendo todas as opções abertas, acampar num cruzamento, não investindo nem comprometendo o nosso tempo e energias num projecto como, na parábola dos talentos, fez o servo néscio que escondeu o talento recebido. É certo que seriamos livres mas um dia, perto do fim das nossas vidas olhando para trás, ficaríamos com a impressão de nunca ter vivido pois não teríamos escrito nenhuma história e teríamos gasto o tempo, e as energias, em futilidades e em mantermo-nos vivos.

Mais que sobreviver, a vida humana é implicar, comprometer o nosso tempo e energia num projecto de utilidade social. O que é bom para a comunidade é bom para nós. Quando não somos úteis aos outros somos inúteis até para nós mesmos; a nossa vida só será significativa para nós se for significativa para os outros.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de outubro de 2015

A Rotunda do Relógio

1 comentário:
Como sugere o artigo anterior, sobre a obediência, quando o nosso comportamento deixa de ser reactivo, ou seja uma resposta incontrolável a um estímulo accionado fora de nós, para ser proactivo, ou seja planeado e decidido livremente pela nossa razão, quando nos possuímos e conscientemente estamos ao comando do nosso comportamento, então somos livres, podemos fazer o que queiramos, ou melhor dito, o que Deus quer de e para nós.

Chegados a este momento, sentimos como se tivéssemos a vida nas nossas mãos; sentimo-nos cheios de tempo e energia para dedicar a algo. Quando falamos da castidade, chegamos à conclusão que a vida era de facto composta por tempo + energia + opção fundamental. Também os animais e as plantas, em geral todos os seres vivos, são constituídos por tempo e energia regulados pela natureza; sós os humanos são conscientes de si mesmos, e conscientes de um tempo e uma energia que cabe a eles e não à natureza regular
, usar, dar sentido e ocupação.

Trabalhai não tanto pelo pão que perece mas pelo que permanece até à vida eterna (Jo 6,27)
 Trabalhai não tanto pelo pão que perece… mas também – Depois de multiplicar os pães as multidões, pensando ter encontrado a galinha dos ovos de ouro, foram à procura de mais pão, tal como a Samaritana vinha todos os dias ao poço à procura de mais água. Jesus aconselhou-os que para esse pão, que nos mantem vivos, eles teriam que trabalhar. “Deus alimenta as aves do Céu mas não lhes vai deitar a comida ao ninho”, elas têm que sair e colectar essa comida que Deus providencia para elas na natureza. Quem não quer trabalhar que não coma, diz São Paulo, o pão que sustenta a nossa vida física deve sair do nosso suor e esforço.

Como a vida dos outros seres vivos, a nossa vida não pode reduzir-se ao círculo vicioso de trabalhar para comer e comer para trabalhar, ou pão e circo como diziam os romanos, pão e diversão. Estar vivos e viver não são a mesma coisa; não vivemos para estar vivos mas sim estamos vivos para viver. Sobre este pano de fundo como é triste, e sem sentido, a vida daqueles que gastam o seu tempo e as suas energias buscando meios de vida, ou seja, gastam a vida a preservar a vida, a manter-se vivos como se dessa forma a pudessem manter para sempre. 'Insensato! Nesta mesma noite, vai ser reclamada a tua vida; e o que acumulaste para quem será?' Lc 12, 20

Daí a advertência de Jesus de trabalhar não tanto pelo pão, que perece, mas guardar algum tempo e energias para trabalhar para o pão que permanece para a vida eterna; e mais que algum tempo, o evangelho sugere que esta seja a actividade principal da nossa vida: Não vos preocupeis, dizendo: 'Que comeremos, que beberemos, ou que vestiremos?' Os pagãos, esses sim, afadigam-se com tais coisas; porém, o vosso Pai celeste bem sabe que tendes necessidade de tudo isso. Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo. (Mt 6, 31-33)

Jesus é o pão nós somos o pão
O discurso de Jesus sobre a eucaristia acaba com a declaração de que é ele o pão e portanto quem comer da sua carne, e beber do seu sangue, é que tem a vida eterna; coisa que os judeus, e muitos dos discípulos de Jesus, não conseguiram tragar por saber-lhes a canibalismo e vampirismo; por esta razão abandonaram o mestre ficando só Pedro, que falando em nome dos restantes reconheceu que aquelas palavras de Jesus eram palavras de vida eterna, ou seja, palavras que conduziam à vida eterna.

A natureza do pão que permanece para a vida eterna, que alimenta e torna possível a vida eterna, é diferente da do pão que alimenta esta vida e que perece. Tal como a água, que Jesus promete à Samaritana, este pão também brota desde dentro.

Por outro lado Jesus sendo caminho, verdade e vida, é a pessoa a que devemos imitar para estar na verdade e ter uma vida autêntica, no único caminho que leva ao Pai e à vida eterna. Por isso tal como Jesus foi pão também nós estamos chamados a ser pão. Somos tempo e energia que alimenta e dá vida a um valor ou uma causa humana, a uma opção fundamental. E tal como Cristo estamos também nós chamados a “poner toda la carne en el asador” como se diz em Espanha.

A opção fundamental como compromisso
A opção fundamental é uma decisão que se toma sobre o conjunto da nossa vida, é o objectivo, a meta do nosso viver, que dá sentido, cor e sabor a todos e cada um dos dias da nossa vida. É a chama que é mantida pelo combustível da nossa vida, energia e tempo. É o ponto de apoio da alavanca que levanta o mundo, no princípio de Arquimedes. É a motivação, a inspiração que reúne todos os nossos recursos e os coloca ao serviço de uma meta, de um alvo por nós escolhido.

A vida é feita de muitas opções e decisões; são elas que dão cor, sabor, aroma e sentido à nossa vida. Estas pequenas opções geralmente referem-se a um ou mais aspectos de nossa vida; podem afectar-nos muito ou pouco mas não chegam a afectar o conjunto da nossa vida. A opção fundamental é a decisão das decisões, a opção mestra, a mãe de todas as opções porque se refere a toda a vida presente e futura; na maior parte das vezes é irreversível; é a razão do nosso viver, é a causa que vamos alimentar com o nosso tempo e energia; é a boca para a qual nós somos o pão.

A causa, ou opção fundamental, que Nelson Mandela alimentou com a sua vida foi o fim do apartheit na Africa do sul; para Beethoven foi a música; para Picasso a pintura; para Gandhi a independência da India de uma forma não violenta; para uns pais são os filhos; para os professores são os alunos; para os médicos são os doentes…. Mais que uma profissão a vida é uma missão.

Não há vida sem compromisso
Vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido. Dalai Lama

Quando chega o momento para escolher a nossa opção fundamental estamos na encruzilhada da nossa vida, ou como é mais actualizado pensar pelo menos na Europa, estamos na rotunda da nossa vida. Não podemos estar aí para sempre, nem por mais tempo do que é adequado. Frequentemente quando permanecemos demasiado tempo indecisos, a vida acaba por decidir por nós, ou o governo como acontece em alguns países a respeito das uniões de facto dos jovens; depois de um tempo o estado considera-os casados. Em Lisboa existe uma rotunda chamada “rotunda do relógio”; enquanto permanecemos indecisos o tempo passa e algumas oportunidades não aparecem segunda vez na vida….

"I want to keep all my options open"– Costumava eu ouvir os jovens nos Estados Unidos e no Canadá. Durante a infância, e a primeira juventude, de facto tudo está em aberto. Manter todas as opções em aberto seria como ser uma estátua no centro de um cruzamento, ou andar à roda numa rotunda, como um burro à nora. Seria estar vivo sem viver e morrer sem nunca ter vivido.

Para quem não sabe para onde ir não há ventos favoráveis – “You can't have your cake and eat it too”; “Não se pode ter o sol na eira e a chuva no prado”. Num cruzamento, ou numa rotunda, escolher um estrada, dizer que sim a uma estrada, significa dizer que não a todas as outras. Não se pode contemporizar; a vida acaba por penalizar fortemente os que pretendem viver mais que uma vida; frequentemente quem tudo quer tudo perde… Casar-se com uma mulher, significa dizer não a todas as outras; ordenar-se sacerdote, significa dizer que não ao casamento. Imigrar para um país, significa deixar o próprio país. Todos estivemos, ou estaremos, um dia no cruzamento ou na rotunda das nossas vidas: o dia em que tomamos a vida nas nossas próprias mãos e decidimos o que fazer com ela.

É por isto que meu Pai me tem amor: por Eu oferecer a minha vida, (…) Ninguém ma tira, sou Eu que a ofereço livremente. Jo 10, 17-18 - Eramos livres enquanto parados no cruzamento decidíamos que estrada tomar; somos livres enquanto rodamos numa rotunda sem escolher uma estrada; a vida é um dom e os dons só doando-se podem ser vividos. Não temos opção, de facto, ou damos a vida ou ela nos é tirada, como àquele que escondeu o talento. Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la. (Mt 16, 25)

Outros valores mais altos se levantam, Camões – A liberdade absoluta não existe, nem serviria nenhum interesse. Somos livres até ao momento em que sacrificamos voluntariamente essa liberdade, num compromisso com a vida, a sociedade e o mundo. A partir do momento em que sacrificamos a nossa liberdade começamos a obedecer ao nosso compromisso. A liberdade, como a vida, existe para ser entregue. Uma vez que nos doamos já não nos possuímos, pelo que, viver é obedecer…
Pe. Jorge Amaro, IMC