1 de dezembro de 2021

3 Instâncias depois da morte: Céu - Purgatório - Inferno

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(…) não temos aqui cidade permanente, mas procuramos a futura. Hebreus 13, 14

Já quase no fim destes três anos em que tratamos realidades tridimensionais criadas por um Deus Uno e Trino, eis que chegamos ao tratado das coisas últimas, matéria que em teologia se chama escatologia. Esta palavra provém do grego eschatom que significa as coisas últimas; fezes excrementos, para não usar a palavra mais popular é verdadeiramente o significado primigénio da palavra eschatom. E eu já sabia isto à idade de 4 anos, quando estando eu no alto de uma parede olhando para baixo para ver o meu pai, este me diz “Sai daí que podes cair e morrer”, e eu respondi, “Morrer é enterrar as fezes”. Foi esta a minha primeira observação filosófica.

Para além da nossa morte, deparamo-nos com duas realidades diametralmente contrárias e derradeiras, o Céu e o Inferno e uma passageira ou processual, o Purgatório. Caronte, o barqueiro de Hades, que carrega as almas dos recém-mortos sobre as águas do rio Estige e Aqueronte, que dividiam o mundo dos vivos do mundo dos mortos e a quem se paga com uma moeda que nos colocam no olho (a Jesus também lha colocaram), leva-nos a uma destas três realidades.

A bofetada da morte
Sono io la morte e porto Corona,
io Son di tutti voi signora e padrona,
e così sono crudele, così forte sono e dura
che non mi fermeranno le tue mura.
(…) e davanti alla mia falce
il capo tu dovrai chinare
e dell 'oscura morte al passo andare.

https://www.youtube.com/watch?v=YOBYzpzBxvc

Eu sou a morte e carrego Corona,
Sou de todos vós senhora e patroa
tão forte tão dura e cruel que
nenhum dos teus muros me vai parar.
Ante a minha foice inclinarás a cabeça
E inexoravelmente caminharás
rumo à morte escura.

O cantautor italiano Angelo Branduardi reformula nesta canção uma dança macabra medieval. Por causa da peste negra e porque a esperança de vida na Idade Média era muito curta, a morte era um tema muito popular, o horizonte inexorável e escuro que paira sobre a criança que vem a este mundo.

Num conceito do tempo linear judaico-cristão, a vida desenvolve-se historicamente em linha reta. A morte, que sempre se representou como uma foice, é agora uma ceifeira mecânica que corta e destrói tudo o que lhe aparece pelo caminho, nada nem ninguém lhe pode fazer frente. Tal como qualquer produto no mercado, temos prazo de validade.

Já não é o sexo o tabu dos nossos tempos; nestes tempos modernos, o tabu é a morte, porque esta é a recordação incómoda da nossa indigência e limitação. Para uma sociedade tão orgulhosa dos seus progressos em todas as matérias, a morte é como uma humilhante bofetada em plena cara. Ri-se de nós e das nossas invenções com todos os dentes da sua caveira.

Desde que se colou a nós como uma carraça quando fomos expulsos do Éden, nunca mais conseguimos desenvencilhar-nos dela. Ilusoriamente, vingamo-nos dela expulsando-a, tanto quando podemos, da nossa mente e da vida pública e social, fazendo dela um tabu. Porém, de tempos a tempos esta reaparece, para nos avisar que a melhor maneira de lhe fazer frente não é ignorando-a. É preciso apanhar o touro pelos cornos.

O valor da morte
É difícil imaginar e tentar conceptualizar o que seria a vida na terra se fossemos eternos. Suponho que não haveria valores, não amaríamos, nem odiaríamos, nada do que faz sentido faria sentido. Morreríamos, valha a redundância de pasmo, ficaríamos deprimidos. Em todos os filmes que vi e que tratam deste assunto, aquele que tem o dom da eternidade quer morrer, prefere viver intensamente e depois morrer que viver eternamente sem sentido.

A morte, a nossa finitude, é a verdadeira mãe e génese de todos os valores humanos. Só os seres humanos possuem autoconsciência e sabem que vão morrer; porque sabemos que vamos morrer, temos a vida nas nossas mãos, enquanto que os animais estão inconscientemente nas mãos da vida. Os animais são possuídos pela vida por isso não a têm nem a programam. Ao contrário, nós possuímos uma vida e como temos consciência de que a possuímos por um tempo e que depois deixaremos de a possuir, procuramos vivê-la com sentido; daí nascem todos os valores humanos.

Por exemplo, a dignidade humana, as igualdades, nascem da morte; a morte é o grande raseiro. Nós nunca somos iguais nem perante os outros, nem perante a lei. Só perante Deus e perante a morte é que somos todos iguais, porque esta é o destino comum de pobres e ricos, brancos e pretos, famosos e infames, ilustres e envergonhados, vitoriosos e derrotados.

Na natureza a morte não existe
“Sei l’ospite d’onore
del ballo che per te suoniamo
Posa la falce e danza tondo a tondo
Il giro di una danza e poi un altro ancora
E tu del tempo non sei più signora.”    

É a convidada de honra
da dança cuja música te tocamos
Atira com a foice e entra na roda
Roda que roda e volta a rodar
Por agora não és senhora do tempo."

No refrão da canção de Branduardi a morte é a convidada de honra numa dança de roda. Ao contrário da reta, que tem princípio e fim, a roda é símbolo de eternidade, alude ao mito do eterno retorno. Uma vez entrada na dança de roda, a morte perde a sua foice e deixa de ser senhora do tempo.

Lavoisier dizia que na Natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. A Natureza observa o mito do eterno retorno, nela não há morte no sentido de ausência de vida; na Natureza a morte e a vida são fases do mesmo processo, sendo a morte só a passagem de uma forma de vida para outra forma de vida. Se não há vida que não leve à morte, também não há morte que não leve a uma outra vida.

É este o princípio da cadeia alimentar, na qual toda a forma de vida é alimento para outra forma de vida, pois só da vida sai vida, só a vida dá vida. A erva, que é uma forma de vida, cresce livremente até que a gazela uma dia a come, a erva morre mas a sua vida é integrada e absorvida e passa a fazer parte do corpo da gazela, que um dia também ela morre nos dentes do leão; este, já velho e doente, expulso do seu harém por outro mais jovem, vai ser alimento dos abutres e das hienas que, por sua vez, morrem e são alimento de uma infinidade de pequenos seres que decompõem os cadáveres e que, à sua morte fertilizam a terra onde volta a crescer a erva.

Nesta roda viva, a constante é a vida absoluta que se alimenta de vida. A morte é só uma passagem, de uma forma de vida para outra forma de vida. A vida dura mais tempo que a morte que é só um breve instante, sendo a vida a contínua e ilimitada constante.

O que acontece na natureza acontece também com o nosso corpo físico. Também este é um processo vital onde a morte é passagem e a vida, neste caso crescimento, é a constante. Hoje possuímos triliões de células, porém quando começou a nossa vida fomos uma única célula que resultou da união de outras duas células, o óvulo por parte da nossa mãe e o espermatozoide por parte do nosso pai.

Unidas ou fundidas as duas partes, nascemos nós, uma célula humana com um código genético único na história da humanidade; em pouco tempo, esta célula subdivide-se em outras células para formar um corpo humano adulto, constituído por 37 triliões de células.

Cada uma das nossas células segue a lei geral que rege a vida neste planeta: nascer, crescer, reproduzir-se e morrer; as únicas células que se recusam a morrer são as células cancerígenas. Assim se explica o crescimento e envelhecimento do nosso corpo. De facto, à exceção das células do nosso cérebro, os neurónios, todas as outras seguem a regra geral. Podemos dizer que a cada 5 anos mudamos de corpo, cada 5 anos temos um corpo biologicamente diferente.

Numa vida média de 85 anos, temos 17 corpos diferentes. Com qual dos 17 ressuscitaríamos? Com nenhum deles pois não é o corpo físico que ressuscita, mas sim o corpo espiritual que é uma síntese de todos eles, mas não é nenhum deles em particular.

Princípio da realidade, princípio do prazer
Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa, há de encontrá-la. Mateus 16, 24-25

O negar-se a si mesmo de Jesus é, na linguagem psicológica de Freud, a aquisição da maturidade humana que acontece quando o indivíduo deixa de se guiar pelo princípio do prazer para se deixar guiar pelo princípio da realidade. As coisas não são como gostaríamos que fossem, mas são como são. A busca desenfreada do prazer é a vida infantil enquanto o indivíduo não sabe onde o prazer o levará: à própria aniquilação, pois, como disse Erich Fromm, a satisfação ilimitada dos nossos desejos não produz bem-estar, não é o caminho da felicidade nem tão pouco um meio para atingir o prazer máximo.

Uma vez que conhecemos a realidade, devemos abraçar-nos a ela, ela é a nossa cruz, a ela devemos obedecer negando-nos a nós mesmos, ou seja, ao princípio do prazer. Só assim somos discípulos de Jesus que também obedeceu até à morte e morte de cruz, ou seja, abraçado à sua cruz, à vida que escolheu para si, à qual depois foi fiel até ao fim.

Negar-se a si mesmo é dizer não a nós próprios para dizer sim a Deus. É recusar fazer a nossa vontade para fazer a vontade de Deus. É repetir em todos os momentos da nossa vida as palavras de Jesus no Jardim das Oliveiras (Mateus 26, 43). É submeter a nossa vontade a Deus e deixar de ter vontade própria. É pôr em prática o que repetimos na oração do Pai Nosso que contém o mais importante do evangelho: “Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu” (Mateus 6, 10).

Se não nos negamos a nós mesmos, é difícil não negar a Cristo. Foi precisamente o que fez Pedro, negou o mestre porque não se negou a si mesmo, e fugiu da própria cruz. Ele que tinha sido chamado a pedra angular da Igreja, num momento se transformou em pedra de tropeço, quando antepôs a sua vontade à vontade do mestre em ir a Jerusalém.

A morte como passagem
Muitas pessoas que já estiveram entre a vida e a morte, falam de um túnel e de uma luz para além do túnel. Se estas experiências são verdadeiras, é interessante como o processo da morte guarda semelhanças com o processo do nascimento. Vivemos durante 9 meses num lugar, num paraíso, depois passamos por um túnel apertado, a vagina da nossa mãe, num processo doloroso para o bebé e para a mãe.

Ao fim desse túnel, vemos a luz do dia; de facto, nascer em português diz-se “ser dado à luz”. A nossa mãe deu-nos à luz. Por isso, quando morrermos, já não é a primeira vez que o fazemos é a segunda, a primeira morte foi o nosso nascimento. O crescimento psicológico e espiritual, à imagem do físico, também integra a morte ou deixa para trás coisas e realidades às quais estávamos apegados. Se o nosso nascimento foi uma morte à vida intrauterina, e um nascer para esta vida, a nossa morte é uma morte para a vida na Terra e um nascimento para a vida eterna no Céu.

Tanto o nascimento como a morte são passagens de uma forma de vida para outra forma de vida. Se a vida intrauterina era diferente da vida que temos na Terra, a vida eterna também será diferente da vida terrestre. Também aqui a constante é a vida e a morte só uma passagem entre uma forma de vida e outra forma de vida.

A crença na Ressurreição
No ventre de uma mãe havia dois bebés. Um perguntou ao outro: "Acreditas na vida após o parto?" O outro respondeu: "É claro. Tem que haver algo após o parto. Talvez nós estejamos aqui para nos prepararmos para o que virá mais tarde." "Disparate", disse o primeiro. "Que tipo de vida seria essa?" O segundo disse: "Eu não sei, mas haverá mais luz do que aqui. Talvez nós possamos andar com as nossas próprias pernas e comer com as nossas bocas. Talvez tenhamos outros sentidos que não conseguimos entender agora." O primeiro retrucou: "Isso é um absurdo. O cordão umbilical fornece-nos nutrição e tudo o mais de que precisamos. O cordão umbilical é muito curto. A vida após o parto está fora de cogitação."

O segundo insistiu: "Bem, eu acho que há alguma coisa e talvez seja diferente do que é aqui. Talvez a gente não vá precisar deste tubo físico." O outro contestou: "Além disso, se há realmente vida após o parto, então, por que ninguém jamais voltou de lá?" "Bem, não sei", disse o segundo, " mas certamente vamos encontrar a Mamã e ela vai cuidar de nós." O primeiro respondeu: " Mamã? Acreditas mesmo na Mamã? Isso é ridículo. Se a Mamã existe, então, onde está ela agora?" "Ela está ao nosso redor. Estamos cercados por ela. Nós somos dela. É nela que vivemos. Sem ela este mundo não poderia existir." Disse o primeiro:" Bem, eu não consigo vê-la, então, é lógico que ela não existe." Ao que o segundo respondeu: "Às vezes, quando estás em silêncio, se te concentrares e realmente ouvires, vais perceber a presença dela e ouvir a sua voz amorosa”.

Este foi o modo pelo qual um escritor húngaro explicou a existência de Deus.

No início, o crente israelita não professava a fé na ressurreição. Estava alheio à possibilidade de uma existência depois da morte. A vida é relação com Deus e com os outros membros do povo, termina nesta vida e todos vão parar ao Sheol.

Isto, é claro, levanta algumas questões. Será a morte mais forte que Deus? Será verdade que o amor é dizer àqueles que amam, "não podes morrer"? Não é isto que Deus nos quer dizer quando nos ama? E, ao dizê-lo, não significa que consegue "impor-se" à morte? De que serve ser fiel a Deus se, no final de tudo, ser fiel a Ele ou não, é a mesma coisa? Eis um problema de carácter teológico, ou seja, é uma questão de responder à pergunta: em que Deus acreditamos? Num Deus fiel aos seus fiéis ou num Deus impotente ante a morte?

Há de facto, na Bíblia, três salmos (16, 49 e 73) que, à sua maneira, expressam a esperança do salmista num amor e fidelidade de Deus mais forte que a morte. Não há neles ainda uma afirmação clara e inequívoca na ressurreição, mas já estão presentes os elementos incipientes que levarão o povo hebreu a afirmá-la ainda antes do nascimento de Jesus.

Argumento de Pascal
Segundo o famoso argumento ou aposta de Pascal, suponhamos que dois amigos - um ateu e outro religioso - apostam uma quantia de dinheiro na hipótese da existência ou não existência de Deus e da vida para além da morte. O ateu aposta que Deus não existe, o religioso que sim, existe. À morte dos dois se o ateu ganhar a aposta, ou seja, se não houver nada para além da morte, não vai poder receber o prémio, não vai sequer saber que ganhou, e o que a perdeu o religioso também não vai saber que perdeu.

Ao contrário, se houver vida para além da morte e Deus que a sustenta, o religioso ganhou essa vida eterna e o ateu perdeu-a. Concluímos que quem acredita tem tudo a ganhar e nada a perder; quem não acredita, tem tudo a perder e nada a ganhar.

Não há forma de saber o que está para além da morte. A existência de Deus e de que Ele sustenta a nossa vida para além da morte é matéria de fé. É de facto uma aposta onde não temos nada a perder e muito a ganhar. A crença no Além será sempre matéria de fé. Só quando passarmos para lá saberemos se tínhamos ou não razão, se estávamos ou não corretos. Mas se não estávamos corretos, ainda assim, a vida cristã é sempre a melhor forma de autorrealizar-se e ser feliz, pelo que nada perdemos se de facto não houver nada. Ao contrário de provar que Deus não existe como alguns pensavam que um dia a ciência conseguiria, nos últimos anos a ciência tem feito com que seja mais fácil e mais lógico o acreditar que o não acreditar; é claro que nunca a ciência chegará a provar a existência ou não existência de Deus. Sempre necessitaremos da fé.

INFERNO
Toda a esperança abandonai ó vos que aqui entrais
Canto III O Inferno, A Divina Comédia, Dante Alighieri

Existe ou não existe?
Já são raros os pregadores que fazem sermões sobre o inferno; ninguém deseja abordar a questão. Parece que, também aqui, se aplica a lei do uso-abuso-fora de uso. De facto, outrora era tema obrigatório de um bom sermão… Naqueles tempos, o temor de Deus interpretado como medo levava mais gente à Igreja do que agora o consegue o amor de Deus.

Apesar de ser palavra recorrente em toda a Bíblia há já muitos cristãos e até teólogos e sacerdotes que não acreditam na existência do Inferno. O inferno é aqui, dizem alguns. E é verdade, nós humanos temos a capacidade de fazer da nossa vida e da dos outros um céu ou um inferno. Mas nem este Céu nem este inferno são os últimos. “Não há mal que sempre dure nem bem que sempre ature”.

A misericórdia de Deus é infinita o seu amor não tem medida; de Deus, é muitíssimo mais o que não sabemos que o que sabemos. Condenar-se-á alguém? Em que termos? Nem sequer podemos dizer que Hitler está no Inferno. O inferno não é algo querido por Deus neste sentido, nem o purgatório o é; o que Deus quer é o Céu para todos. Estaríamos a pôr em causa a misericórdia divina. Seria bem pior que a misericórdia humana, se os atos temporais tivessem castigos eternos; há aqui uma desproporção entre o ato e o castigo.

No entanto, temos que admitir que existe uma possibilidade real de condenação. Se Cristo veio para nos salvar, veio para nos salvar de algo. Senão a sua vinda não teria sentido; se há salvação então tem de haver condenação, a existência de um dos conceitos supõe a existência do outro. Se não existisse a possibilidade de condenação, não seriamos verdadeiramente livres; não seria possível rejeitar a Deus, não haveria alternativa; seríamos umas marionetas condenadas a fazer o que Deus quisesse de nós.

Se não existisse a possibilidade de condenação, não haveria prémios nem castigos nem existiria diferença entre o bem e o mal. É óbvio que uma ação sem objetivo é fútil e não faz sentido; se uma coisa não é boa para alguma coisa não vale nada. A bondade não pode ter só valor por si mesma, tem que valer além de si própria.

Banir a ideia de recompensa e castigo da religião equivale a dizer que a injustiça tem a última palavra. Não é lógico que o fim do homem que se esforçou toda a sua vida por ser bom, tenha o mesmo fim do que não só não se esforçou, como foi deliberadamente mau. Significaria que Deus não se importa se os homens são bons ou maus. Digamo-lo de uma forma grosseira e sem rodeios: não adianta ser bom se olharmos para o mundo à nossa volta e concluirmos que talvez seja mais proveitoso ser mau, corrupto, desonesto, mentiroso, irresponsável, ladrão, criminoso e cruel.

A ideia de inferno existe em todas as culturas e religiões deste planeta. Por mais simplista que pareça, sem um juízo final no fim desta vida e a existência da eternidade do Céu para os bons e da eternidade do Inferno para os maus, cairia por terra a ideia do bem e do mal, do justo e do injusto. E se esta ideia desaparecesse do nosso coeficiente mental, não haveria neste mundo polícia nem exércitos suficientes para manter a ordem e a organização vigentes na nossa sociedade e conter os baixos instintos do ser humano. Reinaria a barbárie, a lei da selva, ou seja, do mais forte.

Sorte têm os ateus e agnósticos que vivem num mundo onde a maior parte das pessoas são religiosas e acreditam na existência de um Deus que é justo e bom e que os recompensará dos muitos esforços, sofrimentos, de não terem tomado a justiça nas próprias mãos apesar das injustiças sofridas. O Inferno existe, mas pode não ser, a fornalha ardente que todos pensam, mas sim, como o ilustramos neste artigo, o nada um buraco negro.

O que é o inferno
… Lançado à Geena, onde o verme não morre e o fogo não se apaga. Marcos 9,48

A ideia de um inferno que arde eternamente, onde as almas se queimam sem nunca se queimarem totalmente. Onde sofrem os tormentos da morte sem nunca morrer, tem aterrorizado incontáveis gerações de pessoas ao longo da História da humanidade.

Sabemos que não é Deus que condena, mas sim o homem que se autocondena, quando livremente escolhe o mal. Mesmo assim, como pode um Deus, descrito na Bíblia, como pai misericordioso e amoroso presenciar, impávido e sereno, um espetáculo de eterna tortura? As pessoas que estão a ser torturadas pedem a morte ao seu algoz para acabar o sofrimento; recusaria Deus dar um golpe de misericórdia se Lho pedissem?

Quando nenhum tribunal na terra condena à tortura o mais criminoso dos criminosos; quando a tortura mais leve e pelo mais curto espaço de tempo está totalmente proibida no mundo, como pode um Deus que é amor criar uma câmara de tortura eterna? Nos tribunais humanos a punição é proporcional ao crime. Uma eternidade de tortura como punição não é proporcional nem sequer a uma vida de 100 anos toda votada ao crime. Como pode o tribunal divino ser infinitamente mais injusto que os tribunais humanos?

Na Bíblia o Inferno não vem descrito só como sofrimento eterno, mas também como morte eterna. De facto, das 54 vezes que a palavra inferno é nomeada, só em 12 significa lugar de fogo e tormento, nas restantes significa sepulcro, ou seja, morte eterna. Como o homem teme mais o sofrimento que a morte, não é descartável um intuito pedagógico no apresentar o Inferno como sofrimento eterno, sabendo que, mais que a morte, o que o homem verdadeiramente teme é o sofrimento. Isto é claro na parábola do rico epulão e do pobre Lázaro, Lucas 16,19-31.

Logicamente, à vida eterna contrapõe-se a morte eterna, não o sofrimento eterno. Tanto amou Deus o mundo que enviou o seu próprio Filho para que todo o que crê não pereça, mas tenha a vida eterna. O texto diz não pereça ou morra, não diz não sofra João 3,16. Tudo o que arde é combustível e o combustível não pode arder eternamente sem de extinguir ou queimar.

A Geena era a lixeira de Jerusalém; o fogo nunca se acabava porque sempre estava a chegar outro lixo; o verme nunca morria porque o lixo se decompõe dando origem aos vermes. Ezequiel 18,4 Malaquias 4,1-3 e os Salmos 37,10 68,2; Mateus 13,40 sugerem que o fogo acaba com a existência, não os tortura indefinidamente.

Antropologia hebraica
Que o Deus da paz vos santifique totalmente, e todo o vosso ser - espírito, alma e corpo - se conserve irrepreensível para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. 1 Tessalonicenses 5, 23

A antropologia hebraica, subjacente à antropologia bíblica, é fundamentalmente unitária. Isto significa que pretende contemplar toda a realidade pessoal de uma determinada perspetiva. E assim a pessoa humana é, toda ela basal, isto é, carne. Em segundo lugar, a pessoa humana é nefes isto é, possui uma personalidade que podemos abordar do ponto de vista psicológico (psique). E, finalmente, a pessoa humana é também toda ela, ruah, isto é, espírito, na medida em que nos entendemos com um ser aberto ao transcendente. Desta antropologia do Antigo Testamento e, em última análise, unitária pois contempla toda a realidade humana de uma determinada perspetiva, encontramos um testemunho claro em 1 Thes 5.23.

A única objeção ao Inferno entendido como morte eterna é a crença grega da eternidade da alma que infetou o cristianismo até aos dias de hoje e que não tem nada a ver com a antropologia judaica na base da qual está escrita a Bíblia. Na antropologia judaica o homem não tem um corpo mortal e uma alma imortal; o homem é todo ele mortal se está fora de Deus e imortal se está com Deus.

Se a alma é imortal, então o inferno é tortura eterna, se a alma é mortal o inferno é morte eterna, pois à vida eterna não se contrapõe tortura eterna, mas sim morte eterna. Alguns teólogos católicos chegam a dizer que o inferno é o nada, mas não uma nada nihilista pós-moderno, algo assim como um analgésico que nos pouparia ao sofrimento de não ter vivido a vida que Deus nos tinha reservado, será um nada, mas um nada que dói como o fogo. Acho esta posição pouco diferente da clássica católica: o nada não pode doer e se dói não é nada, mas sim um eterno sofredor.

O Inferno como anti-génese ou morte eterna
Todas as vidas me pertencem, tanto a vida do pai como a do filho, todas me pertencem. O que pecou é que morrerá. Ezequiel 18, 4

Mas agora, que estais libertos do pecado e vos tornastes servos de Deus, produzis frutos que levam à santificação, e o resultado é a vida eterna. É que o salário do pecado é a morte; ao passo que o dom gratuito que vem de Deus é a vida eterna, em Cristo Jesus, Senhor nosso. Romanos 6, 22-23

O homem que se converteu numa alma vivente pelo sopro divino, Génesis 2,7 é advertido pelo mesmo Deus que se comer do fruto proibido morrerá Génesis 2,16-17; S. Paulo corroborando tantos outros textos bíblicos, afirma perentoriamente que o salário do pecado é a morte Romanos 6,23. Jesus diz-nos para não temermos os que só podem matar o corpo e nada podem fazer à alma. O que devemos temer é o que pode matar tanto o corpo como a alma. Mateus 10,28

O Inferno entendido como morte eterna preserva tanto a bondade de Deus como a liberdade do homem. Mas o que é a morte eterna? É regressar ao nada de onde tudo foi criado. Regressa livremente ao nada quem responde “Nada” às 3 perguntas que todo ser humano se faz quando atinge a idade de autoconsciência: De onde vimos? Para onde vamos? Que sentido tem a vida?

Quem nega a existência de Deus na sua mente e no seu coração dizendo que vimos do nada e vamos para o nada e depois o nega também no decorrer da sua vida, cultivando valores temporais caducos em vez de valores eternos, a morte eterna como regresso ao nada é o resultado lógico da sua vida. É difícil encontrar alguém que negue a Deus de uma forma tão radical na sua mente, no seu coração e nas suas obras e só estes se condenariam.

O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus; por isso todos os valores humanos (amor, paz, justiça, música, arte, etc.) são atributos de Deus. Com o pecado reteve a imagem, mas perdeu a semelhança. Mas, à medida que cultiva, ou seja, que dá aos valores eternos a sua temporalidade, estes dão-lhe a sua eternidade e a semelhança com Deus.

Quem cultiva valores caducos como o poder, a riqueza, o prazer, está a viver só para si mesmo, e em vida, já está a cultivar a morte; está a investir na sua vida, comprando ações que não valem nada no mercado de valores do Céu; cultiva o nada e, quando eventualmente morrer, que pode esperar?

Quem vai para o inferno
Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no Filho Unigénito de Deus. E a condenação está nisto: a Luz veio ao mundo, e os homens preferiram as trevas à Luz, porque as suas obras eram más. João 3, 18-19

Com a nossa morte, a fase espácio-temporal da nossa vida termina e começa a eternidade. Por isso tanto o Céu como o Purgatório e o Inferno não são lugares, mas sim estados. Assim como a água se encontra na Natureza em estado sólido, líquido e gasoso, assim a pessoa pode encontrar-se em estado de Céu, Purgatório ou Inferno.

Se o Inferno existe e a possibilidade de condenação é real; podemos deduzir pela famosa lei de Murphy que alguém se condenará. Só que a lei de Murphy não se aplica a Deus; para muitos o Inferno existe, mas não está lá ninguém nem ninguém vai para lá; cumpriria assim só a função que sempre teve de nos meter medo.

É um mistério que não conseguimos explicar nem nunca conseguiremos ter a ciência certa, o alcance da misericórdia divina e a liberdade humana e de como estas se conjugam finalmente. Da Escritura deduzimos que a possibilidade de se condenar é real e desta premissa partimos para responder à pergunta “quem são os que se condenam e vão para o Inferno?”

Nem todo o que me diz: “Senhor, Senhor” entrará no Reino do Céu, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está no Céu. Mateus 7, 21. Não podemos evitar a velha questão da fé e a das obras, que a um tempo dividiu católicos e protestantes. Somos salvos pela fé ou pelas boas obras que fazemos?

Vai para a geena o lixo, vai para o inferno quem não serve, o que não serve vai para o lixo, quem é lixo queima-se, destrói-se. Quem não vive para servir não serve para viver. Cristo mostrou o Caminho, Verdade e Vida quando disse “Eu vim para servir e não para ser servido”, os que na vida só são servidos e não servem ninguém, não servem para nada nem ninguém.

É sem dúvida a Fé que nos salva, mas não uma Fé simples constituída por um mero aceno positivo da nossa cabeça, mas sim uma Fé total ou holística. É um “Meu Deus eu creio adoro, espero e amo-Vos” … É uma Fé professada pela nossa mente, sentida no nosso coração, que se transforma em convicção nas nossas vísceras e se verifica nas nossas mãos, no nosso talante, no nosso comportamento e nas nossas ações.

A Fé que não é holística que é puro pensamento ou sentimento e nunca se concretiza, nem encarna, nem motiva, nem transforma a nossa vida. No nosso dia-a-dia é, como diz S. Tiago, uma Fé morta. Tiago 2, 14-26. O próprio S. João que no texto, acima citado diz no versículo 18 que quem não acredita já está condenado, afirma no versículo seguinte que a causa da condenação tem a ver com as obras más praticadas. As obras de facto podem chegar a substituir as palavras, mas as palavras nunca chegam a substituir as obras e até são desacreditadas por estas.

“De boas intenções está o inferno cheio”. É a posse de uma Fé holística que nos salva “ipso facto”. Só uma descrença holística poderia condenar-nos “ipso facto”. O mais provável é que poucos possuirão uma Fé total, assim como poucos possuirão uma descrença total. Uns afirmam a Deus só no pensamento, outros no pensamento e no sentimento, mas não O colocam nas obras; outros negam-n’O tanto no pensamento como no sentimento, mas afirmam-n’O nas obras.

Se a razão da vinda de Cristo ao mundo era para que o homem fosse autenticamente homem. Quem é verdadeiramente homem é como dizia Karl Rhaner na sua teoria dos cristãos anónimos, verdadeiramente cristão, mesmo não o sendo por batismo e confissão do Seu Nome. Pois ser cristão e ser homem autêntico são uma e a mesma coisa.

PURGATÓRIO
Numa aldeia um dia apresentou-se diante do pároco uma mulher que afirmava ter aparições de Deus. Querendo provas da autenticidade das aparições, o padre disse-lhe, “Da próxima vez que lhe apareça Deus, peça-lhe que lhe conte os meus pecados pois só Ele os conhece. A mulher voltou um mês depois, e o Padre perguntou-lhe se tinha voltado a ver a Deus; ao responder que sim ele continuou “E pediste-lhe o que te mandei?” “Sim disse ela; “E que te respondeu?” Que já se tinha esquecido.

A Bíblia fala do conceito de Purgatório, mas não se refere a ele como um lugar tal como se refere ao inferno. De facto, os nossos irmãos protestantes não acreditam na sua existência. O Purgatório é uma passagem, um processo. É assim que o vê e representa Dante na Divina Comédia. Não é nunca um lugar definitivo, mas um lugar de purificação, de purga. Definitivos são o Céu e o Inferno, mas quem está destinado ao Céu e ainda não está preparado para entrar porque negou a Deus na sua mente, no seu coração ou nas suas obras, deverá completar este processo para chegar à visão beatífica e à vida com Deus.

Deus não quer nem precisa do purgatório
… Perdoou-nos todas as nossas faltas, anulou o documento que, com os seus decretos, era contra nós; aboliu-o inteiramente, e cravou-o na cruz. Colossenses 2 13-14

“Anulou” pode dizer-se de duas maneiras em grego: kiastren que significa colocar um X por cima da fatura para dizer que já não é válida. Colocar um X por cima não me impede de ler a fatura pelo que é possível voltar atrás e considerá-la válida. A palavra que S. Paulo usa é exalaifein que significa apagar; naqueles tempos os documentos eram escritos em pele de cabra com uma tinta que podia apagar-se para voltar a usar a pele. A fatura foi então apagada não é possível lê-la e para que não reste a menor dúvida do perdão, S. Paulo acrescenta que foi destruída: esse é o significado de cravar na cruz.

Se Deus perdoa a quem se arrepende e pede perdão e esquece a ofensa, para que serve o Purgatório? Deus perdoa e esquece, nós, às vezes, perdoamos e esquecemos as ofensas dos outros; mas não perdoamos assim tão facilmente nem esquecemos as nossas ofensas. O Purgatório é o processo pelo qual chegamos a perdoar-nos a nós próprios.

Deus ama-nos mais do que nós nos amamos a nós próprios. Podemos chegar a amar os outros incondicionalmente, mas dificilmente nos amamos a nós próprios incondicionalmente; precisamos de provar a nós próprios o que valemos; deprimimo-nos quando a nossa vida não corre como gostaríamos e emitimos juízos de valor negativos sobre nós mesmos. O Purgatório é um processo pelo qual reconquistamos a nossa autoestima.

Jogando à bola na minha rua, parti o vidro à minha vizinha. A minha vizinha que é muito minha amiga diz-me para eu não me preocupar que não é nada. Eu aceito o perdão da minha vizinha, mas não me sinto bem enquanto não repuser o vidro, enquanto não pagar a despesa. O Purgatório é o processo pelo qual compensamos, contrabalançamos e satisfazemos as nossas dívidas.

Cristo expiou os nossos pecados, pelo que não precisamos já de os expiar; por outro lado, Deus perdoa e esquece: para que existe então o purgatório? Somos nós que não perdoamos e esquecemos os outros ou nós mesmos; o purgatório é uma exigência da nossa natureza. Vemos isso no Evangelho, no episódio da conversão de Zaqueu:

…”de pé, disse ao Senhor: «Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais.». (Lucas 19,8) Jesus já tinha perdoado a Zaqueu, não lhe exigiu nada como preço desse perdão; o que Zaqueu ofereceu como expiação foi de sua livre vontade, como consequência da sua conversão e de ter obtido perdão, e não como requisito desta.

Habituados desde sempre a viver na escuridão do erro e do pecado, quando pela morte nos apresentamos diante da face de Deus, não aguentamos o seu resplendor; então por um tempo desviamos os olhos para gradualmente nos habituamos. O Purgatório é esse processo de purificação e habituação para chegar a ver a Deus cara a cara.

Salva-nos uma Fé que seja holística, ou seja, que afirme a Deus na nossa mente, amá-l’O no nosso coração, e ser-Lhe fiel no nosso comportamento e obras do dia-a-dia João 14,15. Inversamente, condena-nos um negar a Deus na nossa mente, odiá-l’O ou ser-lhe indiferente com o coração e viver para si, cultivando valores mundanos como o poder, o prazer e a riqueza, sem se importar minimamente com o outro ou até sendo-lhe adverso.

A maior parte de nós, se não todos, encontramo-nos vitalmente numa das mil e uma variações e gradações entre estes dois opostos; afirmamos ou negamos a Deus parcialmente, pelo que o Purgatório vem completar o que em vida deixámos incompleto. Seria injusto que alguém mesmo negando a Deus na sua mente e no seu coração, mas sendo um homem autêntico e filantropo, se condenasse. Como seria injusto que alguém que afirmou a Deus na sua mente e no seu coração, mas constantemente O negou nas suas obras, fosse direito ao Céu.

Homo simul justus et peccator disse Sto. Agostinho e repetiu Lutero muitos anos mais tarde. O homem em processo de aperfeiçoamento, depois de encontrar a Cristo como caminho, verdade e vida, vai sempre progredindo no caminho da santidade sem nunca vencer por completo o pecado. O Purgatório é o completar o que ainda falta para a perfeição.

Deus criou o Céu; o Purgatório e o Inferno foram criados pelos homens. O Purgatório para quem nega a Deus e o próximo parcialmente, e o Inferno para quem nega a Deus e o próximo totalmente; na sua mente, no seu coração e nas suas mãos; ou seja, nos seus pensamentos, nos seus sentimentos e nas suas obras.

Se um é agnóstico ou ateu, mas é um filantropo, ama o seu próximo e os seus semelhantes, então está salvo porque está amando a Deus indiretamente no seu próximo. Como o capítulo 25 de Mateus diz o que fizeste ou não fizeste aos outros, foi a mim que o fizeste ou não fizeste.

CÉU
O que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram, o coração do homem não pressentiu, isso Deus preparou para aqueles que o amam. 1 Coríntios 2, 9

O Céu como visão beatifica
Ver Deus significa, divinizar-se, cristianizar-se ou cristificar-se, revestir-se de Cristo como diz S. Paulo, tornar-se como Ele, ser do seu próprio nível. Por esta razão o que se diz em 1 João 3,2: “seremos como Ele porque vamos vê-lo como ele é”, torna-se realidade, como um presente, o que o homem pretendia "conquistar" no início da história (Génesis 3:5): ser como Deus. Porém, e tal como diz a bem-aventurança, este Deus só pode ser visto pelos puros de coração (Mateus 5, 8).

O Céu como vida eterna
A vida terrena, não é quantidade de anos, mas sim o cessar do tempo e do espaço. Como seres espácio- temporais, torna-se difícil entender o que possa ser uma vida para além do tempo e do espaço. Por isso é mais fácil dizer o que o Céu não é, do que o que o Céu é. A vida eterna, a vida no Céu ou em Céu, é finalmente a vida sem prazo de validade. Aquela vida a que Jesus se referia quando dizia “Eu vim para que tenhais vida e a tenhais em abundância” (João 10, 10).

Um voltar ao paraíso
O Céu é o nosso lar, a nossa casa é o paraíso que perdemos com o pecado que nos obrigou a andar errantes como filhos pródigos; o Céu é um voltar ao paraíso, e um restaurar a nossa dignidade de filhos de Deus, é voltar à casa paterna. É esta a nossa fé, a qual afirmamos milhares de vezes sempre que repetimos a doxologia: Glória ao pai e ao Filho e ao Espírito Santo, assim como era no princípio, agora e sempre, pelos séculos dos séculos, Ámen.

O corpo espiritual com que ressuscitamos
Isto é tudo muito confuso, explique-me lá senhor padre: quando morremos o nosso corpo vai prá terra, a nossa alma vai para o Céu e nós, para onde vamos nós?

O corpo que ressuscita é o corpo espiritual que é composto pela nossa vida histórica, a nossa identidade, o que vamos construindo, o que vamos fazendo, o que vamos encarnando e como vamos encarnando a palavra de vida do evangelho. A palavra de Deus é como um sistema operativo da nossa vida, fazendo-se patente em atos e atitudes, espiritualizando a matéria e definitivamente acumulando tesouros no céu.

Depois de Eisntein, que nos diz que a energia é uma forma de matéria, e que a matéria é uma forma de energia, é mais fácil acreditar na nossa existência como corpo espiritual. Na terra somos um corpo físico, somos matéria, no céu somos energia, um corpo energético, um corpo espiritual, virtual, mas real. O corpo espiritual é formado por tudo o que fomos, os valores humanos que cultivamos, o que fizemos e os tesouros acumulados no Céu enquanto vivíamos.

A metáfora da Borboleta - Na natureza há seres vivos que mudam de forma durante a sua vida; a rã é um deles, a borboleta é outro. A mudança de forma obriga também a uma mudança de meio, tanto no caso da rã como no caso da borboleta. A borboleta nasce sendo uma lagartixa que arrasta o seu ventre pela terra, comendo folhas até ao dia em que aparentemente morre.

O que aparentemente é uma morte é só uma mudança de forma que, guardando semelhanças com a anterior, é diferente da anterior. A nossa vida na Terra é como a da lagartixa, a nossa vida no Céu é como a da borboleta; o nosso corpo fisco é como o da lagartixa muito apegado à Terra o nosso corpo espiritual como o da borboleta mais livre, voando de flor em flor.

A metáfora da água – Se o Céu não é um lugar, mas sim um estado, serve-nos para descrever o nosso corpo espiritual os diferentes estados da água. A água, sem perder nenhuma das suas características sem deixar de ser o que é, sem modificar a sua essência, existe em três estados diferentes. Para a água, tal como para nós, uma coisa é a existência, outra é a essência. Sem modificar a sua essência, a água existe em três estados: sólido, líquido e gasoso.

Assim nós existimos no seio da nossa mãe, no seio do mundo e no seio de Deus. Temos formas diferentes nesses três estados como a água. A água é visível e tangível no estado sólido e no estado gasoso; nós somos visíveis e tangíveis no seio da nossa mãe e no seio do mundo, invisíveis no seio de Deus tal como a água em estado gasoso é invisível, permanecendo sempre a mesma água na sua essência.  

Como se cultivar a Vida eterna
Vai cercando qua, vai cercando là,
Ma quando la morte ti coglierà
Che ti resterà delle tue voglie?
Vanità di vanità.

Sei felice, sei, dei piaceri tuoi,
Godendo solo d'argento e d'oro,
Alla fine che ti resterà?
Vanità di vanità.

(…) Tutto vanità, solo vanità,
Vivete con gioia e semplicità,
State buoni se potete...
Tutto il resto è vanità.

Tutto vanità, solo vanità,
Lodate il Signore con umiltà,
A lui date tutto l'amore,
Nulla più vi mancherà.

Vai ver aqui, vai ver ali,
Mas quando a morte te apanha
O que resta dos seus desejos?
Vaidade da vaidade.

Se és feliz nos teus prazeres.
Vivendo apenas de prata e ouro,
No fim com que ficas?
Vaidade da vaidade.

(...) Tudo é a vaidade, e só vaidade,
Vivei com alegria e simplicidade,
Dai o melhor de vós mesmos
Tudo o resto é vaidade.

Toda a vaidade, só vaidade,
Louvando o Senhor com humildade,
Dá-lhe a Ele todo o vosso amor.
Que nunca vos faltará nada.

Angelo Branduardi
https://www.youtube.com/watch?v=BXcXyCeHOCo

“Ars lung vita brevis” (a arte é eterna, a vida é curta)
O amor é uma arte, todos os valores humanos são artes. Cultivando valores caducos temporais cultivamos a própria morte, cultivando valores eternos cultivamos a vida eterna. Dá-se uma simbiose: nós damos ao valor eterno a nossa temporalidade, o nosso tempo, a nossa energia ao nosso amor e dedicação, fazendo-o crescer e frutificar, levando-o a um expoente superior.

Assim fez Beethoven e Mozart fizeram com a música, Gandhi com a não violência, Picasso com a pintura. Esse mesmo valor eterno dá-nos a sua eternidade na memória dos homens e na memória de Deus. Tudo o resto, como diz Branduardi, é vanidade. 

Conclusão: Deus só criou o Céu. O Purgatório e o Inferno foram criados pelo Homem. O Purgatório para quem nega a Deus e o próximo parcialmente. O Inferno, não como tortura eterna pelo fogo, mas como morte eterna e regresso ao nada, para quem nega a Deus e o próximo totalmente, isto é, nos seus pensamentos, nos seus sentimentos e nas suas obras.

Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de novembro de 2021

3 Votos do consagrado: Pobreza - Castidade - Obediência

Sem comentários:

Talvez por ser ele mesmo um religioso pertencente à ordem dos Jesuítas, o Papa Francisco proclamou o ano 2015 como sendo o ano da Vida Consagrada. Este foi precisamente o tema de reflexão deste espaço durante todo esse ano. Como não vou reinventar a roda e certas verdades não mudam com o tempo, vou aqui fazer um resumo do que naquele ano disse, agregando alguma ideia que me pareça pertinente aqui e agora.
 
O que é a vida religiosa ou consagrada?
A religião deve ser como o sal na comida: nem muito nem pouco, só o preciso.
D. António Alves Martins, bispo de Viseu de 1862 a 1882

Parafraseando, o sábado foi feito para o homem, o homem não foi feito para o sábado (Marcos 2, 27), a religião foi feita para o homem, o homem não foi feito para a religião. A religião é sal na vida, sal que dá sabor à vida; o sal está ao serviço da comida, a religião está ao serviço da vida; a vida não deve ser a religião ou viver a religião.

O que dissemos é válido para todas as pessoas. Porém, há alguns que são chamados a ser sal da Terra e luz do mundo (Mateus 5, 13-14). Chamados a ser sal para a terra significa certamente dar sabor à vida dos outros; chamados a ser luz do mundo significa certamente iluminar e guiar a vida dos outros. Isto deve ser o religioso consagrado.

Se a religião para o cristão comum existe em função da vida, ou seja, para dar sentido e sabor à sua vida, para ser luz, a religião deve iluminar e guiar a sua vida. Para o religioso, é a vida que está em função da religião, porque está consagrado todo ele, toda a sua vida, a ser sal e luz para os outros. Porque não vive em função de si mesmo, mas dos outros e da sociedade em geral, o consagrado ou religioso tem uma vida à parte.

“Consagrar” um objeto significa retirá-lo do uso ordinário para o colocar de parte ou apartar, e reservar para um uso determinado e exclusivo. Quando um cálice ou outro objeto é consagrado, é reservado ou guardado para um uso sagrado, neste caso, para a celebração da Eucaristia.

É neste sentido que se deve interpretar a “fuga mundi” dos religiosos da Idade Média. Não se tratava de fugir ao mundo, para não ser contaminado por ele, mas sentir-se chamado a uma Missão que comportava apartar-se da vida ordinária e viver de uma forma diferente.

Dentro da floresta não vemos a floresta, vemos apenas árvores; para ver a floresta temos de sair dela. O consagrado afasta-se do mundo para o conhecer melhor; de facto, aparta-se do mundo para se dedicar ao mundo. Retira-se do seu pequeno mundo para se dar a todo o mundo de uma forma peculiar. Coloca de parte a sua vidinha particular, para entrar ao serviço da Vida em sentido Universal.

Como nasceu a vida religiosa
O mais visível, o que chama mais a atenção na pessoa religiosa ou consagrada é o seu celibato, ou seja, é o ser uma pessoa que não constitui família como todas as outras. Historicamente, porém, podemos dizer que mesmo antes de ter surgido a vida religiosa que na Igreja adquire o nome de monaquismo, desde o princípio do cristianismo, no seio das primeiras comunidades cristãs, como ainda acontece hoje, sempre houve homens e mulheres que renunciaram ao casamento por amor ao Reino dos Céus. Na minha terra, posso contar até 6 donzelas que se dedicaram exclusivamente à catequese e à educação de crianças e nunca se casaram.

Os primeiros séculos do cristianismo foram muito marcados pela perseguição à Igreja, de tal forma que ser cristão e ser mártir eram praticamente sinónimos. Os cristãos daqueles tempos aspiravam, como todos os humanos, a morrer de idade avançada. No entanto, ao abraçarem uma religião proscrita pelo império romano, todo o cristão estava disposto a testemunhar a sua fé na vida e com a vida.

Quando a espiritualidade, o martírio, ou seja, a dedicação plena e suprema à causa do Evangelho, perdeu a sua força devido à legitimação do cristianismo, que com o Imperador Constantino se transformou em religião de Estado, surgiu o monaquismo como forma alternativa de martírio ou de dedicação plena e exclusiva aos valores do evangelho.  

Esta forma de vida surgiu como uma grande novidade na Igreja e registou uma enorme expansão, sobretudo no Egito, Palestina e Síria. Passaram para a história da Igreja com o nome dos Padres do Deserto. Enquanto que com a legalização do cristianismo, muitos cristãos se aburguesaram e caíram na apatia espiritual e moral, os monges ascetas conservavam frescos os valores do Evangelho, levando uma vida de intensa oração, jejum, celibato e desprendimento dos bens materiais.

No princípio, estes monges eram eremitas anacoretas, ou seja, viviam sozinhos; com o tempo foram-se reunindo em cenóbios, em pequenas comunidades e assim surgiu a vida religiosa tal como a conhecemos hoje. Também eram chamados de clero regular, como dissemos, porque eram comunidades governadas por regras. A primeira regra, intitulada “Ora ed labora” foi dada por S. Bento, o fundador do monaquismo na Igreja ocidental.
 
A vida religiosa nas outras religiões
Quando pensamos na figura do monge da tradição católica, imediatamente nos vem à mente a imagem do monge budista, vestido com um hábito cor de açafrão. O budismo é uma espiritualidade que se presta ao monaquismo, ou seja, à dedicação exclusiva à meditação, à vida ascética que tem como objetivo a iluminação.

Como no cristianismo, nem todos os budistas podem ser monges. No entanto muitas crianças e adolescentes têm uma iniciação monástica durante alguns anos da sua vida, como se fosse um serviço, semelhante ao serviço militar obrigatório de outros tempos, e depois deixam os mosteiros para seguirem a sua vida normal.

A religião judaica, assim como a muçulmana, são contrárias à vida monástica tal como se entende no budismo e no cristianismo. O mais próximo correspondente na religião muçulmana de um monge cristão é o Sufi, pois tal como no monaquismo cristão, o sufismo é uma interiorização e intensificação da fé e prática muçulmanas.

A vida religiosa ao longo da história e da Igreja
Segundo a distinção canónica, temos hoje dois tipos de clero: o regular, os religiosos e o clero secular. O clero diocesano está mais envolvido com o mundo, são os pastores das ovelhas do Senhor. Neste sentido, o seu papel é muito semelhante ao dos doutores da lei e dos sacerdotes de Jerusalém. O religioso consagrado, por outro lado, está chamado a ser profeta, a ser a pessoa certa no lugar certo, a ser a solução de um problema.

Todas as ordens religiosas nasceram como solução para um problema: os jesuítas como a força da Contrarreforma, os franciscanos para exaltar o valor da pobreza numa Igreja demasiado rica. Quando nasceram as cruzadas, nasceram as ordens religiosas militares como os Templários e os Hospitalários.  Nasceram depois ordens religiosas para cuidar dos doentes físicos, nasceram outras para cuidar dos doentes mentais, outras ainda nasceram para se dedicar ao ensino, sobretudo dos desfavorecidos que não podiam pagar um colégio. No fim do século XIX início do século XX, nasceu a minha e tantas outras ordens religiosas dedicadas exclusivamente à evangelização de África e depois da Ásia.
 
Na tradição do Antigo Testamento, o profeta era o homem certo para o momento certo; era o que sabe interpretar o momento presente da vida do povo à luz da vontade de Deus, era o que se sentia mensageiro e por vezes também intermediário entre Deus e os homens. Era sempre um líder natural e uma pessoa carismática; tanto criticava um comportamento que não era adequado aos olhos de Deus, como confortava e infundia esperança nas horas amargas, como foi o exílio da Babilónia.

A vida religiosa em geral está associada à Missão Profética da Igreja. Na Idade Média, enquanto os estados guerreavam entre si, foi nos mosteiros que se preservou a cultura; foi neles que nasceram as escolas, as universidades e os hospitais. O próprio registo civil nasceu com o assento dos batizados pela Igreja; registo esse que o Estado, com a República em 1910, roubou às paróquias.

Atos simbólicos dos profetas de Israel
O comportamento dos profetas, do Antigo Testamento, era tão bizarro que nos termos dos atuais padrões seculares de sanidade, acabariam institucionalizados ou, pelo menos, em alguma forma de terapia intensiva.

Estes profetas não eram apenas falantes da palavra, encarnavam-na nas suas vidas, no seu talante, no seu comportamento e atos. Tudo neles fazia parte da mensagem: a sua escolha de roupas e até mesmo os seus corpos e linguagem corporal. Testemunhavam assim, na própria carne, o quão transformadora e desconcertante pode ser a Palavra de Deus. Se é certo que “palavras, leva-as o vento”, os atos simbólicos e dramáticos dos profetas falavam bem mais alto e eram mais difíceis de esquecer.

•    Isaías, despiu toda a sua roupa e vagueava nu. (Isaías 20).
•    Jeremias, escondeu a sua roupa interior numa rocha, e depois de muito tempo veio à procura dela (Jeremias 13).
•    Oseias casou deliberadamente com uma prostituta e pôs o nome de Loruhama (não amada) à filha de ambos (Oseias 1).

Com a vinda de Cristo, podemos olhar para trás e ver estes profetas como prenúncio, não só através das profecias que falavam da sua vinda, mas através das suas ações proféticas. Cristo é, afinal, a palavra feita carne da maneira mais rica e mais completa possível. E, tal como o dos profetas, o comportamento de Cristo foi totalmente bizarro, desconcertante e confuso em relação aos padrões sociais e convencionais da época.

Era, afinal de contas, alguém que garantiu que reconstruiria o templo em três dias, que comia com prostitutas e cobradores de impostos, que expulsou demónios para uma vara de porcos, que curou um homem cego esfregando lama nos seus olhos feita com a sua saliva, e que andou sobre as águas. A ação mais chocante e dramática foi sem dúvida lavar os pés dos seus discípulos. Quis executar o ato mais servil para que nunca esquecessem o que já tinha dito de palavra: o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos (Marcos 10, 45).

O religioso como ato simbólico
O consagrado vive aqui e agora a vida que todos estamos chamados a viver no Céu. Ao encarnar os valores do evangelho, é como uma estrela polar que indica o verdadeiro caminho para Deus, um dedo apontado para o Céu; ao relativizar certas realidades deste mundo que o homem tem a tentação de absolutizar, o religioso é também um farol que expõe os perigos à navegação, perigos de perder a vida durante a nossa peregrinação para a pátria celeste.

Desta maneira, os três conselhos evangélicos podem ser vistos como gestos ou atos simbólicos que falam por si, à maneira dos atos dramáticos e simbólicos dos profetas do Antigo Testamento, ou uma forma de ser sal e luz em temas como o poder, os bens materiais, o prazer e o amor.

O voto de pobreza – Relativiza o possuir pois, para além de manter as funções vitais, as riquezas materiais são um empecilho para o crescimento espiritual. Como diz o evangelho, onde está o teu tesouro está também o teu coração; quem dá o seu coração às riquezas, vende a alma ao diabo, já não se possui, é possuído pelo que pensa possuir.

O voto de castidade – Relativiza o sexo pois, ao contrário do que a sociedade nos quer impingir, o sexo não é uma necessidade individual, mas sim da espécie; nem sequer é intrínseco ao amor, é tão-somente uma das tantas expressões de amor. Se o amor, na sua expressão natural, cria a família e os laços familiares, o amor, na sua expressão sublimada, cria a fraternidade universal e a solidariedade.

O voto de obediência – Relativiza o poder e a liberdade. Para o evangelho, o poder é serviço, ou seja, obedecer às necessidades dos outros. Sou livre até encontrar a minha opção fundamental; uma vez encontrada, a vida resume-se a ser fiel, ou a obedecer, aos compromissos assumidos. Se guardares a regra, a regra te guardará a ti, e te dará um sentido de identidade, de propósito e de segurança.

POBREZA
Quando um religioso, podendo ser rico, escolhe ser pobre, que quer dizer ao mundo? Que mensagem profética encarna na sua vida de pobre? Que verdades revela? Para que perigos alerta?

Somos administradores não proprietários
Não sendo proprietários de coisa nenhuma nem da nossa própria vida, devemos sinceramente considerar-nos administradores, tanto da nossa vida como dos recursos que possuímos. Um dia, prestaremos contas dessa administração.

Quando na nossa mente conseguimos substituir o conceito de “dono” pelo de “administrador”, uma sensação de desapego e desprendimento dos bens materiais invade a nossa mente. Esta nova mentalidade é imprescindível para o crescimento espiritual, como pessoa livre e independente, mas ao mesmo tempo fazendo parte de uma comunidade e como filhos de Deus.

Sendo Deus o único proprietário de tudo e de todos, nós apenas somos administradores e não proprietários: as coisas foram feitas para ser usadas, não amadas nem possuídas; as pessoas foram feitas para serem amadas, não usadas. Os que têm como objetivo possuir cada vez mais, têm a tendência de usar as pessoas, de as ver como um meio. As pessoas nunca devem ser um meio, mas sim e sempre um fim em si mesmas. As coisas é que são um meio, um meio de vida. As coisas estão ao serviço da vida e não a vida ao serviço das coisas.  

Meio de vida não fim de vida

Na verdade, quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, há-de salvá-la. Marcos 8, 35.

Viver e estar vivos são uma e a mesma coisa para os animais, não para os humanos. É certo que para viver é preciso estar vivo, mas o sentido e objetivo da vida humana não é manter-se vivo, não é reter a vida; pelo contrário, é perder, é dar a vida, é desapegar-se da vida, entregar-se a uma causa, usar todo o tempo e energias de que é composta a nossa vida por um ideal, um sonho, uma ambição. A vida não é, portanto, um valor absoluto, mas relativo; valor absoluto é a razão pela qual eu vivo.

Os bens materiais, portanto, nada tem a ver com a vida, mas sim só com o estar vivo, com o manter as funções vitais. Quem dedica a sua vida a acumular riquezas, está a dedicar a sua vida a manter a vida. Pode até chegar a ter o necessário para manter as funções vitais de duas e mais vidas. Mas continuará a ter apenas uma vida que acabará por esperdiçar numa azáfama sem sentido.

O rico é pobre o pobre é rico

O homem pobre que está feliz com o que tem e não procura mais riquezas materiais, é rico. Enquanto o homem rico que nunca está satisfeito com o que possui, que quer e procura ter sempre mais, é pobre.

É como uma adolescente anoréxica que se engana a si mesma com uma falsa perceção da realidade; está tão obstinada em tornar-se mais magra que sempre que se vê ao espelho se vê gorda. Como não foca a sua atenção na magreza, que já tem, mas que ainda quer ter mais, sempre se verá como gorda e obrigada a perder mais peso, arriscando a morte se não for curada da sua falsa perceção da realidade.

O rico é pobre porque a sua atenção não está virada para o que já tem, mas para o que ainda pode vir a ter, investindo nesse objetivo todo o seu tempo e energias. Como sempre haverá alguém mais rico que ele, sempre se verá a si mesmo como vivendo num estado de carência pelo que, para todos os efeitos, é pobre. O pobre é rico porque está satisfeito com o que tem e investe o seu tempo e as suas energias em “ser”; o rico é pobre porque, ao não achar que tem o suficiente, investe toda a sua vida no “ter mais”.

Possuidores ou possuídos?
Se as vossas riquezas crescerem, não lhes entregueis o coração. Salmo 62, 10
Porque, onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração. Lucas 12, 34

Infelizmente, o jovem rico, do evangelho de Mateus (19:16-23), decidiu ficar com as riquezas quando Jesus o confrontou e lhe deu a escolher entre riqueza material e riqueza espiritual. Diz o evangelho que ele ficou triste ante a sua própria opção; as riquezas podem dar prazer, mas não dão alegria e o prazer é quase sempre seguido pela tristeza.

O jovem rico recusou seguir o mestre porque, diante da perspetiva de perder as riquezas, a sua falsa segurança paralisou-o. Seguir o Mestre foi o que o moveu ir ter com Jesus, ele queria seguir o Mestre, mas não podia; e não por possuir muitas riquezas, mas por ser possuído por elas. Não era livre, não se possuía a si mesmo nem era senhor do seu destino. O que aconteceu ao jovem rico e acontece a todos os que entregam o seu coração às riquezas, assemelha-se a vender a alma ao diabo.

Onde está o teu tesouro aí está o teu coração, adverte o evangelho. Por isso, quando damos o coração às riquezas, vendemos a alma ao diabo; a partir desse momento, só possuímos do ponto de vista contabilístico porque, do ponto de vista psicológico e espiritual, somos nós os possuídos.

Se o objeto do nosso amor são bens materiais, então uma estranha simbiose acontece entre a pessoa e os bens materiais que ama. Define-se simbiose como uma relação de mútuo benefício e dependência entre dois seres vivos.

Há uma troca ou partilha entre os dois: os bens materiais partilham a sua matéria, pela qual a pessoa que os ama se materializa; a pessoa partilha o seu espírito, pelo qual os bens materiais se espiritualizam. O sujeito que antes dizia que possuía, passa a ser possuído. Não é o jovem rico que possui os bens materiais, são os bens materiais que possuem o jovem rico.

 Porque o dinheiro é um bom escravo, mas um mau mestre. Aquele que é seduzido pela riqueza perde a sua liberdade. Na realidade, é a riqueza que passa a "comandar" a sua vida e não ele mesmo. Quando o único objetivo da vida é possuir, e o possuir só serve para manter as funções vitais, a pessoa vive para estar viva, ou seja, vegeta.

Encontrar uma riqueza maior
A Princesa Diana de Gales, tinha tudo que uma jovem poderia pedir na vida: juventude, beleza, poder, dinheiro, fama, "sangue azul" e dois filhos preciosos e, mesmo assim, não estava feliz porque lhe faltava o principal, o que o dinheiro não pode comprar: amor. À procura deste, abandonou tudo e foi nessa busca que perdeu a vida. Outros há, que tendo o essencial, o amor, fazem o oposto da princesa, buscando afanosamente tudo aquilo que ela desprezou. Gastam nisso as suas vidas, muitas vezes acabando por perder o que de antemão tinham: o amor.

Tal como Diana de Gales, S. Bento de Núrsia, S. Bernardo de Claraval, S. Francisco de Assis, Sto. Inácio de Loyola, S. Francisco Xavier, Sto. António de Lisboa, Sta. Isabel de Portugal, S. Nuno Álvares Pereira, Sta. Beatriz da Silva etc., os santos da Igreja católica, na sua grande maioria, eram de classe média-alta, cultos, jovens, belos, ricos, alguns de sangue azul, e todos abandonaram tudo por Cristo, tal como S. Paulo outrora fizera – por causa d’Ele, tudo perdi e considero esterco, a fim de ganhar a Cristo, Filipenses, 3, 8.

Não eram tolos, estes santos: ninguém troca um bem maior por um bem menor. Se abraçaram a pobreza é porque encontraram nela uma riqueza superior àquela que deixavam e com a qual não podiam contemporizar, pois a Bíblia é clara, não se pode servir a Deus e ao dinheiro, (Mateus 6,24). Não podes, ao mesmo tempo, cultivar valores espirituais e valores materiais.

É certo que o dinheiro é muito importante, é de facto o deus deste mundo, pois nos abre muitas portas e consegue-nos muitos bens de consumo; mas não nos abre a porta do mundo espiritual nem nos consegue valores humanos. Não nos compra o bem mais essencial e sem o qual a vida humana não faz sentido: o amor. O amor é a necessidade mais importante na vida e o dinheiro em nada pode satisfazê-la.

Quem passa a vida a cultivar valores temporais e caducos está, de alguma maneira, a cultivar a morte. Quando eventualmente morrer, não possuindo um corpo espiritual e não tendo acumulado tesouros no céu, estará morto para sempre, sofrendo a morte eterna. Ao passo que aquele que passou a vida a cultivar valores espirituais e humanos que são eternos, acumulou tesouros no Céu e, quando eventualmente morrer, ressuscitará com o corpo espiritual que construiu em vida e entrará com este na vida eterna.

O voto de pobreza
Como os votos religiosos de castidade, pobreza e obediência fazem referência a valores eternos, aqueles que os encarnam transformam-se em sacramentos, embaixadores, símbolos de eternidade para o resto dos cristãos. Ao viverem, aqui e agora, os valores que todos estamos chamados a viver no céu, relativizam realidades como o dinheiro, o poder, o prazer.

Quanto ao voto de castidade, como no céu não há morte, não há nenhuma necessidade de haver casamentos, como sugere Mateus 22,30. Viver em castidade ou amizade universal, é o que a todos nos espera.

Quanto ao voto de obediência, o que o religioso quer relativizar é o amor pelo poder que tantos têm. A mania de querer chegar ao topo, pensando que uma vez lá não teremos que obedecer a ninguém. Obedecendo, o religioso quer mostrar que fazer a vontade de Deus é o melhor para a autorrealização.

A necessidade de bens materiais está relacionada com o facto de ter, de sustentar a vida nas suas implicações biológicas. No céu, teremos um corpo glorioso (1 Coríntios 15, 44) ou espiritual, feito à imagem e semelhança do nosso corpo físico, sem ser o nosso corpo físico. Como é um corpo imaterial, não há necessidade de possuir e armazenar bens materiais.

Muitas pessoas vivem na ilusão de que, por possuírem mais meios de vida, têm mais vida, ou podem prolongá-la. Em si mesma, a vivência do voto apregoa a verdade de que não se pode amar a Deus e ao dinheiro; o possuir para além do necessário para nos mantermos com vida, impede-nos de “armazenar tesouros no Céu”, (Mateus 6,19-20) ou seja, de aplicarmos a vida a cultivar valores humanos. São estes valores que dão sentido e relevância à nossa vida, tanto do ponto de vista individual como social, e a sustêm na eternidade, fazendo parte do nosso corpo espiritual, com o qual viveremos com Deus.

Vivendo o voto de pobreza, no contexto de uma comunidade religiosa, destacamos o valor da partilha de bens comuns, assim como o valor de os usar e administrar com responsabilidade, sem os possuirmos. Acreditamos, na verdade, que só Deus é o verdadeiro dono de tudo o que as pessoas pensam e possuem. Não somos proprietários de coisa nenhuma, nem de nós mesmos, nem da nossa vida; apenas somos administradores de tempo, de talentos, de recursos e dessa administração prestaremos contas um dia.

CASTIDADE
Se a pobreza tem a ver com a nossa relação com as coisas, e a obediência com a nossa relação connosco mesmos, a castidade tem a ver com a nossa relação com os outros.

Castidade e sublimação
Eros & Tânatos são instinto de vida e instinto de morte, afetividade e agressividade, ying e yang, a força centrípeta e a centrífuga, o amor e o ódio, polos positivo e negativo da eletricidade ou energia com que fazemos tudo o que fazemos. Sem energia nada funciona numa sociedade e o mesmo acontece connosco.

No seu livro, “O mal-estar da Civilização”, Freud defende que tanto a agressividade como a afetividade desbragada, ou seja, abandonadas a si mesmas, têm um potencial destrutivo incomensurável; podem destruir o que ajudaram a construir. O ser humano abandonou a animalidade quando ganhou poder sobre estas duas forças, quando conseguiu domesticá-las, quando lhes colocou rédeas para as aproveitar positivamente.

Vistas as coisas sob este prisma, a civilização humana pode ser considerada como uma história da sublimação do Eros & Tânatos, ou seja, o uso inteligente que a humanidade fez destas forças ou instintos básicos. Da mesma forma, a nossa própria história pessoal consiste também nos esforços para desviar o nosso afeto e agressão naturais do seu alvo natural e primordial, a fim de promover o cultivo dos valores humanos.

Em consonância com essa forma de pensar, o voto religioso de castidade consiste em desviar a afeição natural do homem e da mulher do seu objeto primordial, casar e ter filhos, canalizando-a para uma finalidade mais cultural. Sacerdotes, religiosos e religiosas escolhem não ter esposas e maridos a fim de estabelecer uma fraternidade mais ampla; optam por não se reproduzir biologicamente e ter filhos próprios, a fim de ampliar e estender a sua paternidade e maternidade para além dos laços de sangue.

Exemplos de sublimação: a barragem e a máquina a vapor
Com a construção de uma barragem, o nível de água sobe a ponto de poder irrigar os campos e transformar um deserto num oásis, criando e alimentando uma sociedade agrícola e rural. Por outro lado, pode também ser aproveitada para produzir energia elétrica, criando e alimentando cidades industriais onde floresce a cultura urbana.

É claro que a barragem reprime e comprime a água, impedindo o seu fluxo natural; por isso as suas paredes têm de ser fortes e côncavas. Por outro lado, feita nos limites do possível, a mais-valia e os benefícios que se obtêm da força motriz da água para produzir energia e da sua canalização para a irrigação, justificam plenamente a represa ou repressão.

Tal como as paredes côncavas e fortes da barragem, a sublimação do Eros requer que a pessoa possua um caráter forte e robusto, para conter o impulso natural do Eros que se manifesta no desejo sexual e na paternidade natural, e poder assim canalizar a sua energia para uma paternidade e irmandade mais universal. O bem que se faz aos outros, no contexto desta paternidade e irmandade universal, ecoa em nós em forma de alegria; o ver que os outros estão melhores graças à nossa atuação, compensa largamente o esforço e o sacrifício envolvido no processo de sublimação.

O princípio da sublimação também se verifica na máquina a vapor que foi a primeira máquina que o ser humano construiu. Esta primeira força motriz artificial que o homem inventou, transformava o calor produzido pelo carvão que fazia ferver uma caldeira de água, em vapor de água e a força deste vapor movia os pistões do motor. Fundamentalmente, transformava calor em energia mecânica. A sublimação é possível e sem ela não existiria a sociedade humana tal qual a conhecemos.

Castidade é a relativização do sexo
"All you need is love" costumavam cantar os Beatles nos anos 60. De facto, depois das necessidades básicas que não incluem o sexo, amar e ser amado é a única necessidade e condição sem a qual a vida humana não existe nem subsiste. Nenhuma pessoa jamais atingirá maturidade plena como ser humano, se não for amada incondicionalmente durante a infância e amar incondicionalmente como adulta.

Quem em adulto procura ser amado, mais que amar, comporta-se afetivamente como uma criança. E como a sociedade não tolera que adultos se comportem como crianças, esse adulto procurará ser amado de forma enviesada, com enganos, manipulações e jogos psicológicos; é disso que tratam as telenovelas. Quem é maduro afetivamente pode passar sem ser amado, mas não pode passar sem amar. Jesus, na sua vida terrena, procurando sempre amar e servir os mais pobres e desfavorecidos, não procurava ser amado, mas também não repelia o amor que lhe devotavam.

O amor pode existir e subsistir e faz sentido sem sexo, pois há uma infinidade de situações amorosas onde o sexo não se aplica, não entra, nem deve entrar. Por outro lado, o sexo sem amor não deve existir, não faz sentido, pois transforma a pessoa num objeto de prazer, instrumentalizando-a e degradando-a, mesmo no caso do sexo consentido entre adultos onde ambos são sujeito e objeto.
 
Amar é, como diz S. Tomás de Aquino, querer o bem do outro. Por isso diz o provérbio espanhol “obras son amores y no buenas razones”, o amor manifesta-se nas obras tal como a fé. Contrariamente ao que diz a expressão popular, praticar sexo não é “fazer amor”, pois o amor manifesta-se nas obras, cresce ou decresce com elas e por elas.

Longe de ser a única, o ato sexual é apenas uma das muitas formas de dizer “Eu amo-te”; e não se aplica, nem é lícito, nem moral em muitas formas de amar. Mas, mesmo nas situações amorosas em que é correta e adequada a expressão sexual, esta, por si só, não tira nem acrescenta nada ao amor, apenas expressa ou não expressa o amor que existe ou não existe.

Amor particular versus amor universal
Nos meus tempos de criança e de adolescente, gostava muito de ver filmes de cowboys na televisão. Hoje, pensando em retrospetiva, é claro para mim que esses filmes influenciaram, diria mesmo, forjaram de alguma forma o meu futuro. Fascinava-me que depois de o cowboy ter libertado a cidade dos bandidos que a tinham refém, mesmo que durante o tempo em que ali tinha estado alguma donzela se tivesse enamorado dele pela sua bravura e ele tivesse ou não correspondido a esse enamoramento, no final, o cowboy nunca ficava na cidade nem aceitava o amor da donzela, nem o poder simbolizado pela estrela de xerife que lhe oferecia. Partia antes cavalgando rumo ao pôr-do-sol para, noutro episódio o vermos a libertar outra cidade, lutando sempre pela justiça e liberdade com risco para a sua vida.

Todo o homem e toda a mulher têm uma vocação natural para serem pai e mãe. O consagrado está chamado a realizá-la, não de uma forma biológica ou física, mas de uma forma psicológica e espiritual. Mesmo para os que são pais, em sentido biológico, o mais importante não é o escasso tempo do processo da conceção, mas os longos anos do processo educativo. Madre Teresa de Calcutá nunca foi mãe no sentido biológico e, no entanto, ninguém lhe negaria o nome de madre Teresa.

O consagrado não é pai trazendo mais filhos ao mundo, mas contribuindo para a educação e humanização dos que já cá estão. Do missionário pode dizer-se, como se disse de Jesus: “passou pelo mundo fazendo o bem”.

Castidade e abstinência
Tal como a pobreza não é a negação completa dos bens materiais, pois enquanto possuímos um corpo físico necessitamos de alguns, tal como a obediência também não é a submissão acrítica incondicional e total à vontade de outrem, como as ovelhas ao pastor, assim também a castidade não é a abstinência total do amor personificado e da possibilidade de o expressar sexualmente.

A sublimação total do Eros é impossível
É claro que o processo de substituição ou canalização de energia, não pode ser continuado até ao infinito, como também não pode sê-lo a transformação de calor em energia mecânica nas nossas máquinas. Sigmund Freud

Conforme o exemplo utilizado por Freud, a máquina a vapor, é impossível transformar todo o calor produzido pelo carvão em energia mecânica; muito desse calor perde-se de forma natural. Também dá o exemplo do agricultor que treinou o seu cavalo a viver sem comer; quando pensava que já o tinha habituado, o cavalo morreu.

O mesmo acontece com a minha metáfora da barragem: não é possível transformar toda a sua água em eletricidade e agricultura. Há tempos em que chove muito, o que obriga a abri as comportas e a deixar que a água corra naturalmente; se não o fizermos, podemos perder a barragem.

A sublimação total do Eros não é desejável
Usando ainda a metáfora da barragem, quando chove muito é preciso largar água; a castidade, de facto, resulta mais difícil nos anos jovens, quando chove muito, ou seja, quando a produção hormonal está no seu auge. Era precisamente por isto que S. Francisco de Assis, para resistir à tentação, se rebolava nu na neve. Também aqui existe o perigo de se perder a barragem do nosso psiquismo, ou seja, de ficarmos neuróticos. Sempre achei uma pura hipocrisia serem clérigos velhos e decrépitos (com um nível quase nulo de produção hormonal) a prescrever a moral sexual para jovens.

Existem, por outro lado, estudos que dizem que tanto a prática sexual exacerbada como a total abstinência são daninhas para a saúde física. A falta de produção de testosterona tem efeitos não só na função sexual, como também no funcionamento geral do organismo. Talvez Buda tivesse razão ao advogar o caminho do meio, ou como diziam os antigos “in medio virtus” “in medio veritas”.

Sexo como liturgia do amor

Se o prazer sexual é uma expressão do diálogo oblativo, então fica claro que a instituição do matrimónio não pode ser o "hortus conclusus" da sexualidade e não podemos lidar com ela apenas dentro dos limites de uma doutrina do matrimónio. Pietro Prini L’o scisma sommerso

Pietro Prini, um filósofo católico muito querido nos círculos do Vaticano, opina neste seu livro que, em matéria sexual, o mundo católico não segue a moral católica; há dentro da Igreja um cisma entre a moral sexual que seguem os fiéis e aquela que é proclamada pelo magistério.

O teólogo irlandês Diarmuid O’Murchu no seu livro Poverty, celibacy, and obedience: A radical option for life chega à mesma conclusão que Prini: Que o celibatário deva ou não abster-se totalmente da intimidade sexual genital, num mundo onde essa expressão íntima já não está ligada exclusivamente ao casamento, tem pelo menos de permanecer uma questão em aberto.

Na espécie humana, a expressão sexual não existe primariamente para a procriação, pois nem todos os atos sexuais estão abertos à vida, como é o caso nos animais. Ao contrário destes, os humanos não são filhos do instinto, mas sim do amor entre duas pessoas porque também só se vive humanamente no amor e para amar. Portanto, a expressão sexual é, antes de tudo, liturgia, expressão do amor entre duas pessoas, sempre e quando este amor aconteça e a expressão sexual deste seja apropriada.

OBEDIÊNCIA
Se a pobreza tem a ver com o amar a Deus sobre todas as coisas, a castidade tem a ver com o amor ao próximo como a ti mesmo, a obediência tem a ver com o amor a si mesmo. O primeiro conceito que tem de estar claro na nossa mente é de que a nossa vida não tem apenas a ver connosco.

A vida humana é um valor absoluto em relação à morte, não podemos atentar contra ela. Porém, em relação aos outros valores humanos é um valor relativo, pois a vida humana só tem sentido cultivando valores humanos e cada um desses valores valem a nossa vida. Não empregues a tua vida em causas pelas quais não estás disposto a morrer.

Se em relação ao voto de pobreza dissemos que, em relação à nossa vida, não somos proprietários nem das coisas a que chamamos nossas nem da nossa vida, pois nada fizemos para a ter nem nada podemos fazer para a reter, em relação ao voto de obediência não somos os arquitetos da nossa vida, mas sim apenas os engenheiros, pedreiros, construtores da mesma.

Construtores, não arquitetos – Toda a pessoa que vem a este mundo, vem com um projeto. Vem porque Deus assim o quis. As circunstâncias do seu nascimento não interessam: nem retiram nem acrescentam dignidade. Tão filho de Deus é o nascido por amor como o nascido por acidente, o nascido de prostituta, o nascido de uma noite de prazer e até o nascido de uma violação; toda a vida humana que vem a este mundo, desde a sua conceção até à morte natural, é viável e, portanto, inviolável.
Deus escreve direito por linhas tortas. Para os seus desígnios serve-se tanto do nosso bem como do nosso mal. Para Ele, não há filhos ilegítimos nem de sangue azul; para todos é Pai; todos, iguais em dignidade, são herdeiros da vida eterna.

Assim como não se constrói uma casa nas nossas cidades e aldeias, antes de ser devidamente desenhada e projetada, nenhuma vida vem a este mundo sem que Deus tenha traçado para ela um projeto, sem que Ele tenha desenhado um plano.

Não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos escolhi a vós e vos destinei a ir e a dar fruto, e fruto que permaneça Jo 15, 16 - Não somos, portanto, nós que desenhamos o nosso destino; estamos chamados a ser uma casa construída sobre a rocha, se ouvirmos a palavra, ou seja, se conhecermos o plano que diz respeito à nossa vida e o pusermos em prática, se o executarmos tal e qual ele está desenhado.

Como não somos proprietários da nossa vida, também não somos os seus arquitetos, mas sim os seus pedreiros ou mestres-de-obras. O arquiteto de tudo e de todos, o criador, é Deus; o desenho, o projeto, ou plano da nossa vida está com ele, para o conhecermos temos de o consultar periodicamente, à medida que vamos construindo a nossa vida, a nossa casa.

O construtor que não consulta o arquiteto periodicamente, corre o risco de construir algo que não está de acordo com o projeto. Como é embaraçoso sempre que isto acontece nas nossas cidades, casas às quais não é dada a autorização para serem habitadas, chegando mesmo a ser destruídas porque não foram edificadas em conformidade com o desenho. Pior embaraço é apresentar-se diante de Deus com uma vida vivida contra a sua vontade. A consulta periódica pela qual vamos conhecendo a vontade de Deus a nosso respeito chama-se oração. Por isso, no quadro do religioso consagrado, ela é 50% da sua vida, conforme a regra de Ora ed Labora.

A opção fundamental como compromisso
A opção fundamental é uma decisão que se toma sobre o conjunto da nossa vida, é o objetivo, a meta do nosso viver, que dá sentido, cor e sabor a todos e a cada um dos dias da nossa vida. É a chama que é mantida pelo combustível da nossa vida, energia e tempo. É o ponto de apoio da alavanca que levanta o mundo, no princípio de Arquimedes. É a motivação, a inspiração que reúne todos os nossos recursos e os coloca ao serviço de uma meta, de um alvo por nós escolhido.

A vida é feita de muitas opções e decisões; são elas que dão cor, sabor, aroma e sentido à nossa vida. Estas pequenas opções geralmente referem-se a um ou mais aspetos da nossa vida; podem afetar-nos muito ou pouco, mas não chegam a afetar o conjunto da nossa vida. A opção fundamental é a decisão das decisões, a opção mestra, a mãe de todas as opções porque se refere a toda a vida presente e futura. Na maior parte das vezes, é irreversível, é a razão do nosso viver, é a causa que vamos alimentar com o nosso tempo e energia; é a boca para a qual nós somos o pão.

A causa, ou opção fundamental, que Nelson Mandela alimentou com a sua vida foi o fim do apartheid na África do Sul; para Beethoven foi a música; para Picasso, a pintura; para Gandhi, a independência da Índia de uma forma não violenta; para uns pais são os filhos; para os professores são os alunos; para os médicos são os doentes…. Mais que uma profissão, a vida é uma missão.

Não há vida sem compromisso
Vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido. Dalai Lama

Quando chega o momento para escolher a nossa opção fundamental, estamos na encruzilhada da nossa vida, ou como se diz atualmente na Europa, estamos na rotunda da nossa vida. Não podemos estar aí para sempre, nem por mais tempo do que é adequado. Frequentemente, quando permanecemos demasiado tempo indecisos, a vida ou o Estado acaba por decidir por nós, como acontece em alguns países a respeito das uniões de facto dos jovens: depois de um tempo, o Estado considera-os casados. Em Lisboa existe até uma rotunda chamada “Rotunda do Relógio”. Enquanto permanecemos indecisos, o tempo passa e algumas oportunidades não aparecem segunda vez na vida.

"I want to keep all my options open"– Costumava eu ouvir dizer aos jovens nos Estados Unidos e no Canadá. Durante a infância e a primeira juventude, de facto, tudo está em aberto. Manter todas as opções em aberto seria como ser uma estátua no centro de um cruzamento ou andar à roda numa rotunda, como um burro à nora. Seria estar vivo sem viver e morrer sem nunca ter vivido.

Obediência é fidelidade ao nosso compromisso
Como devemos obediência à nossa natureza fisiológica, devemos obediência também à nossa natureza sobrenatural, que é nossa a vocação ou a nossa opção fundamental, como fez Jesus. Todo o nosso tempo e energias devem ser dedicados à vocação que escolhemos.

Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não é apto para o Reino de Deus (Lucas 9, 62). Obediência é sermos fiéis aos compromissos assumidos, ao que Deus nos chamou a fazer, àquilo a que decidimos dedicar as nossas vidas. O amor leva ao compromisso matrimonial, mas depois, é este compromisso que guarda e nutre o amor.

A alternativa à obediência como fidelidade ao compromisso que escolhemos livremente, e que consta do cultivo de um valor ou causa humana orientada para o bem comum, seria não escolher, mantendo todas as opções abertas, acampar num cruzamento, não investindo nem comprometendo o nosso tempo e energias num projeto, como fez o servo néscio, na parábola dos talentos, que escondeu o talento recebido.

É certo que seríamos livres, mas um dia, perto do fim das nossas vidas ao olhar para trás, ficaríamos com a impressão de nunca ter vivido, pois não teríamos escrito nenhuma história e teríamos gasto o tempo e as energias, em futilidades e em mantermo-nos vivos.

Mais que sobreviver, a vida humana é implicar, comprometer o nosso tempo e energia num projeto de utilidade social. O que é bom para a comunidade é bom para nós. Quando não somos úteis aos outros somos inúteis até para nós mesmos; a nossa vida só será significativa para nós se for significativa para os outros.

Conclusão: Voto de pobreza é o “ter” ao serviço do “ser”; voto de castidade é a necessidade de amar e ser amado ao serviço da fraternidade universal; voto de obediência é a vontade pessoal ao serviço do bem comum.

Pe. Jorge Amaro, IMC







 

1 de novembro de 2021

3 Igrejas uma religião: Católica - Ortodoxa(S) - Protestante(S)

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Muitas são as razões pelas quais a Igreja que Cristo fundou se dividiu em três confissões diferentes. Há razões históricas, políticas, culturais e até geográficas. Na Europa, onde todas elas nasceram, podemos distribuir estas diferentes confissões segundo os quatro pontos cardeais. O Norte da Europa é protestante, o Sul é católico; o Oriente é ortodoxo, o Ocidente é católico. O parâmetro continua a ser verdadeiro no continente americano. O Norte é tradicionalmente protestante, tal como os Estados Unidos e Canadá, à exceção do Quebeque, o Sul é católico, desde o México até à Terra de Fogo.

No título deste texto coloco a Igreja católica no singular, a ortodoxa e protestante no plural, para sublinhar o facto de que não existe uma só Igreja ortodoxa ou protestante, mas muitas. No caso das ortodoxas, onde existem, é uma por cada país com muito pouca comunhão entre elas, se acaso existir alguma.

A palavra ortodoxa não deixa de ser um anacronismo que, quando surgiu, queria significar que era verdadeira; se tivesse permanecido unida, ou seja, se só tivéssemos uma Igreja ortodoxa, poderia ainda usar o nome, mas como existem várias, nenhuma delas pode dizer que é a verdadeira, pois uma das caraterísticas da verdade é ser singular.

No caso das protestantes, faz sentido que sejam muitas pois muitos podem ser os protestos; algumas das de tradição anglicana seguem a linha nacionalista; quanto às restantes, são muitas em cada país, bem como as seitas derivadas destas. Não existe qualquer tipo de comunhão entre as Igrejas e seitas protestantes; a única coisa que têm em comum é o velado “ódio” pela Igreja católica.

Em contraposição com a pluralidade das Igrejas ortodoxas e protestantes, a Igreja católica é singular: tem-se mantido como uma só ao longo do tempo e do espaço cultural e geográfico. Existe apenas um catolicismo que se mantém idêntico e inalterável, fiel a si mesmo, em todos os tempos, em todos os lugares e espaços geográficos e culturais, em todas as línguas, povos e nações.

Embora designe hoje uma Igreja que existe em contraposição com as ortodoxas e as protestantes, o termo “católica” não nasceu do confronto com as outras confissões cristãs. Antes da divisão, a Igreja já se chamava católica.

Onde o bispo está presente, aí está também a Igreja católica (Carta aos cristãos de Esmirna 8, 2, AD 150)

Portanto, a Igreja não se fez chamar católica para se diferenciar das Igrejas protestantes e ortodoxas. A designação “católica” foi atribuída à Igreja no ano 150 pelo Bispo Santo Inácio de Antioquia, devido à sua vocação de universalidade. Assim, ainda mal tinha começado o século II, numa época em que ainda não existiam divisões, já o nome da Igreja católica estava em uso, para designar o nome da única Igreja que existia naquele tempo, a que Cristo tinha fundado.

O nome vulgarizou-se depressa por corresponder à verdade. O termo católico significa universal, e quando era empregado naqueles primeiros tempos por Santo Inácio de Antioquia e S. Policarpo de Esmirna, referia-se à Igreja que já estava presente em toda a parte.

O termo “católica”, além de significar que era universal e internacional, significava, já naquele tempo, que era para todos e não para uma etnia, uma casta ou elite de pessoas especialmente iniciadas, como acontecia por exemplo com o judaísmo.

Católica porque possui a plenitude dos meios de salvação, destinada a ser universal no tempo e no espaço, tal como o seu fundador, Cristo, nos prometeu: “(…) sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos…” (Mateus 28, 20).

Antes de descrevermos a história da cisão e identidade de cada uma das confissões, convém dizer uma palavra sobre a génese e identidade do Cristianismo como religião entre outras religiões, em especial relativamente à que historicamente se lhe contrapôs, a religião muçulmana e, ainda antes disto, uma palavra sobre a noção de religião e para que serve.

Para que serve a religião?
Há cada vez menos pessoas religiosas. Será que a religião não serve para nada? Aparentemente, não tem uma utilidade prática no dia a dia do homem moderno atual. Porém, as estatísticas revelam que as pessoas crentes e com alguma prática religiosa, são em geral mais felizes e estão animicamente melhor preparadas para o infortúnio.

A religião é uma chamada à autotranscendência
Os antigos à noite olhavam para as estrelas e isso elevava o seu pensamento para além dos afazeres e preocupações do dia-a-dia; um olhar mais além de si mesmos e do mundo, para a transcendência, levava naturalmente a uma maior autotranscendência, o que fazia com que os homens fossem mais espirituais e menos materialistas.

Esta autotranscendência incluía uma metanoia, uma mudança, uma conversão, o ver a vida como progresso espiritual e não só material. Para muitos que vivem na pura mundanidade, o progresso é ser cada vez mais ricos. Para o homem religioso, o progresso é ser cada vez melhor, mais humano mais generoso, conquistar terreno aos defeitos, transformando-os em virtudes à luz do evangelho.

Desafortunadamente, nestes tempos modernos, os homens olham à noite para a televisão em vez de olharem para as estrelas. Esta, nas horas de maior audiência, o chamado horário nobre, apresenta os programas menos nobres. Olhar para a TV nestes tempos tem o efeito contrário do de olhar para as estrelas, porque nos imiscui mais e mais no materialismo consumista.

Ciência versus religião
Os que vivem instalados na pura mundanidade, argumentam que a religião, como teoria geral da vida e do universo, explica cada vez menos, ao passo que a ciência explica cada vez mais. Muitos até fizeram da ciência a nova religião, na fé de que ela explicará um dia tudo e erradicará a religião por completo.

Tal dia nunca acontecerá. O mistério não só envolve a identidade de Deus, mas também a do Homem, do Universo e de tudo o que nele está contido. No campo de cada ciência, o que sabemos continua a ser bem pouco do que falta saber. Não sabemos tudo acerca da biologia, da astronomia, da física, da mineralogia, ou de qualquer outra ciência positiva ou humana. Acredito que, por mais que saibamos, nunca saberemos tudo. Só Deus sabe tudo acerca de tudo. 


A ciência de facto explica muitas coisas, mas não explica o mais importante: diz-nos que, o mundo começou com um “Big Bang” mas não nos diz quem provocou essa grande explosão, ou o que havia antes dela; diz-nos que, desde essa grande explosão, o mundo continua em expansão e vai expandir-se até gastar toda a sua energia e acabar, mas não nos diz o que há para além do fim do mundo. Por fim, acima de tudo, não nos diz que sentido tem a vida, para que existimos, ou por que existimos entre o “Big Bang” e o fim do mundo.

Técnica versus espiritualidade e ética
A ciência é a teoria geral de como as coisas funcionam, a tecnologia é a sua aplicação prática em máquinas, eletrodomésticos e outras aplicações que fazem com que a vida humana no plano material seja mais fácil, confortável e aprazível.

Tal como a ciência, a religião é também a teoria geral que explica o porquê das coisas, a espiritualidade é a sua aplicação prática em técnicas de meditação e oração, exercícios psicológicos de autoconsciência, rituais, liturgias, sacramentos que contribuem para o bem espiritual da pessoa como indivíduo. A ética visa o bem-estar da mesma pessoa como ser social e parte integrante de uma comunidade.

A ciência diz-nos o como, a técnica o para quê; só a religião nos diz o porquê e só a espiritualidade nos faz mais humanos e nos descobre a felicidade, pois esta é feita mais de alegrias que de prazeres físicos.

O Cristianismo como plenitude da verdade
Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por meio de quem fez o mundo. Hebreus 1, 1-2

Está hoje muito disseminada a ideia de que todas as religiões são iguais e valem o mesmo; para os não crentes todas são más; para os crentes todas são boas e levam à salvação; a palavra de ordem é que cada um escolha a que mais lhe convém.

É certo que todas as religiões adoram o mesmo Deus e visam humanizar o Homem. Por isso, a Igreja que já não se apresenta ao mundo como única tábua de salvação e reconhece em todas as religiões “semina verbum” pedaços fragmentados de verdade. Há, portanto, salvação sem Igreja, mas não pode haver salvação sem Cristo porque Ele, sendo Deus feito homem, é a verdade plena e, portanto, válida para todo o tempo e lugar.

À semelhança dos profetas do Antigo Testamento, os fundadores de todas as religiões, foram descortinadores da vontade de Deus e dos anseios do povo num determinado momento da sua história, liderando-o pelo caminho certo.

Cristo, mais que um profeta, ou seja, o Homem certo para um momento concreto, é o Homem certo para todo o tempo e lugar. Porque Ele, fundamentalmente, não veio fundar uma nova religião, mas sim ensinar o homem a ser homem.

Se, como observadores imparciais, compararmos as narrativas das distintas religiões, não podemos deixar de concordar que o Novo Testamento da Bíblia é a narrativa mais bonita, mais profunda e mais plena de humanidade de todos os tempos. Quer o mundo agnóstico reconheça ou não, o Evangelho é a singular narrativa do dever ser do ser humano. É o imperativo moral que melhor se adapta à natureza humana. Não existe em nenhuma outra narrativa religiosa mais humanidade que aquela que existe no Evangelho. O Evangelho contém o paradigma, o padrão da humanidade.

Como Cristo não é um profeta mais, em relação às outras religiões, o cristianismo representa um salto qualitativo e, desta forma, todas as religiões são para o cristianismo o que o Antigo Testamento da Bíblia é para o Novo Testamento.

Como Cristo, Deus feito homem, encarnou em vida o modelo mais perfeito de humanidade, Ele é a referência do ser humano; todo o que busca e se esforça por ser um homem autêntico, seja qual for o seu credo ou a sua religião, sem ter que professar a fé cristã, é com Cristo que tem de se comparar e com mais ninguém; é com Cristo que se tem de medir pois ele é o metro padrão, o paradigma o modelo, pois em ninguém mais se encontra tanta humanidade; o único caminho, verdade e vida.

Cristianismo e Islão
Tomemos como exemplo o Islão que é a religião com mais seguidores depois da cristã e com a qual chegou a vias de facto quando se viu atacado na Europa e nos lugares santos cristãos. Do ponto de vista do cristianismo, o Islão enquanto religião abraâmica, é uma versão do judaísmo ao trocar o messianismo hebraico por um último profeta, Maomé, que já veio. Há inconsistências na religião muçulmana que a faz adversa à razão; quero assinalar apenas três:

O último profeta - Se a humanidade viver mais 10 000 ou 20 000 anos, que sentido faz que o último tenha vindo no ano 524? Mais mudanças sofreu o mundo e a humanidade desde o ano 524 que em todos os milhões de anos anteriores; por que motivo então anteriormente os profetas se sucediam uns aos outros com frequência e depois do ano 524 já não são precisos mais?

No caso do Cristianismo, mesmo que a humanidade viva até ao ano 20 000, faz sentido que a revelação tenha acontecido no ano zero. Como explica o autor da carta aos Hebreus, no texto acima citado, o enviado não é, quantitativamente mais um profeta, mas sim qualitativamente o próprio Deus que vem viver entre nós.

Há aqui um salto qualitativo. Os profetas trazem mensagens para um tempo, a palavra de Deus é eterna para todos os tempos e lugares, porque Deus não precisa de falar duas vezes. Por outro lado, Cristo não é só uma palavra proferida, é uma palavra vivida e só se vive uma vez. Deus só pode encarnar uma vez, profetas houve muitos antes de Cristo e muitos tem havido e haverá depois d’Ele.

Maria, mãe e virgem - Muitos muçulmanos podem convenientemente querer esquecer que quando Maomé voltou para Meca, deu ordens para que todas as estátuas de ídolos fossem destruídas, mas ele mesmo correu para abraçar e proteger com o próprio corpo a estátua da Virgem Maria com o seu filho Jesus ao colo. O Islão atual, para marcar as diferenças com o cristianismo, ignora estes factos, mas o certo é que, até para a fé muçulmana, é o profeta Isa, Jesus, o filho da Virgem Maria, que vai voltar no último dia para julgar os vivos e os mortos.

Se para a fé muçulmana, como para nós, Maria, a mãe de Jesus é virgem, quem é o pai de Jesus? É óbvio que não pode ser José, o carpinteiro, pois se é ele, Maria não seria virgem. Por outro lado, se não é ele o pai, a Conceção de Jesus não pode ter sido natural e o pai não pode ter sido humano; se não é humano, então tem de ser obra de Deus e se é obra de Deus então Deus tem um Filho e não é como o judaísmo o concebe, um Deus solitário, mas sim como o concebe o cristianismo e como nos revelou Jesus Cristo, um Deus de amor, família, comunidade.

O monoteísmo absoluto – O Islão herdou o monoteísmo simples dos hebreus. Por isso, tanto judeus como muçulmanos, não têm forma de fundamentar teologicamente que o homem é feito à imagem e semelhança de Deus. Se Deus é amor e o amor que não sai fora de si mesmo é egocentrismo, Deus é mais que um, Deus é uma família – Pai, Filho e Espírito Santo, que em si mesmo aponta para a natureza da família humana: pai, mãe e filho(a).

Deus é uno e trino, tal como uma família humana está chamada a ser uma unidade de três pessoas, onde a existência de uma só não é possível sem a existência das outras duas; um homem não é pai sem ter uma mulher e um filho(a); uma mulher não é mãe sem ter um filho(a) e um marido; e um filho(a) não existe por si mesmo sem ter um pai e uma mãe.

Como Cristo é o modelo para a vida humana individual, a Santíssima Trindade é o modelo para a vida humana social: um modelo de paz, harmonia e amor. O judaísmo e Islão carecem de modelos ou pontos de referência teológicos para a vida em família e em sociedade, concebendo a Deus como um grande solitário.

Génese e essência do cristianismo
O cristianismo como religião tem a sua origem no ministério de Jesus de Nazaré, no primeiro século, nas províncias romanas da Galileia e da Judeia. Jesus foi visto pelos seus contemporâneos como um profeta poderoso em palavras e em obras (Lucas 24, 19); profeta porque era considerado com vindo de parte de Deus, em palavras porque era um grande orador, um rabino que por todos era tratado por mestre, em obras porque era um famoso taumaturgo que restaurou a saúde a muita gente que sofria de toda a classe de enfermidades físicas, psicológicas e morais.

No plano religioso – Jesus com a frase tantas vezes repetida, “Ouvistes o que foi dito aos antigos na lei de Moisés… mas eu digo-vos…” (Mateus 5, 21-48) Jesus contrapôs-se a Moisés, apresentando-se como o novo legislador com uma lei moralmente superior à anterior.

Substituiu os sacrifícios no templo como meio de obter de Deus o perdão dos pecados, por uma simples declaração, “os teus pecados são-te perdoados”, (Lucas 7 48). E provou em frente de todos que tinha o poder de perdoar os pecados (Mateus 9, 5).

Também afirmou que Ele e Deus Pai são um, (João 10, 30) que Ele é o representante de Deus na terra, quem o vê a Ele vê o Pai (João 14, 9). Ele é o único intercessor entre Deus e os homens e que ninguém vai ao Pai senão por Ele (João 14, 6). Assim se conclui que não há salvação fora de Cristo.

No plano escatológico – Jesus apresenta-se como filho de David, o messias que estava para vir e que os judeus esperavam. Porém, Ele é muito mais um Messias universalista à maneira de Isaías e não nacionalista como Elias, que não só reúne todas as tribos de Israel num Reino Davídico, como reúne todos os povos num só banquete, como sonhava Isaías 25, 6.

No plano individual - Jesus apresentou-se aos seus contemporâneos como paradigma de humanidade, como o único Caminho, Verdade e Vida (João 14, 6). Jesus é uma referência de humanidade, Ele é o melhor conhecedor da natureza humana e o seu caminho, a sua verdade, a sua maneira de viver a vida são os únicos que levam à felicidade e à autorrealização de todas as potencialidades que existem em nós. Não existe, no entender de Jesus, uma alternativa igualmente válida a si mesmo. Como Ele mesmo diz, “Quem não recolhe comigo dispersa” (Mateus 12, 30).

No plano social – Jesus apresenta uma alternativa a esta sociedade: o Reino de Deus. E disse que este já está no meio de nós com a sua vinda; prova disso são as obras que realiza (Mateus 12, 28). Definido na oração que Jesus ensinou como o lugar onde a vontade de Deus se faz na terra como se faz no céu, o Reino de Deus é uma sociedade onde reina a justiça, pois não há pobres nem ricos, e a paz, pois ao serem amados os inimigos tanto como os amigos, não há razão para violência nem agressividade.

Excetuando os seus discípulos, Jesus encontrou uma forte oposição, sobretudo por parte dos líderes religiosos de Israel. Estes encarregaram-se de aliciar o povo e enganar as autoridades romanas para que Jesus fosse condenado como um agitador político, o que aconteceu por volta do ano 30-33 AD.

Se depois da sua morte nada tivesse acontecido, o seu nome ficaria inscrito tanto na lista de profetas, como na dos falsos messias e agitadores políticos contrários à colonização de Roma. Tal não aconteceu: os seus discípulos testemunharam que O viram vivo depois da sua morte. O seu testemunho era tão veemente que estavam dispostos a selá-lo com a própria morte como o mestre.

Como base na Ressurreição de Jesus, os apóstolos começaram um longo trabalho de reinterpretação das escrituras, do Antigo Testamento, assim como de toda a vida, palavras e obras do mestre, tal como Ele próprio tinha feito com os discípulos de Emaús. Parte desta reinterpretação já se encontra nos evangelhos sobretudo nos mais tardios. A outra é reflexão da Igreja sobre a identidade de Jesus de Nazaré, o que levou 5 séculos e vários concílios a ser definida.

A Igreja, ou o cristianismo nos primeiros séculos da sua existência
Antes do Concílio de Niceia, à era apostólica seguiu-se a era dos padres da Igreja: Inácio de Antioquia, Policarpo, Justino, Ireneu, Tertuliano, Clemente de Alexandria e Orígenes, helenistas cultos que trataram de divisar a verdadeira natureza de Jesus, assim como do mistério da Santíssima Trindade.

Como é natural, “cada cabeça, sua sentença”, surgiram várias teorias sobre estes dois temas, a mais importante das quais foi o Arianismo que negava a divindade de Jesus. Esta heresia foi condenada pelo primeiro Concílio de Niceia (325) e pelo primeiro de Constantinopla (381) e assim se produziu o credo de Niceia. No ano 380, com o Édito de Tessalónica, o cristianismo trinitário transformou-se na religião oficial do império romano.

Quando a identidade de Jesus já estava mais ou menos clara, ao buscar-se a clarificação da identidade de Maria, sua mãe, reabriu-se o tema da identidade de Jesus outra vez. Antes do Concílio de Éfeso, alguns já afirmavam que Maria era mãe de Deus; porém, Nestório, o patriarca de Constantinopla achava que Maria só podia ser mãe da parte humana de Jesus.

Convocou-se o Concílio de Éfeso que define Maria como mãe do todo e indivisível Jesus nas suas duas naturezas; Nestório foi apelidado de herege e deixou a Igreja. Porém, pelo lugar que ocupava, muitas igrejas do Oriente separaram-se de Roma.

Depois da morte de Cirilo de Alexandria, o forte oponente de Nestório que entendia que as duas naturezas de Cristo não estavam unidas na mesma pessoa, surgiu um monge chamado Eutíquio que ao combater o nestorianismo nas suas fileiras, acabou por afirmar uma doutrina contrária ao arianismo, o docetismo. Segunda esta corrente, se pelo arianismo Cristo não possuía natureza divina, no docetismo não possuía natureza humana: era humano só na aparência.

Foi convocado o Concílio de Calcedónia, no ano 451 para dirimir a questão e este definiu mais uma vez as duas naturezas humana e divina unidas na mesma pessoa de Jesus, pelo que a Igreja de Alexandria, que se transformou na Igreja Copta do Egito, Etiópia e Eritreia se separou do resto da Igreja.

Por fim, em julho de 1054 dá-se o grande cisma da Igreja coincidente com a divisão do império romano entre o oriente, com sede em Constantinopla, e o ocidente, com sede em Roma. A última gota nesta polémica deu-se quando, em 1053, as Igrejas gregas do sul da Itália foram obrigadas a latinizar-se. Em retaliação, as Igrejas latinas de Constantinopla foram fechadas. Outras disputas surgiram, como a celebração da eucaristia com pão levedado ou não levedado, e o primado do Papa sobre todas as Igrejas.

IGREJAS ORTODOXAS
A Igreja Ortodoxa é considerada a herdeira de todas as comunidades cristãs na metade oriental do Mediterrâneo. Posteriormente, foi-se espalhando por toda a Europa oriental graças ao prestígio do império bizantino e ao trabalho dos missionários.

Hoje há cerca de 300 milhões de cristãos ortodoxos membros de 14 Igrejas nacionais autocéfalas. A Igreja ortodoxa inclui Igrejas ortodoxas da Rússia, Roménia, Grécia, Sérvia, Bulgária, Bielorrússia, Moldávia, Geórgia, Macedónia e Chipre, entre outras. Vale a pena referir que, para a maioria dos cristãos, os ortodoxos residem na Europa oriental, na Rússia, no Médio Oriente e nos Balcãs.

As primeiras dioceses ou patriarcados da Igreja
O cristianismo difundiu-se rapidamente por todo o império romano, graças à facilidade de viajar nas estradas romanas e à Pax Romana que o império estabeleceu e garantiu. Como os primeiros cristãos eram judeus, fora de Israel, as primeiras comunidades cristãs também se formaram onde havia muitos judeus.

Até o próprio Paulo nas suas viagens vai onde há judeus e prega nas suas sinagogas. Estes primeiros núcleos de cristãos foram mais tarde chamados de dioceses e, ainda mais posteriormente, patriarcados. Por serem cinco, estes patriarcados ou dioceses foram também apelidados de pentarquia. Por ordem de importância e estrato no mundo antigo são estas: Roma, Alexandria, Antioquia, Constantinopla, Jerusalém.

Roma – A importância desta cidade no mundo antigo advém primeiro do facto de ser a capital do império romano. No seio da Igreja, era a sede de Pedro e Paulo, pois foi ali que foram martirizados e sepultados. Por estas razões, no universo cristão antigo, antes de qualquer cisma, Roma era considerada pelas outras dioceses ou patriarcados como “primus inter pares”. Convém dizer que nos primeiros séculos da Igreja não existia a ideia do primado de Pedro, no sentido de ter um poder jurídico e executivo sobre as demais Igrejas.

O poder supremo da Igreja não era o sucessor de Pedro, mas sim os concílios ecuménicos que se iam realizando. Do concílio de Constantinopla, no ano 381, surge a ideia de Pentarquia, as cinco sedes mais importantes do cristianismo; nesta lista, Roma aparece em primeiro lugar, sendo-lhe reconhecida a tarefa de ser o centro de comunhão entre as igrejas.  

Alexandria – Juntamente com Roma e Antioquia é uma das sedes mais importantes do cristianismo antigo. Corresponde hoje à Igreja Copta que nasceu do cisma depois do concílio de Calcedónia. Segundo a tradição, foi fundada no ano 42 pelo evangelista S. Marcos. Até ao cisma posterior ao concílio de Calcedónia, era a diocese mais importante a seguir a Roma.

Antioquia – Era a quarta cidade do império romano, a capital do oriente. Foi também provavelmente a primeira comunidade cristã fora de Israel. Aqui nasceu o nome de Igreja católica e aqui os seguidores de Cristo foram pela primeira vez chamados de cristãos. A autoridade eclesiástica desta diocese estendia-se à Cilícia, Mesopotâmia, Síria, Palestina e Chipre, Palestina e Arábia. Pensa-se que foi em Antioquia que nasceu o evangelho de S. Mateus.

Constantinopla – É o quarto patriarcado por ordem de importância no mundo antigo; o patriarca era eleito pelo patriarca de Antioquia. O poder de Constantinopla cresceu depois de Constantino designar aquela cidade como a capital do império do Oriente. Assim, enquanto os outros patriarcados do Oriente foram definhando pelo assolamento dos muçulmanos, Constantinopla cresceu enquanto durou o império de Bizâncio.

Jerusalém – Nascida diretamente da sala de cima onde tinha sido celebrada a primeira Eucaristia, Jerusalém é certamente a primeira comunidade cristã. Teve como líder Tiago, o Menor, irmão do Senhor. Dali partiram os apóstolos para levar a boa nova a outras partes. E ali voltaram para celebrar o primeiro Concílio da Igreja quando ainda eram vivos os apóstolos. Depois aconteceu a revolta dos judeus e a destruição de Jerusalém pelas legiões de Tito. Jerusalém como patriarcado nasceu apenas depois do Concílio de Calcedónia, no ano 451. Jerusalém é a primeira comunidade cristã, mas não o primeiro patriarcado.

Separação lenta e progressiva
A separação da Igreja oriental e ocidental em 1054 foi o sancionamento de uma separação que já existia e que ia crescendo com a passagem dos séculos. Vejamos alguns dos fatores, culturais, políticos e teológicos que foram as causas remotas da separação da igreja oriental da ocidental.

Fatores culturais – A língua é a alma de uma cultura; no oriente mais culto, falava-se o grego; todo o Novo Testamento foi originalmente escrito em grego. No ocidente mais ignorante, falava-se o latim, a língua-mãe dos romanos.

Fatores políticos – A transferência da capital do império da cidade de Roma para Constantinopla, no século IV.

Fatores teológicos – O ocidente modificou o credo de Niceia, dizendo que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho, não só do Pai como dizia originalmente o credo de Niceia. Roma acusa os ortodoxos de serem monofisistas, tanto arianos como docetistas.

Os Patriarcados ortodoxos
A Igreja ortodoxa, está dividida em patriarcados entre os quais há igualdade. O patriarcado de Constantinopla, que Bartolomeu ocupa atualmente, é considerado "primus inter pares", o primeiro entre iguais. Por razões históricas, Bartolomeu tem uma certa preeminência sobre todas as igrejas ortodoxas, mas não tem jurisdição sobre elas. Além disso, o seu patriarcado, sediado em Istambul e com cerca de 10 000 fiéis, não tem o peso do de Moscovo que, com Kiril ao leme, conta com cerca de 120 dos 300 milhões de crentes ortodoxos.

Depois destes que são os mais importantes, estão os históricos de Antioquia e Alexandria e tantos outros, como dissemos são 14 as igrejas ortodoxas e cada uma delas tem um patriarca à cabeça. O termo patriarca é usado nas igrejas orientais, mas nem todos os patriarcas são ortodoxos. Há alguns patriarcas latinos no oriente e até no ocidente, como o de Lisboa e o de Veneza.

Os últimos esforços de ecumenismo
Ao sair à varanda da Praça de São Pedro, o Papa recém-eleito em 13 de março de 2013, Francisco, simplesmente se apresentou como "Bispo de Roma". Isto agradou aos ortodoxos que entendem a Igreja como um conjunto de dioceses autónomas, não centralizadas em Roma. Por isso, pela primeira vez na História, o Patriarca de Constantinopla participou na investidura de Francisco como Papa.

O facto não passou desapercebido em Moscovo pelo que, em novembro de 2014, o Papa estendeu a mão a Kiril: "Irei onde quiser, ligue-me e eu vou”. A 12 de fevereiro de 2016, o Papa e o patriarca da Igreja ortodoxa russa encontram-se pela primeira vez em quase mil anos.

No mundo globalizado e em forte intercomunicação, as diferenças culturais e linguísticas já não são importantes; as teológicas ainda podem ser um pouco, mas, com as Igrejas ortodoxas, é muito mais o que nos une que o que nos divide; os diferentes ritos e formas de celebrar a eucaristia também não são um problema pois há católicos de rito bizantino.

O grande problema é o primado de Pedro que, de alguma forma, a Igreja ortodoxa aceita e não pode negar, como querido por Jesus. Na aplicação prática deste primado que não foi especificada por Jesus, reside o problema.

O problema de autoridade existe já no seio das Igrejas ortodoxas, pois não têm uma pessoa que fale pela ortodoxia. A divisão entre as diferentes Igrejas ortodoxas talvez seja o maior problema da união com Roma. Levaram 55 anos a convocar um sínodo (a que na Igreja católica se chama concílio) que finalmente se celebrou na ilha de Creta em junho de 2016. Esta deveria ter sido a maior reunião de líderes ortodoxos desde o ano 787 AD e, no entanto, quatro denominações ortodoxas, entre elas o Patriarcado de Moscovo que tem o maior número em fiéis, não participaram. 


IGREJA CATÓLICA
Depois da partição em duas da Igreja de Cristo, a Igreja católica dedicou-se a evangelizar o ocidente, a Ortodoxa o Oriente, a parte oriental da Europa e a Rússia. Esta última nunca se aventurou no resto da Ásia, Mongólia, China e sul da Ásia, Índia. Todos estes territórios foram mais tarde evangelizados pela Igreja Católica ocidental por via marítima, assim como todo o continente americano e africano. Mais evangelizadora ou mais proselitista, a Igreja católica cresceu até aos atuais 1 200 milhares de milhões, o que, de alguma forma, dificulta o ecumenismo com os ortodoxos.

Temos vindo a falar na Igreja católica no confronto com as ortodoxas e continuaremos a falar dela no confronto com as Igrejas protestantes. Por isso, não me vou demorar muito na descrição desta Igreja que, mesmo na mais radical ortodoxia, goza de um certo primado honorífico, embora não legislativo nem executivo.

Do ponto de vista dos católicos, os ortodoxos abandonaram a Igreja; do ponto de vista dos ortodoxos, foram os católicos que a abandonaram. Esta ideia pode ser válida no caso da cisão protestante, mas não no caso da cisão com a ortodoxia. Como historicamente o Papa Leão IX excomungou o patriarca ortodoxo Miguel Cerulário e este excomungou o Papa, o que se deu foi uma partição em duas da Igreja que Cristo fundou, e não uma que saiu da outra.

A única questão relevante para este artigo é a que divide não só a Igreja católica da ortodoxa, mas também da protestante: o primado de Pedro, o seu significado histórico, a interpretação e aplicação presente e futura do cristianismo como religião universal.

O primado de Pedro nos evangelhos e nos Atos dos Apóstolos
Pretender negar a primazia de Pedro sobre os demais apóstolos é colocar de lado um elevado número de passagens dos evangelhos, dos Atos dos Apóstolos e até das cartas paulinas. As negações dos teólogos, tanto ortodoxos como protestantes, em relação ao primado de Pedro tal como nos é apresentado na Palavra de Deus, não pode não ser ideológica, ou seja, não pode pretender justificar a autocefalia ortodoxa e a acefalia protestante.

Nos Evangelhos, Jesus destaca a Pedro e confere-lhe autoridade
•    É um dos primeiros a ser chamado por Jesus: Marcos 1, 16; João 1, 40-42
•    É sempre o primeiro da lista dos 12: Mateus 10, 2
•    Faz parte do círculo íntimo de Jesus: Marcos 5, 37; 9, 12; 13, 3; 14, 33
•    Hospeda-se na casa de Pedro: Marcos, 1,29
•    A sogra de Pedro é o único familiar de apóstolo que ele cura: Lucas 4, 38-40
•    Sobe à barca de Pedro e a partir dela prega à multidão no lago: Lucas 5, 1-11
•    Caminha sobre a água, embora a falta de fé quase o tenha afundado: Mateus 14,28
•    Foi ele o primeiro a ver em Jesus o Messias: Mateus 16, 16; Lucas 9, 20
•    Sobre a rocha de Pedro é edificada a Igreja: Mateus 16,18
•    A Pedro foram dadas as chaves do reino: Mateus 16, 19
•    Porta-voz do grupo em muitas ocasiões: Mateus 16,22; 17,24; 18, 21; João
•    Negou a Jesus porque foi o único que o seguiu à distância: Marcos14, 54
•    Jesus diz a Pedro que ampare a fé dos seus irmãos: Lucas 22, 31-62
•    Jesus diz às mulheres que deem a notícia da sua Ressurreição a Pedro: Marcos 16,7
•    É um dos que corre ao sepulcro: Lucas 24, 12
•    Jesus aparece a Pedro depois da Ressurreição: Lucas 24, 34
•    Protagonista da pesca milagrosa: João 21, 11
•    Jesus pergunta-lhe se O ama e ordena-lhe que apascente as suas ovelhas: João 21, 15-19

Nos Atos dos Apóstolos, Pedro atua segundo a autoridade que lhe foi conferida por Jesus
•    Pedro fala aos 11 instando-os a elegerem o substituto de Judas: Atos 1,15
•    Prega ao povo como Jesus no dia de Pentecostes e outras ocasiões: Atos 2, 1-36; 3, 12-25; 4,8
•    Cura como Jesus: 3, 1-10
•    Porta-voz dos apóstolos diante do Sinédrio: Atos 4, 19
•    Repreende Ananias, Safira e Simão, o mago: Atos 5, 3-9; 8, 20
•    Recebe do Espírito Santo a inspiração para evangelizar os gentios: Atos 10
•    Preside ao Concílio de Jerusalém onde faz valer a sua inspiração sem a impor: Atos 15, 7

S. Paulo, o maior dos apóstolos, reconhece a autoridade de Pedro
•    Paulo vai a Jerusalém para conhecer a Cefas e fica com ele 15 dias: Gálatas 1, 18-19
•    Paulo confronta Pedro precisamente porque reconhece a sua autoridade: Gálatas 2, 11-13
•    Paulo diz que Jesus primeiro apareceu a Pedro depois aos 12: 1 Coríntios 15, 5
•    Paulo diz que Pedro é evangelizador dos circuncisos e dos incircuncisos: Gálatas 2, 7-8

Até onde pode ser aceite pela Igreja Ortodoxa
Porque Pedro viveu e foi mártir em Roma onde repousam os seus restos mortais, a Igreja ortodoxa aceita que o sucessor de Pedro tenha um primado de honra sobre todas as outras igrejas, mas sem poder jurídico ou executivo. A sua incumbência é ser a cabeça visível da Igreja para manter a sua unidade.

Este seria o valor, tanto para católicos como ortodoxos e protestantes, do sucessor de Pedro como centro visível de unidade, representante de Cristo, cabeça do corpo místico de Cristo que é a Igreja. De alguma forma para o mundo civil, o Papa, mais que outro patriarca ou bispo protestante, é quem verdadeiramente representa a religião cristã, é o seu ex libris.

Como poderia ser vivido?
Se quisermos ser fiéis à tradição da Igreja, teremos de concordar com os ortodoxos que defendem que a autoridade máxima da Igreja desde o princípio é o concílio. Os primeiros dogmas da Igreja nasceram nos Concílios e só um concílio, não um Papa, tem o direito de definir um dogma como verdade intemporal da fé. Se assim é, temo que a infalibilidade hoje conferida ao sucessor de Pedro deveria ser transferida para os concílios ecuménicos.

O poder de monarca absoluto da Igreja vai contra a tradição da Igreja e não é conveniente para ortodoxos, protestantes ou católicos. À luz da divisão dos poderes nas democracias ocidentais em Legislativo – Jurídico – Executivo, entendemos que o poder legislativo deveria pertencer exclusivamente aos Concílios Ecuménicos. O Papa ficaria com os outros dois, num âmbito de uma maior colegialidade e autonomia das dioceses.

IGREJAS PROTESTANTES
Uma união de pessoas, um grupo, uma empresa, uma instituição serão sempre uma unidade na diversidade. A diversidade psicológica dos indivíduos ou a diversidade cultural das sociedades é inegável. Apesar do império romano se ter partido em dois, a Igreja permaneceu unida durante séculos; apesar de o Oriente mais culto falar grego e o Ocidente menos culto falar latim, a Igreja permaneceu unida.

Os fatores políticos e culturais nunca são decisivos nas separações e nos cismas. Como não é possível explicar a II Guerra Mundial sem a pessoa de Hitler, nem a revolução bolchevique sem a pessoa de Lenine, não se pode explicar a partição da Igreja entre o Oriente e o Ocidente sem as personalidades de Leão IX que procurou um poder que não lhe pertencia, segundo a tradição da Igreja, e a retaliação do Patriarca de Constantinopla, Miguel Cerulário.

Da mesma forma, o cisma no Ocidente entre o Norte, que se transformou em protestante, e o Sul que permaneceu católico, não se deu nem se daria sem Martinho Lutero. Este era um monge católico que aceitava fundamentalmente toda a doutrina católica, até mesmo os dogmas marianos. As diferenças teológicas não são o móbil do cisma, estas aparecem mais tarde para justificar a existência das novas Igrejas criadas; é o tal narcisismo das pequenas diferenças que muito bem explica Freud psicanaliticamente.

Solus Christus sola fede sola scritura – Não foi seguida nem pelo próprio autor, Lutero. Se considerarmos que a tradição é a vida e reflexão da Igreja ao longo dos tempos, desde a morte e Ressurreição do Senhor, então a tradição não são só os concílios da Igreja, a definição das duas naturezas de Cristo e da natureza trinitária de Deus, que os protestantes aceitam. A mesmíssima Bíblia é filha da tradição, pois não caiu dos céus como acreditam os muçulmanos que o Alcorão caiu, mas surgiu e reflete a vida das comunidades ondes os textos nasceram.

O Antigo Testamento nasce da vida, história e tradição do povo hebreu; o Novo Testamento nasce da vida das primeiras comunidades cristãs. Sem estas, não haveria evangelhos. S. Paulo e os outros apóstolos escrevem a comunidades concretas e, nas suas cartas, respondem aos problemas destas mesmas comunidades.

Como é mais o que nos une, e como o que nos divide é, de alguma forma, circunstancial, e ainda como as razões teológicas que moveram Lutero a dividir a Igreja foram já assimiladas por esta mesma como a justificação pela fé e não pelas obras, não vou fazer nenhum panegírico do que nos divide, pois é mais o que nos une. Quero apenas centrar-me na personalidade de Lutero e compará-la com outro reformista como Francisco de Assis.

Francisco de Assis e Lutero
A reforma de Francisco de Assis tinha como objetivo a santidade, a reforma de Lutero tinha como objetivo a crítica. Henri De Lubac

Francisco e Lutero foram os dois reformadores da Igreja. A reforma de Francisco, devido à sua humildade e paciência para com o Papa e as estruturas corruptas da Igreja, foi aceite; a de Lutero, devido ao seu orgulho e impaciência para com o Papa e as estruturas corruptas da Igreja, foi inicialmente rejeitada, mas o que nela havia de bom foi aceite mais tarde, já no concílio de Trento.
Tanto o Papa Inocêncio III, na época de Francisco, como o Papa Leão X na época de Lutero viviam sumptuosamente rodeados de luxo e corrupção. A humildade de Francisco levou-o a ser paciente e esperar. O Papa rejeitou Francisco e, com desdém, disse-lhe que se fosse deitar com os porcos. Podendo refutar o Papa apelando ao evangelho, e até mesmo puxar dos galões da sua pobreza evangélica em radical contraste com a extravagância da corte papal, Francisco tomou à letra o desdém papal e foi mesmo deitar-se com os porcos.

Francisco não negou a autoridade do Papa como sucessor de Pedro. Pacientemente, seguiu o caminho de Cristo, deixou-se ser incompreendido e caluniado, sabendo que Deus tarde ou cedo o reivindicaria… coisa que Deus sempre faz. Chamado pelo mesmo Papa depois do famoso sonho em que este viu como Francisco sustinha a Igreja que caía em ruínas, apresentou-se sujo e a cheirar mal. Entendeu o Papa que estava perante um Santo que tinha sido obediente até à humilhação e aprovou a sua obra.

Ao contrário de Francisco, Lutero não visitou Roma para a confirmação da sua causa, nem reconheceu a autoridade do Papa como sucessor de Pedro, ou respeitou as estruturas da igreja. De facto, a sua impaciência levou-o a não confiar na providência divina para orientar a Igreja e efetuar as reformas que ele queria, no tempo de Deus e não de acordo com a sua agenda.

Infelizmente, Lutero mostrou-se inflexível. Rejeitou o diálogo e, como o Papa não concordou com ele, rejeitou o papado. No seu orgulho, Lutero não tolerava nenhuma autoridade que não o apoiasse imediatamente e sem questionar. Consequentemente, quando chegou a bula, Lutero queimou-a publicamente e começou a insultar o Papa como sendo o anticristo.

A História mostra que Deus não usa iracundos para conduzir a sua Igreja pelo caminho da paz e retidão. Deus escolhe aqueles que são pequenos, mansos e humildes – pois desses é o Reino dos Céus. Ironia do destino, a Igreja fundada pelo Cordeiro de Deus, manso e humilde de coração, foi por parte do papado, dilacerada por dois leões: Leão IX em 1054, no cisma entre o Oriente e o Ocidente, e Leão X em 1517, entre os protestantes do Norte e os católicos do Sul.

Conclusão: Todo o cristão de boa vontade deseja que a Igreja que Cristo fundou continue unida como nos tempos apostólicos. Decerto que é o que Cristo quer ainda hoje para a sua Igreja. Com a autocefalia ou acefalia das Igrejas ortodoxas, assim como a anarquia das muitas pequenas e divididas Igrejas protestantes, não damos um bom testemunho perante a sociedade civil, nem prestamos um bom serviço ao evangelho.

Não é possível nenhum tipo de unidade sem uma cabeça visível como ponto de referência de todo o cristão. Essa cabeça visível era Pedro nos tempos apostólicos, deve ser o sucessor de Pedro nos nossos tempos. Uma cabeça visível esvaziada de todo o tipo de autoridade, por pequena que seja, é tão insignificante como a rainha de Inglaterra que reina, mas não governa. Nos textos acima citados, vemos que Pedro exercita uma certa autoridade e chega até a repreender Ananias e Safira.

Como houve na História da Igreja pessoas que buscaram a discórdia e a divisão, haja agora pessoas que, reunidas em comissões ecuménicas, possam encontrar a fórmula do primado de Pedro, onde todos os cristãos se revejam, de acordo com a tradição da Igreja.

Pe. Jorge Amaro, IMC