15 de dezembro de 2024

Cosmovisão Integral

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A minha reflexão este ano sobre a cosmovisão, enquanto o esqueleto ou estrutura onde assentam as nossas ideais ou a Magna Carta que rege o nosso pensamento e a nossa vida, foi inspirada na leitura de um livro intitulado “The Powers that be”, do teólogo protestante Walter Wink. O livro não é acerca da cosmovisão, mas sim dos poderes que governam este mundo. Porém, em cinco páginas deste livro, Wink descreve as 5 cosmovisões que têm governado o imaginário dos seres humanos até agora.

São elas a cosmovisão antiga, a espiritualista, a materialista, a teológica e a integral. Entendi que havia mais cosmovisões que as citadas neste livro e também muitas mais para além das que menciono nos textos deste ano. Como se pode observar, três das cosmovisões que Wink menciona fazem parte do meu estudo: a materialista, a espiritualista e a integral, objeto deste texto.

Como dissemos, a cosmovisão materialista é a que governa o mundo da cultura, da política, das artes, da ciência, da alta finança e da universidade. Estes ambientes foram completamente esterilizados de qualquer sentimento, manifestação, pensamento ou símbolo religioso. A cultura ocidental, filha do cristianismo, meteu a mãe na prisão e fez uma “limpeza étnica” de muitos elementos associados ao cristianismo.

Outros elementos, rouba-os sem os citar, como por exemplo os livros de registo dos batismos que a primeira república roubou às Igrejas para começar o registo civil. A outros elementos muda-lhes os nomes; os historiadores em vez de dizer antes ou depois de Cristo dizem antes ou depois da era comum.  

Tão materialista se tornou a sociedade ocidental que é quase desumana, fria, egoísta, ninguém se importa com ninguém; o individualismo e o egoísmo cresceram desmesuradamente; os ateus e agnósticos dizem que têm valores, mas não os vemos em ação em lado nenhum. Neste clima de tanta desumanidade materialista, muitos se refugiam no espiritualismo e, seguindo a lei do pêndulo, aderem a um espiritualismo que nega e demoniza toda a matéria. Constituem pequenas comunidades que são autênticos oásis neste deserto materialista.

A cosmovisão integral é uma cosmovisão que busca reconciliar o homem com a sua natureza. Como já dissemos, entendemos que o homem moderno reprime o sentimento religioso como uma sociedade puritana reprime o sexo. A cosmovisão integral visa também superar os dualismos próprios da cosmovisão espiritualista, buscar a síntese destas teses e antíteses: espírito vs matéria, alma, vs corpo, criacionismo vs evolucionismo, sagrado vs profano, puro vs impuro, etc.

Esta nova mentalidade, esta nova cosmovisão, esta nova ótica e forma de ver as coisas está a surgir das cinzas do materialismo, como uma Fénix renascida. Não é um espiritualismo tosco, ignorante e reacionário que tem a ciência como inimiga, mas a vivência do sentimento religioso à luz da ciência, em diálogo constante com ela. Trata-se de uma fé que se deixa purificar pela ciência de todos os mitos, superstições e irracionalismo, é uma ciência que se deixa guiar e inspirar pela fé, que não tem vergonha dela. Poucos são os que já vivem nesta dimensão, a maioria da população ou é materialista ou espiritualista.

História do materialismo
Da religião à anti-religião, a história do materialismo é a história da evolução, da vivência do sentimento religioso. Tudo começou com uma matéria impregnada de espírito, a respirar espírito por todos os poros: foi a etapa do animismo. À medida que o ser humano ia conhecendo as realidades materiais do mundo à sua volta, ia-lhes roubando a alma.

Ao passar do animismo ao politeísmo, o ser humano roubou a alma a um sem-número de realidades materiais, conhecendo apenas um punhado delas às quais atribuiu o estatuto de deuses, ou seja, de líderes de uma realidade como o tempo, o mar, o amor, a guerra. Por questões de simplificação, concentrou essas realidades numa única divindade, mas não ficou por aí.

Quando, pelas descobertas científicas do século XIX e respetivas aplicações práticas no seculo XX, o ser humano pensou que acabara de descobrir tudo o que havia para descobrir, orgulhoso e cheio de si mesmo como a soberba rã que se encheu de ar para ver se conseguia ser um boi, retirou ao sentimento religioso a carta de cidadania, declarando que afinal não tinha sido Deus a criar o homem à sua imagem e semelhança mas sim o homem que criou Deus à sua imagem e semelhança. Mais tarde, não contente com a sua criação, matou Deus e colocou-se a si mesmo no seu lugar.

Pouco a pouco, o Homem moderno está a dar-se conta de que o sentimento religioso, não é invenção da ignorância nem um a explicação para as coisas que não têm explicação. Que o facto de que por mais que o ser humano conheça, sempre haverá coisas que desconhece, prova que afinal a matéria parece ter certas propriedades comuns com o Espírito.

Alguns intelectuais do nosso tempo, não se definindo como religiosos, chegam a dizer que se Deus não existisse teria de ser inventado. Sim, porque reconhecem que este mundo, tal como está estruturado, pressupõe que a maioria dos seres humanos são crentes. Porque se fosse ao contrário as coisas não se passariam como se passam. Por isso, como disse eu algures, sorte têm os ateus e agnósticos de que a maioria seja crente. De facto, o mundo tal como está estruturado pode sobreviver com uma minoria agnóstica, desde que a maioria, como é o caso, seja crente.

A cosmovisão integral vai supor um devolver o roubado ao seu dono; devolver o Espírito à matéria, pois nem a matéria é tão material como pensam os materialistas, nem o Espírito é tão imaterial e incorpóreo como pensam os espiritualistas. A cosmovisão integral vai supor de alguma maneira o regresso ao animismo, mas não o mesmo animismo desinformado dos homens primitivos ou o nosso de quando somos crianças; será um animismo que colocará o espírito no centro de cada coisa. Hoje sabemos pela ciência que afinal a matéria visível é composta por partículas subatómicas invisíveis e intangíveis.

A física é a alma da ciência
Quando falámos de cosmovisão e ciência dissemos que as descobertas científicas fazem mudar a perspetiva que temos em relação a tudo o que nos rodeia, a forma como nos relacionamos com o meio, a nossa visão da vida; não é o mesmo pensar que a Terra é o centro do Universo que pensar que afinal não é a Terra, mas sim o Sol e, por fim, nem o Sol é o centro do Universo que provavelmente não tem centro. Não é a mesma coisa pensar que a matéria e a energia são duas realidades de natureza diferente que pensar que a matéria é uma forma de energia e a energia é uma forma de matéria, tal como a água existe em três estados físicos diferentes, e nenhum deles é semelhante ao outro, de tal forma que até parecem realidades completamente diferentes.

Todas as descobertas científicas podem provocar uma metanoia, uma conversão, um mudar de ideias, uma cosmovisão ou uma forma nova de ver as coisas. A nossa mente, a nossa fé e a nossa vida têm de se ir adaptando à evolução do conhecimento da realidade que nos envolve e com a qual nos relacionamos. A ciência que pode mexer mais com a nossa cosmovisão é a Física, pois é a que estuda as coisas mais básicas e fundamentais para a nossa vida, como a matéria e o cosmos.

É neste sentido que podemos afirmar que a cosmovisão materialista está fora de moda porque não acompanhou as últimas descobertas científicas no campo da física, sobretudo da física quântica. A cosmovisão materialista está certa e faz sentido no contexto da física mecanicista como é a de Newton, onde a realidade funciona com a precisão, cadência, ritmo e previsão de um relógio suíço.

Esta cosmovisão era já em si enganosa pois apresentava um relógio sem relojoeiro. Mas mais que isso, desde Einstein sabemos que a realidade nada tem a ver com a precisão de um relógio, mas se fosse um relógio não seria tão preciso como o suíço, pois seria relativo, ou seja, não marcaria sempre as mesmas horas.

A nova física quântica e a mecânica quântica
A mecânica quântica troca-nos as voltas, modifica-nos os paradigmas, atenta contra a lógica que tem governado a ciência e a nossa vida, pois pulveriza fronteiras que antes nos pareciam intransponíveis e acaba com os dualismos que opunham realidades que antes pensávamos bem diferentes e até contrárias, como a matéria/energia, estático/móvel, visível/invisível, tangível/intangível, previsível/imprevisível, material/espiritual, científico/filosófico.

Matéria/energia – O coração da matéria é intangível como a energia; o coração da matéria, o mundo dos átomos e partículas subatómicas é, de facto, energia.

Os átomos podem ser matéria, na medida em que tentamos pesá-los e medi-los; mas as partículas que os compõem têm cargas elétricas e movimentam-se, ou seja, exibem as propriedades da energia. Podemos concluir que são matéria na sua essência, descritíveis, qualificáveis e quantificáveis, mas que são energia na sua existência, porque exibem uma potência voltaica, reagem, criam ondas.

A matéria é energia em potência, a energia é matéria em potência. A combustão transforma matéria em energia: é o que acontece no centro do sol, onde átomos de hidrogénio se fundem, criando hélio e energia.

A matéria visível e sólida é composta por elementos invisíveis e, quanto mais viajamos ao centro da matéria, menos matéria (massa) e mais espaço vazio encontramos, pelo que a matéria parece reduzir-se a pequenas fibras vibratórias de energia. As partículas subatómicas são de facto manifestações de energia. Por isso, o que parecia tão visível e sólido, reduz-se agora a ondas eletromagnéticas. Assim sendo, podemos concluir que o nosso corpo e tudo o que materialmente existe se reduz a energia vibratória.

A matéria em si não existe, pois é somente o armazém de energia, não é mais que energia condensada, acumulada. Por exemplo, as plantas, por intermédio da fotossíntese, convertem a energia radiante do sol em energia química que é armazenada em moléculas orgânicas, como se uma planta fosse uma bateria, um armazém de energia.

Matéria/espírito – O materialismo não tem razão de ser, pois a matéria é formada por elementos invisíveis, quase espirituais e certamente não podemos compreender a matéria sem conhecer a sua alma. O átomo é a alma da matéria, por isso, não só os seres humanos têm alma, a matéria também a tem. A alma da matéria é tão invisível como a nossa no interior do nosso corpo.

Inerte/vivo – Já não é claro que só haja vida na matéria orgânica; já não existe uma tão grande diferença entre matéria orgânica e inorgânica ou inerte. As partículas subatómicas revelam-nos que a vida não existe só a nível das células, mas também a nível subatómico dos quarks. Claro que se trata de uma forma diferente de vida.

Visível/invisível – “Se a mecânica quântica não te chocou profundamente, é porque ainda não a entendeste. Tudo o que chamamos real é formado por coisas que verdadeiramente não podem entender-se como reais”. Niels Bohr

Rompe-se, também na matéria, a fronteira entre o visível e o invisível. A massa de um átomo é menos de 1% do seu tamanho, o resto é vazio, ou seja, o espaço entre o núcleo e o eletrão. Como acima foi dito, se o núcleo de um átomo fosse do tamanho de uma bola de basquetebol, os eletrões estariam a vários quilómetros de distância do núcleo.

Estático/móvel – A matéria que forma os objetos parece estática, parece parada, mas de facto, é uma ilusão: na realidade, tudo se move. Como se afirmou anteriormente, o eletrão orbita à volta do núcleo do átomo a uma velocidade de 2 200 quilómetros por segundo. A matéria não é, portanto, estática como parece, mas sim dinâmica.

Em mecânica quântica tudo é ilusão: a matéria visível é composta por elementos invisíveis, é aparentemente estática, quando na realidade está em movimento, é aparentemente muito diferente da energia, mas é de facto uma forma de energia.

Puro/Impuro – Nada há de material que faça o homem impuro (Marcos 7, 5). Não declares impuro nada do que Deus criou (Atos 10, 15).

Houve um tempo em que o ato sexual era visto com algo sujo, feio, pecaminoso e impuro; só era visto como um mal menor quando era realizado no contexto do matrimónio com a única finalidade de procriar. Mas, mesmo nesse caso, os casais cristãos eram aconselhados a não desfrutar do prazer do sexo e a abster-se por completo de relações sexuais durante a Quaresma. De resto, era visto como um “remedium concupiscência”, paliativo para a voluptuosidade, não como um ato de amor.

O amor é a alma do ato sexual, este é uma das expressões do amor na sua função de unir as pessoas num só corpo e numa só alma. E, sendo o ato pelo qual os dois serão uma só carne (Marcos 10, 1-12), resultando depois em três, não pode de maneira nenhuma ser um ato impuro a génese de um ser humano fruto do amor unitivo entre dois.

Sagrado/profano – Quando S. Paulo nos diz em 1 Coríntios que somos templo do Espírito Santo, e quando Jesus nos diz que em vez de rezarmos para seremos vistos pelos outros devemos fazê-lo no nosso quarto (Mateus 6, 5), devemos rezar dentro de nós em espírito e verdade, não no monte Gerasim ou no templo de Jerusalém (João 4, 23-54), onde está o profano? Não foi tudo criado por Deus? Se tudo e todos foram criados por Deus, não há nada de profano, tudo é sagrado.

Bem/mal – O amor como necessidade humana (amar e ser amado) não parece, à primeira vista, estar ligado com a moral, mas realmente está. Quando julgamos não amamos, quando amamos não julgamos; o amor universal, sobretudo o amor aos inimigos, supera o pensamento dualista do bem contraposto ao mal, o que nos leva para a eternidade que é Deus que faz chover sobre justos e injustos e ama a todos incondicionalmente. Somos chamados a ser como Ele.

Diz-se também que o amor é cego; que os amantes tendem a não ver os defeitos e deficiências um do outro e que se abstêm naturalmente de se julgar um ao outro. E também parece que quando o amor desaparece só se vêm defeitos e deficiências. Isto leva-nos a concluir que só o amor nos pode livrar de ser hipercríticos uns com os outros, levando-nos de volta ao Jardim do Éden.

Deus/Diabo - Só existe Deus, o diabo não existe, o seu mito foi criado para ilibar a Deus da criação do mal. O mal, ou os males individuais foram criados pelo homem quando usou mal a sua liberdade. A possibilidade de que isto acontecesse, ou seja, a possibilidade de que os homens pudessem pecar, escolher o mal, foi criada por Deus ao fazer o homem livre. Não existe uma alternativa igualmente viável ao bem, a Deus; quem não recolhe comigo, diz Jesus, dispersa, pois não há um diabo com quem possa recolher….

A mecânica quântica prova o poder da fé
Então, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram-lhe em particular: «Porque é que nós não fomos capazes de expulsar o demónio?» Disse-lhes Ele: «Pela vossa pouca fé. Em verdade vos digo: Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: “Muda-te daqui para acolá” e ele há de mudar-se; e nada vos será impossível. Mateus 17, 19-20

Na mecânica determinista clássica, sabendo a posição inicial e o momento (massa e velocidade) de todas as partículas pertencentes a um sistema, podemos calcular as suas interações e prever como elas vão comportar-se.

Tal não acontece em mecânica quântica; o princípio de Heisenberg coloca em evidência que é impossível saber ao mesmo tempo a posição exata que um eletrão ocupa na eletrosfera de um átomo e a velocidade com que anda à volta do núcleo; quanto mais soubermos da sua velocidade, menos saberemos da sua posição e vice-versa.

Segundo Niels Bohr quando se mede uma partícula subatómica, o ato de medição, força a partícula a renunciar a todos os lugares possíveis onde poderia estar e (princípio da incerteza) seleciona a localização onde podes encontrá-la; é o ato de medição que força a partícula a fazer aquela escolha.

Ao contrário de Einstein, Bohr aceitou que a natureza da realidade era inerentemente confusa; Einstein preferia acreditar na certeza das coisas em si e em todo o tempo e não só quando são medidas ou observadas. Bohr chegou a dizer que “gostaria que a lua permanecesse no seu lugar mesmo quando não estou a olhar para ela”. Quando Einstein, já bastante aborrecido, disse que “Deus não jogava aos dados”, Bohr impassivelmente respondeu, “Para de dizer a Deus o que tem de fazer.”

“Considero a consciência como fundamental. Entendo a matéria como sendo um produto derivado da consciência. Não podemos estar por detrás da consciência. Tudo o que falamos, tudo o que consideramos como existente, requer a consciência.” Max Planck (1858-1947) Prémio Nobel, fundador da teoria quântica.

Cosmovisão integral
"Ninguém prega retalho de pano novo em roupa velha; do contrário, o remendo arranca novo pedaço da veste usada e torna-se pior o rasgão." Ninguém põe vinho novo em odres velhos; se o fizer, o vinho os arrebentará e se perderá juntamente com os odres; mas para vinho novo, odres novos. Marcos, 2, 21-22

Quem ainda tem a sua mente formatada nos princípios determinísticos e na precisão da física mecanicista, não pode entender a física e a mecânica quânticas. O seu odre materialista não pode entender uma matéria impregnada de espírito, bizarra, ilógica, criteriosa, mística; o dinamarquês Niels Bohr, um dos criadores da nova ciência, chegou a afirmar certa vez que só não se escandalizou com a Física Quântica quem não a entendeu.

A visão integral da realidade vê tudo como tendo um aspeto exterior e interior. O céu e a terra são vistos assim como os aspetos interno e externo de uma única realidade. O espírito está no centro de cada coisa criada. Esta realidade espiritual interior está indissociavelmente relacionada com uma forma exterior ou manifestação física.

O céu ou o espírito não é para cima e a matéria para baixo, mas dentro. É de certa forma a imanência de Deus que está no centro de tudo. Tudo está em Deus e Deus está em tudo. Isto não é panteísmo que tudo é Deus, mas panenteísmo: tudo está em Deus e Deus está em tudo. Esta visão de mundo é partilhada por religiões nativas americanas, que falam do pai céu e da mãe terra.

A alma ou espírito, tal como o descreve S. João, é também governada pelo mesmo princípio de incerteza que governa o interior da matéria nas partículas subatómicas de que é formada: "O vento sopra onde quer; ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito". João, 3, 8.

A cosmovisão integral reconcilia a ciência com a religião, a matéria com o espírito, o mundo interior com o mundo exterior. O mundo encantado das partículas subatómicas provou ao cientista que afinal não pode apreender tudo com a sua razão e ser o senhor da realidade que pensava que era no tempo da física mecanicista de Newton. A nova física diz ao homem de hoje “cresce e aparece”! Grow up!

Conclusão: os materialistas agnósticos, desfasados da realidade da física quântica de hoje, continuam formatados segundo a física mecanicista de Newton; ao roubar o espírito à matéria, comem um pão que alimenta, mas não sabe a nada. Os espiritualistas, negando a corporeidade da matéria, vivem como almas penadas num mundo que, sendo em si um vale de prazeres e alegrias, se tornou num vale de lágrimas. Ao roubarem a matéria ao espírito, comem um pão que pode até saber bem, mas não alimenta. A cosmovisão integral é como um pão integral, que alimenta e sabe bem; dá saúde ao corpo e alegria à alma.

Pe. Jorge Amaro, IMC


1 de dezembro de 2024

Cosmovisão Espiritualista

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Quando falamos da cosmovisão cristã referimo-nos mais ao contributo do cristianismo para a humanidade e de como esta lhe fica devedora em muitos aspetos na qualidade de religião global. Como tínhamos falado da cosmovisão bíblica, referindo-nos ao povo hebreu e, portanto, ao Antigo Testamento, ao falarmos da cosmovisão cristã, centramo-nos mais no conteúdo da narrativa cristã ou, se quisermos, no judaico-cristianismo. A cosmovisão espiritualista é uma cosmovisão cristã, porém com uma forte influência grega.

Durante o tempo de Cristo nada foi escrito em nenhuma língua; os escritos do Novo Testamento relatam em grego o que aconteceu em hebreu e aramaico. Ou seja, os autores do Novo Testamento ao mesmo tempo que escreviam, traduziam. “Traductor, traditor” diz o sábio provérbio latino que significa o tradutor ´um traidor. O facto histórico que foi Jesus de Nazaré ocorreu num contexto pura e exclusivamente hebreu; no entanto, os que o relataram para o mundo, sabendo que o faziam para comunidades cristãs da diáspora e sabendo que a nova fé tinha pouco futuro em Israel, fizeram-no numa língua estrangeira: em grego.

Da Península Itálica para ocidente, os romanos impuseram a sua língua porque as populações por eles conquistadas eram primitivas e não conheciam a escrita; mas para oriente da Península Itálica prevaleceu o grego, pois era a língua de alma da rica cultura helénica, em muitos pontos superior à romana. Por isso e porque todos os autores do Novo Testamento a começar por S. Paulo sabiam o grego, foi nessa língua que verteram o verbo de Deus feito Homem.

Cosmovisão cristã antibíblica
Porquanto fixou o dia em que há de julgar o mundo com justiça, pelo ministério de um homem que para isso destinou. Para todos deu como garantia disso o fato de tê-lo ressuscitado dentre os mortos”. Quando o ouviram falar de ressurreição dos mortos, uns zombavam e outros diziam: “A respeito disso te ouviremos outra vez”. Assim saiu Paulo do meio deles. Atos dos Apóstolos, 17, 31 - 33

O discurso de Paulo no areópago é o embate de duas culturas diferentes, com base em duas antropologias ou maneiras diferentes de conceber o ser humano: a dualista grega do corpo mortal e alma imortal e a holística bíblica de que tanto o corpo como a alma podem ser mortais e imortais, dependendo de aderirem ou não ao Deus da vida.

A cosmovisão espiritualista não é de revelação bíblica, mas sim uma adaptação ou inculturação do cristianismo à cultura helénica, dominante naquele tempo e lugar. Esta cosmovisão não revelada foi-se impondo à Igreja e governou-a durante toda a Idade Média. Governa ainda muitas consciências no dia de hoje. Como muitas vezes acontece na vida, vais  aos outros com a intenção de os converter e acabam por ser eles que te convertem a ti. Isto foi o que aconteceu quando a nova fé começou a caminhar nos caminhos da Grécia antiga.

Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o sexto dia.  Génesis, 1, 31

Tanto no Antigo como no Novo Testamento, a criação é uma obra de amor. Deus gostou do que fez, nunca desistiu da sua obra, sobretudo da criação do ser humano que, ao contrário das outras criaturas, criou à Sua imagem e semelhança.

No século II surgiu uma nova visão de mundo que desafiou esta crença judaico-cristã de que a criação era basicamente boa. Nesta nova visão do mundo, a criação não é boa, mas sim má. Representa a queda quando o espírito ou a alma que vivia com Deus foi exilada no corpo, na matéria. A alma ou o espírito é intrinsecamente bom, a matéria é intrinsecamente má. O mundo é uma prisão e, como tal, um “vale de lágrimas”.

Se o ser humano é composto por dois elementos contrários um ao outro, vive uma vida esquizofrénica como se tivesse duas personalidades. Se assim é, como podemos ver com bons olhos a encarnação do verbo de Deus, Jesus Cristo?

Tendo ficado presos em corpos, os espíritos ficaram sujeitos aos poderes deformados e ignorantes que governam o mundo da matéria. Consequentemente, o sexo e a vida terrena em geral eram considerados maus. A tarefa da religião era resgatar o espírito da carne, recuperar o céu espiritual do qual a alma tinha caído.

Gnosticismo, maniqueísmo, neoplatonismo e as atitudes sexuais associadas ao puritanismo, continuam a ser fatores poderosos hoje em dia no espiritualismo, além dos distúrbios sexuais, distúrbios alimentares, autoimagens negativas e a rejeição do próprio corpo que levava à autoflagelação muito praticada por santos e não santos, por frades, monges e freiras, assim como por leigos.

Esta visão espiritualista e negativista reflete-se na espiritualidade de muitos até aos dias de hoje, colocando muito ênfase em ganhar e não perder o Céu. Como ensinava o catecismo, três são os inimigos da alma, o mundo, o demónio e a carne, referindo-se é claro ao corpo, sobretudo ao corpo sexualizado.

Espiritualismo na Bíblia

Esta cosmovisão negativa do corpo e do mundo, da matéria em geral, infetou os últimos escritos do Novo Testamento, pois já foram redigidos no final do século I, início do II. É certo que não encontramos isto nos primeiros escritos onde o helenismo ainda não era dominante na Igreja.

Visão negativa do mundo em S. João
Sabemos que somos de Deus e que o mundo todo está sob o poder do Maligno. João, 5, 19

A palavra “mundo” aparece 185 vezes no Novo Testamento, 78 no evangelho de João, 8 em Mateus, 3 em Marcos e Lucas. Nas três cartas de S. João aparece 24 vezes. Comparativamente com os outros evangelhos e comparativamente com os outros escritos do Novo Testamento, João usa e abusa da palavra “Cosmos” ou mundo, porquê?

Para os gregos o mundo não é criação divina. Nisto, João difere deles, pois no prólogo fica claro que o mundo é de Deus. Porém, a descrição que João dá do mundo caído tem muitas conotações com a conceção helenista do mundo, completamente oposto a Deus. O dualismo em João mais que filosófico é ético, ou seja, a tal luta entre o bem de Deus e o mal deste mundo.

Quase sempre aparece em sentido negativo, como sendo o habitat do pecado. Os cristãos estão no mundo, mas não são do mundo – isto faz-nos recordar a caverna de Platão e de como neste mundo vivemos como exilados. O mundo era bom na sua essência pois foi criado por Deus, mas, uma vez caído, é existencialmente mau. Como repete, muitas vezes S. João este mundo, ou o príncipe deste mundo, é uma síntese de todas as forças inimigas de Deus.

Concluímos que o uso exagerado do termo “mundo”, assim como a negatividade a ele associada, em comparação com outros autores bíblicos, denota uma aproximação de S. João à conceção helénica do mundo como algo caído. Depois, por um lado, diz que Deus quer salvar o mundo, o que representa um pensamento cristão, pois para os gregos o mundo não tem salvação porque não foi criado nem querido por Deus. Por outro lado, diz que os discípulos, apesar de estarem neste mundo, não são deste mundo, pensamento muito querido aos gregos.

Visão negativa do corpo em S. Paulo
Digo, pois: deixai-vos conduzir pelo Espírito, e não satisfareis os apetites da carne. Porque os desejos da carne se opõem aos do Espírito, (…) Ora, as obras da carne são estas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes. Dessas coisas vos previno, como já vos preveni: os que as praticarem não herdarão o Reino de Deus!

Ao contrário, o fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança. Contra estas coisas não há Lei. Pois os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as paixões e concupiscências. Se vivemos pelo Espírito, andemos também de acordo com o Espírito.
Gálatas, 5, 16-25   

Este texto clássico de S. Paulo, escrito pelo próprio punho, deixa antever uma crença fundamentalmente grega e não bíblica de que a alma ou Espírito é essencial e intrinsecamente bom e, parafraseando o evangelho, se conhece pelos seus frutos acima graficamente descritos. O corpo, ou a carne como lhe chama Paulo, ao contrário da alma, é existencial e intrinsecamente mau. Ou seja, nem o corpo pode fazer obras boas nem a alma pode fazer obras más.

No entender bíblico e segundo a antropologia bíblica, tanto o corpo como a alma podem ser maus, tanto um como o outro podem ser bons; não há corpo sem alma nem alma sem corpo, muitas das obras acima escritas não têm origem no corpo, mas sim num espírito pervertido, como a inveja por exemplo, pouco ou nada têm a ver com o corpo.

(…) tudo o que entra pela boca passa para o ventre e é expelido para uma fossa? Mas o que provém da boca sai do coração e é isso que torna o homem impuro. Pois é do coração que saem os maus pensamentos, homicídios, adultérios, promiscuidades, roubos, difamações, blasfémias. São estas coisas que tornam o homem impuro; comer sem lavar as mãos não torna o homem impuro» Mateus 15,17-20

O texto de São Paulo sobre as obras da carne está diametralmente oposto ao pensamento de Jesus no evangelho. O mal não vem de fora do mundo, e quando entra no corpo infeta e corrompe a alma; ao contrário, o mal reside na alma, vem de dentro, não vem de fora. O mal não tem origem na matéria ou na carne como diz São Paulo, que influencia e corrompe o espírito, mas sim ao contrário, o mal vem do espírito que corrompe a matéria ou a carne.

Quando vemos uma maçã com um buraquinho, o buraquinho não foi feito pela larva para entrara na maçã, mas sim foi feito pela larva para sair da maçã. Somos maças com bicho. Assim como a maçã foi concebida com o bicho, ou seja quando ainda era uma flor um inseto depositou um ovo nela que depois nasceu em larva, assim também nós fomos concebidos com o pecado original, pelo que o mal reside em nós no nosso espirito não na matéria ou corpo intrinsecamente maus segundo a filosofia e antropologia gregas.

Antropologia hebraica
Que o Deus da paz vos santifique totalmente, e todo o vosso ser - espírito, alma e corpo - se conserve irrepreensível para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. 1 Tessalonicenses 5, 23

A antropologia hebraica, subjacente à antropologia bíblica, é fundamentalmente unitária. Isto significa que pretende contemplar toda a realidade pessoal de uma determinada perspetiva. E assim a pessoa humana é, toda ela “basal”, isto é, carne. Em segundo lugar, a pessoa humana é “nefes” isto é, possui uma personalidade que podemos abordar do ponto de vista psicológico (psique).

E, finalmente, a pessoa humana é também toda ela, “ruah”, isto é, espírito, na medida em que nos entendemos como um ser aberto ao transcendente. Desta antropologia do Antigo Testamento que é, em última análise, unitária pois contempla toda a realidade humana de uma determinada perspetiva, encontramos um testemunho claro em 1 Tes. 5.23.

Dualismo grego
Os gregos são dualistas dos quatro costados; para eles há dois reinos, o deste mundo, existencial, visível, transitório, sensual, sensível e enganoso, e o Reino do essencial, eterno, Deus, imutável. O ser humano tem um pé neste mundo e outro pé no outro mundo. A sua alma pertence ao reino do essencial, imutável e eterno, a Deus, o seu corpo pertence ao reino deste mundo, da existência.

O corpo não é mau em si mesmo, mas é um empecilho para a alma, um fardo pesado. O corpo é a prisão da alma. A salvação, para Platão, está na razão que, iluminada, pode chegar a dominar as paixões do corpo, governando ela a vida. Com a morte, a alma liberta-se de uma vez por todas da prisão do corpo para gozar finalmente da imortalidade que lhe está reservada, precisamente por ser de natureza imortal.

O filósofo francês Descartes (1596–1650) , um exponente deste tipo de dualismo, chega a afirmar, sobre a relação entre a alma e o corpo, que é semelhante à do cavalo e do cavaleiro; a alma é o cavaleiro, o corpo é o cavalo que deve ser esporado e guiado pelo cavaleiro. São de natureza diferente e a ligação entre um e o outro é muito exígua.

Problemas teológicos que levanta o dualismo grego
“Isto é tudo muito confuso, explique-me lá senhor padre”, inquiria um paroquiano irlandês, “quando morremos o nosso corpo vai para a terra, a nossa alma vai para o Céu e nós, para onde vamos nós?”

De acordo com a antropologia judaica, o ser humano salva-se todo ou condena-se todo. Ressuscitamos com um corpo espiritual que é a imagem do nosso corpo físico e composto por tudo o que o corpo físico fez de bem. Não se faz o bem sem o corpo, sem a cabeça que pensa e projeta, o coração que sente e as mãos que fazem; por isso, o corpo espiritual é a glorificação da nossa cabeça pensante, do nosso coração amoroso e das nossas mãos executantes.

Se a alma é imortal, se não é biodegradável, então o inferno é a tortura eterna; se a alma é mortal, como afirma a antropologia bíblica, o inferno é morte eterna, pois à vida eterna não se contrapõe tortura eterna, mas sim morte eterna. Alguns teólogos católicos chegam a dizer que o inferno é o nada, mas não uma nada niilista pós-moderno, algo assim como um analgésico que nos pouparia ao sofrimento de não ter vivido a vida que Deus nos tinha reservado; será um nada, mas um nada que dói como o fogo. Acho esta posição pouco diferente da clássica católica: o nada não pode doer e, se dói, não é nada, mas sim um eterno sofrimento.  

Na antropologia judaica, o homem não tem um corpo mortal e uma alma imortal; o homem é todo ele mortal se está fora da Graça de Deus e imortal se está com Deus. Jesus diz-nos para não temermos os que só podem matar o corpo e nada podem fazer à alma. O que devemos temer é aquele que pode matar tanto o corpo como a alma. (Mateus 10,28)

O Inferno, entendido como morte eterna, preserva tanto a bondade de Deus como a liberdade do homem. Mas o que é a morte eterna? É regressar ao nada de onde tudo foi criado. Regressa livremente ao nada quem responde “Nada” às 3 perguntas que todo o ser humano se coloca quando atinge a idade de autoconsciência: de onde vimos? Para onde vamos? Que sentido tem a vida?

Como acima ficou enunciado, a cosmovisão espiritualista manifesta-se em sub cosmovisões, como o gnosticismo, o maniqueísmo, o puritanismo e o que eu chamo dualismo esquizofrénico desintegrado. Vejamos o que é cada uma destas pequenas cosmovisões.

Gnosticismo e docetismo
É uma ideologia anterior ao cristianismo que se infiltrou no cristianismo quando este surgiu. Fundamentalmente, o gnosticismo repete a ideia grega de que o que em nós é humano é a nossa alma que é eterna e de origem divina, enquanto que o corpo físico, prisão da alma, e o seu habitat, tudo o que o rodeia, o cosmos, ou seja, o mundo, foram criados não por Deus, mas por um demiurgo, um espírito imperfeito.

A libertação final e definitiva só advém com a morte, mas enquanto esta não ocorre, podemos obter uma liberdade relativa pela aquisição de “gnosis”, de conhecimento, para poder dominar o corpo e os seus baixos instintos e desejos. Como o cristianismo é a libertação do pecado e o gnosticismo a libertação da ignorância, alguns gnósticos assimilaram o cristianismo, assim como alguns cristãos se deixaram levar pelo gnosticismo. Porém, há uma radical diferença entre os dois. O cristianismo é público, não só para uma elite oculta de iniciados, mas sim para todos, enquanto que o gnosticismo é privado e elitista, para uns quantos iluminados.

O docetismo, é um filho legítimo do gnosticismo, vem da palavra grega “dokesis”, que significa aparência. Nos séculos I e II d.C., os docetistas afirmaram que Jesus Cristo só parecia ser humano. Consideraram o mundo material, incluindo o corpo humano, tão mau e corrupto que Deus, que é todo bom, não poderia ter assumido um verdadeiro corpo humano e natureza humana. A natureza humana de Jesus é, portanto, fingida.

O antagonismo gnóstico entre os mundos espiritual e material levou os docetistas a negar que Jesus era um homem verdadeiro. Os docetistas não tinham problemas com a divindade de Jesus, só não acreditavam na sua verdadeira humanidade. Se a humanidade de Jesus é uma ilusão, a sua paixão e morte na cruz com o sofrimento que isso envolveu foram também uma ilusão, não aconteceram realmente.

O cristianismo de Alexandria, que abandonou a Igreja com o concílio de Calcedónia em 451 d.C. mais tarde chamado Copto, assim como o da Etiópia, são docetistas monofisitas, só acreditam na natureza divina de Cristo. Não é coincidência que o docetismo tenha surgido no Egito, precisamente onde anos antes do cristianismo tinha surgido o gnosticismo. Quando estive na Etiópia, lembro-me de ver um canto copto no qual se dizia que Jesus na cruz não sofria estava contente e feliz.

Maniqueísmo
Foi uma religião muito antiga do Crescente Fértil, que desapareceu com o surgir das grandes religiões como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. O que sabemos do maniqueísmo é-nos apresentado por alguns que foram maniqueus antes de serem cristãos, como Sto. Agostinho (430 d. C.). Mani (277 d. C.), o fundador, pertencia a um grupo judaico-cristão antes de fundar a sua própria religião. Sentiu-se como herdeiro dos grandes profetas Buda, Jesus, Zaratustra e Maomé e procurou fazer uma síntese dos seus ensinamentos. Autoproclamou-se apóstolo de Jesus, pois de entre todas as religiões, encontrava-se mais próximo do cristianismo.

O maniqueísmo é uma forma de gnosticismo cristão, tão dualista que a própria palavra maniqueísmo, historicamente, se tornou sinónimo de absoluto dualismo. No mundo há duas forças que se contrapõem e guerreiam: a luz/bem e as trevas/mal. A alma, é claro, pertence à luz e o corpo às trevas, por isso, o objetivo da vida do ser humano é que a luz prevaleça sobre as trevas. Mani aconselhava aos seus fiéis uma vida ascética, não matar nenhum ser vivo, não comer carne, não beber álcool e viver uma vida celibatária.

Puritanismo
Historicamente, o puritanismo foi um movimento dos séculos XVI e XVII que procurava "purificar" a Igreja de Inglaterra dos resquícios do catolicismo.

O êxito não foi total em Inglaterra, mas no novo mundo da América o movimento floresceu e transformou-se numa forma de vida, muito patente até na forma de vestir.

Hoje o uso moderno da palavra puritano nada tem a ver com as suas raízes históricas, tem mais a ver com uma visão negativa do sexo e do prazer a ele associado. O sexo restringia-se ao matrimónio, que neste sentido era visto como um remédio para a concupiscência, e como meio para a procriação. Melhor casar-se que abrasar-se, como dizia S. Paulo (1 Coríntios 7,8-9).

O excessivo valor da virgindade, sobretudo da virgindade física feminina, ou seja, do hímen intacto, levou à declaração de que Maria foi virgem antes, durante e depois do parto. Posso entender que foi virgem antes do parto e depois do parto e aceito e acredito que o foi, mas não vejo por que tenha que ser virgem durante o parto, algo antinatural e desnecessário que só posso entender no âmbito de uma visão negativa do sexo e de uma extrapolada valorização da virgindade física, em detrimento da maternidade.

A virgindade não tem nenhum valor em si mesma, mas está orientada para a maternidade, seja ela uma maternidade física de uma mulher que é mãe de um bebé e o nutre e alimenta para fazer dele um autêntico ser humano, ou de uma mulher que coloca o casamento de lado para ser mãe de mais filhos num sentido espiritual e educacional, como madre Teresa de Calcutá. A virgindade assim entendida nada tem a ver com o rompimento ou não do hímen, porque é um valor tanto para homens como para mulheres.

Dualismo esquizofrénico desintegrado
É uma sub cosmovisão à qual pertencem muitos intelectuais e homens da ciência, das artes, da política, das altas finanças que, ao mesmo tempo, são profundamente cristãos, ou seja, não seguem a cosmovisão materialista que é dominante nestes círculos.  

Estes bons profissionais no seu ramo – cientistas, médicos, professores universitários, políticos e jornalistas – ao não conseguirem conciliar a sua fé com a ciência, fizeram dentro de si mesmos um acordo de cavalheiros, ou seja, colocaram as duas dimensões em quartos separados da mesma casa que é a sua mente. Estes são quartos fechados que não comunicam entre si, ou seja, vivem na mente um dualismo e uma esquizofrenia mental e existencial em simultâneo.

São, ao mesmo tempo, homens de ciência e homens de fé; porém, como não encontraram a fórmula para conciliar as duas e como, de alguma forma, pensam que são irreconciliáveis, então vivem as duas dimensões em separado, como se fosse um estado moderno onde a religião não se mete na política e a política não se mete na religião. A tal separação Igreja – Estado, a César o que é de César, a Deus o que é de Deus.

A título de exemplo, tais cientistas e profissionais durante a semana são evolucionistas, ou seja, acreditam na teoria da evolução das espécies, e ao Domingo, dia do Senhor, são criacionistas, ou seja, acreditam no livro do Genesis como se fosse história; como nunca colocam em diálogo as duas posições, não há problema.

O que acontece no interior destes cientistas e bons profissionais no seu ramo é o que acontece na sociedade em geral: a ciência vive de costas voltadas para a religião e considera-a coisa de ignorantes, ao passo que a religião defensiva se refugia nas suas igrejas e demoniza a ciência.

Conclusão: a cosmovisão materialista ignora a dimensão espiritual da vida humana, da mesma forma que a espiritualista demoniza a dimensão corpórea. A verdade requer que as duas dimensões se integrem e harmonizem: nem espírito sem matéria, nem matéria sem espírito.

Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de novembro de 2024

Cosmovisão Materialista

Sem comentários:


A visão materialista da realidade contrapõe-se à visão espiritualista que reinou em toda a Idade Média, parte da antiga e que ainda existe. Ambas têm raízes históricas, mas não estão ligadas a uma só época da História, como a cosmovisão medieval e renascentista, nem a uma cultura particular, ocidental ou chinesa. Tanto a cosmovisão espiritualista como a materialista são passadas e contemporâneas, transversais a muitas culturas.

São mais próprias de um tempo que de outro, assim como mais agarradas a uma cultura particular que a outra. São cosmovisões no sentido mais amplo do termo, pois são mais abrangentes tanto no tempo histórico como no espaço cultural. Historicamente, a Idade Média é toda ela espiritualista, enquanto que a partir do renascentismo, em toda a Idade Moderna e Contemporânea, é mais materialista.

Assumindo um caráter teórico, em forma de filosofia, como o ateísmo ou o agnosticismo, ou prático, como o consumismo capitalista, a auto gratificação e a ausência de valores, o materialismo é hoje a filosofia de vida ou a cosmovisão que governa a maior parte das pessoas. Governa claramente o mundo da política, da economia, porque o dinheiro sempre foi em si mesmo uma religião, além do mundo da ciência, das universidades, dos meios de comunicação e da cultura em geral.

Perguntei certa vez a alguém se era religioso; respondeu-me com um tom de voz de quem ficou ofendido, “como posso ser religioso? Eu sou cientista”. Ser materialista, agnóstico ou ateu, está na moda. Ser religioso está fora de moda e é hoje conotado com ser ignorante. Por isso, até os poucos que o são, não se manifestam como tal para não perder amigos, empregos ou posição social.

Aos materialistas, que vivem sem sentido porque a matéria não dá sentido à vida, pode aplicar-se aquela famosa frase do Dalai Lama: “Vivem como se nunca tivessem que morrer, e morrem como se nunca tivessem vivido”. De facto, o expoente máximo do ateísmo dialético e histórico, Karl Marx, enfrentou a questão da morte da mesma forma cínica dizendo que a morte não deve preocupar-nos, pois enquanto nós existirmos, ela não existirá; quando eventualmente se tornar realidade, não existiremos nós.

Ou seja, a morte não deve ser motivo de preocupação porque nunca coexistiremos com ela, nem nós existimos com ela nem ela existe connosco. O facto é que por muito que a escondamos na sociedade, ela vai aparecendo, quando ao nosso lado caem primeiro os nossos pais e os nossos tios, depois os nossos irmãos mais velhos.

Relativamente à sociedade medieval que vivia reconciliada com a morte, em harmonia com ela, e numa quase amizade, chegando a dar-lhe uma forma feminina, vestindo-a de branco, convidando-a para uma dança de roda e até para jogar xadrez a ver se a vencia ou enganava ou distraía, a sociedade moderna e contemporânea tem medo da morte que lhe vai roubar tudo, porque é eterna, reprimindo por isso tal pensamento, como o sexo era reprimido na sociedade puritana vitoriana.

Do animismo ao ateísmo
Do animismo ao materialismo há uma gradual materialização da matéria e simbioticamente do ser pensante que a analisa e com ela se relaciona, o Homem. Ao princípio, tudo tinha alma, até a própria matéria mais material tinha alma. Num mundo materialista como é o de hoje, custa-nos pensar que assim era no passado; porém, sem irmos mais longe, todos nós vivemos uma etapa de animismo na nossa infância quando, ao magoar-nos com qualquer coisa, batíamos e culpávamos e chamávamos má a essa mesma coisa, como se fosse uma entidade viva.

Ao nível dos adultos, a superstição é um resquício de animismo, ou seja, quando se concede valor ou poder espiritual a algo que é puramente material, como uma chave ou uma ferradura, isso é animismo, hoje chamado de superstição.

O conhecer certas realidades materiais e o saber como e para que funcionavam, roubou-lhes a alma, pelo que se desanimaram e voltaram a ser apenas matéria. Porém, não era possível conhecer cientificamente certas realidades ou estas não eram fáceis de conhecer ou não era possível conhecê-las e dominá-las totalmente. A essas realidades deu-se-lhes o nome de deuses e assim nasceu o deus da guerra, a deusa do amor, o deus do tempo o deus do vinho, o deus do mar, etc. e, consequentemente, surgiu o politeísmo.

Por uma questão de simplificação ou com o fim de unir vários povos e evitar as desavenças de “o meu deus é maior que o teu”, o que podia causar guerras santas ou outras desavenças, o Homem descobriu que Deus seria um só Senhor e criador de tudo e de todos. Nasceu assim o monoteísmo na sua versão absoluta, com o judaísmo e o islamismo e na sua versão trinitária, com o cristianismo.

Por fim, quando o progresso científico permitiu ao homem dominar grande parte da realidade, este decidiu matar a Deus (conceito psicanalítico) para se colocar no seu lugar como super-homem (Nietzsche). Nesta dialética de ir roubando a alma ao conhecido, o ser humano acabou por roubar a alma ao próprio Deus, afirmando, como o fez Feuerbach, que não foi Deus que criou o Homem à sua imagem e semelhança, mas sim, ao contrário, foi o Homem que criou Deus à sua imagem e semelhança.

Nasceu assim o materialismo dialético ou filosófico, depois o materialismo histórico e a revolução comunista com Karl Marx, a psicanálise ateia de Sigmund Freud. Nietzsche declarou “Deus está morto, viva o super-homem” e, depois do enterro de Deus, surgiu o niilismo do próprio Nietzsche, seguido pela náusea ou vómito de Sartre.

Ideologia materialista
Esta visão de mundo tornou-se proeminente no Iluminismo, mas é tão antiga como Demócrito (370 a.C.). A visão materialista do mundo afirma que não há espírito, nem deus, nem alma. Nada que não possa ser conhecido através dos cinco sentidos e da razão.

Nada existe além da Natureza que tenha influência causal ou aja sobre a mesma Natureza. Não existe, portanto, nenhum ser superior que tenha criado a Natureza e que exerça algum poder sobre ela. Só existe a natureza material e nada para além dela. A vida na Terra surgiu por si mesma, quando se reuniram as condições para que surgisse, a partir de substâncias naturais, por seleção natural para fins naturais.

O sobrenatural ou espiritual é uma quimera, não existe, não é observável. Se algo não tem explicação não é por ser sobrenatural, mas simplesmente porque o ser humano ainda não sabe tudo; no futuro, a ciência poderá explicar. Assim foi e assim tem sido: realidades que antes eram vistas como deuses, hoje são completamente explicáveis.

O mundo espiritual é, portanto, uma ilusão, (um consolo infantil, como diz Freud). Não há ser superior, somos meros complexos da matéria e, quando morremos, deixamos de existir e os elementos simples que compõem o nosso corpo voltam à sua simplicidade à medida que o nosso corpo se desintegra.

Como não há nenhum significado intrínseco para o universo, as pessoas têm de criar valores para si mesmas. Não há certo e errado, exceto o que a sociedade estabelece, com propósitos de sobrevivência e tranquilidade.

Muitos não chegam a criar valores pelos quais pautar a sua vida, pois é difícil fundamentar uma ética sem religião. Os materialistas têm a sorte de mais de 90% da humanidade acreditar na existência de um ser superior, fundamento e garante da estrutura social que temos; se assim não fosse, 1% da humanidade não poderia ter mais riqueza do que 99% da mesma humanidade, como hoje acontece. 

Se os seres humanos não acreditassem na vida para além da morte, fundamento último da ética, não haveria exército nem polícia para conter a raiva humana contra a injustiça.  Razão tinha Napoleão Bonaparte quando disse que a religião é o que faz os pobres não matarem os ricos.

Se o fim dos justos e dos injustos é o mesmo, é difícil distinguir a justiça da injustiça, se ambas têm o mesmo fim: o nada. Por isso, a maior parte dos materialistas afogam as suas mágoas no consumismo. A vida é pão e circo, como diziam os romanos, Fugit Tempus, Carpe diem, o tempo escapa-se-nos, aproveitemos o dia que temos pela frente, ou seja, “Morra Marta, morra farta”.

Os processos de evolução ou mudança são essencialmente aleatórios, não têm um objetivo predefinido, pois não existe nenhum desígnio inteligente, como creem os crentes religiosos. Reina o aleatório: os dinossauros não estavam predestinados a desaparecer, se aquele meteorito que destruiu o seu habitat não tivesse caído, poderiam ainda estar vivos e o ser humano nunca ter surgido. Para além do aleatório, o que existe é uma seleção natural governada pela lei do mais forte ou do que melhor se adapta às circunstâncias de um meio ambiente em constante mudança.

É isto e só isto que determina que alguns seres vivos sobrevivam e outros pereçam. Os materialistas creem que este processo de “seleção” inconsciente, não dirigida, juntamente com as flutuações genéticas aleatórias (ou seja, mutações), sejam as chaves que explicam a origem do mundo e dos seres vivos como os conhecemos hoje, nós próprios incluídos.

Ao não haver nenhum desígnio inteligente nem nenhum objetivo que a natureza tenha que cumprir, a própria inteligência e o que nós chamamos espiritual são o resultado de complexos processos naturais e materiais que é possível conhecer e explicar. Não precisamos de Deus para explicar nada na Natureza físico-química. Não existe nada no Universo que seja pessoal, tudo é impessoal. A pessoa humana é uma outra quimera criada pelos espiritualistas, não há nada na pessoa humana para além de complicados processos físico-químicos.

Análise "científica" do materialismo, ateísmo ou agnosticismo
É certo que não podemos provar a existência de Deus nem a sua não existência, pelo que tanto teísmo como ateísmo ou agnosticismo são crenças. Ou seja, uma é fé a outra é anti fé, mas ambas envolvem fé.

Os ateus ou agnósticos gostam de se fazer passar por cientistas, amigos da ciência, racionais e iluminados. A ciência é logico-dedutiva, como a matemática, ou intuitiva, como a teoria da relatividade de Einstein.

O ateísmo ou o agnosticismo não é lógico - O ateísmo ou agnosticismo não é lógico. Não faz sentido que o ser humano seja, como diz Karl Marx, o momento em que a Natureza ganhou pensamento ou autoconsciência, só para nos darmos conta da nossa miséria, ou seja, de que vimos do nada como tudo e ao nada regressaremos com a pulga, o piolho e o percevejo.

Se para isso somos os únicos seres vivos conscientes da nossa miséria, era preferível não sermos conscientes como o resto dos seres vivos. É como saber o dia e as circunstâncias da nossa morte: não creio que haja uma única pessoa que esteja interessada nessa informação.

Ao contrário do resto dos seres vivos, a consciência de que existimos por um tempo e depois deixamos de existir, em vez de ser uma grandeza da evolução é antes ir de cavalo para burro. Que grandeza é essa de termos consciência da própria miséria, sem solução para a remediar?

Ao contrário do resto dos seres vivos que, vivendo em simbiose com a natureza não têm liberdade nem autonomia nem independência em relação a ela, o ser humano tem a vida nas suas mãos, tem uma certa liberdade para fazer com a sua vida o que quiser. Para quê essa liberdade, se independentemente do que fizermos, o fim será o mesmo? Por outro lado, o ter liberdade é também um risco, no sentido em que posso fazer más escolhas e transformar a minha vida num inferno, coisa que os outros seres vivos não podem.

Na vida, os seres vivos são felizes, não precisam de trabalhar, nem de estudar, nem de sofrer. Nós, seres vivos humanos, podemos ser felizes ou infelizes em vida, mas, mesmo os que são felizes, possuem sempre uma felicidade relativa, pois o pensamento de que um dia deixarão de existir, envenena qualquer alegria ou prazer, transformando-a em tristeza e depressão.

O ateísmo ou agnosticismo não é dedutivo – Se o universo não estivesse em expansão, se fosse estático e não dinâmico e em constante devir, como as águas do rio de Heráclito, se sempre tivesse sido o mesmo, se não houvesse nenhuma mudança, nem evolução, nem revolução, poderíamos deduzir que sempre existira, que o universo era deus de si mesmo.

Isto é o que pensava a ciência antes de o telescópio Hubble que se encontra bem longe no espaço, mostrar que as galáxias estão a afastar-se umas das outras, o que nos levou a deduzir que o Universo está em expansão. A teoria dedutiva do Big Bang que afirma que as galáxias estão a afastar-se umas das outras foi criada pelo padre católico belga Georges Lemaître. Segundo ele, o universo começou com uma grande explosão; nessa grande explosão foram criados o tempo/espaço e a matéria/energia.

Na Natureza, as ignições ou explosões não acontecem espontaneamente. Tudo se passa num regime de causa/efeito: não há causa sem efeito, nem efeito sem causa, não há água sem sede, nem sede sem água. Ou, como diz o povo, “quando nasce a panela, nasce o testo para ela”. Por outro lado, não observamos na Natureza nada que se crie a si mesmo; é, portanto, mais lógico deduzir um criador que não o deduzir.

Se o universo nem sempre existiu e depois começou a existir, houve um “tempo” em que não existia. E haverá um tempo em que deixará de existir. Apenas a Bíblia falava do fim do mundo e os tais cientistas riam-se dela e dos cristãos. Como quem ri por último, ri melhor, agora somos nós que nos rimos. A ciência teve de dar o braço a torcer e afirmar que o mundo deixará de existir um dia.

Os ateus reagiram à teoria do Big Bang deduzindo o Big Crunch, ou seja, que o universo estaria em expansão, como se fosse um elástico, até não poder expandir-se mais, iniciando em seguida o processo inverso de contração até colapsar sobre si mesmo, chegando a matéria a concentrar-se toda outra vez e a causar um novo Big Bang. Assim sendo, o universo seria uma sucessão de Big Bangs e Big Crunches.

Porém, a segunda lei da termodinâmica veio desmentir esta teoria, pois a matéria não se transforma em energia sem se desgastar. Se assim fosse, seria possível ter uma máquina que fabricasse a energia de que precisa para se manter em andamento. O sol vai gastar todo o seu hidrogénio e hélio, assim como o universo vai gastar toda a sua energia até desparecer e a pouca matéria existente nesse universo futuro não terá a força da gravidade suficiente para se aglutinar. O universo transformar-se-á num buraco negro.

O ateísmo ou agnosticismo não é intuitivo – A intuição é o contrário da lógica e da dedução, pela intuição e dedução nunca Einstein chegaria à teoria da relatividade, pois não é lógica nem se deduz de nenhuma observação. A intuição é, ao mesmo tempo, um salto qualitativo e quantitativo. Se eu partir da observação da realidade, sou catapultado pela intuição para uma realidade não observável nem experimentável, mas que tem relação com o que observo e dá sentido a tudo o que observo.

Neste sentido, a fé é uma intuição; a Deus chega-se pela intuição, mas não só a Deus: muita da física quântica dos nossos dias, herdeira da teoria da relatividade, é intuitiva. Muita da astronomia de hoje é intuitiva, pois não temos forma de observar certas realidades.

O ateísmo ou agnosticismo é indutivo – O ateísmo ou agnosticismo é instigado, é forçado e supõe a repressão do sentimento religioso que é conatural ao ser humano e que podemos observar em todos os tempos e em todas as épocas e na maior parte dos seres humanos que habitam hoje o nosso planeta.

Os teístas sempre foram mais de 80% dos habitantes deste planeta em todas as épocas e em todas as culturas. Até hoje já houve muitas culturas e civilizações sem ciência e tecnologia, mas nuca houve nenhuma sem religião.

Por isso, o ateísmo ou agnosticismo é induzido pela moda, pela sociedade de consumo, pelo comunismo, ou por qualquer ideologia que pretenda retirar ao ser humano toda a orientação; assim desorientado e desnorteado, é mais fácil de manipular e transformar em consumidor obsessivo e neurótico, muito bom para a economia faz crescer o PIB, mas reduz a saúde dos indivíduos. Quanto mais saudável é a economia, mais doentes são os indivíduos que a alimentam.

E, para tal, o sentimento religioso natural ao ser humano e presente em todas as culturas de todos os tempos tem de ser ignorado num primeiro momento, mas, como sempre ressurge, deve ser reprimido, escondido.

Defendo que não há verdadeiros ateus ou agnósticos, mas sim politeístas, ou seja, negam a existência do Deus verdadeiro para prestarem homenagem, veneração e adoração a muitos e pequenos deuses. O dinheiro seria o Pai desse panteão, tal como Zeus e Júpiter foram os pais dos panteões grego e romano, respetivamente. Depois há deuses que são os patronos de certas realidades com quem o ateu ou materialista se relaciona: o poder, a beleza, o prazer, a fama, a diversão como o futebol etc.

Como seria um mundo governado pela cosmovisão materialista? Seria um mundo sem música, sem arte, sem poesia, sem literatura, sem direitos humanos, sem ética, uma autêntica barbárie, uma autêntica anarquia. Que deixa para a posteridade a sociedade materialista consumista? A quase totalidade dos monumentos e obras mais belas da humanidade, as pirâmides do Egito, as catedrais góticas, as mesquitas, os templos hindus são o reflexo do sentimento religioso. Que nos deixa ou deixou o materialismo para além da náusea de Sarte, dos gulags soviéticos e dos atuais campos de concentração chineses para lavar o cérebro ao povo uigur?

Conclusão: os materialistas sustentam que, na evolução das espécies, o ser humano não é mais que o momento em que a matéria ganha consciência de si mesma. Não faz sentido que a matéria desperte com o único objetivo de se dar conta de que é matéria. A autoconsciência é uma atividade espiritual, por isso a matéria está orientada para o espírito e não vice-versa. Os materialistas, ateus ou agnósticos reprimem o natural sentimento religioso, comum ao ser humano de todos os tempos e culturas, como os puritanos reprimiam o sexo.

Pe. Jorge Amaro,IMC


1 de novembro de 2024

Cosmovisão Renascentista

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O mundo europeu entende que não há uma continuidade cultural, científica e filosófica entre o mundo antigo e a Idade Média. A Idade Média foi como um trauma que paralisou o mundo, que o colocou a dormir por muito tempo. A cidade é o lugar da cultura, pois é na cidade que se concentra o maior número de pessoas, onde acontece um sem-número de transações, comunicações e onde se pratica um sem-número de profissões.

No bucólico campo só se pratica a agricultura, as pessoas vivem isoladas umas das outras. O mundo medieval era um mundo rural. É certo que é do campo que se vive e se come, mas uma vida que se dedica só à autossubsistência dificilmente se pode chamar humana, os animais são os que se dedicam exclusivamente à autossubsistência.

A agricultura é, portanto, a base da cultura. No entanto, o objetivo da agricultura não deve ser a autossubsistência, mas sim criar excedentes que depois serão a base do comércio, que permitirão adquirir outros bens e promoverão o relacionamento entre pessoas, fazendo surgir outras atividades. Em suma, fomentarão a cultura e o desenvolvimento.

No Renascentismo começaram a surgir outra vez as cidades. A Europa, ao dar-se conta da descontinuidade cultural entre a Idade Antiga e os 10 séculos de Idade Média, tentou fazer um bypass, passando por cima da Idade Média e indo ao passado do mundo greco-latino para ressuscitar esta cultura sem a mediação ou as lentes da Igreja.

Inspirado nos valores da antiguidade clássica, o homem renascentista tem a ideia de que tudo o que é medieval é mau e tudo o que pertence ao mundo antigo é bom. Esta perspetiva está equivocada em muitos pontos. A filosofia, por exemplo, embora seja de inspiração cristã, avançou na Idade Média; a arquitetura, sobretudo a gótica, representou um enorme avanço. A arquitetura algo tosca da época grega e romana, foi recriada no renascimento com um estilo monumental que perdeu em beleza para o gótico; não é nada bela, é somente monumental, ou seja, grande, enorme. Por exemplo, a basílica de S. Pedro é monumental, é renascentista; mas não é certamente mais bela que a mais singela catedral gótica.

Com o aparecimento do burgo, termo que significa cidade, no fim da Idade Média, nasceu uma outra classe social no seio do povo, o burguês, ou seja, literalmente o habitante da cidade, que não se dedica, é claro, à agricultura, mas sim ao comércio, artes e ofícios que vão surgindo à medida que a vida se vai diversificando e deixa de girar à volta da subsistência. Esta vertente física é confiada ao povo e ao seu trabalho na agricultura, a vertente espiritual e moral é confiada ao clero e a segurança é confiada aos nobres.

Origem do Renascimento
Na península itálica, as cidades nunca desapareceram totalmente e os povos não deixaram de praticar o comércio, nem de usar moeda. Houve, sim, uma diminuição dessas atividades durante a Idade Média. Em virtude da situação geográfica da península itálica no meio do Mar Mediterrâneo, várias cidades ribeirinhas como Veneza, Génova, Florença, Roma, entre outras, beneficiaram do comércio com o Oriente. Marco Polo terá aberto o caminho.

Estas regiões enriqueceram com o desenvolvimento do comércio no Mar Mediterrâneo, dando origem a uma rica burguesia mercantil. A fim de se afirmarem socialmente, estes comerciantes patrocinavam artistas e escritores, que inauguraram uma nova forma de fazer arte. A Igreja e a nobreza também foram mecenas de artistas como Miguel Ângelo, Domenico Ghirlandaio, Pietro della Francesca, entre muitos outros. A nova classe social burguesa que surgiu no Renascimento tinha dinheiro, mas não tinha estatuto, como o clero e a nobreza; por outro lado, como tinha dinheiro, não se enquadrava nos servos da gleba. Assim, procurava investir esse dinheiro patrocinando obras de arte, a fim de serem reconhecidos socialmente.

Renascer
Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo não poderá ver o Reino de Deus”. Nicodemos perguntou-lhe: “Como pode um homem renascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no seio de sua mãe e nascer pela segunda vez?”. Respondeu Jesus: “Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus.João, 3, 3-5

Em meados do século XIV começou uma transição entre os mundos medieval e moderno. Esta transição é conhecida como o Renascimento ou nascer de novo, como sugere o evangelho.

O movimento começou em Itália que tinha sido o centro da cultura greco-romana e o seu último reduto, o centro do Império Romano. Foi também o lugar mais dominado pela Igreja, pois quase toda a Itália no fim da Idade Média era um Estado Pontifício, formado por terras que Carlos Magno deu à Igreja. Por isso, os que chamam a Igreja de obscurantista esquecem-se que esta foi a maior promotora da Renascença no campo da arquitetura, pintura, escultura e outras artes. E que a cultura greco-romana renasceu precisamente no lugar onde tinha sido extinta pelos bárbaros.

O Renascentismo abrangeu quase todas as facetas da vida, economia, política, filosofia e arte entre tantas e, em especial, da ciência. Os principais contribuintes para o Renascimento (como Petrarca, Leonardo Da Vinci e Dante) classificaram o período medieval como lento e escuro, um tempo de pouca educação ou inovação. Viram o período medieval como uma interrupção da cultura entre o mundo clássico da Grécia e Roma e o Renascimento.

A ideia de comunidade distinguiu o período medieval. As pessoas – clero, nobreza e povo – enfrentaram ameaças reais de fome, doenças e guerras que são perigos que fomentam a dependência da comunidade em áreas como o trabalho, a religião e a defesa. Por exemplo, um artesão medieval pertencia a uma associação que ditava todos os aspetos do seu negócio. A ideia era que todos os artesãos ganhassem a vida equitativamente e não que uns ganhassem mais que outros.  A uniformidade era norma; cada profissão tinha a sua forma de vestir, até as prostitutas tinham o seu hábito, uma forma de vestir que as distinguia das outras mulheres.

A Renascença, por outro lado, veio sublinhar a importância dos talentos individuais. Esta ideia, conhecida como individualismo, é visível na filosofia e na arte da época. Além disso, enquanto estudiosos medievais tinham estudado documentos gregos e romanos antigos para aprender sobre Deus e o Cristianismo, os estudiosos renascentistas estudaram-nos para descobrir mais sobre a natureza humana. Esta nova interpretação era conhecida como humanismo.

Nasceu assim um humanismo não diretamente ligado ao cristianismo, ou seja, um humanismo laico que cresceria exponencialmente durante toda a Idade Moderna. Aliás o Renascimento foi a primeira pedra da cosmovisão humanista materialista contraposta a uma cosmovisão espiritualista, que reinou durante toda na Idade Média.

A arte renascentista também reflete o humanismo. Enquanto a arte medieval se destinava a ensinar uma lição, talvez uma história bíblica, como os vitrais das catedrais góticas, a arte renascentista glorificou a humanidade dos indivíduos retratados. As estátuas medievais tendem a ser de santos e numa posição mística não natural. Em contraste, o David de Miguel Ângelo, a Pietá e Moisés parecem ser mais realistas. As estátuas deixaram de ser imagens congeladas de piedade e passaram a revelar emoções humanas, parecendo prontas para a ação.

Valores renascentistas
Racionalismo – A razão era o único caminho para se chegar ao conhecimento. Tudo podia ser explicado pela razão e pela ciência. A escolástica medieval valorizava também a razão, mas não em exclusivo. A fé é uma outra forma de conhecer, que o renascimento ignora, tal como a cultura em geral depois deste.

Cientificismo – Para os renascentistas, todo o conhecimento deveria ser demonstrado através da experiência científica. É deste tempo a expressão “a experiência é a mãe da ciência”. Hoje sabemos que a experiência não é a única mãe de todas as ciências. Não só da lógica e dedução se faz ciência, mas também da intuição, como aconteceu com a teoria da relatividade.

Individualismo – O ser humano procurava afirmar a sua própria personalidade, mostrar os seus talentos, atingir a fama e satisfazer as suas ambições, através do conceito de que o direito individual estava acima do direito coletivo. Assim nasce o liberalismo em todas as suas vertentes. Teremos que esperar pela revolução socialista para voltar a falar de igualdade, pois a igualdade da revolução francesa era uma igualdade onde uns são mais iguais que outros, como diz George Orwell.

Antropocentrismo – Coloca o homem como a suprema criação de Deus e como centro do universo. É deste tempo a frase “o homem é a medida de todas as coisas”. Deus começa a ser posto de lado, até ser completamente substituído pelo super-homem de Nietzsche.

Classicismo – Os artistas procuram a sua inspiração na Antiguidade Clássica greco-romana para realizar as suas obras. Qualquer momento do passado é melhor que este, era a ideia.

O renascimento das letras
São deste tempo grandes escritores ainda hoje mundialmente famosos, porque escreveram obras mundialmente reconhecidas, para todos os tempos, além de se tornarem ex libris ou representativas da cultura onde surgiram.

  • Dante Alighieri: escritor italiano, autor do grande poema "Divina Comédia". Trata das três instâncias depois da morte – Céu, Inferno e Purgatório – e é uma joia da literatura universal e o ex libris da cultura italiana.
  • Maquiavel: autor de "O Príncipe", obra precursora da ciência política onde o autor dá conselhos aos governantes da época.
  • Shakespeare: considerado um dos maiores dramaturgos de todos os tempos. Abordou na sua obra os conflitos humanos nas mais diversas dimensões: pessoais, sociais, políticas. Escreveu comédias e tragédias, como "Romeu e Julieta", "Macbeth", "A Fera Amansada", "Otelo" e várias outras. Ex libris da cultura inglesa.
  • Miguel de Cervantes: autor espanhol da obra "Dom Quixote", uma crítica contundente da cavalaria medieval. Ex libris da cultura espanhola.
  • Luís de Camões: teve destaque na literatura renascentista em Portugal, sendo autor do grande poema épico "Os Lusíadas", ex libris da nacionalidade portuguesa.

O renascimento das artes
Destacamos Leonard da Vinci que é o ex libris, estereótipo ou protótipo do homem renascentista; o homem dos cem ofícios; foi matemático, físico, anatomista, inventor, arquiteto, escultor e pintor, foi o homem renascentista que dominou várias ciências. Por isso, é considerado um génio absoluto. A misteriosa Mona Lisa e a Última Ceia são as suas obras-primas. Quando alguém nos fala da última ceia de Cristo, a imagem que nos vem à mente é sempre a do quadro de Leonado da Vinci.

Renascimento científico
O Renascimento foi marcado por importantes descobertas científicas, nomeadamente nos campos da astronomia, da física, da medicina, da matemática e da geografia. O polaco Nicolau Copérnico negou a teoria geocêntrica defendida pela Igreja, herdada de Aristóteles e Ptolomeu, ao afirmar que "a Terra não é o centro do universo, mas simplesmente um dos tantos planetas que gira em torno do Sol". O novo centro era agora o sol. Hoje sabemos que nem a terra nem o sol são o centro do Universo. O universo talvez não tenha centro…

Galileu Galilei descobriu os anéis de Saturno, as manchas solares, os satélites de Júpiter. Perseguido e ameaçado pela Igreja, Galileu foi obrigado a negar publicamente as suas ideias e descobertas. “E, no entanto, move-se” dizem que disse Galileu ao sair do tribunal onde foi obrigado a mentir. A Igreja estava enganada ao olhar para a Bíblia como um livro de ciência.

Galileu disse que era a Terra que andava à volta do sol, mas nunca conseguiu prova-lo, pois o que vemos é o sol que anda à volta da Terra: a experiência empírica aqui diz-nos o contrário da verdade. Ao pobre Galileu bastava-lhe ter dito que quando cavalgamos ou nos deslocamos numa carruagem de cavalos, sabemos que somos nós que nos movemos; no entanto, os nossos olhos vêm as árvores a moverem-se. Da mesma maneira, vemos que é o sol que se move, apesar de sabermos que está fixo em relação a nós porque nós, habitantes deste planeta, estamos montados no movimento de um astro que se move, como a carruagem.

Na medicina, os conhecimentos avançaram com trabalhos e experiências sobre a circulação sanguínea, métodos de cauterização e princípios gerais de anatomia. São deste tempo as primeiras autópsias para investigar a causa da morte e para aprender sobre o corpo humano e o seu funcionamento.

Conclusão: ao despertar de um sonho que durou mil anos, o renascentista deu-se conta de que a Idade Média, pelo trauma das invasões bárbaras, não era uma continuação lógica da Idade Antiga que tinha sido sepultada viva. O Renascimento foi um bypass do mundo clássico até à atualidade, sem passar pela Idade Média. Foi um ir beber às fontes e lançar raízes na Idade Antiga como modelo de inspiração, pondo de lado a Idade Média como se esta nunca tivesse acontecido. 

Pe. Jorge Amaro, IMC




15 de outubro de 2024

Cosmovisão Medieval

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Em termos históricos, a Idade Média tem esse nome  porque se situa a meio do percurso entre a Idade Antiga e a Idade Moderna. Começa no século V, com a queda do Império Romano do Ocidente e termina no século XV, com a transição renascentista para a Idade Moderna. Estes dez séculos de História da civilização ocidental costumam dividir-se em dois períodos: a alta Idade Média que vai do século V ao século X e a baixa Idade Média, do século X ao XV.

Causas do retrocesso cultural medieval
Há quem, de forma tendenciosa, culpe a Igreja pelo facto de a Idade Média ter sido um retrocesso cultural. É certo que a Igreja filtrou da cultura greco-romana só o que lhe interessava, mas também manteve muito desta cultura; se não tivesse sido assim, não teria preservado os manuscritos antigos, o que impossibilitaria o Renascimento.  

Para quem não é tendencioso, é claro que o fator principal para que a Europa mergulhasse num limbo ou num sonho de mil anos foi a tomada do poder pelos bárbaros, que levavam um atraso de mais de 2 000 anos em relação à cultura greco-romana. Este é decerto o fator principal, mas há outros que contribuíram ou acentuaram a Idade das Trevas.

 A Europa viveu durante a Idade Média num clima de instabilidade constante. A cultura não cresce em tempo de guerra. A Pax Romana tinha proporcionado o desenvolvimento cultural; o isolamento, a falta de comércio e de comunicações que o feudalismo causou transformou o mundo urbano e a sua cultura num mundo rural e fechado onde a agricultura era a única atividade para além das constantes guerras entre pequenos reinos e, dentro desses reinos, entre os senhores feudais o que não proporcionava um desenvolvimento cultural.

Enquanto dentro da Europa a Igreja se dedicava a educar os bárbaros, fora via-se constantemente ameaçada por outros bárbaros. Pelo lado ocidental, os muçulmanos, que tinham ocupado todo o norte de África, invadido a Península Ibérica e chegado até ao coração de França, até Poitiers, onde foram derrotados por Carlos Martel. O Império Otomano ameaçava pelo oriente estender-se pela Europa fora. A norte, surgiram os vikings, outra tribo germânica da Escandinávia que fazia rápidas incursões nas costas de Inglaterra e de França, com o único intuito de roubar, pilhar e matar.

Estes são todos os fatores que fizeram da Europa, unida pelo Império Romano, um monte de ilhas ou feudos desconectados entre si, com a única preocupação de sobreviver. A Igreja ou o cristianismo estava presente em todos estes estados e em todos eles foi o único fator de união. Por isso, foram possíveis empreendimentos como as cruzadas, porque não havia nenhum outro fator que conseguisse unir os povos e os fizesse sair dos seus feudos.

Alta Idade Média
A alta Idade Média é aquela que está mais longe de nós e mais perto da queda do Império Romano do ocidente. Durante este período de ocupação bárbara do Império Romano, os centros urbanos foram destruídos, o povo voltou ao mundo rural. Os bárbaros formaram pequenos reinos usando as estruturas do Império Romano. No século VII, tanto o Norte de África como o Médio Oriente se tornaram muçulmanos; este último tinha feito parte do Império Bizantino ou Império Romano do Oriente (o mais longo da história). Este Império continuou a existir por mais algum tempo, até 1453, já na baixa Idade Média, quando sucumbiu ao Império Otomano que durou mais 600 anos e acabou já depois da I Guerra Mundial, em 1922.

Durante a alta Idade Média, o cristianismo, que se constituiu a si mesmo como o herdeiro da cultura greco-romana, disseminou-se por toda a Europa e, como vimos no texto anterior, as tribos germânicas foram cedendo a esta narrativa religiosa muito superior à sua. Ao converter-se o chefe da tribo convertia-se toda a tribo por uma questão de lealdade, valor muito importante entre os bárbaros.

Ainda nesta alta Idade Média se dá uma tentativa, por parte dos francos durante a dinastia carolíngia, de restauração do antigo Império Romano. O Império Carolíngio surge nos séculos VIII e IX pela unificação dos reinos francos e germânicos durante a dinástica carolíngia, que se inicia com Carlos Magno. Mais tarde, este Império separou-se desta divisão; a parte oriental da França com o resto da Germânia formam o Império Romano Germânico durante o reinado da dinastia saxónia, com Oton I como imperador. Este foi nomeado como sagrado Imperador pelo Papa, facto que deu origem ao nome Sacro Império Romano Germânico.

Os imperadores germânicos consideravam-se sucessores diretos dos romanos. Estes imperadores eram eleitos por um conselho de quatro duques dos reinos mais importantes: Saxónia, Francónia, Suévia e Baviera. O imperador representava todo o Império, mas cada um dos reinos confederados tinha autonomia sobre o seu território que era governado segundo o sistema feudal. Este Império durou 900 anos: a partir da alta Idade Média, atravessou a baixa Idade Média e a Idade Moderna e entrou na Idade Contemporânea; terminou no ano de 1806, com as guerras napoleónicas.

Baixa Idade Média
A baixa Idade Média teve início no ano 1000; neste período dá-se um grande crescimento demográfico, o feudalismo é o sistema que impera por toda a Europa; o rei de cada estado era só uma figura simbólica, não tinha grande poder executivo. Durante este tempo, a Igreja estabelece-se não só como poder espiritual, mas também temporal, pois consegue incitar os nobres feudais a embarcar numa cruzada de reconquista da Terra Santa que o Império Bizantino tinha perdido para o Império Otomano.

Chegam de facto a conquistá-la, mas por pouco tempo, para logo a perderem, uma vez que o Império Otomano estava no seu apogeu. Não voltará a ser conquistada, nem por Ricardo, Coração de Leão, mas pelos ingleses na I Guerra Mundial. Nas cruzadas, as tribos germânicas mostram o seu lado bárbaro, pelo que fizeram mais mal que bem. Não conseguindo derrotar os muçulmanos, em 1204 na quarta cruzada voltaram-se contra os cristãos do Oriente, saqueando, aterrorizando e vandalizando Bizâncio que, enfraquecida, foi depois presa fácil para o poder otomano.

Os dois últimos séculos da baixa Idade Média ficaram marcados por várias guerras, adversidades e catástrofes. A população foi dizimada por sucessivas fomes e pestes; só a Peste Negra foi responsável pela morte de um terço da população europeia entre 1347 e 1350. Acontece também a Peste Negra Espiritual, com o Grande Cisma da Igreja no Ocidente que teve consequências profundas na sociedade e foi um dos fatores que estiveram na origem de inúmeras guerras entre estados.

A vida cultural foi dominada pela escolástica, uma filosofia que procurou unir a fé à razão, e pela fundação das primeiras universidades. A obra de Tomás de Aquino, a pintura de Giotto, a poesia de Dante e Chaucer, as viagens de Marco Polo e a edificação das imponentes catedrais góticas estão entre as mais destacadas façanhas deste período.

Feudalismo
A invasão bárbara provocou a fuga da cidade em direção ao campo. A Europa ocidental ruralizava-se, e a riqueza era a terra. A agricultura tornou-se na principal atividade económica, e a produção dos feudos era para o próprio sustento. Carlos Magno promoveu a distribuição de terras aos senhores feudais, exigindo em troca a sua fidelidade e auxílio em caso de guerra.

O feudalismo é o termo que usamos para toda organização social, política, cultural, ideológica e económica que existiu na Europa durante a Idade Média. O feudalismo é a ruralização da Europa urbana romana; as cidades só voltam a existir com a abertura do comércio na Idade Moderna, por altura do Renascentismo.

O símbolo do feudalismo é o castelo do senhor feudal, rodeado por terras de cultivo onde trabalham de sol a sol os servos da gleba, o povo, que prestam homenagem e vassalagem ao Senhor feudal ou Suserano, membro da Nobreza. Entre castelo e castelo encontram-se aqui e ali mosteiros onde vivem os monges que constituem a outra classe social, o clero.

Os nobres defendem o feudo pois são eles os proprietários das terras que o povo trabalha; o clérigo mantém a cultura e ensina tanto a religião como técnicas agrícolas ao povo, orando por ele; o povo sustenta com o seu trabalho tanto os nobres como o clero, se bem que este último era em grande medida autossuficiente. A Nobreza (bellatores) defende, o Clero (oratores) reza e o Povo (laboratores) trabalha: assim se resume a vida rural durante o feudalismo.

O ideal da cavalaria
O cavaleiro medieval encarna valores como a coragem, a proeza, a infalível lealdade, a fidelidade à palavra dada, a dignidade e a honra. Tem por norma defender os mais pobres e lutar pela justiça e pela paz. Leva uma vida errante de solidão, pelas batalhas e escaramuças que vai enfrentando. Está apaixonado por uma donzela com quem tem uma relação de amor platónico à distância.

Tem que dar provas de temperança em batalha, de generosidade, tanto em relação aos amigos como aos inimigos, e de cortesia para com as mulheres. A liberalidade do cavaleiro que redistribui todos os seus bens às pessoas e aos pobres faz parte da sua fama. Os valores celebrados pela cavalaria são o fruto de uma longa educação.

O aspirante a cavaleiro, deve fazer a sua aprendizagem junto de um senhor de quem passa a ser o criado e depois o escudeiro. Aprende então tanto o manejo das armas como a ética da cavalaria. Uma vez investido, deverá demonstrar o seu valor atuando nos torneios ou participando das aventuras que lhe surgem pela frente. Na procura de glória e reconhecimento, estes cavaleiros errantes vão realizar igualmente múltiplas buscas, das quais a mais prestigiosa é a do Santo Graal, ou seja, o cálice da Última Ceia de Jesus e tambéma da arca da aliança.

Os Templários
Assim chamados porque nasceram no templo de Jerusalém onde buscavam precisamente o Santo Graal; foram uma ordem religiosa militar. Estes e outros membros de ordens religiosas militares eram quem melhor encarnava o espírito do cavaleiro, pois, ao não casar, dedica toda a sua vida à guerra santa ou justa. Eram os mais temidos pelos muçulmanos pois eram mártires da causa; de facto, quando os muçulmanos aprisionavam um templário não se contentavam em matá-lo como faziam com qualquer cruzado, mas torturavam-no durante muito tempo antes de o matar.

Os Templários cresceram em poder e em riqueza e chegaram a ter em França mais terras, mais poder e riqueza que o próprio rei de França, pelo que este, juntamente com o Papa, combinou a sua dissolução. Antes que isto acontecesse, a armada dos templários zarpou de França e diz-se que veio para Portugal, onde o rei D. Dinis, numa atitude inteligente, em vez de dissolver uma Ordem poderosa em Portugal desde D. Afonso Henriques, mudou-lhe o nome para cavaleiros da Ordem de Cristo. Os Descobrimentos portugueses foram feitos pelos templários, financiados pelos judeus. De facto, as caravelas portuguesas levavam nas suas velas a cruz quadrada dos templários.

Eclesia mater ed magistra
“Em terra de cego quem tem um olho é rei” diz o povo; a Igreja tornou-se uma instituição poderosa e influente não apenas na religião, mas também na sociedade medieval. Os povos germânicos não estavam minimamente interessados na cultura, não sabiam ler nem escrever, mas sabiam que a formação e a informação representam poder, por isso reconheciam na Igreja não só um poder religioso, como também cultural, como herdeira da cultura greco-romana. Consequentemente, era respeitada, apesar de, como mais tarde Hitler afirmou, não ter exércitos para submeter os povos.

O poder da Igreja era só espiritual. No entanto, como o ser humano é um ser espiritual, quando submetes a alma de uma pessoa, submetes o seu corpo uma vez que o corpo obedece aos ditames da alma. Podemos ver uma imagem dessa submissão no seguinte episódio que é iconográfico e representativo da Idade Média e das relações entre a Igreja e os povos germânicos:

quando o feroz chefe e rei dos hunos estava para invadir e saquear Roma, cobiçada por todas as tribos germânicas, o papa S. Leão Magno saiu ao seu encontro e, por meios pacíficos certamente, conseguiu dissuadi-lo desta invasão.

Os reinos germânicos adaptaram os seus costumes aos dos romanos. A Igreja aliou-se aos reis e tornou-se na grande ponte entre o mundo germânico e o mundo romano. Os povos bárbaros abandonaram as suas antigas práticas religiosas e aderiram ao cristianismo. A fé cristã expandiu-se pela Europa ocidental, reforçando o poder do Papa. Foi no Império Carolíngio, no século VII, que a Igreja conseguiu consolidar o seu domínio, continuando depois no Sacrossanto Império Romano Germânico.

Nos séculos IV e V, com uma pregação intensa e geral, em pouco tempo a Igreja converteu ao cristianismo os povos conquistadores do Império Romano. Numa época de guerras, desagregação e fragmentação do poder, como foi o feudalismo, a religião era o único fator de união entre os povos. Era também a única instituição do mundo antigo capaz de fazer frente à hegemonia dos novos dominadores bárbaros.

Era a Igreja que garantia a paz e defendia os povos dos excessos dos invasores bárbaros, opondo-se às injustiças, não pela força das armas que não as tinha, mas pela força da razão, da decência e da ética. Os bárbaros respeitavam a Igreja pelo ascendente que esta tinha perante o povo e por ser a herdeira do grande Império Romano que, de facto, ainda existia no oriente. Com a subjugação das populações nas zonas mais rurais, o único poder era o do bispo; por outro lado, a nível de Roma, o Papa era o único representante do ocidente romano. Desta forma, a Igreja tornou-se num poder político e, como tal, também cometeu alguns erros.

Monaquismo
Os monges e os frades eram os cavaleiros espirituais da Idade Média. A cultura da Idade Média estava concentrada nos mosteiros. A produção da Antiguidade Clássica foi guardada e os monges copistas tinham a missão de copiar os textos antigos para que não se perdessem com o tempo. O acesso às bibliotecas dos mosteiros era restrito e o trabalho era manual.

Na Europa da alta Idade Média, dividida em tantos reinos instáveis, a Igreja era a única instituição forte e eficiente, instruída, rica e presente em todo o lado. Nas cidades, o bispo era frequentemente a única autoridade existente. No mundo rural, afirma-se a presença dos mosteiros com a regra Beneditina de “Orat ed labora”: o monge não deve apenas rezar, mas também trabalhar para se sustentar a si mesmo e a quem necessita.

Em toda Europa, nasceram mosteiros beneditinos e cistercienses que se transformaram em centros económicos e que, através da agricultura e da criação de animais, produziam alimento para as populações.

Estes mosteiros foram oásis de cultura e celeiros da mesma, pois era aqui que se copiavam os antigos textos latinos e gregos. Sem estas cópias, estes textos ter-se-iam perdido. A invasão bárbara do império romano parece ter feito a cultura andar para trás, mas a Igreja preservou essa cultura, pois era a única herdeira das últimas civilizações ilustradas: a da Grécia e a de Roma.

Os americanos chamam a esta idade a Idade das Trevas e de alguma forma o foi. No entanto, custa a acreditar que precisamente nesta época se tenham construído os edifícios mais belos que o mundo já construiu: as catedrais góticas. Cada pedra foi talhada para ocupar um lugar exato, sem cimento e sem ferro, arcos, colunas, ogivas, abóbadas, um conjunto harmonioso e elegante, iluminado pelos vitrais multicolores, um autêntico céu na terra.

A catedral gótica como ex libris da cosmovisão medieval
Foram necessários os templos gregos e as basílicas romanas para que houvesse catedrais góticas; no entanto, qualquer que seja a dívida dos arquitetos medievais para com seus predecessores, a verdade é que os superaram mil vezes. A catedral gótica representa um avanço exponencial em relação à arquitetura grega e romana.

A vertiginosa verticalidade de tais edificações revela plenamente as transformações do gosto, do pensamento filosófico escolástico, dos ideais estéticos, traduzidas, para o plano arquitetónico, por uma renovação das técnicas mediante a introdução de uma série de elementos originais típicos do estilo gótico: a abóbada sustentada por uma cruzaria ogival, a utilização do arco quebrado em vez do arco de volta inteira, ou arco românico, o emprego do arcobotante e dos contrafortes para sustentar o teto de pedra formado por um conjunto de abóbadas.

É a cosmovisão cristã que explica a unidade de espírito que caracterizou a civilização medieval, e daí a razão de existir uma íntima relação entre a escolástica e as catedrais góticas, uma vez que a plena aceitação da conceção católica da vida gerou, não somente um autêntico e inconfundível estilo de vida, como também uma filosofia e um estilo arquitetónico próprios.

Como indicam as teses de S. Tomás de Aquino, fundador da filosofia escolástica, a Deus chega-se não só pela fé, mas também pela razão, ou seja, por um esforço do pensamento complexo mas requintado, rigidamente formal mas rico de subtilezas. Esses mesmos conceitos inspiraram na arquitetura as catedrais góticas, a sua ascensão para Deus, através de construções complexas, mas requintadas, formalmente rigorosas, mas de igual modo ricas de pormenores. Deste modo, pode afirmar-se que o pensamento escolástico se vê perfeitamente expresso na arquitetura das catedrais góticas.

Conclusão: É certo que a constante instabilidade interna provocada pelas invasões bárbaras e pelo fim da Pax Romana, assim como a instabilidade externa causada pela constante ameaça dos vikings a norte e dos muçulmanos a oriente, sul e ocidente, fizeram a Europa mergulhar num limbo de paralisia e retrocesso cultural. No entanto, também foi esta Idade que produziu um alto paradigma de humanidade no ideal de cavalaria, e na catedral gótica com o exponente mais lato da arquitetura mundial.

Pe. Jorge Amaro, IMC






1 de outubro de 2024

Cosmovisão dos Bárbaros

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Para os Gregos, os povos ao norte das suas fronteiras, falavam uma língua que os gregos não entendiam. Para eles balbuciavam algo como um bar-bar, o que deu origem à palavra bárbaro, que passou a designar o estrangeiro. Mais tarde, para os romanos, o termo latino barbarus, era aplicado aos povos estrangeiros que não falavam latim e não seguiam as leis romanas e também não participavam da sua civilização.

Os bárbaros que conquistaram o Império Romano do Ocidente eram tribos germânicas que nunca criaram cultura ou civilização nem estiveram sequer interessados em criá-la. Falamos dos hunos, dos vândalos, de onde vem a palavra vandalismo, dos godos, dos francos, dos lombardos e dos saxões e, mais tarde, já em plena Idade Média, dos vikings. Apelidar estes povos de bárbaros pode parecer depreciativo, mas estes povos eram de facto bárbaros, com uma cultura bem primitiva comparada à greco-romana, poucos valores humanos, dedicavam-se a destruir, matar, roubar, pilhar e violar.

Como ainda não conheciam a escrita, embora ela já existisse há muito tempo, viviam ainda na pré-história, por altura da Idade do Ferro, sendo o ferro o elemento mais importante para as suas guerras. De resto, o seu desenvolvimento cultural ou civilizacional tinha um atraso de mais de 2 000 anos em relação à cultura greco-romana.

A Grécia podia ter considerado a invasão romana como sendo uma invasão bárbara, uma vez que já possuía uma cultura em geral muito mais desenvolvida que a romana, embora os romanos fossem melhores em coisas como a administração do Estado, o Direito e a Arquitetura. A invasão romana da Grécia não foi tida como uma invasão bárbara pelos gregos porque os romanos, apesar de poderosos, eram também mais humildes que os gregos ao não imporem a sua cultura, nem a sua religião nem a sua língua como os gregos tinham feito aos povos dominados.

Os romanos aceitavam a cultura dos outros, respeitavam e eram tolerantes com os seus usos e costumes, e às vezes deixavam, como no caso da Galileia, que fossem governados pelos seus próprios reis, desde que pagassem tributo a Roma. De facto, Roma só fez valer a sua cultura nos povos que a não tinham, ou seja, em todo o Ocidente. Por isso no Ocidente se falam hoje línguas neolatinas; o português, o espanhol, o italiano, o francês, o romeno e 50% da língua inglesa.

No Oriente prevaleceu o grego que foi mais tarde a língua do Império de Bizâncio, o Império Romano do Oriente que durou bastante mais tempo, sendo suplantado por um império político-religioso, o Império Otomano que só acabou depois da I Guerra Mundial.

Com a queda do Império Romano, o mundo ocidental mergulhou naquilo a que os historiadores ingleses chamam a Idade das Trevas. Em relação à Idade Antiga, a Idade Média representou um retrocesso a todos os níveis. Os bárbaros que conquistaram o Império só estavam interessados nas suas riquezas, não em construir uma cultura ou uma civilização. A cultura teve de refugiar-se e esconder-se nos mosteiros, onde foi preservada uma versão cristã do mundo antigo. A Idade Média pode ser vista como um longo período em que a Igreja pacientemente foi educando estes bárbaros que detinham o poder político, com a cultura greco-romana que tinha herdado.

Causas da queda do Império Romano
Dado que o Império tinha crescido desmesuradamente, era imenso e difícil de governar. No século III, o Imperador Diocleciano dividiu-o em dois, entre Ocidente com a capital em Roma e Oriente com capital em Constantinopla ou Bizâncio. A curto prazo esta parecia ser uma boa medida para melhor governar um império tão vasto. No entanto, com o tempo, as partes começaram a divergir; no Ocidente falava-se apenas o latim, no Oriente falava-se apenas o grego. Sem inimigos, o Oriente cresceu em poder e riqueza, enquanto que o Ocidente foi definhando pouco a pouco, tanto a nível económico como militar.

Uma das principais causas da queda do Império Romano do Ocidente foi a invasão dos bárbaros, protagonizada pelos povos germânicos que habitavam a região a leste das fronteiras do Império. Entre outras causas contam-se também a decadência da economia baseada nos escravos que trabalhavam a terra e eram artesãos, a desestruturação militar assim como o gasto militar em guerras fronteiriças que nunca terminavam.

O processo de entrada dos povos germânicos no Império Romano ocorreu inicialmente de forma gradual. A nordeste da Península Itálica, as fronteiras do Império Romano tinham como limite os rios Danúbio e Reno. Os povos e tribos que habitavam para além desses rios eram considerados pelos romanos como germanos.

Desde o tempo de César que os romanos tinham conhecimento da existência desses povos. Estavam organizados em clãs, não possuíam uma instituição estatal como a romana, e as suas leis eram baseadas na tradição, transmitida oralmente, pois não conheciam a escrita. Dedicavam-se à agricultura e ao pastoreio. Pelo clima frio em que viviam eram destemidos e aguerridos. Eram povos guerreiros, o que lhes valeu a fama de serem violentos e cruéis.

Ao princípio no espírito da famosa Pax Romana, os romanos estabeleceram pactos com estas tribos; como dissemos anteriormente, os romanos só estavam interessados no pagamento do tributo a Roma e, quando os povos dominados o faziam, era-lhes concedido um elevado grau de autonomia. Porém, com o enfraquecimento do poder central, estes povos foram adquirindo cada vez mais autonomia e independência, constituindo-se em autênticos reinos que a enfraquecida Roma já não tinha poder para enfrentar.

Por volta do ano 300 d.C., grupos bárbaros como os godos invadiram as fronteiras do Império. Os romanos resistiram a uma revolta germânica no final do século IV, mas em 410 o Rei visigodo Alarico saqueou com sucesso a cidade de Roma. O Império passou as décadas seguintes sob ameaça constante, antes de "a Cidade Eterna" ser invadida novamente em 455, desta vez pelos vândalos.

Finalmente, em 476, o líder germânico Odoacer encenou uma revolta e depôs o Imperador Romulus Augustulus. A partir daí, nenhum imperador romano voltaria a governar a partir de um posto na Itália, levando muitos a citar 476 como o ano em que o Império Ocidental sofreu o seu golpe mortal.

Origem das tribos germânicas
Os povos germânicos são originários das planícies da Dinamarca e do sul da Escandinávia. Existem vestígios de assentamentos humanos nesta zona que datam do Neolítico, quando o homem começou a controlar a Natureza, domesticando a terra e as plantas assim como algumas espécies de animais para o seu sustento.

Quando falamos de tribos germânicas, falamos de muitas tribos das quais as mais importantes são os hunos, os vândalos, os godos, os visigodos e os ostrogodos, os francos, os lombardos, os saxões e os anglo-saxões.

Os vikings eram também fundamentalmente uma tribo germânica que habitava mais a norte, na Escandinávia e que assolou a Europa como piratas durante a Idade Média, quando as tribos germânicas já estavam estabelecidas, formando os primeiros Reinos depois da queda do Império Romano.

Como a população germânica crescia e o Império enfraquecia, os povos germânicos começaram a emigrar em todas as direções, mas mais para o sul e oeste, em busca de melhores terras pois as suas já não chegavam. Ostrogodos, visigodos e lombardos entraram em Itália; vândalos, e francos e visigodos conquistaram grande parte da Gália e dos celtas que ali habitavam, vândalos, suevos e visigodos invadiram a Península Ibérica. Destes, os vândalos chegaram a estabelecer-se no norte de África, em Cartago e os alanos estabeleceram-se no Reno e nos Alpes.

Na Grã-Bretanha, os saxões uniram-se aos anglos e a outras tribos locais, formando os anglo-saxões que dominaram a Inglaterra até à conquista dos normandos, já na Idade Média. No resto das ilhas, Escócia, País de Gales e Irlanda continuaram a ser maioritariamente celtas. Os celtas não eram uma tribo germânica. Tinham cultura própria e habitavam a Europa Central. Eram os famosos habitantes da Gália, os gauleses conquistados por Júlio César. Também tinham invadido a Península Ibérica antes dos romanos, unindo-se aos primeiros povos que a tinham invadido, os iberos, provenientes do norte de África.

Cultura e organização das tribos germânicas
A sociedade germânica primitiva caracterizava-se por um rigoroso código de ética, que valorizava sobretudo a confiança, a lealdade e a coragem. Adquirir honra, fama e reconhecimento era uma ambição primordial. A independência, a autonomia e a individualidade eram valores muito enfatizados.

É provavelmente esta a razão pela qual os povos germânicos nunca constituíram um grande império ou mesmo um Estado germânico unificado. O ambiente em que os povos germânicos emergiram, nomeadamente a sua ligação à floresta e ao mar, desempenhou um papel importante na formação destes valores. A literatura oral germânica está cheia de desprezo por personagens que não conseguiram viver os ideais germânicos.

Na língua germânica, ger-man significa o homem da lança. Para os povos germânicos, a perda da lança ou do escudo era o equivalente à perda da honra. Os germânicos eram guerreiros por natureza, nasciam na guerra e para a guerra; desde pequenos, eram treinados na arte da guerra tal como os espartanos. A lealdade e devoção ao clã a que pertenciam e, por este, à tribo e ao seu líder, era um dos valores mais altos do germânico; este sentido de união conseguiu-lhes muitas vitórias.

A realeza é, portanto, um elemento fundamental que une a sociedade germânica. Como aconteceu com outros povos, a sua origem como instituição é sagrada e, por isso, o rei combina as funções de líder militar, sumo sacerdote, legislador e juiz.

A monarquia germânica era, em parte, eletiva; o rei era eleito pelos homens livres de entre candidatos elegíveis de uma família que pudesse traçar a sua ascendência até ao fundador divino ou semidivino da tribo. Embora a sociedade germânica fosse altamente estratificada entre líderes, homens livres e escravos, a sua cultura também enfatizava a igualdade. Ocasionalmente, os homens livres da tribo chegavam a anular as decisões dos seus próprios líderes.

Por influência do Império Romano, o poder dos reis germânicos sobre o seu próprio povo aumentou ao longo dos séculos, em parte porque as migrações em massa do tempo exigiam uma liderança mais severa.

Literatura
Como os germanos não conheceram a escrita antes do seu encontro com a cultura romana, a literatura germânica passava oralmente de geração em geração. O seu conteúdo estava ligado ao seu objetivo principal que era honrar os deuses ou louvar os antepassados tribais, chefes, guerreiros e seus associados, esposas e outros familiares.

Religião
Segundo o escritor romano Tácito, os povos germânicos adoravam principalmente "Mercúrio", mas também "Hércules" e "Marte". Estes eram geralmente identificados com Odin, Thor e Týr, os deuses da sabedoria, trovão e guerra, respetivamente. Também veneravam as deusas Nerthus e Freya.

As descobertas arqueológicas sugerem que os primeiros povos germânicos praticavam alguns dos mesmos rituais “espirituais” que os celtas, incluindo o sacrifício humano, a adivinhação e a crença na conexão espiritual com o ambiente natural que os rodeava. Como os romanos, havia uma diferença entre o culto doméstico e o culto da comunidade; em casa, o pai de família desempenhava o papel de sacerdote.

As cerimónias religiosas eram executadas em bosques, lagos e ilhas considerados sagrados, e não em templos; os povos germânicos não construíram templos para realizar os seus ritos religiosos. Para os sacrifícios oferecidos aos deuses, todo o tipo de gado era abatido, e até mesmo pessoas, sendo o sangue aspergido sobre o povo que depois fazia brindes aos deuses e comia a carne. As vítimas, tanto humanas como animais eram penduradas nas árvores. Uma das árvores do bosque seria a mais sagrada entre todas as outras e por baixo dela estaria um poço no qual um homem vivo seria sepultado.

Não se conhece nenhuma conceção comum a todas as tribos germânicas sobre a vida após a morte. Alguns acreditavam que os guerreiros heróis caídos iriam para Valhalla para viver felizes com Odin, enquanto que os maus poderiam perseguir os vivos depois de mortos; se isso acontecesse, teriam de ser mortos mais de uma vez para deixarem de perseguir os vivos. Provavelmente foi aqui que a série “Guerra dos Tronos” se inspirou para criar os “Walkers”, mortos-vivos que tinham de ser mortos pelo fogo para permanecerem mortos.

Depois da conquista do Império Romano, os povos germânicos foram-se paulatinamente convertendo ao cristianismo em diferentes períodos: os godos no século IV, os saxões nos séculos VI e VII, por pressão dos francos já convertidos; os dinamarqueses, sob pressão alemã, no decorrer do século X. O paganismo aguentou-se por mais tempo nas terras mais a norte, Islândia, Noruega e Suécia.

Conclusão: Apesar de levarem um atraso significativo de mais de 2000 anos em relação ao desenvolvimento cultural e à civilização greco-romana, os povos germânicos contribuíram para a Europa medieval com os seus valores de autonomia, independência e liberdade, fundamentados no princípio de que todos somos iguais em dignidade.

Pe. Jorge Amaro, IMC