1 de junho de 2021

3 Mães: Terreal - Celestial - Eclesial

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… Estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo. Mateus 28, 20

Enquanto crianças, temos duas mães na Terra e uma no Céu; enquanto adultos, temos duas no Céu e uma na Terra. Os cristãos, ou pelo menos os católicos, têm sempre uma mãe na Terra e outra no Céu. Com o tempo, podemos perder, e perderemos certamente, a mãe que nos deu à luz; mas nem assim ficamos órfãos: a Santa Madre Igreja nunca a perdemos, pois, tal como as outras duas, precede-nos e continuará na Terra depois do nosso tempo, até ao fim dos tempos.

Recebemos a vida que Deus nos transmitiu através da nossa mãe que nos deu à luz. Esta é a nossa mãe individual, que desde bem cedo nos leva à Santa Madre Igreja, onde encontramos uma mãe que é, ao mesmo tempo, temporal, como a que nos deu à luz e “eterna” ou, melhor dizendo, temporalmente eterna pois durará enquanto o tempo existir. Assim, temos sempre duas mães na Terra e uma no Céu, ou duas no Céu e uma na Terra. Nunca estamos órfãos pois, onde quer que estejamos, temos sempre uma ou duas mães que nos consolam e nos confortam.

A NOSSA MÃE NA TERRA
Mãe… Palavra tão pequenina, bem sabem os lábios meus, que és do tamanho do Céu e apenas menor que Deus. Mário Quintana

Mamã, é a primeira palavra que aprendemos, sendo papá a segunda. Estas são as únicas duas pessoas às quais nunca tratamos pelo próprio nome. Nunca esquecerei o funeral do pai de um sacerdote que nunca nomeou o nome do pai, nem ao princípio, nem na homilia, nem no cânone, nem nas orações de despedida, mas sempre se referiu a ele como “pai”.

A nossa mãe não tem nome, é apenas a nossa mãe e, quando nos relacionamos com ela mesmo em adultos, voltamos a ser a criança que éramos, voltamos a submeter-nos. Para uma mãe, o filho nunca cresce; para um filho, a mãe nunca envelhece. Recordo o afeto e o respeito com que a minha mãe, nos seus 40 anos, tratava a sua mãe. Os filhos aprendem a ser filhos quando veem a forma como os seus pais se relacionam com os pais deles.

Maternidade versus paternidade
Dizem que as mães querem mais /Ao filho que mais mal faz / Por isso te quero tanto /Que tantas mágoas me dás. Horácio Menano, Fado Solitário

Para nós, católicos, não deixa de ser insólito que S. José, que apenas foi pai adotivo de Jesus e não pai biológico, seja o padroeiro dos pais. É justo que assim seja por duas razões:

a paternidade educadora e educativa é mais importante que a progenitura biológica; ser pai biológico não custa nada, comporta apenas um ato sexual que se supõe que seja por amor e com amor; ser pai educativo implica toda uma vida de dedicação e sacrifício por um filho.

Por outro lado, é justo que seja S. José o padroeiro dos pais, da paternidade ou do amor paternal porque, no fundo, se pensarmos bem, todos os pais são “existencialmente” pais adotivos. Enquanto que o ser mãe biológica comporta conceber e alimentar primeiro no seu seio, depois do nascimento dos seus seios; ser mãe, é uma experiência física psicológica e espiritual, ao passo que o ser pai biológico acontece a nível genético, não físico, nem afetivo nem espiritual.

Todos os pais, tanto biológicos como adotivos, vêm a conhecer os seus filhos muito mais tarde. E para que este filho reconheça o seu pai são precisos anos; ao princípio só conhece a mama, depois mais tarde vê mais além da mama, a mamã. Só quando o bebé com
eça a comer papa é que vem a conhecer o papá.

Nos primeiros anos da sua existência, o bebé não precisa do pai, a mãe basta-lhe. Só quando começa a abrir-se ao mundo e, precisamente como ajuda para se ir separando da mãe, o pai ajuda o bebé a integrar-se na sociedade, sendo fundamental no momento da socialização.

Depois, mais tarde na vida, como criança adolescente, jovem e adulto, o pai é “um arameu errante”: está sempre mais distante do seu filho que a mãe. Mãe e casa no sentido de lar são uma e a mesma coisa; a mãe é sempre um porto seguro ao qual se pode regressar para fugir das tempestades da vida.

Tanto o amor paternal como o maternal são incondicionais, mas se dos dois tivéssemos que escolher o que é mais incondicional, nem precisaríamos de pensar para chegar à conclusão de que é o maternal. O pai é mais exigente e, de alguma forma, para dar amor precisa de ver frutos. Certos pais sujeitam o seu amor ao triunfo ou ausência dele na vida dos seus filhos. Alguns pais chegam mesmo a abandonar os seus filhos quando estes não se corrigem ou não vão bem na vida.

A mãe não pode deixar de amar o fruto das suas entranhas e, ao contrário do pai que pode chegar a pôr de lado o filho que não singra na vida, a mãe é capaz de se dedicar ainda mais a esse filho, precisamente por isso, por a vida lhe ser adversa. Tal como Sta. Mónica que rezou 30 anos pela conversão do filho, uma mãe nunca desiste.

Amor versus instinto
Jesus sintetizou os 10 mandamentos com as suas centenas de adendas no “amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo” e disse que todo o Antigo Testamento se resumia a isso. O que prevaricava e não cumpria os mandamentos teria de fazer um sacrifício, dar algo das suas possessões para oferecer a Deus em resgate da dívida que tinha contraído com Ele quando o ofendeu.

Ao fim da sua vida, Jesus deu o seu mandamento, “dou-vos um mandamento novo”, este não estava no Antigo Testamento, mas era seu, era novo. Amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Já não é amar ao outro como nos amamos a nós mesmos, mas muito mais do que nos amamos a nós mesmos. O sacrifício agora já não é oferecer algo do que tens, mas oferecer-te a ti mesmo. Por isso Jesus diz, ninguém tem maior amor que o que dá a vida pelos seus amigos.

Por aqui nos damos conta do longe que estamos do cumprimento do evangelho. Se conseguíssemos amar o nosso próximo como nos amamos a nós mesmos já não estaria mal, mas muitas vezes nem isso conseguimos – somos egoístas e queremos muito mais para nós que para o nosso próximo.

Se perguntarmos, porém, a uma mãe se ama o seu filho como se ama a si mesma ou mais do que se ama a si mesma, a resposta será fácil: qualquer mãe ama o seu filho muito mais do que se ama a si mesma e certamente estaria disposta a morrer por ele se um deles tivesse que morrer. E as fêmeas dos mamíferos e das aves não protegem também as suas crias e estão também elas dispostas a morrer por elas? É isto amor ou instinto maternal?

Chama-se paternalismo, mas deveria chamar-se maternalismo porque o comportamento ou atitude de “mãe galinha” é mais próprio das mães que dos pais. Uma mãe galinha será uma péssima sogra; de facto, todas as anedotas são contra as sogras e não contra os sogros. Não há muito que ouvi um marido queixando-se, “a minha mulher não faz nada sem consultar a mãe dela; todos os dias passam horas ao telefone…” e concluía, “casei-me com duas mulheres” … Muitas mulheres têm dificuldade em cortar o cordão umbilical, em separar-se dos seus filhos. Mas não há verdadeiro crescimento sem separação; nenhuma árvore cresce bem à sombra de uma outra árvore, necessita da luz direta do sol.

Convém que ele cresça e eu diminua – Toda a educação deve levar à autonomia e à independência; manter o outro na nossa dependência, como se fossemos eternos, não é prepará-lo para a vida sem nós. Os pais sabem que são temporais, ser pai ou mãe é um trabalho temporário até os filhos atingirem a idade adulta. Não há escolas eternas, ninguém é estudante para sempre, ninguém é filho em idade de educação para sempre.

Isto é claro nos animais que estão perto de nós na evolução das espécies; há um tempo em que a fêmea deixa de reconhecer a cria e de se comportar com ela como mãe; esta deve valer-se por si mesma. Vemos isto nas andorinhas ao fim do verão; supostamente já devem ter aprendido a voar e quando não se lançam do ninho no primeiro voo são mesmo os pais que as empurram, que as empurram para a vida.

Nos animais há, portanto, um mecanismo que põe fim ao instinto maternal; o mesmo não acontece nos humanos. Neste, como em outros campos, deve ser a maturidade psicológica que tem que pôr fim ao instinto e transformá-lo num amor adulto que busca a autonomia e o bem do outro, não o manter numa eterna dependência enfermiça para ambos, tanto para a mãe como para o filho.

A maternidade configura a feminilidade
Como a participação na gestação de um ser humano é pouco significativa para o varão, poucas mudanças ocorrem nele com o nascimento do seu filho. Muitos continuam até a comportar-se como se não fossem pais. O mesmo não acontece no caso da mulher. O seu corpo muda não só durante os 9 meses, mas depois destes. A principal mudança, porém, opera-se a nível psíquico e espiritual.

Muitos maridos se queixam de que depois das suas esposas serem mães, estas vivem quase exclusivamente para o seu filho, negligenciando o marido. É como se ser mãe lhes enchesse as medidas, lhes bastasse; muitas mães chegam a afirmar que o amor da sua vida não é o marido, mas o seu filho.

Por estranho que pareça, também nós não olhamos para uma mulher da mesma forma depois da sua experiência de maternidade. Se virmos uma mulher de seios descobertos o nosso sentimento é um, se virmos essa mesma mulher amamentando um bebé, já não olhamos para os seus seios da mesma forma. Olhamos para ela e para os seus seios em relação ao bebé, não os abstraímos do bebé.

Modelo de identificação para a filha
Filho és pai serás, como fizeres assim acharás

Depois do complexo de Édipo ou de Electra, as crianças começam a olhar mais para o progenitor do mesmo sexo. Mesmo na escola, as crianças que estão a descobrir a sua própria identidade juntam-se mais às outras crianças do mesmo sexo do que às do sexo oposto. A mãe é modelo de identificação para as meninas, assim como o pai o é para os meninos.

Libris ex libris fiunt – A menina olha para a mãe como uma semideusa e trata de imitá-la em tudo; supostamente imita as suas virtudes, mas frequentemente também imita os seus defeitos. Os pais deviam ter consciência dos seus defeitos e tentar contê-los para não os passar para os próprios filhos, pois como alguém dizia, a educação é aérea – é o ambiente que se cria em casa que é educativo, são as atitudes exibidas pelos pais no dia a dia da vida familiar que são educativas ou deseducativas.

Para que a humanidade cresça, os pais devem passar aos seus filhos as suas virtudes e não os seus defeitos. Os filhos deviam, como numa corrida de estafetas, purificar, refinar a humanidade recebida dos seus pais e levá-la a um outro patamar.

O primeiro amor para o filho
Dicem que el hombre no es hombre mientras no oye su nombre de labios de una mujer. António Machado

O complexo de Édipo para o menino e o complexo de Electra para a menina não são sonhos de uma noite de verão ou fantasias de Freud. São reais e todos os experimentámos na nossa vida infância. Como o pai é para a menina, a mãe é o primeiro amor da vida do menino, a primeira experiência com o sexo oposto. Não é a menina que encontra no jardim de infância, na escola primária ou na escola secundária; essa menina já é a segunda, a primeira foi a mãe.

Como as primeiras experiências, tanto boas como más, são as que nos marcam mais profundamente para o resto das nossas vidas, a vivência com a nossa mãe, para além de ter o peso e a importância de uma primeira experiência, também se transforma em arquétipo, paradigma ou modelo das experiências posteriores.

Passaremos o resto da nossa vida, inconscientemente, medindo todas as mulheres em relação à nossa mãe que, sem querer, é inconscientemente o padrão do que entendemos por mulher e, ao fim acabamos por casar-nos com ela como muito bem diz Freud. Ou seja, casamo-nos com uma mulher que é como ela, se a vivência com a nossa mãe tiver sido positiva ou que é totalmente oposta a ela, se a vivência com a nossa mãe tiver sido negativa. Tanto num caso como no outro, ela, a nossa mãe, é sempre o ponto de referência.

Evidentemente tudo o que disse em relação à nossa mãe vale de igual forma para as meninas na sua relação com o pai. Dizem que as meninas que têm uma boa relação com o pai namoram muito mais tarde pois, para o que precisam num homem, já o têm em casa. As que se relacionam mal com o pai ou têm um pai distante, desinteressado e inexistente, começam a namorar mais cedo e, inconscientemente, não andam à procura de um namorado ou de um noivo, mas sim de um pai que não têm em casa. Evidentemente a consequência de uma relação estabelecida com base nestas motivações é inevitavelmente o fracasso.

Por experiência posso afirmar que nenhuma mulher pode substituir a mãe se esta existir. Em pleno complexo de Édipo, entre os cinco e seis anos de idade, estando eu completamente enamorado pela minha mãe como toda a criança nessa idade, não sentia que o meu amor fosse correspondido porque a minha mãe sempre foi fria e distante, pouco afetiva em gestos ou em palavras.

Por este tempo, ao entrar para a escola, tive como professora a D. Soledade uma jovem e belíssima professora no seu primeiro ano letivo. Ela gostava muito de mim e, como era muito afetiva, não se cansava de mo referir por palavras e por gestos; mas eu não lhe correspondia, lembro-me muito bem como se fosse hoje, de andar confuso, de não entender por que a minha mãe não era como a minha professora e de como desejava receber amor só da minha mãe. Em resultado deste estado, um dia agredi a minha pobre professora, dei-lhe um valente pontapé nas canelas. A dor foi tão forte que até se lhe soltou o sangue do nariz, coisa que lhe acontecia com frequência.  

A NOSSA MÃE NO CÉU
Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: Mulher, eis aí o teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí a tua mãe. E dessa hora em diante o discípulo levou-a para a sua casa. João 19, 26-27

O mundo foi ingrato para com Jesus e, provavelmente, Maria, sua mãe, foi das poucas pessoas que o amou. Por isso nos momentos finais da sua vida, Jesus não se esqueceu da sua mãe que, como a viúva de Naim, estava a perder o seu único filho sendo já viúva e se preparava para ficar sozinha no mundo. No episódio da viúva de Naim, Jesus dá um filho a uma mãe; no alto da cruz, Jesus dá uma mãe a um filho, ao discípulo amado que representa todo o discípulo de Jesus.

Não é bom discípulo, não é discípulo amado do Mestre quem não acolhe a Maria, sua mãe, na sua casa, quem a deixa aos pés da cruz com um filho morto nos braços, quem a abandona à sua dor e não a consola no seu lar.

Maria é mãe de Cristo porque foi ela que lhe deu um corpo, que o concebeu no seu seio virginal; Maria é mãe da Igreja porque assistiu em oração com os apóstolos ao seu nascimento com a vinda do Espírito Santo. Já conhecedora do Espírito Santo por quem tinha concebido por obra e graça, Maria era a pessoa mais qualificada para guiar os apóstolos nos caminhos do Espírito, a pessoa mais capacitada para os catequizar em preparação para o Pentecostes do Crisma dos Apóstolos, a treinadora dos apóstolos em matéria do Espírito Santo. Uma Igreja sem Maria como mãe seria um orfanato, como diz o Papa Francisco.

Maria é nossa mãe agora e na hora da nossa morte. Maria constantemente ora por nós em todos os agoras da nossa vida e certamente na hora da nossa morte, como diz a oração da Ave Maria. Ela que assistiu, confortou o seu filho com a sua presença na agonia da cruz, certamente estará aos pés da nossa cruz também no momento da nossa passagem para o Pai, ou seja, do nosso nascimento para o Céu, para a vida eterna. Maria assiste por isso ao nosso nascimento para a vida eterna, como assistiu ao nascimento do seu filho para esta vida e para a vida eterna e como assistiu ao nascimento da Igreja.

Ave versus Eva
À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó virgem gloriosa e bendita. Amém

Eva não foi a nossa mãe, mas sim a nossa progenitora: só nos deu à luz, mas não nos educou. A mãe que educa, cria e alimenta é chamada na Etiópia “Injera enat”, ou seja, a “mãe do pão” que, muitas vezes, não coincide com a que deu à luz.

Tive como colega de noviciado e estudante de teologia um jovem que à tia chamava mãe e à mãe chamava tia. Àquela que o tinha dado à luz ele chamava tia e àquela que o tinha educado como mãe e que era biologicamente a sua tia, chamava mãe. Eram duas irmãs: uma teve o meu colega de uma forma acidental, mas mais tarde encontrou o homem da sua vida; este não aceitava o filho dela, pelo que a sua irmã, que não pensava em casar-se, ficou com ele para que ela ficasse livre e pudesse iniciar uma vida nova com o seu noivo.

O meu colega não tinha para com a sua progenitora a quem chamava tia nenhum sentimento filial e, no entanto, tinha sido ela que o tinha dado à luz; sentimento filial tinha só por aquela que o tinha criado com muito amor, educado e guiado na vida, dedicando-se a ele exclusivamente, pois nunca quisera casar. E, no entanto, a nível biológico, era só a sua tia.

No ser humano, a biologia pouco conta. Chamamos-lhe Madre Teresa de Calcutá e suponho que ninguém se atreveria a negar-lhe o título de madre. No entanto, como todos sabemos, ela nunca foi biologicamente mãe, embora se tenha comportado como tal para muitas crianças órfãs e até adultos, que viram nela a mãe que nunca tiveram.

A devoção do povo cristão, ao menos dos católicos e ortodoxos, a Maria parte da proximidade que temos com a nossa mãe na terra. Ela está mais perto de nós que o nosso pai e, muitas vezes, fazemos dela intermediária entre nós e ele, pois temos mais confiança com a nossa mãe que com o nosso pai. Ela está sempre ao nosso lado e acompanha-nos mais que o nosso pai. Esta experiência faz com que o povo cristão tenha por Maria uma especial devoção e projete nela a mesma experiência, o mesmo tipo de relacionamento que teve ou tem com a sua mãe.

Maria é nossa mãe porque, como toda a mãe, está atenta às necessidades dos seus filhos, como esteve nas bodas de Caná e está ainda hoje ao visitar-nos em Guadalupe, Lourdes e Fátima. Maria é a nossa mãe porque ela nos educa com o evangelho do seu filho quando nos diz “fazei tudo o que ele vos disser”. Eva foi a nossa progenitora, Ave é a nossa mãe do Céu que acompanha a nossa vida na terra até nos unirmos a ela no Céu.

Com minha Mãe estarei, Na Santa glória um dia / Junto à Virgem Maria, no céu triunfarei. No Céu!  No Céu!   Com minha mãe estarei. No Céu!  No Céu!   Com minha mãe estarei… canto popular mariano

MATER ECCLESIA
Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo fruto de suas entranhas? E mesmo que ela o esquecesse, eu não te esqueceria nunca. Eis que estás gravada na palma de minhas mãos, tenho sempre sob os olhos tuas muralhas Isaías 49, 15-16

Igreja, corpo místico de Cristo
Aproximai-vos do Senhor, que é a pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus. E vós mesmos, como pedras vivas, entrai na construção deste templo espiritual, 1 Pedro 2, 4-5

Não conhecendo ainda os mistérios da vida que a biologia nos revela, a melhor imagem que Pedro encontrou para se referir à Igreja como corpo místico de Cristo onde Ele é a cabeça, foi a de um templo construído com pedras colocadas umas sobre a outras, como peças de lego. Mas como um templo é algo inanimado, assim como as pedras de que é formado, então chamou-lhes pedras vivas.

Se tivesse os conhecimentos em biologia que hoje temos, usaria a imagem do nosso próprio corpo para explicar como a Igreja é o corpo místico de Cristo. Olhamos para o nosso corpo como único, livre e independente, como unidade indivisível, mas na verdade, do ponto de vista biológico, o nosso corpo é constituído por triliões de células, sendo cada uma destas células um organismo vivo, ou seja, um ser vivo.

O que nos parece um todo único, autónomo e indivisível, é na verdade uma comunidade de triliões de seres vivos. Estão unidos porque são familiares de sangue uns dos outros. O nosso corpo é formado por uma irmandade de triliões de células; sim, as células atuais que formam o nosso corpo são todas irmãs e por isso se mantêm juntas; se assim não fosse já se teriam separado.

Quando nos transplantam um órgão, o nosso corpo rejeita-o porque é formado por células estranhas às nossas; as células do órgão em questão, são células irmãs entre si, mas não da mesma família que as células que formam o nosso corpo. Por isso, a pessoa que vive com um órgão transplantado tem de tomar todos os dias medicação que vai enganar o seu corpo para que este não rejeite o órgão que recebeu.

As células do nosso corpo são irmãs entre si porque todas elas são descendentes daquela célula mãe ou primigénia que se formou no momento em que fomos concebidos. Neste momento que ocorreu 9 meses antes do nosso nascimento, metade de uma célula proveniente do nosso pai, um espermatozoide X ou Y fundiu-se com outra metade de célula proveniente da nossa mãe, um óvulo que, do ponto de vista cromossómico é sempre X, originando uma célula nova com um código genético novo.

Imediatamente esta célula começa a dividir-se e a reproduzir-se, até formar o corpo completo de um ser humano. Apesar de cada uma das nossas células ser a unidade mais pequena da vida e, portanto, autónoma e independente, o que as mantém unidas formando um corpo é o facto de todas elas terem o mesmo código genético.

E pluribus unun – Como células do corpo místico de Cristo, que é a Igreja, o que nos mantém unidos é a mesma fé em Cristo. Esta fé, presente em todos nós, funciona no nosso interior como o código genético (ADN) no interior das células. Tal como as células que formam o nosso corpo são diferentes entre si, as células do sangue são diferentes das dos ossos, das dos músculos, da pele e de cada um dos órgãos, também nós, cristãos, somos pessoas de diferentes grupos étnicos, geografias, línguas, países e culturas e, no entanto, conseguimos manter-nos unidos numa só Igreja Católica porque todos nascemos, crescemos, vivemos e nos movemos na mesma fé em Cristo, que é o código genético ou ADN da Igreja, o que matem os cristãos, de diferentes géneros raça povo e nação, todos unidos.  

Universalidade da Igreja católica
Como válida só se tenha a Eucaristia celebrada sob a presidência do bispo ou de um delegado seu. A comunidade reúne-se onde estiver o Bispo e, onde está Jesus Cristo, está a Igreja católica. Sem a união do Bispo não é lícito batizar nem celebrar a Eucaristia; só o que tiver a sua aprovação será do agrado de Deus e assim será firme e seguro o que fizerdes" Sto. Inácio de Antioquia Epístola aos Esmirniotas 8, 2 (AD 107)

Sto. Inácio de Antioquia da Síria (68-107), segundo Eusébio de Cesareia, foi um dos primeiros bispos da segunda comunidade cristã fundada depois da comunidade de Jerusalém – Antioquia da Síria. Foi precisamente ali que os seguidores de Cristo, até então chamados nazarenos, foram, pela primeira vez, chamados cristãos, segundo o livro dos Atos dos Apóstolos, 11, 26.

Apesar dos seguidores de Cristo terem sido apelidados de cristãos, a Igreja nunca foi chamada cristã. Até ao ano 107 chamava-se simplesmente Ecclesia. No entanto, o bispo Inácio, ao dar-se conta da vocação universal da Igreja, chamou-a católica. Efetivamente, o primeiro nome que a Igreja teve foi católica no ano 107, segundo reza o escrito de St. Inácio acima citado, quando ainda só havia uma única Igreja, a fundada por Jesus.

Todos nós, batizados católicos, em países tradicionalmente católicos, quando chegamos à idade da autoconsciência, por volta dos seis ou sete anos de idade, ao mesmo tempo que nos reconhecemos como pessoas e cidadãos de um país, também nos reconhecemos como membros de uma organização supranacional, a Igreja Católica.

Não é coincidência que os pais fundadores da União Europeia, o francês Robert Schumann, o alemão Konrad Adenauer e o italiano Alcide de Gasperi, fossem todos católicos. Segundo o historiador Alan Fimister, num livro sobre Robert Schuman, a União Europeia é de facto um projeto católico em linha com a doutrina social da Igreja, desde a Encíclica Rerum Novarum do Papa Leão XIII (1878-1903). O princípio da subsidiariedade, hoje lei europeia e também emenda da Constituição dos Estados Unidos, apareceu pela primeira vez nesta mesma encíclica.

Todas as igrejas ortodoxas, assim como as protestantes, são Igrejas nacionais ligadas a uma cultura particular e na África até mesmo à particular idiossincrasia de uma tribo. Só a Igreja Católica, a que Jesus fundou, é verdadeiramente supranacional e supra cultural.

Os católicos são certamente mais universalistas que os protestantes e os ortodoxos, pois beberam universalismo da mesma forma que se amamentaram no seio das suas mães, uma vez que foram batizados poucos dias após o seu nascimento, na Igreja que Cristo fundou e que é católica.

O termo católico romano
A Igreja nunca chamou a si mesma católica romana, pois em, si mesmo, o termo é uma “contradictio in terminis”; se o termo católico significa universal, a Igreja que é católica não é romana, se é romana não é católica. O termo nasceu e foi promovido pela Igreja anglicana em Inglaterra para, de alguma forma, justificar o cisma da Igreja; para os anglicanos que criaram o termo, a Igreja Católica do Credo de Niceia era composta pela Católica Romana, Católica Anglicana, e Católica Ortodoxa.

Como os anglicanos são uma igreja do Estado de Inglaterra e invejam tanto a catolicidade da igreja de que Jesus fundou, da qual já fizeram parte, que nos colocaram um nome local "Romano" para diminuir a nossa catolicidade que os incomoda tanto, e permitir-lhes também usar o termo católico. A verdade é que só a Igreja Católica é, de facto, católica, todas as outras protestantes ou ortodoxos são igrejas nacionais, igrejas locais ou provinciais que existem apenas numa área geográfica bem demarcada.

Foram precisamente os bispos católicos de língua inglesa que alertaram já os seus colegas, tanto no Concílio Vaticano I como no II, para que a Igreja nunca usasse o termo ao referir-se a ela mesma.

O termo é ainda usado, mas só nos países que falam inglês; muitas paróquias da arquidiocese de Toronto usam o termo na completa ignorância da ideologia que lhe subjaz; pelo menos o Cardeal e os seus bispos auxiliares tinham obrigação de saber e de respeitar a vontade dos seus congéneres ingleses nos dois últimos Concílios da Igreja Católica.

“Mater et magistra”
Gaudet Mater Ecclesia… Alegra-se a Santa Mãe Igreja, porque, por singular dom da Providência divina, amanheceu o dia tão ansiosamente esperado em que solenemente se inaugura o Concílio Ecuménico Vaticano II, aqui, junto do túmulo de São Pedro, com a proteção da Santíssima Virgem, de quem celebramos hoje a dignidade de Mãe de Deus. João XXIII Discurso de abertura do Concílio Vat. II

A Igreja como mãe
Segundo o Papa Francisco numa das suas homilias, a Igreja é a nossa Mãe que nos gerou no dia do nosso batismo e, tal como uma mãe, educa-nos e protege-nos com mansidão e bondade. Conceber a Igreja sem este sentimento materno, é pensar numa associação rígida, sem calor humano; uma igreja assim concebida, diz o papa, faz-nos a todos órfãos.

Chamar mãe à Igreja não é tão comum entre os protestantes como o é entre os católicos, provavelmente porque estes não se relacionam com Maria, mãe do Senhor, como mãe da Igreja porque assistiu ao nascimento desta tal como assistiu ao nascimento do seu filho, e como mãe nossa, dada pelo próprio filho no alto da cruz.

Do sentimento de maternidade de Maria, mãe de Cristo, mãe de Deus, mãe da Igreja se deduz por afinidade, o sentimento de maternidade da Igreja. A Igreja é nossa mãe porque Maria é mãe da Igreja e nossa mãe também.

A Igreja como mestra
Doutores tem a santa Madre Igreja que vos saberão responder…

Na Igreja, nem todos são profetas, nem todos são doutores e nem todos podem responder a todas as perguntas. O dito acima citado é a resposta de um homem humilde a quem um não-crente coloca uma pergunta difícil à qual não sabia responder. Reconhecendo humildemente que não consegue responder, encaminha-o para quem na Igreja o pode guiar até à resposta à sua pergunta.

Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos. Atos 4, 12

A Igreja é mestra no ensinamento e na proposição aos homens de Cristo como modelo, paradigma, referência da humanidade. Quem quer ser autenticamente humano, mede-se em relação a Cristo, pois só por Ele se pode ir ao Pai Deus. Mesmo olhando para a narrativa do evangelho do ponto de vista puramente humano, não há debaixo dos céus narrativa que contenha mais humanidade que a vida, os ditos e os feitos de Jesus de Nazaré.

Quem não recolhe comigo, dispersa, diz o Senhor. Não há debaixo do Céu nenhum outro modelo de humanidade que seja igualmente válido e que leve à felicidade e autorrealização de todos os sonhos que o modelo de Cristo, que é caminho, verdade e vida.

A nossa vida em frente do altar
Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas, porque vou para junto do Pai. João 14,12

A Igreja é sacramento universal de salvação, ou seja, a Igreja é a legítima dispensadora das graças de Deus por intermédio do seu filho, graça primigénia. Cristo não veio ao mundo só para os israelitas da sua geração. Não faria sentido que a ação do filho de Deus ficasse reduzida aos homens de um lugar e de um tempo. A Igreja é os pés, a boca, as mãos do Senhor, pois atua aqui e agora, no aqui e agora de todos os tempos e lugares, o mesmo que Cristo que, humanamente, só podia viver uma vez e agir em Israel há 2 000 anos.

Salvação significa saúde, por intermédio da Igreja que é o seu corpo, nós acedemos aos bens que nos vêm de Jesus, a quem ela representa no aqui e agora da história social e da nossa individual. Estes bens são os sacramentos.

Diante do altar, a Igreja Mater et Magistra acolhe-nos no seu seio logo que a nossa mãe física nos dá à luz, no sacramento do batismo, quando iniciamos a nossa caminhada com Cristo ao nosso lado. Os nossos pais entregam-nos à maternidade da Igreja, pois a sentiram como mãe, eles mesmos durante a sua vida.

Mais tarde, no mesmo lugar diante do altar, recebemos pela primeira vez a eucaristia e, toda a nossa vida ali vamos em cada domingo, para entrar em comunhão com Aquele que é a razão da nossa vida, o pão e o vinho do nosso sustento. Mais tarde, ainda no mesmo lugar diante do altar, recebemos o crisma, respondendo desta vez pessoalmente às mesmas perguntas que nos fizeram no dia do nosso batismo, no pleno uso da nossa liberdade.

Mais tarde, ainda é ali que nos ordenamos sacerdotes, que fazemos os votos temporais ou perpétuos na vida religiosa ou nos casamos. Ali voltamos cada domingo na comunhão ou para participar nos sacramentos dos nossos filhos e parentes e, por fim, tal como no dia do nosso batismo, ali nos levam e diante do Círio Pascal aceso se apaga aquela vela que anos atrás ali foi acesa e que até ali brilhou. A nossa vida começa, decorre e acaba em frente do altar da Igreja, nossa mãe que sempre nos acompanha guia, alimenta, consola e conforta.

A vida começa como termina e termina como começa. No batismo somos levados à igreja para o nosso enterro somos levados para a igreja; a primeira vez e a última vez que vamos à igreja somos levados. A liturgia do enterro é muito semelhante à liturgia do batismo. O caixão está coberto de branco como estávamos no momento do nosso Batismo e a água benta é usada novamente como foi no dia do nosso batismo.

Conclusão: a nossa mãe terreal dá-nos à luz, cuida de nós, e educa-nos para a liberdade e independência; a nossa mãe eclesial inicia-nos na fé em Cristo, modelo de vida humana, e educa-nos para a igualdade e interdependência como membros de uma comunidade; a nossa mãe celestial "roga por nós agora e na hora da nossa morte", ou seja, assiste-nos no nosso nascimento para a vida eterna.

Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de maio de 2021

3 Presenças de Cristo: Igreja - Eucaristia - Sacerdócio

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A vida do ser humano é espácio-temporal, ocupa um espaço limitado durante um tempo limitado. Ao fazer-se homem, Deus assumiu essa limitação (Filipenses 2, 6-11). Ao encarnar em pessoa humana, ao armar a sua tenda no nosso acampamento, aceitou viver num tempo e espaço precisos. Porém, não faria sentido que o filho de Deus, criador de tudo e de todos, quisesse limitar a sua ação salvadora ao tempo e espaço em que habitou.

A Igreja, a Eucaristia e o sacerdócio são instituições por Ele criadas para estender a sua ação salvadora a todo o tempo e lugar, até ao fim do tempo e do mundo. Estas três instituições são, em si mesmas e por si mesmas, três presenças de Cristo entre nós. Assim, a Igreja é o Corpo místico de Cristo, a Eucaristia é o Corpo Sacramental de Cristo, o sacerdócio é o Corpo Físico de Cristo.

3 Quintas-feiras – Quinta-feira santa – Corpo de Deus – Ascensão
Tres jueves hay en el año que brillan más que el sol: jueves Santo, Corpus Christi y el jueves de la Ascensión Dito popular espanhol

Quinta-feira Santa
A vida pública de Jesus começa nas bodas de Caná, onde transforma a água das nossas lágrimas no vinho da nossa alegria (Salmo 104, 14-15). E termina na Última Ceia, onde se dá a si mesmo como o pão do nosso sustento (João 6, 48-63). Entre estes dois banquetes, muitos ensinamentos de Jesus surgem no decurso de um convite para uma refeição. (Lucas 19, 1-10; Mateus, 26, 6-13)

Uma refeição, um banquete de boda é tema recorrente nas parábolas de Jesus: o Reino dos Céus é semelhante a um banquete… Boa comida, boa bebida, boa companhia, produzem a maior felicidade e alegria que este mundo pode oferecer-nos. Por isso, quando nos fala do Reino dos Céus, Jesus não encontra melhor comparação que o partilhar de boa comida, boa bebida e boa companhia.

O Senhor dos exércitos dará neste monte santo um banquete para todos os povos… (Isaías 25 6-9) O tema do banquete como símbolo da felicidade que Deus pode proporcionar ao homem é também muito recorrente já no Antigo Testamento. O povo hebreu celebra a sua saída do Egito, da escravidão e a entrada na Terra Prometida da liberdade com uma refeição onde se come o cordeiro, cujo sangue na ombreira da porta salvou os judeus, ao fazer passar longe o anjo exterminador.

Esta mesma refeição Jesus comeu com os seus discípulos e discípulas. Nela, ele é o cordeiro, como João Batista há muito tinha anunciado. Jesus transfere para o pão a sua presença física e dá-no-lo como sendo a sua carne. Transfere para o vinho a sua vida, o seu sangue, o seu Espírito, e dá-no-lo como sendo a sua força, a sua alegria, o seu Espírito.

Ascensão
Depois da Sua Ressurreição, e durante quarenta dias, como diz a escritura, Jesus não foi logo para o Seu Pai (João 20, 17). Dizem que os mortos não se dão conta, logo a seguir, de que morreram e consoante os temas a que se apegavam nesta terra, parece que vagueiam até os resolver. São as chamadas almas penadas ou apenadas, pois morreram subitamente por acidente antes do seu tempo e deixaram assuntos pendentes.

Já não limitado pelas leis do espaço e do tempo, Jesus no seu corpo glorioso deteve-se algum tempo nesta terra, antes de ascender ao Pai e, neste período, apareceu aos seus amigos e discípulos para os confirmar na Missão de continuarem a sua obra.

A festa da Ascensão era tradicionalmente celebrada numa quinta-feira. A despedida de Jesus acontece em Quinta-feira Santa, a sua partida não é a sua morte. Depois da sua morte, Jesus volta aos seus discípulos na realidade do seu corpo glorioso, volta a conviver com eles, volta a comer e a beber com eles, como nos contam alguns relatos das suas aparições, mas já está numa outra dimensão.

A partida do Senhor, o seu último adeus no verdadeiro sentido da palavra adeus, acontece quarenta dias depois da sua ressurreição de entre os mortos. Depois de os ter mandado por todo o mundo para continuar a sua obra, para estender o seu Reino, subiu aos Céus. Depois de ter encontrado outras formas de ficar entre nós, levou para o céu a nossa natureza humana divinizada no seu corpo, foi-nos preparar um lugar.

Corpo de Deus
Aos 60 dias da Ressurreição do Senhor, a Igreja celebra a sua presença sacramental na festa de Corpus Christi ou Corpo de Deus, a terceira quinta-feira que brilha mais que o sol. “Fazei isto em minha memória…” tinha dito na Quinta-feira Santa. Subiu aos Céus Quinta-feira da Acensão e deixou-nos na Eucaristia o memorial da sua vida, paixão, morte e Ressurreição.

Este é o meu corpo… Este é o meu sangue… são o abracadabra, a palavra passe, a palavra mágica que faz com que um pão normal se transforme no seu corpo, um vinho normal se transforme no seu sangue. Há uma mudança de substância, chamada transubstanciação, que não é acidental, ou seja, o pão continua com a mesma forma, cor, textura e sabor, assim como o vinho, mas já nem o pão é pão nem o vinho é vinho.

Alguns dos que duvidaram ao longo dos tempos e em diferentes lugares do nosso planeta, viram verdadeiramente esse pão transformado em carne, esse vinho transformado em sangue nos muitos milagres eucarísticos que aconteceram ao longo do tempo em diferentes latitudes e longitudes.

Como Jesus disse na sua Última Ceia, ele continua a estar verdadeiramente entre nós como aquele que serve e que nos serve de alimento, de viático nesta peregrinação para a pátria celeste que é a nossa vida. Se a Arca da Aliança no Antigo Testamento continha maná, símbolo do poder de Deus, o pão consagrado contém realmente o Senhor: o seu corpo entregado e o seu sangue derramado para que tenhamos vida em seu nome e a tenhamos em abundância.

Pentecostes
Na mesma sala de cima onde a Igreja foi concebida na Última Ceia do Senhor, quando ao Corpo místico de Cristo que é a Igreja se uniu o Espírito Santo, ali nasceu como alma dessa mesma Igreja. A Igreja, portanto, nasceu no dia de Pentecostes quando o corpo já preexistente formado pelo fundador desta, o Nosso Senhor Jesus Cristo em Quinta-feira Santa, recebeu o sopro divino pelo qual começou a viver e saiu fora desse seio onde tinha sido concebida no dia de Quinta-feira Santa.

Para entendermos a importância do Espírito Santo na Igreja, olhemos para Pedro vacilante, cobarde e cheio de medo adolescente que o associa a Jesus antes de Pentecostes, e a mesma pessoa, o mesmo Pedro cheio de energia, coragem e furor no dia de Pentecostes, chegando a desafiar os sumos sacerdotes depois de Pentecostes.

A Igreja é o corpo místico de Cristo, que se alimenta do corpo sacramental de Cristo que é a sua carne e o seu sangue e tem como alma o Espírito Santo que a inspira, alenta, governa, guia e lhe dá força na tribulação.

IGREJA: CORPO MÍSTICO DE CRISTO
O conteúdo da pregação de Jesus

Jesus percorria todas as cidades e povoados, ensinando nas suas sinagogas, proclamando a Boa Nova do Reino e curando todo o tipo de doença e de enfermidade. Mateus 9, 35

Jesus não veio ao mundo para se pregar a si mesmo, ou acerca de si mesmo. Nos evangelhos sinópticos pouco fala de si e, quando o faz, é para dizer que faz a vontade do Pai. Refere-se a si mesmo como filho do homem e não como filho de Deus ou como Messias. O conteúdo da pregação de Jesus é o Reino de Deus que ele diz que veio trazer à Terra. Sobre o Reino de Deus, Jesus não só fala dele, como o concretiza em palavras e em obras.

O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me ungiu, para anunciar a Boa-Nova aos pobres: enviou-me para proclamar a libertação aos presos e, aos cegos, a recuperação da vista; para dar liberdade aos oprimidos e proclamar um ano aceite da parte do Senhor”. Lucas 9, 17-19

Na sinagoga da sua terra, logo ao princípio do seu ministério, lê uma passagem do livro do profeta Isaías afirmando depois da leitura que essa parte da escritura se cumpre na sua Missão e com ela. Quando João Batista já está na prisão, surgem-lhe dúvidas sobre a identidade de Jesus, e envia alguns dos seus discípulos a inquirir sobre a questão. Jesus, para quem uma pessoa se conhece pelas suas obras, responde:

Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: cegos recuperam a vista, paralíticos andam, leprosos são curados, surdos ouvem, mortos ressuscitam e aos pobres se anuncia a Boa-Nova. Mateus 11, 4

Para definir o que é o Reino de Deus, Jesus utiliza muitas parábolas e em algumas delas a imagem de banquete é bastante frequente. Isto levou São Paulo a dizer que o Reino não é comida nem bebida, mas justiça e paz. (Romanos 14, 7). Jesus, porém, deixou o Reino definido na oração que ensinou aos seus discípulos: “Venha a nós o Vosso Reino, seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu”. Na mesma petição da vinda do Reino, Jesus define-o como sendo a terra onde se faz a vontade do Pai como já se faz no Céu; ou seja, quando a terra for como o céu, a terra será o Reino de Deus como o céu o é.

O conteúdo da pregação da Igreja
Irmãos, quero lembrar-vos o evangelho que vos anunciei e que recebestes, e no qual estais firmes. Por ele sois salvos, se o estais guardando tal qual ele vos foi anunciado. A menos que tenhais abraçado a fé em vão... De facto, eu vos transmiti, antes de tudo, o que eu mesmo tinha recebido, a saber: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e, ao terceiro dia, foi ressuscitado, segundo as Escrituras; e apareceu a Cefas e, depois aos Doze. 1 Coríntios 15, 1-5

O evangelho que os apóstolos do Senhor pregam é bem diferente daquele que o Mestre pregou. O que se depreende do texto acima citado de S. Paulo aos cristãos de Corinto, assim como do discurso de Pedro no dia de Pentecostes, (Atos 2, 14-41) como também do que diz perante os sumos sacerdotes e o povo depois de ele e João terem curado um coxo de nascença (Atos 3, 11-26), é que o Reino de Deus não faz parte do conteúdo da pregação, nem é o objetivo desta.

A pessoa e personalidade, os ditos e feitos e a vida de Jesus de Nazaré como sendo o Messias esperado das nações, é agora o conteúdo da pregação dos Apóstolos. No entanto, no tempo de Jesus, a título de aulas práticas e experiência de Missão, Ele mesmo os enviou a cidades e aldeias “a anunciar o Reino de Deus e curar enfermos” (Lucas 9, 1-2), ou seja, a praticar o tipo de missão que ele mesmo praticou.

Agora, porém, o conteúdo da pregação dos apóstolos é exclusivamente a pessoa de Jesus e o objetivo da pregação já não é o Reino, mas sim a implantação da Igreja. Não é por isso de admirar que a “Implantatio ecclesia” tenha sido durante muitos séculos o objetivo da Missão desta mesma. Ou seja, a Igreja em vez de pregar o Reino, como fez o seu fundador, andou muitos séculos e até há bem pouco tempo, a pregar-se a si mesma; a fazer-se grande, a angariar membros para o seu redil.

Pretendeu Jesus fundar a Igreja?
A Igreja e o cristianismo de per se não foram fundados por S. Paulo como dizem as más línguas. É certo que Jesus só menciona o nome “Eclésia” duas vezes e só no evangelho de Mateus. Dessas duas vezes, duvida-se que uma delas tenha saído da sua boca e acredita-se que a outra fosse mesmo inventada. Do conjunto dos quatro evangelhos se depreende com toda a certeza e segurança que Jesus pensou deixar alguma estrutura depois da sua morte.

“Uns dizem João Batista; outros, Elias; outros ainda, um dos profetas” (Marcos 8, 28) – Os contemporâneos de Jesus conceptualizaram a sua identidade como sendo um profeta. Até mesmo alguns, se não a maioria dos seus discípulos viam em Jesus não o Messias, mas sim um profeta; prova disso é o que dizem os discípulos de Emaús, “um profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e diante de todo o povo” (Lucas 24, 19).

Mesmo encaixando Jesus no contexto dos profetas de Israel, é certamente um profeta diferente de todos os seus antecessores, pois nenhum anterior a ele elegeu 12 discípulos entre os seus muitos seguidores. Sendo o povo de Israel constituído por 12 tribos, é certo que Jesus pretendia criar uma estrutura. E quando estes doze se viram reduzidos a 11 pela morte de um deles, a preocupação dos apóstolos, sobretudo de Pedro, em restaurar o número não pode dever-se a outra coisa que o ser fiel à intenção do Mestre.

Se Jesus tivesse tido o cuidado de chamar um discípulo de cada uma das tribos de Israel, poderíamos concluir que a sua intenção era restaurar, reformar o povo de Israel; mas não foi assim. Ao manter o simbolismo do número 12, Jesus pretendeu criar uma estrutura equiparável ao povo de Israel. Porém, ao não chamar para discípulo uma pessoa de cada tribo de Israel, pretendeu criar uma estrutura nova e não restaurar ou reformular Israel.

Concluímos que Jesus pretendeu criar uma estrutura que desse continuidade à sua obra e deixou até muito claro que essa estrutura, para se manter em pé, devia ter um líder. O primado de Pedro, como já dissemos num texto sobre ele, também se depreende em todos os quatro evangelhos de muitíssimas formas.

Igreja ou Reino de Deus?
Para além de opiniões, teologias ou ideologias, o que contam são os factos. É um facto que a palavra Igreja em grego “Ekklesia” que significa assembleia, aparece 112 vezes no Novo Testamento, a maior parte das vezes nas cartas de Paulo e nas dos outros apóstolos, assim como no livro dos Atos. Como acima dissemos, não aparece no evangelho de Marcos, o primeiro a ser escrito, nem no último, o de João; também não aparece em Lucas e, em Mateus que é precisamente o evangelho do Reino, aparece também a palavra Igreja duas vezes:

(…) tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as forças do Inferno não poderão vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”. Mateus 16, 18-19

É provável que Jesus tenha dito isto, se bem que nenhum dos outros evangelhos o mencione, nem sequer o de Marcos, escrito em Roma, que tem como base a pregação de Pedro. Ele mais do que ninguém estaria interessado em afirmar o primado de Pedro sobre os outros apóstolos.

Porém, Marcos não traça um retrato muito favorável de nenhum dos apóstolos, nem sequer de Pedro. Para Marcos, quem descobre e afirma a verdadeira identidade de Jesus não é Pedro em Cesareia de Filipe, como nos conta Mateus, mas sim o centurião romano quando Jesus deu o último suspiro.

Poderíamos concluir que esta frase, no caso de não ser histórica, é pelos menos verdadeira. Ou seja, ainda que esta frase não tivesse sido historicamente proferida por Jesus, “Ipsissima iesum verbum”, pelo contexto de todos os evangelhos referente ao primado de Pedro, expresso tantas vezes e de tão variadas maneiras, a frase é verdadeira porque expressa uma verdade do evangelho.

Se ele não vos der ouvidos, dize-o à igreja. Se nem mesmo à igreja ele ouvir, seja tratado como se fosse um pagão ou um publicano. Mateus 18, 17

Esta frase com toda a certeza não foi proferida por Jesus, trata-se de uma norma de disciplina praticada na comunidade para a qual o evangelista escrevia. Jesus manda perdoar sempre, não dá ninguém por irrecuperável e acredita sempre na conversão; não mandaria, portanto, excluir ninguém do que veio para justos e pecadores.  

Vejamos o número de vezes que as palavras Igreja e Reino aparecem no Novo Testamento:

 

REINO

IGREJA

NOVO TESTAMENTO

162

112

EVANGELHOS

127

2

ATOS E CARTAS

35

110

Em flagrante contraste com a palavra IGREJA que aparece 112 vezes e quase só nos Atos dos apóstolos e nas cartas, a palavra REINO, aparece 162 vezes e destas só 35 vezes aparece no livro dos Atos e nas cartas; as restantes 127 vezes aparecem nos evangelhos. Fica assim demonstrada a importância que o Reino de Deus tinha para Jesus e a pouca importância que este mesmo Reino tinha para a Igreja nascente e por Cristo fundada.

Caminho – verdade – vida (João 14, 6)
O ser humano tem uma dimensão individual e pessoal para a qual o valor a cultivar é a liberdade, e uma dimensão social para a qual o valor a cultivar é a igualdade. Jesus veio ao mundo com dois projetos: um para o ser humano como único, indivisível, independente e livre, e outro para o mesmo ser humano como parte de uma comunidade.

O projeto de Jesus, para o mundo, para a sociedade, para o ser humano enquanto ser social, é o Reino de Deus; o projeto de Jesus para o ser humano enquanto ser individual e pessoal não redutível à comunidade, mas livre e independente, é ele mesmo, Jesus. Jesus veio ao mundo para se propor a si mesmo como caminho, verdade e vida.

Jesus de Nazaré é o caminho de volta para o Pai de onde viemos, Jesus de Nazaré é a verdade plena de Deus e do Homem porque ele é Deus e homem verdadeiro, e é o arquétipo da vida humana, ou seja, o modelo, o paradigma, a narrativa, o mito, a lenda, porque ele e só ele encarnou a humanidade tal como Deus a tinha idealizado ao criar Adão e Eva.

Seja cristão, ateu, agnóstico, muçulmano ou budista, quem quiser ser autêntica e genuinamente humano mede-se em relação a Jesus pois ele é a medida padrão de humanidade. Não há nenhuma alternativa igualmente válida para além de Jesus, pois ele não disse que era um dos caminhos, uma das verdades e uma das vidas. Pelo contrário, disse que ninguém vai ao Pai se não por mim, (João 14, 6) e o que não recolhe comigo, dispersa, pois não há ninguém mais com quem possa recolher. (Mateus 12, 30)

Igreja - Missão - Reino
Depois do Concílio Vaticano II, a Igreja deixou de olhar para o seu umbigo e começou a olhar para o mundo como Jesus olhou e a ver nele o Reino que já está no nosso meio desde que Jesus veio ao mundo, mas ainda não na sua plenitude. A Missão começou com Deus ao enviar o seu filho primogénito ao mundo. O objetivo desta missão sempre foi o de transformar o mundo no Reino de Deus; antes deste momento, o mundo era do pecado dos nossos pais.

A Igreja, como corpo místico de Cristo, não pode ter outro objetivo senão continuar a obra de Cristo. Portanto, o objetivo da sua existência não é implantar-se em todos os cantos desta terra, mas sim levar a Boa Nova do Reino a todos os cantos da Terra.

O objetivo principal não é produzir cristãos, aumentar o número dos seus membros, mas sim juntar-se a todos os homens de boa vontade, de outras religiões, ateus ou agnósticos e, com eles, ajudar na construção de um mundo melhor, de uma sociedade mais justa e mais fraterna, onde reina a justiça, a paz e a harmonia e o amor entre os povos. Se este tivesse sido o objetivo da Igreja desde início, tal como foi do seu fundador, não teria havido fundamentalismos como a Inquisição, nem guerras santas como a movida pelas cruzadas.

A Igreja não existe para si mesma nem deve pregar-se a si mesma, pois o seu Mestre e fundador não se pregou a si mesmo: a Igreja existe para a Missão, ou seja, para continuar a obra do seu fundador e o objetivo da Missão que é o Reino. Igreja é o que somos, é a nossa identidade, o Reino é a nossa missão, o que fazemos.

Precisamente o evangelho de São Mateus, o evangelho do Reino, recorda-nos no capítulo 25 que ao fim não seremos julgados pelo que somos, pela nossa identidade, por termos sido ou não cristãos, ateus ou muçulmanos, mas pelo que fizemos ou deixámos de fazer, se assistimos ou não assistimos os sedentos, os famintos, os nus, os peregrinos, os presos, os estrangeiros e os doentes. Porque a assistência a estes últimos foi o objetivo da vida de Jesus e da sua vinda ao mundo, este mesmo tem de ser o nosso objetivo.

(…) não vivais preocupados, dizendo: ‘Que vamos comer? Que vamos beber? Como nos vamos vestir?’ Os pagãos é que vivem procurando todas essas coisas. Vosso Pai que está nos céus sabe que precisais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo. Mateus 6, 31-33

A nossa Missão ou evangelização é viver Cristo e estender o Reino. Não deve ser primariamente o pregar a figura de Cristo, mas tornar o Reino realidade. Era isto que queria dizer Francisco de Assis quando dizia “Em todo momento fala do evangelho e só quando for necessário usa palavras, a maior parte das vezes não será necessário, a tua vida falará por si”.

Por isso Jesus mesmo nos disse para sermos o sal da Terra e a luz do mundo que são dois símbolos silenciosos cuja identidade não está ligada ao que dizem mas ao que fazem: a sua ação de expor e destruir as trevas e dar cor ao mundo, no caso da luz, e a de preservar, evitar a corrupção e dar sabor e sentido à vida, no caso do sal.

EUCARISTIA: CORPO SACRAMENTAL DE CRISTO
Unus christianus nulus christianus

Dizia Sto. Agostinho, um único cristão, é um cristão nulo. O cristianismo nasceu em comunidade e só pode viver em comunidade. Sem comunidade não há cristianismo. Como todos os animais têm um habitat onde vivem e prosperam, assim o cristão só pode viver e prosperar no seio da comunidade cristã.

A Igreja, um grupo de pessoas unidas na mesma fé, existe como tal e manifesta-se como tal, na Eucaristia. Um clube, uma associação de pessoas que nunca se reúne, deixa de existir como tal, não consegue subsistir. “Onde dois ou três estão reunidos em meu nome eu estou no meio deles” disse Jesus; portanto, a reunião, o encontro é essencial. Sem eucaristia não há Igreja, tal como sem Igreja não há eucaristia, ou seja, não há nada que celebrar. Como muitos grãos de trigo formam um só pão e como muitas uvas formam um só vinho, assim é a eucaristia: a todos reúne em comunidade.

O nosso corpo físico é formado por triliões de células muito diferentes entre si, como as células da pele, do fígado, dos músculos, do sangue, etc. Cada uma das nossas células é, em si mesma, um ser vivo diferenciado e independente; há de facto seres vivos unicelulares. O que mantém então os triliões de células unidas num só corpo é o código genético que cada uma dessas células tem e que é o mesmo em todas elas.

De facto, quando um dos nossos órgãos deixa de funcionar e nos transplantam um órgão pertencente a outra pessoa, o nosso corpo naturalmente rejeita-o porque esse órgão é constituído por células com um código genético diferente. O que mantém todos os cristãos unidos na Eucaristia é a fé em Jesus Cristo, que é o código genético ou ADN do corpo místico de Cristo.

Os triliões de células do nosso corpo têm o mesmo ADN porque todas elas são filhas de uma mesma célula primigénia, que se formou quando meia célula do nosso pai, o espermatozoide, se uniu a meia célula da nossa mãe. A célula que resultou dessa união, foi o princípio da nossa vida, foi a célula mãe dos triliões de células que formam atualmente o nosso corpo. Assim também o corpo místico de Cristo, que é hoje a Igreja, se originou no próprio Cristo, no próprio corpo físico de Cristo.

Tal como a nossa célula primigénia se implantou no seio da nossa mãe e ali cresceu, prosperou e se foi diferenciando e aumentando em número até formar o nosso corpo físico atual de triliões de células, assim Cristo, “imagem do Deus invisível, o primogénito de toda a criação” (Colossenses 1, 15), foi a primeira célula que, pela incarnação, ao ser implantada no seio do mundo, cresceu e prosperou dando origem à Igreja.

Fé vivida e fé celebrada
A fé, como tantas outras realidades que temos vindo a estudar ao longo de três anos, é tridimensional: a fé vivida, a fé estudada e a fé celebrada.

A fé vivida manifesta-se em obras – Um católico praticante não é o que participa nos sacramentos, mas sim o que vive a sua fé; o que a encarna, o que faz da sua fé comportamento do dia-a-dia. S. Tiago recorda que a fé sem obras é morta. Não são as obras que nos salvam, pois não há obras suficientes que nos fizessem merecer a salvação e, se assim fosse, a vinda de Cristo ao mundo não teria sido precisa. “Sem mim nada podeis fazer, disse o Senhor”, por isso é a fé que nos salva. No entanto uma fé que não se manifesta em obras é inexistente.

A fé celebra-se nos sacramentos – Crescemos na fé quando a praticamos na vida e quando a celebramos nos sacramentos com os outros membros da comunidade com os quais a partilhamos. Foi o próprio Senhor que nos disse que celebrássemos a sua memória. A festa tira-nos do ordinário da nossa vida. O ser humano precisa de festas, de manifestar individual e socialmente aquilo em que acredita.

A eucaristia é o coração da Igreja. No corpo humano, a função do coração é a de ser o motor que move o sangue das células ao coração e do coração às células. Do mesmo modo, a vida do cristão é um vaivém entre a Eucaristia e o mundo. Quando a missa era em latim, no final o sacerdote dizia “Ite missa est” que queria dizer “podeis ir, a missa terminou”, mas também significava “terminou a missa, começa a missão”.

Ao voltarem, (da Missão) os apóstolos contaram a Jesus quanto haviam feito. Ele tomou-os consigo e retirou-se, à parte, para uma cidade chamada Betsaida. Lucas 9, 10.

A fé é um obséquio razoável – (…) estai sempre prontos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que a pedir. 1 Pedro, 3, 15. A nossa fé deve também ser objeto de estudo. O Concílio Vaticano I definiu-a como sendo um obséquio razoável. A fé não é racional, pois não se trata de um conhecimento científico, mas também não é irracional, como a superstição. A fé deve ser razoável, humanamente credível, plausível, deve fazer sentido, pois se Deus nos deu uma razão é para fazermos uso dela.

Em relação à eucaristia, já no tempo de Jesus, os judeus se perguntavam como podia ele dar-nos a comer a sua carne e a beber o seu sangue. Estará a convidar-nos para sermos canibais e vampiros? Ainda hoje, se algum ateu, agnóstico ou membro de outras religiões colocar esta questão, muitos cristãos não sabem o que responder. Adiante daremos a nossa resposta.

Cordeiro de Deus… história da eucaristia
Segundo o autor da carta aos hebreus, o objetivo da religião é o de aceder à amizade com Deus. Este objetivo era conseguido pela obediência à lei de Moisés. Porém, mesmo que o espírito seja forte, a carne é fraca quando se prevarica, ou seja, quando a lei era desobedecida a única forma para voltar à amizade com Deus era a de oferecer um sacrifício. Isto não só é verdade na religião judaica, como também em todas as religiões do mundo.

Os sacrifícios impessoais do Antigo Testamento
A única forma de apaziguar a ira divina quando a Lei era violada era restabelecer as boas relações com Deus. Como ninguém é perfeito, sem o sistema sacrificial a Lei seria completamente inútil. O sacrifício tinha diferentes contornos, mas era sempre o sacrifício de algo exterior a mim. O livro do Levítico (16,10) fala-nos do bode expiatório que era um “macho cabrío” sobre o qual eram projetados os pecados do povo, sendo depois mandado para o deserto para lá morrer.

Esta ideia de expiar os pecados alheios, de pagar o justo pelo pecador, está entranhada na nossa natureza. Na monarquia inglesa existia a figura do “weeping boy” que era um pobre desgraçado que era punido em vez do príncipe que, por ser príncipe, não podia ser punido pelo mal que fazia.

Esta mesma ideia encontrei num acampamento de escuteiros; quando um escuteiro cometia alguma falta, não pagava só ele: o castigo era estendido a todos os membros do seu grupo. Do ponto de vista psicológico, esta punição surtia melhor efeito do que se fosse individual e, ao mesmo tempo, transmitia a ideia de que quando pecas, mesmo individualmente, pecas semprecontra a comunidade.

O sacrifício de si mesmo
Jesus é o derradeiro “bode expiatório” da humanidade. Como disse João Batista, ele é o cordeiro de Deus que de uma vez por todas tira o pecado do mundo. O sacrifício de Cristo no contexto da Páscoa judia, o momento que Jesus escolheu para morrer, é o último do Antigo Testamento, porque morreu no nosso lugar, foi o nosso “bode expiatório”. Este mesmo sacrifício é o primeiro da nova aliança porque se trata não de oferecer algo alheio a mim, mas sim de me oferecer a mim mesmo.

Para ser válido, de uma vez por todas, o sacrifício de Jesus tinha de ser perfeito. Uma coisa perfeita é uma coisa singular, não pode ser repetida nem melhorada; assim foi o sacrifício de Jesus, pois ele não podia morrer duas vezes. Foi perfeito o sacrifício de Jesus porque ele mesmo era o templo, o altar, o cordeiro e o sacerdote.

O templo é o lugar onde habita Deus: Jesus era o próprio Deus, por isso era um templo perfeito; o altar era o lugar dentro do templo onde se oferecia o cordeiro: Jesus é o altar porque o sacrifício acontece em si mesmo não é exterior a si; o cordeiro devia ser sem mancha: Jesus foi em tudo igual a nós, exceto no pecado, por isso era um cordeiro perfeitíssimo; o sacerdote da antiga aliança, antes de oferecer um sacrifício pelo povo, devia oferecer um sacrifício por si mesmo para se purificar; Jesus, como Sumo sacerdote, era puro, não precisava de oferecer nenhum sacrifício por si mesmo; por outro lado, o sacerdote era um pontífice, uma ponte entre Deus e os homens; Jesus, sendo verdadeiro Deus e verdadeiro homem ao mesmo tempo, era a ponte perfeita entre Deus e o homem. Assim se conclui que não era possível aperfeiçoar o sacrifício de Jesus, pelo que vale para a humanidade de todos os tempos.

Na Última Ceia com os seus discípulos, Jesus celebra, como todo o judeu, a Ceia Pascal. Desta vez, porém, ao pronunciar sobre o pão e o vinho “este é o meu corpo, este é o meu sangue”, Jesus declara-se o Cordeiro Pascal que substitui para sempre os cordeiros da Antiga Aliança. Cristo morreu na hora em que se imolavam no Templo milhares de cordeiros. (Cf. João 19,14). S. Paulo diz, “Cristo, nossa Páscoa, foi imolado” 1 Cor 5,7.

Foi instituída em pão
O homem já foi carnívoro e já foi vegetariano e coletor de frutos. Mas, nessa qualidade, nunca prosperou nem constituiu nenhuma civilização, pois tal como os animais selvagens de hoje em dia, as 24 horas do seu dia eram ocupadas a procurar comida – a vida era uma luta pela sobrevivência.

Com a descoberta da agricultura, sobretudo dos cereais, o homem conquistou a sua independência em relação à Natureza. É possível armazenar os cereais por muitos anos, como o prova a história de José do Egito e, de facto, foram encontrados grãos de trigo no túmulo de Tutankamon com mais de 5 000 anos e que ainda germinaram. Ao ter comida armazenada, o homem tinha tempo para dedicar a outras coisas.

Onde não houve cereais, não houve cultura ou civilização. Isto aconteceu com os índios da América do Norte e com os africanos da África subsaariana. É interessante que a palavra cultura seja ambivalente: tanto se aplica ao cultivo da ciência e da arte como ao cultivo da terra. Como demonstramos já num texto anterior, a cultura europeia assenta essencialmente no cultivo do trigo. A cultura asiática teve como alimento básico o arroz, a do Continente Americano, onde houve cultura, dependeu do cultivo do milho.

Por outro lado, podemos dizer que os cereais integrais são a base da alimentação do ser humano pois fornecem energia lentamente e por muito tempo, quando ingeridos integralmente. A base de qualquer dieta saudável é sempre o cereal.

Se o grão de trigo não morre…
Em verdade, em verdade, vos digo: se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só. Mas, se morre, produz muito fruto. Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem não faz conta de sua vida neste mundo, há de guardá-la para a vida eterna. João 12, 24-25

A eucaristia revela-nos a verdade da vida que se desprende destas palavras de Jesus. Jesus interpretou a sua morte como sendo necessária para a vida e para nos ensinar que não há vida sem morte nem morte sem vida. Que a morte é uma passagem entre uma forma de vida baseada no espaço e no tempo para a vida eterna, para além do espaço e do tempo.

Aliás é isso mesmo que vemos na Natureza. “Na Natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma” dizia Lavoisier. Morte e vida sucedem-se uma à outra, sendo a morte só uma passagem e a vida uma constante. A erva cresce e morre nos dentes da gazela, a erva transforma-se na gazela que, por sua vez, morre nos dentes do leão transformando-se em leão. O leão morre e a hiena e os abutres comem-no; estes morrem e são comidos pelos vermes; estes morrem e fecundam a terra, rica em húmus onde volta a crescer a erva. Na cadeia alimentar, tanto na terra como no mar, toda a forma de vida é uma forma de alimento.

Esta é a lei da natureza e o ser humano que vive nela não se rege certamente por outras leis. Agora entendemos a questão do canibalismo ou vampirismo acima levantada. Não vivemos para comer a carne dos outros e beber o seu sangue, mas sim para ser comidos por eles e bebidos por eles. Quem quiser ganhar a sua vida há-de perdê-la. Para viver fisicamente, devemos matar, sejam grãos de trigo, vegetais ou animais como a galinha, o porco, a vaca, mas para viver humanamente com sentido, para viver espiritualmente, devemos morrer, devemos dar-nos aos outros em alimento.

Ninguém tem maior amor que o que dá a vida pelos seus amigos, disse Jesus. Uma mãe vive pelo seu filho e, no princípio da vida, o alimento do bebé provém do corpo dela. Por isso, a mama de donde brota o leite deu origem à palavra mamã. E quando a criança cresce, o primeiro alimento sólido que come é a papa, tradicionalmente constituía por cereais cultivados pelo pai, a quem o bebé aprende a chamar papá.

Beethoven deu a sua vida à música, foi alimento da música, de tal forma que ao fim já nem ouvia. Dedicar-se a uma tarefa humana, a um valor humano, de alma e coração é dar a essa questão a nossa vida é ser alimento para essa questão, assim como foi Ghandi para a independência da Índia, assim como foi Nelson Mandela contra o racismo.

O grão de trigo pode morrer no moinho transformando-se em pão, ou na terra transformando-se noutros grãos de trigo. Mas imaginemos que o grão de trigo não aceitasse morrer nem no moinho nem na terra e que fugisse do moleiro e do semeador: ao fim morreria na mesma, pois todo o organismo vivo morre. Mas como morreria? Morreria apodrecido.

Mas antes de morrer imaginemos que o grão de trigo se perguntava “para que serviu a minha vida, que sentido teve a minha vida, quando me subtraí às leis da natureza e tentei salvar a minha vida do semeador e do moleiro?” Certamente que não teve sentido pois só teria tido sentido se aceitasse morrer. Razão tinha o Senhor Jesus ao dizer que quem se apega à sua vida, quem a retém para si, perde-a e quem a dá ganha-a. Viver é sempre dar a vida por uma causa, e ser alimento de uma causa humana à qual nos entregamos totalmente, pondo toda a carne no assador, como diz uma expressão espanhola, sem reservar nada para si.

Abandonar a eucaristia é abandonar a Igreja
Os primeiros discípulos a abandonar o Mestre fizeram-no porque não entendiam nem aceitavam que Jesus se pudesse dar-se a eles como alimento (João 6, 51-69). Desde aquele tempo até aos nossos dias, os que abandonam a Igreja começam por deixar de participar na Eucaristia, ou seja, deixam de celebrar a memória de Jesus tal como Ele mesmo tinha pedido.

O episódio dos discípulos de Emaús é outro exemplo no qual se prova que o abandono da Eucaristia é o abandono da Igreja e vice-versa. Jesus apanha-os deixando Jerusalém, abandonando a comunidade; durante o caminho, o que Jesus faz ao explicar-lhes as escrituras é como que a Liturgia da Palavra, a primeira parte da missa. Mais tarde, quando sentado à mesa partilha com eles o pão, acontece o ofertório e a comunhão. O voltar a participar na eucaristia levou os discípulos de Emaús de volta a Jerusalém, à vida da comunidade cristã que ali vivia.

SACERDÓCIO: CORPO FÍSICO DE CRISTO
A Missão, segundo Lucas, não é tarefa exclusiva dos 12 Apóstolos, mas sim de todo o discípulo, de todo o cristão. Isto é claro desde o princípio da Igreja: o nome ou título de apóstolo foi dado a todo aquele que atuava como tal, ou seja, ao que pregava o evangelho e não só ao que foi diretamente escolhido por Cristo, como os doze. Paulo e Barnabé são claro exemplo disto: não eram da companhia de Jesus, mas reivindicam com toda a razão o nome de apóstolo.

É hoje mais que claro que na Última Ceia, onde foi instituída a Eucaristia, os comensais não eram só os 12 apóstolos, como retrata Leonardo da Vinci na sua famosa pintura, ou mesmo como descrevem os evangelhos que não incluem nem excluem as discípulas de Jesus, como Maria Madalena e todas as outras que o tinham seguido desde a Galileia e que contribuíam com os seus recursos para o sustento do grupo.

Também podemos concluir que Jesus, como indicou no episódio de Marta e Maria em Betânia em que aceitou que Maria deixasse de lado o serviço doméstico próprio das mulheres, teria admitido algumas mulheres, certamente a sua mãe e Maria Madalena, precisamente na refeição mais importante que ia partilhar com os seus mais chegados. Aliás uma Ceia Pascal judaica começa com o acender das velas e uma oração ritual cantada; este rito era sempre feito pela mãe da casa, neste caso muito possivelmente pela mãe de Jesus. Podemos então concluir que sim, havia mulheres na Última Ceia que se encarregaram do serviço doméstico, mas também haveria mulheres sentadas à mesa com os discípulos, pelo menos Maria, mãe de Jesus e Maria Madalena.

Os sacerdotes de hoje são os sucessores dos apóstolos de Jesus, do círculo mais íntimo dos que o acompanharam desde a Galileia até Jerusalém. A sucessão apostólica que confere hoje e sempre a legitimidade sacerdotal a um indivíduo, refere-se ao rito da imposição de mãos dos 12 apóstolos aos seus sucessores de geração em geração, até aos dias de hoje. O clero protestante não é legítimo, porque Lutero rompeu com essa sucessão ao romper com a Igreja.

Pontifex Maximus
Ou Sumo Pontífice, ou engenheiro máximo de pontes, era o título do imperador romano e é hoje o título do Papa como bispo de Roma. Um dos contributos dos romanos para o mundo antigo foi a criação de estradas e de pontes. Muitas das atuais estradas da Europa assentam sobre as vias ou calçadas romanas. O conceito de ponte é original no mundo antigo; os gregos foram grandes filósofos e artistas, mas fracos construtores e arquitetos. O máximo que fizeram foi o Pártenon de Atenas, uma construção que necessitava de muitas colunas para se manter em pé. Com um arco, os romanos conseguiam unir duas realidades diferentes sobre o vazio que as separava, por exemplo, as margens de um rio.

“O sumo sacerdote é um homem como qualquer outro, mas constituído para representar os homens nas suas relações com Deus”. Hebreus 5:1

Cristo sendo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, tem um pé em Deus e outro na humanidade: é a verdadeira ponte entre Deus e os homens. Jesus Cristo é o único sacerdote, mediador entre Deus e os homens. O sacerdote católico representa hoje a Cristo, é um alter Christus, é Cristo aqui e agora porque atua “In persona Christi”, em nome de Cristo, como vemos que Pedro e João fizeram quando disseram ao coxo de nascença que pedia esmola à porta do templo: “em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda!” (Atos 3, 6)

Consagrado para um serviço
“Eu estou no meio de vós como aquele que serve”. Lucas 22:27

O sacerdote vive já na terra a vida que todos esperamos viver no Céu, por isso não casa, não acumula riqueza. Como ponte entre Deus e os homens, vive com um pé na terra e o outro no Céu; não vive completamente no Céu, porque tem um corpo físico a satisfazer, nem vive completamente na Terra, porque não vive a vida do comum dos mortais: casar, ter filhos, ter um trabalho ou uma profissão para sustentar a família…

Fiel às duas margens, firmemente assente nelas, não pertence a nenhuma delas pois não está totalmente numa delas: tem um pé em cada uma delas. Como não vive com o resto dos mortais, não vive para si mesmo, não tem vida pessoal, é uma pessoa pública; está, como Cristo, 24 horas por dia inteiramente ao serviço dos outros. Não poderia ser ministro de Cristo se não fosse testemunha e dispensador de outra vida que não a vida terrena, mas também não podia servir os homens se permanecesse completamente alheio às suas vidas e condições.

A ponte suporta o peso dos que passam por ela, é um lugar de passagem, as pessoas não vivem numa ponte, passam por ela. Quem busca afetos que busque outra profissão, outro tipo de vida onde possa encontrá-los. A ponte não vale pela sua beleza, mas pela sua utilidade. A ponte é esquecida, porque a pessoa que a atravessa lembra a margem que deixou e abraça a margem em que vive, mas nem se lembra da ponte que uniu essas duas margens, toma-a como garantia. Do mesmo modo, o sacerdote que serve de intermediário entre Deus e os homens, é um canal, não uma concha.

O sacerdote está sempre chamado a ser ponte e mediador entre os homens, os povos, entre ideias, entre gerações. Mediador, pacificador, reconcilia o fiel consigo mesmo, com o próximo e com Deus. É por isso instrumento da misericórdia divina.

Abandono do sacramento de reconciliação
Em relação ao corpo místico de Cristo, as pessoas abandonam a Igreja ao abandonar a eucaristia; em relação ao corpo físico de Cristo, muitos abandonam a Igreja ao abandonar o sacramento da reconciliação, deixam de estar em comunhão com Cristo ao rejeitarem no sacerdote o poder ou a faculdade de perdoar os pecados em nome de Cristo.

Ultimamente, muitos outros abandonos da Igreja se devem ao escândalo que certos sacerdotes deram não vivendo o seu ministério como deviam e como prometeram perante a Igreja no dia da sua ordenação ou imposição de mãos. Os que abandonaram a Igreja sentiram-se defraudados pelo comportamento do sacerdote que, segundo eles, deveria ser santo.

A Igreja é santa porque foi fundada por Cristo, mas é humana porque é constituída por pessoas humanas com os seus defeitos. Um certo idolatrar do sacerdote, promovido pelo próprio ou devido à veneração dos fiéis, é também responsável por este escândalo, quando se percebe que o sacerdote não é a nível pessoal quem parece ser em público.

Os fiéis devem recordar que o sacerdote é só um intermediário, é só uma ponte, que a sua fé é em Cristo, que o sacerdote por muito bem que O represente nunca O representa perfeitamente; só Cristo é Santo, Santo, Santo. Um representante é um ator; há bons atores e maus atores. O sacerdote santo como o Santo Cura de Ars e tantos outros, representa bem a Cristo; outros há que o representam mal, em virtude de certos comportamentos.

Como alguém dizia, faz mais ruído na floresta uma árvore que cai que mil árvores que crescem. Os fiéis devem também recordar que, por cada sacerdote que escandaliza, há 20 ou mais que edificam. Os 20 que edificam deveriam ser razão mais que suficiente para os fiéis se manterem na Igreja pondo os olhos em Cristo. Os primeiros sacerdotes, os 12 que Jesus escolheu também tinham os seus defeitos, Pedro negou-o, Judas atraiçoou-o, os restantes abandonaram-no e, no entanto, Jesus não os rejeitou por isso nem rejeitou o seu projeto – a Igreja. 

Conclusão
A Igreja é Cristo no seu corpo místico, a Eucaristia é Cristo no seu corpo sacramental, o sacerdote é Cristo no seu corpo físico. Igreja, Eucaristia e Sacerdote representam a Cristo aqui e agora e atuam em Seu nome. 


Pe. Jorge Amaro, IMC