15 de junho de 2020

3 Atitudes perante os outros: Introvertido - Extrovertido - Ambivertido

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Introvertido versus extrovertido são talvez as palavras mais populares da psicologia, aquelas que toda a gente conhece e aplica tanto a si como aos outros quando se trata de descrever-se ou de descrever o comportamento básico ou atitude básica dos outros.

Toda a gente sabe que uma pessoa introvertida é uma pessoa voltada para dentro, que fala com os seus botões; por outro lado, o extrovertido é uma pessoa voltada para fora, precisa da convivência como do ar que respira.

Quem primeiro cunhou estes termos foi o psicólogo suíço Carl Jung, discípulo dissidente de Freud. Vejamos em que difere não só de Freud como de outro grande contemporâneo, Adler, para depois nos centrarmos nestas tradicionais atitudes ou tendências perante a vida e os outros.

Freud, Adler e Jung
Sigmund Freud - É o grande mestre e fundador da psicologia moderna, entendida no seu tempo como psicanálise; Alfred Adler e Gustav Jung são os seus seguidores e discípulos que, a princípio, seguem fundamentalmente a teoria do mestre, mas mais tarde divergem consideravelmente, seguindo cada um o seu rumo.

Freud entende que a raiz de todo o problema psicológico é sexual, ou seja, a repressão de desejos sexuais no inconsciente leva a comportamentos neuróticos no consciente. Freud foi o primeiro pensador que tirou o tema sexual do escuro e do âmbito do pecado. Falar de sexo no seu tempo era tabu, e talvez tenha sido isto que de alguma maneira o levou a dar tanta importância ao sexo.

A divisão da personalidade humana em três instâncias foi o seu grande contributo para entender a natureza humana. O ID é a primeira instância e aquela que nos aproxima mais dos últimos primatas, nascemos com o ID e nunca o perdemos. O ID é inconsciente e assim permanece dentro de nós mesmos. O ID relaciona-se simbioticamente com o seu ambiente circundante, não se destacando muito dele. 

À medida que a criança cresce e se relaciona com o seu ambiente, começa a destacar-se e a diferenciar-se deste, chegando eventualmente à autoconsciência de si mesma: nasce assim o ser, o EGO. Mais tarde, a criança consciente do seu ser toma também consciência, por meio da educação, do dever ser, de que pode crescer, ser mais, ser melhor e assim nasce o SUPEREGO, a última instância da personalidade segundo Freud.

Alfred Adler – Menos introspetivo que Freud, interessou-se mais pelas relações que a criança estabelece desde o princípio e como ela se vê a si mesma perante os outros. Ao contrário de Freud, entende que a razão de todos os problemas psicológicos é o complexo de inferioridade que torna a pessoa ávida de poder.

Ao analisar o inconsciente, Freud descobre fantasias eróticas e desejos reprimidos, enquanto que Adler acha que este inconsciente contém sentimentos de inferioridade e desejos de poder e grandeza que vão tornar a pessoa agressiva na luta pelo poder, ou apática, se entender que não consegue alcançar o poder.

Na prática psicoterapêutica os dois também são diferentes. Adler não usa o divã porque entende que replica uma relação pai-filho e reforça o complexo de inferioridade do cliente. Pelo contrário, usa duas cadeiras frente a frente que fazem do cliente e do terapeuta participantes iguais no processo psicoterapêutico. Talvez este seja o percursor da terapia não diretiva de Carl Rogers.

Gustav Jung – Estende o inconsciente freudiano para além das fronteiras do indivíduo, criando o inconsciente coletivo, algo como uma base de dados à qual todos naturalmente se ligam, pois contém todos os arquétipos da humanidade.

Uma das razões da divergência entre estes três grandes psicólogos pode ser o facto de que, embora as suas teorias se destinassem a ser aplicadas ao homem em todas as suas etapas de crescimento, cada um dos três se inclina para uma etapa diferente deste crescimento. Freud está mais interessado na infância, Adler na adolescência e Jung na idade adulta.

Neste sentido, Jung abandona Freud porque entende que o nosso comportamento não depende só de eventos do passado, quer tenham sido traumáticos ou não traumáticos. A pessoa procura sempre atualizar-se, está orientada para o futuro e, neste sentido, toma as atitudes que acha que melhor resolvem os seus problemas e satisfazem as suas necessidades.

Neste contexto, Jung propõe duas atitudes, tendências ou abordagens em relação à vida: introversão e extroversão. Considera-se que estas ideias são o maior contributo de Jung para a teoria da personalidade. De facto, a visão dos tipos extrovertido e introvertido de Jung serve como base ao indicador de tipos Myers-Briggs (MBTI).

Sem se preocupar com o passado, a dupla Myers-Briggs estuda o comportamento da pessoa no aqui e agora e analisa-o na medida em que se situa entre duas atitudes ou tendências contrárias. Em relação à nossa motivação e à forma como adquirimos a energia, somos introvertidos ou extrovertidos. Em relação à forma como adquirimos e processamos a informação de que precisamos na nossa vida, somos sensitivos ou intuitivos. Em relação à forma como tomamos decisões, uns regulam-se mais pelo pensamento, outros pelo sentimento. Em relação à forma como nos situamos na vida a nível existencial e profissional, uns confiam mais na sua capacidade de julgar, outros mais na sua perceção.

Os resultados de um teste de MBTI nunca mostram uma pessoa como sendo 100% introvertida ou extrovertida, sentimental ou racional, sensitiva ou intuitiva, julgadora ou percetiva; indicam apenas em percentagem uma tendência ou inclinação mais para um lado que para o outro.

O objetivo deste texto não é estudar a teoria de Myers-Briggs, mas sim os comportamentos introvertidos e extrovertidos segundo Jung e segundo autores posteriores a ele. O título deste texto não se refere apenas à introversão e extroversão, mas também à ambiversão.

É certo que este termo era desconhecido por Jung mas ele próprio já entendia que não havia ninguém que fosse 100% introvertido ou extrovertido. Hoje os autores entendem que existem pessoas que não são nem um nem outro nem os dois ao mesmo tempo, dependendo das situações ou motivações do momento.

O que é ser introvertido - extrovertido – ambivertido? Uma atitude perante a realidade, perante os outros, perante a vida? Uma motivação, uma tendência, um tipo psicológico, um caráter, um tipo de personalidade, um temperamento?

Tive dificuldade em decidir-me por este título, pois cada autor usa a sua forma de entender estes comportamentos fundamentais da pessoa humana. Ficamos com a palavra “atitude” e se tivéssemos que escolher uma segunda escolheríamos “tendência”, para definir a forma como uma pessoa se situa na vida em relação a si mesma, à realidade e aos outros.

Qual é a orientação natural da nossa energia? O que mais nos motiva? Cada pessoa tem duas faces. Uma está voltada para o mundo exterior de atividades, entusiasmos, pessoas e coisas; a outra para o mundo interior dos pensamentos, interesses, ideias e imaginação.

Sendo estes lados da nossa natureza, complementares, a maior parte das pessoas tem preferência por um deles. Assim, um dos seus dois rostos - extrovertido ou introvertido - assume a liderança no desenvolvimento da sua personalidade e desempenha um papel mais dominante no seu comportamento.

Ultimamente, fala-se de uma terceira tendência - a ambiversão - que fundamentalmente é uma síntese das outras duas. Pessoalmente, sempre me entendi como introvertido; mas todos os testes que fiz sobre o assunto sempre me colocaram na fronteira entre o introvertido e o extrovertido, ou seja, introvertido, mas com facetas de extroversão.

Descobrir o termo ambiversão foi para mim o mesmo que descobrir-me a mim mesmo, um “eureka” sobre mim mesmo: afinal não sou introvertido como pensava nem extrovertido, mas uma síntese ou mistura das duas atitudes. Nem podia ser de outra maneira, sendo quem sou e sendo o meu trabalho lidar diretamente com pessoas mais que com coisas ou papéis.

Infância: introversão e extroversão
Jung entende que adquirimos bem cedo estas duas atitudes fundamentais perante a vida, a realidade e os outros que depois mantemos durante o resto da nossa vida. Estas atitudes aparecem quando o bebé corta o cordão umbilical que o liga ao seu meio ambiente e começa a diferenciar-se dele. Podemos dizer que o introvertido nasce ou emancipa-se antes que o extrovertido, na medida em que se diferencia mais fortemente do seu ambiente que o extrovertido que, de alguma forma, ainda se mantém por mais tempo em simbiose com ele.

Perante este dado, uma criança com tendência extrovertida demonstra prontidão para agir e responder aos estímulos e solicitações do meio ambiente; a sua atenção é dirigida ao mundo exterior e interage com os objetos sem reservas e sem medo, mesmo que os desconheça.

Por outro lado, a criança introvertida assume uma atitude reflexiva e até desconfiada diante daquilo que não conhece, sente medo e entende que deve proteger-se e defender-se da influência que os objetos possam ter sobre ela. Por isso mantém uma distância perante eles, com o intuito de os conhecer melhor e adquirir poder e autoconfiança nas suas ações sobre eles.

Pouco se sabe sobre a forma como nos transformamos em introvertidos ou extrovertidos. Inicialmente, atribuía-se muita importância aos fatores educativos, mas verifica-se muitas vezes que filhos da mesma mãe que foram teoricamente educados da mesma maneira, agem e reagem de maneiras diferentes na mesma situação.

No caso das atitudes psicológicas, o fator educativo não é aparentemente o mais determinante na aquisição das atitudes de introversão ou extroversão. É provável que haja uma predisposição genética ou biológica para se assumir uma ou outra atitude.

Atitude introvertida
A forma de conhecer do introvertido - O mundo do introvertido está dentro de si mesmo; é algo como o mundo das ideias da caverna de Platão. A nível filosófico, o introvertido, no ato de conhecer as coisas, não lida com os acidentes das coisas, ou seja, com as suas características, mas com a sua essência, com o que estas coisas significam em si ou para ele.

É claro que esta atitude fundamental pode levar a mal-entendidos pelo facto de o introvertido não se relacionar com o objeto em si, mas com a ideia ou imagem, sempre subjetiva, que tem do objeto, coisa ou pessoa em questão. A perceção da realidade do introvertido nunca é objetiva, porque ele não vê as coisas tal como elas são, mas como ele entende que elas são, ou seja, como elas são para ele.

Para o introvertido, a realidade psíquica é uma experiência relativamente concreta, algumas vezes chega a ser mais concreta que a realidade externa. O que conta não é o que a coisa ou pessoa é em si mesma, mas o que ela é para o sujeito que a conhece. O erro está, é claro, em confundir o que a coisa ou pessoa é em si mesma com o que é para mim. O sujeito que conhece é mais importante que a pessoa ou coisa a ser conhecida. As pessoas e as coisas não são o que são, mas o que são para mim.

Dizem ou diziam que os japoneses não desfrutam dos lugares que visitam por estarem atarefados a fazer fotografias e vídeos, desfrutando eventualmente desses lugares quando, já em casa, os revisitam através dos vídeos e fotografias que contemplam no ecrã da televisão, comodamente sentados no sofá, bebendo saque. Esta pode ser uma imagem caricata de um introvertido que desconsidera a realidade exterior, a favor da realidade interior.

A mente do extrovertido orienta-se e relata fielmente os factos objetivos e permanece sempre em contacto com a realidade a conhecer, podendo variar a sua conceção conforme esta varia. Pelo contrário, a mente do introvertido é como uma máquina fotográfica: abre-se o obturador num espaço curto de tempo, a realidade entra e depois fecha-se e não volta a abrir-se. Enquanto que o introvertido pode olhar o extrovertido como superficial e demasiado dependente da realidade, o extrovertido olha o introvertido como preconceituoso, egoísta e distanciado da realidade.

Introversão e timidez - Os introvertidos podem ser ou não ser tímidos; o tímido é inseguro, está apreensivo e nervoso quando está com pessoas; o introvertido pode até ter boas competências sociais, mas cansa-se de estar com os outros; precisa de estar sozinho para recarregar a sua energia.

Resumindo
  • Voltado para o mundo interior. Tem preferência por encontrar a energia e motivação no mundo das ideias, emoções, impressões e experiências pessoais. Prefere refletir antes de agir e, novamente, refletir. Precisa de tempo para pensar e recuperar a sua energia. Em geral, é pouco sociável, por opção, não porque seja tímido. Os ambientes muito agitados, com muitas pessoas cansam o introvertido.
  • Do ponto de vista energético, o introvertido produz a sua própria energia, motiva-se a si mesmo, é autónomo e independente; o extrovertido precisa de se ligar com o mundo exterior para se motivar, de se ligar aos outros para carregar as baterias.
  • O modo de aprendizagem do introvertido é pela observação, é uma pessoa mais pensativa e introspetiva. O introvertido precisa de estar sozinho. Não expressa muito, pensa e analisa.
  • Pensa e reflete e só depois atua, e dificilmente muda de opinião, podendo ser fundamentalista e intolerante quando negativo.
  • Precisa de uma quantidade de "tempo a sós" para recarregar as baterias.
  • Motivado a partir de dentro, a sua mente é, por vezes, tão ativa que tende a fechar-se ao mundo de fora do qual se protege. A sua mente é o seu castelo.
  • Tem preferência pela comunicação e relações de um-para-um. Os temas de conversa são profundos e giram em torno de ideias e conceitos; não perde o tempo a falar de assuntos triviais ou mexericos.
  • Prefere direcionar a sua energia estudando e analisando ideias, informações, explicações e crenças.
  • Parafraseando Descartes, o introvertido pensa, logo existe, e depois atua ou não; o extrovertido existe, depois pensa.
  • O introvertido é Platão, o extrovertido é Aristóteles.
  • O extrovertido é fácil de conhecer, o introvertido é difícil de conhecer.
  • O extrovertido expressa emoções, o introvertido controla-as ou reprime-as. O primeiro precisa de relações, o segundo precisa de solidão e privacidade. Um traz amplitude para a vida, o outro traz profundidade. O primeiro pode ser acusado de ser superficial, o segundo de ser uma ilha.
  • Uma pequena parte da população é introvertida. 
Profissões e formas de vida
Os introvertidos são bons investigadores, engenheiros, arquitetos, filósofos, escritores, psicólogos, professores, áreas onde a capacidade de refletir antes de agir é valorizada. Por exemplo, um soldado pode e deve ser extrovertido, enquanto que um estratega militar deve certamente ser introvertido; mas nem sempre isto acontece. Quando se trata de natureza humana, mais são as exceções que as regras.

Atitude extrovertida
O mundo do extrovertido é o mundo real, fora de si mesmo. Para o extrovertido, o mundo externo parece o sujeito e ele o objeto. O indivíduo deixa-se impregnar pelo exterior que o invade. Segundo Jung, o extrovertido vive de tal modo, que o objeto, como fator determinante, desempenha na sua consciência um papel bem maior que a sua opinião subjetiva. Sente e pensa no objeto pessoa ou coisa do seu conhecimento, perdendo nele a sua subjetividade ou individualidade.

Um extrovertido pode ser ou não ser uma pessoa amistosa e sociável. O que verdadeiramente o define é o precisar dos outros e do mundo exterior para ser ele mesmo; sente-se cheio de energia quando está com os outros, pois neles encontra a sua motivação e as suas ideias.

As considerações subjetivas do extrovertido existem, mas não são privilegiadas no plano da sua consciência, pois favorece o objeto e as suas circunstâncias em vez de se destacar a si próprio como sujeito. Isto pode levar o extrovertido a distanciar-se de si mesmo no âmbito dos pensamentos, avaliações, sensações e intuições subjetivas. Com este quadro psíquico, é bem mais provável que um extrovertido se aliene e perca a sua liberdade num comportamento aditivo que o introvertido que mantém uma distância segura em relação às coisas.

O extrovertido tende a viver dissociado e divorciado de si mesmo, dos seus sentimentos e pensamentos, refugia-se no objeto para afastar de si a dor e o sofrimento, e apercebe-se das suas necessidades quando a não satisfação das mesmas já é problemática. As necessidades subjetivas, de facto, são o seu ponto fraco, ignorando a saúde do seu próprio corpo em comportamentos pouco saudáveis. O não reconhecimento consciente das suas necessidades pode assumir proporções catastróficas a ponto de perder a referência e proporção das coisas em relação a si mesmo: está tão envolvido na realidade que se confunde com ela.

Resumindo
  • Precisa de estar e entrar em contacto com os outros para recarregar as suas energias de forma externa. É motivado ou tira a sua energia do mundo das coisas, das pessoas, das relações, das atividades. A forma de aprendizagem também é externa: precisa de conversar, de trocar ideias. Odeia fazê-lo por si mesmo, sem a interação com os outros e o mundo ao seu redor. Sente que lhe falta algo quando privado da interação com o mundo exterior, pois é este que o motiva. Procura inspiração pensando alto e em diálogo com os outros. Trabalha melhor em equipa que sozinho.
  • Obtém a sua energia através da ação; a sua energia psíquica e a sua atenção e interesse são dirigidos para fora de si, para as pessoas e para o mundo à sua volta. Real é o mundo à sua volta e é este, e não o seu pensamento, que determina o seu comportamento. O seu mundo interior é menos real e mais secundário na sua lista de prioridades e influencia menos o seu comportamento. Está mais interessado no que acontece à sua volta do que no que acontece no seu interior.
  • Gosta de realizar várias atividades; age primeiro e depois pensa. Quando inativo, a sua energia diminui, podendo até entrar em tédio e depressão. Em geral, é sociável. Enquanto o introvertido procura adaptar o mundo à sua mente, o extrovertido adapta-se, acomoda-se ao mundo. Neste sentido, facilmente muda de opinião como uma cana agitada pelo vento, como um camaleão e, quando é negativo, é uma pessoa sem princípios. Facilmente faz novos amigos ou se adapta a um novo grupo, e também facilmente rompe com relações indesejáveis. É aberto e diz o que pensa, e pode até não pensar no que diz.
  • Não é necessariamente altruísta, vai ter com os outros porque precisa deles. Os temas de conversa são triviais e superficiais, coisas do dia a dia e até mexericos. É aberto e falador, objetivo, uma pessoa de ação. É prolixo nos seus interesses e tem dificuldade em manter a atenção focada numa só coisa.
  • A maior parte da população é extrovertida. 
Profissões e formas de vida
Os extrovertidos são bons gestores, vendedores, treinadores, apresentadores, jornalistas entrevistadores, áreas onde é importante interagir com as pessoas e as coisas.

Ambivertidos
Ninguém é puramente introvertido nem puramente extrovertido ou estaria encerrado num manicómio.
Carl Jung

Os entendidos em ambiversão dizem que a maior parte da população é ambivertida. Ou seja, todos caímos nalgum ponto do espetro entre a extroversão e a introversão. É um conceito novo, desconhecido para Jung, o fundador da teoria da introversão e extroversão, embora ele mesmo entendesse que podia haver um grau intermédio entre estes dois contrários.

Esse grau intermédio é o ambivertido. Em meu entender, o ambivertido é fundamentalmente um introvertido, ou seja, está enraizado na introversão, mas também se dá bem fora da sua concha, à qual necessita de regressar. É versátil como um pato que tanto voa como anda ou nada.

Dá-se bem na solidão e entre a multidão. Na verdade, para ser ele mesmo necessita de alternar solidão com multidão, ou seja, estar a sós consigo mesmo e estar com os outros. Sente ambas as necessidades, pelo que tanto pode passar dias fora de casa, como passar dias sem sair à rua.

Perante um determinado estímulo, a reação de um introvertido e de um extrovertido é previsível; a reação de um ambivertido não é clara nem previsível, nem sequer para ele mesmo; depende de muitos fatores, entres os quais os interesses do indivíduo no momento.  Os ambivertidos podem ser excelentes conversadores e comunicadores e, por outro lado, também excelentes ouvintes.

O primeiro a usar o termo "ambivertido" foi o psicólogo americano Edmund S. Conklin, em 1923, segundo conta Ian Davidson, professor de Psicologia da Universidade de York, Canadá, num artigo datado de 2017. Davidson explica que um psicólogo da época dizia que Conklin "inventou a palavra" para descrever aqueles indivíduos que se encontram entre os introvertidos (que vivem na sua cabeça) e os extrovertidos (que vivem fora dela).

Os ambivertidos situam-se no meio do espetro entre a extroversão e a introversão; não são muito faladores nem vivem demasiado centrados em si mesmos; não têm uma necessidade forte e quase compulsiva de interagir com os outros, como o extrovertido puro, nem buscam a solidão para fugir à realidade, como os introvertidos. São flexíveis, tolerantes, ambivalentes, bilingues ou poliglotas, ecléticos, vivem com um pé em cada um dos dois mundos.

Resumindo
  • O ambivertido não tem medo de ser o centro das atenções, dependendo do contexto e da situação. Em muitas situações, prefere simplesmente observar tranquilamente sem participar ativamente.
  • Goza e diverte-se nas festas e eventos sociais durante horas a fio, porém, de repente, a energia esgota-se e precisa de se retirar para a sua zona de conforto.
  • Como os extrovertidos, gosta de conversar, mas não sobre assuntos triviais ou futebol.
  • Gosta de socializar, mas às vezes é reservado, sobretudo se não conhece alguém. E não será ele que toma a iniciativa de se apresentar como faria um extrovertido.
  • Alguns dos seus amigos pensam que é extrovertido, outros que é introvertido, isto porque se apresenta de diferentes maneiras em diferentes situações.
  • Em geral, pensa antes de falar; se alguém fala muito, ele escuta; se todos estão em silêncio, ele fala.
  • Os ambivertidos são os melhores a lidar com os extremos que provocariam o colapso dos introvertidos ou os extrovertidos, uma vez que têm um maior grau de tolerância tanto no extremo da introversão como no extremo da extroversão. 
Conclusão
Os introvertidos ficam em casa num dia de sol, os extrovertidos ficam na rua num dia de chuva, os ambivertidos aproveitam o sol e fogem da chuva.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de junho de 2020

3 Atitudes perante a Ira: Agressiva - Passiva - Assertiva

1 comentário:
Qualquer pessoa pode enfurecer-se facilmente; porém, enfurecer-se com a pessoa certa, com a intensidade certa, no momento certo, por um objetivo certo, e de uma forma certa, não está ao alcance de todos e não é fácil. Aristóteles

A ira e o amor são as emoções mais básicas do ser humano. São o Eros e o Tanatos de Freud, os polos positivo e negativo da energia humana, o Yin e Yang, dos orientais, são a afetividade e a agressividade que permeiam toda a ação humana.

A agressividade é tão necessária quanto a afetividade e o doseamento das duas na vida do dia a dia é uma questão de aprendizagem. Tanto uma como a outra energia devem ser sublimadas para que delas possamos ter um bom aproveitamento, tanto a nível individual como social. O problema surge quando a educação nos primeiros tempos da criança não é adequada. Inadvertidamente os pais passam para os filhos a sua boa ou má gestão da ira.

Natureza e génese da ira
A ira é como o fogo, só pode apagar-se à primeira faísca, depois é tarde. Giovanni Papini

A ira nasce do medo, e este de um sentimento de fraqueza ou inferioridade. Se tiver coragem ou determinação, terá cada vez menos medo e, consequentemente, sentir-se-á menos frustrado e incomodado. Dalai Lama

Ira, raiva, cólera, fúria, são várias as palavras para designar o mesmo sentimento ou emoção reativa que sentimos diante da adversidade que pode manifestar-se nos acontecimentos, pessoas ou coisas que nos antagonizam. É um sentimento natural: sem a ira, a vida não seria possível, por isso em si mesma é moralmente neutra não é positiva nem negativa do ponto de vista natural pois é necessária à vida.

Dissemos que a ira era uma emoção básica, mas isso não quer dizer que seja uma emoção primária. Na verdade, ela é secundária, ou seja, é apenas a ponta do icebergue de muitas outras emoções que existem a baixo da linha de água. A ira é a resposta do indivíduo a essas emoções e, essas sim, são primárias.

Que sinto eu antes de sentir ira, ou seja, antes de me zangar? Sinto medo, ansiedade, vergonha, frustração, humilhação, desmotivação, tristeza. Todos estes sentimentos precedem e motivam a ira. O problema é que a ira substitui estas emoções primárias tão rapidamente que não chegamos a ter consciência delas; mas são elas que motivam a ira como reação, ou seja, a ira é uma reação a essas emoções primárias.

No entanto, estamos apenas cientes de que estamos zangados ou, muitas vezes, nem isso. Pode acontecer que os outros, ao verem-nos irados, nos confrontem e chamem a atenção para o facto de estarmos zangados. A nossa primeira reação é negar que estamos zangados, mesmo que a ira já tenha motivado uma má palavra, um insulto ou uma ação violenta.

A ira é uma emoção poderosa: ou a controlamos ou ela controla-nos a nós. A função da ira é proteger-nos do meio ambiente e dos outros. Os pensamentos negativos são o resultado de emoções primárias negativas como as que referimos; tudo o que precisamos em seguida é de um gatilho, de qualquer situação que nos fará explodir. Tudo acontece num ápice de tempo.

A gestão da ira só é possível se eu me der tempo para descobrir as emoções primárias que a motivam. Onde há fumo há fogo, toda a emoção primária já é uma reação a uma necessidade não satisfeita. As emoções primárias que atrás referimos como estando na origem da ira são elas mesmas uma reação ao facto de uma necessidade humana não estar a ser satisfeita. Uma vez descobertas essas necessidades, tudo o que temos de fazer é satisfazê-las de uma forma adequada e o sentimento de ira implode, como aquelas bombas que colocam nos edifícios e que os fazem cair sobre si mesmos em vez de explodirem em todas as direções.

Há dois tipos de ira: a ira justa ou justificável e a ira injusta ou não justificável que é uma ira pessoal e transferencial. As duas são parecidas ou podem até partilhar os mesmos métodos, força e violência, mas o fim não é o mesmo. Por outro lado, uma é controlada por quem a usa, a outra (a transferencial) controla geralmente quem a usa.

Ira justa
Ai de vós, doutores da Lei e fariseus hipócritas, porque fechais aos homens o Reino do Céu! Nem entrais vós nem deixais entrar os que o querem fazer. Ai de vós, doutores da Lei e fariseus hipócritas, que devorais as casas das viúvas, com o pretexto de prolongadas orações! Por isso, sereis mais rigorosamente julgados. Mateus 23, 13-14

Chegaram a Jerusalém; e, entrando no templo, Jesus começou a expulsar os que vendiam e compravam no templo; deitou por terra as mesas dos cambistas e os bancos dos vendedores de pombas, (…) E ensinava-os, dizendo: “Não está escrito: a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos? Mas vós fizestes dela um covil de ladrões”. Marcos 11:15-17

Jesus de Nazaré, como pessoa cem por cento humana, experimentou a ira muitas vezes na sua vida, precisamente porque encontrou muita adversidade e antagonismo, especialmente entre os escribas, fariseus e doutores da lei. Sentiu certamente raiva porque os seus compatriotas estavam obtusamente fechados à sua mensagem e, perante a impotência de os fazer mudar, chorou sobre Jerusalém (Lucas 19, 41-44). O choro é uma das melhores formas de nos desenvencilharmos de emoções negativas como a ira.

Acabámos de exemplificar as vezes que Jesus atuou motivado pela sua ira, ou seja, expressou-a na acusação que várias vezes fez contra os líderes do povo e na limpeza do comércio que fez no Templo. Nestas duas ocasiões podemos ver as marcas que distinguem a ira justa da que não o é:

Adequada e proporcional - A ira justa é controlada por quem a usa, ou seja, a pessoa que a usa nunca perde as estribeiras, pois não tem a intenção de infringir danos no outro. É controlada e adequada como a ira que os pais usam com os filhos: não lhes querem mal, pelo contrário, temem que o seu comportamento seja destrutivo.

Não tem relação com o passado – Ao contrário da ira transferencial que provém do passado individual da pessoa irada, o que motiva e suscita a ira justa pertence ao presente e está patente aos olhos de todos.

Ira altruísta – O objetivo da ira é restaurar a harmonia, a justiça, a paz. Assim foi no caso de Jesus. Jesus nunca se irou por motivos pessoais, mas irou-se para defender os pobres dos seus opressores; é neste sentido que lhe chamo uma ira altruísta, em contraposição com a ira transferencial que é egoísta.

Ira transferencial
Anger is never without a reason, but seldom with a good one. (A ira nunca é desprovida de razão, mas raramente tem uma boa razão). Benjamin Franklin

Ao definirmos a ira transferencial, percebemos que serve o contrário de tudo o que dissemos sobre a ira justa. Não é adequada nem proporcional ou controlada: pelo contrário, é frequentemente desproporcional, inadequada, não tem como fim o bem do outro, mas algum motivo egoísta ou até mesquinho. Muitas vezes, é a ira que controla a pessoa irada e não o inverso.

A génese desta ira está no passado, ou seja, a pessoa já a contém, vive irada e só precisa de uma situação ou acontecimento que a faça espoletar; por isso se chama ira transferencial, porque foi gerada num acontecimento passado e, como a pessoa naquele tempo não a exprimiu por estar numa situação de inferioridade, por exemplo, por ser criança, acabou por suprimi-la ou reprimi-la.

Um exemplo clássico de ira reprimida é a que é causada pelo patrão que repreende duramente o empregado; este, não podendo descarregar sobre o patrão a sua ira, chega a casa e fá-lo sobre a mulher por qualquer razão, a mulher fá-lo em seguida sobre o filho e o filho dá um pontapé ao cão ou ao gato, na esperança de que este último saiba lidar melhor com a raiva porque não tem ninguém abaixo dele sobre quem a descarregar.

Neste caso, a raiva saiu de dentro do indivíduo e não foi reprimida ou suprimida, apenas se usou outra pessoa como saco de pancada do pugilismo. A ira transferencial provém de um passado mais longínquo: o episódio ou episódios que a originaram foram graves abusos da autoridade sobre alguém indefeso e que não tinha forma de exprimir a ira que evidentemente se interiorizou. O tempo pode fazer esquecer os factos que originaram essa ira, mas não apaga a ira e muitas vezes até a faz fortalece.

Esta ira que se volta para dentro não desaparece e sempre que um acontecimento do presente apresenta semelhanças com aquele do passado, inconscientemente o nosso psiquismo vai buscar aquela ira, liga-se a ela e expressa agora aquilo que não expressou no passado. A raiva é desencadeada quando eventos ou pessoas do presente são interpretados de uma forma semelhante aos eventos e pessoas do passado.

Em cada infração do presente, inconscientemente, vemos os monstros do passado e reagimos como devíamos ter feito nesse tempo. É evidente que acaba por pagar o justo pelo pecador. A pessoa do presente sobre a qual descarregamos a nossa ira é somente um bode expiatório da ira que temos acumulada e que não foi descarregada na altura sobre o móbil que a originou.

Cervantes, o autor do livro Don Quixote de la Mancha, descreve muito bem este caso no famoso e emblemático episódio dos moinhos de vento. Iam Don Quixote e o seu escudeiro Sancho Pança trotando pela Mancha, quando viram uns trinta ou quarenta moinhos de vento. Don Quixote dirigiu-se ao seu escudeiro Sancho Pança, “Vês ali aqueles gigantes?”, “Que gigantes?” perguntou Sancho Pança, “Aqueles que vês ali, de braços compridos.”.

Apesar da advertência e do realismo de Sancho Pança que só via moinhos de vento, Don Quixote investiu contra os moinhos, pensando que eram gigantes. Don Quixote viu neles os seus inimigos do passado que eram gigantes para ele e o tinham derrotado; mas neste momento, achou-se com capacidade para os enfrentar.

Como a comunicação não-violenta vê a ira
A raiva é uma expressão suicida de uma necessidade não satisfeita M. Rosenberg

Enganamo-nos a nós mesmos quando pensamos que os nossos sentimentos resultam do que os outros dizem ou fazem. Em vez de buscar em nós mesmos a causa da nossa ira ou de quaisquer outros sentimentos ou emoções, culpamos os outros, procuramos um bode expiatório e frequentemente descarregamos sobre ele a nossa ira em forma de vingança ou punição. A ira está para a sua causa como o fumo está para o fogo: onde há fumo há fogo, onde há ira há uma necessidade nossa que não está a ser satisfeita. É esta necessidade que causa a ira e não o que o outro disse ou fez.

Rosenberg dá como exemplo o caso de um prisioneiro numa prisão sueca, a quem perguntam o que é que as autoridades da prisão tinham feito para provocar a sua ira; ele respondeu, “há já três semanas que fiz uma petição e eles ainda não responderam”. O prisioneiro fez uma observação pura sem misturar nenhuma avaliação, ou seja, sem qualificar o comportamento das autoridades prisionais. Porém, o estímulo parece coincidir com a causa, ou seja, ele culpa as autoridades pela sua ira.

Ao voltar-se para si mesmo na procura da razão ou causa da ira, o prisioneiro descobriu que, de facto, o que sentia era medo de sair da prisão sem ter um curso, uma profissão para poder sustentar-se. O que causa a nossa ira não é o que os outros dizem ou fazem, mas a nossa interpretação e avaliação negativa do que dizem e fazem, assim como o que nós dizemos a nós mesmos.

O prisioneiro descobriu que estava zangado por achar que não era justa a forma como estava a ser tratado, não era assim que se tratavam seres humanos. Sentimos ira porque interpretamos e julgamos como mau, injusto, desumano, o comportamento que desencadeia a nossa ira. O comportamento desencadeia a ira, mas o que a causa é a nossa interpretação desse mesmo comportamento e o veredito que atribuímos às pessoas, julgando-as egoístas, injustas, cruéis, etc.

A raiva resulta de concentrarmos a nossa atenção no que a outra pessoa "deve" ou "não deve" fazer e julgá-la como "errada", "ruim" ou “egoísta”, etc. A ira mantém-nos focados sobre o que não gostamos, em vez de nos ajudar a ligarmo-nos às nossas necessidades. Mudando o foco da nossa atenção, perguntando-nos pelas necessidades que ficam por satisfazer enquanto acusamos os outros, o sentimento da raiva desaparece ou é substituído por sentimentos que servem a vida, como o medo, a desilusão, a tristeza ou a dor.

As sentenças que pronunciamos ao julgar aquele cujo comportamento desencadeou a nossa ira são expressões alienadas e trágicas de necessidades nossas que se encontram por satisfazer. Em vez de olharmos para dentro de nós para nos ligarmos às nossas necessidades, saímos para fora de nós e acusamos e culpamos os outros pela insatisfação dessas necessidades.

Voltando ao prisioneiro sueco, Rosenberg perguntou-lhe que necessidades insatisfeitas estavam por detrás das acusações feitas às autoridades da prisão? Não foi fácil a resposta, pois estamos mais habituados a reagir e julgar os outros que a fazer exercícios de introspeção e ligação com o que verdadeiramente necessitamos; por fim, o prisioneiro disse “Bom, a minha necessidade é ser capaz de sobreviver conseguindo um emprego depois de sair da prisão; o pedido que eu fiz às autoridades era aprender um ofício durante o tempo de reclusão.”

Perguntou Rosenberg, “Como te sentes agora?”, “com medo”, respondeu o prisioneiro. Ao ligar-se à necessidade que provocava o medo como emoção primária e a raiva contra as autoridades, como emoção secundária, esta última acabou por dissolver-se por si mesma, implodiu como atrás dissemos e deixou de se fazer sentir.

Recapitulando, perante a raiva, a primeira coisa a fazer é contê-la com uma respiração profunda, contar até 10, depois verificar a emoção primária que subjaz à raiva respondendo à pergunta “por que estou irado?” Por fim, é nossa responsabilidade descobrir a que necessidade se refere essa emoção primária e verificar que a solução ou satisfação dessa necessidade não cabe à pessoa contra quem estamos irados.

Reativo versus proativo
A man in a passion, rides a mad horse (Um homem consumido por uma paixão, cavalga um cavalo louco) Ben Franklin

Muito do que dizemos neste capítulo refere-se a outras emoções e não só à emoção da ira, mas como esta é a mais reativa das emoções, tudo o que aqui dizemos pode aplicar-se à ira quando a vivenciamos de uma forma agressiva e explosiva ou seja, reativa.

Escusado será dizer agora que o comportamento reativo é o nosso comportamento animal, uma vez que provém dos cérebros límbico e réptil que foram concebidos para livrar os répteis e os mamíferos dos perigos que encontram nas suas vidas. Não foram concebidos para as situações que um ser humano encontra em si mesmo e nos seus semelhantes: nestas situações é o neocórtex que nos ajuda e não os outros dois. Isto que sabemos à priori a nível teórico não é o que na hora da verdade aplicamos no dia a dia das nossas vidas.

Forma de atuar – A pessoa reativa atua dentro de um padrão de causa-efeito, estímulo-resposta, enquanto que a pessoa pró-ativa tem consciência das suas emoções e decide livremente o que é adequado fazer com elas, assume conscientemente as rédeas do seu comportamento.

Perante o erro – O reativo diz que a culpa não foi dele e, se chega a admiti-la, diz que todos são assim e que errar é humano. O pró-ativo entende que “mal de muitos é consolo de tontos” e por isso aprende com o erro, encontra em todos os erros uma lição para aprender.

Perante a adversidade - O reativo sente-se vítima, desmotiva-se, perde o controlo, deprime-se, questiona a sua autoestima, teme o fracasso e não atua. O pró-ativo sabe que a adversidade é o melhor dos mestres; onde há uma crise, há uma oportunidade de crescer, de descobrir coisas novas e a necessidade aguça o engenho.

Perante o futuro - O reativo acha-se perseguido pelo azar ou acha que os que triunfam na vida não chegam lá pelo trabalho, mas sim pela sorte. É supersticioso e acredita no destino ou na predestinação. O pró-ativo entende que o futuro e o sucesso dependem dele, estão nas suas mãos, e que o que acredita que vai acontecer acontece mesmo com o seu esforço. 

Perante o uso do tempo – O reativo está sempre muito ocupado e não tem tempo sequer para os seus, vive ansioso e stressado por falta de organização, frequentemente usa mal o tempo, perde-o em coisas sem importância e depois falta-lhe para coisas importantes; boicota-se a si mesmo. O pró-ativo trabalha com organização e método, pelo que sempre encontra tempo para as coisas importantes da sua vida, para si mesmo e para os outros, vive sem stress e sem ansiedade.

Perante os desafios - O reativo foge com o rabo à seringa, contorna os desafios, não os enfrenta, esconde a cabeça debaixo da areia como a avestruz. O pró-ativo enfrenta os desafios um a um, com método, organização e coragem, acha que o touro é para pegar pelos cornos.

Perante o compromisso - O reativo faz promessas que não cumpre, é como o personagem do evangelho que diz ao pai que vai trabalhar na vinha, mas depois não vai, e encontra sempre justificações para o seu comportamento desleixado e preguiçoso. O pró-ativo é fidedigno e confiável pois não falta ao que prometeu. O pró-ativo tem uma visão mais ampla, consegue ver a parede na sua totalidade, enquanto que o reativo fixa-se apenas no azulejo que lhe cabe colocar nela.

Perante o espelho - O reativo diz “não sou tão mau como dizem, ainda há pessoas piores que eu”. O pró-ativo diz “sou bom, mas posso ser melhor”.

Em diálogo - O reativo não espera que chegue a sua vez para falar, interrompe e pensa que o que tem a dizer é mais importante, não é bom ouvinte e está sempre a pensar numa resposta, quer ganhar a contenda e não se importa de perder o adversário; por outro lado, resiste a todos os que sabem mais que ele e apenas se fixa nos defeitos deles para lhos atirar à cara. O pró-ativo é calmo, ouve, compreende, pensa e responde, encontra coisas positivas no que os outros dizem e começa a sua intervenção mencionando-as, respeita os que sabem mais que ele e procura aprender com eles.

Perante o progresso - O reativo resiste ao progresso, é apaixonado pelo “status quo” e pelas suas rotinas, acha que sempre se fez assim e sempre há de fazer-se assim, não há outra maneira. O pró-ativo quer crescer e acha que deve haver uma maneira melhor de fazer as coisas. Por isso, em resumo, o reativo é parte do problema, enquanto que o pró-ativo é parte da solução.

Gestão da ira
Ouvistes o que foi dito aos antigos: não matarás. Aquele que matar terá de responder em juízo. Eu, porém, digo-vos: Quem se irritar contra o seu irmão será réu perante o tribunal; quem lhe chamar “imbecil” será réu diante do Conselho; e quem lhe chamar “louco” será réu da Geena do fogo.

Se fores, portanto, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta. Mateus 5, 21-24

Como atrás vimos, o comportamento humano é precedido pelo pensamento e sentimento antes de chegar à ação. Se queremos travar a ação é mais sábio travá-la no sentimento ou no pensamento que travá-la mais tarde. Isto é verdade em relação a todo o pensamento ou emoção e duplamente verdade em relação à ira. Como acima se referiu, a ira é como o fogo que é relativamente fácil de apagar se o apanharmos no começo; mas se o deixarmos alastrar, não haverá nada a fazer.

Quanto mais tempo passamos a pensar num ressentimento, mais o nutrimos; no caso da ira, do ressentimento passamos ao ódio, do ódio ao insulto e do insulto à ação. Por isso, para Jesus, pecado não é só matar, mas todos os passos que levam a essa ação; como bom psicólogo que era, Jesus enumera esses mesmos passos: o sentir a ira, o insultar e castigar, esses passos são pecados tanto quanto o ato de matar.

Para reduzir em segurança a alta velocidade de um carro, é preferível reduzir as mudanças de 5ª para 4ª, de 3ª para 2ª, do que aplicar o travão a fundo, pois o travão só trava as rodas e não a inércia e a velocidade do corpo do carro. Por outro lado, há sempre uma roda que trava mais que a outra desequilibrando perigosamente o carro.

Ao reduzir as mudanças, estou a travar com o motor, ou seja, estou a obrigar o centro do carro a entrar  numa velocidade mais curta e assim reduzo a velocidade do carro em segurança. O mesmo acontece com o nosso comportamento: se dou azo aos pensamentos e sentimentos e procuro travar a ação, é como travar com as rodas; se, por outro lado, controlo os meus pensamentos e sentimentos, estou a travar ou a evitar a ação no meu centro, onde estes têm origem ou a partir de onde se projetam.

Há três formas de gerir a ira: o agressivo é violento, grita, explode, vinga-se por tudo e por nada e só se dá conta do mal que faz depois de o ter feito; é um Incrível Hulk. O passivo nega e esconde a sua ira dos outros e até de si mesmo, mais tarde explode sem ele nem os outros saberem porquê, ou dá bofetadas escondendo a mão; é um terrorista. O assertivo distancia-se da sua ira, separa o bebé da água do banho, denunciando o pecado sem acusar o pecador; é um diplomata.

AGRESSIVA
Nenhuma palavra desagradável saia da vossa boca, mas apenas a que for boa, que edifique, sempre que necessário, para que seja uma graça para aqueles que a escutam. Toda a espécie de azedume, raiva, ira, gritaria e injúria desapareça de vós, juntamente com toda a maldade. Sede, antes, bondosos uns para com os outros, compassivos; perdoai-vos mutuamente, como também Deus vos perdoou em Cristo. Efésios 4, 27, 29, 31-32
  • Speak when you are angry and you will make the best speech you will ever regret (Falai quando estiverdes zangados e fareis o melhor discurso do qual vos arrependereis para sempre). Ambrose Bierce 
  • Anger is one letter short of danger (À ira (anger) falta uma só letra para ser perigo (danger)).  Eleanor Roosevelt 
  • Mais penosas são as consequências da ira do que as suas causas. Marco Aurélio 
  • Agir com raiva é o mesmo que içar a vela na tempestade. Eurípedes 
  • If a small thing has the power to make you angry, does that not indicate something about your size? (Se uma pequena coisa tem o poder de vos enfurecer, será que isso não indica algo acerca do vosso tamanho?) Sydney J. Harris 
  • He who angers you conquers you (Aquele que te enfurece, derrota-te). Elizabeth Kenny 
A ira que existe naturalmente porque tem a função de nos proteger e de nos lançar na vida, usada agressivamente, vai contra a nossa vida e contra a vida dos outros, destrói a harmonia e só consegue a paz do cemitério.
Estar sob a influência da ira é como estar sob a influência do álcool: não sabemos o que dizemos nem o que fazemos. A ira envolve o nosso neocórtex num nevoeiro cerrado, chega a desativá-lo, a deixá-lo KO, ficando a pessoa fora de si, sem nenhum controlo sobre a ira, completamente possuída por este demónio que faz dela o que quer.

Uma ação não iluminada pela razão é uma ação instintiva e animalesca. O agressivo vive no passado interpreta erradamente o presente pois vê-o e analisa-o com o cérebro reptiliano que só serve para as cobras. Por isso se diz “é ruim como as cobras”. Ou então usa o cérebro mamífero que foi desenhado para lobos, não para humanos; por isso Thomas Hobbes afirma que o homem é lobo do homem. O agressivo é contra tudo e contra todos porque vive na crença de que tudo e todos lhe são antagónicos, não confia em ninguém.

Para o agressivo, o ataque é a melhor defesa, explode com facilidade, ferve em pouca água; controla os outros e procura ter poder sobre eles, porque não tem nenhum poder nem controlo sobre si mesmo; usa frequentemente a intimidação; está apaixonado pelo poder e nunca chega a descobrir o poder do amor. Gosta de tirar o tapete de baixo dos pés dos outros e tem prazer em desmascarar os hipócritas.

Diz obscenidades, insulta com facilidade, possui uma voz firme, dura e afiada, grita, subindo de tom no final do seu discurso. Tem um tom de voz sarcástico e frio, é loquaz, o seu discurso é fluente, sem hesitações; tem tendência a usar palavras acusatórias, o contacto visual é um olhar fixo no intuito de intimidar e dominar. Aponta com o dedo, bate com o punho, é impaciente

A vingança do agricultor
If you are patient in one moment of anger, you will escape a hundred days of sorrow (Se fores paciente num momento de ira, escaparás a cem dias de pena). Provérbio chinês
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Um agricultor, enraivecido com uma raposa que lhe roubara as galinhas, conseguiu depois de muito tempo apanhá-la e decidiu vingar-se matando-a, mas também fazendo-a sofrer por todo o ressentimento que lhe tinha causado. Amarrou ao rabo da raposa a uma corda grossa bem embebida em óleo e incendiou-a. A raposa, por uma fatalidade estranha ou ironia do destino, desatou a correr em direção aos campos de trigo louro e maduro do agricultor. Era tempo de colheita, mas nesse ano o agricultor não colheu nada.Quem mal quer fazer, mal lhe há-de acontecer. Voltou-se o feitiço contra o feiticeiro.

Bem mais positiva é a história de Buda, que ia passando de aldeia em aldeia com os seus discípulos, enquanto os aldeões o insultavam por entenderem que ele pervertia a juventude com as suas ideias. A determinada altura, um dos discípulos perguntou ao mestre, “mas tu não ouves os insultos que te dizem estes aldeões?”, ao que o mestre respondeu “ouço sim, eles insultam-me, mas eu não me sinto insultado”.

O efeito dominó da ira
Quando se responde com ira à ira, esta aumenta exponencialmente em intensidade e envolve cada vez mais gente; chama-se a este fenómeno a espiral da violência. Mas a ira ou violência tem também um efeito dominó, como o comprova a história seguinte:

Enquanto a família tomava o pequeno almoço, a menina por descuido deixou cair a chávena do café que manchou a camisa branca do pai. Este repreendeu-a severamente e esta começou a chorar. Em seguida, o pai culpou também a esposa por ter deixado a chávena muito perto da beira da mesa, e esta reagiu, dando início a uma batalha verbal.

Contrariado e resmungando, o pai foi mudar de camisa e quando voltou a menina continuava a chorar e acabou por perder o autocarro escolar. A esposa foi para o trabalho contrariada e o pai teve de levar a filha à escola. Como já estava atrasado para o trabalho, ultrapassou o limite de velocidade e foi multado pela polícia. Chegou por fim à escola e a menina não se despediu do pai.

Quando chegou atrasado ao escritório, ouviu um sermão do patrão e ainda por cima se apercebeu que, com os nervos, tinha deixado a pasta em casa. Teve de regressar a casa e de ouvir mais impropérios do patrão. Terminado o dia, voltou para casa onde reinava uma atmosfera de tormenta, silêncio frio e um ambiente de cortar à faca.

De quem foi a culpa de tudo isto? Dele e só dele. Acidentes como este são comuns, a culpa não é de ninguém, mas a forma como reagimos é da nossa total responsabilidade. Bastava ter dito “não faz mal, pode acontecer a qualquer um” e o dia teria sido diferente.

PASSIVA
Se vos irardes, não pequeis; que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento, nem deis espaço algum ao diabo. Efésios 4:26
  • Anger is an acid can do more harm to the vessel in which it is stored than to anything on which it is poured (A raiva é um ácido que pode danificar mais o recipient onde está guardado do que a superfície sobre a qual é derramado). Baptist Beacon 
  • Bitterness is like cancer. It eats upon the host. But anger is like fire. It burns it all clean (O azedume é como o cancro. Come o hospedeiro. Mas a raiva é como o fogo. Queima, até tudo ficar limpo). Maya Angelou 
  • Learn this from me. Holding anger is a poison. It eats you from inside. We think that hating is a weapon that attacks the person who harmed us. But hatred is a curved blade. And the harm we do, we do to ourselves (Aprendam isto comigo. Reter a raiva é veneno. Come-te por dentro. Achamos que odiar é uma arma que ataca a pessoa que nos magoou. Mas o ódio é uma lâmina curva. E o mal que fazemos, é a nós que fazemos).  Mitch Albom 
  • Segurar a raiva é como agarrar um carvão quente com a intenção de o atirar a outra pessoa, tu és o único que fica queimado. Buda 
  • Guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra. William Shakespeare 
O mal fica com quem o pratica, diz o provérbio, a raiva faz mal sobretudo a quem a sente e não tanto a quem a recebe, a menos que quem a recebe seja uma criança. Suprimir ou reprimir a ira é enganar-se a si mesmo, suprimir ou reprimir a ira não a anula, ela não vai embora vai para o inconsciente porque o consciente a nega.

A ira não se perde, o que se perde é o controlo sobre a mesma. Para a saúde emocional e física da pessoa, melhor seria a explosão. Mesmo que tenhamos dito a nós mesmos que o que aconteceu não tem valor nenhum, o nosso inconsciente dá-lhe o devido valor e defende-nos, de alguma forma, de nós mesmos.

A supressão pode fazer apagar os nossos sentimentos em relação às pessoas, pode colocar minas que em dado momento explodem e apanham as pessoas que vivem à nossa volta. A ira crónica não resolvida pode originar problemas de saúde, como úlceras e depressões.

A pessoa passiva cede às exigências exageradas dos outros. Padece de apatia, cede aos outros o controlo da sua vida, é acriticamente submissa. Nunca oferece o seu parecer antes de os outros darem o seu. Nunca critica nem emite um parecer negativo, culpabiliza-se sem ter culpa nenhuma. A voz é, por vezes, frágil, com um tom monótono, excessivamente tímido ou cálido e, tão silencioso, que muitas vezes cai no final. O fluxo da fala é hesitante e cheio de pausas e dúvidas; aclara a garganta com frequência, sorri falsamente quando está irritada ou é criticada, levanta o sobrolho sempre à espera de uma repreensão, etc. O contacto visual é evasivo e abatido.

O que leva a pessoa a ser passiva? Provavelmente todos na família eram tão atenciosos e prestáveis que a criança nunca teve a oportunidade de praticar o dizer que não. A obediência pode ter sido tão enraizada na criança que ela não consegue repensá-la como adulta.

Passiva agressiva
A pessoa passiva agressiva é uma espécie de combinação entre a agressiva e a passiva. Muitas das pessoas passivas, são passivas agressivas. Para as definir, temos de as comparar com as agressivas. A pessoa agressiva é frontal, declara e luta numa guerra aberta; a passiva agressiva é mais parecida com a atitude de covardia do terrorismo - uma combinação de agressividade com medo de expressá-la abertamente.

Em grande parte, a pessoa não tem consciência deste comportamento, de dar bofetadas escondendo a mão, ou de ter comportamentos negativos em relação à pessoa de quem procura distanciar-se. Por exemplo, a dona de casa que está furiosa com o marido sem o demonstrar, faz a comida de que ele não gosta ou coloca sal a mais na mesma.

A pessoa passiva agressiva esquece compromissos e coisas que têm um impacto na vida das pessoas, confunde tudo acidentalmente. Tem afirmações sarcásticas, não é pontual, é teimosa, costuma ter dores de cabeça ou das costas ou inventa-as. Fracassa de propósito ou executa mal as suas tarefas para que a substituam. Fica contente quando as coisas correm mal.

ASSERTIVA
“Porque me interrogas? Interroga os que ouviram o que eu lhes disse. Eles bem sabem do que Eu lhes falei.” Quando Jesus disse isto, um dos guardas ali presente deu-lhe uma bofetada, dizendo: “É assim que respondes ao Sumo Sacerdote?” Jesus replicou: “Se falei mal, mostra onde está o mal; mas, se falei bem, por que me bates?João 18, 21-23

Postpone today's anger until tomorrow (Adia a raiva de hoje para amanhã). Provérbio filipino

O Sumo Sacerdote não estava a proceder bem segundo o Direito tanto romano como judaico, estava a infringir a lei ao interrogar diretamente o réu. Pelo contrário, deveria interrogar as testemunhas. Jesus na sua intervenção aludiu à lei e à prática da lei, mas fê-lo sem acusar o Sumo Sacerdote de estar a atuar ilegalmente.

A pessoa assertiva menciona o pecado, tendo o cuidado de não acusar o pecador, na esperança de que seja o próprio pecador a ver o pecado e os efeitos ou consequências sobre as suas vítimas e que acabe por se acusar ele mesmo e reconhecer o erro. Acusar o pecador do seu pecado tem geralmente um efeito contraproducente, uma vez que a tendência do pecador será defender-se por se sentir atacado e tentar justificar a sua falta.

Da mesma forma se comportou Jesus quando levou a bofetada do soldado. Não reagiu agressivamente por palavras nem por ações, obrigou o soldado a pensar, a deixar o seu cérebro de reptiliano e límbico e a usar o seu neocórtex, procurando nele uma justificação para a sua agressão ao perguntar-lhe “por que me bates?”

A pessoa agressiva visa punir, a assertiva procura ajudar a pessoa que errou. Tenta ser compreensiva, é flexível e está disposta a procurar alternativas. Reconhece que todos nós temos falhas, sabe que mesmo as melhores pessoas às vezes cometem erros. Sabe o valor do perdão, reconhece que sempre se pode melhorar, não diz basta, nunca dá ninguém por perdido, nem abdica de ninguém cortando relações para sempre.

É capaz de defender os próprios direitos sem violar os direitos dos outros. De expressar as próprias necessidades, desejos, opiniões, sentimentos e crenças, direta, honesta e adequadamente.

A pessoa assertiva tem presente que quando alguém se dirige a ela zangado, sem motivo aparente, essa ira é transferencial e, nesse momento, ela representa para essa pessoa uma outra do passado. Por isso, a raiva não é para si, mas para o monstro do passado, que nesse momento representa. Isto é particularmente verdade nas escolas, quando os alunos se revoltam contra os professores.

A pessoa assertiva responsabiliza-se pelos próprios sentimentos, revela as feridas que a ação do outro lhe causou, mas sem o acusar, na esperança de que o outro também tome consciência da sua ação. Nunca diz que os outros o irritam, nem lhes chama nomes, nem lhes coloca rótulos, mas responsabiliza-se pela própria ira quando a sente. Mesmo irada, reconhece virtudes e não só defeitos naquele que lhe espoletou a ira.

Utilizar o sujeito Eu em vez do sujeito tu
Agressiva – (Tu) Estás sempre a interromper as minhas histórias.
Assertiva – (Eu) Gostaria de contar histórias sem ser interrompido.
Agressiva – (Tu) Envergonhaste-me diante de toda aquela gente.
Assertiva – (Eu) Senti-me envergonhado quando disseste aquilo diante daquela gente toda.

Utilizar descrições factuais em vez de juízos de valor ou exageros
Agressiva – Este trabalho é uma porcaria.
Assertiva – A pontuação do teu relatório precisa de ser mais trabalhada. Além disso, os títulos estão espaçados de forma inconsistente.
Agressiva – Se não mudas de atitude vais ter grandes problemas.
Assertiva – Se continuas a chegar depois das 8 horas, terei de te cortar dois dias de salário.

Expressar pensamentos, sentimentos e opiniões assumindo a sua responsabilidade por eles
Agressiva – Ele deixa-me furioso (nega responsabilidade pelos sentimentos).
Assertiva – Zango-me quando ele não cumpre o que prometeu (responsável pelos sentimentos).
Agressiva – A única política aceitável é igualar a concorrência (afirma a opinião como se fosse um facto, agressivo e controlador).
Assertiva – Acredito que igualar a concorrência é a melhor política (assume responsabilidade pela opinião).

Como qualquer outro sentimento ou emoção, não é nossa responsabilidade sentir a ira em diferentes situações da vida, mas é nossa responsabilidade apropriarmo-nos dela, fazendo-nos responsáveis tanto por senti-la, porque surge do nosso interior, como pela forma como a gerimos.
Pe. Jorge Amaro, IMC



15 de maio de 2020

3 Fases da Ação Social: Ver - Julgar - Atuar

Sem comentários:
Entreguei-lhes a tua palavra, e o mundo odiou-os, porque eles não são do mundo, como também eu não sou do mundo. Não te peço que os retires do mundo, mas que os livres do Maligno. De facto, eles não são do mundo, como também eu não sou do mundo. João 17, 14-16

Os cristãos estão no mundo, mas não são do mundo, não vivem como muitos, instalados na pura mundanidade, mas entendem a vida como uma peregrinação para a casa do Pai - não temos aqui morada permanente, estamos a caminho da nossa verdadeira pátria (cf. Hebreus 13,14).

Esta é a verdade revelada e, como tal, indiscutível. No entanto, uma vez que os primeiros cristãos estavam convencidos que a segunda vinda de Cristo estava para breve (cf. 1 Tessalonicenses 4:15-17) ou talvez por influência da filosofia grega, acabaram por ser acusados no seu tempo de não serem bons cidadãos e de não participarem na vida social, vivendo à parte com mentalidade de ghetto.

O projeto individual e social de Jesus de Nazaré
Esta não era certamente a filosofia de vida de Jesus de Nazaré, tal como os sinópticos a descrevem. Jesus veio ao mundo não para o condenar, mas sim para o salvar (João 3, 17). Esta salvação, que devemos entender como saúde, aparece nos evangelhos com duas vertentes: uma individual e outra social.

A nível individual, Jesus apresenta-se como caminho, verdade e vida (João 14, 6), como modelo, como referência do que é verdadeira e genuinamente humano. Jesus é de facto verdadeiro homem e verdadeiro Deus: 100% Deus e 100% homem. Por isso, neste mundo, todo aquele que quiser ser autenticamente humano tem de ter Jesus como referência, como modelo e paradigma. Jesus passou grande parte da sua vida curando, devolvendo a saúde espiritual, psicológica, moral e física a todos os que se cruzavam com Ele.

Irmão universal, filhos adotivos
Ainda a nível humano, Jesus santificou purificou a humanidade ao fazer-se homem e, na sua ressurreição, fez da morte não um destino, mas uma passagem para a vida eterna. Na sua ascensão, levou para o Céu a humanidade purificada por ele na sua encarnação. Antes de Jesus, éramos simples criaturas de Deus, pois Deus só tinha um filho gerado não criado, enquanto que nós somos criados não gerados. Jesus constituiu-se irmão universal ao dar-nos o seu Pai como nosso Pai e ao fazer com que nos dirigíssemos, na oração que nos ensinou, ao seu Pai como nosso Pai. Jesus fez de nós filhos adotivos, e, portanto, co-herdeiros da vida eterna.

Transformar o mundo no reino de Deus
Venha a nós o vosso Reino, seja feita a Vossa vontade assim na terra como no Céu. Mateus 6, 9-10

É a primeira petição da oração que o Senhor nos ensinou, até porque Ele já nos tinha instruído noutra ocasião para, na nossa atuação neste mundo, buscarmos primeiro o reino de Deus que o resto nos seria dado por acréscimo (Mateus 6, 33); ou seja, o resto não devia ocupar-nos nem preocupar-nos.

E para os que não saibam ou de momento possam ter esquecido o que é verdadeiramente o Reino de Deus ou o Reino dos Céus para Mateus, a sua definição já se encontra no mesmo Pai Nosso: é a sociedade ou o mundo no qual se faz a vontade de Deus como esta já se faz no Céu. Como muita da pregação de Jesus se fez no contexto de uma refeição, utilizando o banquete como metáfora do Reino de Deus, muitos cristãos podem ter interpretado à letra as parábolas de Jesus, chegando a pensar que o Reino de Deus era um banquete. S. Paulo veio corrigir esta ideia dizendo “o Reino de Deus não é comida, nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Romanos 14, 17).

A nível social, vemos Jesus plenamente integrado na sociedade com o projeto de transformar o mundo no Reino de Deus. Todos os sinópticos o mencionam, em especial o Evangelho de S. Mateus que contém a maior coleção de parábolas sobre o reino de Deus, a que ele prefere chamar Reino do Céu.

É certo que não somos do mundo, que não temos aqui morada permanente, mas enquanto peregrinamos por Ele podemos ser como aquele pote de barro quebrado que vai deixando um regueiro de água que depois se transforma em flores. Não devemos ser como o outro pote de barro sem nenhum furo que conserva intacta e imaculada toda a sua energia e não faz nada com ela.

“Eu estou no meio de vós como quem serve” Lucas 22,27. 
“Eu vim ao mundo para servir e não para ser servido” Mateus 20, 28.

Jesus não é alheio aos problemas do mundo e não está somente interessado em salvar o salvável, deixando que os seus discípulos e o resto do mundo se percam. Jesus vem para salvar o mundo inteiro e delineia para o efeito um projeto social que é o Reino de Deus. No Sermão da Montanha, capítulos 5 a 7 do Evangelho de S. Mateus, escreve a constituição, ou seja, a lei fundamental pela qual esse reino desse ser gerido.

Já… mas ainda não
(…) se é pelo Espírito de Deus que Eu expulso os demónios, então chegou até vós o Reino de Deus. Mateus 12,28

As atuações de Jesus, pelo seu comportamento, pela sua palavra e pela sua obra, são o começo deste Reino de Deus. É Ele que dá o pontapé de saída, embora entenda que o Reino não vai chegar à sua plenitude no seu tempo. Sabe isso desde o começo e por isso escolhe 12 entre os seus muitos discípulos para continuar a sua obra.

Estes discípulos constituem-se em Igreja que, em si mesma, deve ser o fermento que vai levedar toda a massa do mundo e transformá-la num pão para todos (cf. Mateus 13, 33). A Igreja não existe para si mesma, ela tem uma missão: a de levar a Boa Nova do Reino a toda a criatura (Marcos 16, 15).

Neste sentido, não deveria enfrentar atritos com outras religiões ou homens de boa vontade. Pelo contrário, como todas as religiões buscam humanizar o Homem e a Sociedade, a Igreja deveria unir-se a outras forças e esforços que procuram fazer deste mundo um lugar mais digno e desta sociedade um reino de justiça, paz e integridade para a criação.

A Igreja tem uma missão, a mesma que tinha o seu fundador: a de continuar a sua obra, o seu projeto de transformar este mundo no Reino de Deus. A Igreja opera isto em todo e cada cristão que vive comprometido com a luta pela justiça e pela paz, chegando alguns até a dar a vida como o Mestre. Mas tem também uma doutrina constituída por escritos, encíclicas papais, que foram sendo redigidos pelos papas ao longo dos tempos sobre temas sociais; o conjunto destes escritos chama-se doutrina social da Igreja.

Desde o Papa Leão XIII, com a encíclica chamada Rerum Novarum de 1891 (Sobre as coisas novas – sobre a condição dos trabalhadores) até à última intitulada Laudato Si de 2015 (O Senhor seja louvado – Sobre a Ecologia) do Papa Francisco, a Igreja tem vertido o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo sobre todos os temas sociais que afligem a humanidade, procurando iluminar com esse Evangelho estes temas e procurando soluções juntamente com o resto da sociedade.

História do método
Tenho demonstrado confiança na liberdade dos jovens, de forma a melhor educar a liberdade religiosa. Ajudei-os a VER, JULGAR e AGIR por si mesmos, mediante a realização de ações sociais e culturais próprias, obedecendo livremente às autoridades, a fim de se tornarem testemunhas adultas de Cristo e do Evangelho, conscientes das suas responsabilidades pelos seus irmãos e irmãs em todo o mundo. Joseph Cardjin, 1965

Joseph Cardjin, era um sacerdote belga, guia espiritual da Juventude Operária Católica (JOC) que tinha como objetivo superar a dicotomia entre fé e vida, levar a fé para a vida e trazer a vida do dia a dia para os âmbitos da Igreja, de modo a ser analisada à luz do Evangelho. Estávamos nos anos 60 em que se dizia que devíamos ser cristãos no partido político e militantes na Igreja, que devíamos ter numa mão o jornal e na outra a Bíblia. O método, que inicialmente tinha nascido como método de revisão de vida da JOC, começou a ser também usado pela Ação Católica, organização que também procurava levar a fé à vida, com o intuito de transformar a história segundo os critérios do Evangelho.

Desde o seu aparecimento, o método Ver-Julgar-Atuar tem sido o ex libris da atuação dos cristãos na sociedade. O Papa João XXIII cita o método na sua encíclica Mater ed Magistra 1961. Os bispos latino-americanos usaram-no na Conferência de Medellin, em 1968, na de Puebla, em 1979, na de Santo Domingo, em 1992 e na de Aparecida, em 2007. De todas estas conferências, a mais importante é a primeira, tendo dado origem a duas grandes correntes na Igreja latino-americana: uma para a igreja militante ou popular (as Comunidades Eclesiais de Base), a outra para a Igreja pensante (a Teologia da Libertação).

Fundamentos bíblicos do método
O Senhor disse: «Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egito, e ouvi o seu clamor diante dos seus inspetores; conheço, na verdade, os seus sofrimentos. Desci a fim de o libertar da mão dos egípcios e de o fazer subir desta terra para uma terra boa e espaçosa, para uma terra que mana leite e mel…» Exodo 3, 7-8

Deus é omnipresente, não dorme e bem vê o que acontece ao seu povo. Conhece a situação porque a avaliou, sabe qual é a raiz do problema, sabe qual a causa remota desse sofrimento: o exílio no Egito, a escravidão a que os judeus foram submetidos. Conhece as causas recentes desse sofrimento: leis mais duras, mais produção com menos meios e os inspetores que fazem cumprir essas leis. Por fim, Deus decide libertar o seu povo da terra do Egito, uma decisão radical, pois neste caso não havia meias medidas a tomar.

(…) para que vejam e saibam, considerem e compreendam, de uma vez por todas, que é a mão do Senhor que faz estas coisas, que o Santo de Israel as realizou. Isaías 41, 20

Depois de narrar tudo o que Deus fez pelo seu povo, conclui, convidando o povo a ver tudo quanto o Senhor realizou, a compreender isso intelectualmente e, finalmente, a render-se à evidência e a aderir de coração aos seus ensinamentos, a seguir a sua vontade. O cristão o mundo e os problemas que o afligem com os olhos do PAI, julga com os critérios do FILHO e atua sob o impulso e orientação do ESPÍRITO SANTO.

Ver com os olhos do PAI
A lâmpada do corpo são os olhos; se os teus olhos estiverem sãos, todo o teu corpo andará iluminado. Se, porém, os teus olhos estiverem doentes, todo o teu corpo andará em trevas. Portanto, se a luz que há em ti são trevas, quão grandes serão essas trevas! Mateus 6, 22-23

Observar sem julgar
É certo que o objetivo do “Ver” nesta primeira etapa da ação social do cristão não coincide com o “observar” da comunicação não-violenta. No entanto, podemos aprender e aplicar aqui algo da filosofia desta teoria. Uma boa observação é o que objetivamente uma câmara de vídeo capta e depois reproduz, sem tirar nem pôr. Descreve o que acontece, deixando de fora interpretações, julgamentos, avaliações.

Fácil de dizer, mas muito difícil de pôr em prática: quando relatamos o que acontece, normalmente fazemo-lo com uma avaliação e, muitas vezes, até esquecemos o que aconteceu e apenas referimos a nossa avaliação. Por exemplo, dizemos que o João é um bom rapaz, quando deveríamos dizer que vimos o João a defender um colega que estava a ser vítima de bullying.

Ver com olhos de criança
A criança não tem preconceitos nem ideias pré-concebidas, olha para a realidade e relata-a com extrema precisão e sinceridade, chegando até a desconcertar-nos a nós, adultos. Do ponto de vista físico, se não sofremos de miopia, não conservamos em adultos a visão nítida que tínhamos em crianças e, tal como na visão física se vão formando cataratas, na visão interior estas correspondem aos filtros que colocamos nos olhos por forma a ver apenas o que queremos ver e a fazer vista grossa ao que não queremos ver.

Perdemos a visão periférica e ficamos com uma visão redutora ou visão de túnel, como as mulas que puxam carroças com palas colocadas para não se distraírem nem se assustarem com o trânsito.

Ou vemos ou interpretamos
Não podemos ver e interpretar conscientemente ao mesmo tempo, pois são duas funções cerebrais diferentes. Ver é recolher dados, como quem faz a colheita de um produto agrícola. Nesta primeira etapa, o importante é recolher a maior quantidade possível de dados, sem olhar ao que colhemos.

No momento em que começamos a analisar algo do que colhemos, deixamos de colher novas informações. Os nossos olhos podem até permanecer abertos, mas já não veem. Toda a nossa atenção se volta para dentro e se fixa no dado que nos impactou e nos fechou ao resto. A partir deste momento, avaliamos, interpretamos, analisamos, mas já não vemos.

Contra factos não há argumentos, diz o povo. Saibamos os factos e coloquemos de lado os argumentos, pois levam à interpretação, à ideologia e a fechar os olhos - é mais a realidade que nos escapa que a realidade que recolhemos. Segundo Aristóteles, a visão é o sentido mais perfeito porque oferece evidência; a audição tem a mediação da palavra. A interpretação também não é possível sem palavras e conceitos: o que se observou e relata é uma tradução da realidade, com palavras e conceitos alheios ao que vemos. Como diz o provérbio italiano “traduttore traditore” já não é o mesmo.

Projetar ideologia no que se vê
Há uma pequena história que prova este ponto; partimos para o campo de visão com a nossa bagagem cultural, os nossos diplomas e o que fazemos. Não se trate de ver como uma criança veria, desapaixonadamente, sem colocar na realidade nada que não esteja lá. Partimos à procura de factos que provem os nossos argumentos.

Um sacerdote espanhol, com toda a sua bagagem europeia, depois de haver contemplado por algum tempo a situação deplorável e miserável em que vivia uma comunidade de camponeses latino-americanos, perguntou-lhes, “Mas vós não tendes fome e sede de justiça?” Eles responderam “Que é isso de fome e sede de justiça? Nós, senhor Padre, só conhecemos a fome de pão e a sede de água”.

Muitas se não mesmo todas as revoluções se fizeram por aproveitamento do povo e da sua ignorância: não foram queridas pelo povo. Alguém com uma ideologia, informa de maneira simplista e unilateral o povo para levantar os seus ânimos. Assim foi a revolução bolchevique e assim atua o populismo atual.  São revoluções que não partem da base nem vão ao encontro dos problemas reais que o povo tem na sua perspetiva.

Conta-se que um macaco e um peixe eram muito amigos e brincavam no rio todo o dia até que um dia choveu muito, o rio engrossou e o peixe tentava nadar contra a corrente para não ser levado pela água; o macaco viu a situação e foi salvar o seu amigo, trazendo-o para terra. É claro que o peixe sem oxigénio debatia-se entre a vida e a morte, abanando-se; o macaco ao ver isto disse, “Acabo de te salvar a vida e ainda protestas?”

Mesmo quando o militante social está bem-intencionado, se o que faz é feito unilateralmente segundo a sua ideologia, inferindo e imaginando o que possam ser as necessidades do povo sem o consultar, será paternalismo. Nós, missionários, vimos e fizemos muito isto com os povos indígenas e, como consequência, restam os “elefantes brancos” que deixámos para trás: depois de nos retirarmos, a obra não teve continuação.

Ver e questionar: questões exploratórias
No entender do Pe. Joseph Cardjin, assim como de todos os que na Igreja fizeram uso deste método, o nosso olhar deve ser um olhar que questiona. Quanto mais questionarmos, mais realidade se vai abrindo ante os nossos olhos. Mais uma vez, devemos ser como crianças de 5 anos que tudo questionam com os seus infindáveis porquês, ávidas de saber.
  • Que está a acontecer, onde, como e quando começou?
  • Quais as causas, as consequências, quem está envolvido, quem não está envolvido? Factos isolados ou gerais.
  • Que dizem, pensam e sentem as pessoas envolvidas e afetadas, como conceptualizam a sua experiência? Que tentaram fazer como solução?
  • Descobrir atitudes, modelos, paradigmas, traições, valores que podem estar na raiz do que acontece.
Olhar empático com os olhos do Pai
O centro de atenção é a pessoa, não as ideias nem as coisas. É um olhar empático, um olhar que suscita sentimentos; neste sentido, não é indiferente nem neutro, como não era neutro o olhar de Deus sobre o sofrimento do povo hebreu na terra do Egito. Deus é um Deus que desce, que chora com quem chora, assim como Jesus chorou a morte de Lázaro e a ruína de Jerusalém.

Quando alguém não consegue fazer-nos entender a sua situação, diz “coloca-te no meu lugar”. Deus em Jesus Cristo praticou isto: mesmo ao assumir a nossa natureza humana, foi empático connosco, olhou a realidade pelos nossos olhos, calçou os nossos sapatos, vestiu as nossas roupas, provou o mesmo sofrimento que nós e, por isso, conseguiu ajudar-nos.

Apesar de não ser neutro, Deus não toma o partido de uns contra os outros. Toma o partido da verdade e da justiça, mas não o partido de uns contra os outros. Deus quer a salvação do que sofreu o pecado e a salvação do que o provocou; do filho pródigo e do irmão mais velho. Deus não deita o menino fora com a água do banho Ele que faz chover sobre justos e injustos, diferencia entre pecado e pecador.

Julgar com os critérios do FILHO
Julgar é o ato mental pelo qual formamos uma opinião sobre algo; também é o ato mental pelo qual decidimos conscientemente que algo é de um modo e não de outro e o que fazer. Mas antes de chegar à decisão há muito trabalho prévio a cumprir.
É frequente alguém que está ao nosso lado a observar o mesmo que nós, perguntar-nos o que é que se passa, o que é que está a acontecer. Uma coisa é ver, outra é entender o que vemos, interpretar o que vemos, encontrar o sentido do que vemos, o que significa subjetivamente para cada um de nós e objetivamente para todos.

Os Evangelhos estão escritos desde o século I e, no entanto, a Igreja debateu a entidade e a missão de Jesus de Nazaré durante cinco séculos. Finalmente, conseguiu conceptualizar a identidade de Jesus ao defini-lo verdadeiro Homem e verdadeiro Deus, no concílio de Calcedónia, no ano 451. Tal como para ver uma floresta temos de sair dela, pois dentro dela só vemos árvores, também para interpretar verdadeiramente um facto - neste caso, Jesus de Nazaré - foi preciso distância e tempo para poder julgar melhor. Os homens e mulheres do seu tempo não chegaram a esta definição da identidade de Jesus, apesar de terem sido testemunhas oculares dos factos.

As aparências iludem
É um provérbio muito conhecido, mesmo no âmbito da ciência. Apesar de a ciência precisar dos cinco sentidos para analisar e conhecer o real, até a ciência sabe que há mais realidade que aquela que os cinco sentidos conseguem captar.

Por exemplo, usamos microscópios para chegar ao mundo do minúsculo e usamos telescópios para chegar ao mundo do maiúsculo. E, mesmo assim, há mais realidade que aquela que o microscópio ou o telescópio consegue captar. O mesmo acontece com o som e com os objetos dos demais sentidos.

Um outro problema é que os próprios cinco sentidos que nos ajudam a conhecer a realidade também nos enganam sobre a verdade dessa mesma realidade. Hoje sabemos que a Terra gira à volta do Sol, mas o que vemos é o Sol girando à volta da Terra.

É preciso ver para além das aparências, ter visão de raio X para ver o que está por detrás das coisas, para saber interpretar o que acontece e ver no que acontece os “sinais dos tempos”. Os animais estão mais atentos a estes fenómenos, e detetam tormentas, furacões, trovoadas, terramotos muito antes destes acontecerem e tomam precauções.

Foi neste sentido que o Papa João XXIII olhou para o mundo moderno e para a Igreja e se deu conta de que esta estava desfasada do mundo moderno. Por isso, convocou o Concílio Vaticano II para adaptar a Igreja aos tempos modernos. Na tradição de Israel, tal como a descreve o Antigo Testamento, esta era a função dos profetas: a de anunciar a vontade de Deus, denunciar os comportamentos contrários a ela e guiar o povo para Deus pelos caminhos tortuosos da História.

Julgar, questionando-se: questões de compreensão
Depois das perguntas exploratórias para recolher o máximo possível de dados sobre determinado problema, é tempo de colocar os dados, os acontecimentos, os factos, as realidades sobre a mesa, para serem analisados, interpretados, julgados. Para além de analisar, julgar também significa discernir o que está certo e o que está errado e depois partir para uma ação transformadora.

As questões de compreensão são parecidas com as questões exploratórias, com a diferença de que as primeiras eram colocadas para saber mais, para recolher mais dados relevantes, enquanto que estas últimas são questões que o investigador coloca a si mesmo e às quais precisa de responder para encontrar uma solução satisfatória para o problema ou situação em questão:
  • Quais são as causas do que acontece a curto e longo prazo, quais os agentes envolvidos?
  • Quais as repercussões do que acontece, quais são as possíveis consequências a curto e longo prazo e quem vai sofrê-las?
  • Quem beneficia, quais os benefícios, quem tem poder, quem abusa do poder, quem não o tem?
  • Quais as soluções para que todos ganhem, para que haja justiça, paz e harmonia?
Como usamos tubos de ensaio para analisar certas substâncias e colocamos reagentes para ver como se comportam, assim fazemos com as realidades sociais. Estas devem ser iluminadas, confrontadas, sobretudo com o Evangelho, a doutrina da Igreja, a tradição, o magistério, assim como com a História e outras ciências sociais relevantes para o tema em questão.

Julgar com o critério do Evangelho
Somos cristãos e como tal medimo-nos por referência a Cristo, tanto no nosso pensar como no nosso atuar. Procuramos chegar ao ponto a que S. Paulo chegou ao dizer “Já não sou eu que vivo é Cristo que vive em mim” (Gálatas 2, 20). Cristo é o nosso critério pessoal, mas, quando se trata de analisar problemas ou situações sociais, o Reino de Deus é o nosso paradigma ou modelo de sociedade de convivência fraterna entre irmãos, filhos do mesmo Pai.

Há critérios que servem de meio para avaliar a realidade, lei, constituição, etc. - neste caso, o Evangelho. Um tribunal também julga, vê e atua. Quando julga um ato, contrapõe-no à lei vigente e determina se infringiu ou não a lei. O ato é o que é, o Evangelho é o dever ser; o ato é a realidade, a lei e o evangelho são o ideal.

Jesus fez isto mesmo ao julgar, perante os fariseus acusadores, se os Apóstolos tinham ou não infringido a lei do sábado por terem nesse mesmo dia comido espigas que arrancaram das searas por onde passaram (Cf. Marcos, 2,23ss). Abriu mentalmente a sua Bíblia e procurou um episódio em que o rei David tinha feito algo que também não lhe era permitido fazer (Cf. 1 Samuel 21,6ss) mas que fez guiado pela sua consciência, que deve discernir em cada momento o que fazer e não apenas obedecer cegamente à lei.

Tudo o que o Evangelho refere, sobretudo o de S. Mateus, acerca do Reino de Deus é normativo para nós, é a referência nas relações sociais e representa o caminho para uma sociedade mais justa, mais fraterna e pacífica. A situação que temos diante de nós tem certamente respostas na Bíblia, sobretudo no Evangelho, e nele podemos encontrar situações semelhantes e respostas sobre o que fazer.

Julgar com o critério das ciências humanas
O cristão, ao contrário de outros na sociedade civil, não tem medo da ciência em geral, muito pelo contrário. As últimas descobertas, como a teoria da relatividade, o Big Bang, etc. parecem confirmar a fé, mais que negá-la.

Na encíclica Humane Generis de Pio XII, a Igreja aceita as descobertas de Darwin, o que veio ajudar a que muitos cristãos não lessem o livro do Génesis à letra no que respeita à criação do ser humano, pois não se pretende que este seja um livro de ciência.

No caso do aborto, a Igreja aceita a ciência que determina que a vida humana começa quando uma célula de um varão se junta a uma célula de uma mulher. A Igreja, baseada na ciência, defende a existência de vida humana desde este ponto. É a sociedade civil que nega esta evidência científica e legisla com base na mentira e na pseudo-conveniência de alguns contra os seres humanos desprotegidos que são os bebés abortados.

A Igreja até inspira ação social e legislativa por intermédio das suas encíclicas. Exemplo disto é o princípio de subsidiariedade que hoje faz parte da Constituição da Comunidade Europeia, assim como da Constituição dos Estados Unidos e que apareceu pela primeira vez em 1891, na encíclica Rerum Novarum do Papa Leão XIII que acima citamos.

Dentro das ciências humanas – Sociologia, Psicologia, Filosofia - devemos dar crédito à História. Não sei até que ponto é verdade ou mito que a História se repete. Provavelmente é verdade, quando as mesmas circunstâncias se sucedem, combinadas com a natureza humana que não muda. Nem sempre aprendemos com os erros passados, achando que esta situação é nova. Mas numa observação mais atenta dos mesmos factos a partir de uma perspetiva histórica, parece efetivamente que os mesmos erros se vão cometendo uma e outra vez…

Atuar por impulso e a orientação do ESPÍRITO SANTO
Os filósofos não têm feito, até agora, mais que interpretar o mundo de diferentes maneiras, trata-se agora de transformá-lo. Karl Marx

Karl Marx, consciente ou inconscientemente, usou o método de ver, julgar e atuar na sua filosofia. Teve o mérito de integrar a praxis na filosofia, que até então era um discorrer de verdades sem nenhuma aplicação prática. Com o seu materialismo histórico e dialético, Marx ofereceu uma filosofia que não se ficava só pelas opiniões, mas que via e analisava a sociedade do seu tempo, mais concretamente o capitalismo da era industrial, e partia para a ação.

É certo que Marx partiu para este método com uma carta na manga: a ideologia ateísta e materialista que lhe tinha proporcionado seu antecessor Feuerbach, ou seja, tentar interpretar a História e a realidade atual a partir de uma ótica materialista. Esse foi o seu erro. Como dissemos anteriormente, devemos observar sem teorias em mente; se o fizermos, veremos apenas o que confirma a teoria que à priori orienta o nosso olhar.

A praxis marxista, tanto de Lenine na revolução bolchevique na Rússia, como a de Mao Tsé-Tung na revolução cultural da China, é da responsabilidade destes senhores e não de Marx. Aliás, já no seu tempo havia tantas ideias acerca do que era e não era marxismo que o próprio Marx chegou ironicamente a afirmar que não era marxista.

De Marx recolhemos a sua boa observação, o seu olhar, portanto, e o seu julgamento baseado na análise geralmente acertada do problema do capitalismo. Esta análise foi legitimamente utilizada de alguma forma pela Teologia da Libertação na América Latina pois, como vimos atrás, a Igreja deve utilizar as ciências humanas nas áreas em que estas são especialistas.

Porém, o magistério do papa João Paulo II não entendeu isto, suponho que por causa do trauma pessoal vivido num dos países onde a prática comunista falhou, a Polónia. A Teologia da Libertação foi condenada em bloco e os seus teólogos vilmente expulsos das suas cátedras.

“De cada qual, segundo a sua capacidade; a cada qual, segundo as suas necessidades” - é uma das ideias que a sociedade europeia aproveitou de Marx e na qual se baseia a segurança social e o serviço nacional de saúde.

A ação é o projeto de transformação da realidade e equivale a traçar tarefas, planos, projetos, de acordo com as decisões tomadas na etapa anterior.

O método está orientado para a transformação da realidade de acordo com os critérios do Evangelho: em transformar o mundo no Reino de Deus. O Espírito Santo conduz este trabalho, como conduziu o ministério de Jesus.

“WWJD – What would Jesus do” - há uns tempos foram populares entre os cristãos do Canadá e da América do Norte Tshirts com esta expressão. A praxis cristã é precisamente isto: fazer em casa, numa situação da nossa vida, o que Ele faria. Pois Ele é a verdade do nosso olhar, o caminho do nosso julgar e a vida do nosso atuar.

Atuamos como Igreja
Jesus enviou os seus discípulos não como franco-atiradores, mas dois a dois: a praxis cristã é sempre uma praxis comunitária. Duas cabeças pensam mais e melhor que uma e a ação comunitária é sempre mais profunda, refletida, duradoura e transformadora que a ação individual, assente apenas no ímpeto de alguém.

Devemos fugir à tentação do imediatismo, de querer ter resultados imediatos. “Eu plantei, Apolo regou e é Deus quem faz crescer, recordemos” (1 Coríntios, 3, 6). Ser agente de libertação é ser fermento na massa (Mateus 13, 33). Para que o grupo faça uma ação concreta, é preciso um projeto com todos os seus detalhes.

A comunicação e a organização são elementos cruciais. É importante começar com objetivos razoáveis. As pessoas aprendem através do processo, tornam-se mais capacitadas. A ação libertadora parte das necessidades das pessoas, descobre a raiz do problema e parte para a ação com a participação de todos na construção da civilização do amor

Atuamos pelo impulso e orientação do Espírito Santo
O Espírito Santo e nós próprios resolvemos não vos impor outras obrigações além destas, que são indispensáveisAtos dos Apóstolos 15, 28

Já o próprio Jesus atuou sob o impulso do Espírito Santo, cheio do Espírito Santo fez e disse muitas coisas. Assim também nós devemos atuar como os apóstolos, num clima de oração, procurando a inspiração, a orientação e o impulso do Espírito Santo. Ele é a alma da Igreja que é o corpo místico de Cristo, Ele é Deus interior íntimo meu, como dizia Sto. Agostinho, é mais íntimo que o meu íntimo; Jesus veio e regressou à casa do Pai, o Espírito Santo veio para ficar connosco e para, atuando dentro de nós, ser a inspiração, a motivação, o motor e a orientação da nossa atuação no mundo.

Ver – Julgar – Atuar - Rever - Celebrar
Posteriormente, alguns alargaram estendem este método com outras duas realidades: Ver – Julgar – Atuar – Celebrar – Rever. Entendemos que as duas últimas realidades estão a mais, o celebrar pode ser feito em cada uma das etapas, sobretudo quando descobrimos a verdade das coisas ao julgar ou analisar o problema; quando dizemos “Eureka, descobri”, aí mesmo já pode existir uma celebração e não necessariamente apenas no fim do processo ou da ação.

Por outro lado, o rever também pode e deve ser feito tanto no fim do triplo processo como no fim de cada uma das etapas. Quando acontece no fim do processo, serve como olhar para o início do processo outra vez, ou seja, com o símbolo de reciclagem em mente, este processo de ver, julgar e atuar recomeça quando termina.
Pe. Jorge Amaro, IMC











1 de maio de 2020

3 Fases da ação individual: Pensar - Sentir - Agir

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Quando abordámos os três tipos de personalidade, dissemos que ninguém é puramente cerebral, visceral ou emocional. Apesar de os cerebrais terem maior tendência para pensar, os emocionais para sentir e os viscerais para agir, nenhuma destas atividades é exclusiva de cada uma destas personalidades. A razão, a emoção e a ação são comuns a todos os seres humanos: todos pensamos, sentimos e agimos.

Ao delinear as linhas mestras deste texto, “Pensar – Sentir – Agir”, pensei numa outra tríade que também faria sentido: “Ver – Julgar – Atuar”. No processo de discernir entre a primeira ou a segunda, dei-me conta de que apesar de haver pontos em comum há também pontos divergentes entre as duas tríades.

Na primeira, as emoções têm um lugar preponderante e na segunda não. Na segunda, o pensar tem um lugar preponderante, pois é precedido do ver ou observar. No meu entender, a primeira tríade é mais adequada à pessoa, enquanto ser individual, como fator de mudança ou conversão, enquanto que a segunda é mais adequada ao ser humano como parte de uma sociedade, para instigar mudança social, revolução ou evolução.

Comportamento tridimensional
Somos seres trinitários ou tridimensionais porque a existência de um supõe a existência de outros dois: Pai – Mãe – Filho(a); e se assim é, com toda a franqueza, não podemos dizer que existimos porque a nossa existência não se justifica por si mesma nem depende de si mesma. Não deveríamos dizer “penso logo existo”, mas sim “penso logo coexisto”.

Como seres tridimensionais que somos, o nosso comportamento é tridimensional também, pois somos o que pensamos, sentimos e fazemos. É incompleto o nosso ser e não nos sentimos bem quando vivenciamos uma só destas vertentes descuidando as outras duas. O que pensamos afeta os nossos sentimentos e a nossa ação; o que fazemos influencia o que pensamos e sentimos; o que sentimos afeta o nosso pensamento e a nossa ação.

Sentimo-nos frustrados, ansiosos e desassossegados quando pensamos e construímos castelos no ar e não na terra, ou seja, quando pensamos e programamos obras que nunca veem a luz do sol. Também nos sentimos mal quando fazemos as coisas sem pensar e nos saem mal no fim. Por fim, também nos sentimos mal quando, ao acionar os nossos projetos, não temos em conta os nossos sentimentos nem os sentimentos dos outros, reprimindo-os ou ignorando-os.

Proativo ou reativo
Palavra fora da boca é pedra fora da mão.

Embora não gostemos de admitir, a natureza animal em nós não desapareceu, apesar dos mais de 5 milhões de anos de evolução que existem entre nós e o primata que nos deu origem. Do mesmo modo, a formação do neocórtex humano não anulou o cérebro límbico ou emocional dos mamíferos e este não anulou o primeiro cérebro, o reptiliano.

Tal como estes três cérebros funcionam em uníssono, um dentro do outro, também a natureza animal, desde o primeiro microrganismo que apareceu no planeta até aos nossos antepassados primatas, está assimilada na nossa natureza humana atual por um fenómeno que Konrad Lorenz chama de tradição -o que uma geração aprende, passa para a próxima e assim sucessivamente.

Konrad Lorenz fundou uma ciência, a Etologia, que estuda o comportamento dos animais e a sua completa correspondência ou transposição para os seres humanos. De facto, desde as experiências de Pavlov com cães, os psicólogos comportamentais estudam ratos ou pombas, como fez Skinner, e aplicam as suas descobertas aos humanos.

Como indica o provérbio acima indicado, falamos sem pensar e acabamos por ferir alguém; muito do nosso comportamento ou ação não é proativo ou reflexivo, mas instintivo, automático, rápido e reativo como o comportamento animal. 

A tríade que devia começar com o pensamento seguido do sentimento e ação, começa no sentimento seguido de ação e só no fim surge o pensamento. Às vezes a ação é a primeira, seguida da emoção e do pensamento. O nosso comportamento é tridimensional porque sempre envolve pensar, sentir e agir. Dependendo da situação, o pensamento pode não vir em primeiro lugar, porém quer comece na ação, quer comece no sentimento, todos os três são sempre protagonistas.

O nosso cérebro reptílico é rápido; o límbico não tão rápido como o reptiliano, processa os dados com relativa rapidez; o neocórtex é extremamente lento e possui uma característica que os outros dois não possuem e que o torna ainda mais lento - duvida de si mesmo e da veracidade dos primeiros pensamentos ou soluções para um determinado problema. Os outros dois cérebros nunca têm dúvidas, estão sempre certos.

Por fim, antes de entrarmos nos meandros do pensamento, convém notar que a natureza animal nunca é anulada pelo pensamento reflexivo. Continua ali, embora nem sempre esteja presente a nível consciente, dependendo da natureza do problema ou do tema sobre o qual se debruça a nossa mente. Contudo, a nível das motivações profundas do nosso pensar ou agir, é omnipresente.

Pensar
Pensar é o primeiro ato da sequência pensar – sentir – agir. Todos os atos autêntica e genuinamente humanos provêm ou devem provir do pensamento discursivo e reflexivo, algo exclusivo do ser humano. Nenhum animal tem esta capacidade, por mais próximo de nós que esteja na evolução das espécies.

Pensamento e linguagem
A linguagem não se desenvolveu primeiramente como um meio de comunicação, mas sim como um modo de formar conceitos. Noam Chomsky

Qual dos dois apareceu primeiro, a linguagem ou o pensamento, é uma questão de primazia do ovo sobre a galinha ou da galinha sobre o ovo. Um pensamento sem o uso da linguagem seria ininteligível. Mas, é provável que o pensamento tenha existido antes da linguagem e que esta, como diz Chomsky, não tenha surgido primeiramente como forma de comunicação entre indivíduos, mas sim como instrumento para a formação de conceitos.

Uma prova disto pode ser o alfabeto chinês que ainda é pictórico, ou seja, cada símbolo representa um conceito, muito mais que uma letra, palavra ou frase construída pelo nosso alfabeto latino. Uma outra prova pode ser as palavras onomatopaicas, que são palavras ou conceitos que surgem da reprodução de ruídos ou sons naturais. Neste caso, o conceito e a palavra formam-se da relação da pessoa com a natureza, ou seja, do esforço de compreender e conceptualizar o observado e não como forma de comunicar com os outros seres humanos.

Por outro lado, a inteligência e a linguagem, podem definir-se da mesma forma. Se a inteligência se define como a relação entre neurónios que podem estar em partes diametralmente opostas do cérebro, a linguagem define-se pela relação entre conceitos que podem aparentemente não ter nenhuma relação entre si. 

Por conseguinte e contrariamente ao que se pensava, as crianças poliglotas são mais inteligentes que as que aprendem só uma língua. A criança pode aprender ao mesmo tempo várias línguas e falar indistintamente cada uma delas sem se confundir.

Dar uma cana ou ensinar a pescar?
A educação básica e secundária e, em muitos casos, até a universitária são muito pouco críticas. Baseiam-se na aquisição de conhecimentos, em encher de uma forma acrítica o saco da memória que depois se despeja num exame para obter um diploma. Em seguida, tudo é esquecido e já não faz parte da nossa vida. É a isto que chamo “dar um peixe” em vez de espevitar a criatividade que seria ensinar a pensar; dar os elementos suficientes para depois a criança, o adolescente ou o jovem adulto descobrir por si mesmo.

Nisto se baseava a maiêutica de Sócrates - o professor é um facilitador e, como tal, não deve de maneira paternalista dar comida mastigada ao aluno que se limita a engolir. No mesmo princípio se baseia a psicoterapia não diretiva: o psicoterapeuta ajuda o cliente ou paciente a descobrir o que se passa com ele. É muito mais eficaz quando o cliente descobre com a ajuda de perguntas exploratórias por parte do psicoterapeuta, do que se fosse o psicoterapeuta a descobrir o problema e a solucioná-lo bombardeando o cliente com conselhos. O que nós descobrimos é nosso, o que outros descobrem por nós não é nosso, mesmo que nos envolva. A mesma técnica a aplicou o popular pedagogo Paulo Freire na sua ação social de alfabetização.

Por outro lado, em relação aos afetos e sentimentos, a educação pretende ser completamente assética, como se estes fossem vírus subversores do sistema. Educa-se para uma profissão, não para a vida; é mais importante a inteligência abstrata literária e matemática que a inteligência emocional. Os afetos estão proibidos, pois o que se pretende enfatizar é a frivolidade, a competência, o egoísmo e o individualismo, não a solidariedade.  

O âmbito cognitivo do nosso comportamento e da nossa vida
Quando estamos a funcionar no âmbito cognitivo, deixamos de olhar para o mundo e voltamos o olhar para dentro. O mundo está agora dentro de nós, de uma maneira simbólica e cognitiva, sob a forma de conceptualizações. Passa a contar menos o contexto, a existência dos objetos, e mais a sua essência. Esta é a nossa forma de dominar a realidade que nos rodeia, ou seja, de conhecer. Eis algumas das funções ou operações da nossa mente ou pensamento, e como as define o dicionário. 
  • Analisar – Separar um todo nas suas partes ou componentes, para as estudar individualmente e assim poder compreender melhor a sua função ou relação com o todo. Investigar, examinar minuciosamente, esquadrinhar, dissecar.
  • Relacionar - Comparar coisas novas com outras já conhecidas para estabelecer a diferença entre umas e outras. É o mesmo que comparar: quando algo novo se apresenta à nossa mente, procuramos algo já conhecido e parecido, que tenha pontos em comum, e só depois procuramos as divergências.
  • Experimentar – Submeter a uma experiência, a um teste prático e real para, pela reação obtida, a conhecer melhor.
  • Deduzir - concluir, inferir, chegar a uma conclusão lógica a partir de uma experiência feita, ou depois de um processo de raciocínio lógico, como um silogismo.
  • Imaginar – Formar uma imagem mental abstrata de algo que não está presente no momento. É muito importante para podermos criar, descobrir, idealizar, inventar, estabelecer uma hipótese.
  • Conceptualizar – Formar um conceito acerca de uma coisa ou realidade; é o mesmo ato de conhecer, é arquivar essa coisa ou realidade sob de um título ou nome no nosso arquivo mental. Definir a identidade de uma coisa, julgar, avaliar.
  • Sistematizar - Organizar diversos elementos num sistema, ou seja, reduzir (factos, conceitos, opiniões, etc.) a um corpo de doutrina e formalizar uma teoria.
Pensar – Sentir - Agir
Quando partimos do zero, ou seja, quando se trata de realizar um projeto, esta será a tríade usada: do pensamento ao sentimento e depois à ação. Existem, porém, outras situações onde esta mesma tríade acontece de uma forma inconsciente. Muitas vezes, os nossos pensamentos, as nossas crenças provocam sentimentos sem nos darmos conta.

Por exemplo, se acredito (pensamento) que o meu chefe não me valoriza como deveria, como acho que mereço, começo a sentir-me mal (sentimento), e se vejo que o meu chefe valoriza a outros, posso sentir inveja (sentimento); e se, no meu entender, estes outros merecem menos que eu, posso chegar a sentir raiva (sentimento). Tudo isto pode fazer com que eu seja mais competitivo (ação) ou desleixado, desmotivado e fazer ainda menos (ação).

A terapia cognitiva, como adiante veremos, baseia-se nesta tríade. Há certas crenças irracionais ou falsas que provocam sentimentos e ações indesejáveis. Se eu modificar a crença, esses sentimentos deixam de se fazer sentir, assim como as ações por eles motivadas.

Sentir
Tomamos as decisões a nível emocional e depois justificamo-las a nível racional.
Daniel Kahneman psicólogo israelita e Prémio Nobel da Economia 2002

Ao falar das nossas emoções e sentimentos, não estamos a falar exclusivamente do cérebro límbico. Como dissemos, os três cérebros atuam em uníssono, ou seja, não vamos falar das emoções dos mamíferos, mas sim das emoções humanas tal como o neocórtex as entende. Porque um mamífero, mesmo um primata, não está consciente do que sente, ou seja, não sabe que está a sentir ira, medo, fome ou sono ou o que quer que seja, apenas sente.

É o nosso pensamento que atribui o sentido às nossas emoções, que as decifra e entende. Tal pressupõe que temos mais controlo sobre as nossas emoções do que achamos ter, pois é a nossa mente que as conceptualiza. Isto não só torna possível a terapia cognitiva como nos permite dominar as nossas emoções. Isto significa que podemos ter não só uma inteligência abstrata como descrevemos, mas também uma inteligência emocional. Ou seja, podemos aproveitar, tirar partido e utilizar as nossas emoções em favor da vida e não nos deixarmos dominar por elas, como acontece na depressão, quando perdemos o controlo pela ira ou qualquer outra paixão.

É certo que não somos responsáveis pelas nossas emoções, pelo que sentimos, mas somos responsáveis pelo que fazemos com elas. Assim sendo, se nos sentimos insatisfeitos ou até aborrecidos com o nosso desempenho, com os nossos sentimentos ou pensamentos, com o nosso comportamento em geral, só nós podemos mudar essa situação e ninguém mais.

Antes de abordarmos as emoções, convém ter uma noção clara do que estamos a falar. Alguns autores mencionam, muitas vezes no mesmo texto, a palavra emoção e sentimento, entendendo-as como sinónimos; outros fazem uma distinção entre emoção e sentimento entendendo emoção como sinonimo de instinto.

Instinto e emoção
O instinto é mais primitivo e provém do cérebro reptiliano, embora se manifeste nas emoções; ou seja, pelas emoções, posso saber de que instinto se trata. Por exemplo, o cérebro reptiliano tem três comportamentos: lutar, fugir ou esconder-se. Perante a invasão do território, ou perante o perigo de vida, o animal julga o invasor pelo tamanho. Se é maior que ele, sente medo e foge, imobiliza-se ou esconde-se; se é inferior a ele em tamanho, sente raiva e ataca.

A emoção, neste sentido, é a manifestação de um instinto, é o modo como o instinto se faz presente e age. Por exemplo, no caso do instinto sexual, a emoção seria a atração sexual ou a paixão; no sentimento seria o amor.

No contexto da comunicação não violenta, onde emoções e sentimentos são sinónimos, aprendemos que cada sentimento ou emoção está intimamente relacionado com uma necessidade, ou seja, com um instinto. Por outro lado, todos os sentimentos ou emoções são positivos ou negativos - se a necessidade à qual determinado sentimento se refere está satisfeita, o sentimento será positivo; se não está satisfeita, será negativo. No contexto do estímulo - resposta, o instinto é a necessidade, o estímulo ou emoção é a resposta a essa necessidade.

Emoção e sentimento
As sensações ou emoções são inatas, mas os sentimentos são construídos a cada momento pela mente. As sensações e emoções têm mais a ver com o corpo, os sentimentos como o amor têm mais a ver com a mente.

A emoção é uma reação a um estímulo ambiental e provoca um movimento, uma série de reações em cadeia - altera o ritmo cardíaco e respiratório, a pressão arterial, o sistema endócrino com segregação de hormonas, o sistema imunológico, dores inexplicáveis, choro, etc.

As emoções são intrínseca e essencialmente físicas, os sentimentos que as mesmas originam podem existir de forma independente, sem o suporte do corpo físico e praticamente sem nenhuma manifestação física; como exemplo, podemos referir a vaidade, o egoísmo, a inveja.

A emoção da euforia corresponde ao sentimento da alegria, a emoção do choro ao sentimento da tristeza, a emoção do pânico ao sentimento do medo, a emoção da raiva ao sentimento do ódio, a emoção da paixão ao sentimento do amor. O sentimento é uma emoção iluminada pela mente ou, se quisermos, a humanização de uma emoção. Os animais têm emoções, mas não têm sentimentos.

Inteligência emocional
Emoções fora de controlo tornam estúpidas as pessoas espertas.A inteligência emocional representa 80% do êxito na vida. Daniel Goleman

O pensar racional e abstrato é o mais indicado para nos relacionarmos com as coisas materiais, para as conhecermos e dominarmos. É o tipo de pensamento de que a ciência precisa. Por outro lado, precisamos da inteligência emocional para a arte, para as relações humanas e para a relação que estabelecemos connosco mesmos.

É a inteligência emocional e não o raciocínio abstrato ou matemático que determina as ações e as decisões mais importantes na nossa vida. Determina o êxito ou o fracasso das relações humanas e muitas vezes também das relações profissionais, uma vez que não há profissão que não envolva relações humanas.

Na nossa profissão, no interior das associações, instituições, fábricas e empresas, as aptidões técnicas representam apenas um fator. É muitas vezes a inteligência emocional que sustenta a matéria prima destas empresas que são os seus funcionários. A inteligência emocional aplica-se a quem lidera e a quem é liderado, a quem coordena o trabalho em equipa tão importante nas empresas modernas.

É a inteligência emocional que governa a quase totalidade dos atos da nossa vida diária; possuí-la é garantia de felicidade, não a possuir é certeza de fracasso, como afirma Daniel Goleman, o autor do livro “A inteligência emocional” (o mais vendido do ano de 1996). Neste livro, o autor diz-nos que é possível criar uma interação equilibrada e harmoniosa entre o cérebro racional e o emocional e ensina-nos a desenvolver essa inteligência emocional.

É a inteligência emocional que nos ajuda a conhecer e a dar um nome aos nossos sentimentos. A maior parte de nós é emocionalmente iletrada: se nos perguntam como nos sentimos, dizemos “bem”, mas não conseguimos identificar mais de quatro ou cinco sentimentos, quando na verdade existem dezenas deles, como vimos no nosso estudo da comunicação não violenta.

Depois de identificar os nossos próprios sentimentos, devemos tentar identificar os sentimentos dos outros, pois só desta forma a empatia é possível e, com ela, uma relação harmoniosa e construtiva com os outros. 

Terapia cognitiva
De acordo com a teoria que fundamenta a terapia cognitiva, fundada por Aaron Beck, as emoções e comportamentos são causados pelo diálogo interno que mantemos connosco mesmos. Na base deste diálogo estão pensamentos, pressupostos, crenças e muitas destas crenças são falsas ou irracionais.

O fundador da terapia cognitiva entende que basta desafiar essas crenças, esses pensamentos equivocados e falsos chamadas “distorções cognitivas" e confrontá-los com a razão, para que desapareçam as emoções que eles provocam, assim como as ações neles radicadas.  A terapia cognitiva foi comprovada como eficaz por estudos empíricos.

O princípio é simples e no fundo diz respeito a um conceito muito anterior a Beck e muito conhecido por nós, religiosos: o conceito de conversão que em grego é metanoia, ou seja, mudança de mente. Geralmente, quando a pessoa diz que mudou de ideias, está a dizer que mudou também de comportamento e que tomou outras decisões contrárias às que tinha tomado antes.

Sentir - Pensar - Agir
Segundo alguns estudos atuais e como também afirma Daniel Kahneman, somos seres mais emocionais que racionais, por muito que o neocórtex tenha mais do dobro do tamanho do cérebro límbico. Fundamentalmente, somos seres emocionais que depois recorrem à razão para justificar, explicar ou sancionar e validar os sentimentos.

Num sentido positivo, o que fazemos assemelha-se muito ao mecanismo de defesa descrito na fábula da raposa e das uvas. A raposa vê as uvas e deseja-as (sentimento), decide apanhá-las (pensamento), começa a saltar mas não consegue apanhá-las e sente-se frustrada (sentimento). Para se livrar deste sentimento negativo, declara as uvas como verdes, racionalizando o sentimento (pensamento).

O cérebro emocional é muito mais rápido que o racional, pelo que a primeira reação a tudo o que os nossos sentidos captam é uma reação emocional e não uma reação racional; tudo o que os nossos cinco sentidos captam provoca sentimentos muito antes de provocar pensamentos.

Uma mãe que procure uma escola para o seu filho e visite uma onde veja sujidade e desorganização,
 já nem se preocupará em saber se o desempenho dessa escola no contexto das outras é bom ou mau: decidirá de imediato que o seu filho não vai estudar ali.

Agir
De boas intenções está o inferno cheio

Por fim, estamos no âmbito pragmático do comportamento humano tridimensional. Como vimos em relação aos três cérebros e às três personalidades básicas, há pessoas mais cerebrais, que vivem confortavelmente instaladas na “sala de cima”, com muito pouco contacto com a realidade.

Também há pessoas para quem o mais importante são as relações humanas e por isso vivem no meio da sociedade e fogem a estar sozinhas e até mesmo a estar com elas mesmas. Por fim, há pessoas para quem o fazer é o mais importante, vivem no meio da ação e estão sempre a fazer algo de prático, utilizando mais os pensamentos que as emoções. São pessoas enérgicas, aprendem fazendo e estão sempre envolvidas em algum projeto. Quando não estão envolvidas num projeto ou não têm nada que fazer, podem entrar em depressão.

O “cogito ergo sum” vai mudando de face, dependendo da personalidade básica a que diga respeito: para os cerebrais aplica-se “penso logo existo”, para os emocionais aplica-se “sinto logo existo”, para os viscerais, “faço logo existo”.

No crepúsculo das nossas vidas, seremos recordados, não pelo que pensámos nem pelo que sentimos nem pelo que dissemos, mas pelo que fizemos. O capítulo 25 do evangelho de São Mateus diz que seremos julgados pelos atos de amor que realizámos ou não realizamos ao longo da nossa vida, (Mateus 25).

A comunicação não violenta ensinou-nos que o amor, mais que um sentimento, é uma necessidade: todos os seres humanos necessitam de amar e ser amados. A importância de um homem mede-se certamente pelas suas obras, mas é igualmente importante o pensar e o sentir por detrás das obras. Somos o que pensamos, sentimos e fazemos.

Podemos dedicar-nos apenas a pensar, ser intelectuais e até vivermos afastados dos outros. No entanto, serão sempre as nossas obras que nos salvam e que justificam a nossa vida, através da investigação científica, da criação da tecnologia que nos facilita a vida ou da produção de literatura que deleita e ensina.

Também podemos ser emocionais e escrever poesia, dedicarmo-nos às artes, à música ou a estabelecer harmonia e paz entres as pessoas. Serão também as nossas obras, a forma como materializamos os nossos sentimentos que darão valor à nossa vida perante nós mesmos e perante os outros.

E por fim, para os pragmáticos, para os que vivem no meio da ação, se esta não for bem pensada, iluminada pela razão e orientada pelos sentimentos, de nada serve.

Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas, se não tiver amor, nada sou. Ainda que eu distribua todos os meus bens e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada me aproveita. 1 Coríntios 13, 1-3

Agir - Sentir - Pensar
Esta é a tríade menos conhecida no sentido positivo, mas muito popular e muito frequente no sentido negativo. “Colocar o carro diante dos bois” - a ação antecipa-se ao pensamento e ao sentimento. Já nos avisava o poeta popular António Aleixo na sua famosa quadra: “para não fazeres ofensas e/teres dias felizes, não digas tudo o que pensas/pensa em tudo o que dizes”.

No sentido negativo, quando uma ação é irrefletida e não sentida vai fazer-nos sentir mal connosco mesmos e com os outros e pode até levar-nos a tirar conclusões falsas sobre nós mesmos e os outros. Por que não usar este mecanismo no sentido positivo?

Suponho que esta é a base da terapia que advém do condutismo ou behaviorismo. Em vez de lidar com as atitudes estudando a sua raiz psicanalítica e nunca chegarmos a ser o que pretendemos ser, a terapia behaviorista defende que praticando um conjunto de atos repetidamente, estes acabarão por criar a atitude desejada.

Amy Cuddy da Universidade de Harvard defende que se exibirmos uma atitude de poder, segurança e liderança mesmo sentindo-nos inseguros, acabaremos por ser e sentir o que a nossa postura física ou linguagem corporal mostra. Segundo ela, as nossas posturas corporais afetam os níveis hormonais, neste caso sobe a testosterona, e fazem-nos sentir mais seguros. Como afirmou uma vez numa conferência, “fake it until you become it” ou “finge até de facto te tornares naquilo que agora só finges ser”.

Muitos atores de teatro e de cinema aludem a este fenómeno: depois de desempenharem um papel durante muito tempo, tiveram sérios problemas para se descondicionarem dele. As nossas ações e a nossa forma de comunicar podem mudar os nossos pensamentos e os nossos sentimentos. Suponho que as hospedeiras de bordo que no desempenho da sua profissão devem sorrir sempre, mesmo estando a chorar por dentro, se tornam em pessoas mais positivas e otimistas a longo prazo.

A expressão inglesa “count your blessings” exorta-nos a enumerarmos todas as bênçãos que recebemos em vez de contarmos as desgraças. Mais explícito ainda nesta terapia positiva para exorcizar a nossa negatividade, temos o provérbio castelhano, “Al mal tiempo buena cara”, ou seja, sorri à vida, insiste, persiste e não desistas até que a vida te sorria a ti.
Pe. Jorge Amaro, IMC