15 de abril de 2020

3 Tipos de personalidade: Cerebral - Emocional - Visceral

Antes de falar das três personalidades básicas do ser humano, precisamos recordar que não é mera coincidência o facto de o cérebro humano, como vimos anteriormente, também ser composto por três partes. De facto, como veremos, existe uma conexão íntima entre cada uma das três partes do cérebro humano, e cada uma das três personalidades básicas.

Três cérebros, três personalidades
Referimos anteriormente que o nosso cérebro é uno e trino, ou seja, são três em um e um em três, como as bonecas russas chamadas matrioskas. O cérebro reptiliano ou instintivo é o mais antigo, sendo comum a todos os vertebrados; sobre este ou em redor deste formou-se e cresceu o nosso segundo cérebro, com a evolução dos répteis aos mamíferos: o cérebro mamífero, límbico ou emocional, comum a todos os mamíferos e primatas anteriores ao ser humano na evolução das espécies.

Por fim, na passagem dos mamíferos aos primatas e destes ao ser humano, formou-se à volta do cérebro límbico o maior e mais volumoso neocórtex, o cérebro racional. Este apenas está presente no ser humano e em alguns primatas superiores, embora não tão desenvolvido como no ser humano.

No processo de aquisição de informação, os três cérebros funcionam harmoniosamente. Captamos a realidade por intermédio do nosso cérebro reptiliano, pois ele é o responsável pelo bom funcionamento de todo o organismo, pelas nossas perceções e pelos nossos cinco sentidos.

O que percecionamos através dos nossos cinco sentidos evoca emoções muito antes de evocar pensamentos. A primeira leitura interpretativa do que percecionamos da realidade é-nos dada pelo nosso cérebro límbico ou emocional, ou seja, o que vemos, ouvimos, cheiramos, tocamos ou provamos evoca primeiro emoções ou sentimentos e só depois pensamentos, memórias ou experiências.

Eventualmente, depois de uma primeira interpretação por parte do nosso cérebro límbico, é a vez do neocórtex dar também o seu parecer e processar a informação, comparando-a com experiências passadas, posicionando-se perante o tema em questão e eventualmente decidindo ou não uma ação.

A coordenação e harmonia que existem na recoleção de dados e na interpretação dos mesmos pelos três cérebros parecem não existir na hora de aplicar a informação recebida ao mundo circundante e aos outros. O ideal seria que uma pessoa reagisse instintivamente quando a situação requer uma reação instintiva, como acontece quando  há a perceção de perigo, emocionalmente quando a situação requer uma resposta emotiva, como por exemplo sensibilizar-se por alguém que precisa de ajuda e ajudar essa pessoa, ou racionalmente quando se trata de resolver um problema.

Na realidade, não é isto que acontece. Agimos instintivamente perante um problema racional; agimos de forma racional e fria quando devíamos mostrar compaixão; e agimos de forma instintiva e impulsiva como se estivéssemos em perigo, quando de facto não estamos. Deveríamos antes usar a razão e pensar antes de falar ou agir.

Pela educação e por certas tendências inatas, algumas pessoas são mais propensas a usarem em primeiro lugar um dos cérebros em detrimento dos outros dois. Usando uma linguagem genética, no comportamento do dia a dia, um dos cérebros é dominante, um outro é recessivo e o terceiro é quase inexistente. Por outras palavras, um é o principal, outro secundário e o terceiro negligenciado, pouco operativo ou pouco usado.

Pessoas cerebrais
A sua personalidade é governada predominantemente pela razão. Aqueles que conduzem as suas vidas principalmente pelo processo do raciocínio negligenciam as emoções e os instintos, ou seja, não estão realmente em contacto consigo mesmos, vivem no mundo das ideias e dos conceitos como se estivessem na caverna de Platão. Têm medo das emoções e não confiam nos seus instintos por os considerarem intangíveis e irracionais; o que não é claro racionalmente, não existe.

A predominância da inteligência racional faz com que estas pessoas se foquem na observação, na análise e precisem de pensar muito antes tomar decisões. Muitos deles são introvertidos (tendo dificuldade em falar e expressar os seus sentimentos) e preferem interagir mais com o mundo das ideias do que com as pessoas. Têm a sensação de não serem capazes de lidar com situações imprevisíveis e são muito lentos nas suas reações, parecendo apáticos, amorfos e distantes.

Por tudo isto, porque vivem na sua cabeça e estão dissociadas ou divorciadas tanto do seu cérebro límbico como do seu cérebro reptiliano, são pessoas muito pouco intuitivas, desconectadas da realidade interior e exterior. Os intelectuais e os cientistas são grandes analistas e especialistas nos distintos ramos da ciência e do saber, porque a sua fonte de conhecimento preferida é a lógico-dedutiva.

Tal como os instintivos, os racionais também são muito observadores. Ao contrário dos viscerais, que gostam de observar as outras pessoas, os racionais gostam mais de observar a natureza e os factos. Gostam de entender os mecanismos por detrás das coisas, gostam de saber a motivação lógica dos factos, gostam de saber e entender como e por quê as coisas acontecem, ou seja, a razão das coisas.

Por isso podem ser bons em praticamente qualquer coisa que desperte o seu interesse. São organizados, metódicos, determinados e inteligentes para se dedicarem a qualquer matéria que capte o seu interesse.

É aos cerebrais especialistas que se aplica o dito “sabem cada vez mais de cada vez menos”. Perdidos no detalhe que analisam até à saciedade, perdem a visão de conjunto, pelo que são pouco ecléticos, podendo até ser arrogantes, intolerantes e sobranceiros.

São lúcidos, congruentes, clarividentes e lógicos; falam com eloquência e possuem um pensamento veloz; gostam de debater e discutir, são hábeis políticos com grande capacidade de convencer os outros em relação às suas causas. Quando um racional consegue chegar a uma conclusão lógica final, dificilmente está errado, pois ser correto e lógico é um dos seus princípios.

Muito parecidos com os instintivos ou ainda piores que eles, o grande ponto fraco do racional é a sua baixa sociabilidade. O racional tem uma tendência natural para ser autossuficiente, não cultiva as relações com as outras pessoas e isola-se. Também se concentra mais na absorção e análise de ideias do que na ação. Por isso mesmo, é um eterno indeciso, duvida de tudo e de todos, o que faz com que seja indolente e inativo.

Le cœur a ses raisons que la raison ne connaît point – Esta afirmação de Pascal foi proferida no contexto da religião. De entre os três tipos de personalidade, os que sentem mais dificuldade em ser crentes são precisamente os racionais ou cerebrais, pois a fé está mais ligada à realidade da vida captada pelo cérebro reptiliano ou às emoções ou ao  coração, campo do cérebro límbico, estando menos ligada à razão por não poder ser racional. Tenho para mim que os grandes ateus e agnósticos -  Feuerbach, Karl Marx, Freud e Nietzsche - eram todos cerebrais e racionais.

A fé é para pessoas ignorantes – Para os cerebrais só existe o que é captado pelos cinco sentidos e discernível pela razão. Não há realidade para além disto. São capazes de fazer afirmações materialistas e simplistas, como a de um famoso cirurgião que afirmou ter operado todas as partes do corpo humano e nunca ter encontrado a alma; ou como o primeiro cosmonauta russo que, ao voltar da primeira viagem ao espaço, disse que não tinha visto lá Deus.

A fé é um obséquio razoável: não podendo ser racional pois não é matéria da ciência, também não pode nem deve ser irracional ou supersticiosa; tem de ser razoável, ou seja, plausível, humanamente credível. Os racionalistas não conseguem compreender que se Deus existe e é criador de tudo e de todos, é também criador da razão humana. Assim, a criatura não pode nunca chegar a conhecer totalmente o seu criador, como a parte nunca pode entender o todo.

Não consigo acreditar – É outra atitude típica dos cerebrais; como sabemos em psicologia, quando alguém diz “não consigo” o que verdadeiramente quer dizer é “não quero”. Assim sendo, o que verdadeiramente estão a dizer é “eu não quero acreditar”. Quando um fumador nos diz, “eu não consigo deixar de fumar”, devemos perguntar-lhe “deixar de fumar é impossível?”. Ele dirá que não, que é possível. Então podemos rematar “não digas que não consegues deixar de fumar, mas sim que não queres deixar de fumar, pois como diz o povo querer é poder”.

O agnóstico ou ateu não quer descer da torre da razão, que entende como única forma de conhecer. Como nega a espiritualidade em todas as suas formas, tem a tendência para ser uma pessoa materialista e até para idolatrar algumas realidades materiais. No fundo, mais que materialista ou ateu, acaba por ser politeísta.

Por causa do medo e do orgulho em relação ao mundo emocional e instintivo, os racionais ficam de fora de muitas realidades da vida. São racionais, mas não são razoáveis. Os intelectuais podem chegar a ser maçadores, aborrecidos, monocromáticos e deprimentes. A vida instintiva e emocional pode ser motivo de grandes tristezas e riscos, mas também é o único veículo da alegria e felicidade.

Pessoas emocionais
Os emocionais funcionam a partir do cérebro límbico e consideram-se mais humanos que os cerebrais, que apelidam negativamente de intelectuais, frios e distantes; os instintivos são considerados desumanos e cruéis. Os emocionais acham orgulhosamente que só eles são autenticamente humanos, só eles sentem e são capazes de sentir verdadeiramente e acham que ninguém os entende.

Viver é amar, dizem com razão, e quem não ama não sabe o que é a vida nem o que é Deus, pois até Deus é amor. Para uma pessoa racional é importante responder à pergunta porque vivo eu? Para uma pessoa emocional é mais importante responder para quem vivo eu.

As pessoas nas quais predomina a inteligência emocional estão mais focadas nas relações humanas que estabelecem com as outras pessoas e fazem delas o centro das suas vidas. Por isso, quando surgem conflitos nesta área, nada é mais importante que a resolução desses conflitos. Os emocionais tendem a preocupar-se com a sua imagem para obter a aprovação dos outros, evitar as críticas e mostrar que são especiais.

Com a comunicação não violenta, aprendemos que as emoções são positivas ou negativas e que estão intimamente relacionadas com necessidades satisfeitas, quando são positivas, e com necessidades insatisfeitas, quando são negativas. Também aprendemos que não é possível sentir um mesmo sentimento por mais de 40 segundos; com estes dois dados da comunicação não violenta, podemos concluir que o emocional é o menos estável dos três caracteres, vivendo numa contínua montanha russa de altos e baixos que pode criar um maníaco depressivo - um momento está eufórico, no momento seguinte sente-se deprimido.

Por um lado, é verdade que a vida humana é composta por altos e baixos. De facto, tanto a eletrocardiograma como o eletroencefalograma, que graficamente são representados por linhas com altos e baixos, indicam que uma pessoa está viva. Se um ou outro começar a apresentar menos altos e baixos, indicará que a vida está a esvair-se; uma linha contínua sem oscilações assinala que a vida se extinguiu. Assim é a vida física e assim é, de alguma forma, a vida emocional. Mas se a parte emocional não consegue uma certa constância e autodomínio, a vida da pessoa e dos que lhe são próximos transforma-se um inferno.

A constância é o meio termo anímico entre os altos e os baixos que permite ao emocional não perder a cabeça quando está eufórico, quando tudo parece correr bem, e não se desesperar quando está no fundo do poço, quando tudo parece correr mal. O emocional deve aprender animicamente, não só intelectualmente, o que o provérbio diz “não há mal que sempre dure nem bem que sempre ature” - a vida pode ser um céu e um inferno, mas nem o céu nem o inferno são definitivos, mas sim passageiros.

Os sentimentais necessitam do intelecto para dominar as emoções e não serem dominados por elas. As emoções dizem mais de nós, da nossa identidade, que os pensamentos. Mas não devem ser elas a governar a nossa vida. Ninguém é responsável por aquilo que sente, não somos donos das nossas emoções, mas somos responsáveis por aquilo que fazemos com elas. Elas mostram o caminho a seguir, mas somos nós e o nosso intelecto que decidimos ou não tomar esse caminho.

As decisões puramente emocionais induzem muitas vezes a pessoa em erro. Não devemos decidir nada sob a influência de uma emoção muito forte como o amor, a ira, o ressentimento, sendo aconselhável até que a emoção passe. Nesse estado emotivo, a razão da pessoa fica anulada, como se estivesse bêbada não sabe o que faz nem o que diz, está fora de si.

Caindo em si… (Lucas 15,7) - A parábola do filho pródigo alude precisamente a esta situação de tomar decisões a quente, sob a influência de alguma paixão. Tudo o que o filho pródigo fez, desde a sua decisão de pedir a herança ao pai até gastá-la, foi feito inconscientemente sob o domínio de uma ou várias paixões. Quando caiu em si, voltou a si, teve consciência da sua situação.

As emoções definem melhor uma pessoa que os seus sentimentos. Por isso, são o que há de mais autêntico em nós. No entanto, embora isto pareça contraditório, as emoções podem também divorciar-nos de nós mesmos, fazer-nos ficar fora de nós mesmos, abandonar a nossa identidade, quando estamos sob o seu domínio.

As pessoas emocionais são altamente sensíveis. Segundo os estudos, uma em cada cinco pessoas ou entre 15 a 20% da população, são pessoas sensíveis ou emocionais. Embora no mundo ocidental se considere culturalmente que as mulheres são mais emocionais que os homens, na realidade não parece ser assim. Há igual número de homens e mulheres emocionais, apesar de a educação ser diferente para homens e mulheres.

As pessoas emocionais são pessoas empáticas, porque entendem bem o seu mundo interior, e porque são altamente sensíveis. Facilmente se colocam no lugar do outro, conseguem ver e sentir as coisas sob o seu ponto de vista. A empatia é uma das qualidades mais importantes do ser humano; sem ela não haveria qualquer possibilidade de entendimento entres os seres humanos.

Os emocionais são certamente mais intuitivos que os cerebrais, pois o seu centro - o cérebro límbico - comunica com o cérebro reptiliano; filogeneticamente, a emoção está mais perto do instinto que do pensamento. A intuição é usada para as relações sociais, mais que para as descobertas científicas ou materiais. Nas pessoas emocionais, a intuição está ao serviço da empatia, de perscrutar o outro e sintonizar-se com ele. Por causa desta sintonização conatural, os emocionais são pessoas muito humanas e educadas.

A enorme sensibilidade nem sempre joga a seu favor. De facto, os emocionais também são sensíveis às críticas, têm pouca capacidade para as suportar e continuar a funcionar. Por exemplo, os instintivos têm a atitude de “os cães ladram e a caravana passa”, não se importam com o que os outros possam pensar deles. Os emocionais, como querem ser populares, associar-se, relacionar-se com toda a gente, buscam o apreço dos outros e não toleram as suas críticas. Isto leva-os a usar técnicas para minimizar as probabilidades de serem criticados, o que faz com que sejam menos genuínos e até mesmo seletivos nas suas relações sociais, evitando a companhia dos que podem criticá-los.

Os emocionais são pessoas intensas que vivem com intensidade as suas paixões. Por isso são mais suscetíveis a ansiedade e depressão, como já referimos. Por outro lado, entre os três tipos de personalidade, estes são os que melhor trabalham em equipa porque, em discussões ou diálogos, preferem perder o argumento em vez de perder a pessoa. São os mais sociáveis e dados ao outro, os mais altruístas.

Viscerais e instintivos
As pessoas predominantemente viscerais tendem a serem pessoas impulsivas, pois a sua atenção está sempre voltada para o exterior, para a resolução de tudo. O visceral está sempre em estado de alerta para poder controlar tudo e todos os que o rodeiam.

A energia vital do visceral é a ira ou raiva, que pode aparecer no discurso ou nas atitudes, mesmo nas pessoas que não expressam abertamente a raiva - podem ter um mecanismo para a conter ou não estarem cientes dela, mas ela está lá.

Buscam o poder e são muito críticos com quem o detém relativamente a questões de verdade e justiça ou mesmo em relação à pessoa ser suficientemente forte para manter o poder que tem. Neste sentido, são hábeis em golpes de estado ou em tirar o tapete por baixo dos pés de quem tem o poder injusta ou imerecidamente. Em tudo, lidam com as situações como se fossem sempre uma questão de sobrevivência, de vida ou morte.

Como existe uma correlação entre o cérebro reptiliano e a personalidade instintiva, não é difícil concluir que os instintivos são pessoas de ação. O cérebro dos répteis não pensa nem sente, tem apenas três funções: ataca, foge e imobiliza-se ou esconde-se. Assim, as pessoas instintivas dão mais importância à ação que ao sentimento e ao pensamento.

Sendo as vísceras, o estômago, o instinto, o móbil primário da sua personalidade, como humanos que são, precisam dos outros dois cérebros e, por estranho que pareça, os instintivos tendem a fazer um bypass entre o cérebro instintivo e o neocórtex com o intuito de justificar e iluminar humanamente a sua ação, ficando marginalizada a emoção e o sentimento (o cérebro límbico).

O instintivo precisa do neocórtex, mas não perde muito tempo nele como os cerebrais que dão voltas e voltas a uma questão e, consumidos pela dúvida, nunca chegam a uma decisão; os instintivos pensam, processam o problema, rapidamente chegam a uma conclusão e atuam; frequentemente, a solução vem através da intuição que é a arma mais forte dos instintivos.

Intuição, a arma dos viscerais ou instintivos
A intuição é chegar ao conhecimento e certeza de algo de uma forma rápida, sem a lenta deliberação do pensamento que opera de uma forma lógico-dedutiva. Precisamente porque não é uma conclusão tomada ao fim de um processo intelectual, é difícil defini-la.

A matemática é uma ciência lógico-dedutiva, assim como todas as outras ciências para as quais o conhecimento resulta da observação, experimentação, e interpretação dos resultados. Porém, muitas das descobertas científicas dos nossos dias não seguiram este processo. A máquina a vapor foi uma intuição, bem como a teoria da relatividade de Einstein, para a qual só agora começam a surgir provas empíricas da sua veracidade.

É provável que a intuição seja também um pensamento lógico-dedutivo, mas que segue um processo, mas rápido a nível inconsciente. O consciente capta apenas a solução do problema, sem se aperceber dos passos dados para lá chegar. Pode ainda provir da observação, experiência e interpretação do observador, mas o processo é inconsciente.

Observamos a linguagem corporal de alguém e o nosso inconsciente interpreta e decifra essa linguagem corporal. Rapidamente chegamos a uma conclusão sobre essa pessoa. E como a linguagem corporal é sempre verdadeira, precisamente porque quem a emite não tem consciência dela, a intuição acerta quase sempre.

Os instintivos são bons observadores e nenhum pormenor lhes escapa. Todos os detalhes são vistos, julgados e avaliados até mesmo inconscientemente, acabando por motivar as intuições. Observam a linguagem corporal, o tom de voz, as palavras que os outros escolhem para se expressar - tudo é minuciosamente observado e avaliado.

A intuição assenta na crença de que o universo, em todos os seus aspetos e manifestações, opera obedecendo às mesmas regras e leis. As leis da física observam-se tanto no mundo material como no mundo psicológico ou espiritual; o movimento de um planeta à volta da sua estrela mimetiza o movimento do eletrão à volta do núcleo no interior do átomo; o movimento dos planetas do sistema solar em redor do Sol parece descrever a espiral do ADN, o nosso código genético.

Metáforas, comparações, alegorias, parábolas, analogias operam e são possíveis porque no fundo existe uma correlação entre todos os assuntos, de tal modo que o que acontece numa determinada matéria ou tema pode ajudar-nos a compreender o que acontece numa outra matéria ou tema, aparentemente sem qualquer relação com a primeira.

As pessoas intuitivas possuem um cérebro metafórico; a pessoa mais importante do planeta, Jesus de Nazaré, possuía uma mente metafórica e facilmente encontrava parábolas, alegorias e comparações para explicar realidades abstratas, como o Reino de Deus. Explicou a necessidade da sua morte com o grão de trigo, dizendo que se o grão de trigo não morrer não serve para nada (João 12,24).

A pessoa instintiva ou visceral em vez de operar a partir do neocórtex, tendo em conta os outros dois cérebros, de alguma forma subverte a natureza humana ou ignora a evolução e opera a partir do cérebro reptiliano, usando ou “manipulando” os outros dois, sobretudo o neocórtex ao qual se liga diretamente e utiliza como base de dados para as suas intuições.

Para os instintivos, os cerebrais vivem na lua, os emocionais são umas madalenas, só eles próprios são pragmáticos e operativos, pois têm os pés na terra e fazem com que as coisas aconteçam. O valor de um homem está nas suas obras; a pessoa não vale pelo que sente, diz ou pensa, mas pelo que faz; de boas intenções está o inferno cheio, diz o ditado. Pelos sues frutos os conhecereis diz Jesus.

Como a ação é tudo o que o instintivo valoriza, tende a ser impaciente e impulsivo. Tende a pôr o carro à frente dos bois e, como muita da sua ação não é premeditada nem deliberada, é frequente errar.

Os instintivos são pessoas de ação, têm a mente cheia de projetos e obras que querem ver realizados. Por isso evitam as relações sociais, uma vez que elas suscitam sentimentos e emoções, o que, para um instintivo, é como areia movediça que não consegue controlar e que pode desviá-lo da sua meta. Digamos que o instintivo conhece o amor pelo poder, mas não o poder do amor.

As pessoas que estão em contacto com os seus instintos tendem a ser introvertidas, precisam do silêncio e da solidão para estar em contacto consigo mesmas. Contrariamente ao que muitos pensam, uma pessoa introvertida não é uma pessoa antissocial, tal como o extrovertido não é uma pessoa altruisticamente social.

O extrovertido precisa dos outros para ser ele mesmo, o introvertido não depende dos outros: pode desfrutar da companhia dos outros, mas rapidamente se cansa e precisa de voltar à sua solidão, pois é nela que recupera a sua energia vital e mental e consegue ligar-se a si mesmo.

De entre as três personalidades, os instintivos ou viscerais são os mais raivosos e irados, mas são também os primeiros a perdoar ou a pedir perdão, a virar a página. Repetem para si mesmos e para os outros “águas passadas não movem moinhos”. Os instintivos evitam guardar rancor e ressentimentos, permanecer irados, tristes ou deprimidos, já que isso lhes tira a energia de que precisam para que a sua intuição funcione.

Os três tipos de personalidade e o eneagrama
O eneagrama é a teoria psicológica que mais utiliza e desenvolve esta divisão da personalidade humana em três tipos, que advêm do facto de termos três cérebros relacionados com as três funções básicas da psique humana - o instinto, o sentimento e o pensamento.

No eneagrama, entendemos que existem 3 inteligências: a visceral, que é responsável pelos nossos impulsos e instintos e é gerida pelo cérebro reptiliano, sediada no abdómen (por isso se chama visceral, por se manifestar na região das vísceras); a inteligência emocional, sediada no peito e regida pelo cérebro límbico e que é responsável pelo que sentimos e pelo forma como interpretamos as emoções e, por último, a inteligência racional, sediada na cabeça e regida pelo neocórtex, que é responsável pelo raciocínio, cognição e memória.

Chamamos-lhes 3 inteligências porque elas são a maneira como entendemos e interagimos com o mundo à nossa volta. Apesar de todos termos as três inteligências, cada pessoa, ao longo do seu desenvolvimento, se especializa numa delas e passa a ter a tendência de querer lidar com as situações da vida utilizando apenas uma dessas dimensões.

Por que nos limitamos a uma só dimensão? É a nossa história pessoal que faz com que nos inclinemos mais para uma dimensão que para outra. Vejamos, as três funções do psiquismo humano - o instinto, o sentimento e o pensamento - estão relacionadas com as três necessidades básicas de cada ser humano: a necessidade de autonomia, de reconhecimento e de segurança. A forma como estas necessidades básicas são ou não são satisfeitas, vai influenciar a nossa personalidade mais cerebral ou emocional ou visceral.

Se a satisfação de uma destas necessidades foi problemática e conflituosa ou traumática, a criança desenvolve a personalidade ou o antídoto ou padrão correspondente, como uma solução de emergência para resolver o problema e assim se reforça um ou outro centro de inteligência.

Autonomia - A emoção vital dos viscerais é a ira em resposta ao facto de a sua necessidade de autonomia não ter sido satisfeita. Todo o ser humano busca liberdade, independência; neste sentido, somos seres territoriais, defendemos a nossa identidade, estabelecemos fronteiras entre o eu e o tu.

Reconhecimento - A emoção ou sentimento vital dos emocionais é a vergonha, pelo facto de a necessidade de reconhecimento não ter sido satisfeita. Sentir-se querido e amado é muito importante para uma criança, tal como o sentido de pertença a uma família.

Segurança - Por fim, a emoção vital dos cerebrais é a ansiedade e o medo em resposta ao facto de a sua necessidade de segurança não ter sido satisfeita. Isto equivale a sentirmo-nos seguros onde estamos, conhecermos bem o sítio, sabermos a verdade das coisas, sentirmos clareza confiança.

A criança que reagiu com ira à dificuldade de satisfazer a sua necessidade de autonomia, cresceu como uma pessoa visceral; a que reagiu com vergonha à falta de reconhecimento, desenvolveu o carácter emocional; a que sentiu medo perante a falta de segurança, cresceu como cerebral.

O eneagrama identifica três diferentes personalidades no interior de cada centro de inteligência, o que no total perfaz 9 personalidades diferentes. Não vamos, por motivos de espaço, descrever cada uma destas personalidades que o eneagrama identifica com números de 1 a 9, mas vamos identificar os seus números entre parênteses em cada tríade.

Tríade emocional (2, 3, 4)
Os emocionais percecionam o mundo através do filtro cognitivo da inteligência emocional. Estão atentos ao próprio estado de humor e sentimentos e aos dos outros, a fim de poderem conservar a sua sensação de ligação a eles. São os mais dependentes dos outros, dependem tanto da aprovação dos outros que se ajustam aos gostos deles. Neste sentido, estão mais preocupados com o que parecem do que com o que são realmente.

É claro que o que subjaz a este comportamento e o motiva é a emoção da vergonha, que os faz sentir como se sempre houvesse algo muito profundo e escondido neles que os faz sentir indignos ou errados. Esta emoção ou sentimento de falta pode ser inconsciente e estar escondido sob comportamentos de orgulho ou arrogância e sobranceria.

Por causa do fingimento e hipocrisia de manter uma aparência que os faça populares, acabam por ter problemas de identidade, - a certa altura, já não sabem se são eles ou a máscara que usam para obter a aprovação dos outros. Em certo sentido, parece que nunca crescem, pois, a sua autoestima está sempre dependente da estima que recebem ou não dos outros.

Evidentemente, não só os tipos do centro emocional, como, também todos os outros tipos dependem da inteligência emocional para desenvolver as qualidades superiores do centro emocional, como a compaixão, a bondade, a compreensão e a capacidade de se identificarem com o próximo.

Tríade cerebral (5, 6, 7)
Os cerebrais ou racionais percecionam o mundo e o ambiente que os rodeia através do filtro cognitivo das faculdades mentais. Os objetivos desta estratégia são minimizar a ansiedade ou medo de lidar com situações potencialmente dolorosas e adquirir uma sensação de certeza por meio dos processos mentais de análise, conceção, imaginação e planeamento.

São clarividentes, pensam com clareza e chegam a desenvolver teorias complexas. Os problemas surgem quando se trata de atuar. É como se estivessem sempre a preparar-se para a ação, mas esse momento nunca chega, como se falhasse o motor de arranque. Estão sempre na dúvida que é em si mesma uma manifestação do medo de errar.

“De boas intenções está o inferno cheio”. Eles diriam como Descartes, “Cogito ergo sum”, confundindo o seu ser essencial com o conteúdo das suas mentes; mas isso equivale a confundir o mapa com o território.

Evidentemente, não só os tipos do centro mental como todos os outros tipos dependem da inteligência mental para desenvolver as qualidades superiores do centro mental, como a sabedoria, o entendimento e a prudência.

Tríade visceral (8, 9, 1)
Os viscerais tendem a perceber o mundo através do instinto e da inteligência das sensações físicas e sinestésicas. Usam a posição que ocupam e o poder que detêm para transformar a vida naquilo que eles acham que ela deve ser.

Centrados e focados mais nos seus corpos e na ação que nos seus sentimentos ou pensamentos, a sua principal emoção ou energia vital é a ira, que utilizam como mecanismo de defesa. Esta ira que é clara e evidente na personalidade 8 pode estar reprimida na personalidade 1 e inconsciente na personalidade 9, mas existe sempre e é real.

Voltados para a ação, para o exterior, chegando a ser muito ativos e carismáticos, trabalhadores e hábeis percetores da realidade dos outros, estão desligados de si mesmos, desconhecem o seu íntimo, os seus sentimentos e pensamentos, o seu ser, a sua identidade.

Evidentemente, não só os tipos do centro instintivo como todos os tipos dependem da inteligência somática para ter acesso à energia necessária para a ação, para discernir quanta força deve ser aplicada às diversas situações e para adquirir a sensação firme de estar ligado a este mundo. 
Em resumo

Racional
Emocional
Visceral
Corpo
Cabeça
Peito
Abdómen
Cérebro
Neocórtex
Mamífero
Reptiliano
Ante a realidade
Observa/pensa
Relaciona-se
Atua/controla
Sente-se
Inseguro/ansioso
Não aceite
Irado
Busca
Entender
Ser aceite
Autonomia
Em stress
Preocupa-se
Chora
Grita
Meta
Sabedoria
Amor
Coragem

Como posso desenvolver as outras inteligências?
Uma sugestão para desenvolver as outras inteligências menos fortes é procurar conviver com pessoas nas quais elas sejam predominantes

Para desenvolver uma determinada inteligência existem estratégias específicas. Para desenvolver a inteligência racional devemos evitar a reação rápida, parar, respirar fundo, dar tempo ao tempo, contar até 10, praticar meditação, perguntarmo-nos qual o porquê das coisas ou por que fulano disse o que disse, observar e procurar interpretar.

Para desenvolver a inteligência emocional basta perguntarmo-nos sempre (antes de agir ou responder a algo) como nos sentimos; devemos conseguir identificar a emoção que sentimos no momento; por outro lado, procurar identificar os sentimentos do outro e sobretudo inquirir como nos sentiríamos se a outra pessoa dissesse ou fizesse connosco o que pretendemos dizer ou fazer com ela?

Para desenvolver a inteligência visceral devemos prestar mais atenção às sensações do nosso corpo (ele dá sinais), fazer exercício, praticar artes marciais (elas ajudam-nos a ligarmo-nos à energia vital dos viscerais, à raiva ou à ira), praticar meditações dinâmicas.
Pe. Jorge Amaro, IMC

Sem comentários:

Enviar um comentário