15 de janeiro de 2019

3 Noções de Deus: Animismo - Politeísmo - Monoteísmo

Quando todas as necessidades - como sustento, segurança, amor, liberdade - estão satisfeitas, surge no ser humano a necessidade de sentido, de significado. Se a morte não existisse talvez nunca nos perguntássemos qual o sentido da vida; simplesmente viveríamos em simbiose com a natureza; talvez o pensamento discursivo nem sequer existisse: os animais vivem sem saber que morrem e, talvez por isso, não pensam.

A morte – autoconsciência ou pensamento discursivo – e a existência de Deus parecem estar intimamente ligadas. Com a morte, nasceu a consciência de existir e a necessidade ou desejo de nunca deixar de existir. A morte provocou o pensamento e as três perguntas basilares, de onde venho, para onde vou, e que sentido tem a vida. Assim nasce a necessidade de existir sempre, assim nasce o desejo de Deus. Um desejo não existiria se fosse impossível de satisfazer.

Ao longo dos tempos, desde que o ser humano se fez consciente de si mesmo e do seu meio ambiente, a conceção de Deus foi evoluindo. Nesta evolução podemos distinguir três etapas: animismo, politeísmo e monoteísmo. Estas etapas, porém, não se sucedem no sentido em que uma ocupa o lugar da outra, eliminando completamente a anterior; ou seja, o animismo não desapareceu com a introdução do politeísmo, nem este se extinguiu por completo com o surgimento do monoteísmo. Nenhuma das etapas anteriores desapareceu, mas coexiste minoritariamente com a que lhe sucedeu.

Também podemos olhar para a evolução do conceito de Deus a partir de uma outra perspetiva da dialética entre o espiritual ou sobrenatural e o material ou físico. Desde que a morte escavou no nosso corpo físico (entendido como matéria viva) um vazio, o espírito nasceu para ocupar esse vazio. Desde esse momento, não só o ser humano como, tudo se transformou em ser espiritual. O espiritual dominava o material, pois só o espiritual pensa e sabe que existe. O material é bruto, tosco e inanimado.

Nos primórdios da civilização humana, o coeficiente espiritual dominava o material. Com a civilização, o espiritual foi diminuindo gradualmente, mesmo antes dos ateísmos filosóficos do século XIX e XX, (Feuerbach, Marx Freud Nietzsche) com o renascimento, mas sobretudo depois destes séculos, chegando a tocar no fundo, no mínimo dos mínimos.

Com o surgimento do sincretismo religioso da Nova Era, parece haver um incremento do coeficiente espiritual, pois as pessoas, mesmo sendo adversas a qualquer forma institucionalizada de religião, declaram-se espirituais. Esta espiritualidade vaga e difusa, não institucionalizada tem muito de comum com a primeira etapa do sentimento religioso, o animismo. Estaremos nós a voltar ao princípio, como no mito do eterno retorno?

Animismo
Achou-o numa terra deserta, e num ermo solitário cheio de uivos; cercou-o, protegeu-o e velou por ele, como à menina dos seus olhos. Deuteronómio 32:10

Quando a raça humana tomou consciência de si mesma também tomou consciência da sua miséria e da desvantagem que tinha em relação aos outros seres vivos, aos quais a Natureza dotou de tudo. Completamente desamparado, à mercê das forças da natureza e dos outros animais, o ser humano encontrou-se como Moisés no deserto, como refere o texto acima.

Nesta situação os nossos antepassados viviam na crença de que tudo estava animado; tanto os objetos materiais, animais, plantas rios rochas, etc., como os fenómenos naturais, o trovão o raio, o vento, a chuva, etc. e até mesmo o próprio universo possuía uma alma, ou seja, qualidades, significados ou poderes espirituais ou sobrenaturais.

Um pouco como a magia, o animismo baseia-se na crença de que o mundo, tanto na sua totalidade como nas suas partes, tem uma alma ou espírito; até mesmo o ar que respiramos, está povoado por espíritos que são forças impessoais e que podem ser invocados ou convocados e manipulados por xamãs, médiuns, magos, feiticeiros, bruxas, usando fórmulas, rituais e palavras mágicas.

O animismo acredita na existência de um Deus supremo, mas ao qual não se pode aceder diretamente, mas sim por intermédio destes espíritos; como estes podem ser contrários aos desígnios dos humanos, devem ser permanentemente apaziguados. O animista vive continuamente no medo de desgostar algum espírito, pelo que usa amuletos ou talismãs para se proteger.

Ao contrário das religiões organizadas e institucionalizadas, o animismo sobrevive na mente do povo por meio da tradição oral, sem qualquer ajuda institucional. Em relação às religiões organizadas é, portanto, uma religião desorganizada, ainda hoje praticada por tribos indígenas onde estas ainda existem: na América tanto do Norte como do Sul, na Ásia, em África, na Austrália e nas ilhas do Pacífico.

Para além destas, no mundo moderno, todas as formas de superstição e adivinhação como a astrologia, a cartomância, a bruxaria, a feitiçaria, são resquícios de animismo que têm uma enorme aceitação popular. Objetos que dão sorte e outros que dão azar, rituais para conjurar a sorte e rituais para evitar o azar, continuam a fazer parte do nosso dia a dia. Entrar com o pé direito, a crença no poder dos cornitos, das ferraduras, das figas…

A religião New Age que pretende ser a síntese de todas as religiões, tem muito de neopaganismo ou animismo. Se quisermos, até a espiritualidade franciscana pode ser vista sob esta perspetiva, ao chamar irmão ao lobo e ao sol, e irmã a água e à lua. São Francisco estava a devolver a estas realidades a alma que antes possuíam.

O monoteísmo, mais que o politeísmo, lutou contra toda a forma de animismo. A Igreja Católica, como tristemente sabemos, chegou ao ponto de criar um organismo como a Inquisição para purificar a crença de toda e qualquer manifestação animista.

Depois do banho de materialismo que tem vindo a aumentar desde o Renascentismo, hoje a maioria das pessoas dá-se conta de que um objeto material não pode ter poder espiritual. Só um ser espiritual tem poder espiritual. Porém ainda há quem seja supersticioso, recordando-nos sempre do animismo dos nossos antepassados.

Se compararmos a evolução da noção de Deus com o amadurecimento do homem, o animismo corresponde à infância - as crianças têm de facto a tendência para ver tudo o que as rodeia com alma, falam com os seus bonecos e brinquedos, vivem num mundo animado de fadas, bruxas e papões e acreditam no Pai Natal e na magia; Walt Disney, nos seus filmes para crianças, soube explorar este lado da fantasia infantil.

Politeísmo
Eis o que diz o Senhor, rei de Israel, o seu redentor, o Senhor do uni­verso: «Eu sou o primeiro e o último. Não há outro Deus além de mim. Isaías 44, 6

Como dissemos, à medida que o ser humano vai conhecendo e dominando o ambiente que o rodeia, este vai-se materializando. Todas as realidades que o ser humano conhece, controla e domina perdem a sua alma, o seu poder, de alguma forma; este passa para o espírito inventivo do ser humano. Desta forma, vai aumentando a esfera do material e diminuindo a esfera do espiritual. O que o ser humano domina deixa de ter poder sobre ele, deixa de ter poder espiritual para ser um bem material controlável. Com o conhecimento das coisas, o ser humano rouba-lhes a alma e, à medida que o mundo se vai materializando, o ser humano vai-se espiritualizando.

Há realidades que o ser humano não domina com o conhecimento. Estas, porém, são cada vez menos e aquelas ante as quais o ser humano se vê completamente impotente e desamparado, à mercê delas, dá-lhe o nome de deuses. Desta forma, ao animismo sucede o politeísmo, a crença de que as principais realidades, poderes e forças da natureza são dominadas por um deus. Com efeito existe um deus para cada realidade, sendo o senhor dessa mesma realidade.

Os deuses proliferaram de tal modo que, quanto mais importantes eram para a sobrevivência do homem, maior importância, de número de fiéis tinham. Os deuses da fertilidade por exemplo, da guerra, do amor, etc., viram formar-se à volta do seu culto as grandes religiões. O hinduísmo é a primeira grande religião e continua a ser ainda praticada por mais de um bilião de pessoas de pessoas. Os principais deuses das mitologias grega e romana são os seguintes:

Zeus/Júpiter - O filho mais novo de Cronos e Réia (ver Início titânico) é o líder dos deuses que vivem no monte Olimpo. Ele impõe a justiça e a ordem, lançando relâmpagos construídos pelos cíclopes. Zeus teve diversas esposas e casos amorosos com deusas, ninfas e humanas.

Hera/Juno - Terceira mulher de Zeus e rainha do Olimpo, Hera é a deusa do matrimónio e do parto. É vingativa com as amantes do marido e com os filhos de Zeus que elas geram. Para os gregos, Hera e Zeus simbolizam a união homem-mulher.

Hades/Plutão - Mesmo sendo irmão de Zeus e Poseidon, não vive no monte Olimpo. Hades, como deus dos mortos, domina seu próprio território: o mundo dos mortos. Apesar da sua função, não é como o diabo, um deus associado ao mal.

Poseidon/Neptuno - O irmão mais velho de Zeus, é o deus do mar; com um movimento do seu tridente, causa tempestades e terramotos.

Atena/Minerva - É a deusa da sabedoria e filha de Zeus com a primeira mulher, Métis. O seu símbolo é a mais sábia das aves, a coruja. Habilidosa e especialista nas artes e na guerra, Atena carrega uma lança e um escudo chamado Égide.

Hermes/Mercúrio - Filho de Zeus com a deusa Maia, o mensageiro dos deuses é o protetor de viajantes e mercadores. Representado como um homem de sandálias com asas, Hermes tinha um lado obscuro: às vezes trazia mentiras e falsas histórias. Já naquele tempo existiam as “fake news” de Trump…

Apolo/Apolo - O deus da luz (representada pelo Sol), das artes, da medicina e da música, é filho de Zeus com uma titã, Leto. Na juventude, era vingativo, mas depois tornou-se um deus mais calmo, usando o seu talento para curar, para a música e previsões do futuro.

Artemis/Diana - Irmã gêmea de Apolo, é a deusa da caça, representada por uma mulher com um arco – contraditoriamente, também é a protetora dos animais… Artemis é uma deusa casta (virgem), que fica furiosa quando se sente ameaçada.

Hefesto/Vulcano - Filho de Zeus e Hera, Hefesto nasceu tão fraco e feio que foi atirado ao mar pela mãe. Resgatado por ninfas, transformou-se num famoso artesão. Impressionados com o seu talento, os deuses levaram Hefesto para o Olimpo e nomearam-no deus do fogo e da forja.

Afrodite/Vênus - O nome da deusa do amor significa “nascida da espuma”, porque diziam que ela havia surgido do mar. Afrodite é a mais bela das deusas. Apesar de ser esposa de Hefesto, teve vários casos amorosos – com deuses como Ares e Hermes e também com mortais.

Ares/Marte - O terrível deus da guerra é outro filho de Zeus e Hera. No campo de batalha pode matar um mortal apenas com o seu grito de guerra! Pai de vários heróis – humanos que são protegidos ou filhos de deuses - Ares foi também um dos amantes de Afrodite.

A forma como um determinado Senhor governa e tutela a realidade que lhe foi confiada, explica-se pelo mito. O mito é um conto ou lenda sagrada que é transmitido por tradição oral de geração em geração; quando se perde a sua autoria humana, passa a ser atribuído a Deus. O conto em si busca explicar a verdade de cada coisa e o seu funcionamento numa mentalidade pré-científica. Os mitos serviam para o ser humano conhecer o seu meio ambiente e ter uma explicação plausível de como as coisas são e se processam. Não são históricos esses contos, mas são verdadeiros, no sentido em que transmitem a inteligibilidade do homem primitivo acerca de cada realidade.

Tomemos como o exemplo o mito do deus do Tempo chamado Cronos, termo de ondem derivam as palavras cronómetro, cronologia e crónica. Cronos, como muito bem pinta Goya num dos seus quadros, era um deus que dava à luz filhos e, depois de os dar à luz, comia-os. É verdadeiramente fantasmagórico, mas, explica bem o que é o tempo - cada dia em que nos levantamos e vemos a luz do sol estamos a dar à luz um dia mais e, ao anoitecer, antes de voltar a dormir, consumimos esse mesmo dia. Cada dia da nossa vida é um dia a mais pela manhã e um dia menos ao anoitecer.

O mundo greco-romano apresenta o mundo celestial em paralelo com o mundo terrestre - o que acontece no Céu também acontece na Terra e vice-versa. Os vícios dos deuses são iguais aos vícios dos humanos, pelo que não há progresso, pois os deuses não são modelos que a humanidade possa seguir. Como diria Feuerbach, não foi Deus que criou o Homem à sua imagem e semelhança, mas ao contrário, foi o Homem que criou Deus à sua imagem e semelhança.

Monoteísmo
Escuta, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor, amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder. E estas palavras que hoje te ordeno estarão no teu coração; e as intimarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te, e levantando-te. Também as atarás por sinal na tua mão, e te serão por testeiras entre os teus olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas. Deuteronómio 6, 4-9

Senhor, tu és o nosso Pai. Nós somos o barro; tu és o oleiro. Todos nós somos obra das tuas mãos. Isaías 64:8

A pré-história do monoteísmo acontece quando o ser humano agrupa todos estes deuses e lhes dá um líder - Zeus na mitologia Grega e Júpiter na mitologia romana. Daqui ao monoteísmo é um passo. O primeiro ser humano a proclamar que só há um deus foi o faraó do Egito chamado Akhenaten, também conhecido por Amenhotep IV, que reinou no Egito no século XIV antes de Cristo, muito antes da cultura grega e romana.

Quando Amenhotep IV subiu ao trono, muitos eram os deuses adorados no Egito, sendo Amun o rei dos deuses. Inicialmente, permitiu o culto dos deuses tradicionais do Egito, mas logo tomou medidas para estabelecer o deus sol, Aton, como o deus Supremo do Egito. No ano nove do seu reinado, Akhenaton declarou que Aton não era meramente o deus Supremo, mas o único deus. Este foi um passo radical e a primeira instância do monoteísmo em toda a história.

À sua morte, o povo do Egito mergulhou outra vez no politeísmo. Mas a raiz, a ideia ou intuição estava lançada. Akhenaton deu-se conta de que um país onde os seus cidadãos veneram vários deuses é um país dividido social e moralmente e, por isso, mais difícil de governar. O monoteísmo tinha, portanto, para o faraó, o objetivo de unir o país e os seus habitantes.

A ideia não progrediu entre os egípcios daquele tempo, mas foi acolhida anos mais tarde por um povo, na altura escravo, na terra do Egito - o povo judeu. Acima dissemos que no politeísmo os deuses eram semelhantes aos homens, tinham as mesmas virtudes, e os mesmos, defeitos, as divisões e conflitos que se veem entre eles, também se veem entre os humanos, pelo que não há neles nenhuma normatividade ou modelo a seguir pelos humanos.

A descoberta do povo hebreu, neste sentido, é a de um Deus pessoal que concentra em si tudo o que são aspirações humanas, o bom e o perfeito. Como os judeus eram nómadas e os nómadas não podem ter deuses locais, já que se deslocam de um lado para o outro e seria muito - incómodo - carregar os seus ídolos, pensaram então numa realidade concreta que estivesse em todos os lugares - olharam para cima e encontraram-na no Céu.

Os povos sedentários têm tendência a ser politeístas, os povos nómadas, ao contrário, são monoteístas. Os Turkana, um povo nómada do norte do Quénia, têm a mesma palavra para designar Céu e Deus. Os mongóis, os turcos e os tártaros, adoravam um deus comum chamado Tengri, o deus do céu azul.

Daqui a intuir que Deus é um ser espiritual, foi um passo muito curto dado pelos Judeus: para eles, Deus era espiritual e estava em toda a parte, dentro da nossa mente e sobretudo no nosso coração, em todo tempo e em todo lugar. É um ser pessoal pois é um Deus de pessoas, de Abraão, Isac e Jacob. Intuíram também que é um Deus criador de tudo e de todos.


Quando Egerton Young primeiro pregou o Evangelho aos peles vermelhas de Saskatchewan a ideia da paternidade de Deus fascinou de imediato estas gentes que até então tinham visto Deus apenas no trovão, no relâmpago e no estrondo de tempestade.

Ao ouvir o missionário invocar a Deus como pai, um velho chefe exclamou: "Ao falares do Grande Espírito como acabas de fazer, será que te ouvi dizer, 'Pai Nosso'?" "Sim," disse Egerton Young. "Isso é muito novo e doce para mim," continuou o chefe. "Nós, índios, nunca vimos o Grande Espírito como Pai. Ouvíamo-lo no trovão ou víamo-lo no raio, na tempestade e nos nevões, e ficávamos aterrorizados com medo.

A noção de que o Grande Espírito é nosso Pai, é nova, mas sublime para nós. O velho chefe pausou, parecendo meditar… foi então, que de repente, num vislumbre da glória, a sua face se iluminou como num relâmpago e clamou. " Oh Missionário, disseste que o Grande Espírito é teu Pai?" "Sim", disse Egerton. "E," continuou o chefe, " também afirmas que Ele é Pai dos índios?" "Evidentemente", disse o missionário. "Então", exclamou o ancião, como se tivesse feito a maior descoberta, "tu e eu somos irmãos!"
Barclay commentary of the New Testament

O progresso do monoteísmo em relação ao politeísmo é a união entre os humanos sob um mesmo Deus ao qual podem chamar Pai. A revolução francesa, por muito laica que pareça, não seria possível num país de cosmovisão politeísta como é por exemplo a Índia, onde a existência de vários deuses justifica a existência de castas e os homens não são iguais. A igualdade e a dignidade humanas não coexistem com o politeísmo, são conquista do monoteísmo.
Pe. Jorge Amaro, IMC

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