1 de agosto de 2020

3 Vertentes do drama: Perseguidor - Vítima - Salvador

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Sigmund Freud e muitos depois dele têm alertado para o poder do inconsciente na nossa vida do dia a dia. Mas ainda mais grave do que isto é o darmo-nos conta de que alguns dos nossos comportamentos, para além de serem inconscientes, são tão previsíveis que até obedecem cegamente a paradigmas, como se fossemos uma marioneta. Um desses paradigmas é o chamado triângulo de Karpman.

O triângulo de Karpman ou o triângulo das Bermudas
Sendo o nosso objetivo explorar e estudar a tridimensionalidade da realidade não podia escapar-nos esta teoria psicológica que trata dos três papéis que as pessoas desempenham no decurso das suas interações de forma paradigmática, previsível, acrítica e inconsciente.

Neste triângulo, cada ator pode representar o papel que mais se adequa à sua personalidade; mas as regras do jogo e a situação criada podem obrigá-lo a mudar de papel. Em geral, quem entra neste jogo desempenha todos os papéis e vai mudando de um para o outro, como um macaco saltando de ramo em ramo.

A peculiaridade deste paradigma comportamental é que as pessoas que entram nesta dança ou neste jogo, qualquer que seja o papel que nele desempenhem (saindo dele ou permanecendo e continuando a jogar), acabam por se magoar e por magoar os outros. Esta é a razão pela qual, pessoalmente, chamo ao triângulo de Karpman o triângulo das Bermudas.

O triângulo das Bermudas é um triângulo imaginário entre as ilhas das Bermudas, a Flórida e Porto Rico onde um número considerável de aviões e barcos desapareceram misteriosamente. A lenda ou a crença popular atribui a este espaço uma atividade paranormal que causou estes desaparecimentos. Esta área é uma das mais cruzadas por barcos comerciais, cruzeiros e aviões aos quais nada parece acontecer. Ou seja, no triângulo real das Bermudas ninguém se perde, mas no triângulo de Karpman sim, as pessoas que nele entram perdem-se; daí a minha menção à crença inicial.

Antes de explicar como funciona a dialética deste triângulo e de propor um triângulo alternativo, com papéis alternativos, para que as pessoas que se perderam no jogo voltem a encontrar-se a si mesmas e entre si, necessitamos de explicar o contexto geral e particular em que esta teoria surge. O contexto genérico é a teoria da Análise Transacional criada pelo psicanalista canadiano Eric Berne (1910-1970).

O contexto mais particular em que Stephen Karpman, aluno de Eric Berne, fundamenta o seu triângulo dramático é constituído pelos jogos psicológicos que as pessoas inadvertidamente jogam entre si. Foi Berne quem estudou este assunto, tendo escrito sobre ele um dos seus livros mais populares: “Os Jogos da Vida”. Ele mesmo, em vez de chamar a si a teoria do seu aluno, como fazem tantos professores, até por ter sido deduzida da sua teoria dos jogos, exortou Karpman a que a publicasse, o que este fez num artigo da sua autoria publicado no ano de 1968.

Psicanálise
Segundo Sigmund Freud (1856-1939), a nossa mente divide-se em três diferentes compartimentos que comunicam entre si. Podemos entendê-los também como três entes que interagem no interior da nossa mente com diferentes funções. Estes três entes não têm a mesma idade: o primeiro vem já incorporado no bebé, os outros dois estão presentes em potencial.

ID - É o mais velho e é constituído por um conjunto de tendências, impulsos e instintos primordiais através dos quais o bebé procura satisfazer as suas necessidades. O ID é mais ou menos o que temos em comum com muitos seres vivos, especialmente com os que nos são mais próximos na evolução das espécies.

EGO – Pela interação da criança com o mundo, em especial com os que tomam conta dela nos três primeiros anos, a criança aprende que não vive sozinha no mundo e que os outros com quem vive e interage também têm como ela necessidades e desejos a satisfazer. Deste modo, dá-se conta de que, tanto a curto como a longo prazo, não lhe convém ser egoísta e querer tudo para ela. Nasce assim o EGO que procura satisfazer as necessidades do ID, tendo em conta e consideração a realidade, sobretudo as necessidades do ID dos outros. O EGO é a parte organizada, operativa, realista e racional da nossa mente.

SUPEREGO – É a parte moral ou ética que se desenvolve devido à disciplina, às limitações, às restrições morais e éticas colocadas pelos nossos cuidadores. Se o EGO é o governo da nossa mente, o SUPEREGO é a lei, constituição ou ideologia que o governo segue; representa o papel de embaixador da cultura ou da sociedade no nosso psiquismo e é constituído pelas regras, normas, leis e valores morais que temos de respeitar e observar. O superego é a nossa consciência moral que a todo o momento nos diz o que é bom e devemos fazer e o que é mau e devemos evitar.

Análise Transacional
Eric Berne (1910-1970) seguidor de Freud, criou a sua teoria da Análise Transacional rebatizando as três valências da nossa personalidade segundo Freud. Às três valências chamou estados do ego e, rebatizou cada uma delas: ao ID deu o nome de Criança, ao EGO o nome de Adulto, e ao Superego o nome de Pai.

Estados do Ego - Para Berne, este é um padrão psíquico determinado de sentimento e experiência, diretamente relacionado com um dado comportamento. Vejamos na prática com se processam os estados do Ego:

Pai - Uma mãe que procura uma escola para o seu filho depara-se com uma onde a criatividade das crianças é estimulada; porém, ao ver que está um pouco suja e desorganizada, conclui que não é o lugar indicado para o seu filho.

Adulto - Momentos depois, pensa melhor e decide dar uma vista de olhos ao ranking da escola e falar com alguns pais.

Criança - Por fim, sorrindo para si mesma, exclama “Como gostaria que a minha escola tivesse sido como esta!”

Segundo Berne, num curto espaço de tempo, esta mulher experimentou os três diferentes estados do Ego:
  • A Criança – comportamentos, pensamentos e sentimentos reproduzidos da infância. No estado Criança do Ego, albergam-se os sentimentos, as emoções e os instintos. A criança representa o sentimento na vida.
  • O Adulto – Comportamento, pensamentos que são respostas diretas ao aqui e agora. O adulto representa na nossa vida o pensamento, a razão. O raciocínio, a análise de dados e informações sobre um determinado problema ou assunto e a solução ou resolução do mesmo. Atua como se fosse um computador, tendo em conta os sentimentos da criança e as exigências culturais ou éticas do Pai, sem se deixar dominar pela Criança ou pelo Pai. 
  • O Pai – Comportamentos, pensamentos copiados dos nossos pais ou cuidadores. O Pai representa na nossa vida tudo aquilo que aprendemos.
Mais tarde ainda, entende que o Pai e a Criança devem dividir-se em dois por uma questão de clareza:

PAI PUNITIVO – Exerce o poder sobre os outros, controla, disciplina, persegue e pune. Representa a lei, a ética, a ordem. Está cheio de ideias, muitas das quais são preconceitos. Na família tradicional, representa o nosso Pai.

PAI PROTETOR – Amoroso, afetivo, consolador, que conforta, apoia, ampara, protege, salva. Na família tradicional, representa a nossa mãe.

CRIANÇA NATURAL – É o que permanece do ID e resistiu à educação dos cuidadores. É representada pela atitude irada, amorosa, impulsiva, espontânea ou brincalhona de uma pessoa. A criança natural é intuitiva, está cheia de energia.

CRIANÇA ADAPTADA – É a criança natural domesticada pela educação, menos egoísta que a natural. No entanto, quando as regras não foram assumidas mas apenas impostas, fica reprimida, hipócrita e às vezes rebelde. É dominada às vezes pelo medo e pela vergonha.

Transações
Berne chama análise estrutural ao diálogo interior entre os diferentes estados do ego e análise transacional ao diálogo que temos com as outras pessoas e à interação entre os nossos estados do Ego e os estados do Ego delas. Existem três tipos de transações: as complementares, as cruzadas e as ulteriores.

Transações complementares - Quando a resposta vem do estado do ego ao qual a nossa pergunta foi dirigida. Por exemplo, quando digo a alguém “amo-te” a partir da minha Criança Natural e esta pessoa responde “eu também te amo”, a partir da sua Criança Natural.

Transações cruzadas – Quando a resposta vem de um estado do Ego diferente daquele ao qual nós dirigimos a pergunta. Por exemplo, chegamos ao trabalho e dizemos a partir do nosso Adulto “bom dia” ao patrão e este responde a partir do seu Pai Punitivo dizendo “estás atrasado”. Ou, utilizando o exemplo anterior, quando dizemos a alguém “eu gosto de ti” e essa pessoa nos responde “eu sei…”

Transações ulteriores – Ocorrem quando uma pessoa diz uma coisa e quer dizer outra. Ou seja, o que diz não é verdadeiramente o que quer dizer. Usa subterfúgios, ou seja, a verdadeira mensagem não está nas linhas, mas nas entrelinhas. A nível aberto, expressa-se a partir do Adulto, mas a verdadeira mensagem está dissimulada e deve deduzir-se a partir do tom de voz que usa, das palavras que escolheu e da linguagem corporal.

Por exemplo, quando já todos no escritório se foram embora, o patrão pede à secretaria para que fique mais tempo; mas o que ele verdadeiramente está a insinuar é que quer ficar a sós com ela. Ela responde que não tem pressa, mas no fundo está a dizer que também quer ficar a sós com ele. É importante saber o que são transações ulteriores porque todos os jogos que jogamos entram dentro desta categoria de transações.

Os jogos psicológicos que as pessoas jogam
“Os Jogos da Vida” foi o livro mais vendido de Eric Berne. O livro é praticamente um catálogo dos muitos jogos que as pessoas jogam, com uma descrição de como o jogo é jogado e do que cada jogador obtém ou pensa obter ao jogá-lo.

“Não faças joguinhos comigo” é uma expressão muito usada. Por isso, quase todos sabemos o que é um jogo psicológico. A ideia já existia antes de Berne, porém a sua análise transacional entre todas as teorias psicológicas é a melhor para explicar o que é um jogo psicológico. Situando os jogos dentro do contexto desta teoria, é importante notar que os protagonistas dos jogos são sempre o Pai e a Criança, sem o conhecimento ou consentimento do Adulto.

 Por isso os jogos nunca são benéficos para nenhum dos seus participantes, mesmo quando aparentemente um deles parece ganhar, como é o caso do sádico e do masoquista que se procuram e entram numa dinâmica relacional onde cada um parece encontrar o que procura. Mas esta é uma relação doentia que só reforça a doença e não a resolve. Os jogos não são uma atividade onde todos ganham, mas sim uma onde todos perdem.

Jogos são transações ulteriores, táticas psicológicas usadas para manipular, controlar ou intimidar os outros. Para Berne, um jogo psicológico é um conjunto de transações ulteriores que acontecem paralelamente a dois níveis: um nível aberto, social, de adulto para adulto e um nível subliminar, encoberto ou disfarçado, com um resultado dramático quando os dois níveis coincidem, ou seja, quando os motivos ulteriores se tornam claros. Vejamos o exemplo:

Por que é que não ... sim, mas…” - É um jogo entre duas ou mais pessoas; uma apresenta um problema e a outra uma solução em forma de “Porque é que não …?” ao que o apresentador do problema responde: “sim, mas…”. O prémio ou a recompensa do jogo é o silêncio ou oposição mascarada quando o apresentador de soluções esgotar o seu banco de dados. Quando isto acontece, o jogador “sim, mas…” sente-se satisfeito por conseguir provar que afinal o inadequado é o outro.

A – O meu marido insiste em fazer ele todas as reparações em casa, mas não faz nada bem.
B – Porque é que ele não faz um curso de bricolage?
A – Sim, era uma boa ideia, mas ele não tem tempo.
B – Porque é que não lhe dás de presente uma boa caixa de ferramentas?
A – Sim, mas não vai saber usá-las.
B - Porque é que não contratas um profissional para a próxima reparação que surja?
A – Sim, mas vai sair muito caro.
B – Então porque é que simplesmente não aceitas a forma como o teu marido faz?
A - Sim, mas o caso é que às vezes o prejuízo é ainda maior e fica tudo mal feito.

A um nível social parece ser um diálogo entre adulto e adulto, mas, subliminarmente ou psicologicamente, A atua a partir do seu estado Criança insegura e B a partir do seu estado Pai sábio. Afinal, A pode até precisar de conselhos, mas como os rejeita todos, o que verdadeiramente quer é atenção ou afeto. Estes estão a ser-lhe dados, mas de uma forma indireta pelo que o jogo vai terminar em frustração para os dois, porque esta não é uma forma adulta de pedir atenção ou afeto.

Porque jogamos?
O benefício final biológico dos jogos é obter atenção ou afeto. Mesmo que os jogos terminem sempre mal, todos os jogadores conseguem uma quantidade razoável de afeto ou atenção positiva ou negativa.

O benefício final social de um jogo é a estruturação do tempo. Assim, as pessoas preenchem o tempo, com uma atividade empolgante que, de outra forma, poderia ser enfadonha e depressiva. Os jogos são um passatempo, as pessoas divertem-se a jogá-los, mesmo quando acabam magoadas.

O benefício final existencial de um jogo é a maneira como este confirma a posição existencial de cada jogador. Existem quatro posições:
  • Eu sou fixe, tu não és, (Posições existenciais de Salvador e Perseguidor)
  • Tu és fixe, eu não sou, (Posição existencial de Vítima)
  • Eu não sou fixe, tu não és… fixe (Posição existencial de Vítima sem esperança)
  • Eu sou fixe, tu és fixe (Posição existencial de Adulto) 
Outros motivos são:
  • não assumir responsabilidade pelos nossos sentimentos, pensamentos, comportamentos ou eventos
  • escapar à aceitação da realidade tal como é, racionalizando-a ou negando-a
  • fugir à intimidade, mas ao mesmo tempo manter sub-repticiamente relacionamentos íntimos intensos. Os jogadores não manifestam empatia uns pelos outros pois estão completa e inconscientemente absorvidos pelo papel que representam no jogo
  • fugir aos conflitos e tensões internas, projetando-os fora de nós, arrastando alguém para assumir um papel no nosso jogo. Mas os padrões do jogo e as suas regras impossibilitam a resolução de qualquer problema. A solução nunca está no jogo, pois é o adulto quem procura soluções dignas e este não participa em jogos
  • fazer com que o comportamento do outro seja previsível para dominá-lo.
A diferença entre os jogos e o drama é que nos jogos as pessoas não mudam de papel, há um guião e cada um segue-o conforme o papel que desempenha nele e o que procura obter nesse jogo. No drama triangular, os papéis são sempre os mesmos três - perseguidor, vítima e salvador - e os jogadores, intervenientes ou protagonistas no drama vão mudando de papel.

O drama triangular
As dinâmicas que se estabelecem à volta de uma pessoa encurralada por um vício que a faz depender de uma substância ou de um comportamento repetitivo obsessivo, ilustram bem o que é a dinâmica particular do triângulo do drama de Karpman.

A pessoa dependente, ao representar o papel de vítima da adição, da humilhação, do preconceito, da negligência médica e, até mesmo, da brutalidade policial procura e encontra um Salvador. O Salvador representa este papel ao tentar generosa e altruisticamente ajudar o viciado, sem se certificar de que ele está comprometido com o processo de abandonar a sua adição.

Frustrado por se dar conta de que a vítima nada faz para sair da sua adição, o Salvador passa a Perseguidor, acusando, insultando, negligenciando ou punindo o viciado. Este, vendo-se assim acossado, contra-ataca e passa também ele a Perseguidor. Neste caso, o jogo acaba em violência, pois no triângulo não pode haver duas pessoas desempenhando o mesmo papel. Se o jogo for jogado entre marido e mulher, é provável que o primeiro Perseguidor ceda e, perante a perseguição do segundo, passe a Vítima. Isto pode levar o Perseguidor que iniciou o jogo a transformar-se em Salvador, se considerarmos que a Vítima representa o viciado. Exemplo:

Adolfo (Vítima) – Quero deixar de fumar, mas não sou capaz
Eva (Salvador) – Eu ajudo-te, usa estes comprimidos, vou retirar os cinzeiros da casa…

Acontece que a Vítima não está verdadeiramente interessada em deixar de fumar, só quer agradar à sua esposa e cedeu perante esta, embora fume às escondidas. Eva descobre e de Salvador passa a Perseguidor.

Eva (Perseguidor) - “Trafulha, covarde, pediste-me ajuda e eu ajudei-te, mas tu enganaste-me, és um fraco, nunca deixarás de fumar.”
Adolfo (Perseguidor) – “Eu nunca quis deixar de fumar, foste tu que me obrigaste com a tua insistência, vai para o inferno.”
Eva (Vítima – Salvador) – Chora e sente-se culpada. Depois de um tempo volta à carga como Salvador dizendo, “Desculpa amor. Podemos começar outra vez? Aqui tens outros comprimidos que são mais eficazes que os primeiros.”
Adolfo (Vítima inicial) – Está bem, se assim o queres…

O círculo vicioso começa de novo e o problema nunca se resolve. Adolfo não quer deixar de fumar e Eva não o aceita como fumador.

PERSEGUIDOR
Normal – Um polícia que persegue um delinquente, um pai que castiga o seu filho que bateu no irmão mais novo, são formas de perseguição normais e correntes.
Psicológico – um marido que humilha a sua esposa quando esta decide que quer ter um emprego; um professor autoritário e sempre severo.

O Perseguidor identifica-se claramente com o Pai punitivo da Análise Transacional; autoritário, ditador, manipula pelo medo; prefere ser temido a ser amado; dita as regras e faz com que se cumpram, sem ter em consideração a vontade do outro; atormenta os débeis, explora as suas vulnerabilidades, só vê defeitos nos outros e exagera-os.

A função benéfica do pai é proteger e prover à sua família. O papel do Perseguidor é a perversão desta função, tentando “reformar” através da força. É sabido que todo o abusado se transforma em abusador, toda a vítima se transforma em perseguidor: com o objetivo de se vingar ou distanciar do mal que lhe fizeram, ele aplica agora esse mesmo mal aos outros que dele dependem.

É claro que em situações normais o Perseguidor devia dar-se conta do sofrimento que infringe. No entanto, este livra-se do sentimento de culpa dizendo a si mesmo que o que faz é pelo bem dos outros. Não lhe passa pela cabeça que os fins não justificam os meios. As técnicas usadas incluem pregar, culpar, interrogar, intimidar, atacar.

Tal como o Salvador ao desejar “consertar” alguém, o Perseguidor precisa de alguém para culpar! Os Perseguidores renegam as suas fraquezas e defeitos, da mesma forma que os Salvadores renegam as suas necessidades. O maior medo de ambos é a impotência. Negando o seu próprio estado de fraqueza, ambos têm uma necessidade constante de alguém sobre quem possam projetar as suas próprias inadequações. Tanto os Salvadores como os Perseguidores precisam, assim, de uma Vítima para sustentar o seu lugar no triângulo.

Os Perseguidores tendem a compensar os seus sentimentos de pouca valia, dando-se ares de grandiosidade. A grandiosidade é inevitavelmente gerada pela culpa. Ela compensa e disfarça um grande sentimento de inferioridade. Superioridade é como passar diretamente de um “menos que” para um “mais que”.

Todo o complexo de superioridade tem subjacente um sentimento incómodo de inferioridade; a grandiosidade é só uma forma de esconder este sentimento. A pessoa começa por escondê-lo dos outros e acaba por escondê-lo de si mesma, de tal maneira que chega a acreditar na sua superioridade.

Jogos de Perseguidor
Apanhei-te filho da p.” - Utilizados para justificar a raiva que se acumulou ao longo de um período de tempo prolongado. O agressor (geralmente inconsciente) identifica a vítima, prepara uma armadilha e usa-a como forma de se vingar ou de ganhar poder sobre o seu oponente.

Peritos em encontrar defeitos – A pessoa procura encontrar defeitos ou fraquezas nos outros ou em si mesma. Aproveita-se dos defeitos dos outros para ganhar e exercer poder sobre eles; quando é um auto jogo, serve para reforçar negativamente as suas incapacidades.

VÍTIMA
Real - Alguém que ao atravessar a rua é atropelado por um condutor embriagado que não respeitou o semáforo vermelho; alguém que é perseguido por motivos religiosos, raciais ou de preferência sexual.
Psicológica - Uma esposa queixa-se do seu marido a toda a gente, mas nunca toma uma decisão sobre o problema. Queixa-se por vício.

O estado de vítima, do ponto de vista psicológico, é tão doentio como os outros dois. É a pessoa que nunca cresce, um eterno Peter Pan que usufrui e explora o estado de dependência dos outros. Exterioriza os seus conflitos interiores, atraindo outras pessoas para os seus problemas e fazendo-as assumir dois papéis: o de perseguidoras e salvadoras. Necessita que alguém a persiga, a faça sentir-se culpada, manipula com a culpa, faz com que os outros a critiquem, humilhem, firam. Envia continuamente mensagens subliminares que dizem “estou indefeso, coitado de mim”.

Tanto o ser como o atuar do perseguidor e do salvador criam vítimas à sua volta. Porém, a vítima psicológica teve uma infância superprotegida por um pai protetor, um salvador paternalista. É este o responsável pela atual imaturidade, inadaptação e impotência da vítima: no tempo certo, em vez de deixar a criança resolver os seus problemas, o salvador resolveu-os por ela.

Formadas e educadas com base na ideia de que são intrinsecamente incapazes, as vítimas adotam a atitude de “Eu não consigo”. Este é o seu maior medo, forçando-as a procurarem sempre alguém que seja “mais capaz” para cuidar delas. As vítimas negam tanto a sua capacidade de resolver problemas quanto o seu potencial para gerar poder. Têm tendência para se verem como demasiado frágeis para encarar a vida. Sentindo-se impotentes, expostas, maltratadas, intrinsecamente más e erradas, vêem-se a si mesmas como um “problema insolúvel”.

Isso não as impede, contudo, de terem um grande ressentimento da sua dependência. As vítimas acabam por sentir-se saturadas de estar em posição inferior e tentam encontrar modos de revidarem ou “virarem o jogo”. A passagem para a posição de perseguidor implica geralmente sabotar os esforços para que sejam salvas.

As vítimas são jogadoras exímias do jogo “Sim, mas…” acima descrito. Sempre que um conselho, uma sugestão ou solução lhe é oferecida, a vítima responde “Sim, mas isso não vai funcionar porque...”. Algumas vezes assumem o papel de perseguidor como forma de culpar e manipular os outros para que tomem conta delas.

Jogos de Vítima
Se não fosses tu…” - Frequentemente jogado entre cônjuges e sócios comerciais como um meio de evitar a responsabilidade por decisões individuais.

Eterno devedor - Muitas vezes, torna-se um guião, um plano para toda a vida. É usado como meio para atingir um objetivo na vida; uma vez atingido esse objetivo, o jogador sente-se deprimido e sem rumo (objetivo) e começa de novo o jogo em busca do sentido da vida.

Olha o que me obrigaste a fazer” - Jogado por alguém que se sente magoado e enraivecido, que se envolve numa atividade que tende a isolá-lo das pessoas. Quando é interrompido, em caso de acidente ou erro, atira-se ao intruso, culpando-o e fazendo dele bode expiatório do próprio falhanço ou do acidente que ocorreu.

Vamos brigar, tu e ele” - Um jogador incita dois outros a brigar entre si e desfruta da briga na qualidade de espetador e de árbitro. O incitador põe-se do lado do vencedor.

Perna de Pau - Usada como desculpa para um comportamento disfuncional. "Que se pode esperar de uma pessoa com uma perna de pau?" Muitas vezes usada como justificação, ou seja, "eu sou ruiva por isso tenho mau temperamento” ou "eu bebo porque sou irlandês", etc.

Dá-me uma patada” - Jogado por pessoas que sentem necessidade de serem punidas; se não o são, têm um comportamento cada vez mais provocante até ultrapassarem os limites, obrigando algum perseguidor a dar-lhes uma patada; nesta categoria estão os abandonados e abandonadas, os que foram despedidos, os rejeitados. etc.

Atração/repulsa - Jogado por pessoas que têm medo da proximidade / intimidade, mas também têm medo de ficar sozinhas. Tratam de seduzir outra pessoa e quando esta já está seduzida, o jogador recua, deixando a pessoa confusa.

SALVADOR
Real - Um médico que preserva a vida de um doente; a embaixada que dá asilo a um refugiado político.
Psicológico - Uma mãe que faz os trabalhos de casa do seu filho; um terapeuta que dá sistematicamente conselhos e não ajuda o cliente a pensar e a solucionar os seus problemas.

Da mesma forma que, na família tradicional, o Perseguidor é a figura paterna, o Salvador é o princípio da sombra materna. Olha para o outro como um eterno indigente, impotente; necessita que precisem dele, por isso a ajuda que oferece tem como fim manter os outros na sua dependência. Mantém a vítima como vítima para que o jogo não acabe e pode até usar a chantagem e o suborno para os papéis se manterem. Acha que tem solução para todos os problemas dos outros.

É a reação típica de dependência a que chamamos de “sufocante”. É uma versão distorcida do aspeto feminino que deseja nutrir e proteger. Parte do problema do salvamento é que ele vem de uma necessidade inconsciente de se sentir importante ou de se estabelecer como aquele que resgata. Cuidar dos outros é a única forma que um Salvador conhece de se ligar a eles e de sentir que tem valor. Os Salvadores cresceram geralmente em famílias onde eram inferiorizados e humilhados por terem necessidades. Aprenderam então a negar estas necessidades, cuidando dos outros. Isso faz com que seja essencial terem quem dependa deles.

Os Salvadores, no fundo, também são vítimas, ou seja, reconhecem que necessitam de ser cuidados e que, se cuidarem bem dos outros, algum dia alguém cuidará deles. Isto vem ao de cima quando a pessoa que eles tentam ajudar rejeita essa ajuda. Neste caso, sentem-se deprimidos e facilmente assumem eles o papel de vítima e mártir, dizendo, “É isto que eu ganho, depois de tudo o que fiz por ti”, “Não importa o quanto eu faça, nunca é suficiente” ou “Se tu realmente me amasses, apoiavas-me mais”.

O maior medo do Salvador é não haver ninguém que aceite a sua ajuda e cuidado. Não se dão conta da dependência castradora que alimentam quando cuidam daqueles que dependem deles. Através destas táticas, criam mensagens incapacitantes. Todos os envolvidos acabam por se convencer de que a vítima é incapaz, inadequada ou defeituosa, reforçando assim a necessidade de cuidado constante. O trabalho do Salvador passa então a ser cuidar da vítima, “para o próprio bem dela”, claro.

Ter uma vítima para cuidar é essencial para que o Salvador mantenha a ilusão de ser superior e independente. Isto significa que sempre haverá pelo menos uma pessoa no cerne da vida de cada Salvador que é doente, frágil, inapta e que necessita dos seus cuidados.

Jogos de Salvador
Eu só estava a ajudar…” - Um futuro Salvador está a curar a ferida de uma criança de três anos que protesta e trata de fugir; quando a criança desata a chorar, o futuro Salvador levanta as mãos em sinal de desespero e diz “Raios/Porra, eu só estou a tentar ajudar!”

Que seria de ti sem mim?” - Uma adolescente está a guardar o seu irmãozinho e deixa que ele se afaste. Quando ele grita de terror depois de ter subido um muro, caído e esmurrado o nariz, ela corre, toma-o ao colo e conclui “sempre te acontece alguma coisa se eu não te guardo”.

O drama em ação
Mãe (Perseguidor) – Se não limpares o teu quarto, hoje não jantas.
Pai (Salvador) – Deixa o rapaz em paz, deve estar cansado, esteve todo o dia na escola.
Mãe (Vítima) – Também estive o dia todo a trabalhar, tenho que ser eu a fazer tudo em casa?
Filho (Salva a mãe, persegue o pai) – Não te metas, este é um assunto entre mim e a mãe.
Pai (Vítima em relação à Mãe e ao filho) – Eu só estava a tentar ajudar…
Pai (Perseguidor em relação ao filho) – Estás a faltar-me ao respeito, não podes falar assim ao teu Pai.

Outro exemplo:

Filho (Perseguidor) – Sabes que odeio azul e foste comprar-me uma camisa azul.
Mãe (Vítima) – Para ti, nunca faço nada bem.
Pai (Salva a Mãe, persegue o filho) – Como te atreves a tratar assim a tua mãe? Ficas sem jantar!
Filho (Vítima falando em off) – Pedem-me para dizer o que penso, mas quando o faço não gostam.
Mãe (Salvador) – Leva comida às escondidas e diz ao filho “não devíamos ter-nos chateado por causa de uma camisa”.
Mãe (Perseguidor) – João porque é que és tão duro com o nosso filho? Deve estar a odiar-te lá no quarto.
Pai (Vítima) – Raios/Porra! É esta a paga que me dás por me ter posto do teu lado?
Filho (Salvador do pai, perseguidor da mãe) – Oh mãe, acaba lá com isso, não vês que o pai está cansado do trabalho?

Solução do drama triangular
Como vemos, os jogos não resolvem nenhum problema e criam outros, por serem doentios. A solução para os jogos é darmo-nos conta de que os jogamos e fazer entrar o adulto no processo para os parar, obrigando todos a relacionar-se a partir do Adulto e abandonando o Pai protetor ou salvador, o Pai punitivo ou Perseguidor e a Criança ou Vítima. Cada um deve assumir a responsabilidade pelos próprios sentimentos, pensamentos e ações, assim como por tudo o que acidentalmente lhe acontece e entender que isso não foi causado pelos outros nem por má sorte.

Mais concretamente em relação ao drama triangular, para combater cada um dos papéis, vários psicoterapeutas criaram papéis alternativos saudáveis para jogar um jogo consciente de adulto. A figura que ilustra este texto alude a esses papéis no triângulo azul.

Não ao perseguidor, sim ao assertivo – Em vez de perseguir, deve ser assertivo, exortar sem punir, promover o autoconhecimento e o auto crescimento do outro. Desafiar, não impor, provocar e evocar ação no outro. Infundir esperança e energia, fundamentalmente dizer ao outro “tu consegues”.

Não à vítima, sim ao responsável – Aceitar a sua vulnerabilidade, a sua fraqueza, sem defender-se dela, mas dizer como S. Paulo “quando sou débil, sou forte” (2 Coríntios 12, 9-11). Quando a pessoa tem consciência da sua fraqueza, dá-se tam
bém conta das suas capacidades e usa-as, sendo assim criador e protagonista da própria mudança, sem passar a responsabilidade da sua vida para um perseguidor ou salvador. Esforça-se rumo à autossuficiência, procura soluções para os seus problemas e diz a si mesmo “querer é poder, eu quero, eu posso”.

Não ao salvador, sim ao empático – Descer empaticamente ao nível do outro e, a partir daí, ajudar de uma forma não paternalista, sem substituir o outro, mas deixando que seja ele a resolver os próprios problemas; este é o papel do psicoterapeuta não diretivo segundo Carl Rogers. Assiste, apoia, facilita, faz perguntas exploratórias para que a pessoa veja todas as facetas do seu problema e ajuda-a a descobrir o que vai fazer e como o vai fazer.

Cresce e aparece! Ninguém vai tirar as castanhas do fogo por ti, nem Deus vai fazer por ti o que tu podes fazer por ti mesmo. Quando ninguém se assume como vítima, evaporam-se os perseguidores e os salvadores e aparecem os amigos que ajudam no processo da descoberta de soluções por nós mesmos, ajudando-nos a sair da nossa miséria. 

Jogar é aliciar os outros a agir como vítima, perseguidor ou salvador no drama de nossa imaturidade. Porém, se um dos atores decidir tornar-se adulto renunciando ao seu papel, os outros dois eventualmente seguirão o seu exemplo, e todos têm uma oportunidade de crescer.
Pe. Jorge Amaro, IMC










1 de julho de 2020

3 Etapas do arquétipo do progresso: Egito - Deserto - Terra Prometida

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Arquétipo, modelo, padrão, paradigma são sinónimos que definem aquela realidade que nos faz concluir que a história se repete: a perceção do “déjà vu”, o constatar que já vimos antes o que estamos a ver agora é o que torna possível a metáfora, ou seja, uma relação de semelhança entre realidades de diferente natureza.

A validade e universalidade dos arquétipos, paradigmas ou padrões, assim como o seu uso e aplicação em todas as facetas da vida humana, são possíveis, porque a natureza humana é sempre a mesma. Não varia no tempo nem no espaço, ou seja, verifica-se ser a mesma em todas as gerações, desde Adão aos nossos dias e até ao fim dos tempos, e a mesma em todos os locais do planeta, em todas as culturas e civilizações que existiram, existem ou venham a existir.

Não vemos na saída do povo de Israel do Egito, na sua passagem pelo deserto e na entrada na Terra Prometida só uma realidade histórica e teológica mas também as três etapas do arquétipo do progresso em todas as suas vertentes - científica, social, psicológica, espiritual etc. - pelo que a leitura do relato bíblico apela ao nosso inconsciente coletivo no qual, segundo Jung, se encontram  guardados todos os arquétipos, qual património imaterial da humanidade e parte da consciência cultural do Ocidente.

A leitura e análise deste relato bíblico, para além do seu significado histórico e teológico, pode servir-nos de guia e inspiração noutras facetas da vida humana que impliquem mudança, transcrição, conversão, passagem de uma realidade para outra, crescimento, progresso. Michael Walzer’, no seu livro Êxodo e Revolução, diz que o Êxodo é um modelo, uma história que torna possível a narração de outras histórias.

Nascer e morrer à luz do arquétipo
Uma delas pode ser o processo do nosso nascimento lido à luz deste arquétipo: estamos confinados a um espaço muito pequeno no seio da nossa mãe, ligados a ela como um paciente a uma máquina de suporte de vida, sem grande liberdade de movimentos e sem espaço para crescer. A passagem deste tipo de “Egito” para a Terra Prometida da liberdade, o vir à luz, é um processo, uma passagem que pode ser curta ou mais demorada, mas em ambos os casos muito dolorosa e incómoda, tanto para o bebé como para a mãe.

Se a entrada neste mundo pode ser lida à luz do arquétipo Egito – Deserto – Terra Prometida, a saída dele também pode ser lida à luz deste mesmo arquétipo. Lá para o fim da nossa vida, seja pela velhice ou pela doença e pelo sofrimento que esta mesma nos causa, a própria vida transforma-se num Egito insuportável.

Começamos a ter limitações de toda a espécie, não podemos comer isto ou aquilo, não podemos andar, ficamos limitados a uma cama e, por fim, muitos ficam ligados outra vez ao cordão umbilical, ou seja, a uma máquina de suporte vital que faz artificialmente o que alguns dos órgãos já não conseguem fazer naturalmente. A nossa vida transforma-se num Egito do qual queremos libertar-nos.

Porém, para passar para a Terra Prometida verdadeira, a vida eterna, teremos que passar pelo deserto que é o processo da morte ou nascimento para a vida eterna. Um processo que também é doloroso, tanto para aquele que o experimenta como para os que estão ligados a ele por laços de afeto.

Perante a morte que se aproximava, passagem para a outra vida, o meu pai perguntou á minha agonizante, “Queres que te traga o medicamento?” - “Não, quero morrer.” E estas foram as suas últimas palavras. Confrontada com o rigor do deserto, mas esperançada na Terra Prometida da vida eterna, a minha mãe não quis voltar para trás, para uma vida já cheia de limitações. Como ela dizia, “já são muitas coisas, muitas limitações e muitas doenças.”

Arquétipo básico da vida humana
“Quem algo quer, algo lhe custa” diz um provérbio castelhano. Uma vez expulsos do paraíso terrestre, Adão e Eva sabem que este provérbio, consciente ou inconscientemente inspirado no arquétipo, se verifica em todos os aspetos e vertentes da vida e é já por si um dos arquétipos mais importantes da vida humana.

Tomemos como exemplo o jovem que quer licenciar-se em Medicina. O querer ser médico é a sua vocação, a sua Terra Prometida; o não ser ainda médico é o seu Egito, pois o seu ser, de momento, não coincide com o seu dever ser, com o que está em si ser, porque não é ainda o que quer ser. De alguma forma, tem de deixar de ser o que é e entrar num processo que o leva a ser médico: esse processo é a frequência da universidade, o estudar em cada dia. Ninguém vive no deserto, o deserto é sempre terra de passagem. Do mesmo modo, ninguém é estudante para sempre, o ser estudante aplicado é coisa de 7 ou 8 anos da nossa vida, mas que são incontornáveis para a aquisição do diploma que nos permite exercer a atividade médica.

Para atravessar o deserto, o povo espanhol tem dois provérbios que nos aconselham a atitude a ter perante os rigores do deserto. “Al mal tiempo buena cara”, refere-se ao tempo meteorológico, mas aplica-se também às dificuldades que nos surgem na vida. Diante destas, devemos ter uma atitude positiva, otimista e não pessimista ou derrotista.

“Enfrentar el toro por los cuernos” aconselha-nos, perante as dificuldades, a não esconder a cabeça debaixo da areia, como dizem que as avestruzes fazem, ato que ilustra a comum atitude de negação, nem a procurar contornar ou fugir das dificuldades, mas a enfrentá-las de peito aberto com a força de vontade de um guerreiro, de um herói.

O próprio caminhar do povo desde um passado de escravidão por um presente de duras penas e sacrifícios, com vista a um futuro risonho, idílico e utópico, é uma imagem do arquétipo. O filósofo hebreu e marxista Ernst Bloch baseou o seu princípio da esperança no Êxodo. O Êxodo também inspirou os pregadores negros dos anos sessenta, como Martin Luther King, assim como a teologia política de Johann Baptist Metz, a teologia da esperança de Jürgen Moltmann e, por fim, herdeira destas duas, a teologia latino-americana da libertação de Gustavo Gutiérrez, Leonardo Boff e outros.

Arquétipo da história
Com o Êxodo se constitui o tempo da História moderna, que já não obedece a ciclos nem a mitos, mas é uma flecha disparada do passado em direção ao futuro. O tempo da História é um tempo onde o passado, o presente e o futuro se encontram e dialogam entre si. O novo constrói-se a partir do que aprendemos dos erros do passado, por isso, não recordar o passado é estar condenado a repeti-lo, inconscientemente, acriticamente, indefinidamente.

Manter viva a memória da escravidão do Egito evita que se cometam os mesmos erros. Isto mesmo fazem os profetas e isto mesmo fazem os apóstolos nos seus primeiros discursos de evangelização: ler o passado a partir do presente para orientar e projetar o futuro.

Com efeito, a vida em si mesma é uma peregrinação como diz Hebreus 13, 14 - não temos no aqui e agora uma cidade permanente na qual possamos instalar-nos mas caminhamos em direção a uma futura cidade, e qualquer realização histórica concreta desta é sempre e só uma imagem de uma que está sempre para vir e que é a vida eterna, pois só nela o leite e o mel correm sem cessar.

Soa a mito do eterno retorno, mas a mesma história diz-nos que qualquer realização concreta e histórica da utopia, da Terra Prometida, facilmente se transforma com o tempo num Egito do qual é preciso sair, voltando a repetir a experiência do deserto. A verdadeira pátria e o fim de todo o progresso é a vida em Deus e com Deus.

Conceção cíclica e linear do tempo
O tempo cósmico, o Círculo – Partindo do objetivamente observável, na Antiga Grécia e no Extremo Oriente prevaleceu sempre uma compreensão circular do tempo: do ponto de vista cósmico, os 365 dias que a terra leva a dar uma volta ao sol, do ponto de vista da Natureza, mais propriamente das mudanças climatéricas, as quatro estações do ano, Primavera, Verão, Outono e Inverno. A partir destes factos, nasceu para a Filosofia o mito do “eterno retorno”, para a Ciência a ideia de que “Não há nada de novo de baixo do sol” e para a Religião a crença na “reencarnação”.

O tempo humano, a Reta – Do ponto de vista existencial e humano, cada dia que passa é um dia mais que vamos viver e um dia menos que nos resta de vida. Conceber o tempo como uma reta, que vem do passado, passa pelo presente e se dirige ao futuro, não é algo que se possa observar na Natureza.

O tempo em linha reta é o tempo da história individual e comunitária, o tempo que integra a ideia de progresso moral: hoje foi melhor que ontem, amanhã será melhor que hoje. Na Filosofia, a máxima “não nos banhamos duas vezes nas águas do mesmo rio”, de Heráclito, partilha esta compreensão do tempo, verificando-se o mesmo na Cosmologia e na Religião que veiculam as noções do princípio e do fim do mundo.

Esta é também a conceção judaica do tempo: a saída do Egito (terra de escravidão), a passagem pelo deserto (lugar de sofrimento, penitência, purificação e esforço) e a entrada na Terra Prometida, onde corre leite e mel (terra da liberdade, do esforço recompensado e da obra acabada).

Uma libertação individual e uma social
Embora o arquétipo, como dissemos, possa ser aplicado a todo tipo de evolução, progresso libertação, mudança ou conversão, neste texto estudaremos a narrativa bíblica da epopeia do povo judeu, desde o Egito até à Terra Prometida, tomando-a como arquétipo e, portanto, como guia e inspiração de dois tipos de liberdade: uma social, a outra individual.

Para a libertação social escolhemos a teoria de Karl Marx, o seu materialismo histórico e dialético aplicado à análise da sociedade capitalista e a oferta do socialismo como solução para os problemas do capitalismo. Neste sentido, o capitalismo é o Egito, o deserto seria a ditadura do proletariado, e a Terra Prometida seria a sociedade sem classes do socialismo.

Para a libertação individual, escolhemos o processo que o indivíduo deve seguir para se ver livre de qualquer comportamento aditivo, seja ele causado por uma substância, droga, álcool, tabaco, dinheiro ou por um comportamento repetitivo e obsessivo, como o sexo, a ira, etc. O Egito seria o comportamento aditivo que mantém o indivíduo privado da sua liberdade, o deserto seria o tempo de purificação, desintoxicação, fortalecimento do ego, e a Terra Prometida seria a reconquista da liberdade face ao comportamento aditivo. 

EGITO
Tomar consciência de que és um escravo
Na Bíblia, Egito significa conhecimento e amor pelo conhecimento. O Egito é, portanto, um lugar onde aprendes a verdade. Enquanto José governava o Egito, este era um paraíso para si, para os seus irmãos e pai. Psicologicamente, isto significa que enquanto a mente domina ou governa o mundo, muito pode ser aprendido. Porém, começou a reinar no Egito um faraó que não tinha conhecido José e os filhos de Israel, ou seja, o domínio da mente sobre o mundo físico. O faraó representa o domínio do mundo físico sobre a mente, o domínio da carne sobre o espírito, como dirá S. Paulo.

Enquanto o espírito ou a mente tem a primazia ou governa o corpo, os seus desejos e apetites, o ser humano goza de liberdade, porque o ser humano é, acima de tudo, um ser espiritual. Quando pelo contrário, sobe ao trono o faraó, ou seja, o corpo com os seus desejos domina a mente e o espírito, o ser humano experimenta a escravidão.

O Egito é sinónimo de terra da escravidão, mas também, num momento posterior, é sinónimo de terra da verdade. Cito a história que contei no texto sobre a tridimensionalidade da ação social, ver – julgar – atuar: um sacerdote espanhol com toda a sua bagagem europeia depois de haver contemplado por algum tempo a situação deplorável e miserável em que vivia uma comunidade de camponeses latino-americanos, perguntou-lhes, “mas vós não tendes fome e sede de justiça?” Eles responderam “que é isso de fome e sede de justiça? Nós, senhor Padre, só conhecemos a fome de pão e a sede de água.”

(Moisés) Viu também um egípcio que açoitava um dos seus irmãos hebreus. Olhando para todos os lados e vendo que não havia ali ninguém, matou o egípcio e enterrou-o na areia. Saiu outra vez no dia seguinte e viu dois hebreus a brigar. Disse ao culpado: «Porque bates no teu companheiro?» Ao que ele replicou: «Quem te estabeleceu como chefe e juiz sobre nós? Exodo 2, 12-14

Enquanto o camponês só conhece a fome de pão e a sede de água, vive numa terra de escravidão, é escravo sem saber que o é e, tal como o povo judeu quando vivia nesta fase, não aceita que nenhum Moisés lhe venha falar de fome e sede de justiça. Os hebreus também não aceitavam a liberdade e a luta pela justiça que Moisés oferecia.

O Senhor disse: «Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egito, e ouvi o seu clamor diante dos seus inspetores; conheço, na verdade, os seus sofrimentos. Desci a fim de o libertar da mão dos egípcios e de o fazer subir desta terra para uma terra boa e espaçosa, para uma terra que mana leite e mel, (…) eis que o clamor dos filhos de Israel chegou até mim, e vi também a tirania que os egípcios exercem sobre eles. Êxodo 3, 7, 8, 9

Quando finalmente o povo abre os olhos para a sua verdadeira condição, então sim, interpreta a sua vida de uma outra forma, começa a ter consciência de ser escravo numa terra estrangeira e começa a sonhar com outra vida noutra terra - a terra que os filhos de Jacob tinham deixado. Agora sim, já aceitam um líder que os tire dali, mas também este já não é o mesmo Moisés que matou o egípcio.

Em linha com o texto “ver - julgar – atuar” que, como dissemos, no seu tempo foi muito provavelmente inspirado no Êxodo, depois de o povo tomar consciência da sua vida de escravo, uma alternativa a essa vida começa a aparecer na sua mente. Esta alternativa é um sonho, uma promessa, um objetivo, uma utopia situada algures no futuro que atua como íman, que atrai o povo, que o faz sair da sua situação e caminhar para o futuro onde essa utopia se torna real.

Tal como um GPS, enquanto o satélite não descobre o lugar onde estamos, não pode indicar-nos o percurso até ao o lugar onde queremos ir. E para quem não sabe para onde ir, não há ventos favoráveis. O vento, a força motriz, só aparece quando sabemos qual é o nosso rumo, o nosso objetivo, a nossa utopia. Descobertos estes, é tempo de partir; mas antes de partir, celebramos a nossa libertação, pois a esperança vai guiar-nos.

Sonho com o dia em que nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos descendentes dos donos de escravos poderão sentar-se juntos à mesa da fraternidade. Sonho com o dia em que os meus filhos vão viver numa nação onde não serão julgados pela cor da sua pele, mas pelo conteúdo do seu caráter. Martin Luther King

Páscoa, a celebração memorial do arquétipo
Falai a toda a comunidade de Israel, dizendo que, aos dez deste mês, tomará cada um deles um animal do rebanho para a família, (…) Vós o tereis sob guarda até ao dia catorze deste mês, e toda a assembleia da comunidade de Israel o imolará ao crepúsculo. (…) será para vós um memorial, e vós festejá-lo-eis como uma festa em honra do Senhor, ao longo das vossas gerações a deveis festejar como uma lei perpétua. Êxodo 12, 3, 6, 14

Um povo que nunca se reúne para celebrar a sua identidade, deixa de ser povo. Em cada dia do tempo ordinário, cada um se dedica à sua tarefa, ao trabalho e nisso pode estar desligado do resto dos seus irmãos. Toda a nação, todo o povo, toda a associação de pessoas tem dias em que se encontra para celebrar a sua identidade nacional ou associativa; se isto deixa de acontecer, esse povo, essa nação, essa associação, deixa de existir.

Deus que é criador da natureza humana conhece-a bem melhor do que os humanos. Por isso, ainda antes de o povo partir para o deserto, decretou que o mesmo ato de saída fosse uma celebração que seria depois repetida num ritual em cada ano, para que nunca ninguém se esquecesse do preço da liberdade, do que custou a libertação da escravidão.

Jesus veio trazer a libertação para toda a humanidade de todo o tipo de “Egitos” que nos privam da nossa liberdade e dignidade como filhos de Deus. E também instituiu um ato memorial - a Eucaristia - e disse explicitamente “fazei isto em minha memória” depois de abençoar o pão e o vinho que se iriam transformar no seu corpo e no seu sangue, o preço que Ele pagou pela nossa liberdade.

DESERTO
Depois da euforia da celebração pascal e da saída do Egito, as dificuldades depressa se fizeram sentir. De frente apareceu o Mar Vermelho e por trás o exército egípcio. O povo, entre a espada e a parede, sentiu a tentação de olhar para o sonho que até ali o tinha conduzido como se fosse uma ilusão e um engano, uma miragem daquelas que precisamente no deserto são famosas.

Esta situação de desespero foi só a primeira, muitas outras se iriam suceder: a fome, a sede, as serpentes, a lembrança da carne que comiam no Egito parecia agora um sonho e bem mais real e viável, pois já o tinham experimentado. Tudo isto os impedia caminhar, pois de facto até parecia agora que a utopia tinha deslocado do futuro para o passado. Face aos desafios que a liberdade lhes apresentava, a escravatura do Egipto aparecia agora nas suas mentes como um paraíso perdido.  Assim se explica a tentação de voltar atrás.

Liberdade como processo
Nem pão sem liberdade nem liberdade sem pão. O pão é o alimento do corpo, a liberdade é o alimento da alma. É a alma que nos distingue do resto dos seres vivos. Portanto, o verdadeiro valor humano é a liberdade e não o pão, a capacidade de tomar a nossa vida nas nossas mãos e realizar com ela algo mais importante que a própria vida. No entanto, para viver, ou seja, para ter a vida nas nossas mãos, necessitamos de estar vivos, ou seja, necessitamos de alimentar o nosso corpo.

Não é edificante sacrificar a liberdade para obter pão, pois sacrificamos a nossa razão de vida. É como estar humanamente morto, como abdicar da vida para estar vivo. A menos que sacrifiquemos a nossa liberdade para obter o pão de alguém. Moisés exigiu do povo que abdicasse temporariamente do pão, da água em abundância e da carne para obter a liberdade: um bem maior que todos estes.

Assumir uma nova consciência de si mesmo, uma nova identidade, idealizar e elaborar o projeto de uma sociedade justa e fraterna, de forma a que liberdade seja sinónimo de participação e responsabilidade pelo projeto é um caminho longo e tortuoso pois o processo leva tempo. No caso de Moisés, o processo mais curto e fácil seria ir pela terra dos filisteus, ao longo do mar Mediterrâneo.

Deserto e desintoxicação
Avizinham-se dias difíceis. Mas isso não me preocupa, porque vi o cimo da montanha. E não me importo. Como qualquer pessoa, gostaria de viver uma vida longa. A longevidade é importante. Mas isso não me preocupa agora.

Quero apenas fazer a vontade de Deus. E Ele permitiu que eu subisse ao cimo da montanha. E eu vi mais além. E eu vi a Terra Prometida. Posso não chegar lá convosco. Mas quero que saibam, esta noite, que nós, enquanto povo, chegaremos à Terra Prometida! E estou tão feliz esta noite. Nada me preocupa. Não temo homem algum! Os meus olhos viram a glória da vinda do Senhor!! Martin Luther King, (um dia antes do seu assassínio)

A liberdade não se conquista de um dia para o outro, num simples ato, numa fuga. A liberdade é um processo com altos e baixos, é preciso libertar-se de velhos hábitos, das cebolas e da carne do Egito, superar a tentação de voltar atrás que surge quando se encontram dificuldades no caminho; o deserto significa desintoxicação dos vícios e maus hábitos que se tinha como escravos. Cortar com a vida anterior para estar disponíveis para uma vida nova.

No longo processo para a libertação, muitos ficaram pelo caminho. Moisés não entrou na Terra Prometida; Luther King que conduziu o povo negro dos Estados Unidos para liberdade e igualdade também não viu realizado o seu sonho no tempo curto da sua vida.

Dos que saíram do Egito, só Josué e o seu amigo Caleb entraram na Terra Prometida. Os dois eram positivos, olhavam para a frente, eram otimistas, não temiam o que a maior parte temia. Sobretudo no episódio dos espiões da terra, neste caso, o medo paralisou a maior parte dos filhos de Israel; Josué e Caleb estavam lá para infundir força, coragem, esperança e fé no Deus que tantas vezes tinha dado provas do seu amor e dedicação.

Não se pode entrar na Terra Prometida com os vícios do passado, estes têm de ficar no deserto. É provavelmente isto que simboliza o facto de apenas dois dos que saíram da escravidão terem entrado na Terra Prometida, enquanto que os outros ficaram pelo caminho, tendo sido sucedidos pelos seus filhos que já haviam nascido e crescido em liberdade no deserto.

A lição da borboleta
Um dia, uma pequena abertura apareceu num casulo; um homem sentado observou a borboleta por várias horas, enquanto ela estava a tentar mover o corpo através do pequeno buraco. Depois de algum tempo, parecia que ela tinha deixado de fazer qualquer progresso. Parecia que já tinha feito tudo o que podia e não tinha conseguido alargar o buraco.

Então o homem decidiu ajudar a borboleta: agarrou numa tesoura e abriu o casulo. A borboleta conseguiu sair facilmente. O seu corpo estava murcho, era pequeno e tinha as asas enrugadas. O homem continuava a observá-la, pois esperava que a qualquer momento, as asas se abrissem e esticassem para suportar o corpo, e que este se fizesse rijo. Nada disto aconteceu! Ao contrário, a borboleta passou o resto da sua vida rastejando com um corpo e asas murchas e encolhidas, e nunca foi capaz de voar.

O homem, na sua gentileza e vontade de ajudar, não se apercebeu de que o casulo apertado e o esforço necessário para a borboleta passar através da pequena abertura, era o estratagema que Deus tinha criado para que o fluido do corpo da borboleta fosse bombeado para as asas, proporcionando-lhe assim a força hidráulica para voar, depois de se ter libertado do casulo.

De foragidos a povo
Um inimigo comum faz de estranhos, amigos. No deserto, tudo é antagónico e, por isso, a união faz a força - para sobreviver são precisos os esforços de todos. Não é possível uma passagem direta do Egito para a Terra Prometida, é o deserto que faz de um bando de foragidos um povo, com uma idiossincrasia própria, uma lei, uma língua, uma forma de vida, um objetivo comum e uma relação especial com Deus que caminha com eles em forma de fogo durante a noite, em forma de nuvem durante o dia e que acampa com eles, habitando uma tenda.

Esta relação de absoluta dependência de Deus e interdependência entre todos é mais tarde exaltada pelos profetas como o tempo idílico: “Assim fala o Senhor: Recordo-me da tua fidelidade no tempo da tua juventude, dos amores do tempo do teu noivado, quando me seguias no deserto, na terra em que não se semeia. Israel era, então, propriedade sagrada do Senhor…Jeremias, 2, 2-3

O deserto não é um lugar para se viver, falta tudo, até o essencial. Naturalmente, a pessoa no deserto torna-se mais espiritual, volta-se para a paisagem interior pois nada há no exterior que capte os seus cinco sentidos. Por isso, para o povo, o deserto foi um tempo de introspeção individual e social e, dentro de si mesmo, encontrou Aquele do qual Santo Agostinho diz Deus intimior intimo meo, que nos é mais íntimo que o nosso íntimo, que está para além do nosso íntimo. Neste processo de introspeção, matam-se dois coelhos com o mesmo pau: conhecemo-nos a nós mesmos e a Deus.

A aliança ou pacto
A passagem de um estado de opressão para um estado de liberdade pressupõe uma mudança irrevogável e um juramento. Durante a marcha no deserto, os hebreus guiados por Moisés fazem um pacto entre eles, como povo e com Deus. Desta forma, no monte Sinai, um conjunto de tribos se transforma num povo, numa nação com leis e com uma constituição para governar a sua vida social.

A diferença das alianças anteriores com Abraão e Noé, que eram unilaterais e incondicionais, é que esta aliança de Moisés é bilateral, ou seja, se o povo permanecer fiel, Deus respeitará a sua parte do pacto. Moisés dá ao povo a possibilidade de escolha.

“(…) esta Lei, que hoje te prescrevo, não é muito difícil para ti nem está fora do teu alcance. (…) está muito perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a praticares. Repara que coloco hoje diante de ti a vida e o bem, a morte e o mal. Assim, ordeno-te hoje que ames o Senhor, teu Deus, que andes nos seus caminhos, que guardes os seus mandamentos, preceitos e sentenças. Assim viverás, multiplicar-te-ás e o SENHOR, teu Deus, te abençoará na terra em que vais entrar para dela tomar posse.

Mas se o teu coração se desviar e não escutares, se te deixares arrastar e adorares deuses estranhos e os servires, declaro-vos hoje que, sem dúvida, morrereis; os vossos dias não se prolongarão na terra na qual ides entrar, passando o Jordão, para dela tomar posse.” Deuteronómio 30, 11, 14-18

Idêntico discurso (Deuteronómio 31, 1-29) é feito por Josué, sucessor de Moisés, antes da última passagem ou páscoa: a do deserto para a Terra Prometida através da travessia do rio Jordão. Mais uma vez e pela última vez antes de iniciar uma vida nova numa nova terra, o povo é recordado do pacto que fez com Deus e que o constituiu como povo, ou seja, que lhe conferiu uma identidade tantas vezes exaltada no confronto com os outros povos vizinhos ou longínquos.

TERRA PROMETIDA
Depois de passar o rio Jordão, o povo chega finalmente à Terra Prometida, mas esta não lhe é dada de mão beijada. Dizem que Deus alimenta as aves do Céu, mas não lhes leva a comida ao ninho, elas têm de sair e ir buscá-la. Custou chegar até à Terra Prometida e, ao chegar, deparam-se com Jericó, a cidade mais antiga do mundo, bem amuralhada. Tiveram então de a conquistar, como o resto da terra onde corre leite e mel.

Ia para evangelizar e foi evangelizado
(…) das cidades destes povos, que o Senhor, teu Deus, te há-de dar por herança, é que não deixarás nelas alma viva. Votarás à destruição, o hitita, o amorreu, o cananeu, o perizeu, o heveu, o jebuseu, como te ordenou o Senhor, teu Deus, para que eles vos não ensinem a fazer as abominações que praticam em honra dos seus deuses. Pecaríeis contra o Senhor, vosso Deus. Deuteronómio 20, 16-18

Não me detenho a justificar ou defender o texto com conotações de genocídio, deixo isso para os mais entendidos nas sagradas escrituras. Como estamos a falar de arquétipos, o significado simbólico deste extermínio que Deus ordenou não é tanto de gentes, mas dos costumes dessas mesmas gentes para que, como diz o mesmo texto, não aconteça que o povo, em vez de estabelecer a sua cultura, idiossincrasia e fé na terra, adote costumes, hábitos e vícios do povo que habita essa mesma terra.

Portanto, trata-se de uma limpeza cultural, trata-se do tipo de limpeza que Jesus fez no Templo de Jerusalém para que este deixasse de ser lugar de negócios e idolatrias e fosse lugar de oração ao Deus único, Àquele que tinha tirado o povo do Egito e o tinha acompanhado até ali, dando-lhe esta terra. Quantas vezes vamos para evangelizar para trazer os outros para a nossa fé, para a nossa causa e acabam por ser eles que nos conquistam para a sua fé e para a sua causa.

O facto de Josué e os seus não obedecerem a Deus e não terem exterminado todos os cananeus, até as mulheres e as crianças, não significa que eram moralmente superiores ao próprio Deus mas sim que fizeram precisamente o que Deus temia: sendo eles os invasores, deixaram-se invadir e contaminar pelos costumes dos cananeus e, como já não eram nómadas, começaram também a adorar os deuses dos povos sedentários.

A Terra Prometida é o Reino de Deus
Mais que um lugar concreto, a Terra Prometida é individualmente uma forma de ser e de estar no mundo. Estamos no mundo, mas não somos do mundo. A história da salvação começou com Abraão, um arameu errante que deixou a sua terra. Já antes dele, Yaveh não escondia a sua preferência pelo nomadismo contra o sedentarismo. Sem nenhuma outra razão sem ser esta mesma, aceitou o sacrifício de Abel que era um pastor, portanto nómada, e não o de Caim que era um agricultor e, portanto, sedentário.

Por este mesmo motivo como atrás vimos, os profetas exaltam o tempo em que o povo caminhava pelo deserto e condenam o sedentarismo que leva à idolatria. Deus Yaveh é um deus de nómadas e não um deus sedentário. Os deuses sedentários eram os deuses da fertilidade, da agricultura. O sedentarismo, o parar, vai contra a natureza cósmica e humana, pois tudo se move e quando paramos facilmente caímos na idolatria. Estar no mundo sem ser do mundo é uma expressão de um certo nomadismo espiritual que devemos manter.

Por outro lado, a nível social, vivemos comprometidos com um projeto por um mundo melhor que é o Reino de Deus, mas não nos identificamos nunca totalmente com nenhuma conquista, mesmo neste sentido.

O Reino está já entre nós desde que Deus, por intermédio do Seu filho (historicamente, Jesus de Nazaré), entrou na história humana. Mas o Reino não está ainda entre nós na sua plenitude porque o mundo pode ser sempre melhor. Sabemos que nunca será como o Céu, o Reino de Deus por excelência. Por isso vivemos comprometidos, mas não implicados ou completamente identificados com as realizações históricas do Reino de Deus.

A Terra Prometida não é, portanto, um lugar geográfico concreto, mas uma sociedade onde reina a justiça e a paz. E para que esta reine, são precisos esforços contínuos e constante vigilância para que não descambe em injustiça e violência.

Como atrás vimos, o Egito do tempo de José era semelhante à Terra Prometida, pois lá se refugiaram os filhos de Jacob com o seu pai para não morrerem de fome. No tempo de José, pai adotivo de Jesus, voltou a ser terra de salvação, pois lá se refugiou o menino até Herodes morrer.

Podemos concluir que toda a Terra Prometida já foi um Egito e todo o Egito pode ser uma Terra Prometida. Como cristãos, devemos viver instalados no deserto, sempre em saída do Egito, caminhando em direção à Terra Prometida; hoje melhores que ontem e amanhã melhores que hoje.

Aplicação do arquétipo à teoria comunista de Marx
Karl Marx (1818-1883) era um economista e filósofo alemão de origem judaica que viveu no tempo em que a primeira revolução social esvaziou o campo e encheu cidades de operários, entre eles crianças, que viviam em condições sub-humanas, com demasiadas horas de trabalho, baixos salários e em pobreza extrema.

O capitalismo é o Egito do proletariado
Para ele, a sociedade estava dividida em proletários, os novos escravos, e burgueses, os novos senhores. Em seguida, Marx aplicou esta leitura da sociedade do seu tempo ao resto da História, que viu como uma luta de classes na qual o oprimido luta contra o seu opressor.

Nesta sociedade, o burguês capitalista controlava o processo da produção, pelo qual os produtos da fábrica eram vendidos a um preço que incluía a matéria prima, a mão de obra e um lucro do qual só o burguês beneficiava. Alguns industriais filantropos, dando-se conta dos lucros exorbitantes de que usufruíam, distribuíam-nos pelos trabalhadores, mas a maioria enriquecia enquanto o proletariado empobrecia.

Tal como o povo judeu no seu Egito, Marx que também era judeu entendia que o ressentimento do proletariado por ver roubado o fruto do seu suor, iria aumentando até um dia ecoar em todas as fábricas o famoso slogan do manifesto comunista de Marx e Engels (1848): "Trabalhadores do mundo, uni-vos, vós não tendes nada a perder a não ser os vossos grilhões".

A ditadura do proletariado é o deserto
Com isto, entendia Marx, o proletariado sairia do seu Egito, repudiaria a sua condição de escravo e tomaria as rédeas do poder e do processo de produção. Inverter-se-iam os papéis, tal como na parábola do rico e do pobre Lázaro. (Lucas 16, 19-31)

Estes foram os tempos da revolução comunista, tempos difíceis para todos, sobretudo para os burgueses que foram expropriados do seu poder, da sua propriedade, do lugar que ocupavam e do papel que desempenhavam na sociedade. Desapareceu a sua função, desapareceu a sua classe.

Não obstante ser ateu, Marx aplicou na perfeição a matriz Egito – deserto – Terra Prometida, e provavelmente viu-se a si mesmo como o novo Moisés, que tiraria da escravidão o novo povo eleito, os proletários de todo o mundo.

A sociedade sem classes é a Terra Prometida
Depois da vitória do proletariado sobre a burguesia e sobre o seu capitalismo, instrumento de opressão, uma nova sociedade sem classes deveria emergir, regida pelo princípio de Marx: “De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades”. Nesta sociedade idílica, a propriedade, terras, fábricas, meios de produção são de todos, são comuns.

Todos teriam direito e igual acesso à educação, as classes desapareceriam, terminaria assim a ditadura do proletariado pois nem existiriam proletários nem burgueses, reinaria a harmonia, a justiça e a paz que tornariam o Estado obsoleto, acabando este por desaparecer.

Dialética hegeliana e marxista
Todos sabemos que Marx bebeu de Hegel ou, melhor dizendo, de um Hegel invertido pela sua adoção do ateísmo de Feuerbach. Para o filósofo Hegel, a distinção entre a matéria e o espírito era ilusória e concluía que a matéria era uma forma de espírito; Marx, pelo contrário, entendia que o espírito era uma forma de matéria.

Se substituirmos espírito por energia (podemos de facto entender o espírito como uma energia porque tanto um como o outro são intangíveis), hoje diríamos com Einstein que os dois tinham razão, a matéria é uma forma de energia, assim como a energia é uma forma de matéria.

A título de apêndice, gostaria de acrescentar uma menção à tridimensionalidade da dialética de Hegel, subentendida na teoria socialista de Marx. Para ambos, a História desenvolve-se em conflitos entre forças opostas: Tese (Egito), Antítese (Deserto), Síntese (Terra Prometida). Isto aplica-se à luta de classes, como Marx fez, às nações, instituições, e assim sucessivamente até, na mente de Hegel, chegarmos ao Céu ou, na de Marx, à sociedade sem classes que seria, segundo ele, o fim da História.

O uso do arquétipo em todas as formas de luta contra qualquer adição, mau hábito ou vício
Egito – Deserto – Terra Prometida não é só um arquétipo da mudança social mas também é um arquétipo da mudança individual, da conversão, da saída de algum comportamento obsessivo, compulsivo, repetitivo, neurótico que nos dá a impressão de vivermos em piloto automático e não manual, de não estarmos ao comando das nossas próprias vidas e de sermos escravos de vícios, maus hábitos, atitudes ou substâncias.

Já a hora é tardia e não temos espaço aqui para desenvolver o tema como mereceria. No decurso da nossa vida caímos em situações de Egito e perdemos a liberdade perante os outros, como no caso da violência doméstica, mediante comportamentos obsessivos, compulsivos e repetitivos, no campo da ira, do sexo e tantos outros. De igual modo, também perdemos a nossa liberdade quando nos tornamos viciados e dependentes de substâncias que acabam desempenhando um papel psicológico ou existencial nas nossas vidas.

Apesar de ser tradicionalmente usadas pelos alcoólicos anónimos (AA), as 12 Etapas constituem a principal teoria para lidar com todo o tipo de adição, seja ela de natureza psicológica ou material de alguma substância. No nosso entender, esta teoria obedece também ao arquétipo e foi traçada consciente ou inconscientemente com base neste paradigma que descrevemos.

Egito - Admitir que perdemos o controlo sobre nós mesmos
Trata-se da primeira etapa. Enquanto o povo de Israel não se deu conta de que era escravo, nunca surgiu a sede de mudança, de sair daquela situação. Uma coisa é viver numa situação, outra é saber entender e interpretar essa mesma situação. Muitos adictos não se reconhecem como tal; muitos fumadores dizem que, se quiserem, deixam de fumar a qualquer momento; diz-se que um deles chegou a dizer anedoticamente que era fácil e que já o tinha feito 20 vezes.

Deserto – Purificação, desintoxicação, síndrome de abstinência
Os foragidos do Egito tiveram que constituir-se como povo, para juntos sobreviverem às agruras do deserto. Os alcoólicos anónimos são uma comunidade que se junta para todos lutarem contra um mal. Entre as 12 Etapas, algumas referem-se a esta relação que se estabelece com os outros e com o Outro Deus.

O deserto para os adictos é lugar de desintoxicação. Um fígado leva tempo a desintoxicar-se, os pulmões podem reter o carvão neles acumulado durante muito tempo. Neste tempo de desintoxicação, quando o corpo começa a sentir a necessidade da substância, o espírito lembra-se das panelas cheias de carne deixadas no Egito enquanto se passa fome no deserto. A síndrome de abstinência é a tentação de voltar atrás.

Terra Prometida – Libertação, harmonia, paz consigo mesmo e com os outros
Por fim, chega-se à Terra Prometida, onde voltamos a ser senhores do nosso nariz, onde voltamos a ter e exercer controlo sobre os nossos comportamentos. Segundo a teoria das 12 Etapas, é tempo de reconciliar-se com aqueles que magoámos quando estávamos fora de nós mesmos e possuídos pelas substâncias e comportamentos que podemos entender miticamente como espíritos impuros. Uma vez expulsos esses espíritos, voltamos a ser livres e a relacionarmo-nos em paz e harmonia connosco mesmos e com os outros.

CONCLUSÃO
Tanto a mudança, ou conversão individual face ao pecado ou ao vício, como a revolução ou evolução social com vista a um mundo onde reina a justiça, a paz e a integridade da criação, obedecem a este arquétipo, seguem este paradigma.
P. Jorge Amaro, IMC

15 de junho de 2020

3 Atitudes perante os outros: Introvertido - Extrovertido - Ambivertido

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Introvertido versus extrovertido são talvez as palavras mais populares da psicologia, aquelas que toda a gente conhece e aplica tanto a si como aos outros quando se trata de descrever-se ou de descrever o comportamento básico ou atitude básica dos outros.

Toda a gente sabe que uma pessoa introvertida é uma pessoa voltada para dentro, que fala com os seus botões; por outro lado, o extrovertido é uma pessoa voltada para fora, precisa da convivência como do ar que respira.

Quem primeiro cunhou estes termos foi o psicólogo suíço Carl Jung, discípulo dissidente de Freud. Vejamos em que difere não só de Freud como de outro grande contemporâneo, Adler, para depois nos centrarmos nestas tradicionais atitudes ou tendências perante a vida e os outros.

Freud, Adler e Jung
Sigmund Freud - É o grande mestre e fundador da psicologia moderna, entendida no seu tempo como psicanálise; Alfred Adler e Gustav Jung são os seus seguidores e discípulos que, a princípio, seguem fundamentalmente a teoria do mestre, mas mais tarde divergem consideravelmente, seguindo cada um o seu rumo.

Freud entende que a raiz de todo o problema psicológico é sexual, ou seja, a repressão de desejos sexuais no inconsciente leva a comportamentos neuróticos no consciente. Freud foi o primeiro pensador que tirou o tema sexual do escuro e do âmbito do pecado. Falar de sexo no seu tempo era tabu, e talvez tenha sido isto que de alguma maneira o levou a dar tanta importância ao sexo.

A divisão da personalidade humana em três instâncias foi o seu grande contributo para entender a natureza humana. O ID é a primeira instância e aquela que nos aproxima mais dos últimos primatas, nascemos com o ID e nunca o perdemos. O ID é inconsciente e assim permanece dentro de nós mesmos. O ID relaciona-se simbioticamente com o seu ambiente circundante, não se destacando muito dele. 

À medida que a criança cresce e se relaciona com o seu ambiente, começa a destacar-se e a diferenciar-se deste, chegando eventualmente à autoconsciência de si mesma: nasce assim o ser, o EGO. Mais tarde, a criança consciente do seu ser toma também consciência, por meio da educação, do dever ser, de que pode crescer, ser mais, ser melhor e assim nasce o SUPEREGO, a última instância da personalidade segundo Freud.

Alfred Adler – Menos introspetivo que Freud, interessou-se mais pelas relações que a criança estabelece desde o princípio e como ela se vê a si mesma perante os outros. Ao contrário de Freud, entende que a razão de todos os problemas psicológicos é o complexo de inferioridade que torna a pessoa ávida de poder.

Ao analisar o inconsciente, Freud descobre fantasias eróticas e desejos reprimidos, enquanto que Adler acha que este inconsciente contém sentimentos de inferioridade e desejos de poder e grandeza que vão tornar a pessoa agressiva na luta pelo poder, ou apática, se entender que não consegue alcançar o poder.

Na prática psicoterapêutica os dois também são diferentes. Adler não usa o divã porque entende que replica uma relação pai-filho e reforça o complexo de inferioridade do cliente. Pelo contrário, usa duas cadeiras frente a frente que fazem do cliente e do terapeuta participantes iguais no processo psicoterapêutico. Talvez este seja o percursor da terapia não diretiva de Carl Rogers.

Gustav Jung – Estende o inconsciente freudiano para além das fronteiras do indivíduo, criando o inconsciente coletivo, algo como uma base de dados à qual todos naturalmente se ligam, pois contém todos os arquétipos da humanidade.

Uma das razões da divergência entre estes três grandes psicólogos pode ser o facto de que, embora as suas teorias se destinassem a ser aplicadas ao homem em todas as suas etapas de crescimento, cada um dos três se inclina para uma etapa diferente deste crescimento. Freud está mais interessado na infância, Adler na adolescência e Jung na idade adulta.

Neste sentido, Jung abandona Freud porque entende que o nosso comportamento não depende só de eventos do passado, quer tenham sido traumáticos ou não traumáticos. A pessoa procura sempre atualizar-se, está orientada para o futuro e, neste sentido, toma as atitudes que acha que melhor resolvem os seus problemas e satisfazem as suas necessidades.

Neste contexto, Jung propõe duas atitudes, tendências ou abordagens em relação à vida: introversão e extroversão. Considera-se que estas ideias são o maior contributo de Jung para a teoria da personalidade. De facto, a visão dos tipos extrovertido e introvertido de Jung serve como base ao indicador de tipos Myers-Briggs (MBTI).

Sem se preocupar com o passado, a dupla Myers-Briggs estuda o comportamento da pessoa no aqui e agora e analisa-o na medida em que se situa entre duas atitudes ou tendências contrárias. Em relação à nossa motivação e à forma como adquirimos a energia, somos introvertidos ou extrovertidos. Em relação à forma como adquirimos e processamos a informação de que precisamos na nossa vida, somos sensitivos ou intuitivos. Em relação à forma como tomamos decisões, uns regulam-se mais pelo pensamento, outros pelo sentimento. Em relação à forma como nos situamos na vida a nível existencial e profissional, uns confiam mais na sua capacidade de julgar, outros mais na sua perceção.

Os resultados de um teste de MBTI nunca mostram uma pessoa como sendo 100% introvertida ou extrovertida, sentimental ou racional, sensitiva ou intuitiva, julgadora ou percetiva; indicam apenas em percentagem uma tendência ou inclinação mais para um lado que para o outro.

O objetivo deste texto não é estudar a teoria de Myers-Briggs, mas sim os comportamentos introvertidos e extrovertidos segundo Jung e segundo autores posteriores a ele. O título deste texto não se refere apenas à introversão e extroversão, mas também à ambiversão.

É certo que este termo era desconhecido por Jung mas ele próprio já entendia que não havia ninguém que fosse 100% introvertido ou extrovertido. Hoje os autores entendem que existem pessoas que não são nem um nem outro nem os dois ao mesmo tempo, dependendo das situações ou motivações do momento.

O que é ser introvertido - extrovertido – ambivertido? Uma atitude perante a realidade, perante os outros, perante a vida? Uma motivação, uma tendência, um tipo psicológico, um caráter, um tipo de personalidade, um temperamento?

Tive dificuldade em decidir-me por este título, pois cada autor usa a sua forma de entender estes comportamentos fundamentais da pessoa humana. Ficamos com a palavra “atitude” e se tivéssemos que escolher uma segunda escolheríamos “tendência”, para definir a forma como uma pessoa se situa na vida em relação a si mesma, à realidade e aos outros.

Qual é a orientação natural da nossa energia? O que mais nos motiva? Cada pessoa tem duas faces. Uma está voltada para o mundo exterior de atividades, entusiasmos, pessoas e coisas; a outra para o mundo interior dos pensamentos, interesses, ideias e imaginação.

Sendo estes lados da nossa natureza, complementares, a maior parte das pessoas tem preferência por um deles. Assim, um dos seus dois rostos - extrovertido ou introvertido - assume a liderança no desenvolvimento da sua personalidade e desempenha um papel mais dominante no seu comportamento.

Ultimamente, fala-se de uma terceira tendência - a ambiversão - que fundamentalmente é uma síntese das outras duas. Pessoalmente, sempre me entendi como introvertido; mas todos os testes que fiz sobre o assunto sempre me colocaram na fronteira entre o introvertido e o extrovertido, ou seja, introvertido, mas com facetas de extroversão.

Descobrir o termo ambiversão foi para mim o mesmo que descobrir-me a mim mesmo, um “eureka” sobre mim mesmo: afinal não sou introvertido como pensava nem extrovertido, mas uma síntese ou mistura das duas atitudes. Nem podia ser de outra maneira, sendo quem sou e sendo o meu trabalho lidar diretamente com pessoas mais que com coisas ou papéis.

Infância: introversão e extroversão
Jung entende que adquirimos bem cedo estas duas atitudes fundamentais perante a vida, a realidade e os outros que depois mantemos durante o resto da nossa vida. Estas atitudes aparecem quando o bebé corta o cordão umbilical que o liga ao seu meio ambiente e começa a diferenciar-se dele. Podemos dizer que o introvertido nasce ou emancipa-se antes que o extrovertido, na medida em que se diferencia mais fortemente do seu ambiente que o extrovertido que, de alguma forma, ainda se mantém por mais tempo em simbiose com ele.

Perante este dado, uma criança com tendência extrovertida demonstra prontidão para agir e responder aos estímulos e solicitações do meio ambiente; a sua atenção é dirigida ao mundo exterior e interage com os objetos sem reservas e sem medo, mesmo que os desconheça.

Por outro lado, a criança introvertida assume uma atitude reflexiva e até desconfiada diante daquilo que não conhece, sente medo e entende que deve proteger-se e defender-se da influência que os objetos possam ter sobre ela. Por isso mantém uma distância perante eles, com o intuito de os conhecer melhor e adquirir poder e autoconfiança nas suas ações sobre eles.

Pouco se sabe sobre a forma como nos transformamos em introvertidos ou extrovertidos. Inicialmente, atribuía-se muita importância aos fatores educativos, mas verifica-se muitas vezes que filhos da mesma mãe que foram teoricamente educados da mesma maneira, agem e reagem de maneiras diferentes na mesma situação.

No caso das atitudes psicológicas, o fator educativo não é aparentemente o mais determinante na aquisição das atitudes de introversão ou extroversão. É provável que haja uma predisposição genética ou biológica para se assumir uma ou outra atitude.

Atitude introvertida
A forma de conhecer do introvertido - O mundo do introvertido está dentro de si mesmo; é algo como o mundo das ideias da caverna de Platão. A nível filosófico, o introvertido, no ato de conhecer as coisas, não lida com os acidentes das coisas, ou seja, com as suas características, mas com a sua essência, com o que estas coisas significam em si ou para ele.

É claro que esta atitude fundamental pode levar a mal-entendidos pelo facto de o introvertido não se relacionar com o objeto em si, mas com a ideia ou imagem, sempre subjetiva, que tem do objeto, coisa ou pessoa em questão. A perceção da realidade do introvertido nunca é objetiva, porque ele não vê as coisas tal como elas são, mas como ele entende que elas são, ou seja, como elas são para ele.

Para o introvertido, a realidade psíquica é uma experiência relativamente concreta, algumas vezes chega a ser mais concreta que a realidade externa. O que conta não é o que a coisa ou pessoa é em si mesma, mas o que ela é para o sujeito que a conhece. O erro está, é claro, em confundir o que a coisa ou pessoa é em si mesma com o que é para mim. O sujeito que conhece é mais importante que a pessoa ou coisa a ser conhecida. As pessoas e as coisas não são o que são, mas o que são para mim.

Dizem ou diziam que os japoneses não desfrutam dos lugares que visitam por estarem atarefados a fazer fotografias e vídeos, desfrutando eventualmente desses lugares quando, já em casa, os revisitam através dos vídeos e fotografias que contemplam no ecrã da televisão, comodamente sentados no sofá, bebendo saque. Esta pode ser uma imagem caricata de um introvertido que desconsidera a realidade exterior, a favor da realidade interior.

A mente do extrovertido orienta-se e relata fielmente os factos objetivos e permanece sempre em contacto com a realidade a conhecer, podendo variar a sua conceção conforme esta varia. Pelo contrário, a mente do introvertido é como uma máquina fotográfica: abre-se o obturador num espaço curto de tempo, a realidade entra e depois fecha-se e não volta a abrir-se. Enquanto que o introvertido pode olhar o extrovertido como superficial e demasiado dependente da realidade, o extrovertido olha o introvertido como preconceituoso, egoísta e distanciado da realidade.

Introversão e timidez - Os introvertidos podem ser ou não ser tímidos; o tímido é inseguro, está apreensivo e nervoso quando está com pessoas; o introvertido pode até ter boas competências sociais, mas cansa-se de estar com os outros; precisa de estar sozinho para recarregar a sua energia.

Resumindo
  • Voltado para o mundo interior. Tem preferência por encontrar a energia e motivação no mundo das ideias, emoções, impressões e experiências pessoais. Prefere refletir antes de agir e, novamente, refletir. Precisa de tempo para pensar e recuperar a sua energia. Em geral, é pouco sociável, por opção, não porque seja tímido. Os ambientes muito agitados, com muitas pessoas cansam o introvertido.
  • Do ponto de vista energético, o introvertido produz a sua própria energia, motiva-se a si mesmo, é autónomo e independente; o extrovertido precisa de se ligar com o mundo exterior para se motivar, de se ligar aos outros para carregar as baterias.
  • O modo de aprendizagem do introvertido é pela observação, é uma pessoa mais pensativa e introspetiva. O introvertido precisa de estar sozinho. Não expressa muito, pensa e analisa.
  • Pensa e reflete e só depois atua, e dificilmente muda de opinião, podendo ser fundamentalista e intolerante quando negativo.
  • Precisa de uma quantidade de "tempo a sós" para recarregar as baterias.
  • Motivado a partir de dentro, a sua mente é, por vezes, tão ativa que tende a fechar-se ao mundo de fora do qual se protege. A sua mente é o seu castelo.
  • Tem preferência pela comunicação e relações de um-para-um. Os temas de conversa são profundos e giram em torno de ideias e conceitos; não perde o tempo a falar de assuntos triviais ou mexericos.
  • Prefere direcionar a sua energia estudando e analisando ideias, informações, explicações e crenças.
  • Parafraseando Descartes, o introvertido pensa, logo existe, e depois atua ou não; o extrovertido existe, depois pensa.
  • O introvertido é Platão, o extrovertido é Aristóteles.
  • O extrovertido é fácil de conhecer, o introvertido é difícil de conhecer.
  • O extrovertido expressa emoções, o introvertido controla-as ou reprime-as. O primeiro precisa de relações, o segundo precisa de solidão e privacidade. Um traz amplitude para a vida, o outro traz profundidade. O primeiro pode ser acusado de ser superficial, o segundo de ser uma ilha.
  • Uma pequena parte da população é introvertida. 
Profissões e formas de vida
Os introvertidos são bons investigadores, engenheiros, arquitetos, filósofos, escritores, psicólogos, professores, áreas onde a capacidade de refletir antes de agir é valorizada. Por exemplo, um soldado pode e deve ser extrovertido, enquanto que um estratega militar deve certamente ser introvertido; mas nem sempre isto acontece. Quando se trata de natureza humana, mais são as exceções que as regras.

Atitude extrovertida
O mundo do extrovertido é o mundo real, fora de si mesmo. Para o extrovertido, o mundo externo parece o sujeito e ele o objeto. O indivíduo deixa-se impregnar pelo exterior que o invade. Segundo Jung, o extrovertido vive de tal modo, que o objeto, como fator determinante, desempenha na sua consciência um papel bem maior que a sua opinião subjetiva. Sente e pensa no objeto pessoa ou coisa do seu conhecimento, perdendo nele a sua subjetividade ou individualidade.

Um extrovertido pode ser ou não ser uma pessoa amistosa e sociável. O que verdadeiramente o define é o precisar dos outros e do mundo exterior para ser ele mesmo; sente-se cheio de energia quando está com os outros, pois neles encontra a sua motivação e as suas ideias.

As considerações subjetivas do extrovertido existem, mas não são privilegiadas no plano da sua consciência, pois favorece o objeto e as suas circunstâncias em vez de se destacar a si próprio como sujeito. Isto pode levar o extrovertido a distanciar-se de si mesmo no âmbito dos pensamentos, avaliações, sensações e intuições subjetivas. Com este quadro psíquico, é bem mais provável que um extrovertido se aliene e perca a sua liberdade num comportamento aditivo que o introvertido que mantém uma distância segura em relação às coisas.

O extrovertido tende a viver dissociado e divorciado de si mesmo, dos seus sentimentos e pensamentos, refugia-se no objeto para afastar de si a dor e o sofrimento, e apercebe-se das suas necessidades quando a não satisfação das mesmas já é problemática. As necessidades subjetivas, de facto, são o seu ponto fraco, ignorando a saúde do seu próprio corpo em comportamentos pouco saudáveis. O não reconhecimento consciente das suas necessidades pode assumir proporções catastróficas a ponto de perder a referência e proporção das coisas em relação a si mesmo: está tão envolvido na realidade que se confunde com ela.

Resumindo
  • Precisa de estar e entrar em contacto com os outros para recarregar as suas energias de forma externa. É motivado ou tira a sua energia do mundo das coisas, das pessoas, das relações, das atividades. A forma de aprendizagem também é externa: precisa de conversar, de trocar ideias. Odeia fazê-lo por si mesmo, sem a interação com os outros e o mundo ao seu redor. Sente que lhe falta algo quando privado da interação com o mundo exterior, pois é este que o motiva. Procura inspiração pensando alto e em diálogo com os outros. Trabalha melhor em equipa que sozinho.
  • Obtém a sua energia através da ação; a sua energia psíquica e a sua atenção e interesse são dirigidos para fora de si, para as pessoas e para o mundo à sua volta. Real é o mundo à sua volta e é este, e não o seu pensamento, que determina o seu comportamento. O seu mundo interior é menos real e mais secundário na sua lista de prioridades e influencia menos o seu comportamento. Está mais interessado no que acontece à sua volta do que no que acontece no seu interior.
  • Gosta de realizar várias atividades; age primeiro e depois pensa. Quando inativo, a sua energia diminui, podendo até entrar em tédio e depressão. Em geral, é sociável. Enquanto o introvertido procura adaptar o mundo à sua mente, o extrovertido adapta-se, acomoda-se ao mundo. Neste sentido, facilmente muda de opinião como uma cana agitada pelo vento, como um camaleão e, quando é negativo, é uma pessoa sem princípios. Facilmente faz novos amigos ou se adapta a um novo grupo, e também facilmente rompe com relações indesejáveis. É aberto e diz o que pensa, e pode até não pensar no que diz.
  • Não é necessariamente altruísta, vai ter com os outros porque precisa deles. Os temas de conversa são triviais e superficiais, coisas do dia a dia e até mexericos. É aberto e falador, objetivo, uma pessoa de ação. É prolixo nos seus interesses e tem dificuldade em manter a atenção focada numa só coisa.
  • A maior parte da população é extrovertida. 
Profissões e formas de vida
Os extrovertidos são bons gestores, vendedores, treinadores, apresentadores, jornalistas entrevistadores, áreas onde é importante interagir com as pessoas e as coisas.

Ambivertidos
Ninguém é puramente introvertido nem puramente extrovertido ou estaria encerrado num manicómio.
Carl Jung

Os entendidos em ambiversão dizem que a maior parte da população é ambivertida. Ou seja, todos caímos nalgum ponto do espetro entre a extroversão e a introversão. É um conceito novo, desconhecido para Jung, o fundador da teoria da introversão e extroversão, embora ele mesmo entendesse que podia haver um grau intermédio entre estes dois contrários.

Esse grau intermédio é o ambivertido. Em meu entender, o ambivertido é fundamentalmente um introvertido, ou seja, está enraizado na introversão, mas também se dá bem fora da sua concha, à qual necessita de regressar. É versátil como um pato que tanto voa como anda ou nada.

Dá-se bem na solidão e entre a multidão. Na verdade, para ser ele mesmo necessita de alternar solidão com multidão, ou seja, estar a sós consigo mesmo e estar com os outros. Sente ambas as necessidades, pelo que tanto pode passar dias fora de casa, como passar dias sem sair à rua.

Perante um determinado estímulo, a reação de um introvertido e de um extrovertido é previsível; a reação de um ambivertido não é clara nem previsível, nem sequer para ele mesmo; depende de muitos fatores, entres os quais os interesses do indivíduo no momento.  Os ambivertidos podem ser excelentes conversadores e comunicadores e, por outro lado, também excelentes ouvintes.

O primeiro a usar o termo "ambivertido" foi o psicólogo americano Edmund S. Conklin, em 1923, segundo conta Ian Davidson, professor de Psicologia da Universidade de York, Canadá, num artigo datado de 2017. Davidson explica que um psicólogo da época dizia que Conklin "inventou a palavra" para descrever aqueles indivíduos que se encontram entre os introvertidos (que vivem na sua cabeça) e os extrovertidos (que vivem fora dela).

Os ambivertidos situam-se no meio do espetro entre a extroversão e a introversão; não são muito faladores nem vivem demasiado centrados em si mesmos; não têm uma necessidade forte e quase compulsiva de interagir com os outros, como o extrovertido puro, nem buscam a solidão para fugir à realidade, como os introvertidos. São flexíveis, tolerantes, ambivalentes, bilingues ou poliglotas, ecléticos, vivem com um pé em cada um dos dois mundos.

Resumindo
  • O ambivertido não tem medo de ser o centro das atenções, dependendo do contexto e da situação. Em muitas situações, prefere simplesmente observar tranquilamente sem participar ativamente.
  • Goza e diverte-se nas festas e eventos sociais durante horas a fio, porém, de repente, a energia esgota-se e precisa de se retirar para a sua zona de conforto.
  • Como os extrovertidos, gosta de conversar, mas não sobre assuntos triviais ou futebol.
  • Gosta de socializar, mas às vezes é reservado, sobretudo se não conhece alguém. E não será ele que toma a iniciativa de se apresentar como faria um extrovertido.
  • Alguns dos seus amigos pensam que é extrovertido, outros que é introvertido, isto porque se apresenta de diferentes maneiras em diferentes situações.
  • Em geral, pensa antes de falar; se alguém fala muito, ele escuta; se todos estão em silêncio, ele fala.
  • Os ambivertidos são os melhores a lidar com os extremos que provocariam o colapso dos introvertidos ou os extrovertidos, uma vez que têm um maior grau de tolerância tanto no extremo da introversão como no extremo da extroversão. 
Conclusão
Os introvertidos ficam em casa num dia de sol, os extrovertidos ficam na rua num dia de chuva, os ambivertidos aproveitam o sol e fogem da chuva.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de junho de 2020

3 Atitudes perante a Ira: Agressiva - Passiva - Assertiva

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Qualquer pessoa pode enfurecer-se facilmente; porém, enfurecer-se com a pessoa certa, com a intensidade certa, no momento certo, por um objetivo certo, e de uma forma certa, não está ao alcance de todos e não é fácil. Aristóteles

A ira e o amor são as emoções mais básicas do ser humano. São o Eros e o Tanatos de Freud, os polos positivo e negativo da energia humana, o Yin e Yang, dos orientais, são a afetividade e a agressividade que permeiam toda a ação humana.

A agressividade é tão necessária quanto a afetividade e o doseamento das duas na vida do dia a dia é uma questão de aprendizagem. Tanto uma como a outra energia devem ser sublimadas para que delas possamos ter um bom aproveitamento, tanto a nível individual como social. O problema surge quando a educação nos primeiros tempos da criança não é adequada. Inadvertidamente os pais passam para os filhos a sua boa ou má gestão da ira.

Natureza e génese da ira
A ira é como o fogo, só pode apagar-se à primeira faísca, depois é tarde. Giovanni Papini

A ira nasce do medo, e este de um sentimento de fraqueza ou inferioridade. Se tiver coragem ou determinação, terá cada vez menos medo e, consequentemente, sentir-se-á menos frustrado e incomodado. Dalai Lama

Ira, raiva, cólera, fúria, são várias as palavras para designar o mesmo sentimento ou emoção reativa que sentimos diante da adversidade que pode manifestar-se nos acontecimentos, pessoas ou coisas que nos antagonizam. É um sentimento natural: sem a ira, a vida não seria possível, por isso em si mesma é moralmente neutra não é positiva nem negativa do ponto de vista natural pois é necessária à vida.

Dissemos que a ira era uma emoção básica, mas isso não quer dizer que seja uma emoção primária. Na verdade, ela é secundária, ou seja, é apenas a ponta do icebergue de muitas outras emoções que existem a baixo da linha de água. A ira é a resposta do indivíduo a essas emoções e, essas sim, são primárias.

Que sinto eu antes de sentir ira, ou seja, antes de me zangar? Sinto medo, ansiedade, vergonha, frustração, humilhação, desmotivação, tristeza. Todos estes sentimentos precedem e motivam a ira. O problema é que a ira substitui estas emoções primárias tão rapidamente que não chegamos a ter consciência delas; mas são elas que motivam a ira como reação, ou seja, a ira é uma reação a essas emoções primárias.

No entanto, estamos apenas cientes de que estamos zangados ou, muitas vezes, nem isso. Pode acontecer que os outros, ao verem-nos irados, nos confrontem e chamem a atenção para o facto de estarmos zangados. A nossa primeira reação é negar que estamos zangados, mesmo que a ira já tenha motivado uma má palavra, um insulto ou uma ação violenta.

A ira é uma emoção poderosa: ou a controlamos ou ela controla-nos a nós. A função da ira é proteger-nos do meio ambiente e dos outros. Os pensamentos negativos são o resultado de emoções primárias negativas como as que referimos; tudo o que precisamos em seguida é de um gatilho, de qualquer situação que nos fará explodir. Tudo acontece num ápice de tempo.

A gestão da ira só é possível se eu me der tempo para descobrir as emoções primárias que a motivam. Onde há fumo há fogo, toda a emoção primária já é uma reação a uma necessidade não satisfeita. As emoções primárias que atrás referimos como estando na origem da ira são elas mesmas uma reação ao facto de uma necessidade humana não estar a ser satisfeita. Uma vez descobertas essas necessidades, tudo o que temos de fazer é satisfazê-las de uma forma adequada e o sentimento de ira implode, como aquelas bombas que colocam nos edifícios e que os fazem cair sobre si mesmos em vez de explodirem em todas as direções.

Há dois tipos de ira: a ira justa ou justificável e a ira injusta ou não justificável que é uma ira pessoal e transferencial. As duas são parecidas ou podem até partilhar os mesmos métodos, força e violência, mas o fim não é o mesmo. Por outro lado, uma é controlada por quem a usa, a outra (a transferencial) controla geralmente quem a usa.

Ira justa
Ai de vós, doutores da Lei e fariseus hipócritas, porque fechais aos homens o Reino do Céu! Nem entrais vós nem deixais entrar os que o querem fazer. Ai de vós, doutores da Lei e fariseus hipócritas, que devorais as casas das viúvas, com o pretexto de prolongadas orações! Por isso, sereis mais rigorosamente julgados. Mateus 23, 13-14

Chegaram a Jerusalém; e, entrando no templo, Jesus começou a expulsar os que vendiam e compravam no templo; deitou por terra as mesas dos cambistas e os bancos dos vendedores de pombas, (…) E ensinava-os, dizendo: “Não está escrito: a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos? Mas vós fizestes dela um covil de ladrões”. Marcos 11:15-17

Jesus de Nazaré, como pessoa cem por cento humana, experimentou a ira muitas vezes na sua vida, precisamente porque encontrou muita adversidade e antagonismo, especialmente entre os escribas, fariseus e doutores da lei. Sentiu certamente raiva porque os seus compatriotas estavam obtusamente fechados à sua mensagem e, perante a impotência de os fazer mudar, chorou sobre Jerusalém (Lucas 19, 41-44). O choro é uma das melhores formas de nos desenvencilharmos de emoções negativas como a ira.

Acabámos de exemplificar as vezes que Jesus atuou motivado pela sua ira, ou seja, expressou-a na acusação que várias vezes fez contra os líderes do povo e na limpeza do comércio que fez no Templo. Nestas duas ocasiões podemos ver as marcas que distinguem a ira justa da que não o é:

Adequada e proporcional - A ira justa é controlada por quem a usa, ou seja, a pessoa que a usa nunca perde as estribeiras, pois não tem a intenção de infringir danos no outro. É controlada e adequada como a ira que os pais usam com os filhos: não lhes querem mal, pelo contrário, temem que o seu comportamento seja destrutivo.

Não tem relação com o passado – Ao contrário da ira transferencial que provém do passado individual da pessoa irada, o que motiva e suscita a ira justa pertence ao presente e está patente aos olhos de todos.

Ira altruísta – O objetivo da ira é restaurar a harmonia, a justiça, a paz. Assim foi no caso de Jesus. Jesus nunca se irou por motivos pessoais, mas irou-se para defender os pobres dos seus opressores; é neste sentido que lhe chamo uma ira altruísta, em contraposição com a ira transferencial que é egoísta.

Ira transferencial
Anger is never without a reason, but seldom with a good one. (A ira nunca é desprovida de razão, mas raramente tem uma boa razão). Benjamin Franklin

Ao definirmos a ira transferencial, percebemos que serve o contrário de tudo o que dissemos sobre a ira justa. Não é adequada nem proporcional ou controlada: pelo contrário, é frequentemente desproporcional, inadequada, não tem como fim o bem do outro, mas algum motivo egoísta ou até mesquinho. Muitas vezes, é a ira que controla a pessoa irada e não o inverso.

A génese desta ira está no passado, ou seja, a pessoa já a contém, vive irada e só precisa de uma situação ou acontecimento que a faça espoletar; por isso se chama ira transferencial, porque foi gerada num acontecimento passado e, como a pessoa naquele tempo não a exprimiu por estar numa situação de inferioridade, por exemplo, por ser criança, acabou por suprimi-la ou reprimi-la.

Um exemplo clássico de ira reprimida é a que é causada pelo patrão que repreende duramente o empregado; este, não podendo descarregar sobre o patrão a sua ira, chega a casa e fá-lo sobre a mulher por qualquer razão, a mulher fá-lo em seguida sobre o filho e o filho dá um pontapé ao cão ou ao gato, na esperança de que este último saiba lidar melhor com a raiva porque não tem ninguém abaixo dele sobre quem a descarregar.

Neste caso, a raiva saiu de dentro do indivíduo e não foi reprimida ou suprimida, apenas se usou outra pessoa como saco de pancada do pugilismo. A ira transferencial provém de um passado mais longínquo: o episódio ou episódios que a originaram foram graves abusos da autoridade sobre alguém indefeso e que não tinha forma de exprimir a ira que evidentemente se interiorizou. O tempo pode fazer esquecer os factos que originaram essa ira, mas não apaga a ira e muitas vezes até a faz fortalece.

Esta ira que se volta para dentro não desaparece e sempre que um acontecimento do presente apresenta semelhanças com aquele do passado, inconscientemente o nosso psiquismo vai buscar aquela ira, liga-se a ela e expressa agora aquilo que não expressou no passado. A raiva é desencadeada quando eventos ou pessoas do presente são interpretados de uma forma semelhante aos eventos e pessoas do passado.

Em cada infração do presente, inconscientemente, vemos os monstros do passado e reagimos como devíamos ter feito nesse tempo. É evidente que acaba por pagar o justo pelo pecador. A pessoa do presente sobre a qual descarregamos a nossa ira é somente um bode expiatório da ira que temos acumulada e que não foi descarregada na altura sobre o móbil que a originou.

Cervantes, o autor do livro Don Quixote de la Mancha, descreve muito bem este caso no famoso e emblemático episódio dos moinhos de vento. Iam Don Quixote e o seu escudeiro Sancho Pança trotando pela Mancha, quando viram uns trinta ou quarenta moinhos de vento. Don Quixote dirigiu-se ao seu escudeiro Sancho Pança, “Vês ali aqueles gigantes?”, “Que gigantes?” perguntou Sancho Pança, “Aqueles que vês ali, de braços compridos.”.

Apesar da advertência e do realismo de Sancho Pança que só via moinhos de vento, Don Quixote investiu contra os moinhos, pensando que eram gigantes. Don Quixote viu neles os seus inimigos do passado que eram gigantes para ele e o tinham derrotado; mas neste momento, achou-se com capacidade para os enfrentar.

Como a comunicação não-violenta vê a ira
A raiva é uma expressão suicida de uma necessidade não satisfeita M. Rosenberg

Enganamo-nos a nós mesmos quando pensamos que os nossos sentimentos resultam do que os outros dizem ou fazem. Em vez de buscar em nós mesmos a causa da nossa ira ou de quaisquer outros sentimentos ou emoções, culpamos os outros, procuramos um bode expiatório e frequentemente descarregamos sobre ele a nossa ira em forma de vingança ou punição. A ira está para a sua causa como o fumo está para o fogo: onde há fumo há fogo, onde há ira há uma necessidade nossa que não está a ser satisfeita. É esta necessidade que causa a ira e não o que o outro disse ou fez.

Rosenberg dá como exemplo o caso de um prisioneiro numa prisão sueca, a quem perguntam o que é que as autoridades da prisão tinham feito para provocar a sua ira; ele respondeu, “há já três semanas que fiz uma petição e eles ainda não responderam”. O prisioneiro fez uma observação pura sem misturar nenhuma avaliação, ou seja, sem qualificar o comportamento das autoridades prisionais. Porém, o estímulo parece coincidir com a causa, ou seja, ele culpa as autoridades pela sua ira.

Ao voltar-se para si mesmo na procura da razão ou causa da ira, o prisioneiro descobriu que, de facto, o que sentia era medo de sair da prisão sem ter um curso, uma profissão para poder sustentar-se. O que causa a nossa ira não é o que os outros dizem ou fazem, mas a nossa interpretação e avaliação negativa do que dizem e fazem, assim como o que nós dizemos a nós mesmos.

O prisioneiro descobriu que estava zangado por achar que não era justa a forma como estava a ser tratado, não era assim que se tratavam seres humanos. Sentimos ira porque interpretamos e julgamos como mau, injusto, desumano, o comportamento que desencadeia a nossa ira. O comportamento desencadeia a ira, mas o que a causa é a nossa interpretação desse mesmo comportamento e o veredito que atribuímos às pessoas, julgando-as egoístas, injustas, cruéis, etc.

A raiva resulta de concentrarmos a nossa atenção no que a outra pessoa "deve" ou "não deve" fazer e julgá-la como "errada", "ruim" ou “egoísta”, etc. A ira mantém-nos focados sobre o que não gostamos, em vez de nos ajudar a ligarmo-nos às nossas necessidades. Mudando o foco da nossa atenção, perguntando-nos pelas necessidades que ficam por satisfazer enquanto acusamos os outros, o sentimento da raiva desaparece ou é substituído por sentimentos que servem a vida, como o medo, a desilusão, a tristeza ou a dor.

As sentenças que pronunciamos ao julgar aquele cujo comportamento desencadeou a nossa ira são expressões alienadas e trágicas de necessidades nossas que se encontram por satisfazer. Em vez de olharmos para dentro de nós para nos ligarmos às nossas necessidades, saímos para fora de nós e acusamos e culpamos os outros pela insatisfação dessas necessidades.

Voltando ao prisioneiro sueco, Rosenberg perguntou-lhe que necessidades insatisfeitas estavam por detrás das acusações feitas às autoridades da prisão? Não foi fácil a resposta, pois estamos mais habituados a reagir e julgar os outros que a fazer exercícios de introspeção e ligação com o que verdadeiramente necessitamos; por fim, o prisioneiro disse “Bom, a minha necessidade é ser capaz de sobreviver conseguindo um emprego depois de sair da prisão; o pedido que eu fiz às autoridades era aprender um ofício durante o tempo de reclusão.”

Perguntou Rosenberg, “Como te sentes agora?”, “com medo”, respondeu o prisioneiro. Ao ligar-se à necessidade que provocava o medo como emoção primária e a raiva contra as autoridades, como emoção secundária, esta última acabou por dissolver-se por si mesma, implodiu como atrás dissemos e deixou de se fazer sentir.

Recapitulando, perante a raiva, a primeira coisa a fazer é contê-la com uma respiração profunda, contar até 10, depois verificar a emoção primária que subjaz à raiva respondendo à pergunta “por que estou irado?” Por fim, é nossa responsabilidade descobrir a que necessidade se refere essa emoção primária e verificar que a solução ou satisfação dessa necessidade não cabe à pessoa contra quem estamos irados.

Reativo versus proativo
A man in a passion, rides a mad horse (Um homem consumido por uma paixão, cavalga um cavalo louco) Ben Franklin

Muito do que dizemos neste capítulo refere-se a outras emoções e não só à emoção da ira, mas como esta é a mais reativa das emoções, tudo o que aqui dizemos pode aplicar-se à ira quando a vivenciamos de uma forma agressiva e explosiva ou seja, reativa.

Escusado será dizer agora que o comportamento reativo é o nosso comportamento animal, uma vez que provém dos cérebros límbico e réptil que foram concebidos para livrar os répteis e os mamíferos dos perigos que encontram nas suas vidas. Não foram concebidos para as situações que um ser humano encontra em si mesmo e nos seus semelhantes: nestas situações é o neocórtex que nos ajuda e não os outros dois. Isto que sabemos à priori a nível teórico não é o que na hora da verdade aplicamos no dia a dia das nossas vidas.

Forma de atuar – A pessoa reativa atua dentro de um padrão de causa-efeito, estímulo-resposta, enquanto que a pessoa pró-ativa tem consciência das suas emoções e decide livremente o que é adequado fazer com elas, assume conscientemente as rédeas do seu comportamento.

Perante o erro – O reativo diz que a culpa não foi dele e, se chega a admiti-la, diz que todos são assim e que errar é humano. O pró-ativo entende que “mal de muitos é consolo de tontos” e por isso aprende com o erro, encontra em todos os erros uma lição para aprender.

Perante a adversidade - O reativo sente-se vítima, desmotiva-se, perde o controlo, deprime-se, questiona a sua autoestima, teme o fracasso e não atua. O pró-ativo sabe que a adversidade é o melhor dos mestres; onde há uma crise, há uma oportunidade de crescer, de descobrir coisas novas e a necessidade aguça o engenho.

Perante o futuro - O reativo acha-se perseguido pelo azar ou acha que os que triunfam na vida não chegam lá pelo trabalho, mas sim pela sorte. É supersticioso e acredita no destino ou na predestinação. O pró-ativo entende que o futuro e o sucesso dependem dele, estão nas suas mãos, e que o que acredita que vai acontecer acontece mesmo com o seu esforço. 

Perante o uso do tempo – O reativo está sempre muito ocupado e não tem tempo sequer para os seus, vive ansioso e stressado por falta de organização, frequentemente usa mal o tempo, perde-o em coisas sem importância e depois falta-lhe para coisas importantes; boicota-se a si mesmo. O pró-ativo trabalha com organização e método, pelo que sempre encontra tempo para as coisas importantes da sua vida, para si mesmo e para os outros, vive sem stress e sem ansiedade.

Perante os desafios - O reativo foge com o rabo à seringa, contorna os desafios, não os enfrenta, esconde a cabeça debaixo da areia como a avestruz. O pró-ativo enfrenta os desafios um a um, com método, organização e coragem, acha que o touro é para pegar pelos cornos.

Perante o compromisso - O reativo faz promessas que não cumpre, é como o personagem do evangelho que diz ao pai que vai trabalhar na vinha, mas depois não vai, e encontra sempre justificações para o seu comportamento desleixado e preguiçoso. O pró-ativo é fidedigno e confiável pois não falta ao que prometeu. O pró-ativo tem uma visão mais ampla, consegue ver a parede na sua totalidade, enquanto que o reativo fixa-se apenas no azulejo que lhe cabe colocar nela.

Perante o espelho - O reativo diz “não sou tão mau como dizem, ainda há pessoas piores que eu”. O pró-ativo diz “sou bom, mas posso ser melhor”.

Em diálogo - O reativo não espera que chegue a sua vez para falar, interrompe e pensa que o que tem a dizer é mais importante, não é bom ouvinte e está sempre a pensar numa resposta, quer ganhar a contenda e não se importa de perder o adversário; por outro lado, resiste a todos os que sabem mais que ele e apenas se fixa nos defeitos deles para lhos atirar à cara. O pró-ativo é calmo, ouve, compreende, pensa e responde, encontra coisas positivas no que os outros dizem e começa a sua intervenção mencionando-as, respeita os que sabem mais que ele e procura aprender com eles.

Perante o progresso - O reativo resiste ao progresso, é apaixonado pelo “status quo” e pelas suas rotinas, acha que sempre se fez assim e sempre há de fazer-se assim, não há outra maneira. O pró-ativo quer crescer e acha que deve haver uma maneira melhor de fazer as coisas. Por isso, em resumo, o reativo é parte do problema, enquanto que o pró-ativo é parte da solução.

Gestão da ira
Ouvistes o que foi dito aos antigos: não matarás. Aquele que matar terá de responder em juízo. Eu, porém, digo-vos: Quem se irritar contra o seu irmão será réu perante o tribunal; quem lhe chamar “imbecil” será réu diante do Conselho; e quem lhe chamar “louco” será réu da Geena do fogo.

Se fores, portanto, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta. Mateus 5, 21-24

Como atrás vimos, o comportamento humano é precedido pelo pensamento e sentimento antes de chegar à ação. Se queremos travar a ação é mais sábio travá-la no sentimento ou no pensamento que travá-la mais tarde. Isto é verdade em relação a todo o pensamento ou emoção e duplamente verdade em relação à ira. Como acima se referiu, a ira é como o fogo que é relativamente fácil de apagar se o apanharmos no começo; mas se o deixarmos alastrar, não haverá nada a fazer.

Quanto mais tempo passamos a pensar num ressentimento, mais o nutrimos; no caso da ira, do ressentimento passamos ao ódio, do ódio ao insulto e do insulto à ação. Por isso, para Jesus, pecado não é só matar, mas todos os passos que levam a essa ação; como bom psicólogo que era, Jesus enumera esses mesmos passos: o sentir a ira, o insultar e castigar, esses passos são pecados tanto quanto o ato de matar.

Para reduzir em segurança a alta velocidade de um carro, é preferível reduzir as mudanças de 5ª para 4ª, de 3ª para 2ª, do que aplicar o travão a fundo, pois o travão só trava as rodas e não a inércia e a velocidade do corpo do carro. Por outro lado, há sempre uma roda que trava mais que a outra desequilibrando perigosamente o carro.

Ao reduzir as mudanças, estou a travar com o motor, ou seja, estou a obrigar o centro do carro a entrar  numa velocidade mais curta e assim reduzo a velocidade do carro em segurança. O mesmo acontece com o nosso comportamento: se dou azo aos pensamentos e sentimentos e procuro travar a ação, é como travar com as rodas; se, por outro lado, controlo os meus pensamentos e sentimentos, estou a travar ou a evitar a ação no meu centro, onde estes têm origem ou a partir de onde se projetam.

Há três formas de gerir a ira: o agressivo é violento, grita, explode, vinga-se por tudo e por nada e só se dá conta do mal que faz depois de o ter feito; é um Incrível Hulk. O passivo nega e esconde a sua ira dos outros e até de si mesmo, mais tarde explode sem ele nem os outros saberem porquê, ou dá bofetadas escondendo a mão; é um terrorista. O assertivo distancia-se da sua ira, separa o bebé da água do banho, denunciando o pecado sem acusar o pecador; é um diplomata.

AGRESSIVA
Nenhuma palavra desagradável saia da vossa boca, mas apenas a que for boa, que edifique, sempre que necessário, para que seja uma graça para aqueles que a escutam. Toda a espécie de azedume, raiva, ira, gritaria e injúria desapareça de vós, juntamente com toda a maldade. Sede, antes, bondosos uns para com os outros, compassivos; perdoai-vos mutuamente, como também Deus vos perdoou em Cristo. Efésios 4, 27, 29, 31-32
  • Speak when you are angry and you will make the best speech you will ever regret (Falai quando estiverdes zangados e fareis o melhor discurso do qual vos arrependereis para sempre). Ambrose Bierce 
  • Anger is one letter short of danger (À ira (anger) falta uma só letra para ser perigo (danger)).  Eleanor Roosevelt 
  • Mais penosas são as consequências da ira do que as suas causas. Marco Aurélio 
  • Agir com raiva é o mesmo que içar a vela na tempestade. Eurípedes 
  • If a small thing has the power to make you angry, does that not indicate something about your size? (Se uma pequena coisa tem o poder de vos enfurecer, será que isso não indica algo acerca do vosso tamanho?) Sydney J. Harris 
  • He who angers you conquers you (Aquele que te enfurece, derrota-te). Elizabeth Kenny 
A ira que existe naturalmente porque tem a função de nos proteger e de nos lançar na vida, usada agressivamente, vai contra a nossa vida e contra a vida dos outros, destrói a harmonia e só consegue a paz do cemitério.
Estar sob a influência da ira é como estar sob a influência do álcool: não sabemos o que dizemos nem o que fazemos. A ira envolve o nosso neocórtex num nevoeiro cerrado, chega a desativá-lo, a deixá-lo KO, ficando a pessoa fora de si, sem nenhum controlo sobre a ira, completamente possuída por este demónio que faz dela o que quer.

Uma ação não iluminada pela razão é uma ação instintiva e animalesca. O agressivo vive no passado interpreta erradamente o presente pois vê-o e analisa-o com o cérebro reptiliano que só serve para as cobras. Por isso se diz “é ruim como as cobras”. Ou então usa o cérebro mamífero que foi desenhado para lobos, não para humanos; por isso Thomas Hobbes afirma que o homem é lobo do homem. O agressivo é contra tudo e contra todos porque vive na crença de que tudo e todos lhe são antagónicos, não confia em ninguém.

Para o agressivo, o ataque é a melhor defesa, explode com facilidade, ferve em pouca água; controla os outros e procura ter poder sobre eles, porque não tem nenhum poder nem controlo sobre si mesmo; usa frequentemente a intimidação; está apaixonado pelo poder e nunca chega a descobrir o poder do amor. Gosta de tirar o tapete de baixo dos pés dos outros e tem prazer em desmascarar os hipócritas.

Diz obscenidades, insulta com facilidade, possui uma voz firme, dura e afiada, grita, subindo de tom no final do seu discurso. Tem um tom de voz sarcástico e frio, é loquaz, o seu discurso é fluente, sem hesitações; tem tendência a usar palavras acusatórias, o contacto visual é um olhar fixo no intuito de intimidar e dominar. Aponta com o dedo, bate com o punho, é impaciente

A vingança do agricultor
If you are patient in one moment of anger, you will escape a hundred days of sorrow (Se fores paciente num momento de ira, escaparás a cem dias de pena). Provérbio chinês
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Um agricultor, enraivecido com uma raposa que lhe roubara as galinhas, conseguiu depois de muito tempo apanhá-la e decidiu vingar-se matando-a, mas também fazendo-a sofrer por todo o ressentimento que lhe tinha causado. Amarrou ao rabo da raposa a uma corda grossa bem embebida em óleo e incendiou-a. A raposa, por uma fatalidade estranha ou ironia do destino, desatou a correr em direção aos campos de trigo louro e maduro do agricultor. Era tempo de colheita, mas nesse ano o agricultor não colheu nada.Quem mal quer fazer, mal lhe há-de acontecer. Voltou-se o feitiço contra o feiticeiro.

Bem mais positiva é a história de Buda, que ia passando de aldeia em aldeia com os seus discípulos, enquanto os aldeões o insultavam por entenderem que ele pervertia a juventude com as suas ideias. A determinada altura, um dos discípulos perguntou ao mestre, “mas tu não ouves os insultos que te dizem estes aldeões?”, ao que o mestre respondeu “ouço sim, eles insultam-me, mas eu não me sinto insultado”.

O efeito dominó da ira
Quando se responde com ira à ira, esta aumenta exponencialmente em intensidade e envolve cada vez mais gente; chama-se a este fenómeno a espiral da violência. Mas a ira ou violência tem também um efeito dominó, como o comprova a história seguinte:

Enquanto a família tomava o pequeno almoço, a menina por descuido deixou cair a chávena do café que manchou a camisa branca do pai. Este repreendeu-a severamente e esta começou a chorar. Em seguida, o pai culpou também a esposa por ter deixado a chávena muito perto da beira da mesa, e esta reagiu, dando início a uma batalha verbal.

Contrariado e resmungando, o pai foi mudar de camisa e quando voltou a menina continuava a chorar e acabou por perder o autocarro escolar. A esposa foi para o trabalho contrariada e o pai teve de levar a filha à escola. Como já estava atrasado para o trabalho, ultrapassou o limite de velocidade e foi multado pela polícia. Chegou por fim à escola e a menina não se despediu do pai.

Quando chegou atrasado ao escritório, ouviu um sermão do patrão e ainda por cima se apercebeu que, com os nervos, tinha deixado a pasta em casa. Teve de regressar a casa e de ouvir mais impropérios do patrão. Terminado o dia, voltou para casa onde reinava uma atmosfera de tormenta, silêncio frio e um ambiente de cortar à faca.

De quem foi a culpa de tudo isto? Dele e só dele. Acidentes como este são comuns, a culpa não é de ninguém, mas a forma como reagimos é da nossa total responsabilidade. Bastava ter dito “não faz mal, pode acontecer a qualquer um” e o dia teria sido diferente.

PASSIVA
Se vos irardes, não pequeis; que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento, nem deis espaço algum ao diabo. Efésios 4:26
  • Anger is an acid can do more harm to the vessel in which it is stored than to anything on which it is poured (A raiva é um ácido que pode danificar mais o recipient onde está guardado do que a superfície sobre a qual é derramado). Baptist Beacon 
  • Bitterness is like cancer. It eats upon the host. But anger is like fire. It burns it all clean (O azedume é como o cancro. Come o hospedeiro. Mas a raiva é como o fogo. Queima, até tudo ficar limpo). Maya Angelou 
  • Learn this from me. Holding anger is a poison. It eats you from inside. We think that hating is a weapon that attacks the person who harmed us. But hatred is a curved blade. And the harm we do, we do to ourselves (Aprendam isto comigo. Reter a raiva é veneno. Come-te por dentro. Achamos que odiar é uma arma que ataca a pessoa que nos magoou. Mas o ódio é uma lâmina curva. E o mal que fazemos, é a nós que fazemos).  Mitch Albom 
  • Segurar a raiva é como agarrar um carvão quente com a intenção de o atirar a outra pessoa, tu és o único que fica queimado. Buda 
  • Guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra. William Shakespeare 
O mal fica com quem o pratica, diz o provérbio, a raiva faz mal sobretudo a quem a sente e não tanto a quem a recebe, a menos que quem a recebe seja uma criança. Suprimir ou reprimir a ira é enganar-se a si mesmo, suprimir ou reprimir a ira não a anula, ela não vai embora vai para o inconsciente porque o consciente a nega.

A ira não se perde, o que se perde é o controlo sobre a mesma. Para a saúde emocional e física da pessoa, melhor seria a explosão. Mesmo que tenhamos dito a nós mesmos que o que aconteceu não tem valor nenhum, o nosso inconsciente dá-lhe o devido valor e defende-nos, de alguma forma, de nós mesmos.

A supressão pode fazer apagar os nossos sentimentos em relação às pessoas, pode colocar minas que em dado momento explodem e apanham as pessoas que vivem à nossa volta. A ira crónica não resolvida pode originar problemas de saúde, como úlceras e depressões.

A pessoa passiva cede às exigências exageradas dos outros. Padece de apatia, cede aos outros o controlo da sua vida, é acriticamente submissa. Nunca oferece o seu parecer antes de os outros darem o seu. Nunca critica nem emite um parecer negativo, culpabiliza-se sem ter culpa nenhuma. A voz é, por vezes, frágil, com um tom monótono, excessivamente tímido ou cálido e, tão silencioso, que muitas vezes cai no final. O fluxo da fala é hesitante e cheio de pausas e dúvidas; aclara a garganta com frequência, sorri falsamente quando está irritada ou é criticada, levanta o sobrolho sempre à espera de uma repreensão, etc. O contacto visual é evasivo e abatido.

O que leva a pessoa a ser passiva? Provavelmente todos na família eram tão atenciosos e prestáveis que a criança nunca teve a oportunidade de praticar o dizer que não. A obediência pode ter sido tão enraizada na criança que ela não consegue repensá-la como adulta.

Passiva agressiva
A pessoa passiva agressiva é uma espécie de combinação entre a agressiva e a passiva. Muitas das pessoas passivas, são passivas agressivas. Para as definir, temos de as comparar com as agressivas. A pessoa agressiva é frontal, declara e luta numa guerra aberta; a passiva agressiva é mais parecida com a atitude de covardia do terrorismo - uma combinação de agressividade com medo de expressá-la abertamente.

Em grande parte, a pessoa não tem consciência deste comportamento, de dar bofetadas escondendo a mão, ou de ter comportamentos negativos em relação à pessoa de quem procura distanciar-se. Por exemplo, a dona de casa que está furiosa com o marido sem o demonstrar, faz a comida de que ele não gosta ou coloca sal a mais na mesma.

A pessoa passiva agressiva esquece compromissos e coisas que têm um impacto na vida das pessoas, confunde tudo acidentalmente. Tem afirmações sarcásticas, não é pontual, é teimosa, costuma ter dores de cabeça ou das costas ou inventa-as. Fracassa de propósito ou executa mal as suas tarefas para que a substituam. Fica contente quando as coisas correm mal.

ASSERTIVA
“Porque me interrogas? Interroga os que ouviram o que eu lhes disse. Eles bem sabem do que Eu lhes falei.” Quando Jesus disse isto, um dos guardas ali presente deu-lhe uma bofetada, dizendo: “É assim que respondes ao Sumo Sacerdote?” Jesus replicou: “Se falei mal, mostra onde está o mal; mas, se falei bem, por que me bates?João 18, 21-23

Postpone today's anger until tomorrow (Adia a raiva de hoje para amanhã). Provérbio filipino

O Sumo Sacerdote não estava a proceder bem segundo o Direito tanto romano como judaico, estava a infringir a lei ao interrogar diretamente o réu. Pelo contrário, deveria interrogar as testemunhas. Jesus na sua intervenção aludiu à lei e à prática da lei, mas fê-lo sem acusar o Sumo Sacerdote de estar a atuar ilegalmente.

A pessoa assertiva menciona o pecado, tendo o cuidado de não acusar o pecador, na esperança de que seja o próprio pecador a ver o pecado e os efeitos ou consequências sobre as suas vítimas e que acabe por se acusar ele mesmo e reconhecer o erro. Acusar o pecador do seu pecado tem geralmente um efeito contraproducente, uma vez que a tendência do pecador será defender-se por se sentir atacado e tentar justificar a sua falta.

Da mesma forma se comportou Jesus quando levou a bofetada do soldado. Não reagiu agressivamente por palavras nem por ações, obrigou o soldado a pensar, a deixar o seu cérebro de reptiliano e límbico e a usar o seu neocórtex, procurando nele uma justificação para a sua agressão ao perguntar-lhe “por que me bates?”

A pessoa agressiva visa punir, a assertiva procura ajudar a pessoa que errou. Tenta ser compreensiva, é flexível e está disposta a procurar alternativas. Reconhece que todos nós temos falhas, sabe que mesmo as melhores pessoas às vezes cometem erros. Sabe o valor do perdão, reconhece que sempre se pode melhorar, não diz basta, nunca dá ninguém por perdido, nem abdica de ninguém cortando relações para sempre.

É capaz de defender os próprios direitos sem violar os direitos dos outros. De expressar as próprias necessidades, desejos, opiniões, sentimentos e crenças, direta, honesta e adequadamente.

A pessoa assertiva tem presente que quando alguém se dirige a ela zangado, sem motivo aparente, essa ira é transferencial e, nesse momento, ela representa para essa pessoa uma outra do passado. Por isso, a raiva não é para si, mas para o monstro do passado, que nesse momento representa. Isto é particularmente verdade nas escolas, quando os alunos se revoltam contra os professores.

A pessoa assertiva responsabiliza-se pelos próprios sentimentos, revela as feridas que a ação do outro lhe causou, mas sem o acusar, na esperança de que o outro também tome consciência da sua ação. Nunca diz que os outros o irritam, nem lhes chama nomes, nem lhes coloca rótulos, mas responsabiliza-se pela própria ira quando a sente. Mesmo irada, reconhece virtudes e não só defeitos naquele que lhe espoletou a ira.

Utilizar o sujeito Eu em vez do sujeito tu
Agressiva – (Tu) Estás sempre a interromper as minhas histórias.
Assertiva – (Eu) Gostaria de contar histórias sem ser interrompido.
Agressiva – (Tu) Envergonhaste-me diante de toda aquela gente.
Assertiva – (Eu) Senti-me envergonhado quando disseste aquilo diante daquela gente toda.

Utilizar descrições factuais em vez de juízos de valor ou exageros
Agressiva – Este trabalho é uma porcaria.
Assertiva – A pontuação do teu relatório precisa de ser mais trabalhada. Além disso, os títulos estão espaçados de forma inconsistente.
Agressiva – Se não mudas de atitude vais ter grandes problemas.
Assertiva – Se continuas a chegar depois das 8 horas, terei de te cortar dois dias de salário.

Expressar pensamentos, sentimentos e opiniões assumindo a sua responsabilidade por eles
Agressiva – Ele deixa-me furioso (nega responsabilidade pelos sentimentos).
Assertiva – Zango-me quando ele não cumpre o que prometeu (responsável pelos sentimentos).
Agressiva – A única política aceitável é igualar a concorrência (afirma a opinião como se fosse um facto, agressivo e controlador).
Assertiva – Acredito que igualar a concorrência é a melhor política (assume responsabilidade pela opinião).

Como qualquer outro sentimento ou emoção, não é nossa responsabilidade sentir a ira em diferentes situações da vida, mas é nossa responsabilidade apropriarmo-nos dela, fazendo-nos responsáveis tanto por senti-la, porque surge do nosso interior, como pela forma como a gerimos.
Pe. Jorge Amaro, IMC