1 de setembro de 2020

3 Pilares da vida humana: Tempo - Energia - Vocação

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Quando falámos do universo, dissemos que se reduzia a tempo, espaço e matéria ou energia. Os mesmos elementos constituem ou são os pilares do nosso pequeno universo: a vida humana. Tendo em mente que, como disse Einstein, a energia é uma forma de matéria assim como a matéria é uma forma de energia, podemos definir a vida como sendo um contínuo de transmutação entre matéria e energia, ou seja, energia que se transforma em matéria e matéria que se transforma em energia durante um tempo e espaço determinados.

O sentido da nossa vida, ou seja, deste contínuo de transmutação entre a matéria e a energia durante um tempo, é-nos dado pelo terceiro fator: a vocação. Alguém dizia que o mais importante da vida não é reproduzir-se, mas sim produzir, pois reproduzir-se também os animais o fazem. A vocação tem a ver com essa produção; dá sentido e justifica o nosso viver e abrindo-nosa porta da eternidade, ou seja, liga a temporalidade com a eternidade; porém não devemos entender a vida eterna como um prolongamento do tempo e do espaço, mas sim a ausência do tempo e do espaço.

Quando falamos do começo do universo, falamos do Big Bang que ocorreu num dia sem ontem. Com o Big Bang foram criados o tempo e o espaço, o que significa que existe uma realidade anterior ao tempo e ao espaço – Deus. O terceiro fator, a vocação, encerra em si o sentido da nossa via, o caminho para o Céu na terra chamado felicidade e o caminho para o Céu além do espaço e do tempo, que é a eternidade com Deus.

Há inúmeros livros de espiritualidade que nos falam da vida como um dom de Deus. Não nego que o seja; porém, eu prefiro olhar para a vida, em especial para a etapa espácio temporal desta, como um empréstimo que adquirimos de Deus. Este empréstimo consta de tempo, recursos, matérias ou bens adquiridos ou por adquirir e recursos espirituais, ou seja, talentos com os quais nascemos. 

Não somos os donos da nossa vida, pois nada fizemos para a ter, nem nada podemos fazer para a reter. Somos apenas os administradores dela e, desta administração do tempo que nos é dado viver, do lugar que ocupamos, dos recursos materiais e espirituais que nos foram confiados, daremos um dia conta a Deus que é o único proprietário da nossa vida.

É neste sentido que o terceiro fator, a vocação, aparece como a forma como a nossa vida vai ser produtiva, vai realizar um projeto que lhe dará sentido aqui e agora e para além do aqui e agora, levando.nos à eternidade. Uma vida temporal dedicada ao cultivo de valores humanos leva à eternidade, porque os valores humanos são eternos, ou atemporais, eles são inalteraveis pelo tempo, de uma geração para outra ou pelo espaço, de uma cultura para outra.

Se a vida fosse um dom, giraria à nossa volta; mas a nossa vida não gira à nossa volta, mas sim à volta do que fizermos com ela, da nossa vocação, do nosso projeto, da porta de entrada para a autorrealização na Terra e para a conquista do Céu.

TEMPO
O homem de hoje é fortemente influenciado pela espiritualidade do “presentismo”, vinda do Extremo Oriente, e pela filosofia de vida do consumismo, que apela mais aos nossos instintos básicos e menos à nossa razão, procurando desligar os nossos atos no presente das suas causas no passado e das suas consequências no futuro. O objetivo é levar o homem a viver no pseudo eterno presente de um nirvana consumista.

Esta filosofia pode ser boa para a economia, uma vez que leva as pessoas a consumir para além das suas posses, já que podem sempre pedir dinheiro emprestado com os seus cartões de crédito. As consequências desta filosofia são nefastas para a saúde, porém como só se sofrem no futuro, quem vive só no presnte não se preocupa. É um pouco como a atitude de Karl Marx perante a morte: “esta não me deve preocupar” dizia ele, “pois enquanto eu for, ela não será, e quando ela for, eu não serei”.

É verdade que a vida só pode viver-se no presente, pois este é o único tempo em que somos livres de atuar e decidir; o passado já não pode ser modificado e o futuro ainda não existe. Porém, o presente não consta só do presente, nem o passado se refere só ao passado e o futuro não existe só no futuro. Os três tempos são interativos. Esta interação acontece só no presente, por isso o presente não é só acerca do que está acontecendo, mas também o ponto de encontro dos outros dois, do passado e do futuro.

Quem vive no presente, desintegrado e sem referência ao passado é um morto-vivo: não possuindo memória histórica, é uma cana agitada pelo vento e, como não sabe de onde vem, não sabe quem é, não tem identidade. Quem vive no presente, desintegrado e sem referência ao futuro, vive sem um sonho, sem um projeto, não sabe para onde vai e, “para quem não sabe para onde vai, não há ventos favoráveis”.

Quem vive só no futuro, perde muitas oportunidades no presente e esquece-se de que esse futuro, para ser possível, tem de ter um pé no presente, ou seja, há coisas no presente que devem ser feitas para preparar o projeto a ser completado no futuro: se o futuro é o telhado da casa, o presente são os alicerces e as paredes. Um futuro sem presente é uma utopia, uma fantasia; é viver no limbo, numa eterna “pausa”.

Passado
Quanto mais longe conseguires olhar para trás, mais longe verás para a frente. Winston Churchill

O património da humanidade não é constituído só pelos monumentos históricos, mas por tudo o que a raça humana é e fez ao longo dos 5 milhões de anos de existência neste planeta. Tudo isto está geneticamente incorporado no ADN de cada criança que vem a este mundo, é algo semelhante ao inconsciente coletivo de Jung, faz parte de nós e define-nos. Tudo isso é passado.

“Libris ex libris fiunt”, quando quero criar algo novo, em qualquer campo do saber, tenho que pesquisar sobre o que já foi feito naquela matéria, para assim agregar a minha própria pesquisa. Só Deus tem a capacidade de criar do nada.

A fé num Deus pessoal, criador de tudo e de todos, que se revelou pelos profetas e depois no Seu Filho, que nos enviou o Espírito Santo, já tem uma história. A minha adesão a esta fé leva-me a fazer parte desta história, dá-me identidade e sentido de pertença a um povo e a uma comunidade.

O mesmo sucede a nível individual: sei o que sou e do que sou capaz ao olhar para trás e ver o desempenho dos meus talentos e dos meus defeitos nas diversas circunstâncias que a vida me apresentou ao longo da minha história pessoal. É a aprovação desse passado que me dá o sentido de autoestima de que preciso para me relacionar adequadamente comigo mesmo, com Deus, com os outros e com o ambiente que me rodeia.

Até Deus, que vive na eternidade, fora do espaço e devir do tempo, para se apresentar aos homens, fez-se valer da sua convivência com eles no passado, apresentando-se a Moisés como sendo o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob.

Presente 
Ao contrário do passado e do futuro, o presente está nas nossas mãos, nele e só nele somos livres para atuar. O presente é o aqui e agora da nossa vida que deve ser repleto de ação, de atos, de caridade e amor. Para o cristão, viver é amar e amar é servir, colocar-se ao serviço dos que mais necessitam.

Pondo em perspetiva o que a Madre Teresa de Calcutá fazia e o muito que havia para fazer perante tanta pobreza e miséria, um jornalista disse um dia, “O que a Madre faz é como uma gota de água no oceano”, ao que ela respondeu com muita humildade, “sim, mas se o não fizesse, o oceano teria uma gota de água menos”. 

Deus não nos pede que revolucionemos o mundo ou que façamos o melhor, só nos pede o nosso melhor. Na parábola dos talentos, o que conseguiu mais não é mais louvado que o que conseguiu menos; na parábola dos trabalhadores da vinha, os que trabalharam o dia inteiro não receberam mais que os que trabalharam só uma hora; na parábola do semeador, os que produzem 100% não são mais exaltados que os que produzem 60% ou os que só produzem 30%.

Muito ou pouco, tudo o que o Senhor nos pede é que demos fruto. Que a nossa vida seja produtiva, que deixemos cá mais do que o que cá encontramos. Que sejamos parte da solução e não parte do problema, ou seja, que o nosso viver e atuar seja um contributo para a solução dos problemas deste mundo e não um contributo para os agravar.

Futuro
Perante o burro obstinado que não queria andar, um moço atou uma cenoura na ponta de um cordel, que pendurou num pau; depois, montou no burro e colocou a cenoura dois palmos à frente do focinho do burro. Na esperança de trincar a cenoura o burro lá ia andando, não se dando conta de que a cenoura também se deslocava.

A esperança é a fé com rodas, a fé dinâmica que nos projeta no futuro. Todos precisamos de uma “cenoura” para caminhar. O sonho é o motor da vida; não está no presente o que inspira o nosso presente.

Martin Luther King foi um daqueles que, projetado no futuro, hipotecou a sua vida na luta pela igualdade entre brancos e pretos, um sonho que ele sabia que não se realizaria na sua vida. No dia anterior ao seu assassinato, inspirando-se em Moisés que depois de 40 anos a caminhar pelo deserto viu a Terra Prometida na qual não entrou, desde o alto do Monte Nebo disse: “Estou grato a Deus porque me concedeu ver a Terra Prometida, posso não entrar nela convosco, mas estou certo de que nós, como povo, um dia entraremos nela.”

Só se vive com sentido no presente se este estiver impregnado de futuro. Viver um presente sem a presença do futuro é andar à deriva. E quando o presente é doloroso, é a esperança num futuro melhor que nos ajuda a suportá-lo.

Conclusão - A vida humana resulta de uma vivência equilibrada e harmónica dos três tempos, entre os quais decorre. Vivemos no presente e só no presente; mas ao olhar para o passado descobrimos quem somos e o sentido da nossa vida; e ao projetar-nos no futuro encontramos a motivação do nosso viver. O presente é só uma peça de um puzzle que na sua totalidade inclui o passado e o futuro.

No presente das nossas vidas, perante uma decisão a tomar, o passado fala da tradição, da nossa identidade, do que fomos como história, do que somos como identidade, como pessoa. Este passado tem, portanto, uma palavra a dizer. Por exemplo, se cheguei ao fim da escola secundária e necessito escolher uma profissão, o passado diz-me que não sou bom a matemática pelo que a minha profissão não pode ser uma onde tenha de estudar muita matemática.

Perante esta decisão a tomar, o futuro tem uma palavra a dizer também. Se o passado me diz onde estou, o futuro diz-me onde quero chegar e o caminho a tomar para lá chegar. “Para quem não tem rumo, não sabe para onde há de ir, não há ventos favoráveis”. No presente, posso arruinar o futuro, por isso o futuro tem uma palavra a dizer no momento presente, uma vez que, contradizendo o provérbio, nem todos os caminhos vão dar a Roma. Se o futuro é um diploma em medicina, o presente é trabalho, estudo intenso para lá chegar.

O homem bíblico - Na língua hebraica, a palavra “Nikud” significa, ao mesmo tempo, futuro e costas; por outro lado, a palavra “quedem” tanto quer dizer passado como oriente. Assim sendo, podemos concluir que o homem bíblico tem o passado à sua frente e o futuro nas suas costas, ou seja, caminha com o peito e a cara voltada para o passado, de costas para o futuro.

De olhos no passado porque é lá que estão as nossas raízes, o nosso ser, a nossa identidade. Vivemos caminhando para o futuro, mas entendemos a nossa vida olhando para o passado e pelo passado nos orientamos para o futuro. Do futuro, pouco ou nada sabemos. Por isso caminhamos de costas, ou seja, às cegas; a única certeza que temos no nosso futuro é a morte, mas mesmo assim, não sabemos como, nem quando, nem onde ocorrerá. Para o peregrino, recordar não é viver; por isso olha para o passado, não para o reviver, mas para se orientar no presente, rumo ao futuro.

Não há mal que sempre dure nem bem que sempre ature – Sabemos que a vida é feita de altos e baixos, como a linha de um eletroencefalograma ou cardiograma, sabemos que no caminho para Deus podemos encontrar céu e inferno, mas também sabemos que tudo é passageiro. Por isso, quando estamos nos píncaros do entusiasmo, não devemos perder a cabeça e, quando estamos deprimidos, não perdemos a esperança. Em cada momento, em cada lugar, vivemos sob a proteção do Senhor, por isso somos constantes, pacientes e fiéis.
  • O passado é a razão, o presente a nossa ação, o futuro a nossa motivação.
  • O passado é a tradição, o presente a ação, o futuro a inovação.
  • O passado é o que fomos, o presente o que somos, o futuro o que seremos.
  • O passado é o ser, o presente o existir, o futuro o transcender.
  • O passado é Deus Pai que nos criou por amor, o presente Deus Filho que nos salvou e salva, dando-nos saúde aqui e agora; e o futuro é Deus Espírito Santo que nos anima, inspira e dá força no nosso caminhar.
  • O passado é a fé, o futuro a esperança e o presente a caridade. 
3 atitudes perante o tempo: fugitivo – vagabundo - peregrino
Fugitivo
O Senhor replicou: «Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até mim. De futuro, serás amaldiçoado pela terra, que, por causa de ti, abriu a boca para beber o sangue do teu irmão. Quando a cultivares, não voltará a dar-te os seus frutos. Serás vagabundo e fugitivo sobre a terra.» Genesis 4, 10-12

What goes around comes around… (Cá se fazem, cá se pagam) Caim é fugitivo porque foge de um passado que o persegue no presente. O seu caminhar é determinado pelos seus perseguidores, não por ele mesmo; por isso não tem presente nem tem futuro. Ficou entalado por algo que fez no passado, que se faz omnipresente em forma de remorsos, de tal forma que lhe nega a vida.

Hunted by his past…(Assombrado pelo seu passado…) É uma expressão inglesa que denota bem as circunstâncias em que vive o fugitivo. Como presa de caça, vive a vida temendo ser caçado. Os assuntos que não ficaram resolvidos no passado perseguem-no no presente.

Águas passadas não movem moinhos, mas contradizendo esta lei da natureza, muitas pessoas têm os seus moinhos, as suas cabeças a moer com águas passadas, porque não pediram desculpa nem perdoaram ou porque foram traumatizados ou abusados e reprimem essas memórias ou fingem que nada aconteceu. Vivem no passado porque a sua vida ou o seu presente e o seu futuro é determinada por algo que aconteceu no passado.

A si mesmas se iludem, pensando que o passado não os afeta porque ficou lá atrás. A verdade é que o que conhecemos do nosso passado, podemos controlar; o que desconhecemos, controla-nos a nós de uma forma inconsciente. Assim, ao projetar os fantasmas do passado no presente, podemos pensar que estamos a lutar contra os nossos inimigos, quando objetivamente estamos a lutar contra moinhos de vento.

Vagabundo
Vivem como se nunca tivessem que morrer e morrem como se nunca tivessem vivido Dalai Lama

Carpe diem (Aprveite o dia) - passou a ser o lema de muita gente depois do filme “O Clube dos Poetas Mortos”. O vagabundo vive instalado no presente, mas não no presente consciente e omnisciente das filosofias orientais e, sim num presente consumista, hedonista e inconsciente: morra Marta, morra farta. Sem lhe importar o passado que já foi e o futuro que ainda não é e pode não chegar a ser, o vagabundo caminha no círculo vicioso de um eterno retorno. “Para quem não sabe para onde há de ir, não há ventos favoráveis.”

“Não prometo para não falhar” ouvimos tantas vezes; o vagabundo não promete nada a ninguém nem se compromete com nada nem com ninguém, porque isso significaria contar com o futuro. Vive no momento e para o momento. Em relação ao passado e ao futuro tem a atitude da avestruz: coloca a cabeça debaixo da areia, reprime, nega a sua existência, prefere não pensar e, para tal, abstrai-se, usando a diversão ou o trabalho como droga para não pensar nem se confrontar consigo mesmo. Instalado na pura mundanidade não precisa de guia, não aceita conselhos de ninguém.

Peregrino
Felizes os que em Vós encontram a sua força, os que trazem no coração os caminhos do santuário. Ao atravessar o vale seco, transformam-no em oásis, que logo as primeiras chuvas cobrirão de bênçãos. Vão caminhando com entusiasmo crescente, até verem Deus em Sião. Salmo 84, 6-8

Na pré-história da nossa fé há inúmeras peregrinações: Abraão, arameu errante que só possuiu uma sepultura que comprou para a sua mulher e viajou da sua cidade na Mesopotâmia até (Canã) Canaan, o povo hebreu que saiu do Egito, terra da escravidão, para a terra prometida da liberdade e prosperidade; as idas a Jerusalém pela Páscoa; depois de Cristo, as peregrinações dos cristãos à Terra Santa e a Roma, a Santiago de Compostela; na tradição ortodoxa, o peregrino russo um livro acerca da espiritualidade ortodoxa.

Já no nosso tempo, as peregrinações a Guadalupe no México, a Lurdes em França, a Fátima em Portugal, a Chestocova na Polónia; a peregrinação é uma prática cristã muito importante porque, de alguma forma, é uma parábola da vida. Viver é peregrinar, o cristão deve comportar-se com o mundo à sua volta e com os seus semelhantes, como peregrino.

O livro de Gênesis não esconde o fato de que Deus prefere o pastor e, portanto, o nómade Abel, em vez de seu irmão agricultor e, portanto, sedentário. Contrariamente ao fugitivo, o peregrino vive reconciliado com o seu passado, por isso não depende dele; contrariamente ao vagabundo tem uma meta, um objetivo que pretende atingir, por isso vive com intensidade o momento presente, sabendo sempre quem é, de onde vem e para onde vai, nunca está desnorteado nem desorientado pois a sua vida é regulada como se tivesse um GPS.

Egito, deserto, terra prometida, paradigma da humanidade do peregrino. O peregrino está sempre a sair de um Egito e sempre a cruzar um deserto e quando chega a um oásis sabe que ainda não é a terra prometida, por isso continua. Oásis o Reino já está aqui, mas ainda não na sua totalidade, como diz o evangelho, e nunca estará na sua totalidade. Para o peregrino, procurar o reino, a justiça e a paz são as preocupações principais, ao contrário do vagabundo.

ENERGIA
Eros e Tanatos, instinto de vida, instinto de morte, afetividade e agressividade, ying e yang, a força centrípeta e centrífuga, o amor e o ódio, polos positivo e negativo da eletricidade ou a energia com a qual fazemos tudo o que fazemos. Sem energia, nada funciona numa sociedade; o mesmo acontece connosco.

No ser humano, todos os atos deveriam ser inspirados e decididos pelo Logos, pela razão; mas a verdade é que o instinto de Eros e Tanatos não só provê a energia para a realização de todos os atos que a razão determina, como motiva, alimenta e orienta muitos outros que se subtraem ao poder da razão. Apesar dos milhões de anos de evolução desde a animalidade, o nosso comportamento é mais movido pelo instinto do que gostamos de admitir.

Todos os atos humanos têm uma mistura de afetividade e agressividade, mesmo os mais polarizados, tanto na afetividade como na educação, como na agressividade, como na guerra, há sempre um pouco do polo contrário; como há um pouco de feminilidade num homem e um pouco de masculinidade numa mulher. É óbvio que a educação de um filho pelos seus pais tem mais de afetividade que de agressividade; no entanto, uma educação só afetiva teria a tendência para ser paternalista. Na educação de uma criança, a afetividade, os prémios e as carícias, devem ser doseadas com alguma agressividade, castigos e disciplina.

Sublimação
A energia elétrica produzida numa central, seja ela hidroelétrica, nuclear ou a carvão, não pode ser consumida diretamente. Tem de passar por um transformador que a reduz, de modo a para poder ser consumida nas nossas casas. O mesmo acontece com a energia humana em bruto, comum tanto aos humanos como aos animais. 

Nos animais, a natureza encarrega-se da sublimação de Eros e Tanatos, de forma a que estas duas energias estejam só ao serviço da vida; os animais acasalam só para se reproduzirem, não o fazem por nenhuma outra razão, nem sequer para obter prazer. São agressivos quando têm necessidade de comer ou de defender o seu território e não fora destas circunstâncias; não têm, como alguns humanos, o prazer de matar.

No seu livro, “O Mal-estar na Civilização”, Freud defende que tanto a agressividade como a afetividade, descontroladas, ou seja, abandonadas a si mesmas, têm um potencial destrutivo incomensurável; podem destruir o que ajudaram a construir. O ser humano abandonou a animalidade quando ganhou poder sobre estas duas forças, quando conseguiu domesticá-las, quando lhes colocou rédeas para as aproveitar positivamente.

Desta forma, o tabu do incesto funcionou como o “cabresto” do Eros / afetividade / instinto de vida, proibindo as relações sexuais entre pessoas ligadas por laços de sangue. Sem esta proibição a consanguinidade acabaria com a raça humana. A regra “olho por olho, dente por dente” (que pertence ao código de leis mais antigo do mundo, o código Hamurabi) funcionou como o “cabresto” do Tanatos / agressividade / instinto de morte, para limitar a natureza da violência que, por si só, tende a escalar e a alastrar-se descontroladamente, levando à destruição.

Sublimar significa desviar, substituir ou modificar a expressão natural de um impulso ou instinto por uma expressão que é social e culturalmente aceitável e construtiva. O exemplo de uma energia destrutiva transformada numa energia construtiva é a transformação de um touro, de touradas, num boi que lavra a terra e puxa uma carroça.

Vistas as coisas sob este prisma, a civilização humana pode ser considerada como uma história da sublimação de Eros e Tanatos, ou seja, do uso inteligente que a humanidade fez destas forças ou instintos básicos. Da mesma forma, a nossa própria história pessoal é também constituída pelos esforços para desviar o nosso afeto e agressão naturais do seu alvo natural e primordial, a fim de promover o cultivo dos valores humanos.

VOCAÇÃO
Ganhar a vida ou perder a vida
Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la. Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? Mateus 16, 25-26

É frequente ouvir dizer, acerca daquele que trabalha e anda numa azáfama constante, que anda a “ganhar a vida”. Neste sentido, ganhar a vida é sinónimo de ganha-pão; mas buscar o sustento para a vida e viver a vida não são a mesma coisa. Tal como viver e estar vivo não são a mesma coisa.

Os que gastam a sua vida (tempo e energias) a buscar meios de vida são diferentes dos restantes seres vivos deste planeta; as gazelas e os leões, os tigres e os leopardos, todos os seres vivos passam o dia a buscar meios para se manterem vivos ou sobreviverem; os animais não vivem, pois não exercem qualquer poder ou controlo sobre as próprias vidas: sobrevivem ou estão vivos.

Ao contrário dos demais seres vivos, o ser humano tem poder e controlo sobre a sua própria vida, pode fazer dela o que quiser; pode fazer dela um céu ou um inferno, dependendo de como administra o tempo e as energias que lhe são dados.

Olhai, guardai-vos de toda a ganância, porque, mesmo que um homem viva na abundância, a sua vida não depende dos seus bens. (…) Havia um homem rico, a quem as terras deram uma grande colheita. E pôs-se a discorrer, dizendo consigo: (…) Tens muitos bens em depósito para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te. 'Deus, porém, disse-lhe: 'Insensato! Nesta mesma noite, vai ser reclamada a tua vida; e o que acumulaste para quem será?' Assim acontecerá ao que amontoa para si, e não é rico em relação a Deus.» (Lc. 12,16-17-20-21)

Há pessoas que em vida chegam a acumular bens que dariam para duas ou três vidas humanas…, mas acaso vão ter essas vidas ou sequer aumentar a vida que têm anos por ter acumulado bens suficientes? Não, a vida não é ganhar meios de vida. A vida não é engordar, é emagrecer; a vida não é ganhar, mas perder; a vida não é uma força centrípeta, varrer para dentro, puxar a brasa à sua sardinha, mas sim centrífuga, partilhar, dar e dar-se aos outros por uma causa. Por isso, anacronicamente, a vida perde-se quando se retém e ganha-se quando se dá.

A tua vida não gira à tua volta, nasceste para uma missão
Pois também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos Marcos 10, 45

Pois, quem é maior: o que está sentado à mesa, ou o que serve? Não é o que está sentado à mesa? Ora, Eu estou no meio de vós como aquele que serve. Lucas 22, 27

Ninguém perguntou a Jesus qual era o objetivo da sua vida, mas se o tivessem feito, acima está a resposta que Ele daria.

A minha vida para os outros é um valor absoluto, mas para mim é um valor relativo; absoluta para mim, é a razão pela qual eu vivo, porque a minha vida não gira à minha volta; se eu fosse a razão da minha própria vida, viver seria sobreviver, ou seja, manter as funções vitais, preservar a vida. Mas esta não é a verdade da vida humana; a vida é tempo e energia dedicados a uma causa.

A vida de Beethoven centrou-se na música; a vida de Picasso centrou-se na pintura; a vida de Einstein centrou-se na Física; a vida de Nelson Mandela centrou-se na igualdade entre brancos e pretos. A vida de Jesus, Filho de Deus, centrou-se na salvação da Humanidade. Ninguém é mais feliz que aquele que é útil e ninguém é mais útil que aquele que ama e entende que amar é querer e buscar o bem dos outros.

Estes personagens da história tornaram-se famosos, populares, heróis, eternos, porque passaram a sua vida cultivando valores humanos, como a pintura, a musical, a igualdade social.… como dissemos antes, os valores humanos são atemporais e sem espaço, transcendem todos os lugares, ou culturas e tempos, são eternos. Por isso, quando passas tua vida, ou temporalidade cultivando valores eternos atinges a eternidade. Ao contrário, quando passas a tua vida cultivando valores temporais, como o poder, a riqueza, de alguma forma já estás cultivando a morte e quando eventualmente morreres é a morte eterna.

Os talentos são como os dons do Espírito Santo: estão orientados não para a tua realização pessoal, mas para o serviço da comunidade; e é na medida em que és útil à comunidade que te consideras válido em ti próprio.

Talentos, as alfaias da vida
Deus, arquiteto da nossa vida, idealizou um projeto para nós. Ninguém vem ao mundo sem um projeto. Em interação com Ele na oração e interpretando os sinais dos tempos, devemos descobrir qual é o projeto que Deus tem para nós e para o qual nos equipou com suficientes talentos, para o executarmos no âmbito de uma vida viável.

Portanto, em vez de invejar os talentos dos outros, como fazem os adolescentes enchendo as paredes dos seus quartos com pósteres de “ídolos”, voltemo-nos para nós próprios e descubramos quais são os nossos talentos. Pode haver algum talento escondido que eu nunca pensei que tinha…. Assim como é a situação que cria o ladrão, são os grandes desafios que criam os grandes homens, quando estes se lançam para a frente e arriscam; só arriscando podem saber se estão ou não à altura do trabalho.

Quem não arrisca não petisca: o talento não usado é talento irremediavelmente perdido. Talentos não encontrados nem trabalhados não nos levam ao objetivo que Deus traçou para nós e, não chegando a esse objetivo, a nossa vida foi fútil. O que não tem utilidade é lixo e o que é lixo é queimado - é isso que significa o inferno.

3 atitudes perante o espaço: colono – turista - peregrino
Não temos aqui cidade permanente, mas procuramos a futura. Hebreus 13,14

Se na maneira como nos relacionamos com o tempo podemos ser fugitivos ou vagabundos, na maneira como nos relacionamos com o espaço, o mundo que nos rodeia, podemos ser colonos ou turistas. Colonos, turistas e peregrinos têm em comum o facto de não serem oriundos do lugar que habitam durante o tempo da sua vida. E relacionam-se de uma maneira diferente com o meio em que habitam.

Tanto o colono como o turista e o peregrino têm em comum o facto de serem oriundos de outro lugar ou país que não é o que habitam no aqui e agora das suas vidas, mas diferem na forma como se relacionam com o mundo que os rodeia e os seus semelhantes. As pessoas foram criadas para serem amadas, as coisas para serem usadas. Só o peregrino encarna esta verdade na sua vida, pois o colono usa as pessoas e ama as coisas e o turista usa tanto as coisas como as pessoas.

Colonos
Veni vidi et vincit, (Vim, vi e venci) como diria o conquistador César Augusto, o colono vem para conquistar e possuir tanto as pessoas como as coisas. Conquista e explora tudo e todos sem escrúpulos, até os recursos do planeta, sem lhe importar a ecologia; neste sentido, possui a mentalidade do burro que dizia, “depois de eu morrer que não cresça mais erva sobre a terra”. Também explora os outros, regulando-se pela única regra que conhece: o lucro e o interesse pessoal.

O colono veio para ficar, não se move, agarra-se às coisas e às pessoas como uma carraça, é sedentário, deixou de procurar, deixou de caminhar e vive instalado na vida como se tivesse chegado já à Terra Prometida. Desfruta de tudo o que a vida lhe dá como se nunca tivesse de a deixar. Deus rejeitou Caim e aceitou Abel que era pastor.

Turistas
Ao contrário do colono, o turista vive superficialmente, para ele tudo tem o mesmo valor, coisas e pessoas, procura divertir-se, não está interessado em possuir nada nem ninguém, apenas fotografias de tudo e de todos. Para o turista, tudo é paisagem, o valor das coisas mede-se pelo potencial de diversão ou satisfação dos seus cinco sentidos; por isso, tudo o que é exótico, erótico, invulgar, excêntrico, que produz emoções fortes e espevita a adrenalina é que tem valor.

O turista não chega a penetrar na realidade, vê o mundo como se fosse um teatro que o diverte, mas não sabe nem está interessado no que se passa nos bastidores. Não se compromete com nada nem com ninguém, busca diversão e foge de tudo o que tenha a ver com sofrimento.

O peregrino
Era uma vez um homem que todos os dias ia buscar água ao rio com um balde em cada mão. Um dos baldes estava furado pelo que chegava a casa só com metade da água. Por esta razão, sentia-se triste, inferiorizado e até envergonhado diante do seu colega. Ao referir isto mesmo ao seu senhor este sorriu e disse: “já reparaste que o caminho do teu lado está cheio de flores e não há nenhumas do lado contrário? Como eu sabia que o teu balde estava furado, semeei flores do teu lado e tu, cada dia, encarregavas-te de as regar...”

O peregrino não possui coisas nem pessoas como o colono, nem as usa e deita fora como o turista; não está instalado no aqui e agora como o colono nem caminha desinteressado com o turista. No seu caminhar, compromete-se, entregando-se totalmente a pessoas e a causas humanas concretas, mas como não procura ser amado, mas amar, dá-se sem se prender às pessoas que ama.

Muitos dos peregrinos de Santiago eram jograis e deixavam música e alegria por onde passavam; a nossa língua, o galaico-português, nasceu destas cantigas de amigo, amor, escárnio e mal dizer. Por outro lado, o caminho português está embelezado por pontes e igrejas românicas; o caminho francês por igrejas e grandes catedrais góticas. 

Depois da Páscoa, é costume no norte de Portugal o pároco visitar as famílias da sua paróquia uma por uma. É uma grande festa para os membros da família alargada que vão à casa uns dos outros beijar a cruz pascal, a cruz gloriosa da ressurreição.

Por esta ocasião, as pessoas dão o folar ao sacerdote em reconhecimento pelo seu trabalho durante o ano na paróquia. Havia um sacerdote na minha terra, em Loriga que recebia tanto quanto repartia, nas casas ricas recebia dinheiro que depois deixava nas casas pobres; essa era a sua visita pascal, levava dos ricos, deixava nos pobres, contribuindo assim, pelo menos num dia do ano, para a igualdade dos cristãos na sua paróquia.

Um americano em peregrinação pela Terra Santa visitou a casa de um rabino e com ele se demorou algum tempo em conversa. Enquanto conversavam, observando que o rabino vivia muito pobremente, apenas com uma enxerga onde se sentava e onde dormia, em determinado momento, o americano perguntou, “rabino, onde estão os teus móveis?” e o rabino respondeu com uma pergunta “e onde estão os teus?”, “os meus? Eu sou peregrino”, disse o americano, “eu também”, respondeu o rabino.

Deus dá a cada um o tempo, as energias, os recursos e os talentos para que a vida seja viável e tenha sentido para o próprio e para os que vivem à sua volta. Portanto, a nossa autorrealização e felicidade, dependem exclusivamente de nós.
Pe. Jorge Amaro, IMC





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3 Vertentes do drama: Perseguidor - Vítima - Salvador

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Sigmund Freud e muitos depois dele têm alertado para o poder do inconsciente na nossa vida do dia a dia. Mas ainda mais grave do que isto é o darmo-nos conta de que alguns dos nossos comportamentos, para além de serem inconscientes, são tão previsíveis que até obedecem cegamente a paradigmas, como se fossemos uma marioneta. Um desses paradigmas é o chamado triângulo de Karpman.

O triângulo de Karpman ou o triângulo das Bermudas
Sendo o nosso objetivo explorar e estudar a tridimensionalidade da realidade não podia escapar-nos esta teoria psicológica que trata dos três papéis que as pessoas desempenham no decurso das suas interações de forma paradigmática, previsível, acrítica e inconsciente.

Neste triângulo, cada ator pode representar o papel que mais se adequa à sua personalidade; mas as regras do jogo e a situação criada podem obrigá-lo a mudar de papel. Em geral, quem entra neste jogo desempenha todos os papéis e vai mudando de um para o outro, como um macaco saltando de ramo em ramo.

A peculiaridade deste paradigma comportamental é que as pessoas que entram nesta dança ou neste jogo, qualquer que seja o papel que nele desempenhem (saindo dele ou permanecendo e continuando a jogar), acabam por se magoar e por magoar os outros. Esta é a razão pela qual, pessoalmente, chamo ao triângulo de Karpman o triângulo das Bermudas.

O triângulo das Bermudas é um triângulo imaginário entre as ilhas das Bermudas, a Flórida e Porto Rico onde um número considerável de aviões e barcos desapareceram misteriosamente. A lenda ou a crença popular atribui a este espaço uma atividade paranormal que causou estes desaparecimentos. Esta área é uma das mais cruzadas por barcos comerciais, cruzeiros e aviões aos quais nada parece acontecer. Ou seja, no triângulo real das Bermudas ninguém se perde, mas no triângulo de Karpman sim, as pessoas que nele entram perdem-se; daí a minha menção à crença inicial.

Antes de explicar como funciona a dialética deste triângulo e de propor um triângulo alternativo, com papéis alternativos, para que as pessoas que se perderam no jogo voltem a encontrar-se a si mesmas e entre si, necessitamos de explicar o contexto geral e particular em que esta teoria surge. O contexto genérico é a teoria da Análise Transacional criada pelo psicanalista canadiano Eric Berne (1910-1970).

O contexto mais particular em que Stephen Karpman, aluno de Eric Berne, fundamenta o seu triângulo dramático é constituído pelos jogos psicológicos que as pessoas inadvertidamente jogam entre si. Foi Berne quem estudou este assunto, tendo escrito sobre ele um dos seus livros mais populares: “Os Jogos da Vida”. Ele mesmo, em vez de chamar a si a teoria do seu aluno, como fazem tantos professores, até por ter sido deduzida da sua teoria dos jogos, exortou Karpman a que a publicasse, o que este fez num artigo da sua autoria publicado no ano de 1968.

Psicanálise
Segundo Sigmund Freud (1856-1939), a nossa mente divide-se em três diferentes compartimentos que comunicam entre si. Podemos entendê-los também como três entes que interagem no interior da nossa mente com diferentes funções. Estes três entes não têm a mesma idade: o primeiro vem já incorporado no bebé, os outros dois estão presentes em potencial.

ID - É o mais velho e é constituído por um conjunto de tendências, impulsos e instintos primordiais através dos quais o bebé procura satisfazer as suas necessidades. O ID é mais ou menos o que temos em comum com muitos seres vivos, especialmente com os que nos são mais próximos na evolução das espécies.

EGO – Pela interação da criança com o mundo, em especial com os que tomam conta dela nos três primeiros anos, a criança aprende que não vive sozinha no mundo e que os outros com quem vive e interage também têm como ela necessidades e desejos a satisfazer. Deste modo, dá-se conta de que, tanto a curto como a longo prazo, não lhe convém ser egoísta e querer tudo para ela. Nasce assim o EGO que procura satisfazer as necessidades do ID, tendo em conta e consideração a realidade, sobretudo as necessidades do ID dos outros. O EGO é a parte organizada, operativa, realista e racional da nossa mente.

SUPEREGO – É a parte moral ou ética que se desenvolve devido à disciplina, às limitações, às restrições morais e éticas colocadas pelos nossos cuidadores. Se o EGO é o governo da nossa mente, o SUPEREGO é a lei, constituição ou ideologia que o governo segue; representa o papel de embaixador da cultura ou da sociedade no nosso psiquismo e é constituído pelas regras, normas, leis e valores morais que temos de respeitar e observar. O superego é a nossa consciência moral que a todo o momento nos diz o que é bom e devemos fazer e o que é mau e devemos evitar.

Análise Transacional
Eric Berne (1910-1970) seguidor de Freud, criou a sua teoria da Análise Transacional rebatizando as três valências da nossa personalidade segundo Freud. Às três valências chamou estados do ego e, rebatizou cada uma delas: ao ID deu o nome de Criança, ao EGO o nome de Adulto, e ao Superego o nome de Pai.

Estados do Ego - Para Berne, este é um padrão psíquico determinado de sentimento e experiência, diretamente relacionado com um dado comportamento. Vejamos na prática com se processam os estados do Ego:

Pai - Uma mãe que procura uma escola para o seu filho depara-se com uma onde a criatividade das crianças é estimulada; porém, ao ver que está um pouco suja e desorganizada, conclui que não é o lugar indicado para o seu filho.

Adulto - Momentos depois, pensa melhor e decide dar uma vista de olhos ao ranking da escola e falar com alguns pais.

Criança - Por fim, sorrindo para si mesma, exclama “Como gostaria que a minha escola tivesse sido como esta!”

Segundo Berne, num curto espaço de tempo, esta mulher experimentou os três diferentes estados do Ego:
  • A Criança – comportamentos, pensamentos e sentimentos reproduzidos da infância. No estado Criança do Ego, albergam-se os sentimentos, as emoções e os instintos. A criança representa o sentimento na vida.
  • O Adulto – Comportamento, pensamentos que são respostas diretas ao aqui e agora. O adulto representa na nossa vida o pensamento, a razão. O raciocínio, a análise de dados e informações sobre um determinado problema ou assunto e a solução ou resolução do mesmo. Atua como se fosse um computador, tendo em conta os sentimentos da criança e as exigências culturais ou éticas do Pai, sem se deixar dominar pela Criança ou pelo Pai. 
  • O Pai – Comportamentos, pensamentos copiados dos nossos pais ou cuidadores. O Pai representa na nossa vida tudo aquilo que aprendemos.
Mais tarde ainda, entende que o Pai e a Criança devem dividir-se em dois por uma questão de clareza:

PAI PUNITIVO – Exerce o poder sobre os outros, controla, disciplina, persegue e pune. Representa a lei, a ética, a ordem. Está cheio de ideias, muitas das quais são preconceitos. Na família tradicional, representa o nosso Pai.

PAI PROTETOR – Amoroso, afetivo, consolador, que conforta, apoia, ampara, protege, salva. Na família tradicional, representa a nossa mãe.

CRIANÇA NATURAL – É o que permanece do ID e resistiu à educação dos cuidadores. É representada pela atitude irada, amorosa, impulsiva, espontânea ou brincalhona de uma pessoa. A criança natural é intuitiva, está cheia de energia.

CRIANÇA ADAPTADA – É a criança natural domesticada pela educação, menos egoísta que a natural. No entanto, quando as regras não foram assumidas mas apenas impostas, fica reprimida, hipócrita e às vezes rebelde. É dominada às vezes pelo medo e pela vergonha.

Transações
Berne chama análise estrutural ao diálogo interior entre os diferentes estados do ego e análise transacional ao diálogo que temos com as outras pessoas e à interação entre os nossos estados do Ego e os estados do Ego delas. Existem três tipos de transações: as complementares, as cruzadas e as ulteriores.

Transações complementares - Quando a resposta vem do estado do ego ao qual a nossa pergunta foi dirigida. Por exemplo, quando digo a alguém “amo-te” a partir da minha Criança Natural e esta pessoa responde “eu também te amo”, a partir da sua Criança Natural.

Transações cruzadas – Quando a resposta vem de um estado do Ego diferente daquele ao qual nós dirigimos a pergunta. Por exemplo, chegamos ao trabalho e dizemos a partir do nosso Adulto “bom dia” ao patrão e este responde a partir do seu Pai Punitivo dizendo “estás atrasado”. Ou, utilizando o exemplo anterior, quando dizemos a alguém “eu gosto de ti” e essa pessoa nos responde “eu sei…”

Transações ulteriores – Ocorrem quando uma pessoa diz uma coisa e quer dizer outra. Ou seja, o que diz não é verdadeiramente o que quer dizer. Usa subterfúgios, ou seja, a verdadeira mensagem não está nas linhas, mas nas entrelinhas. A nível aberto, expressa-se a partir do Adulto, mas a verdadeira mensagem está dissimulada e deve deduzir-se a partir do tom de voz que usa, das palavras que escolheu e da linguagem corporal.

Por exemplo, quando já todos no escritório se foram embora, o patrão pede à secretaria para que fique mais tempo; mas o que ele verdadeiramente está a insinuar é que quer ficar a sós com ela. Ela responde que não tem pressa, mas no fundo está a dizer que também quer ficar a sós com ele. É importante saber o que são transações ulteriores porque todos os jogos que jogamos entram dentro desta categoria de transações.

Os jogos psicológicos que as pessoas jogam
“Os Jogos da Vida” foi o livro mais vendido de Eric Berne. O livro é praticamente um catálogo dos muitos jogos que as pessoas jogam, com uma descrição de como o jogo é jogado e do que cada jogador obtém ou pensa obter ao jogá-lo.

“Não faças joguinhos comigo” é uma expressão muito usada. Por isso, quase todos sabemos o que é um jogo psicológico. A ideia já existia antes de Berne, porém a sua análise transacional entre todas as teorias psicológicas é a melhor para explicar o que é um jogo psicológico. Situando os jogos dentro do contexto desta teoria, é importante notar que os protagonistas dos jogos são sempre o Pai e a Criança, sem o conhecimento ou consentimento do Adulto.

 Por isso os jogos nunca são benéficos para nenhum dos seus participantes, mesmo quando aparentemente um deles parece ganhar, como é o caso do sádico e do masoquista que se procuram e entram numa dinâmica relacional onde cada um parece encontrar o que procura. Mas esta é uma relação doentia que só reforça a doença e não a resolve. Os jogos não são uma atividade onde todos ganham, mas sim uma onde todos perdem.

Jogos são transações ulteriores, táticas psicológicas usadas para manipular, controlar ou intimidar os outros. Para Berne, um jogo psicológico é um conjunto de transações ulteriores que acontecem paralelamente a dois níveis: um nível aberto, social, de adulto para adulto e um nível subliminar, encoberto ou disfarçado, com um resultado dramático quando os dois níveis coincidem, ou seja, quando os motivos ulteriores se tornam claros. Vejamos o exemplo:

Por que é que não ... sim, mas…” - É um jogo entre duas ou mais pessoas; uma apresenta um problema e a outra uma solução em forma de “Porque é que não …?” ao que o apresentador do problema responde: “sim, mas…”. O prémio ou a recompensa do jogo é o silêncio ou oposição mascarada quando o apresentador de soluções esgotar o seu banco de dados. Quando isto acontece, o jogador “sim, mas…” sente-se satisfeito por conseguir provar que afinal o inadequado é o outro.

A – O meu marido insiste em fazer ele todas as reparações em casa, mas não faz nada bem.
B – Porque é que ele não faz um curso de bricolage?
A – Sim, era uma boa ideia, mas ele não tem tempo.
B – Porque é que não lhe dás de presente uma boa caixa de ferramentas?
A – Sim, mas não vai saber usá-las.
B - Porque é que não contratas um profissional para a próxima reparação que surja?
A – Sim, mas vai sair muito caro.
B – Então porque é que simplesmente não aceitas a forma como o teu marido faz?
A - Sim, mas o caso é que às vezes o prejuízo é ainda maior e fica tudo mal feito.

A um nível social parece ser um diálogo entre adulto e adulto, mas, subliminarmente ou psicologicamente, A atua a partir do seu estado Criança insegura e B a partir do seu estado Pai sábio. Afinal, A pode até precisar de conselhos, mas como os rejeita todos, o que verdadeiramente quer é atenção ou afeto. Estes estão a ser-lhe dados, mas de uma forma indireta pelo que o jogo vai terminar em frustração para os dois, porque esta não é uma forma adulta de pedir atenção ou afeto.

Porque jogamos?
O benefício final biológico dos jogos é obter atenção ou afeto. Mesmo que os jogos terminem sempre mal, todos os jogadores conseguem uma quantidade razoável de afeto ou atenção positiva ou negativa.

O benefício final social de um jogo é a estruturação do tempo. Assim, as pessoas preenchem o tempo, com uma atividade empolgante que, de outra forma, poderia ser enfadonha e depressiva. Os jogos são um passatempo, as pessoas divertem-se a jogá-los, mesmo quando acabam magoadas.

O benefício final existencial de um jogo é a maneira como este confirma a posição existencial de cada jogador. Existem quatro posições:
  • Eu sou fixe, tu não és, (Posições existenciais de Salvador e Perseguidor)
  • Tu és fixe, eu não sou, (Posição existencial de Vítima)
  • Eu não sou fixe, tu não és… fixe (Posição existencial de Vítima sem esperança)
  • Eu sou fixe, tu és fixe (Posição existencial de Adulto) 
Outros motivos são:
  • não assumir responsabilidade pelos nossos sentimentos, pensamentos, comportamentos ou eventos
  • escapar à aceitação da realidade tal como é, racionalizando-a ou negando-a
  • fugir à intimidade, mas ao mesmo tempo manter sub-repticiamente relacionamentos íntimos intensos. Os jogadores não manifestam empatia uns pelos outros pois estão completa e inconscientemente absorvidos pelo papel que representam no jogo
  • fugir aos conflitos e tensões internas, projetando-os fora de nós, arrastando alguém para assumir um papel no nosso jogo. Mas os padrões do jogo e as suas regras impossibilitam a resolução de qualquer problema. A solução nunca está no jogo, pois é o adulto quem procura soluções dignas e este não participa em jogos
  • fazer com que o comportamento do outro seja previsível para dominá-lo.
A diferença entre os jogos e o drama é que nos jogos as pessoas não mudam de papel, há um guião e cada um segue-o conforme o papel que desempenha nele e o que procura obter nesse jogo. No drama triangular, os papéis são sempre os mesmos três - perseguidor, vítima e salvador - e os jogadores, intervenientes ou protagonistas no drama vão mudando de papel.

O drama triangular
As dinâmicas que se estabelecem à volta de uma pessoa encurralada por um vício que a faz depender de uma substância ou de um comportamento repetitivo obsessivo, ilustram bem o que é a dinâmica particular do triângulo do drama de Karpman.

A pessoa dependente, ao representar o papel de vítima da adição, da humilhação, do preconceito, da negligência médica e, até mesmo, da brutalidade policial procura e encontra um Salvador. O Salvador representa este papel ao tentar generosa e altruisticamente ajudar o viciado, sem se certificar de que ele está comprometido com o processo de abandonar a sua adição.

Frustrado por se dar conta de que a vítima nada faz para sair da sua adição, o Salvador passa a Perseguidor, acusando, insultando, negligenciando ou punindo o viciado. Este, vendo-se assim acossado, contra-ataca e passa também ele a Perseguidor. Neste caso, o jogo acaba em violência, pois no triângulo não pode haver duas pessoas desempenhando o mesmo papel. Se o jogo for jogado entre marido e mulher, é provável que o primeiro Perseguidor ceda e, perante a perseguição do segundo, passe a Vítima. Isto pode levar o Perseguidor que iniciou o jogo a transformar-se em Salvador, se considerarmos que a Vítima representa o viciado. Exemplo:

Adolfo (Vítima) – Quero deixar de fumar, mas não sou capaz
Eva (Salvador) – Eu ajudo-te, usa estes comprimidos, vou retirar os cinzeiros da casa…

Acontece que a Vítima não está verdadeiramente interessada em deixar de fumar, só quer agradar à sua esposa e cedeu perante esta, embora fume às escondidas. Eva descobre e de Salvador passa a Perseguidor.

Eva (Perseguidor) - “Trafulha, covarde, pediste-me ajuda e eu ajudei-te, mas tu enganaste-me, és um fraco, nunca deixarás de fumar.”
Adolfo (Perseguidor) – “Eu nunca quis deixar de fumar, foste tu que me obrigaste com a tua insistência, vai para o inferno.”
Eva (Vítima – Salvador) – Chora e sente-se culpada. Depois de um tempo volta à carga como Salvador dizendo, “Desculpa amor. Podemos começar outra vez? Aqui tens outros comprimidos que são mais eficazes que os primeiros.”
Adolfo (Vítima inicial) – Está bem, se assim o queres…

O círculo vicioso começa de novo e o problema nunca se resolve. Adolfo não quer deixar de fumar e Eva não o aceita como fumador.

PERSEGUIDOR
Normal – Um polícia que persegue um delinquente, um pai que castiga o seu filho que bateu no irmão mais novo, são formas de perseguição normais e correntes.
Psicológico – um marido que humilha a sua esposa quando esta decide que quer ter um emprego; um professor autoritário e sempre severo.

O Perseguidor identifica-se claramente com o Pai punitivo da Análise Transacional; autoritário, ditador, manipula pelo medo; prefere ser temido a ser amado; dita as regras e faz com que se cumpram, sem ter em consideração a vontade do outro; atormenta os débeis, explora as suas vulnerabilidades, só vê defeitos nos outros e exagera-os.

A função benéfica do pai é proteger e prover à sua família. O papel do Perseguidor é a perversão desta função, tentando “reformar” através da força. É sabido que todo o abusado se transforma em abusador, toda a vítima se transforma em perseguidor: com o objetivo de se vingar ou distanciar do mal que lhe fizeram, ele aplica agora esse mesmo mal aos outros que dele dependem.

É claro que em situações normais o Perseguidor devia dar-se conta do sofrimento que infringe. No entanto, este livra-se do sentimento de culpa dizendo a si mesmo que o que faz é pelo bem dos outros. Não lhe passa pela cabeça que os fins não justificam os meios. As técnicas usadas incluem pregar, culpar, interrogar, intimidar, atacar.

Tal como o Salvador ao desejar “consertar” alguém, o Perseguidor precisa de alguém para culpar! Os Perseguidores renegam as suas fraquezas e defeitos, da mesma forma que os Salvadores renegam as suas necessidades. O maior medo de ambos é a impotência. Negando o seu próprio estado de fraqueza, ambos têm uma necessidade constante de alguém sobre quem possam projetar as suas próprias inadequações. Tanto os Salvadores como os Perseguidores precisam, assim, de uma Vítima para sustentar o seu lugar no triângulo.

Os Perseguidores tendem a compensar os seus sentimentos de pouca valia, dando-se ares de grandiosidade. A grandiosidade é inevitavelmente gerada pela culpa. Ela compensa e disfarça um grande sentimento de inferioridade. Superioridade é como passar diretamente de um “menos que” para um “mais que”.

Todo o complexo de superioridade tem subjacente um sentimento incómodo de inferioridade; a grandiosidade é só uma forma de esconder este sentimento. A pessoa começa por escondê-lo dos outros e acaba por escondê-lo de si mesma, de tal maneira que chega a acreditar na sua superioridade.

Jogos de Perseguidor
Apanhei-te filho da p.” - Utilizados para justificar a raiva que se acumulou ao longo de um período de tempo prolongado. O agressor (geralmente inconsciente) identifica a vítima, prepara uma armadilha e usa-a como forma de se vingar ou de ganhar poder sobre o seu oponente.

Peritos em encontrar defeitos – A pessoa procura encontrar defeitos ou fraquezas nos outros ou em si mesma. Aproveita-se dos defeitos dos outros para ganhar e exercer poder sobre eles; quando é um auto jogo, serve para reforçar negativamente as suas incapacidades.

VÍTIMA
Real - Alguém que ao atravessar a rua é atropelado por um condutor embriagado que não respeitou o semáforo vermelho; alguém que é perseguido por motivos religiosos, raciais ou de preferência sexual.
Psicológica - Uma esposa queixa-se do seu marido a toda a gente, mas nunca toma uma decisão sobre o problema. Queixa-se por vício.

O estado de vítima, do ponto de vista psicológico, é tão doentio como os outros dois. É a pessoa que nunca cresce, um eterno Peter Pan que usufrui e explora o estado de dependência dos outros. Exterioriza os seus conflitos interiores, atraindo outras pessoas para os seus problemas e fazendo-as assumir dois papéis: o de perseguidoras e salvadoras. Necessita que alguém a persiga, a faça sentir-se culpada, manipula com a culpa, faz com que os outros a critiquem, humilhem, firam. Envia continuamente mensagens subliminares que dizem “estou indefeso, coitado de mim”.

Tanto o ser como o atuar do perseguidor e do salvador criam vítimas à sua volta. Porém, a vítima psicológica teve uma infância superprotegida por um pai protetor, um salvador paternalista. É este o responsável pela atual imaturidade, inadaptação e impotência da vítima: no tempo certo, em vez de deixar a criança resolver os seus problemas, o salvador resolveu-os por ela.

Formadas e educadas com base na ideia de que são intrinsecamente incapazes, as vítimas adotam a atitude de “Eu não consigo”. Este é o seu maior medo, forçando-as a procurarem sempre alguém que seja “mais capaz” para cuidar delas. As vítimas negam tanto a sua capacidade de resolver problemas quanto o seu potencial para gerar poder. Têm tendência para se verem como demasiado frágeis para encarar a vida. Sentindo-se impotentes, expostas, maltratadas, intrinsecamente más e erradas, vêem-se a si mesmas como um “problema insolúvel”.

Isso não as impede, contudo, de terem um grande ressentimento da sua dependência. As vítimas acabam por sentir-se saturadas de estar em posição inferior e tentam encontrar modos de revidarem ou “virarem o jogo”. A passagem para a posição de perseguidor implica geralmente sabotar os esforços para que sejam salvas.

As vítimas são jogadoras exímias do jogo “Sim, mas…” acima descrito. Sempre que um conselho, uma sugestão ou solução lhe é oferecida, a vítima responde “Sim, mas isso não vai funcionar porque...”. Algumas vezes assumem o papel de perseguidor como forma de culpar e manipular os outros para que tomem conta delas.

Jogos de Vítima
Se não fosses tu…” - Frequentemente jogado entre cônjuges e sócios comerciais como um meio de evitar a responsabilidade por decisões individuais.

Eterno devedor - Muitas vezes, torna-se um guião, um plano para toda a vida. É usado como meio para atingir um objetivo na vida; uma vez atingido esse objetivo, o jogador sente-se deprimido e sem rumo (objetivo) e começa de novo o jogo em busca do sentido da vida.

Olha o que me obrigaste a fazer” - Jogado por alguém que se sente magoado e enraivecido, que se envolve numa atividade que tende a isolá-lo das pessoas. Quando é interrompido, em caso de acidente ou erro, atira-se ao intruso, culpando-o e fazendo dele bode expiatório do próprio falhanço ou do acidente que ocorreu.

Vamos brigar, tu e ele” - Um jogador incita dois outros a brigar entre si e desfruta da briga na qualidade de espetador e de árbitro. O incitador põe-se do lado do vencedor.

Perna de Pau - Usada como desculpa para um comportamento disfuncional. "Que se pode esperar de uma pessoa com uma perna de pau?" Muitas vezes usada como justificação, ou seja, "eu sou ruiva por isso tenho mau temperamento” ou "eu bebo porque sou irlandês", etc.

Dá-me uma patada” - Jogado por pessoas que sentem necessidade de serem punidas; se não o são, têm um comportamento cada vez mais provocante até ultrapassarem os limites, obrigando algum perseguidor a dar-lhes uma patada; nesta categoria estão os abandonados e abandonadas, os que foram despedidos, os rejeitados. etc.

Atração/repulsa - Jogado por pessoas que têm medo da proximidade / intimidade, mas também têm medo de ficar sozinhas. Tratam de seduzir outra pessoa e quando esta já está seduzida, o jogador recua, deixando a pessoa confusa.

SALVADOR
Real - Um médico que preserva a vida de um doente; a embaixada que dá asilo a um refugiado político.
Psicológico - Uma mãe que faz os trabalhos de casa do seu filho; um terapeuta que dá sistematicamente conselhos e não ajuda o cliente a pensar e a solucionar os seus problemas.

Da mesma forma que, na família tradicional, o Perseguidor é a figura paterna, o Salvador é o princípio da sombra materna. Olha para o outro como um eterno indigente, impotente; necessita que precisem dele, por isso a ajuda que oferece tem como fim manter os outros na sua dependência. Mantém a vítima como vítima para que o jogo não acabe e pode até usar a chantagem e o suborno para os papéis se manterem. Acha que tem solução para todos os problemas dos outros.

É a reação típica de dependência a que chamamos de “sufocante”. É uma versão distorcida do aspeto feminino que deseja nutrir e proteger. Parte do problema do salvamento é que ele vem de uma necessidade inconsciente de se sentir importante ou de se estabelecer como aquele que resgata. Cuidar dos outros é a única forma que um Salvador conhece de se ligar a eles e de sentir que tem valor. Os Salvadores cresceram geralmente em famílias onde eram inferiorizados e humilhados por terem necessidades. Aprenderam então a negar estas necessidades, cuidando dos outros. Isso faz com que seja essencial terem quem dependa deles.

Os Salvadores, no fundo, também são vítimas, ou seja, reconhecem que necessitam de ser cuidados e que, se cuidarem bem dos outros, algum dia alguém cuidará deles. Isto vem ao de cima quando a pessoa que eles tentam ajudar rejeita essa ajuda. Neste caso, sentem-se deprimidos e facilmente assumem eles o papel de vítima e mártir, dizendo, “É isto que eu ganho, depois de tudo o que fiz por ti”, “Não importa o quanto eu faça, nunca é suficiente” ou “Se tu realmente me amasses, apoiavas-me mais”.

O maior medo do Salvador é não haver ninguém que aceite a sua ajuda e cuidado. Não se dão conta da dependência castradora que alimentam quando cuidam daqueles que dependem deles. Através destas táticas, criam mensagens incapacitantes. Todos os envolvidos acabam por se convencer de que a vítima é incapaz, inadequada ou defeituosa, reforçando assim a necessidade de cuidado constante. O trabalho do Salvador passa então a ser cuidar da vítima, “para o próprio bem dela”, claro.

Ter uma vítima para cuidar é essencial para que o Salvador mantenha a ilusão de ser superior e independente. Isto significa que sempre haverá pelo menos uma pessoa no cerne da vida de cada Salvador que é doente, frágil, inapta e que necessita dos seus cuidados.

Jogos de Salvador
Eu só estava a ajudar…” - Um futuro Salvador está a curar a ferida de uma criança de três anos que protesta e trata de fugir; quando a criança desata a chorar, o futuro Salvador levanta as mãos em sinal de desespero e diz “Raios/Porra, eu só estou a tentar ajudar!”

Que seria de ti sem mim?” - Uma adolescente está a guardar o seu irmãozinho e deixa que ele se afaste. Quando ele grita de terror depois de ter subido um muro, caído e esmurrado o nariz, ela corre, toma-o ao colo e conclui “sempre te acontece alguma coisa se eu não te guardo”.

O drama em ação
Mãe (Perseguidor) – Se não limpares o teu quarto, hoje não jantas.
Pai (Salvador) – Deixa o rapaz em paz, deve estar cansado, esteve todo o dia na escola.
Mãe (Vítima) – Também estive o dia todo a trabalhar, tenho que ser eu a fazer tudo em casa?
Filho (Salva a mãe, persegue o pai) – Não te metas, este é um assunto entre mim e a mãe.
Pai (Vítima em relação à Mãe e ao filho) – Eu só estava a tentar ajudar…
Pai (Perseguidor em relação ao filho) – Estás a faltar-me ao respeito, não podes falar assim ao teu Pai.

Outro exemplo:

Filho (Perseguidor) – Sabes que odeio azul e foste comprar-me uma camisa azul.
Mãe (Vítima) – Para ti, nunca faço nada bem.
Pai (Salva a Mãe, persegue o filho) – Como te atreves a tratar assim a tua mãe? Ficas sem jantar!
Filho (Vítima falando em off) – Pedem-me para dizer o que penso, mas quando o faço não gostam.
Mãe (Salvador) – Leva comida às escondidas e diz ao filho “não devíamos ter-nos chateado por causa de uma camisa”.
Mãe (Perseguidor) – João porque é que és tão duro com o nosso filho? Deve estar a odiar-te lá no quarto.
Pai (Vítima) – Raios/Porra! É esta a paga que me dás por me ter posto do teu lado?
Filho (Salvador do pai, perseguidor da mãe) – Oh mãe, acaba lá com isso, não vês que o pai está cansado do trabalho?

Solução do drama triangular
Como vemos, os jogos não resolvem nenhum problema e criam outros, por serem doentios. A solução para os jogos é darmo-nos conta de que os jogamos e fazer entrar o adulto no processo para os parar, obrigando todos a relacionar-se a partir do Adulto e abandonando o Pai protetor ou salvador, o Pai punitivo ou Perseguidor e a Criança ou Vítima. Cada um deve assumir a responsabilidade pelos próprios sentimentos, pensamentos e ações, assim como por tudo o que acidentalmente lhe acontece e entender que isso não foi causado pelos outros nem por má sorte.

Mais concretamente em relação ao drama triangular, para combater cada um dos papéis, vários psicoterapeutas criaram papéis alternativos saudáveis para jogar um jogo consciente de adulto. A figura que ilustra este texto alude a esses papéis no triângulo azul.

Não ao perseguidor, sim ao assertivo – Em vez de perseguir, deve ser assertivo, exortar sem punir, promover o autoconhecimento e o auto crescimento do outro. Desafiar, não impor, provocar e evocar ação no outro. Infundir esperança e energia, fundamentalmente dizer ao outro “tu consegues”.

Não à vítima, sim ao responsável – Aceitar a sua vulnerabilidade, a sua fraqueza, sem defender-se dela, mas dizer como S. Paulo “quando sou débil, sou forte” (2 Coríntios 12, 9-11). Quando a pessoa tem consciência da sua fraqueza, dá-se tam
bém conta das suas capacidades e usa-as, sendo assim criador e protagonista da própria mudança, sem passar a responsabilidade da sua vida para um perseguidor ou salvador. Esforça-se rumo à autossuficiência, procura soluções para os seus problemas e diz a si mesmo “querer é poder, eu quero, eu posso”.

Não ao salvador, sim ao empático – Descer empaticamente ao nível do outro e, a partir daí, ajudar de uma forma não paternalista, sem substituir o outro, mas deixando que seja ele a resolver os próprios problemas; este é o papel do psicoterapeuta não diretivo segundo Carl Rogers. Assiste, apoia, facilita, faz perguntas exploratórias para que a pessoa veja todas as facetas do seu problema e ajuda-a a descobrir o que vai fazer e como o vai fazer.

Cresce e aparece! Ninguém vai tirar as castanhas do fogo por ti, nem Deus vai fazer por ti o que tu podes fazer por ti mesmo. Quando ninguém se assume como vítima, evaporam-se os perseguidores e os salvadores e aparecem os amigos que ajudam no processo da descoberta de soluções por nós mesmos, ajudando-nos a sair da nossa miséria. 

Jogar é aliciar os outros a agir como vítima, perseguidor ou salvador no drama de nossa imaturidade. Porém, se um dos atores decidir tornar-se adulto renunciando ao seu papel, os outros dois eventualmente seguirão o seu exemplo, e todos têm uma oportunidade de crescer.
Pe. Jorge Amaro, IMC










1 de julho de 2020

3 Etapas do arquétipo do progresso: Egito - Deserto - Terra Prometida

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Arquétipo, modelo, padrão, paradigma são sinónimos que definem aquela realidade que nos faz concluir que a história se repete: a perceção do “déjà vu”, o constatar que já vimos antes o que estamos a ver agora é o que torna possível a metáfora, ou seja, uma relação de semelhança entre realidades de diferente natureza.

A validade e universalidade dos arquétipos, paradigmas ou padrões, assim como o seu uso e aplicação em todas as facetas da vida humana, são possíveis, porque a natureza humana é sempre a mesma. Não varia no tempo nem no espaço, ou seja, verifica-se ser a mesma em todas as gerações, desde Adão aos nossos dias e até ao fim dos tempos, e a mesma em todos os locais do planeta, em todas as culturas e civilizações que existiram, existem ou venham a existir.

Não vemos na saída do povo de Israel do Egito, na sua passagem pelo deserto e na entrada na Terra Prometida só uma realidade histórica e teológica mas também as três etapas do arquétipo do progresso em todas as suas vertentes - científica, social, psicológica, espiritual etc. - pelo que a leitura do relato bíblico apela ao nosso inconsciente coletivo no qual, segundo Jung, se encontram  guardados todos os arquétipos, qual património imaterial da humanidade e parte da consciência cultural do Ocidente.

A leitura e análise deste relato bíblico, para além do seu significado histórico e teológico, pode servir-nos de guia e inspiração noutras facetas da vida humana que impliquem mudança, transcrição, conversão, passagem de uma realidade para outra, crescimento, progresso. Michael Walzer’, no seu livro Êxodo e Revolução, diz que o Êxodo é um modelo, uma história que torna possível a narração de outras histórias.

Nascer e morrer à luz do arquétipo
Uma delas pode ser o processo do nosso nascimento lido à luz deste arquétipo: estamos confinados a um espaço muito pequeno no seio da nossa mãe, ligados a ela como um paciente a uma máquina de suporte de vida, sem grande liberdade de movimentos e sem espaço para crescer. A passagem deste tipo de “Egito” para a Terra Prometida da liberdade, o vir à luz, é um processo, uma passagem que pode ser curta ou mais demorada, mas em ambos os casos muito dolorosa e incómoda, tanto para o bebé como para a mãe.

Se a entrada neste mundo pode ser lida à luz do arquétipo Egito – Deserto – Terra Prometida, a saída dele também pode ser lida à luz deste mesmo arquétipo. Lá para o fim da nossa vida, seja pela velhice ou pela doença e pelo sofrimento que esta mesma nos causa, a própria vida transforma-se num Egito insuportável.

Começamos a ter limitações de toda a espécie, não podemos comer isto ou aquilo, não podemos andar, ficamos limitados a uma cama e, por fim, muitos ficam ligados outra vez ao cordão umbilical, ou seja, a uma máquina de suporte vital que faz artificialmente o que alguns dos órgãos já não conseguem fazer naturalmente. A nossa vida transforma-se num Egito do qual queremos libertar-nos.

Porém, para passar para a Terra Prometida verdadeira, a vida eterna, teremos que passar pelo deserto que é o processo da morte ou nascimento para a vida eterna. Um processo que também é doloroso, tanto para aquele que o experimenta como para os que estão ligados a ele por laços de afeto.

Perante a morte que se aproximava, passagem para a outra vida, o meu pai perguntou á minha agonizante, “Queres que te traga o medicamento?” - “Não, quero morrer.” E estas foram as suas últimas palavras. Confrontada com o rigor do deserto, mas esperançada na Terra Prometida da vida eterna, a minha mãe não quis voltar para trás, para uma vida já cheia de limitações. Como ela dizia, “já são muitas coisas, muitas limitações e muitas doenças.”

Arquétipo básico da vida humana
“Quem algo quer, algo lhe custa” diz um provérbio castelhano. Uma vez expulsos do paraíso terrestre, Adão e Eva sabem que este provérbio, consciente ou inconscientemente inspirado no arquétipo, se verifica em todos os aspetos e vertentes da vida e é já por si um dos arquétipos mais importantes da vida humana.

Tomemos como exemplo o jovem que quer licenciar-se em Medicina. O querer ser médico é a sua vocação, a sua Terra Prometida; o não ser ainda médico é o seu Egito, pois o seu ser, de momento, não coincide com o seu dever ser, com o que está em si ser, porque não é ainda o que quer ser. De alguma forma, tem de deixar de ser o que é e entrar num processo que o leva a ser médico: esse processo é a frequência da universidade, o estudar em cada dia. Ninguém vive no deserto, o deserto é sempre terra de passagem. Do mesmo modo, ninguém é estudante para sempre, o ser estudante aplicado é coisa de 7 ou 8 anos da nossa vida, mas que são incontornáveis para a aquisição do diploma que nos permite exercer a atividade médica.

Para atravessar o deserto, o povo espanhol tem dois provérbios que nos aconselham a atitude a ter perante os rigores do deserto. “Al mal tiempo buena cara”, refere-se ao tempo meteorológico, mas aplica-se também às dificuldades que nos surgem na vida. Diante destas, devemos ter uma atitude positiva, otimista e não pessimista ou derrotista.

“Enfrentar el toro por los cuernos” aconselha-nos, perante as dificuldades, a não esconder a cabeça debaixo da areia, como dizem que as avestruzes fazem, ato que ilustra a comum atitude de negação, nem a procurar contornar ou fugir das dificuldades, mas a enfrentá-las de peito aberto com a força de vontade de um guerreiro, de um herói.

O próprio caminhar do povo desde um passado de escravidão por um presente de duras penas e sacrifícios, com vista a um futuro risonho, idílico e utópico, é uma imagem do arquétipo. O filósofo hebreu e marxista Ernst Bloch baseou o seu princípio da esperança no Êxodo. O Êxodo também inspirou os pregadores negros dos anos sessenta, como Martin Luther King, assim como a teologia política de Johann Baptist Metz, a teologia da esperança de Jürgen Moltmann e, por fim, herdeira destas duas, a teologia latino-americana da libertação de Gustavo Gutiérrez, Leonardo Boff e outros.

Arquétipo da história
Com o Êxodo se constitui o tempo da História moderna, que já não obedece a ciclos nem a mitos, mas é uma flecha disparada do passado em direção ao futuro. O tempo da História é um tempo onde o passado, o presente e o futuro se encontram e dialogam entre si. O novo constrói-se a partir do que aprendemos dos erros do passado, por isso, não recordar o passado é estar condenado a repeti-lo, inconscientemente, acriticamente, indefinidamente.

Manter viva a memória da escravidão do Egito evita que se cometam os mesmos erros. Isto mesmo fazem os profetas e isto mesmo fazem os apóstolos nos seus primeiros discursos de evangelização: ler o passado a partir do presente para orientar e projetar o futuro.

Com efeito, a vida em si mesma é uma peregrinação como diz Hebreus 13, 14 - não temos no aqui e agora uma cidade permanente na qual possamos instalar-nos mas caminhamos em direção a uma futura cidade, e qualquer realização histórica concreta desta é sempre e só uma imagem de uma que está sempre para vir e que é a vida eterna, pois só nela o leite e o mel correm sem cessar.

Soa a mito do eterno retorno, mas a mesma história diz-nos que qualquer realização concreta e histórica da utopia, da Terra Prometida, facilmente se transforma com o tempo num Egito do qual é preciso sair, voltando a repetir a experiência do deserto. A verdadeira pátria e o fim de todo o progresso é a vida em Deus e com Deus.

Conceção cíclica e linear do tempo
O tempo cósmico, o Círculo – Partindo do objetivamente observável, na Antiga Grécia e no Extremo Oriente prevaleceu sempre uma compreensão circular do tempo: do ponto de vista cósmico, os 365 dias que a terra leva a dar uma volta ao sol, do ponto de vista da Natureza, mais propriamente das mudanças climatéricas, as quatro estações do ano, Primavera, Verão, Outono e Inverno. A partir destes factos, nasceu para a Filosofia o mito do “eterno retorno”, para a Ciência a ideia de que “Não há nada de novo de baixo do sol” e para a Religião a crença na “reencarnação”.

O tempo humano, a Reta – Do ponto de vista existencial e humano, cada dia que passa é um dia mais que vamos viver e um dia menos que nos resta de vida. Conceber o tempo como uma reta, que vem do passado, passa pelo presente e se dirige ao futuro, não é algo que se possa observar na Natureza.

O tempo em linha reta é o tempo da história individual e comunitária, o tempo que integra a ideia de progresso moral: hoje foi melhor que ontem, amanhã será melhor que hoje. Na Filosofia, a máxima “não nos banhamos duas vezes nas águas do mesmo rio”, de Heráclito, partilha esta compreensão do tempo, verificando-se o mesmo na Cosmologia e na Religião que veiculam as noções do princípio e do fim do mundo.

Esta é também a conceção judaica do tempo: a saída do Egito (terra de escravidão), a passagem pelo deserto (lugar de sofrimento, penitência, purificação e esforço) e a entrada na Terra Prometida, onde corre leite e mel (terra da liberdade, do esforço recompensado e da obra acabada).

Uma libertação individual e uma social
Embora o arquétipo, como dissemos, possa ser aplicado a todo tipo de evolução, progresso libertação, mudança ou conversão, neste texto estudaremos a narrativa bíblica da epopeia do povo judeu, desde o Egito até à Terra Prometida, tomando-a como arquétipo e, portanto, como guia e inspiração de dois tipos de liberdade: uma social, a outra individual.

Para a libertação social escolhemos a teoria de Karl Marx, o seu materialismo histórico e dialético aplicado à análise da sociedade capitalista e a oferta do socialismo como solução para os problemas do capitalismo. Neste sentido, o capitalismo é o Egito, o deserto seria a ditadura do proletariado, e a Terra Prometida seria a sociedade sem classes do socialismo.

Para a libertação individual, escolhemos o processo que o indivíduo deve seguir para se ver livre de qualquer comportamento aditivo, seja ele causado por uma substância, droga, álcool, tabaco, dinheiro ou por um comportamento repetitivo e obsessivo, como o sexo, a ira, etc. O Egito seria o comportamento aditivo que mantém o indivíduo privado da sua liberdade, o deserto seria o tempo de purificação, desintoxicação, fortalecimento do ego, e a Terra Prometida seria a reconquista da liberdade face ao comportamento aditivo. 

EGITO
Tomar consciência de que és um escravo
Na Bíblia, Egito significa conhecimento e amor pelo conhecimento. O Egito é, portanto, um lugar onde aprendes a verdade. Enquanto José governava o Egito, este era um paraíso para si, para os seus irmãos e pai. Psicologicamente, isto significa que enquanto a mente domina ou governa o mundo, muito pode ser aprendido. Porém, começou a reinar no Egito um faraó que não tinha conhecido José e os filhos de Israel, ou seja, o domínio da mente sobre o mundo físico. O faraó representa o domínio do mundo físico sobre a mente, o domínio da carne sobre o espírito, como dirá S. Paulo.

Enquanto o espírito ou a mente tem a primazia ou governa o corpo, os seus desejos e apetites, o ser humano goza de liberdade, porque o ser humano é, acima de tudo, um ser espiritual. Quando pelo contrário, sobe ao trono o faraó, ou seja, o corpo com os seus desejos domina a mente e o espírito, o ser humano experimenta a escravidão.

O Egito é sinónimo de terra da escravidão, mas também, num momento posterior, é sinónimo de terra da verdade. Cito a história que contei no texto sobre a tridimensionalidade da ação social, ver – julgar – atuar: um sacerdote espanhol com toda a sua bagagem europeia depois de haver contemplado por algum tempo a situação deplorável e miserável em que vivia uma comunidade de camponeses latino-americanos, perguntou-lhes, “mas vós não tendes fome e sede de justiça?” Eles responderam “que é isso de fome e sede de justiça? Nós, senhor Padre, só conhecemos a fome de pão e a sede de água.”

(Moisés) Viu também um egípcio que açoitava um dos seus irmãos hebreus. Olhando para todos os lados e vendo que não havia ali ninguém, matou o egípcio e enterrou-o na areia. Saiu outra vez no dia seguinte e viu dois hebreus a brigar. Disse ao culpado: «Porque bates no teu companheiro?» Ao que ele replicou: «Quem te estabeleceu como chefe e juiz sobre nós? Exodo 2, 12-14

Enquanto o camponês só conhece a fome de pão e a sede de água, vive numa terra de escravidão, é escravo sem saber que o é e, tal como o povo judeu quando vivia nesta fase, não aceita que nenhum Moisés lhe venha falar de fome e sede de justiça. Os hebreus também não aceitavam a liberdade e a luta pela justiça que Moisés oferecia.

O Senhor disse: «Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egito, e ouvi o seu clamor diante dos seus inspetores; conheço, na verdade, os seus sofrimentos. Desci a fim de o libertar da mão dos egípcios e de o fazer subir desta terra para uma terra boa e espaçosa, para uma terra que mana leite e mel, (…) eis que o clamor dos filhos de Israel chegou até mim, e vi também a tirania que os egípcios exercem sobre eles. Êxodo 3, 7, 8, 9

Quando finalmente o povo abre os olhos para a sua verdadeira condição, então sim, interpreta a sua vida de uma outra forma, começa a ter consciência de ser escravo numa terra estrangeira e começa a sonhar com outra vida noutra terra - a terra que os filhos de Jacob tinham deixado. Agora sim, já aceitam um líder que os tire dali, mas também este já não é o mesmo Moisés que matou o egípcio.

Em linha com o texto “ver - julgar – atuar” que, como dissemos, no seu tempo foi muito provavelmente inspirado no Êxodo, depois de o povo tomar consciência da sua vida de escravo, uma alternativa a essa vida começa a aparecer na sua mente. Esta alternativa é um sonho, uma promessa, um objetivo, uma utopia situada algures no futuro que atua como íman, que atrai o povo, que o faz sair da sua situação e caminhar para o futuro onde essa utopia se torna real.

Tal como um GPS, enquanto o satélite não descobre o lugar onde estamos, não pode indicar-nos o percurso até ao o lugar onde queremos ir. E para quem não sabe para onde ir, não há ventos favoráveis. O vento, a força motriz, só aparece quando sabemos qual é o nosso rumo, o nosso objetivo, a nossa utopia. Descobertos estes, é tempo de partir; mas antes de partir, celebramos a nossa libertação, pois a esperança vai guiar-nos.

Sonho com o dia em que nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos descendentes dos donos de escravos poderão sentar-se juntos à mesa da fraternidade. Sonho com o dia em que os meus filhos vão viver numa nação onde não serão julgados pela cor da sua pele, mas pelo conteúdo do seu caráter. Martin Luther King

Páscoa, a celebração memorial do arquétipo
Falai a toda a comunidade de Israel, dizendo que, aos dez deste mês, tomará cada um deles um animal do rebanho para a família, (…) Vós o tereis sob guarda até ao dia catorze deste mês, e toda a assembleia da comunidade de Israel o imolará ao crepúsculo. (…) será para vós um memorial, e vós festejá-lo-eis como uma festa em honra do Senhor, ao longo das vossas gerações a deveis festejar como uma lei perpétua. Êxodo 12, 3, 6, 14

Um povo que nunca se reúne para celebrar a sua identidade, deixa de ser povo. Em cada dia do tempo ordinário, cada um se dedica à sua tarefa, ao trabalho e nisso pode estar desligado do resto dos seus irmãos. Toda a nação, todo o povo, toda a associação de pessoas tem dias em que se encontra para celebrar a sua identidade nacional ou associativa; se isto deixa de acontecer, esse povo, essa nação, essa associação, deixa de existir.

Deus que é criador da natureza humana conhece-a bem melhor do que os humanos. Por isso, ainda antes de o povo partir para o deserto, decretou que o mesmo ato de saída fosse uma celebração que seria depois repetida num ritual em cada ano, para que nunca ninguém se esquecesse do preço da liberdade, do que custou a libertação da escravidão.

Jesus veio trazer a libertação para toda a humanidade de todo o tipo de “Egitos” que nos privam da nossa liberdade e dignidade como filhos de Deus. E também instituiu um ato memorial - a Eucaristia - e disse explicitamente “fazei isto em minha memória” depois de abençoar o pão e o vinho que se iriam transformar no seu corpo e no seu sangue, o preço que Ele pagou pela nossa liberdade.

DESERTO
Depois da euforia da celebração pascal e da saída do Egito, as dificuldades depressa se fizeram sentir. De frente apareceu o Mar Vermelho e por trás o exército egípcio. O povo, entre a espada e a parede, sentiu a tentação de olhar para o sonho que até ali o tinha conduzido como se fosse uma ilusão e um engano, uma miragem daquelas que precisamente no deserto são famosas.

Esta situação de desespero foi só a primeira, muitas outras se iriam suceder: a fome, a sede, as serpentes, a lembrança da carne que comiam no Egito parecia agora um sonho e bem mais real e viável, pois já o tinham experimentado. Tudo isto os impedia caminhar, pois de facto até parecia agora que a utopia tinha deslocado do futuro para o passado. Face aos desafios que a liberdade lhes apresentava, a escravatura do Egipto aparecia agora nas suas mentes como um paraíso perdido.  Assim se explica a tentação de voltar atrás.

Liberdade como processo
Nem pão sem liberdade nem liberdade sem pão. O pão é o alimento do corpo, a liberdade é o alimento da alma. É a alma que nos distingue do resto dos seres vivos. Portanto, o verdadeiro valor humano é a liberdade e não o pão, a capacidade de tomar a nossa vida nas nossas mãos e realizar com ela algo mais importante que a própria vida. No entanto, para viver, ou seja, para ter a vida nas nossas mãos, necessitamos de estar vivos, ou seja, necessitamos de alimentar o nosso corpo.

Não é edificante sacrificar a liberdade para obter pão, pois sacrificamos a nossa razão de vida. É como estar humanamente morto, como abdicar da vida para estar vivo. A menos que sacrifiquemos a nossa liberdade para obter o pão de alguém. Moisés exigiu do povo que abdicasse temporariamente do pão, da água em abundância e da carne para obter a liberdade: um bem maior que todos estes.

Assumir uma nova consciência de si mesmo, uma nova identidade, idealizar e elaborar o projeto de uma sociedade justa e fraterna, de forma a que liberdade seja sinónimo de participação e responsabilidade pelo projeto é um caminho longo e tortuoso pois o processo leva tempo. No caso de Moisés, o processo mais curto e fácil seria ir pela terra dos filisteus, ao longo do mar Mediterrâneo.

Deserto e desintoxicação
Avizinham-se dias difíceis. Mas isso não me preocupa, porque vi o cimo da montanha. E não me importo. Como qualquer pessoa, gostaria de viver uma vida longa. A longevidade é importante. Mas isso não me preocupa agora.

Quero apenas fazer a vontade de Deus. E Ele permitiu que eu subisse ao cimo da montanha. E eu vi mais além. E eu vi a Terra Prometida. Posso não chegar lá convosco. Mas quero que saibam, esta noite, que nós, enquanto povo, chegaremos à Terra Prometida! E estou tão feliz esta noite. Nada me preocupa. Não temo homem algum! Os meus olhos viram a glória da vinda do Senhor!! Martin Luther King, (um dia antes do seu assassínio)

A liberdade não se conquista de um dia para o outro, num simples ato, numa fuga. A liberdade é um processo com altos e baixos, é preciso libertar-se de velhos hábitos, das cebolas e da carne do Egito, superar a tentação de voltar atrás que surge quando se encontram dificuldades no caminho; o deserto significa desintoxicação dos vícios e maus hábitos que se tinha como escravos. Cortar com a vida anterior para estar disponíveis para uma vida nova.

No longo processo para a libertação, muitos ficaram pelo caminho. Moisés não entrou na Terra Prometida; Luther King que conduziu o povo negro dos Estados Unidos para liberdade e igualdade também não viu realizado o seu sonho no tempo curto da sua vida.

Dos que saíram do Egito, só Josué e o seu amigo Caleb entraram na Terra Prometida. Os dois eram positivos, olhavam para a frente, eram otimistas, não temiam o que a maior parte temia. Sobretudo no episódio dos espiões da terra, neste caso, o medo paralisou a maior parte dos filhos de Israel; Josué e Caleb estavam lá para infundir força, coragem, esperança e fé no Deus que tantas vezes tinha dado provas do seu amor e dedicação.

Não se pode entrar na Terra Prometida com os vícios do passado, estes têm de ficar no deserto. É provavelmente isto que simboliza o facto de apenas dois dos que saíram da escravidão terem entrado na Terra Prometida, enquanto que os outros ficaram pelo caminho, tendo sido sucedidos pelos seus filhos que já haviam nascido e crescido em liberdade no deserto.

A lição da borboleta
Um dia, uma pequena abertura apareceu num casulo; um homem sentado observou a borboleta por várias horas, enquanto ela estava a tentar mover o corpo através do pequeno buraco. Depois de algum tempo, parecia que ela tinha deixado de fazer qualquer progresso. Parecia que já tinha feito tudo o que podia e não tinha conseguido alargar o buraco.

Então o homem decidiu ajudar a borboleta: agarrou numa tesoura e abriu o casulo. A borboleta conseguiu sair facilmente. O seu corpo estava murcho, era pequeno e tinha as asas enrugadas. O homem continuava a observá-la, pois esperava que a qualquer momento, as asas se abrissem e esticassem para suportar o corpo, e que este se fizesse rijo. Nada disto aconteceu! Ao contrário, a borboleta passou o resto da sua vida rastejando com um corpo e asas murchas e encolhidas, e nunca foi capaz de voar.

O homem, na sua gentileza e vontade de ajudar, não se apercebeu de que o casulo apertado e o esforço necessário para a borboleta passar através da pequena abertura, era o estratagema que Deus tinha criado para que o fluido do corpo da borboleta fosse bombeado para as asas, proporcionando-lhe assim a força hidráulica para voar, depois de se ter libertado do casulo.

De foragidos a povo
Um inimigo comum faz de estranhos, amigos. No deserto, tudo é antagónico e, por isso, a união faz a força - para sobreviver são precisos os esforços de todos. Não é possível uma passagem direta do Egito para a Terra Prometida, é o deserto que faz de um bando de foragidos um povo, com uma idiossincrasia própria, uma lei, uma língua, uma forma de vida, um objetivo comum e uma relação especial com Deus que caminha com eles em forma de fogo durante a noite, em forma de nuvem durante o dia e que acampa com eles, habitando uma tenda.

Esta relação de absoluta dependência de Deus e interdependência entre todos é mais tarde exaltada pelos profetas como o tempo idílico: “Assim fala o Senhor: Recordo-me da tua fidelidade no tempo da tua juventude, dos amores do tempo do teu noivado, quando me seguias no deserto, na terra em que não se semeia. Israel era, então, propriedade sagrada do Senhor…Jeremias, 2, 2-3

O deserto não é um lugar para se viver, falta tudo, até o essencial. Naturalmente, a pessoa no deserto torna-se mais espiritual, volta-se para a paisagem interior pois nada há no exterior que capte os seus cinco sentidos. Por isso, para o povo, o deserto foi um tempo de introspeção individual e social e, dentro de si mesmo, encontrou Aquele do qual Santo Agostinho diz Deus intimior intimo meo, que nos é mais íntimo que o nosso íntimo, que está para além do nosso íntimo. Neste processo de introspeção, matam-se dois coelhos com o mesmo pau: conhecemo-nos a nós mesmos e a Deus.

A aliança ou pacto
A passagem de um estado de opressão para um estado de liberdade pressupõe uma mudança irrevogável e um juramento. Durante a marcha no deserto, os hebreus guiados por Moisés fazem um pacto entre eles, como povo e com Deus. Desta forma, no monte Sinai, um conjunto de tribos se transforma num povo, numa nação com leis e com uma constituição para governar a sua vida social.

A diferença das alianças anteriores com Abraão e Noé, que eram unilaterais e incondicionais, é que esta aliança de Moisés é bilateral, ou seja, se o povo permanecer fiel, Deus respeitará a sua parte do pacto. Moisés dá ao povo a possibilidade de escolha.

“(…) esta Lei, que hoje te prescrevo, não é muito difícil para ti nem está fora do teu alcance. (…) está muito perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a praticares. Repara que coloco hoje diante de ti a vida e o bem, a morte e o mal. Assim, ordeno-te hoje que ames o Senhor, teu Deus, que andes nos seus caminhos, que guardes os seus mandamentos, preceitos e sentenças. Assim viverás, multiplicar-te-ás e o SENHOR, teu Deus, te abençoará na terra em que vais entrar para dela tomar posse.

Mas se o teu coração se desviar e não escutares, se te deixares arrastar e adorares deuses estranhos e os servires, declaro-vos hoje que, sem dúvida, morrereis; os vossos dias não se prolongarão na terra na qual ides entrar, passando o Jordão, para dela tomar posse.” Deuteronómio 30, 11, 14-18

Idêntico discurso (Deuteronómio 31, 1-29) é feito por Josué, sucessor de Moisés, antes da última passagem ou páscoa: a do deserto para a Terra Prometida através da travessia do rio Jordão. Mais uma vez e pela última vez antes de iniciar uma vida nova numa nova terra, o povo é recordado do pacto que fez com Deus e que o constituiu como povo, ou seja, que lhe conferiu uma identidade tantas vezes exaltada no confronto com os outros povos vizinhos ou longínquos.

TERRA PROMETIDA
Depois de passar o rio Jordão, o povo chega finalmente à Terra Prometida, mas esta não lhe é dada de mão beijada. Dizem que Deus alimenta as aves do Céu, mas não lhes leva a comida ao ninho, elas têm de sair e ir buscá-la. Custou chegar até à Terra Prometida e, ao chegar, deparam-se com Jericó, a cidade mais antiga do mundo, bem amuralhada. Tiveram então de a conquistar, como o resto da terra onde corre leite e mel.

Ia para evangelizar e foi evangelizado
(…) das cidades destes povos, que o Senhor, teu Deus, te há-de dar por herança, é que não deixarás nelas alma viva. Votarás à destruição, o hitita, o amorreu, o cananeu, o perizeu, o heveu, o jebuseu, como te ordenou o Senhor, teu Deus, para que eles vos não ensinem a fazer as abominações que praticam em honra dos seus deuses. Pecaríeis contra o Senhor, vosso Deus. Deuteronómio 20, 16-18

Não me detenho a justificar ou defender o texto com conotações de genocídio, deixo isso para os mais entendidos nas sagradas escrituras. Como estamos a falar de arquétipos, o significado simbólico deste extermínio que Deus ordenou não é tanto de gentes, mas dos costumes dessas mesmas gentes para que, como diz o mesmo texto, não aconteça que o povo, em vez de estabelecer a sua cultura, idiossincrasia e fé na terra, adote costumes, hábitos e vícios do povo que habita essa mesma terra.

Portanto, trata-se de uma limpeza cultural, trata-se do tipo de limpeza que Jesus fez no Templo de Jerusalém para que este deixasse de ser lugar de negócios e idolatrias e fosse lugar de oração ao Deus único, Àquele que tinha tirado o povo do Egito e o tinha acompanhado até ali, dando-lhe esta terra. Quantas vezes vamos para evangelizar para trazer os outros para a nossa fé, para a nossa causa e acabam por ser eles que nos conquistam para a sua fé e para a sua causa.

O facto de Josué e os seus não obedecerem a Deus e não terem exterminado todos os cananeus, até as mulheres e as crianças, não significa que eram moralmente superiores ao próprio Deus mas sim que fizeram precisamente o que Deus temia: sendo eles os invasores, deixaram-se invadir e contaminar pelos costumes dos cananeus e, como já não eram nómadas, começaram também a adorar os deuses dos povos sedentários.

A Terra Prometida é o Reino de Deus
Mais que um lugar concreto, a Terra Prometida é individualmente uma forma de ser e de estar no mundo. Estamos no mundo, mas não somos do mundo. A história da salvação começou com Abraão, um arameu errante que deixou a sua terra. Já antes dele, Yaveh não escondia a sua preferência pelo nomadismo contra o sedentarismo. Sem nenhuma outra razão sem ser esta mesma, aceitou o sacrifício de Abel que era um pastor, portanto nómada, e não o de Caim que era um agricultor e, portanto, sedentário.

Por este mesmo motivo como atrás vimos, os profetas exaltam o tempo em que o povo caminhava pelo deserto e condenam o sedentarismo que leva à idolatria. Deus Yaveh é um deus de nómadas e não um deus sedentário. Os deuses sedentários eram os deuses da fertilidade, da agricultura. O sedentarismo, o parar, vai contra a natureza cósmica e humana, pois tudo se move e quando paramos facilmente caímos na idolatria. Estar no mundo sem ser do mundo é uma expressão de um certo nomadismo espiritual que devemos manter.

Por outro lado, a nível social, vivemos comprometidos com um projeto por um mundo melhor que é o Reino de Deus, mas não nos identificamos nunca totalmente com nenhuma conquista, mesmo neste sentido.

O Reino está já entre nós desde que Deus, por intermédio do Seu filho (historicamente, Jesus de Nazaré), entrou na história humana. Mas o Reino não está ainda entre nós na sua plenitude porque o mundo pode ser sempre melhor. Sabemos que nunca será como o Céu, o Reino de Deus por excelência. Por isso vivemos comprometidos, mas não implicados ou completamente identificados com as realizações históricas do Reino de Deus.

A Terra Prometida não é, portanto, um lugar geográfico concreto, mas uma sociedade onde reina a justiça e a paz. E para que esta reine, são precisos esforços contínuos e constante vigilância para que não descambe em injustiça e violência.

Como atrás vimos, o Egito do tempo de José era semelhante à Terra Prometida, pois lá se refugiaram os filhos de Jacob com o seu pai para não morrerem de fome. No tempo de José, pai adotivo de Jesus, voltou a ser terra de salvação, pois lá se refugiou o menino até Herodes morrer.

Podemos concluir que toda a Terra Prometida já foi um Egito e todo o Egito pode ser uma Terra Prometida. Como cristãos, devemos viver instalados no deserto, sempre em saída do Egito, caminhando em direção à Terra Prometida; hoje melhores que ontem e amanhã melhores que hoje.

Aplicação do arquétipo à teoria comunista de Marx
Karl Marx (1818-1883) era um economista e filósofo alemão de origem judaica que viveu no tempo em que a primeira revolução social esvaziou o campo e encheu cidades de operários, entre eles crianças, que viviam em condições sub-humanas, com demasiadas horas de trabalho, baixos salários e em pobreza extrema.

O capitalismo é o Egito do proletariado
Para ele, a sociedade estava dividida em proletários, os novos escravos, e burgueses, os novos senhores. Em seguida, Marx aplicou esta leitura da sociedade do seu tempo ao resto da História, que viu como uma luta de classes na qual o oprimido luta contra o seu opressor.

Nesta sociedade, o burguês capitalista controlava o processo da produção, pelo qual os produtos da fábrica eram vendidos a um preço que incluía a matéria prima, a mão de obra e um lucro do qual só o burguês beneficiava. Alguns industriais filantropos, dando-se conta dos lucros exorbitantes de que usufruíam, distribuíam-nos pelos trabalhadores, mas a maioria enriquecia enquanto o proletariado empobrecia.

Tal como o povo judeu no seu Egito, Marx que também era judeu entendia que o ressentimento do proletariado por ver roubado o fruto do seu suor, iria aumentando até um dia ecoar em todas as fábricas o famoso slogan do manifesto comunista de Marx e Engels (1848): "Trabalhadores do mundo, uni-vos, vós não tendes nada a perder a não ser os vossos grilhões".

A ditadura do proletariado é o deserto
Com isto, entendia Marx, o proletariado sairia do seu Egito, repudiaria a sua condição de escravo e tomaria as rédeas do poder e do processo de produção. Inverter-se-iam os papéis, tal como na parábola do rico e do pobre Lázaro. (Lucas 16, 19-31)

Estes foram os tempos da revolução comunista, tempos difíceis para todos, sobretudo para os burgueses que foram expropriados do seu poder, da sua propriedade, do lugar que ocupavam e do papel que desempenhavam na sociedade. Desapareceu a sua função, desapareceu a sua classe.

Não obstante ser ateu, Marx aplicou na perfeição a matriz Egito – deserto – Terra Prometida, e provavelmente viu-se a si mesmo como o novo Moisés, que tiraria da escravidão o novo povo eleito, os proletários de todo o mundo.

A sociedade sem classes é a Terra Prometida
Depois da vitória do proletariado sobre a burguesia e sobre o seu capitalismo, instrumento de opressão, uma nova sociedade sem classes deveria emergir, regida pelo princípio de Marx: “De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades”. Nesta sociedade idílica, a propriedade, terras, fábricas, meios de produção são de todos, são comuns.

Todos teriam direito e igual acesso à educação, as classes desapareceriam, terminaria assim a ditadura do proletariado pois nem existiriam proletários nem burgueses, reinaria a harmonia, a justiça e a paz que tornariam o Estado obsoleto, acabando este por desaparecer.

Dialética hegeliana e marxista
Todos sabemos que Marx bebeu de Hegel ou, melhor dizendo, de um Hegel invertido pela sua adoção do ateísmo de Feuerbach. Para o filósofo Hegel, a distinção entre a matéria e o espírito era ilusória e concluía que a matéria era uma forma de espírito; Marx, pelo contrário, entendia que o espírito era uma forma de matéria.

Se substituirmos espírito por energia (podemos de facto entender o espírito como uma energia porque tanto um como o outro são intangíveis), hoje diríamos com Einstein que os dois tinham razão, a matéria é uma forma de energia, assim como a energia é uma forma de matéria.

A título de apêndice, gostaria de acrescentar uma menção à tridimensionalidade da dialética de Hegel, subentendida na teoria socialista de Marx. Para ambos, a História desenvolve-se em conflitos entre forças opostas: Tese (Egito), Antítese (Deserto), Síntese (Terra Prometida). Isto aplica-se à luta de classes, como Marx fez, às nações, instituições, e assim sucessivamente até, na mente de Hegel, chegarmos ao Céu ou, na de Marx, à sociedade sem classes que seria, segundo ele, o fim da História.

O uso do arquétipo em todas as formas de luta contra qualquer adição, mau hábito ou vício
Egito – Deserto – Terra Prometida não é só um arquétipo da mudança social mas também é um arquétipo da mudança individual, da conversão, da saída de algum comportamento obsessivo, compulsivo, repetitivo, neurótico que nos dá a impressão de vivermos em piloto automático e não manual, de não estarmos ao comando das nossas próprias vidas e de sermos escravos de vícios, maus hábitos, atitudes ou substâncias.

Já a hora é tardia e não temos espaço aqui para desenvolver o tema como mereceria. No decurso da nossa vida caímos em situações de Egito e perdemos a liberdade perante os outros, como no caso da violência doméstica, mediante comportamentos obsessivos, compulsivos e repetitivos, no campo da ira, do sexo e tantos outros. De igual modo, também perdemos a nossa liberdade quando nos tornamos viciados e dependentes de substâncias que acabam desempenhando um papel psicológico ou existencial nas nossas vidas.

Apesar de ser tradicionalmente usadas pelos alcoólicos anónimos (AA), as 12 Etapas constituem a principal teoria para lidar com todo o tipo de adição, seja ela de natureza psicológica ou material de alguma substância. No nosso entender, esta teoria obedece também ao arquétipo e foi traçada consciente ou inconscientemente com base neste paradigma que descrevemos.

Egito - Admitir que perdemos o controlo sobre nós mesmos
Trata-se da primeira etapa. Enquanto o povo de Israel não se deu conta de que era escravo, nunca surgiu a sede de mudança, de sair daquela situação. Uma coisa é viver numa situação, outra é saber entender e interpretar essa mesma situação. Muitos adictos não se reconhecem como tal; muitos fumadores dizem que, se quiserem, deixam de fumar a qualquer momento; diz-se que um deles chegou a dizer anedoticamente que era fácil e que já o tinha feito 20 vezes.

Deserto – Purificação, desintoxicação, síndrome de abstinência
Os foragidos do Egito tiveram que constituir-se como povo, para juntos sobreviverem às agruras do deserto. Os alcoólicos anónimos são uma comunidade que se junta para todos lutarem contra um mal. Entre as 12 Etapas, algumas referem-se a esta relação que se estabelece com os outros e com o Outro Deus.

O deserto para os adictos é lugar de desintoxicação. Um fígado leva tempo a desintoxicar-se, os pulmões podem reter o carvão neles acumulado durante muito tempo. Neste tempo de desintoxicação, quando o corpo começa a sentir a necessidade da substância, o espírito lembra-se das panelas cheias de carne deixadas no Egito enquanto se passa fome no deserto. A síndrome de abstinência é a tentação de voltar atrás.

Terra Prometida – Libertação, harmonia, paz consigo mesmo e com os outros
Por fim, chega-se à Terra Prometida, onde voltamos a ser senhores do nosso nariz, onde voltamos a ter e exercer controlo sobre os nossos comportamentos. Segundo a teoria das 12 Etapas, é tempo de reconciliar-se com aqueles que magoámos quando estávamos fora de nós mesmos e possuídos pelas substâncias e comportamentos que podemos entender miticamente como espíritos impuros. Uma vez expulsos esses espíritos, voltamos a ser livres e a relacionarmo-nos em paz e harmonia connosco mesmos e com os outros.

CONCLUSÃO
Tanto a mudança, ou conversão individual face ao pecado ou ao vício, como a revolução ou evolução social com vista a um mundo onde reina a justiça, a paz e a integridade da criação, obedecem a este arquétipo, seguem este paradigma.
P. Jorge Amaro, IMC