1 de abril de 2018

CNV - Gratuidade, combustível da Comunicação não-violenta

1 comentário:
Santa Páscoa!
Compaixão é o conceito fundador e inspirador da comunicação não violenta. Quando Rosenberg percebeu que não estava a ter muito sucesso na prática da psicoterapia individual, estudou as religiões do mundo em busca do significado e do sentido da vida e descobriu que todas elas afirmam que devemos viver com compaixão, que devemos ser misericordiosos e compassivos como Deus que nos criou é.

Gratuidade
O que eu quero na minha vida é compaixão, um fluxo entre mim e os outros com base numa entrega mútua, do fundo do coração. Marshall Rosenberg

Recebestes de graça, dai de graça. Mateus 10, 8

É a compaixão que nos impulsiona a dar com o coração, com alegria, livremente, sem esperar nada em troca, sem querer nada em troca e certificando-nos de que o fazemos de forma a que o outro não sinta que fica em dívida connosco.

Se a empatia é o lubrificante, o óleo do motor ou o ambiente que facilita o movimento incessante dos quatro pistões no motor da comunicação não violenta, a gratuidade ou o dar naturalmente ou do coração, é o combustível que torna possível a combustão e a explosão dentro dos cilindros, movendo os pistões.

Parece que Rosenberg pode ter tirado o seu conceito - "dar do fundo do coração" - da sua própria experiência de vida. Conta ele que estava à espera de um comboio numa estação, quando avistou um trabalhador negro que se preparava para comer uma laranja depois de terminar o almoço de marmita.

Ao dar-se conta de que um menino sentado ao colo da mãe não tirava os olhos da laranja, o trabalhador levantou-se, limpou a laranja, deu-lhe um beijo e ofereceu-a ao menino. Edificado pelo gesto, Rosenberg teve a oportunidade de perguntar mais tarde ao trabalhador a razão pela qual ele deu um beijo à laranja ao que este respondeu: “Nunca dês nada a ninguém a não ser do fundo do coração”.

Utilizaremos a palavra “gratuidade” quando ele fala de “natural giving” (- dar com naturalidade ou dar naturalmente) e “giving from the heart” (- dar do coração). Gratuidade é de facto dar do coração, amar é amar incondicionalmente “with no strings attached” como se diz em inglês, sem reservas e sem segundas intenções. Sem que a mão esquerda saiba o que faz a direita, como sugere o evangelho (Mateus 6, 1-4)

Uma vez satisfeitas as necessidades físicas, ser amado e amar é a primeira e a mais importante necessidade humana; sem a plena satisfação desta necessidade, não existe vida humana. No entanto, experimentamo-la de forma diferente nas diferentes fases da vida. Quando somos crianças, a prioridade é ser amado, enquanto que quando somos adultos, a necessidade primária é amar, dar livre incondicionalmente, do fundo do coração, sem qualquer tipo de compulsão ou obrigação.

Se um adulto sente mais necessidade de ser amado que de amar, como vemos nas telenovelas, não é verdadeiramente um adulto, pois ainda possui a imaturidade afetiva própria de uma criança ou de um adolescente.

Por outro lado, o conceito de gratuidade diz não só respeito ao dar, mas também ao receber. Frequentemente, quando recebemos, sentimo-nos na obrigação de retribuir. Não vive o espírito de gratuidade quem dá com segundas intenções, para receber em troca ou para aumentar a sua popularidade, nem quem recebe e se sente obrigado ou em dívida para com quem lhe deu.

Dar é receber, receber é dar
Há mais alegria em dar que em receberAtos dos Apóstolos 20, 35

Declarar que há mais alegria em dar que em receber é uma conclusão ou descoberta que se pode fazer depois de uma longa caminhada de crescimento a nível psicológico, afetivo e espiritual. A declaração é, portanto, o que um adulto diria depois de um longo processo de crescimento nas vertentes antes mencionadas, ao chegar à idade adulta. É evidente que uma criança encontra muito mais alegria em receber que em dar.

Portanto somos adultos psicológica, afetiva e espiritualmente quando encontramos mais alegria em dar que em receber. Porém, como a indigência faz parte da condição humana, também necessitamos de receber e deveríamos continuar a receber com a mesma alegria das crianças, pois se assim não fosse estaríamos a declarar-nos autossuficientes, coisa que ninguém é neste planeta. Assim sendo, a perfeita maturidade vem quando podemos exclamar que há tanta alegria em dar como em receber e vice-versa; que dar e receber são uma e a mesma coisa.

No capítulo do seu livro "Dar do fundo do coração” Rosenberg cita a letra de uma canção que diz tudo o que há a saber sobre gratuidade; de acordo com a canção, receber e dar significam o mesmo porque damos ao receber e recebemos ao dar.

Nunca me sinto mais presenteado
Do que quando recebes algo de mim
Quando compreendes a alegria que sinto
ao dar-te algo

E sabes que o meu dar não é
para que fiques em dívida comigo,
Mas porque quero viver o amor
que sinto por ti.

Receber gratuitamente
pode ser a maior dádiva.
Não há forma de separar
as duas coisas.

Quando me dás,
Eu dou-te o meu receber.
Quando recebes de mim, sinto-me tão
presenteado.

O mesmo dizia São Francisco de Assis na sua famosa oração pela paz, muitos séculos antes:


Senhor, fazei-me instrumento da vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre, fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
Compreender, que ser compreendido;
Amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
É perdoando que se é perdoado,
E é morrendo que se vive para a vida eterna.


Gratuidade nas línguas neolatinas
Nas línguas neolatinas respondemos “grazie”, “gracias”, em português respondemos “obrigado”, que provavelmente vem do inglês “I am much obliged” e que desvirtua o espírito de gratuidade. Em Portugal, todos dizemos “obrigado” quando somos agraciados por alguém; só os pobres, que não podem retribuir, dizem “que Deus lhe pague”; não se sentem obrigados pois supõem que quem os agraciou sabe que não lhes podem retribuir. É por isso que faz sentido o conselho que Jesus nos dá no evangelho de convidar para os nossos banquetes aqueles que não podem retribuir-nos, (Lucas 12, 14-12-14).

Quem ama o outro condicionadamente engana-se, achando que ama o outro mas, no fundo ama-se a si mesmo e não o outro. Projeta-se no outro, espelha-se naquele em quem quer ver o que em si não vê. O seu amor é somente uma manipulação do outro. Gratuidade é amar e ser amado sem condições, deixando o outro ser ele mesmo. Quando o outro se apercebe deste amor incondicional coloca de parte a ansiedade, libertando-se da necessidade de ter um bom desempenho ou ser bem-sucedido.

O amor incondicional é pouco comum, mesmo entre pais e filhos. - De facto, não são poucos os pais que condicionam o amor pelos filhos ao seu sucesso escolar e ou profissional. Estes filhos crescem confundindo amor com sucesso, pagando mais tarde na vida um alto preço por este erro. Aquele que ama incondicionalmente é sempre bem-sucedido na vida; aquele que, acima de tudo, busca o sucesso, fá-lo frequentemente a expensas do amor, podendo chegar a ser vitorioso na profissão, mas derrotado na vida. Porque viver é amar…

Quando alguém declara que nos ama, por palavras ou por gestos, ficamos logo de pé atrás e resulta-nos difícil aceitar esse amor sem medo de cair numa armadilha ou de contrair uma dívida com juros altos e difícil de pagar, ficando assim à mercê de um caprichoso gerente de banco que, em qualquer momento, pode apresentar a fatura.

Como “Gato escaldado de água fria tem medo”, as experiências negativas do passado, sobretudo as da infância, colocam-nos tão à defensiva que muitas vezes acabamos por bloquear até aqueles que nos presenteiam com o seu amor incondicional. Ficámos tão desvalidos com as experiências negativas do passado que agora não nos sentimos merecedores de verdadeiro amor, pelo que bloqueamos todo o amor que vier ao nosso encontro. Levantamos uma barreira de resistência e descrédito, pois tememos a sedução, a exploração. Quantas vezes um amor livre de condições encontra o nosso coração defensivamente congelado.

O egoísmo não compensa nem ao egoísta
A roda de um moinho só se move se a água passar por ela. Se o primeiro de vários moinhos ao longo de um regato retivesse a água só para si, de nada lhe serviria, pois, a sua roda também não se moveria. Não há nenhuma vantagem em ser o primeiro no regato nem nenhuma desvantagem em ser o último, pois tanto o primeiro como o último só se movem se a água correr. Ou se movem todos os moinhos, ou não se move nenhum.

O mesmo se passa no contexto da comunicação não violenta; como ninguém pode ser feliz à custa da infelicidade dos outros, ou ganham todos ou perdem todos; se a minha pretensa felicidade faz outros infelizes nunca pode ser uma verdadeira felicidade; tarde ou cedo o mal que causo aos outros faz retorno. Por isso a CNV pratica a filosofia do win-win, no sentido de que todos ganham quando um ganha, e todos perdem quando um perde. O egoísmo nunca compensa, não convém nem ao egoísta.

É por isso que em comunicação não violenta as necessidades dos outros são assumidas como minhas também. Neste sentido, a CNV é uma aplicação prática do mandamento do amor ao próximo como a ti mesmo; assim como da regra de ouro de todas as religiões do mundo que diz “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti”. O cristianismo é a única religião que tem uma versão positiva desta regra: “O que queres que os outros te façam a ti, fá-lo tu a eles” Mateus 7, 12

A compaixão leva à gratuidade
Quando chegou àquele local, Jesus levantou os olhos e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa.» Ele desceu imediatamente e acolheu Jesus, cheio de alegria. Ao verem aquilo, murmuravam todos entre si, dizendo que tinha ido hospedar-se em casa de um pecador. Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: «Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais Lucas 19, 1-9

Acusar, rotular as pessoas, só as leva a fecharem-se defensivamente no seu reduto, confirmando e reforçando as suas atitudes. - Não se vence a violência com violência; a única paz que se consegue pela violência é a paz do cemitério. A violência não é solução para nenhum problema e cria muitos outros; é, portanto, completamente contraproducente. O ódio só pode ser vencido com amor; pretender vencer o ódio com ódio é como apagar fogo com fogo.

“Sê o que desejas ver nos outros” dizia Gandhi. Tal como a violência gera violência, a compaixão gera compaixão e induz à gratuidade. No contexto da justiça retributiva, Zaqueu não merecia a compaixão de Jesus nem o presente da sua visita, mas o castigo. “Com vinagre não se caçam moscas” e os castigos, rótulos, críticas e insultos não fariam Zaqueu mudar de vida e de perspetiva.

Foi a compaixão não merecida, incondicional, que moveu Zaqueu a ser compassivo para com aqueles com quem fora cruel, e proceder a uma restituição voluntária a quem tinha roubado, sem ninguém lha ter pedido.

Um dia, uma mãe veio para suplicar a Napoleão pela vida do filho. O jovem tinha cometido uma infração grave. A lei era clara, a justiça exigia a sua morte. O Imperador estava determinado a garantir que a justiça fosse feita. Mas a mãe insistiu, “Vossa Excelência, eu vim implorar misericórdia, não justiça.”
 - Mas ele não merece misericórdia, retorquiu Napoleão
- Excelência, disse a mãe, não seria misericórdia se a merecesse.
- Assim seja, disse Napoleão. Terei misericórdia dele.- E libertou-o

Quando somos compassivos com aqueles que não merecem, ativamos neles a compaixão, que está bem escondida, esquecida e cheia de pó e teias de aranha no fundo do seu coração. Sabemos que o que foi abusado, física ou sexualmente, facilmente se transforma num abusador, passando o resto da vida a vingar-se em inocentes dos abusos primigénios nos primeiros anos da sua vida de inocente. Só a compaixão gratuita pode salvar a pessoa deste círculo vicioso que destrói a sua vida e as vidas dos que com ele se relacionam.

O que bloqueia a compaixão
Eis algumas afirmações que frequentemente ouvimos e que, a nosso ver, apenas servem para justificar e racionalizar o uso da violência e para continuar o jogo de quem está certo e de quem está errado.

É dar parte de fraco, as pessoas aproveitar-se-iam de mim se eu fosse compassivo – O poder do amor é mais forte que o amor pelo poder. Ninguém pode tirar-nos a nossa dignidade se não lha dermos; ninguém pode obrigar-nos a fazer nada. Podem subjugar o nosso corpo, mas não a nossa alma, a nossa integridade, a nossa pessoa. Como a compaixão desarma os poderosos, os benefícios da compaixão são tanto para a pessoa compassiva como para a pessoa que recebe a compaixão.

Há pessoas que não merecem compaixão – Não entramos no jogo de quem merece e quem não merece; a compaixão, se fosse merecida já não seria compaixão, mas justiça. Deus faz chover sobre justos e injustos; todo o ser humano é, pelo simples facto de ser humano, merecedor de compaixão. E provavelmente quanto mais mau, mais merecedor é, pois só pela compaixão pode sanar a sua maldade.

Ser compassivo para com os que procederam mal é deixá-los impunes – Ser compassivo não significa que aceitamos comportamentos rudes, traição, violação, injustiças sistémicas ou crueldade, ofensas, crimes. Significa antes, que aceitamos que estas coisas acontecem, que podemos defender-nos delas assertivamente, mas não agressivamente, condenando o ato e não o ator. A violência não justifica o uso de violência, pois esta não soluciona nenhum problema e faz o problema maior, uma vez que a violência tende a escalar.

A linguagem que nos aliena uns dos outros
Gratuidade é contribuir livre e incondicionalmente para a vida, felicidade e autorrealização dos outros e deixar que os outros contribuam para a nossa vida, felicidade e autorrealização, sem nos sentirmos em dívida para com eles.

Tudo o que fazemos na vida que não seja por pura gratuidade, tudo o que fazemos por medo de ser punidos ou para receber um prémio ou para agradar a alguém, movidos pelo sentimento de culpa ou por um sentido de dever e obrigação, faz com que ambas as partes envolvidas neste tipo de transação ou relação paguem um alto preço que acabará por destruir a relação. Tal acontece porque  se estabelece um tipo de relação doentia, como a que existe entre o masoquista e o sádico que só permanece enquanto os dois forem doentes, embora ninguém viva feliz na doença.

Diagnósticos, julgamentos, rótulos, análise, crítica, comparações… Todo o pensamento em termos de “este merece um prémio ou uma recompensa”, - “aquele merece um castigo”, tudo o que fazemos por mera obediência, todo o pensamento em termos de negação de responsabilidade, de culpa, negação de escolha (“não tive outra hipótese”, “não há plano B”); representa linguagem violenta que nos aliena e degrada.

Julgamentos e rótulos – Os julgamentos e rótulos arquivam o outro. Frequentemente não são justos, porque julgamos o outro por uma só ação que generalizamos. Não deixamos o outro ser o que é, fixamos-lhe a identidade. Se há algo que a linguagem não violenta rejeita é o verbo “ser”. Todos somos um ser em construção; qualquer definição estática do outro é sempre preconceituosa.

Prémios e castigos – Tanto o bem como o mal ficam com quem o pratica, ou seja, têm os seus benefícios ou malefícios em si mesmos, como o anexo de um email. Evitar fazer algo por medo de ser apanhado, por exemplo, não é suficiente travão para evitar fazer o mal, pois um dia virá em que me sentirei seguro de que ninguém me vê, superarei o medo e farei o mal. Não devo fazer o mal por estar convencido de que é mal. Da mesma forma que fazer isto ou aquilo para receber um prémio também não é gratuidade, é como quem trabalha para um salário: no dia em que não houver um prémio, deixarei de o fazer.

O castigo pode ser uma simples repreensão em público que me envergonha, e o prémio pode ser um simples elogio, mas equivalem à mesma coisa.

"És muito bom!" "Bom trabalho!" "És uma pessoa gentil." Os elogios, para quem os recebe, podem viciar: a pessoa faz o que faz não por gosto mas para receber elogios; podem ser ocasião de falsa humildade, ao negar a importância do que se fez dizendo “não foi nada” ou levar a pessoa a pensar que é melhor do que ninguém. Pelo lado de quem os lança, os elogios são muitas vezes uma forma de manipular o outro, conquistando-o para os seus interesses obscuros. Por exemplo, o patrão que diz ao operário que sem ele a empresa vai à falência, pede-lhe logo a seguir horas extraordinárias.

A recompensa no evangelho –  porque, se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não fazem já isso os cobradores de impostos?  - Mateus 5, 46

«Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para vos tornardes notados por eles; de outro modo, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está no Céu. Mateus 6, 1

Vós, porém, amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem nada esperar em troca. Então, a vossa recompensa será grande e sereis filhos do Altíssimo, porque Ele é bom até para os ingratos e os maus.  - Lucas 6, 35

Jesus exorta os seus discípulos a praticar a gratuidade; a fazer as coisas por elas mesmas, sem esperar uma recompensa imediata. Mas como o bem fica com quem o pratica, assim como o mal, uma certa “recompensa” acompanha o ato:  a que recebemos no Céu. Revela maturidade psíquica aquele que consegue resistir ao prazer imediato ou satisfação imediata e adia um e outro. Jesus pede-nos que adiemos para o Céu o prémio ou recompensa do que fazemos na terra. É isto mesmo que significa “Guardai tesouros no Céu…” (Mateus 6, 20)

Comparações – Os espanhóis dizem que as comparações são odiosas. Quando nos comparamos aos outros ou ao que convencionalmente é tido como inteligente, belo, bem constituído, deixamos de ser nós mesmos (e só podemos ser nós mesmos) para passar a ter inveja e a tentar imitar o outro. Esquecemo-nos de que apenas somos imbatíveis em ser nós mesmos. As comparações vêm por virtude da competição que é por si mesma, violenta. Quando aceitamos os outros e a nós mesmos como somos, não há motivos para competir, pois só podemos ser o que somos e, no ser o que somos, ninguém consegue ser melhor que nós.

Negação de escolha – Todas as expressões que começam com “Eu tenho que…” são uma negação da escolha e da liberdade dos filhos de Deus. Desta maneira, manifestamo-nos como escravos do dever. Para a linguagem não violenta o dever não existe; só fazemos o que gostamos com vista a viver plena e abundantemente. O que fazemos por obrigação não será bem feito e tarde ou cedo deixaremos de o fazer. Pelo contrário e como diz o provérbio, “quem corre por gosto não cansa”.

Rosenberg, nos seus livros e palestras, dá o exemplo daquela mulher que tinha que ir embora pois tinha que ir cozinhar e ela não gostava de cozinhar; até que, baseada na linguagem não violenta, um dia anunciou à família que não iria continuar a cozinhar. Alguns dias mais tarde, os filhos agradeceram que a mãe tivesse deixado de cozinhar, pois a comida não era boa e estavam fartos de ouvir as suas queixas acerca desta obrigação.

Negação de responsabilidade – “Obrigaram-me a fazê-lo”: - acerca do uso abusivo da obediência para negar responsabilidade, Rosenberg cita os oficiais dos campos de concentração nazi que mandaram milhares de pessoas para as câmaras de gás sem se sentirem culpados, pois negavam a responsabilidade pessoal no assunto. Em linguagem não violenta, todos somos responsáveis pelos nossos atos, pelo que ninguém pode obrigar-nos a fazer o que a nossa consciência nos diz que é errado.

A nossa consciência moral é o que nos faz verdadeiramente livres. Quando só fazemos o que ela nos dita, somos autónomos, não nos exaltamos com ninguém, nem nos humilhamos perante ninguém porque os nossos atos são comandados a partir dessa nossa consciência e, deste modo, somos sempre os únicos responsáveis por eles.

A nossa consciência moral, bem formada e informada, é o que nos torna verdadeiramente livres -  neste caso, apenas fazemos o que ela nos diz para fazer. Não nos elevamos acima de ninguém, nem nos submetemos a ninguém. Como pessoas livres, independentes e autónomas, as nossas ações brotam do interior da nossa consciência e são guiadas por ela. Assim sendo, ela e nenhuma outra instância, é responsável pelos nossos atos. A nossa consciência moral só responde perante Deus; nisto consiste a liberdade dos filhos de Deus (Romanos 8,21)

A gratuidade em ação na forma como agradecemos e somos agradecidos
Viver em gratuidade significa que nada fazemos que seja motivado por coação, dever, obrigação, por medo de uma repreensão ou castigo ou na ânsia de receber louvores e prémios. Tudo o que fazemos é por puro amor, pela alegria e prazer que sentimos ao contribuir para o nosso bem e para o bem dos outros.

Tanto o “bem” como o “mal” ficam com quem os pratica, ou seja, o castigo pelo mal praticado é inerente à própria prática do mal, não vem de fora e não vem certamente de Deus. Como alguém disse, Deus sempre perdoa e esquece; os humanos, umas vezes sim, outras vezes não; a Natureza, seja ela a natureza física ou humana, não perdoa nem esquece - “quem semeia ventos, colhe tempestades”. Da mesma forma, o prémio pela prática, do bem é inerente à mesma prática, como o anexo de um email.

Como em CNV não fazemos nada para sermos louvados ou recompensados, também não recompensamos nem louvamos os outros pelo que fazem. Não temos fome dos louvores dos outros e não os esperamos como feedback do bem que fazemos, nem os usamos como isco para caçar os outros e viciá-los nos nossos louvores, com o fim de os manipular e controlar.

Longe destes jogos psicológicos, em vez de pedir ou exigir desculpas pelos nossos erros e pelos erros dos outros, fazemos luto; em vez de louvar e ser louvados, celebramos os acertos e conquistas, tanto os nossos como os dos outros.

Tanto o dar como o receber gratuitamente seguem o paradigma dos quatro componentes da linguagem não violenta. Assim, expressamos e sentimos gratuidade, agradecemos e somos agradecidos:
  1. O que é que eu fiz em concreto que contribuiu para o enriquecimento da vida do outro? O que é que o outro fez especificamente que enriqueceu a minha vida?
  2. Como te sentes quando pensas no que fizeste ao outro? Como te sentes quando pensas no que o outro te fez?
  3. Que necessidade ou valor foi satisfeito pelo que fizeste ao outro? Que necessidade ou valor foi satisfeito pelo que o outro te fez?

Exemplo: quando me ofereceste ajuda esta manhã, senti-me grato porque dou muito valor à interajuda entre os membros da nossa equipa. Expressar gratuidade não é o mesmo que agradecer, por isso é importante, tanto para quem faz a ação como para quem a recebe, expressar gratuidade; expressar como aquela ação enriqueceu a minha vida: a pessoa que fez a ação também precisa de ter algum feedback acerca do que fez.
Pe. Jorge Amaro, IMC




15 de março de 2018

CNV: A Empatia lubrificante da comunicação não violenta

1 comentário:
Os componentes da linguagem não violenta, como já foi dito, são quatro: observação sentimentos necessidades - pedidos. O objetivo da linguagem não violenta é estabelecer relações baseadas na empatia e na gratuidade, de forma a que as necessidades de todos sejam satisfeitas. A compaixão e a gratuidade são a filosofia de fundo na qual os quatro componentes operam, o meio em que operam e o objetivo final. Neste sentido a compaixão e gratuidade são ao mesmo tempo o princípio, o meio e o fim da linguagem não violenta.

Os alquimistas da Idade Média buscavam a pedra filosofal porque acreditavam que esta pedra tinha o condão de transformar em ouro tudo o que tocasse. Para a linguagem não violenta, a pedra filosofal é a empatia; ela é a varinha de condão que faz possível que os quatro componentes funcionem e que as pessoas vivam em gratuidade, harmonia e entendimento.

A comunicação não violenta funciona como um motor de carro de quatro pistões; os quatro pistões são os quatro componentes da CNV: observações – sentimentos – necessidades – pedidos. O contínuo movimentos destes, para cima e para baixo, dentro dos respetivos cilindros e ativado pela explosão do combustível é o que mantém o motor a funcionar e o carro em movimento. A gratuidade, ou o dar do coração, como diz Rosenberg, é o combustível que torna possível a combustão, explosão e o movimento dos pistões.  No entanto, para que estes funcionem sem parar, com um mínimo de desgaste, é preciso que estejam envolvidos e embebidos em óleo. Este óleo que facilita e torna possível todo o processo sem sobreaquecimento nem desgaste - é em CNV a empatia.

O que é a empatia?
Contemplando a multidão, encheu-se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida, como ovelhas sem pastor. Mateus 9, 36

Em linguagem não violenta, o termo empatia, usado pela psicologia em geral, é semelhante ao “unconditional positive regard”, termo usado por Carl Rogers, significam fundamentalmente o mesmo. É sair de si, ver a realidade como o outro a vê, é sentir com o outro, é fazer nosso, o sofrimento dos outros; é aceitar e apoiar uma pessoa independentemente do que tenha dito ou feito. Ser empático, é ser sensível ao sofrimento próprio e dos outros, comprometendo-se a aliviá-lo ou evitá-lo.

Expressar as nossas próprias observações, sentimentos, necessidades e solicitações aos outros faz   parte da CNV. A segunda parte é a empatia: o processo de conexão com o outro, adivinhando os seus sentimentos e necessidades. A conexão empática pode acontecer às vezes silenciosamente, mas em tempos de conflito, comunicar à outra pessoa que compreendemos os seus sentimentos e que nos importam as suas necessidades pode ser um poderoso ponto de viragem e a solução do conflito. Porém, demonstrar que temos tal entendimento não significa necessariamente que tenhamos que concordar em agir de maneiras que contrariem as nossas necessidades.

A linguagem da CNV ajuda-nos muitas vezes a relacionarmo-nos com os outros, mas o coração da empatia está na nossa capacidade de conectar com compaixão à nossa própria humanidade e à humanidade dos outros. Oferecer a nossa presença empática, neste sentido, é uma estratégia (ou pedido) através da qual podemos satisfazer as nossas próprias necessidades. É um presente para a outra pessoa e para nós mesmos, a nossa presença completa.

Quando usamos a CNV para nos ligarmos empaticamente, usamos os mesmos quatro componentes sob a forma de uma pergunta, já que nunca sabemos, com toda a certeza, o que se passa dentro do outro. A outra pessoa será sempre a autoridade final sobre o que acontece dentro de si mesma. A nossa empatia pode satisfazer a necessidade de entendimento do outro ou pode até ajudar à sua própria autodescoberta. Podemos perguntar algo como: “Quando tu vês, ouves…. Sentes-te... Porque necessitas... Gostarias de…?”

Empatia e auto empatia
“Charity begins at home” - É difícil a empatia ou benevolência pelos outros se não a tenho por mim mesmo. Se não me amo incondicionalmente a mim mesmo jamais poderei amar os outros incondicionalmente. Tanto a expressão dos nossos próprios sentimentos e necessidades como os palpites empáticos dos sentimentos e necessidades dos outros se baseiam numa consciência particular que é o coração da CNV. Esta consciência é nutrida pela prática da auto empatia.

Na auto empatia, dedicamos a nós mesmos a mesma compaixão e atenção para nós mesmos que damos aos outros quando os ouvimos usando a CNV. Isso significa darmo-nos conta de quaisquer interpretações e julgamentos que aplicamos a nós mesmos e que dificultam a clareza da nossa consciência em relação aos nossos sentimentos e necessidades. Essa consciência interior e clareza de sentimentos e necessidades ajuda-nos a expressarmo-nos junto dos outros e a recebê-los com empatia.

A prática da CNV implica a intenção de nos ligarmos com compaixão a nós mesmos e aos outros e uma capacidade de manter a nossa atenção no momento presente – o que inclui estar ciente de que, às vezes neste momento presente estamos a recordar o passado, ou a imaginar uma possibilidade futura.

 A auto empatia muitas vezes é fácil - damo-nos conta das nossas sensações, emoções e necessidades e sintonizamo-nos com quem somos. No entanto, em momentos de conflito ou reatividade aos outros, podemos sentir-nos relutantes em nos ligarmos a nós mesmos com compaixão, e podemos vacilar na nossa capacidade de nos mantermos no momento presente.

A auto empatia em momentos como este tem o poder de transformar o nosso estado desconectado do ser e de nos fazer regressar à nossa intenção compassiva e à atenção orientada para o presente. Com a prática, muitas pessoas descobrem que a auto empatia por si só às vezes resolve conflitos interiores e conflitos com outros, pois transforma a nossa experiência de vida.

Autoestima – Ser capaz de desmontar a autocrítica, o julgamento e o sentimento de culpabilidade, por um lado e, por outro, identificar e ligarmo-nos às nossas necessidades, valores e o que é importante para nós.  Como diz Rosenberg, a autocrítica, o sentimento de culpa e o julgamento são expressões dramáticas de necessidades não satisfeitas. Quando consigo descobrir e identificar essas necessidades ou valores, posso reformular esses sentimentos negativos e começar a sentir-me bem comigo mesmo, por ter conseguido ligar-me com o meu real e verdadeiro eu.

Empatia pelos outros – Para melhor conseguir sentir e expressar empatia pelos outros, convém seguir a título de conselho os avisos das passagens de nível: Para – Escuta - Olha. O outro pode dirigir-se a nós em forma de julgamento, crítica, buscando culpar-nos por algo que se passa consigo. Mas se os nossos ouvidos de comunicação não violenta estiverem ligados, não será critica o que ouvimos, mas sim uma expressão dramática de uma necessidade insatisfeita. Então, tudo que precisamos fazer é olhar para além da forma de expressão violenta - a crítica - para nos concentrarmos no conteúdo dessa expressão, que é a necessidade insatisfeita.

A linguagem violenta do nosso interlocutor tem de ser traduzida por uma linguagem não violenta, ou seja, não devo personalizar e encaixar as acusações como se me fossem dirigidas a mim; pelo contrário, devo desculpar a forma como foram feitas, para me concentrar psicanaliticamente no seu conteúdo e dar-me conta de que não passam de frustrações e expressões dramáticas de necessidades não satisfeitas.

Identificar essas mesmas necessidades requer tempo, requer que eu pare para pensar, respirar fundo, para ter tempo de traduzir e identificar essas necessidades que podem estar nas entrelinhas de um desabafo, de uma acusação ou de um insulto.

Para não manter a outra pessoa à espera do resultado final dos meus cálculos posso pensar alto e tentar adivinhar, perguntando tentativamente ao meu interlocutor quais são os seus sentimentos, as suas necessidades, o que é mais importante para ele.  Decerto o meu interlocutor ou concordará com a interpretação e compreensão que faço do seu discurso ou me ajudará, esclarecendo-me. Esta tentativa de ambos tentarmos compreender o que se passa faz com que o meu interlocutor se acalme e ele mesmo se ligue às suas necessidades e lentamente abandone os sentimentos negativos e a violência das palavras.

O coração de empatia está na nossa capacidade de nos ligarmos à nossa própria humanidade e com a humanidade dos outros, com o que há de mais real e de mais vivo em nós e nos outros, sem críticas, julgamentos, sentimentos de culpa, pretensões ou subterfúgios.

A linguagem não violenta ajuda-nos a ligarmo-nos uns aos outros e a nós mesmos, de forma a deixar aflorar a nossa empatia natural. É esta empatia que inspira, forma, informa e guia a observação, os sentimentos, as necessidades e os pedidos que fazemos a nós próprios e aos outros. A empatia é a teoria geral da linguagem não violenta e, ao mesmo tempo, o meio para chegar à harmonia e entendimento entre todos. É, como já dissemos, semelhante ao óleo do carro, que envolve as peças em movimento do motor para evitar o sobreaquecimento os atritos e o desgaste.

Pela empatia observamos sem avaliar, culpar ou etiquetar; sentimos e fazemo-nos responsáveis pelos nossos sentimentos, sem acusar e exortamos os outros a assumirem também responsabilidade pelos seus; expressamos as nossas necessidades ou valores, o que é importante para nós, sem subterfúgios e criamos as condições ou o ambiente para que os outros façam o mesmo; fazemos pedidos sem pretensões, exigências, obrigações ou chantagens, criando o ambiente para que os outros façam o mesmo.

O cérebro humano é uno e trino
A teoria da evolução das espécies, de Charles Darwin, diz-nos que a vida neste planeta evoluiu de um tronco comum, pelo que todas as formas de vida estão interligadas há muitos milhões de anos desde que a vida apareceu no mar. Os estados anteriores da evolução não se perderam, estando ainda presentes em nós. Desta forma, a neurociência diz-nos que temos três cérebros: o reptílico, o mamífero, e o cerebral. Estes encontram-se organizados em forma de matrioska ou boneca russa: o cerebral contém o mamífero que por sua vez contém o reptílico.

O cérebro reptílico – Situa-se no final da medula, é o mais primitivo e ocupa a parte mais interna e central do nosso cérebro. Permaneceu inalterado pela evolução, pelo que o partilhamos com todos os animais que têm espinha dorsal. É responsável pelas funções relativas à sobrevivência, desde o batimento cardíaco, a digestão e locomoção básica ao comportamento sexual. Funciona segundo o princípio do estímulo – resposta automática que pode ser de luta, fuga ou imobilização.

Sinónimos destas reações básicas no nosso dia a dia são: o desejo a aversão, a ignorância, o amor, o ódio, a indiferença, a esperança, o medo, o desinteresse. Altamente territorial, adquire e defende o seu território pela luta. O motor deste cérebro, é “Might is right”, o poder está certo ou justifica-se.

O cérebro mamífero – Corresponde ao telencéfalo, estrutura na qual se encontra o hipocampo e as amígdalas, que proporcionam ao mamífero uma maior consciência de si mesmo e do ambiente que o rodeia, dos amigos e dos inimigos. Como os mamíferos cuidam da sua prole durante mais tempo, do instinto surgem as emoções não só em relação aos filhos como também aos da própria espécie, nascendo assim a vida em grupo.

O cérebro racional - O último passo na evolução do cérebro aconteceu há cerca de cem milhões de anos, com o surgimento do córtex cerebral. O córtex cerebral ou cérebro racional não está presente apenas nos seres humanos. Seres inteligentes como os golfinhos, as baleias, os macacos também possuem esta última etapa da evolução cerebral.

No entanto, o homem possui o cérebro racional mais desenvolvido através do qual as emoções como as sensações corporais, comuns aos outros mamíferos, se transformam em sentimentos, como o amor, a compaixão, a empatia, ao serem mediadas por uma compreensão maior e mais racional.

Como perdemos as estribeiras
Quando estamos calmos funcionamos com o neocórtex, pensamos criticamente, resolvemos problemas, somos criativos e empáticos com os outros. Ao contrário quando estamos stressados e nos apercebemos de um comportamento menos positivo por parte de alguém, perdemos a conexão com o neocórtex, deixamos de sentir empatia e automaticamente nos ligamos ao cérebro mais primitivo o reptílico ficando reduzidos a três opções - ataca, foge ou esconde-te.

O stress ativa uma reação antiga concebida pela natureza para nos ajudar a enfrentar o perigo – o cérebro reptílico. Não podemos sentir empatia por um leão que corre na nossa direção, ou seja ver, as coisas desde a sua perspetiva. Pelo contrário, atacamos, fugimos ou escondemo-nos. Porém o leão pode estar disfarçado de uma criança de 5 anos, que raivosamente bate o pé e grita que não quer lavar os dentes. Imediatamente deixamos de ver a criança para ver o leão e reagimos contra ela como se de um leão se tratasse. Tal como Dom Quixote arremeteu, de lança em riste, contra moinhos de vento pensando que eram o inimigo.

Se em momentos como este conseguirmos lembrar que todo o comportamento é uma tentativa de satisfação de uma necessidade, conseguimos desligar o cérebro reptílico e manter-nos no córtex. Proveniente do nosso cérebro de réptil, muito do nosso comportamento é reativo - primeiro falamos ou atuamos só depois pensamos. É como se o nosso comportamento estivesse em modo de piloto automático.

Como melhor funcionamos
Relativamente às emoções negativas, como criticar e julgar os outros, sentir stress, medo, preocupação, egocentrismo, ressentimento, frustração, dor emocional não sanada. Contra estas emoções devemos aumentar a nossa auto-observação e autoconsciência, cuidar de nós mesmos, da nossa saúde física, emocional e espiritual. Devemos lutar contra o stress organizando melhor a vida para termos tempo para o desporto, para encontrar os amigos, para meditar e rezar.

O psicólogo Paul Gilbert distingue três grupos de emoções: as que têm a ver com a ameaça e autoproteção, as que têm a ver com a nossa atividade, conquistas e sucessos a que ele chama a nossa mente competitiva e, por fim as emoções que têm a ver com contentamento, sentir-se seguro, calmo relaxado, alegre e feliz.

Segundo Gilbert o primeiro grupo de emoções e o segundo são mais motivantes, pelo que é provável que sejam elas a despertar a nossa atenção. Mas isto só acontece se o permitimos. A nossa mente competitiva faz com que não nos importe perder uma pessoa para ganhar um debate; as notícias negativas dominam e estão na primeira página dos jornais, em letras grandes; as positivas estão perdidas no meio do jornal, pois poucos estão interessados nelas. Dar prioridade ao nosso cérebro reptílico só aumenta a nossa miséria, não nos faz mais felizes.

É certo que a compaixão não habita no centro do nosso cérebro; este, como sabemos, é ocupado pelo cérebro reptílico. No entanto, como observa Gilbert, está mais que comprovado que o nosso sistema imunitário, hormonal, cardiovascular e demais funções vitais, funcionam melhor quando pensamos, sentimos e atuamos a partir do nosso córtex ou cérebro racional - amando e sentindo-nos amados e não odiando e sentindo-nos odiados; apoiando e ajudando os outros e não os denegrindo ou ignorando deixa-nos mais felizes; a “pica” que o cérebro reptílico pode dar-nos é curta e normalmente traz-nos mais problemas.

Se o ser humano fosse violento por natureza como crê Hobbes com a sua máxima “Homo homini lupus” e a maior parte das pessoas conscientemente ou inconscientemente seguidoras do mito babilónico da criação, o homem seria mais feliz na violência, as suas funções vitais e órgãos funcionariam melhor num ambiente violento. A verdade, porém, como afirma Gilbert, é precisamente o contrário.

Para além de nos alertar e ajudar diante o perigo, o cérebro reptílico só nos traz problemas. Como os répteis não estabelecem relações com nada nem com ninguém, para eles tudo e todos são hostis. Assim sendo, o seu cérebro não pode ser de grande ajuda para o ser humano que é um ser relacional na sua essência.

Segundo uma lenda dos índios nativos da América do Norte, dois lobos lutam no nosso coração e na nossa mente, disputando entre si o nosso interesse e atenção: um é raivoso, vingativo, invejoso, ressentido e enganador, o outro é amoroso, empático, generoso e pacífico. Qual deles vai ganhar o nosso interesse e atenção? Aquele que mais e melhor alimentarmos. Pratica a empatia, mesmo sem a sentires, e sentirás empatia pelos outros.

O que não é empatia
No seu livro, Rosenberg cita a sua amiga Holley Humphrey, apontando alguns comportamentos comuns ou tentações em que caímos ao tentar ajudar os outros. A verdade é que estes nossos comportamentos não só não ajudam como até complicam e colocam em evidência a nossa dificuldade em verdadeiramente estar com o outro.

•    Aconselhar: "Acho que deverias ... ", "Por que é que não fazes assim…?"
•    Analisar: “Como é que começou?” “Quando foi a última vez que te sentiste assim?”
•    Competir pelo sofrimento: "Isso não é nada; olha o que aconteceu comigo".
•    Educar: "Isso pode até acabar por ser uma experiência muito positiva se tu ... "
•    Consolar: "Não foi culpa tua, fizeste o melhor que pudeste".
•    Contar uma história: "Faz-me lembrar uma ocasião ... "
•    Encerrar o assunto: "Anima-te. Não te sintas tão mal".
•    Solidarizar-se: "Oh, coitadinho ... "
•    Interrogar: "Quando foi que isso começou?"
•    Explicar-se: "Eu teria telefonado, mas ... “
•    Corrigir: "Não foi assim que aconteceu".

Como funciona a empatia
Empatia é entrar em contato com o que está vivo na outra pessoa, com o que está a acontecer com ela; é colocar-se no lugar dela. É calçar os seus sapatos, é ver a realidade da perspetiva do outro, vê-la como o outro a vê.  Muitas vezes, quando os outros se apercebem de que não estamos a conseguir ligar-nos empaticamente a eles, dizem de forma desesperada "Põe-te no meu lugar". Pensando eu que estava a ser empático ao dar conselhos ao meu pai procurando consolá-lo nos últimos dias da sua vida, ele calou-me dizendo, “bem fala o são ao doente”.

Ao ouvir estas palavras dei-me conta de que estava bem longe de demonstrar empatia pelo meu pai e ele fez-me ver que eu não estava com ele. Ele não precisava de uma solução rápida que sabia não existir, nem de conselhos, mas só de empatia e eu fui incapaz de lha dar. Pensamos que oferecendo soluções, dando conselhos, consolando fazemos com que o outro se sinta melhor, mas a crua realidade é que, longe de o fazer sentir-se melhor, apenas acrescentamos o sofrimento.

Já é difícil ser empático com aqueles que amamos, mas muito mais difícil será sermos empáticos com os que não amamos ou até com os que odiamos. Em CNV, a empatia é para todos. Sentir empatia é conseguir ver a beleza de uma pessoa por detrás do que quer que seja que ela diga ou faça. A verdadeira empatia tem três componentes:

Presença – O filósofo Martin Buber diz que a presença é a dádiva mais poderosa que uma pessoa pode dar a outra; é um componente importante da cura, alguns psicoterapeutas chegam até a dizer que a presença ativa corresponde a 90% do processo de cura. Mas não é fácil manter-se ativamente presente junto do outro: é necessário não trazer nada do passado para o presente.

Se começarmos a pensar sobre o que a pessoa está a dizer, se a analisarmos ou até se pensarmos em alguns conselhos para dar - que é preciso corrigir alguma coisa ou que vamos ajudá-la -  perdemos a qualidade da presença, uma vez que a compreensão intelectual não é empatia. Quando subimos para a nossa cabeça tentando entender e conceptualizar o que o outro nos diz, imediatamente deixamos de o ouvir e de estar com ele para estar apenas connosco mesmos.

Por exemplo, por vezes os sentimentos das pessoas podem ser uma reação a algo que não é correto do ponto de vista fáctico. Mesmo nesta situação devemos ser empáticos primeiro e corrigir depois; “Como foram estúpidos os americanos ao invadir o Iraque na crença de que Kaddafi possuía armas de destruição maciça”. A tentação é corrigir de imediato que o presidente não era Kaddafi, mas sim Saddam Hussein; porém, devemos recordar que a ligação empática é mais importante que a correção.

Simpatia não é empatia. Se eu mostrar simpatia, dizendo, "Estou triste pelo que te aconteceu", isso pode até ser adequado, mas apenas se antes eu tiver demonstrado empatia. Mostrar simpatia sem empatia, é retirar a nossa atenção à pessoa para a focar sobre nós mesmos, neste caso sobre o nosso sentimento de tristeza. Também não é empatia quando digo “Entendo o que sentes”. É demasiada pretensão da nossa parte afirmar tal coisa. Em CNV não dizemos que entendemos, procuramos demonstrar compreensão.

Focar a nossa atenção no aqui e agora – Se as pessoas partilham connosco a dor causada por factos passados, em vez de me transferir para o passado com a pessoa, devo manter-me no presente e focar a minha atenção no que a pessoa está a sentir no momento. Se eu a sigo na sua viagem ao passado, decerto não vou resistir em tentar compreender intelectualmente o que lá se passou. Então, para manter-me no aqui e agora tudo o que tenho que fazer é estar em contato com os sentimentos e necessidades da pessoa agora.

Neste caso, a pergunta a fazer é – “como se sente agora em resultado do que aconteceu no passado?” Por exemplo: se alguém partilha connosco as muitas vezes que o seu pai lhe bateu e medo que lhe causava, devemos inquirir sobre qual é o seu sentimento agora; se no passado sentia medo agora provavelmente não é medo o que sente, mas ira ou raiva e este é o sentimento que conta pois é o que sente aqui e agora. O mesmo devemos fazer quando a pessoa se perde em palavras e passa de uma história para a outra sem parar de falar. Interrompemos e perguntamos, “Desculpe, como se sente agora por causa do que acaba de me contar?”

Certificar-se parafraseando – Nunca devemos assumir que entendemos e que estamos conectados empaticamente com o que está a acontecer no interior da pessoa, ou seja, com os seus sentimentos e necessidades. Precisamos de o confirmar para ter a certeza e fazemo-lo parafraseando o que a pessoa nos disse, sobretudo perguntando: “Sente-se… porque tem necessidade de…”. O feedback do nosso entendimento é importante por duas razões: primeiro, se o nosso palpite for errado, a pessoa tem a oportunidade de nos corrigir; segundo, a própria pessoa pode precisar de alguma confirmação de que estamos realmente com ela, que estamos a acompanhá-la e que a compreendemos.

É difícil ligar-se empaticamente a uma pessoa que diz que vai suicidar-se porque o mundo fica melhor sem ela... A tendência é analisar, fazer perguntas, dar conselhos... Mas mais difícil ainda é ligarmo-nos empaticamente com alguém que nos critica ou que nos diz: “O teu problema é..." Temos de recordar que toda a critica é uma expressão dramática de uma ou várias necessidades insatisfeitas, pelo que ignoramos a critica como se não tivesse sido feita a nosso respeito e procuramos descobrir os sentimentos e necessidades por trás dela, conferindo com a pessoa quais são os seus sentimentos e necessidades, dando-lhe a possibilidade de nos corrigir se estivermos errados.

Empatia – simpatia - compaixão
Empatia - É visceralmente sentir o que o outro sente. Alguns psicólogos chamam-lhe "espelho de neurónios". A empatia pode surgir automaticamente quando vemos alguém a sofrer. Por exemplo, se virmos alguém a falhar o prego e martelar o dedo, imediatamente temos uma perceção bem real da sua dor; como se a sentíssemos também nós. Nem sempre a empatia é assim fácil, por isso, quando não vem automaticamente como neste exemplo, precisamos da nossa imaginação. É claro que a empatia não se aplica apenas para sentimentos desagradáveis, mas também os agradáveis. Muitas vezes, o sorriso de uma pessoa faz-nos sorrir também.

Simpatia - A maioria das pessoas confundem empatia com simpatia. Empatia é ser solidário, estar com o outro; simpatia é fundamentalmente estar connosco mesmos porque, ao contrário da empatia que é uma atitude, uma forma de ser e estar, a simpatia é um sentimento. Um sentimento que surge da compreensão da situação do outro. Se a simpatia se segue à empatia é positiva; se surge antes ou em vez da empatia, então não é positiva e não ajuda.

Compaixão – A compaixão leva a empatia e a simpatia a dar um passo mais em frente. Quando somos compassivos, sentimos a dor do outro (ou seja, empatia) ou reconhecemos que a pessoa está a sofrer (simpatia), e fazemos o nosso melhor para aliviar o sofrimento da pessoa.

A compaixão é o objetivo final do processo que começa com ser e estar com o outro, sentindo os seus sentimentos. Num primeiro momento, estamos simplesmente com a pessoa. Esta primeira etapa é insubstituível e a mais importante de todas. Só depois usamos a nossa cabeça   conceptualizamos e tentamos entender a sua situação para finalmente, movidos pela compaixão, darmos o nosso melhor para a aliviar.

Foi precisamente isto que Deus fez connosco ao enviar-nos o seu Filho; não tentou salvar-nos a partir de cima; primeiro fez-se um de nós, vestiu a nossa natureza humana e a partir daí mostrou simpatia pela nossa causa, comovendo-se com a nossa dor ao ponto de a sentir na sua própria carne. Isto mesmo diz a carta de São Paulo:

(Cristo) embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se;
mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz! Filipenses 2, 6-8

Resumindo o que dissemos, a empatia é sentir o que o outro sente; a simpatia é o sentimento que resulta da compreensão que temos da sua dor; compaixão é a vontade de aliviar o sofrimento do outro.

O poder da empatia
Rosenberg menciona uma experiência que o seu professor Carl Rogers fez para provar que a empatia, por si só, podia curar emocionalmente. Para este teste, alguns doentes foram tratados por psicoterapeutas profissionais de diferentes escolas, outros doentes por leigos sem nenhuma formação em psicologia, usando apenas empatia. Pelos resultados obtidos ficou demonstrado que os que usaram empatia, fossem eles psicoterapeutas ou leigos, foram os que obtiveram os melhores resultados.

Por este teste e por experiência própria, Rosenberg conclui que a empatia em si mesma é a melhor forma para obter cura emocional, resolver conflitos, e conseguir a reconciliação entre pessoas e grupos.

Para que isto aconteça, o único requisito é que cada um dos indivíduos ou grupos antagónicos, primeiro, por intermédio de auto empatia descubram o que neles está vivo, ou seja, os seus sentimentos e necessidades e se deem conta de que são as suas necessidades insatisfeitas que provocam a divisão e conflito entre eles. Segundo, por intermédio da empatia, consigam ligar-se conectar com o que nos outros está vivo – a sua humanidade ao nível de sentimentos e necessidades. Quando esta empatia nos dois sentidos acontece, o conflito dissolve-se, a cura emocional e a reconciliação acontecem por si sós, como por magia, simplesmente por os sentimentos e as necessidades são universais.

Ocasionalmente, indivíduos e grupos podem concordar a nível de ideias e pensamentos.  A concordância a nível de sentimentos e necessidades está praticamente garantida pois ocorre sempre. É precisamente por isto que a empatia é o instrumento mais poderoso para a cura emocional a resolução de conflitos e a reconciliação entre indivíduos ou grupos.
Pe. Jorge Amaro, IMC


1 de março de 2018

CNV: Jesus de Nazaré e a redenção pela Não-Violência

3 comentários:
Um dos que estavam com Jesus levou a mão à espada, desembainhou-a e feriu um servo do Sumo Sacerdote, cortando-lhe uma orelha. Jesus disse-lhe: «Mete a tua espada na bainha, pois todos quantos se servirem da espada morrerão à espada. Mateus 26,51-52

“Quem com ferro mata, com ferro morre” – É o provérbio ou expressão popular que tem provavelmente as suas raízes no texto citado acima. A violência não só resolve qualquer conflito ou problema, como cria outros problemas. Fala-se da espiral de violência, pois facilmente esta se alastra, envolvendo cada vez mais gente. Através da violência a única paz que se pode atingir é a paz do cemitério, da morte, da destruição.

Jesus de Nazaré desafiou o sistema de dominação e a sua ideia basilar do valor redentor da violência. E não permaneceu muito tempo com vida. A Igreja com a responsabilidade de proclamar os seus ensinamentos; não o fez em grande medida, porque não os entendeu verdadeiramente, ou porque para sobreviver, teve de adaptar-se à cultura e aliar-se ao poder dominante.

O Cristo que a comunidade passou para a História foi um Cristo aguado, diluído, menos radical, menos revolucionário. No entanto, providencialmente, este Jesus de Nazaré que não singrou na comunidade cristã nem fez História, está contido nos evangelhos, e é através deles que nos damos conta da dimensão revolucionária dos seus ensinamentos.

Jesus rejeitou o poder autocrático, (Mateus 20, 25-28), apelou à equidade económica, (Marcos 12, 30-31), rejeitou a violência, (Mateus 5, 38-41), quebrou costumes que tratavam as mulheres como inferiores, (Lucas 10, 38-42), quebrou as regras da pureza ritual por separar as pessoas umas das outras, (Marcos 1, 40-45), desafiou a visão patriarcal da família (Lucas 11, 27), e rejeitou a crença de que Deus requer sacrifícios de sangue, (Mateus 9, 9-13).

Poder como serviço e não como domínio
«Sabeis que os chefes das nações as governam como seus senhores, e que os grandes exercem sobre elas o seu poder. Não seja assim entre vós. Pelo contrário, quem entre vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo; e quem no meio de vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo. Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão.» Mateus 20, 25-28

Quanto a vós, não vos deixeis tratar por “mestres”, pois um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos. E, na terra, a ninguém chameis “Pai”, porque um só é o vosso “Pai”': aquele que está no Céu. Nem permitais que vos tratem por 'doutores', porque um só é o vosso 'Doutor': Cristo. O maior de entre vós será o vosso servo. Quem se exaltar será humilhado e quem se humilhar será exaltado. Mateus, 23, 8-12

Jesus é anarquista não no sentido de defender que a sociedade não deva estar organizada e disciplinada, mas no sentido de afirmar que ninguém tem o direito de exercer poder sobre ninguém; o poder ou é serviço ou é malévolo.

Para Jesus todo o governo autocrático é naturalmente violento e opressivo. Jesus entende o poder como serviço e não como domínio sobre as pessoas. Jesus substitui o amor pelo poder, pelo poder do amor e do serviço aos outros. É este o caminho da grandeza e da popularidade que tanto buscam os poderosos.

Os que exercem o poder autocraticamente são temidos, e não amados; os líderes amados pelo povo são os que exercem o poder servindo; estes são os grandes na História da humanidade. Os grandes na nossa história pessoal são também aqueles que nos serviram e não aqueles que nos dominaram. Os nossos pais, professores, catequistas etc…

Igualdade e Equidade económica
Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças. O segundo é este: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior que estes.» Marcos 12, 30-31

Num só mandamento Jesus une os dois valores onde assentam a vida humana. Em “amar a Deus sobre todas as coisas” significa não reconhecer nenhuma autoridade além de Deus, não se submeter a nada, nem a ninguém. Este é o garante da liberdade como valor onde assenta a dignidade da pessoa humana.

Por outro lado, como o ser humano não é uma ilha, a dimensão social assenta na igualdade; abaixo de Deus ninguém é mais que ninguém. A combinação destas duas dimensões vertical - do amor a Deus e liberdade, - e horizontal, no amor ao próximo como a nós mesmos, - forma a cruz símbolo do cristianismo.

Jesus alerta para o perigo das riquezas que fazem o homem insolidário e lhe barram a salvação (Marcos 10,25). Por isso, convida o jovem rico ao desprendimento e a repartir pelos pobres, para alcançar uma riqueza maior (Mateus 19,21). Louva Zaqueu pelo seu gesto de devolver e repartir o que lhe valeu a salvação (Lucas 19, 1-10). A partilha de bens materiais faz parte do critério de entada no Reino dos Céus (Mateus 25, 31-46).

Olho por olho dente por dente versus ama os teus inimigos
«Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu, Mateus 5, 43-45

Ouvistes o que foi ditoEu, porém, digo-vos – Várias vezes no Sermão da Montanha Jesus utiliza esta construção gramatical para, ao mesmo tempo, expor cada um dos enunciados da ideologia antiga ou sistema de domínio, rebatendo-os um a um com a sua doutrina.

Jesus veio provar que o sistema de domínio não é a única forma de viver em sociedade; O Reino de Deus, que Jesus trouxe com a sua vinda ao mundo, é na verdade a única alternativa ao sistema de domínio, a única de facto. O Reino de Deus iniciado por Jesus é uma “win win situation”, todos ganham, ninguém perde, não há oprimidos nem opressores, nem vencidos nem vencedores.

Para o sistema de domínio, o homem é lobo do homem por isso tem de se convencer a si e os seus congéneres de que os seus inimigos são pérfidos e de que a única forma de viver em paz é destruí-los. Para Jesus, não há inimigos. Mas se os há, estes não se vencem com ódio. O ódio fá-los mais fortes; é como pretender apagar o fogo com gasolina. Só o amor os pode derrotar verdadeiramente.

Para funcionar, a violência redentora requer que algumas pessoas sejam declaradas inimigas, para que a sua eliminação pela violência seja vista como um ato redentor. Ao exortar-nos a amar os nossos inimigos, Jesus deixa a violência redentora sem a sua justificação moral para operar. Neste contexto Rosenberg disse que quando compreendemos as necessidades que motivam o nosso e o comportamento dos outros, deixamos de ter inimigos.

“No estrañeis dulces amigos que tenga mi frente arrugada, yo vivo em paz con los hombres y en guerra con mis entrañas”. António Machado

Inteligentemente, o sistema de domínio buscou limitar a violência entre pessoas colocando-a no interior da consciência de cada um. O superego freudiano é de alguma forma o “Cavalo de Troia” do sistema de domínio dentro de nós. A coerção do sistema de domínio é assim exercida pela própria pessoa sobre si mesma. Como dizia o poeta popular espanhol

Para os que em vez de exercerem a violência sobre si mesmos por vias do superego, escolhem exercê-la sobre os outros, o mito da violência redentora tem a lei do Talião do código Hamurabi, o código de leis mais antigo do mundo, também nascido na Babilónia. Como bem observava Gandhi, olho por olho dente por dente vai-nos deixar a todos desdentados e zarolhos.

A crença é que esta lei restaura o equilíbrio rompido quando alguém comete um crime contra o seu próximo; porém na realidade, apenas consegue uma trégua durante a qual os adversários aproveitam para se armar. Esta trégua parece um tempo de paz, mas na realidade é um tipo de guerra a “Guerra fria”.

Assim sendo o mundo nunca tem paz, pois os tempos de guerra quente alternam-se com períodos de guerra fria. Durante a guerra fria carregam-se as armas, durante a guerra quente disparam-se. A única paz possível dentro do mito da violência redentora é a paz do cemitério.

O amor ao próximo como a ti mesmo, e o amor aos inimigos parecem ser as únicas ideias que superam o mito da violência redentora e estabelecem uma paz verdadeira e duradoira. Jesus veio para fazer deste mundo o Reino de Deus, um Reino de justiça e paz, uma “civilização do amor” como o Papa João Paulo II gostava de repetir. O Sermão da Montanha é a Magna Carta ou Constituição desse Reino. A CNV é o idioma deste Reino.

A não violência redentora
Ouvistes o que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, digo-vos: Não oponhais resistência ao mau. Mas, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. Se alguém quiser litigar contigo para te tirar a túnica, dá-lhe também a capa. E se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, caminha com ele duas. Mateus 5, 38-41

O Código Hamurabi, que nasceu na Babilónia na mesma terra onde nasceu o mito da violência redentora, é o primeiro código de leis que a civilização humana conhece. Olho por olho e dente por dente, era uma lei desenhada para conter o escalar natural da violência, permitindo o uso controlado desta pela vingança, dentro do princípio da reciprocidade. Para Jesus esta não é a solução, pois opõe violência com violência.

Não oponhais resistência ao mau - Resistir violentamente, vingar-se ou vencer o mal por intermédio da violência, é deixar-se controlar pela violência e perpetuar o mito de que por ela se chega à salvação. Wink observa que este texto tem sido interpretado tradicionalmente como advogando a submissão passiva à opressão, pelo que, historicamente, o cristianismo rejeitou os ensinamentos de Jesus acerca da não violência como idealismo utópico, idealista e ingénuo.

A verdade, porém, é que o evangelho não ensina a não resistência ao mal; Jesus ensina a resistir, mas sem violência. Wink assegura-nos que se lermos as palavras de Jesus, no contexto histórico e cultural em que foram pronunciadas, fica claro que Jesus está advogando uma forma criativa de oposição não violenta à opressão, e não à submissão. Por outro lado, Wink entende que esta é uma má tradução do original grego que segundo ele, diz: “não reajais violentamente contra o mau”. Os exemplos a seguir são prova adicional disto mesmo.

Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra – A bofetada é dada com a mão direita pois a mão esquerda, segundo a lei dos judeus, só podia ser usada para tarefas impuras. Ora uma bofetada com a mão direita na face direita, só pode ser dada com as costas da mão.  Ainda hoje uma bofetada dada com as costas da mão não tem intenção de magoar fisicamente, mas sim de insultar humilhar e degradar.

Não era dada a uma pessoa de igual estatuto, mas sim a um inferior; era o tipo de bofetada que um mestre daria a um escravo, um marido à sua esposa, um pai a um filho, um romano a um judeu, para o recordar da sua posição de inferioridade e faze-lo regressar a ela. “Sapateiro à tua sovela”, dizemos em português.

Ao oferecera face esquerda, o agressor não pode voltar a agredir com as costas da mão, ou seja, não pode voltar a humilhar; para bater, teria que o fazer, desta vez, com a palma da mão coisa que só poderia acontecer entre pessoas do mesmo estatuto social. Se o agressor o fizesse, estaria a rebaixar-se à mesma condição do agredido.

Portanto, o ato de voltar a cara queria dizer naquele tempo “eu sou igual a ti em dignidade, não aceito ser humilhado”. Também não pode agredir com as costas da mão a face direita, pois esta está escondida, por isso mais que oferecer a esquerda ele está a ocultar a direita para não ser humilhado outra vez; está a rebelar-se e a deixar o mestre sem argumentos, ao não o poder agredir na esquerda sem se rebaixar e o reconhecer como igual.

Se alguém quiser litigar contigo para te tirar a túnica, dá-lhe também a capa – Para entender estas palavras é preciso estar ciente de que o sistema tributário de Roma levava os pobres agricultores a endividar-se, ao ponto de terem que pagar com as suas terras. Ficavam assim sem nenhum meio de sustento, completamente desfalcados e desprotegidos, ou seja, nus.

A parábola dos trabalhadores da vinha em Mateus 20, 1-16 refere-se aos que perderam as suas terras por terem ficado endividados se vêm agora na obrigação de todos os dias virem para a praça, na esperança de serem contratados. Ironicamente, o latifundiário contrata primeiro os que foram donos das terras pois esses conhecem bem o trabalho a fazer e só depois, precisando de mais mão de obra, volta à praça para contratar mais gente.

O endividado não tinha nenhuma hipótese de ganhar a causa pois o sistema favorecia o credor. Como vimos no caso de apresentar a outra face, e como veremos no caso de andar mais de uma milha, uma das regras da não violência é tomar a iniciativa; ao despojar-se da única coisa que lhe restava, a capa, e ficar nu, o endividado protesta e aponta o dedo ao sistema que assim o deixou.

A nudez era um tabu em Israel, mas a culpa não recaía sobre a pessoa que a exibia, e sim sobre os que a contemplavam e a tinham causado (Génesis 9, 20, 27). De facto, ainda hoje, em muitas situações, exibir nudez é uma forma de protesto. Despojar-se da capa e abandonar o tribunal nu equivale a dizer, “roubaste-me tudo, só me resta o meu corpo, que vais fazer agora?” As atenções e os olhares acusatórios voltam-se agora contra aquele que causou aquela nudez, o credor.

Como conclui Wink, o ensinamento de Jesus sobre a não-violência aponta para uma estratégia de confronto do sistema, desmascarando a sua crueldade essencial burlando-se das suas pretensões de justiça. Os que ouvem estes ensinamentos já não vão deixar-se tratar como se fossem esponjas espremidas pelos ricos. Aparentemente aceitam as regras do jogo dos ricos, exacerbando-as até ao absurdo e, expondo assim a sua crueldade. Ao despojar-se ante os seus companheiros, o que deixam a nu é precisamente o sistema e os seus credores.

Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, caminha com ele duas – Era um costume no tempo de Jesus quem quer que fosse encontrado na estrada ou na rua, podia ser obrigado a servir, como aconteceu ao Cireneu que foi obrigado a carregar a cruz de Cristo (Marcos 15, 21).

No Império Romano, os soldados de alta patente, tinham escravos, burros, cavalos ou carroças para carregar a sua bagagem; o mesmo não acontecia com os de baixa patente por isso podiam obrigar quem quer que fosse a carregar a sua bagagem durante uma milha. Carregar esta bagagem por mais de uma milha era ilegal e punido por lei.

Como nas duas instâncias anteriores, a questão aqui é como os oprimidos podem recuperar a iniciativa e afirmar assertivamente a sua dignidade humana, numa situação que de momento não pode ser alterada, ou seja o domínio dos romanos. Não podia deixar de se sentir interpelado e provocado o soldado que não só não precisou de coerção para obrigar o judeu como até excedeu o previsto. Ao privar o soldado da previsibilidade da resposta da vítima, este ficou desequilibrado e sem autoridade moral.

Agora é o soldado que tem de pedir a bagagem de volta para evitar de ser castigado pelos seus superiores. O humor desta cena pode-nos ter escapado, mas dificilmente escapou aos ouvintes de Jesus, que se devem ter deleitado com a perspetiva de ter dado uma lição de moral. Concluindo, Jesus é contra a passividade e a violência; o mal pode ser confrontado e vencido sem o uso da violência.

A terceira via
Ante um perigo ou uma ameaça, “Fight ou flight” – luta (revolta armada, rebelião violenta, vingança) ou fuga (submissão, passividade, rendição, retirada) são as duas reações possíveis de qualquer ser vivo vertebrado pois estão impressas como veremos no nosso primeiro cérebro, o cérebro reptílico.

Segundo Walter Wink, Jesus oferece uma terceira via. Este novo caminho marca uma mutação histórica no desenvolvimento humano: a revolta contra o princípio da seleção natural. Com Jesus uma nova via emerge, pela qual o mal pode ser combatido sem ser espelhado. Estas seriam as diretivas que se deduzem do Evangelho:
  • não fiques inativo e toma uma iniciativa moral;
  • encontra uma alternativa criativa à violência;
  • asserta a tua humanidade e dignidade como uma pessoa;
  • reage à violência com desdém e humor;
  • quebra o ciclo de humilhação;
  • sê insubmisso recusando qualquer posição de inferioridade;
  • expõe a injustiça do sistema;
  • assume dinamicamente uma posição de poder;
  • envergonha e verga o opressor ao arrependimento;
  • mantem-te firme;
  • obriga os poderes a tomar decisões para as quais não estão preparados;
  • reconhece o teu próprio poder;
  • esta disposto a sofrer, em vez de te vingares;
  • obriga o opressor a olhar para ti sob um novo prisma;
  • priva o opressor de uma situação onde uma demonstração de força seja eficaz;
  • está disposto a pagar o preço por quebrar leis injustas;
  • vence o medo ao sistema de dominação e às suas regras.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de fevereiro de 2018

CNV: O falacioso mito da Violência Redentora

2 comentários:
O que é um mito?
Os mitos, são narrativas que surgiram nos primórdios da civilização humana com o intuito de explicar e dar resposta às questões fundamentais que os homens desde sempre colocaram: a origem do mundo, do homem, de Deus, o sentido da vida, etc.

Os mitos não são históricos porque não se referem a coisas que realmente aconteceram; porém o facto de não o serem não significa que sejam falsos. São verdadeiros na medida que tentam explicar realidades num tempo em que a ciência não existia. Tomemos, por exemplo, o mito do deus do tempo chamado Cronos; Este dava à luz filhos e depois comia-os. É certo que não é histórico, mas é verdadeiro porque, de facto o tempo é algo que temos e depois consumimos; cada dia que nos levantamos pela manhã, damos à luz um dia e à noite já o temos consumido.

O sistema de domínio, ou estrutura de poder
Assim chama Walter Wink a um conjunto formado por relações económicas injustas, relações políticas opressivas, relações raciais tendenciosas, relações de género de tipo patriarcal; tudo isto dentro de uma sociedade que divide as pessoas em classes sociais, para que as relações entre estas sejam hierárquicas e não de igual para igual. Por fim, o uso da violência aparece para manter e  salvaguardar este “status quo”, que vigora desde o surgimento da Babilónia há 3000 anos AC.

As coisas não acontecem ao acaso, segundo Wink, um sistema de domínio tem que possuir necessariamente um mito de dominação: uma lenda ou narrativa que tenta explicar e justificar o porquê desta situação e como é que chegámos aqui.

“Might is right” - O mito chama-se “Violência redentora” que consagra a crença de que a violência salva e se justifica a si mesma, de que a guerra traz paz, “vis pacem para bellum”, como diziam os romanos, se queres a paz prepara-te para a guerra. Este mito defende que o poder é imprescindível para estabelecer a paz e a concórdia. Tal como recorremos a Deus quando tudo falha, assim recorremos à violência para solucionar os problemas individuais e sociais, pelo que esta parece funcionar como um deus. De facto, para Wink, esta, e não o Judaísmo, o cristianismo ou o islamismo, é a “religião” mais antiga e tem sido a mais predominante no mundo desde a Babilónia até aos dias de hoje.

O mito da violência redentora dota o sistema de domínio com uma narrativa que pode ser reproduzida de várias formas até ao infinito, convencendo todos os envolvidos nele, tanto os opressores, como os oprimidos, de que, sem este sistema de domínio, ou estrutura de poder, o mundo tal como o conhecemos colapsaria; portanto só a “violência legal”, ou seja a exercida pelo sistema de domínio, nos pode salvar deste destino.

O jogo dos polícias e dos ladrões ou do herói e do vilão
Vejamos paradigmaticamente o funcionamento deste mito: um indivíduo poderoso, um sistema ou grupo, causou dano ou angústia a um outro determinado indivíduo ou grupo. Dentro do grupo oprimido, surge um herói, ou grupo poderoso, que defronta violentamente, derrota e mata o opressor, terminando assim o seu reinado de terror.

A seguir, o protagonista vitorioso e herói cria um sistema no qual os libertados podem viver livres e em harmonia, durante algum tempo. Porém, como o poder corrompe, eventualmente, o anterior libertador justo, agora enamorado e agarrado ao poder, tornando-se ele mesmo num opressor, um vilão. Desta feita, o ciclo começa de novo, com o eventual surgimento de outro herói.

Com base neste mito que alguns historiadores afirmam que a história se repete. Tomemos como exemplo a Rússia opressora dos Czares; a revolução Bolchevique de 1917 libertou, por um curto período de tempo, o povo, do domínio absoluto dos Czares, para ficarem, talvez bem pior, debaixo do domínio de Stalin e dos que lhe seguiram na chamada “ditadura do proletariado”.

Desde muito cedo que as crianças são doutrinadas neste sistema de domínio por intermédio do culto e admiração pela figura do herói nos desenhos animados e depois em todos os filmes. A um herói invencível opõe-se um vilão aparentemente também invencível. As crianças, os jovens, ou nós mesmos, conscientemente identificamo-nos com o herói, neste caso temos um bom conceito de nós mesmos. Mas inconscientemente também nos identificamos com o vilão, no qual projetamos a nossa ira reprimida, a nossa rebeldia e luxúria e disfrutamos desta nossa maldade durante três quartos do filme em que o mau parece prevalecer.

Quando por fim, eventualmente, o bom prevalece, depois de muito esforço e sofrimento, é como se no nosso íntimo conseguíssemos reestabelecer a ordem sobre as nossas próprias maldades e maus instintos. Por isso gostamos tanto de ver filmes ou talvez necessitemos deles para manter a nossa agressividade debaixo de controlo ou a um nível manejável. Este tipo de sublimação acontece também com o desporto, sempre é preferível que os grupos ou os países rivais se defrontem no estádio ou nos jogos olímpicos que no campo de batalha.

Os filmes funcionam então como uma catarse libertadora, pois a punição do vilão no cinema corresponde a uma autopunição das nossas tendências más. A salvação encontra-se na identificação com o herói, ficando assim justificado e reforçado o uso da violência e auto violência e a perpetuação do sistema de domínio.

Tal como nas antigas arenas romanas onde os gladiadores lutavam entre si até à morte, onde os cristãos eram devorados pelas feras como, ainda hoje, nas arenas das touradas, a violência não é apenas um meio para obter a justiça e a paz; a nossa cultura tem feito dela um espetáculo agradável e gratificante.

A violência na educação
“La letra com la sangre entra”
Era o provérbio castelhano que exaltava a violência sobre as crianças como a melhor forma de aprendizagem. À mercê de professores sádicos e sem escrúpulos as crianças eram espancadas nas escolas e nos colégios além de o serem no seio da família. Sempre recordarei um colega de escola, que tinha perdido o pai; como a mãe já era idosa e não tinha força para lhe bater, e as pancadas da escola eram insuficientes, então sistematicamente ia ao posto da GNR para ser espancado todos os dias.

O mito babilónico da criação
O mito mais antigo da criação do universo e dos seres humanos reza que no princípio existiam o deus Apsu e a deusa Tiamat que tiveram vários filhos. Como os mais novos eram barulhentos quando brincavam e Apsu não conseguia nem dormir nem trabalhar, decidiu matá-los. Entretanto os deuses novos descobrem o plano e antecipam-se matando Apsu.

Tiamat prometeu vingança pela morte do marido. Cheios de medo os deuses rebeldes solicitam a ajuda do primo Marduk; este, capturou Tiamat e, matou-a despedaçando posteriormente o seu corpo e espalhando o seu sangue. Assim foi criado o Universo segundo o mito babilónico. Ou seja, a criação é um ato de violência e não de bondade como no mito bíblico da criação.

A ordem cósmica requer a supressão violenta do feminino e é espelhada na ordem social pela sujeição das mulheres aos homens e a dos homens ao seu governante. No princípio era o caos e a violência foi usada para estabelecer a ordem. Fica assim justificado o uso da violência pois sem ela não haveria ordem. O mito da violência redentora é a vitória da ordem sobre o caos por intermédio da violência.

Depois da criação do mundo, Marduk atirou para a prisão os deuses que estavam do lado de Tiamat; como estes protestavam, porque a comida na prisão não era boa, Marduk e o seu pai Ea (filho de Apsu), mataram um deles e, do seu sangue criaram os seres humanos para serem servos dos deuses.

Portanto, segundo o mito babilónico da criação, a violência é natural está incorporada nos nossos genes. Não foi a humanidade que criou a violência, como ato de desobediência a Deus, como no caso do mito bíblico; no mito babilónico a violência sempre esteve presente, fazendo parte da natureza cósmica e humana. Os seres humanos estão naturalmente incapacitados para a coexistência pacífica; a paz tem de ser imposta a partir de cima.

Os mais espertos e poderosos apresentam-se então ante os outros, como reis, Czares, imperadores, príncipes, sacerdotes e mestres, representantes da bondade e justiça de Deus com a missão de combater os maus e de os punir. A violência “legal” dos líderes da sociedade opõe-se à violência “natural” para subjugar os maus, dissuadir os outros das suas más tendências e facilitar a convivência social.

Desta feita, as mulheres são aconselhadas a não ter necessidades, pelo que devem sacrificar-se para bem da família; os homens abdicam dos seus interesses pessoais para servirem o rei, a ponto de lhe darem a vida em guerras para proteger e aumentar os seus domínios. As crianças são instruídas desde muito pequenas de que há certo e errado, maus e bons, e que, para serem boas devem usar o seu poder natural não exteriormente, mas interiormente contra si mesmas reprimindo as suas más tendências e obedecendo à autoridade incondicionalmente sem a questionar.

O mito bíblico da criação
Deus disse: «Faça-se a luz.» E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. (…) Deus disse: «Reúnam-se as águas que estão debaixo dos céus, num único lugar, a fim de aparecer a terra seca.» E assim aconteceu. Deus chamou terra à parte sólida, e mar, ao conjunto das águas. E Deus viu que isto era bom. (…) Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o sexto dia. Génesis 1, 3, 9, 10, 31

Bem diferente é o mito bíblico da criação descrito no livro do Génesis. Foi redigido enquanto o povo judeu vivia exilado no cativeiro da Babilónia. Por isso tem semelhanças com este, mas no fundamental opõe-se ao mito babilónico. Na bíblia Deus é bom e a criação é um ato de bondade de Deus. À medida que Deus vai criando cada uma das várias realidades dá-se conta de que o que cria é bom. Deus é bom e dá origem a uma criação boa. (Génesis 1, 4, 12, 18, 21, 25)

O mal e a violência não fazem parte da criação tal como Deus a concebeu. A criação é um jardim idílico onde os primeiros seres humanos vivem em harmonia entre si, com a Natureza e com Deus. O mal entra posteriormente, como resultado de um mau uso ou abuso da liberdade. O mundo e a realidade que Deus criou eram inicialmente bons, tendo sido posteriormente corrompidos pelo pecado do Homem.

Na bíblia, depois de Adão e Eva terem roubado a Deus a prerrogativa do bem e do mal e de se colocarem a si mesmos como medida de todas as coisas, a arbitrariedade entrou no mundo e, com ela a violência, que se vê exercida logo na segunda geração por Caim sobre o seu irmão Abel. A violência nunca aparece na bíblia como uma realidade naturalmente boa, mas sempre como artificialmente má; não se apresenta como um facto natural que tem de ser assumido e aceitado, mas sim como um problema a resolver.

Está claro que este não foi o mito que prevaleceu em todo o mundo, desde a Babilónia ou Mesopotâmia ao Egipto, à Grécia, à Índia, à China. O mito da Babilónia é o mais antigo e o mais atual, e não tem rival; são bem poucos os que o confrontam e põem em causa. É uma espécie de religião civil que é transversal a todas as culturas, civilizações, e religiões, e a matriz sobre a qual estão feitos todos os filmes e desenhos animados, no intuito de educar as gerações jovens sobre a necessidade da violência para restabelecer a ordem.

A religião como legitimação do poder
Que todos se submetam às autoridades públicas, pois não existe autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus. Por isso, quem resiste à autoridade opõe-se à ordem querida por Deus, e os que se opõem receberão a condenação. Romanos 13, 1-2

A crença de que a autoridade vem de Deus e que quem a exerce na terra fá-lo em nome Dele é ideologia do sistema de domínio. Desta crença a idolatrar a autoridade vai um passo curto que muitos reis e imperadores deram. Já no nosso tempo, o ditador Francisco Franco, após a guerra civil, e para justificar a usurpação do poder, declarou-se, e fez até cunhar moedas com a sua efígie e as palavras “Francisco Franco, Caudillo de Espanha pela graça de Deus”.

A religião, em vez de fazer valer o seu mito, de que o homem não é violento de per se, pois, foi criado por um ato de amor de Deus, deixou-se influenciar pelo mito babilónico tornando-se numa religião violenta, no caso da religião judaica.

Todo o sistema sacrificial está baseado na crença de que só com sangue se redime ou resgata sangue.  A única diferença entre os judeus e os povos circundantes, ou os longínquos Maias e os Astecas, é que os sacrifícios humanos foram substituídos por sacrifícios de animais, sendo, de alguma forma o cristianismo uma volta a ao sacrifício humano, mas desta vez de um só por todos, válido para todo o tempo e lugar.

O cristianismo, sucessor do judaísmo, como o texto de S. Paulo acima citado sugere, seguiu as pisadas do judaísmo, abençoando e adotando o mito da violência redentora. É certo que Jesus de Nazaré é um caso aparte, e precisamente por isso, não foi entendido pelos seus discípulos. Por isso, este lado foi deslavado ou aguado já na geração apostólica pelos seus mesmos seguidores.

Para Walter Wink, o cristianismo foi pervertido e feito capelão, ou tutelar religioso e garante moral, de tudo o que o Estado fazia. O Cesaropapismo é a ideologia que passou a governar o mundo ocidental desde que o cristianismo se tornou religião de Estado com o imperador romano Constantino, não obstante Jesus ser contra a união de poderes como concluímos pela sua advertência de dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. (Mateus 22,21)

As cruzadas e a Inquisição são os casos mais exponenciais onde os interesses da política se unem e coincidem como os interesses da religião, fundindo-se num único objetivo e estratégia, justificando-se mutuamente. Pelas cruzadas a Igreja, que as declarou, mobilizou exércitos para defender os lugares santos ocupados pelos muçulmanos, o conceito de guerra santa, o matar em nome de Deus é o “non plus ultra” na autojustificação da violência.

A Inquisição, instrumento da Igreja para purificar e obrigar os fiéis à verdadeira fé e doutrina, foi mais usada pelo Estado que pela própria Igreja; o caso mais flagrante foi a condenação de Joana d’ Arc. Tanto no mundo católico como no mundo protestante, a caça às bruxas era promovida pelo Estado, com o beneplácito da Igreja, que dessa forma se via livre de indivíduos que ameaçavam o sistema.

O triangulo de Karpman ou das "Bermudas"
Em suma, o mito da violência redentora é a história da vitória da ordem sobre o caos através da violência. Como neste mito a violência se apresenta como a única solução possível ante o caos, a barbárie e a anarquia; como a violência não é um problema, mas sim um facto, o nosso mundo nem é perfeito nem é aperfeiçoável. O mundo é o teatro de um eterno conflito no qual vigora uma versão mais ou menos branda da lei da selva, ou seja, da lei do mais forte.

Em última análise, a violência redentora não redime coisa nenhuma, nem a vítima, nem o vilão, muito menos resolve o problema ou conflito que a originou. A única coisa que faz é perpetuar-se a si mesma numa espécie de eterno círculo vicioso. Assim sendo temos uma versão do triângulo de Karpman (perseguidor – salvador – vítima, equivalente a vilão – vítima – herói) e desta espécie de triângulo das Bermudas, ninguém sai vivo.

O pensamento grego está formatado no mito do eterno retorno, a própria dialética hegeliana de tese-antítese-síntese que se transforma numa nova tese à qual segue uma nova antítese e assim por diante ad infinitum… tem este mito como paradigma; é ao fim e ao cabo, o mesmo mito que faz dizer a alguns que a História se repete. Círculo vicioso é também a visão do tempo na filosofia grega; o deus do tempo chamado Cronos dá à luz filhos e come-os.

Se não mudarmos de paradigma, se não destituirmos o mito babilónico e adotarmos o mito bíblico, não há esperança, o mundo está num beco sem saída pelo que a autodestruição da humanidade é o fim mais provável.

Contrário ao paradigma grego do eterno retorno, o pensamento judeu é bem diferente pois está enraizado na epopeia hebraica da saída da escravidão do Egipto - passagem pelo deserto de purificação - e entrada na Terra prometida da liberdade. O tempo não é cíclico, mas sim linear; nesta visão do tempo nunca regressamos ao ponto de partida, como um rato a correr numa roda, mas caminhamos para um futuro que nos possibilita um progresso ad eternum.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de janeiro de 2018

CNV - Cosmovisão e Cosmovisões

1 comentário:
CNV = Comunicação Não-Violenta
Quando éramos bebés podíamos ter aprendido uma ou duas línguas sem necessidade de aprender a gramática, ou seja, a razão pela qual é assim que se deve falar. Quando crescemos e somos adultos para aprender uma língua precisamos de aprender gramática, ou seja, de saber as regras da língua, e de alguma forma obedece-las para falar bem e adequadamente.

A comunicação não violenta ou compassiva é uma nova língua. Para aprende-la na idade adulta, precisamos de aprender as suas regras, a filosofia, a cosmovisão, ou forma de pensar que lhe está subjacente. Se vamos aprender uma língua não violenta, precisamos de saber de que forma a língua que atualmente falamos é uma língua violenta. De onde vem essa língua violenta, o que está na sua base?

O que quer que seja tem a ver com a forma como conceptualizamos o mundo e a sua história, a natureza humana, a realidade que nos rodeia e o próprio sentido da vida. A cosmovisão é a pedra angular, os alicerces onde assenta o nosso pensamento. É composta por crenças, mitos e ideias basilares que em grande medida, são inconscientes e por isso, não se discutem nem se colocam em causa.

Para transformar a nossa linguagem violenta na linguagem do Reino de Deus, temos de mudar a nossa maneira de pensar e para mudar a nossa maneira de pensar, temos de confrontar e eventualmente mudar a cosmovisão na qual esta assenta.

O teólogo Walter Wink, no seu livro “The powers that be”, diz que a cosmovisão é o esqueleto do nosso pensamento e dá exemplos de cosmovisões que vigoraram na civilização ocidental:

A cosmovisão antiga
Apresenta o mundo celestial em paralelo com o mundo terrestre; o que acontece no Céu também acontece na Terra e vice-versa; é o que se verifica nas mitologias grega e romana. Todas as realidades terrestres têm uma dimensão divina; e uma divindade que as representa no céu; assim, o deus da guerra é Marte, a deusa do amor é Vénus, o deus do mar é Neptuno, o chefe ou pai dos deuses é Júpiter, etc… No mundo antigo os gregos, os romanos, os egípcios, os babilónios, os indianos e os chineses, todos partilhavam esta forma de entender a realidade.

A cosmovisão espiritualista
Aparece no século II da era cristã e em direto confronto com a ideia de que a criação é basicamente boa. Impõe-se o dualismo grego, o espírito é bom a matéria é má; o mundo é a prisão do espírito o corpo é a prisão da alma. Considera o sexo e em geral as coisas do corpo como más; para vencer o mal, o corpo precisa de ser mortificado e negado para que o espiritual possa impor-se.  Este mundo é um “vale de lágrimas” e a morte é vista com uma libertação da alma dos grilhões do corpo que a faz impura.

A cosmovisão materialista
Em contraposição com a espiritualista, a cosmovisão materialista estabelece que o real é o que pode ser conhecido através dos nossos cinco sentidos, e para além disto tudo é superstição; o Céu não existe, nem Deus, nem a alma; os seres humanos não são mais que matéria, o universo não tem nenhum significado intrínseco pelo que carece de sentido e finalidade. A ética é inexistente, o bem e o mal, o certo e o errado são arbitrários e convencionais e resultam de um acordo social com vistas à sobrevivência e convivência pacífica entre os cidadãos.

Walter Wink diz que este é o ethos dominante no mundo pós-moderno; é a estrutura mental ou a matriz (mother board do computador) sobre a qual assentam e operam as universidades, a política, os meios de comunicação e a cultura em geral. Esta cosmovisão tornou-se tão invasiva da sociedade e pensamento moderno, que até se afirma científica ou baseada na ciência, quando a ciência, em especial a física, há muito se desmarcou da visão materialista do mundo para uma visão do “universo reencantado”.

As pessoas que vivem nesta cosmovisão julgam-se que acompanham a ciência a par e passo, mas ao contrário ficaram para trás. Ficaram agarrados e amarrados à física de Newton para a qual o mundo é como um relógio que funciona previsivelmente com uma precisão matemática.

Depois de Einstein, a física mecanicista de Newton deu lugar à física quântica; esta fundada no princípio da incerteza e casualidade de Heisenberg, substituiu a previsibilidade do mundo real por um cálculo de probabilidades.

Cosmovisão teológica
Aparece como reação espiritual à cosmovisão materialista. Reafirma a existência de um mundo sobrenatural e amuralha-o declarando que a sua existência é puramente matéria de fé; não se pode aceder a ele pelos sentidos pelo que a sua existência não pode ser provada, nem desmentida, pela ciência.

Nesta forma de entender a realidade, a ciência e a religião vivem de costas voltadas. Isto obriga os crentes com um alto grau de cultura a viver uma esquizofrenia; durante a semana acreditam que o homem é o resultado da evolução de outras espécies de animais, ao Domingo que foi criado diretamente e expressamente por Deus; evolucionistas durante a semana criacionistas ao fim de semana.

Cosmovisão integral
Esta cosmovisão é ao mesmo tempo uma combinação e superação das anteriores ao colocar o espírito no coração da matéria. Deus é transcendente, ou seja, é diferente, está destacado e a cima de tudo e de todos, mas, ao mesmo tempo é o coração de cada coisa e de cada pessoa. Esta combinação harmónica entre imanência e transcendência não se pode confundir-se com o panteísmo que afirma que tudo é Deus.

A cosmovisão integral tem a ver com o panenteísmo:  tudo está em Deus e Deus está em tudo. É de alguma forma a visão que São Francisco tinha das criaturas como sendo manifestações de Deus porque Deus é imanente a todas elas.

Wink afirma que esta é a cosmovisão da nova física quântica, da teologia da libertação, da teologia feminista, de muitas das religiões nativas dos Estado Unidos e nomeia como expoentes desta cosmovisão o psicólogo Karl Jung e o paleontólogo jesuíta Pierre Teilhard de Chardin.

A forma como estão apresentadas estas cosmovisões, dá a entender que houve um processo de evolução e que agora a maioria das pessoas neste planeta é guiada pela cosmovisão integral. Mas pode não ser assim. Todas elas são atuais e provavelmente pouca gente se guia na sua vida por uma só. Wink diz que todos possuímos pedaços de umas e de outras, consoante seja o assunto que nos ocupa.

Para Wink, entender as cosmovisões que inspiram, guiam e governam o nosso pensamento é importante para que o ser humano e as suas instituições se libertam dos poderes que as dominam.

“Beau sauvage” ou “Homo omini lupus”?
Homo homini lupus – Para o filósofo inglês Thomas Hobbes (1679) o Homem em estado natural, julga-se com direito a tudo, usando o seu poder de uma forma arbitrária para preservar a própria vida; como o seu interesse egoísta prevalece não pode haver segurança e paz pois vigora a lei do mais forte. Não sendo sociável por natureza, a coexistência social obriga o indivíduo a abdicar da sua vontade em favor de um líder ou assembleia que o representa, - o rei ou o Estado, - perdendo assim a sua liberdade e abdicando até da violência.

Beau Sauvage – O Homem em estado natural é bom, sadio e feliz; a criação da propriedade privada leva a diferenciação entre ricos e pobres, escravos e livres, predominando assim a lei do mais forte. O homem, que surge da desigualdade é corrompido pelo poder e esmagado pela violência. Propõe um contrato em que a vontade geral seja soberana: como todos perdem por igual, ninguém perde.

Qual destas teorias descreve melhor a verdadeira natureza humana? Como o ser humano vem de uma evolução de 5 milhões de anos de mamíferos e primatas seria bom que chegássemos primeiro a uma conclusão sobre os animais que nos precedem na história da evolução das espécies: estes animais são por natureza violentos ou não violentos? Não precisamos de observar muito o mundo animal para concluir que, por regra geral, os animais não são violentos gratuitamente ou seja por natureza; só se comportam violentamente quando as suas necessidades não são satisfeitas.

Como a vida só se alimenta de vida, no contexto biológico da cadeia alimentar, toda a forma de vida é alimento para outra forma de vida: a gazela come a erva, o leão come a gazela, o leão morre é comido pelas hienas e pelos abutres estes morrem e são comidos pelos vermes, que ao morrer fecundam a terra onde volta a crescer a erva. Um corpo morto chama-se cadáver; curiosamente esta palavra é composta pelas iniciais das palavras “carne-dada-aos vermes”: ca-dá-ver.

Se qualquer um dos animais acima mencionados tiver uma via alternativa de se alimentar, deixará imediatamente de caçar, ou seja, deixará de ser “violento”. Tomemos como exemplo os nossos animais de estimação, os cães e os gatos, que outrora eram caçadores implacáveis e hoje convivem em perfeita harmonia nos nossos lares.

Milhões de anos de evolução nos separam dos animais mais próximos, os primatas. Criado à imagem e semelhança de Deus Pai universal, o Homem não é lobo do Homem, mas sim irmão. O mundo criado por Deus tem recursos suficientes para que as necessidades de todos sejam satisfeitas sem recorrer à violência.

Isto leva-nos de volta a um dos postulados fundamentais da linguagem não violenta: tal como se verifica no resto dos seres vivos, a violência e os conflitos entre as pessoas acontecem quando as necessidades não são satisfeitas. A CNV é, neste sentido, uma técnica que leva a que as necessidades de uns e outros sejam satisfeitas, aplacando-se assim a violência e resolvendo qualquer conflito resultante das necessidades de alguns não serem satisfeitas.

A crença de que o homem é, por natureza, mau, egoísta e violento tem a sua origem na mitologia e serviu, ao longo dos séculos, para justificar a violência de uns sobre outros e até sobre si mesmo no sentimento de culpa e vergonha.

“Se vis pacem para bellum” – Se queres a paz, prepara-te para a guerra. Tem sido o lema desta cosmovisão do homem como ser individual e comunitário. Segundo este lema, entende-se que o homem é por natureza violento, a paz não pode ser conseguida por meios pacíficos, mas sim por meios violentos.

A sociedade educa o indivíduo a ser violento consigo mesmo e a reprimir a sua ira inata; àqueles que não o conseguem fazê-lo a sociedade exerce sobre eles o seu poder coercivo e punitivo. Desta forma, com base numa ideia falsa, a de que o ser humano é mau por natureza, se perpetuam as estruturas de poder e a violência.

A cosmovisão sobre a qual assenta a linguagem não violenta enquanto linguagem de um Mundo Novo, o Reino de Deus que Jesus veio trazer ao mundo, é a de que Deus só criou coisas boas. O autor do livro do Génesis apresenta-nos um Deus que se regozija com cada realidade criada dizendo: “E Deus viu que era bom” (Génesis 1, 4, 12, 18, 21, 25) … Ora se tudo é bom muito mais será o ser humano que foi criado à imagem e semelhança do próprio Deus criador de tudo. (Génesis 1, 26)

Os homens do futuro
Para além de Walter Wink e de outros teólogos, como Paul Tillich e Teilhard de Chardin, quem mais influenciou Rosenberg foi o seu professor Carl Rogers, o grande mestre da psicoterapia não diretiva centrada na pessoa.

Num artigo escrito no fim da sua vida Rogers descreveu como seria o gosto do homem de amanhã. As suas previsões foram acertadas e as suas ideias continuam a ser atuais e inspiradoras em relação à cosmovisão que deve guiar o nosso pensamento:
  • Abertos ao mundo interior e exterior, a novas formas de ver, de ser, a novas ideias e conceitos;
  • Desconfiados em relação à ciência e tecnologia que tem como finalidade controlar o mundo da Natureza e o mundo das pessoas;
  • Investigadores de novas formas de comunicação, cercania e intimidade.;
  • Detentores de uma consideração positiva e um olhar benévolo pelos outros quando prestam ajuda, fazem-no de uma forma gentil e cortês, não moralista e não julgadora;
  • Ecológicos, aliados às forças da natureza e não em guerra pela sua conquista;
  • Discordantes com as instituições altamente estruturadas, inflexíveis e burocráticas; entendem que as instituições existem para as pessoas e não ao contrário;
  • Desconfiados da autoridade externa, são pessoas moralmente autónomas, ou seja, confiam na sua própria experiência e consciência moral para fazer juízos de valor que podem ir contra leis que consideram injustas;
  • São pessoas espirituais, ou seja, buscam um sentido, um desígnio e uma razão de vida que sejam maiores que o indivíduo e a própria vida.
Pe. Jorge Amaro, IMC