1 de junho de 2026

A tua vida não é acerca de ti


Um homem, ao partir para fora, chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual conforme a sua capacidade; e depois partiu. Aquele que recebeu cinco talentos negociou com eles e ganhou outros cinco. Da mesma forma, aquele que recebeu dois ganhou outros dois.

Mas aquele que apenas recebeu um foi fazer um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor. (…) O senhor respondeu-lhe: “Servo mau e preguiçoso! (…) Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos. Porque ao que tem, será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. A esse servo inútil, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.” Mateus 25, 14.26.28-30

Ninguém veio a este mundo por acaso.
O filho da prostituta que nasceu de uma relação por dinheiro, o filho de uma violência sexual, o filho de uma noite de prazer ocasional, o filho de um “acidente” ou de um deslize, todos eles foram chamados à vida e vieram ao mundo porque Deus, na sua infinita e misteriosa providência, assim o quis.

O filho de uma noite de amor entre dois seres que se prometeram para toda a vida e vivem em fidelidade mútua, não é superior em dignidade a nenhum dos acima mencionados. Deus ama-os a todos por igual. Para Deus, não há filhos ilegítimos — todos são filhos legítimos do Pai de tudo e de todos. Podem não ter o amor dos seus pais, mas nunca lhes faltará o amor do Pai dos pais, Deus.

Ganhar a vida ou perder a vida
“Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la. Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida?”  Mateus 16, 25-26

É comum dizer-se daquele que trabalha incansavelmente que “anda a ganhar a vida”. Neste sentido, ganhar a vida é sinónimo de garantir o sustento; mas buscar meios de vida e viver plenamente não são a mesma coisa. Tal como estar vivo e viver com sentido não são sinónimos.

Os que gastam a sua vida — tempo e energia — apenas a buscar meios de sobrevivência, não diferem muito dos restantes seres vivos deste planeta. Gazelas e leões, tigres e leopardos — todos os animais passam os seus dias a procurar sustento. Sobrevivem, não vivem.

O ser humano, porém, possui um dom singular: tem poder e controlo sobre a sua própria vida. Pode moldá-la, transformá-la num céu ou num inferno, conforme administra o tempo e os dons que lhe foram concedidos.

“Olhai, guardai-vos de toda a ganância, porque mesmo que um homem viva na abundância, a sua vida não depende dos seus bens.” (…) “Havia um homem rico, a quem as terras deram uma grande colheita. E pôs-se a discorrer, dizendo consigo: ‘(…) Tens muitos bens armazenados para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te’. Deus, porém, disse-lhe: ‘Insensato! Nesta mesma noite será reclamada a tua vida; e o que acumulaste, para quem será?’ Assim acontecerá ao que acumula para si, e não é rico em relação a Deus.”  Lucas 12, 16-17.20-21

Há quem acumule em vida bens que dariam para sustentar duas ou três vidas humanas. Mas acaso terá essas vidas? Acaso prolongará os seus dias por ter acumulado mais do que o necessário? Não. A vida não se resume a ganhar meios de vida.

A vida não é acumular, mas esvaziar-se. Não é centrar tudo em si, mas irradiar-se em amor. A vida não é força centrípeta — puxar tudo para dentro —, mas sim centrífuga: é partilha, é entrega, é doação. Por isso, paradoxalmente, a vida perde-se quando se retém e ganha-se quando se dá.

A tua vida não é acerca de ti — nasceste para uma missão
 “Pois também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos.” Marcos 10, 45

“Pois, quem é maior: o que está sentado à mesa, ou o que serve? Não é o que está sentado à mesa? Ora, Eu estou no meio de vós como aquele que serve.” Lucas 22, 27

Ninguém perguntou a Jesus qual era o objetivo da sua vida, mas se o tivessem feito, esta última teria sido a sua resposta.

A minha vida é um valor absoluto para os outros, mas relativo para mim; absoluto, para mim, é o propósito pelo qual vivo. A minha vida não gira em torno de mim. Se eu fosse o centro da minha própria existência, viver seria apenas sobreviver — manter as funções vitais. Mas viver é muito mais do que isso: é consagrar tempo e energia a uma causa maior.

A vida de Beethoven girou em torno da música; a de Picasso, da pintura; a de Einstein, da física; a de Mandela, da justiça e da igualdade. A vida de Jesus, Filho de Deus, girou em torno da salvação da Humanidade.

Ninguém é mais feliz do que aquele que se torna útil. E ninguém é mais útil do que aquele que ama — e amar, como dizia São Tomás de Aquino, é querer e buscar o bem do outro.

Os talentos, como os dons do Espírito Santo, servem tanto para a realização pessoal como para o bem da comunidade. E é precisamente ao ser útil aos outros que te descobres pleno em ti próprio. Quem é inútil para os outros, acaba por sê-lo também para si mesmo.

Talentos, as alfaias da vida
“A pior desgraça que vos pode acontecer, jovens, é não serdes úteis a ninguém e que as vossas vidas não sirvam para nada.” Raoul Follereau

Deus, arquiteto da nossa existência, traçou um projeto para cada um de nós. Ninguém vem ao mundo sem um propósito. Em diálogo com Deus na oração, atentos aos sinais dos tempos, devemos discernir o projeto divino que nos foi confiado — e para o qual recebemos talentos suficientes.

Em vez de invejarmos os talentos dos outros, como adolescentes que preenchem os seus quartos com ídolos e cartazes, voltemo-nos para nós próprios e descubramos os nossos dons. Há sempre algo escondido que talvez nunca tenhamos explorado…

Ter inveja dos talentos alheios é o mesmo que esconder os nossos e acusar Deus de parcialidade. Mas Deus não é injusto: a cada um dá o necessário para tornar a sua vida significativa e fecunda.

Quando olhamos por uma janela, podemos fixar o olhar na própria janela ou na paisagem que está para além dela — não nos é possível focar os dois ao mesmo tempo. Assim, quem se concentra nos talentos dos outros, desfoca os seus próprios, como se não existissem.

Nunca serás melhor do que aquele que tentas imitar. Mas em seres tu mesmo, ninguém te poderá superar. Por isso, não finjamos ser quem não somos nem jamais seremos.

Assim como “a ocasião faz o ladrão”, também os grandes desafios criam grandes homens — homens que se lançam, que arriscam, que ousam. Só experimentando o novo, e correndo riscos, podemos descobrir se estamos à altura da missão.

A Segunda Guerra Mundial criou Churchill, e o mesmo se aplica a todos os grandes da história.

“Quem não arrisca, não petisca”. Talento não usado é talento irremediavelmente perdido. Dons não descobertos nem cultivados afastam-nos do objetivo que Deus nos confiou — e, sem atingir esse objetivo, a vida torna-se fútil.

Aquilo que não tem utilidade é lixo. E o lixo é queimado. Eis o verdadeiro significado do inferno.

Conclusão - O objetivo da vida não é ser feliz, mas ser útil. Quem não encontra realização pessoal no serviço ao próximo é inútil — para a sociedade e para si mesmo. E, naturalmente, será infeliz.

Pe. Jorge Amaro, IMC

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