(…) Todo o povo se reuniu, como um só homem, na praça (…) Esdras leu o livro, desde a manhã até à tarde, (…) e todo o povo escutava com atenção a leitura do livro (e) chorava ao ouvir as palavras da Lei Neemias 8, 1, 3, 9
No mundo antigo e medieval, a identidade de um povo, a sua forma de ser e existir, o seu caráter, a sua língua, a sua cosmovisão e idiossincrasia eram defendidas e preservadas por muralhas e construídas por livros, epopeias, obras literárias. No mundo há ainda muitas cidades fortificadas, como Óbidos e Marvão, castelos e muralhas como a que divide a Inglaterra da Escócia, construída pelos Romanos; e a famosa muralha da China, com milhares de quilómetros, que parte a China em duas.
As muralhas também podem ser entendidas em sentido figurativo. Os ciganos não têm pátria nem língua própria, vivem disseminados em praticamente todos os países do mundo ocidental e, no entanto, não se misturam e são facilmente distinguidos pela forma de vestir, pelos seus usos, costumes e tradições.
O que verdadeiramente cria um povo é uma obra literária. É impensável o povo judeu sem a Torah, sem os livros da lei e os profetas. O que define e caracteriza o povo grego são a Ilíada e a Odisseia de Homero; o ex libris do povo italiano é a Divina Comédia de Dante Alighieri; o que define o caráter do povo espanhol é o Dom Quixote de la Mancha de Cervantes; a alma russa encontra-se em Dostoievski, no seu livro Os irmãos Karamazov.
A alma inglesa está representada por Shakespeare e, por fim, a alma portuguesa ou lusitana está nos Lusíadas de Camões. A alma da Colômbia ou de todo o povo latino-americano é representada em Cem Anos de Solidão por Gabriel García Márquez.
O dia de Portugal e das comunidades de língua portuguesa não é o dia do rei Dom Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal e o que teve o reinado mais longo da nossa história, 57 anos. O dia de Portugal é o dia de Camões, porque a nossa nacionalidade, mais que a golpe de espada nasceu a golpe de pena, da pena de Camões.
Para o rei Dom Afonso Henriques, Portugal eram as suas terras, os seus domínios. Foi Camões que criou a nacionalidade; que nos deu uma pré-história dos feitos dos lusitanos, que descreveu o nosso caráter e a nossa História no decorrer da grande epopeia da nossa nação à descoberta do caminho marítimo para a Índia. E foi fiel às raízes da nossa língua, escrevendo em verso, ao estilo das cantigas de amigo cantadas em galaico-português pelos trovadores do caminho de Santiago.
Se eu reunisse um grupo de emigrantes portugueses obrigados a viver em terra estrangeira pelas vicissitudes da vida e lhes recitasse: “As armas e os Barões assinalados que da ocidental praia lusitana, por mares nunca dantes navegados…” de certeza que chorariam ao serem tocados no mais profundo do seu ser, como choraram os judeus voltados do exílio da Babilónia ao ouvirem Esdras a recitar o livro da Lei do Senhor.
Onde está a nossa identidade, o que nos define como católicos? Deixamos de rezar o terço em família para antes vermos telenovelas; a família que reza unida permanece unida; a nossa taxa de divórcios é a mais alta em todo o mundo, ultrapassando os 70%.
Não vamos à missa aos domingos e desculpamo-nos com o refrão tantas vezes repetido “os que lá vão são os piores”; criamos o anacronismo de “católico não praticante”, como se um pianista pudesse ser pianista não praticante; ou um cientista o pudesse ser só de nome. Os únicos que se benzem são os futebolistas ao entrar e sair do campo.
O Mestre disse-nos que fossemos sal da terra, mas agora o que somos é terra; que fossemos a luz do mundo para que os homens vendo as nossas boas obras glorificassem a Deus, mas nós somos mundo, não luz; que fossemos o fermento da massa, mas é massa o que somos; café sem cafeína, tabaco sem nicotina, cerveja sem álcool, em suma, deslavados
Oxalá fossemos com os ciganos ou os Judeus, que ao possuírem uma identidade forte, conseguem sobreviver na cultura mais adversa.
Conclusão – Como os Lusíadas para Portugal, há obras literárias que resumem em si a idiossincrasia de um povo. Os livros criam uma identidade cultural, as muralhas defendem-na.
Pe. Jorge Amaro, IMC

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