“Mestre, diz-nos o teu parecer: É lícito ou não pagar o imposto a César?» Mas Jesus, conhecendo-lhes a malícia, retorquiu: «Porque me tentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do imposto.» Eles apresentaram-lhe um denário. Perguntou: «De quem é esta imagem e esta inscrição?» «De César» – responderam. Disse-lhes então: «Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” (Mateus 22, 17-21)
O dinheiro é de César, nós somos de Deus
Nos tempos de Jesus, aceitar pagar imposto a César era, para muitos judeus, quase um ato de apostasia, pois implicava reconhecer César, e não Deus, como Senhor. No entanto, Jesus, ao invés de tomar partido num conflito político, eleva a discussão e, ao mesmo tempo, dá uma lição intemporal.
Pede a moeda do tributo, que lhe é prontamente entregue. Era uma moeda romana com a imagem de César impressa. Foi então fácil para Jesus dizer: “Dai a César o que é de César”, pois a moeda pertence a quem a cunhou. Mas Ele não fica por aí. Acrescenta: “…e a Deus o que é de Deus.” Ou seja, tal como a moeda tem impressa a imagem de César, o ser humano tem impressa a imagem de Deus, porque foi criado à Sua imagem e semelhança. Portanto, o que é de Deus somos nós mesmos – a nossa vida, consciência, liberdade e amor.
Separação entre Igreja e Estado
Ao contrário de algumas outras grandes religiões, o cristianismo nunca impôs ao Estado nem à sociedade um direito revelado ou um ordenamento jurídico derivado da fé. Como afirmou Bento XVI, a Igreja sempre apelou à razão e à natureza como fontes verdadeiras do direito.
“Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” significa que há deveres distintos: para com Deus e para com o Estado. Se quisermos simplificar sem cair no simplismo, podemos dizer: o Estado governa o corpo, Deus governa a alma.
Quando Deus disse: “Crescei e multiplicai-vos e dominai a terra” (Génesis 1,22), concedeu ao homem autonomia e responsabilidade sobre a criação. Deus não delegou aos profetas nem ao Seu Filho a revelação de sistemas de governo ou técnicas de administração política. A revelação divina sempre nos orientou para o amor, a justiça, a paz e o entendimento entre os povos, bem como para a amizade com Deus.
Há, portanto, uma distinção legítima entre o temporal e o espiritual. Os governantes fazem leis, criam impostos, organizam a sociedade – e devem ser respeitados enquanto agirem de forma justa. A Igreja não prescreve as soluções técnicas ou políticas para os problemas da sociedade. O cristianismo, como frisou Bento XVI, nunca derivou leis civis do Evangelho. Não existe, no cristianismo, um equivalente à Sharia, o sistema legal muçulmano extraído diretamente do Alcorão e que rege a vida política, moral e social em certos países.
O direito romano, que influenciou fortemente os sistemas jurídicos ocidentais, inspirou-se na filosofia grega, não na revelação bíblica. A missão da Igreja é outra: iluminar a consciência dos homens, promovendo valores como a justiça, a paz, a caridade e o bem comum.
O chamado Cesaropapismo da Idade Média, bem como as suas reinterpretações em regimes fascistas europeus ou latino-americanos do século XX, nunca foram uma versão cristã da Sharia. Foram sim, trágicas misturas de interesses políticos e religiosos, em busca de poder absoluto, sem fidelidade ao Evangelho.
Reino de Deus e Reino dos Homens
Disse Jesus a Pilatos: «A minha realeza não é deste mundo; se a minha realeza fosse deste mundo, os meus guardas teriam lutado para que Eu não fosse entregue às autoridades judaicas; portanto, o meu reino não é de cá.» (João 18,36)
Jesus deixa claro que não veio estabelecer um poder político. Se o seu Reino fosse deste mundo, teria mobilizado exércitos. Mas não: o seu Reino é espiritual, e a sua força é o amor. Jesus não veio governar na Terra à maneira dos reis humanos, mas sim transformar os corações.
Durante a campanha do referendo sobre o aborto, alguns políticos disseram que a Igreja não se devia meter na política. É verdade que a Igreja não se deve intrometer na política partidária, nem no governo rotineiro da polis. Não deve recomendar partidos nem candidatos, pois nenhum representa na totalidade o Evangelho.
Mas a Igreja tem o dever de ser voz profética. Deve falar em nome dos pobres, dos oprimidos, dos excluídos – porque todos os sistemas políticos, mesmo os democráticos, acabam por gerar vítimas. A Igreja deve ser referência de justiça, de paz, de solidariedade. Tal como Jesus, deve denunciar o pecado e anunciar a verdade.
Ao rezar “Venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade, assim na Terra como no Céu”, o cristão deseja que o Reino de Deus se manifeste já neste mundo. Isso acontece sempre que alguém promove a justiça, a paz, o perdão e o amor.
Salomão: exemplo de um rei guiado por Deus
“Concede ao teu servo um coração dócil, para saber administrar a justiça ao teu povo e discernir o bem do mal” (1 Reis 3,9)
Salomão, na véspera da sua coroação, não pediu riquezas, vitórias sobre os inimigos nem longa vida – como fazem os políticos de todos os tempos. Pediu sabedoria e humildade. Salomão governava Israel, mas era Deus quem governava Salomão.
Deus e a política
O Reino de Deus não é um sistema rival do Reino dos Homens. Ele atua como fermento dentro da massa. Opera no interior da história, através dos homens e mulheres que fazem o bem, que lutam por um mundo mais justo e fraterno. E, como o Espírito sopra onde quer, os cidadãos do Reino de Deus não são apenas os cristãos, mas todos os homens de boa vontade.
Isaías (45,1.4-6) chama Ciro, rei da Pérsia, “ungido do Senhor”, embora este fosse pagão, porque realizou a vontade de Deus. Isso mostra que Deus pode inspirar quem Ele quiser – mesmo fora das fronteiras visíveis da fé.
Tudo pertence a Deus – inclusive César
Nos tempos antigos, o governo do povo de Israel antes dos reis estava baseado na ideia de que tudo pertence a Deus. De facto, Deus é o Criador de tudo. Mas isso não significa que deva reger diretamente os detalhes da política ou da economia de cada nação.
Porque é transcendente, Deus não se impõe nos particulares. Porque é imanente, age no interior de cada consciência. Ele inspira os legisladores e os governantes para que façam leis justas, que promovam a paz, a concórdia e o bem comum.
Deus não escreveu diretamente a Bíblia – inspirou os autores sagrados. Do mesmo modo, Deus não dita leis civis, mas sopra ao coração daqueles que têm responsabilidades, a fim de que sejam sábios, justos e honestos.
Conclusão - O dinheiro pertence a quem tem a sua imagem nele impressa. Pela mesma razão, nós pertencemos a Deus porque fomos criados à sua imagem e semelhança.
Pe. Jorge Amaro, IMC

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