1 de agosto de 2022

Fugitivos, Vagabundos, ou Peregrinos?

Deixar a vida pelo mundo em pedaços repartida…Camões

Coordenadas da vida humana
O ser humano é um ser espácio-temporal. Ocupa um espaço durante um tempo, pelo que, tal como acontece no universo e na natureza que nos rodeia e envolve, nada há de estático nem de permanente na vida humana. Não podemos instalar-nos no tempo nem no espaço: a vida implica movimento, é processo, é devir, é caminho, é mudança.

Pela forma como usamos e nos situamos no tempo ou nos relacionamos com ele, podemos ser fugitivos ou vagabundos; o evangelho, porém, exorta-nos a ser peregrinos.

A vida é larga, mas curta. Larga em possibilidades, em muitas e diversas formas de usar o nosso tempo, mas curta no tempo. Por isso, não há coisa pior que um passatempo, ou matar tempo, como se tivéssemos mais do desejado, o que não é verdade. Não há tempo para matar nem tempo para perder, pois o tempo é escasso.

Fugitivos, vagabundos ou peregrinos, têm em comum o não estarem apegados a pessoas, coisas ou lugares. Nunca estão quietos no mesmo sítio, facilmente se movem de lugar para lugar. Por isso, também têm em comum a forma como se instalam no tempo e como vivem o momento presente. Mas diferem na forma como se relacionam com os outros dois tempos da vida humana: o passado e o futuro.

O peregrino vive bem as três dimensões do tempo, enquanto que o fugitivo vive amarrado de pés e mãos ao passado e teme o futuro. O vagabundo, pessoa sem eira nem beira, não tem passado nem presente nem futuro, vive suspenso no tempo como cana agitada pelo vento.

O tempo humano é tridimensional: passado – presente – futuro
Os três tempos em que a vida decorre são interativos: nem o passado passou completamente nem o futuro está todo por chegar. Os dois estão presentes no presente e interagem com ele. Assim sendo, o presente nem sempre se refere ao presente, tanto pode referir-se ao passado como ao futuro. Assim como o passado e o futuro visitam o presente, o presente também pode deslocar-se ao futuro e ao passado. O presente em si é o que está a ocorrer, mas quando pensamos no que está a ocorrer, já é passado.

O passado passou, mas nunca passa; o futuro chega, mas nunca chega, desloca-se para a frente como a cenoura à frente do nariz do burro. Enquanto existirmos, os três existem connosco e só deixamos de ter presente e passado quando deixamos de ter futuro, ou seja, quando morremos. Como vivem os três juntos, também morrem os três juntos, com poucos segundos de diferença. Morremos da frente para trás: primeiro morre o futuro, depois o presente e só depois o passado.  

Somos uma flecha que alguém disparou no passado. Segundo as circunstâncias da vida, nós mesmos podemos ter algum controlo sobre a direção que a flecha toma, mas sabemos que “Todos os caminhos vão dar a Roma”, que o destino é comum, que a morte é certa e incerta. Certa, porque é a única coisa que sabemos com certeza do nosso futuro, como diz Heidegger, somos um ser para a morte. Incerta porque não sabemos onde nem quando nem de que forma morreremos e julgo que ninguém estará interessado em saber.

No caso de haver vida eterna, como acreditamos enquanto cristãos, então morre o futuro e o passado também, porque deixam de ser interativos no presente. A vida feita do tempo a correr deixa de ser uma realidade. O que fomos, somos. O que hoje somos assume tanto o bem como o mal que contribuíram para o que hoje somos. Os acontecimentos do passado são os andaimes da construção do edifício. Quando acaba a construção, com a nossa morte, os andaimes já não são precisos: o que chegamos a ser é agora o que seremos para sempre na eternidade.

Pertence também à categoria de andaime o nosso corpo físico, pois por ele e com ele construímos o nosso ser, o nosso corpo espiritual e, quando este está construído, cessa o tempo na sua dimensão de futuro e passado e mantém-se na sua dimensão de presente, um eterno presente em Deus e com Deus.

Viver é deixar
Os que falam inglês como primeira língua diferenciam muito bem estes dois verbos ao pronunciá-los; os estrangeiros, porém, têm a tendência a pronunciá-los da mesma forma. Apesar de serem completamente diferentes no significado, “to live” significa viver e “to leave” significa deixar. O facto de os pronunciar da mesma forma, levou-me a descobrir uma relação intrínseca entre eles.

Viver significa e implica deixar, largar o lugar onde estamos e partir para outro. O peregrinar está impresso em nós já a nível celular e cromossomático. Os tubos dos testículos onde se formam os espermatozoides, todos ligados num só, estender-se-iam por mais de 70 cm.

O espermatozoide X ou Y que nos deu a vida, viajou por estes tubos e, ao ser ejaculado, viajou ainda pelo sistema reprodutivo da nossa mãe até chegar à sua outra metade com a qual se uniu nas trompas de Falópio e formou um novo ser. Ali se deu a conceção; mas 4 dias depois, o novo ser teve de abandonar esse lugar para poder viver e viajar até ao útero onde se aninhou por nove meses até completar o seu crescimento.

Ao nascer, o bebé deixa o seio da sua mãe e passa para o seio de uma família que o ama incondicionalmente e que, como tal, se torna num segundo seio materno até que chega o dia em que tem de ir para a escola onde já não é amado incondicionalmente. É duro o primeiro dia de escola. Eu recordo que ficava com o olhar fixo na minha mãe, à medida que me ia afastando da casa até dobrar a esquina ao fundo da rua.

Quando a escola primária se torna familiar, é tempo de a abandonar para ir para a secundária; para mim foi o seminário. Para o primeiro dia, o meu pai levou-me, mas quando se veio embora, o mundo desabou para mim… e chorei amargamente…. Um dia deixa-se a família para constituir outra família; deixa-se a terra para buscar emprego noutro lugar.

Os imigrantes deixam a sua terra para buscar um futuro melhor para si e para os seus. Deixar o princípio do prazer pelo o princípio da realidade; deixar pai e mãe para se unir à sua esposa; deixar tudo para seguir o mestre. Quem não deixa, como o jovem rico, não encontra a vida.

No tempo somos fugitivos, vagabundos ou peregrinos
Como seres temporais, a nossa vida ocorre dentro das três dimensões do tempo: o passado, o presente e o futuro. Dependendo da idade, as pessoas tendem a privilegiar uma dimensão em detrimento das outras duas.

As crianças e os jovens - Colocando de lado o passado, vivem o presente como preparação de um futuro com o qual sonham e no qual se projetam. Porque o futuro pode nunca chegar, cada dia deve valer por si mesmo, não desligado do futuro, é certo, mas também não vivido inteiramente em função dele. Viver o presente na caridade.

Os idosos – Quando objetivamente já não há muito que esperar, vivem de memórias. A lembrança da felicidade passada não dá felicidade mas sim tristeza. É certo que a vida se entende para trás, mas vive-se para a frente. Mesmo na terceira idade, a esperança cristã nos diz que o melhor está sempre para vi, por isso o que pode fazer-se deve fazer-se. Viver o futuro não na ansiedade, mas na esperança.

Os adultos – Vivem instalados no presente, não querem saber do passado nem do futuro. De facto, vivem como se nunca tivessem que morrer. Tudo fazem para deter o tempo e os estragos que este faz à vida: operações plásticas para manter a aparência jovem quando já não se é jovem,  desporto, dietas, cuidados com a saúde, demasiado concentrados em si mesmos. Devemos integrar o passado e o futuro nas nossas vidas de maneira a viver o presente em caridade e não olhando para o espelho ou para o nosso umbigo.

O fugitivo
O SENHOR replicou: «Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até mim. De futuro, serás amaldiçoado pela terra, que, por causa de ti, abriu a boca para beber o sangue do teu irmão. Quando a cultivares, não voltará a dar-te os seus frutos. Serás vagabundo e fugitivo sobre a terra.» Génesis 4, 10-12

Deus disse a Caim “porque mataste o teu irmão, serás fugitivo sobre a terra”. O fugitivo é perseguido pelos remorsos de algo que fez no passado. Fugido da polícia, não tem presente nem futuro. What goes around comes around ou cá se fazem, cá se pagam… Caim é fugitivo porque foge de um passado que o persegue no presente. O seu caminhar é determinado pelos seus perseguidores, não por ele mesmo; por isso não tem presente nem tem futuro. Ficou entalado por algo que fez no passado e que se faz omnipresente em forma de remorsos, de tal forma que lhe nega a vida.

Hunted by his past (assombrado pelo seu passado) é uma expressão inglesa que denota bem as circunstâncias em que vive o fugitivo. Como presa de caça, vive a vida temendo ser caçado. Os assuntos que não ficaram resolvidos no passado perseguem-no no presente. Águas passadas não movem moinhos, mas muita gente, contradizendo esta lei da natureza, tem os seus moinhos, as suas cabeças a moer com águas passadas, porque não pediram desculpa nem perdoaram, ou porque foram traumatizados ou abusados e reprimem ou fingem que nada aconteceu.

“Já perdoaste aos nazis tudo o que nos fizeram quando éramos prisioneiros em Auschwitz”?  perguntou um ex-prisioneiro ao seu amigo, depois de muitos anos sem se verem. “Eu?” respondeu o amigo “nem perdoei nem nunca perdoarei a esses sacanas! “Ah sim?” respondeu o primeiro, “então ainda lá estás, em Auschwitz.”

O que não perdoa vive no passado, busca fugir desse passado que o persegue sempre e que determina negativamente o seu presente. A si mesmo se ilude, pensando que o passado ficou no passado, a verdade é que o que conhecemos e assumimos do nosso passado é redimido e, como tal, podemos controlar. O que desconhecemos e não assumimos ou perdoamos do nosso passado, precisamente porque está reprimido e fora da nossa consciência do dia a dia, controla-nos a nós, irrompendo no nosso presente de mil e uma maneiras. Ao projetar os fantasmas do passado no presente, podemos pensar que estamos a lutar contra os nossos inimigos, quando objetivamente estamos a lutar contra moinhos de vento, como o Dom Quixote de la Mancha.

Quem não deve não teme; o fugitivo deve, por isso teme, desconfia de tudo, de todos e de si mesmo, vive ancorado no passado que o traumatizou e reproduz continuamente no presente esse passado, vive numa prisão. O que foi abusado será um abusador, a questão é abusar sem ser apanhado; os ladrões só se consideram como tal se forem apanhados. Quem tem esqueletos no armário nunca vive seguro.

O vagabundo
O vagabundo no tempo corresponde ao turista no espaço. Vimos do nada, vamos para o nada; a vida não tem sentido assim, pelo que o agnóstico e o ateu são fundamentalmente vagabundos. Nos dias de hoje, há sem-abrigo que o são por opção, filósofos que querem essa vida, não se comprometendo com nada nem com ninguém, nem sequer com a própria sobrevivência.

Carpe diem passou a ser o lema de muita gente depois do filme “O clube dos poetas mortos”. O vagabundo vive instalado no presente, mas não no presente consciente e omnisciente das filosofias orientais, mas sim num presente consumista, hedonista e inconsciente: morra Marta, morra farta. Sem lhe importar o passado que já foi e o futuro que ainda não é e pode não vir a ser, o vagabundo caminha no círculo vicioso de um eterno retorno. “Para quem não sabe para onde há de ir, não há ventos favoráveis.”

Não prometo para não falhar, ouvimos tantas vezes. O vagabundo não promete nada a ninguém nem se compromete com nada nem com ninguém, porque isso significaria contar com o futuro. Mas o vagabundo não conhece a palavra futuro; vive no momento e para o momento. Em relação ao passado e ao futuro tem a atitude da avestruz, coloca a cabeça debaixo da areia, reprime, nega a sua existência, prefere não pensar e por isso abstrai-se, usando a diversão ou o trabalho como droga para não pensar nem se confrontar consigo mesmo.

Não tem passado nem futuro, vive instalado no mundo como se fosse de cá. Vive como se nunca tivesse de morrer e morre como se nunca tivesse vivido (Dalai Lama). Com uma taxa de divórcio em Portugal superior a 70%, ninguém quer comprometer-se; o compromisso é visto com um hipotecar do futuro, como limitador da minha liberdade.

Os jovens querem ter as suas opções em aberto e por isso vivem instalados na rotunda ou no cruzamento da vida. Como nunca tomam rumo, são como o hamster que roda sem cessar nunca chegando a lado nenhum. Porque escolher uma rota significa dizer não a todas as outras. Mas se passas a vida sem te comprometeres com nada nem com ninguém, és como um carro que tem o motor ligado mas não vai a lado nenhum.

Viver é caminhar para algum lado, não em círculos; é estar sempre a sair do Egito atravessando o deserto, na esperança de entrar na Terra Prometida. Para isso, precisamos de um guia; mas os vagabundos, como não vão a lado nenhum, não precisam de guia, não aceitam conselhos de ninguém. Para quem não sabe para onde ir, não há ventos favoráveis.

O peregrino
Felizes os que em Vós encontram a sua força, os que trazem no coração os caminhos do santuário.Ao atravessar o vale seco, transformam-no em oásis, que logo as primeiras chuvas cobrirão de bênçãos. Vão caminhando com entusiasmo crescente, até verem Deus em Sião. Salmo 84, 6-8

Na pré-história da nossa fé há inúmeras peregrinações: Abraão, arameu errante que só possuiu uma sepultura que comprou para a sua mulher; da sua cidade na Mesopotâmia até Canaã, o povo hebreu do Egipto, terra da escravidão para a terra prometida da liberdade e prosperidade, as idas a Jerusalém pela Páscoa.

Depois de Cristo, as peregrinações dos cristãos à Terra Santa, a Roma e a Santiago de Compostela; na tradição ortodoxa, o Peregrino Russo; já nos nossos tempos, as peregrinações a Guadalupe, no México, a Lurdes, em França, a Fátima, em Portugal, a Chestocova, na Polónia; a peregrinação é uma prática cristã muito importante porque, de alguma forma, é uma parábola da vida. Viver é peregrinar, o cristão deve comportar-se com o mundo à sua volta e com os seus semelhantes como peregrinos.

A peregrinação é uma metáfora ou parábola de como deve ser vivida a vida humana. Abraão, o nosso Pai na fé, era um arameu errante; o povo hebreu, ao sair do Egipto, atravessar o deserto em direção à Terra Prometida onde corriam leite e mel, estabeleceu o paradigma da vida humana.
•    Karl Marx – capitalismo, ditadura do proletariado, sociedade sem classes
•    Mandela – Apartheid, 30 e tal anos de cadeia, presidente de uma sociedade em igualdade
•    Vício – limpeza, síndrome de abstinência – liberdade

Contrariamente ao fugitivo, o peregrino vive reconciliado com o seu passado, por isso não depende dele; contrariamente ao vagabundo, tem uma meta, um objetivo que pretende atingir, por isso vive com intensidade o momento presente, sabendo sempre quem é, de onde vem e para onde vai, nunca está desnorteado nem desorientado, pois a sua vida é regulada como se tivesse um GPS.

O homem bíblico - Na língua hebraica a palavra “Nikud” significa, ao mesmo tempo, futuro e costas; por outro lado, a palavra “quedem” tanto quer dizer passado como oriente. Assim sendo, podemos concluir que o homem bíblico tem o passado à sua frente e o futuro nas suas costas, ou seja, caminha com o peito e a cara voltada para o passado, de costas para o futuro.

De olhos no passado porque é lá que estão as nossas raízes, o nosso ser, a nossa identidade, vivemos caminhando para o futuro, mas entendemos a nossa vida olhando para o passado e pelo passado nos orientamos para o futuro. Do futuro, pouco ou nada sabemos, por isso caminhamos de costas, ou seja, às cegas; a única coisa que temos como certa no nosso futuro é a morte, mas mesmo assim, não sabemos como nem quando nem onde ocorrerá. Para o peregrino recordar não é viver; por isso olha para o passado não para o reviver, mas para se orientar usando no presente o que aprendeu das experiencias do passado para encontrar o melhor caminho para o futuro

Não há mal que sempre dure nem bem que sempre ature – Sabe que a vida é feita de altos e baixos, como a linha de um eletroencefalograma ou eletrocardiograma, sabe que no caminho para Deus pode encontrar céu e inferno, mas também sabe que tudo é passageiro, pelo que, quando está nos pícaros da vida não perde a cabeça e, quando está deprimido, não perde a esperança. Em todo o momento, em todo lugar, vive sob a proteção do Senhor, por isso é constante, paciente e fiel.

Conclusão - O Peregrino não é como o fugitivo porque, não tem remorsos, não está atado ao seu passado. Também não é como o vagabundo, porque vive comprometido no presente entregando-se a uma causa e a pessoas concretas com a mesma intensidade, como se fosse o seu último dia.

Ao contraio do Fugitivo, atado a um passado do qual foge, ou do vagabundo que, descomprometido com o presente, vive sem futuro, o Peregrino orgulha-se do seu passado, caminha para o futuro com esperança e enche o seu presente com obras de caridade.

Pe. Jorge Amaro, IMC



2 comentários: