1 de outubro de 2020

3 Bens essenciais: Saúde - Dinheiro - Amor


Tres cosas hay en la vida
Salud, dinero y amor
Y el que tenga estas tres cosas
Que le dé gracias a Dios

Gigliola Cinquetti

Saúde, dinheiro e amor
Por esta ordem, são bens essenciais para a vida humana. Os dois primeiros mantêm-nos vivos, o terceiro é o que dá valor e sentido à nossa vida. É certo que os dois primeiros são os menos importantes para a vida humana e poderíamos dizer que, de alguma forma, os temos em comum com os animais. Porém, para viver humanamente e com sentido, é condição sine qua non estar vivo. Como diz o provérbio, vale mais um burro vivo que um sábio morto.

Fome – peste - guerra
Se a felicidade e o bem-estar são uma tríade composta por saúde – dinheiro – amor, a infelicidade o mal-estar é composta pela tríade contaria a esta: fome – peste – guerra. A fome é a falta de dinheiro de recursos para manter a vida física para sustentar a vida; a peste é a falta de saúde a grande escala como foi a peste negar na Idade Media, como é o vírus do sida nos nossos tempos, o vírus do Ébola, o Sars e o Corona; a guerra é a falta de amor é o atuar do ódio a grande escala

SAÚDE
Jesus não veio ao mundo só para salvar o homem, no sentido de lhe abrir as portas do paraíso da vida eterna. Jesus preocupou-se na sua vida terrena pelo homem por inteiro e grande parte do seu ministério passou-o curando enfermidades graves e menos graves. Por isso, quando dizemos que Jesus é a nossa salvação, não deveríamos só pensar na salvação eterna, mas também na salvação terrena. De facto, salus em latim, mais que salvação, significa saúde. Jesus é a nossa saúde, o nosso bem-estar, a nossa felicidade.

No ocidente industrializado, 70% das mortes ocorrem por enfarte, acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e cancro. Estas três doenças têm praticamente as mesmas causas: predisposição genética, o ar que respiramos, o que comemos, o que bebemos e o estilo de vida que levamos (ativo ou sedentário).

O cancro é a segunda causa de morte no mundo ocidental, depois dos acidentes e doenças cardiovasculares. Não há nada de misterioso nas doenças cardiovasculares; sabemos praticamente tudo acerca delas, pelo que exercemos um certo controlo sobre elas. Sabemos mais ou menos o que fazer para as evitar e para as curar.

O cancro é radicalmente diferente e complexo; não se confina a uma parte do nosso corpo, pode desenvolver-se em qualquer órgão – estômago, intestino, rins, pulmões, pâncreas, próstata, ovários, útero, etc. - ou tecido - ossos e pele - ou nos fluidos do corpo - sangue e glândulas. Depois de longos anos de pesquisa e acumulação de conhecimentos sobre esta doença, o que sabemos ainda é pouco ou, pelo menos não é o suficiente para a curar ou para a evitar.

Não há no mundo ocidental quem não viva de alguma forma assombrado pelo cancro, pois ninguém está livre dele. Não ter antecedentes na família e levar um estilo de vida saudável é uma grande ajuda, mas não é uma garantia 100% infalível de que a doença não nos visitará.

Saúde física
Colocando de lado as determinações genéticas herdadas, a saúde física é em grande medida da nossa responsabilidade. Na juventude tomamo-la como certa e o nosso corpo até aguenta uns quantos abusos; à medida que a idade avança, os abusos são cada vez menos tolerados. Só tem saúde quem faz por ela. Como alguém diz, Deus perdoa sempre, os seres humanos algumas vezes perdoam outras não, a natureza não perdoa nem esquece e, tarde ou cedo, pagamos o que fazemos contra ela: é o efeito bumerangue.

Alimentação
In medio virtus – é o princípio a observar na alimentação, ter uma alimentação equilibrada; uma vez que são muitos os nutrientes de que necessitamos e não há um alimento específico que os tenha todos, devemos comer um pouco de tudo. Não somos o que consumimos, como se diz, mas muito do que somos vem do que consumimos. Uma alimentação equilibrada tem que conter o seguinte, por esta ordem: água, carboidratos, proteínas, gorduras, vitaminas, fibras e sais minerais.

Devemos comer menos do que o nosso apetite sugere, não comer até nos sentirmos saciados ou com o estômago cheio; deveríamos levantar-nos da mesa ainda com algum apetite. Quem come até à saciedade aumenta de peso e o excesso de peso/obesidade constitui, por si só, um problema com consequências nefastas para a saúde em geral.

As refeições devem ser espaçadas para dar repouso ao estômago com períodos de jejum. Tem sentido o ditado que diz, “pequeno almoço de rei, almoço de príncipe e jantar de mendigo”. A sociedade moderna faz precisamente o contrário: muitos partem para o trabalho sem pequeno almoço porque ainda não digeriram nem assimilaram a farta ceia ou jantar. A pessoa que não toma o pequeno-almoço tem baixo nível de açúcar no sangue. Isto gera uma quantidade insuficiente de nutrientes para o cérebro, causando a sua degeneração gradual.

Beber um copo de água tépida, com ou sem limão, meia hora antes de tomar o pequeno almoço é altamente aconselhável para purificar os rins, pois a primeira urina da manhã é altamente concentrada em tóxicos. Durante o dia, fora das refeições, deve beber-se até um litro e meio de água, pois tudo no nosso organismo funciona com ela, nela e por ela.

O pequeno almoço ou o almoço devem ser as refeições mais importantes do dia. O pequeno almoço deve ser composto por cereais para fornecer energia para o resto dia. Estes cereais devem ser tão integrais quanto possível por duas razões: primeiro, porque a casca contém muitos nutrientes e, sem esta, só fica o amido; por outro lado, se o cereal for refinado, a assimilação deste pelo sangue será mais rápida, aumentando exponencialmente o nível de açúcar no sangue. Se o cereal for integral, a assimilação dos hidratos de carbono é mais lenta, mais paulatina, fornecendo energia para o resto do dia.

A fruta deve ser comida fora das refeições, pois é digerida e assimilada no intestino delgado. Se for comida depois das refeições, é desaproveitada e dificulta a digestão.  Se possível, elimine a carne, sobretudo os enchidos e carne vermelha. De preferência, deve consumir-se carne magra por conter menos colesterol e carne velha, já que contém menos purinas e acido úrico. O peixe deve ser gordo, pois contém HDL, e jovem, pois contém menos mercúrio, sendo preferível peixe de cardume.

Sono
Dormir permite ao cérebro descansar e arquivar os seus assuntos. A falta de sono por períodos prolongados acelera a perda de células do cérebro. No entanto, o sono não é só essencial para o cérebro, também o é para o resto do corpo.

21h00 – 23h00 - É o horário em que o corpo realiza atividades de eliminação de químicos desnecessários e tóxicos (desintoxicação) mediante o sistema linfático do nosso corpo. Neste horário do dia, devemos estar num estado de relaxamento, escutando música, por exemplo.

23h00 – 01h00 - O corpo realiza o processo de desintoxicação da vesícula biliar, que idealmente deve acontecer num estado de sono profundo.

00h00 – 04h00 - É o horário em que a medula óssea produz sangue.

01h00 – 03h00 - Durante as primeiras horas da manhã, acontece o processo de desintoxicação do fígado, idealmente num estado de sono profundo.

03h00 – 05h00 - De madrugada, ocorre a desintoxicação dos pulmões. É por isso que por vezes neste horário se produzem fortes acessos de tosse. Quando o processo de desintoxicação atinge o trato respiratório é melhor não tomar medicamentos para a tosse já que interferem no processo de eliminação de toxinas.

05h00 – 07h00 - Desintoxicação do cólon. É o horário de ir à casa-de-banho para esvaziar o intestino.

Dormir tarde e despertar tarde interromperá o processo de desintoxicação de químicos desnecessários ao organismo.

Exercício físico
A vida sedentária é a mãe de todas as doenças, e o exercício moderado não profissional é das poucas coisas que não tem efeitos secundários, que é bom para tudo. O músculo que mais necessita de ser exercitado é o coração; para isso, o melhor exercício é a corrida; quem não pode correr por alguma complicação nas pernas ou joelhos, pode substituí-la por natação ou bicicleta. Os benefícios do exercício regular moderado são os seguintes:

•    Ajuda a diminuir e controlar o peso.
•    Diminui o risco de doenças no coração, tensão alta, osteoporose, diabetes e obesidade.
•    Melhora os níveis de colesterol sanguíneo.
•    Aumenta as taxas colesterol (HDL), diminuindo as taxas do colesterol (LDL) e triglicéridos.
•    Aumenta a resistência muscular.
•    Tendões e ligamentos ficam mais flexíveis.
•    Traz bem-estar mental e ajuda a tratar a depressão.
•    Alivia o stress e a ansiedade e combate a insónia.
•    Ajuda a produzir serotonina, – a hormona do bem-estar.

Saúde psíquica e emocional
As doenças transmissíveis transmitem-se por contacto ou contágio. O nosso corpo e o nosso psiquismo estão intimamente ligados; por isso, é impensável que um esteja doente sem o outro não ficar doente também. Hoje sabemos, mais que nunca, que muitas doenças que começam no foro físico acabam por afetar o psíquico e vice-versa.

Transcrevo aqui uma informação que encontrei num centro de saúde; não sei até que ponto é tudo verdade, mas assenta no princípio de que o lado psíquico influencia o lado físico.

A constipação ocorre quando o corpo não chora.
A garganta entope-se quando não é possível comunicar as aflições.
O estômago arde quando a raiva não encontra expressão, não consegue sair.
A diabetes invade quando a solidão dói.
O corpo engorda quando a insatisfação emocional aperta.
A dor de cabeça deprime quando as dúvidas aumentam.
O coração desiste quando o sentido da vida parece terminar.
A alergia aparece quando o perfeccionismo se torna intolerável.
As unhas quebram quando as defesas estão ameaçadas.
O peito aperta quando o orgulho escraviza.
O coração enfarta perante a ingratidão.
A tensão sobe quando o medo aprisiona, e a ira se internaliza.
As neuroses paralisam quando a “criança interna" tiraniza.

A plantação ou sementeira é livre, mas a colheita é obrigatória, no sentido de que quem semeia ventos obrigatoriamente vai colher tempestades. Portanto, a nossa saúde depende, em grande medida, de nós.

Se é certo que a nossa psicologia afeta o corpo, o oposto também é verdade: o nosso físico afeta a nossa psicologia. Um exemplo disto é o facto de a nossa postura corporal poder estimular a produção de testosterona, hormona tão importante para a manutenção da saúde geral. Com a idade, a produção desta hormona diminui exponencialmente, complicando a saúde em geral, sobretudo no homem.

A produção desta hormona pode aumentar em 20% se assumirmos posições de poder físico: abrir e esticar os braços e as pernas, usar mais espaço, e manter uma destas posições por dois minutos. Ao mesmo tempo, o cortisol diminui em 25%.

DINHEIRO
- Rabino, que pensas acerca do dinheiro? – perguntou o discípulo a seu mestre.
- Olha pela janela, - disse o mestre - O que vês?
- Vejo uma mulher com uma criança, uma carroça puxada por dois cavalos e um homem que está a ir para o mercado.
- Bom. Agora olha para este espelho; que vês?
- O que quer que eu veja, mestre? Vejo-me a mim mesmo, obviamente.
- Considera então: a janela é feita de vidro, o espelho também. Um fino revestimento de prata atrás do vidro é suficiente para fazer com que um homem só se veja a si mesmo.


Quando a prata (dinheiro, bens materiais) se interpõe entre nós e os outros, deixamos de ver os outros e apenas nos vemos a nós. É certo que todas as atividades humanas envolvem dinheiro. Por isso, o dinheiro em si mesmo é importante, considerando que temos um corpo para alimentar e vestir. Regra geral, o dinheiro é essencial para manter a vida do corpo, ou seja, para nos manter vivos; o resto, o dinheiro não dá.

Nos tempos medievais, quando um novo aluno era entrevistado para ser admitido na velha universidade de Salamanca, eram-lhe colocadas várias perguntas, se gozava de boa saúde, se era de boas famílias, etc. A quinta destas perguntas era em latim, “Habeas pecunia?”, ou seja, “tens dinheiro?”  Daí nasceu a expressão em espanhol “estou na quinta pergunta”, ou seja, não tenho dinheiro e, sem isso, não posso estudar.

A bolsa ou a vida?
“A bolsa ou a vida” é o dilema com o qual nos confronta um ladrão. Os sensatos cedem a bolsa e retêm a vida; os néscios, por defenderem a bolsa, perdem a vida. Isto não acontece só a nível do roubo, mas também a nível existencial. A riqueza é um meio de vida, não um fim em si mesma; os que usam as riquezas para a vida são sensatos; os que sacrificam ou usam a vida para obter mais riquezas ou meios de vida são néscios. “Não é por muito madrugar que amanhece mais cedo”, não é por ter mais meios de vida que se adquire mais vida, ou seja, que se vive mais tempo e se é mais feliz.

“Poupar num ano para gastar num dia”
É uma expressão que ouvi muitas vezes ao meu pai. Ele trabalhava arduamente e, tanto ele como a minha mãe, poupavam. No entanto, quando aparecia uma ocasião em que era preciso gastar, como por exemplo, uma boda, não ficava agarrado ao dinheiro como muitos poupadores, mas gastava o que tivesse que gastar.

Esta é, no meu entender, a melhor relação que se pode estabelecer com o dinheiro, mantendo-o como servo, como algo útil para muitas coisas. No entanto, quando se poupa no momento em que devia gastar-se, elevamos o dinheiro à categoria de Senhor; o dinheiro começa a ter valor por si mesmo e poder sobre ti.

Quem ama as riquezas não possui, é possuído
Que o espírito de Deus esteja contigo para que possas ver que todas as coisas são boas, mas ai de ti se amares as criaturas, abandonando o Criador!... Francisco Benzoni

Se as vossas riquezas crescerem, não lhes entregueis o coração
. Salmo 62, 11
Porque, onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração. Lucas 12, 34

As coisas foram feitas para ser usadas e não amadas. Por outro lado, as pessoas foram feitas para ser amadas. Como não podemos servir a dois senhores, se transferimos o nosso amor para as riquezas, vemos os outros como rivais e não conseguimos amá-los; em vez disso, mas procuramos usá-los para nos tornarmos mais ricos.

Infelizmente o jovem rico, do evangelho de S. Mateus (19:16-23), decidiu ficar com as riquezas quando Jesus o confrontou e lhe deu a escolher entre riqueza material e riqueza espiritual. Diz o evangelho que ele ficou triste diante da sua própria opção; as riquezas podem dar prazer, mas não dão alegria e o prazer é quase sempre seguido pela tristeza.

O jovem rico recusou seguir o mestre porque, perante a perspetiva de perder as riquezas, a sua falsa segurança paralisou-o. Seguir o mestre foi o que o moveu a ir ter com Jesus, ele queria seguir o mestre, mas não podia. O que o impedia não era possuir muitas riquezas, mas ser possuído por elas. Não era livre, não era dono de si mesmo nem era senhor do seu destino. O que aconteceu ao jovem rico, e acontece a todos os que entregam o seu coração às riquezas, é que ele vendeu a alma ao diabo.

Onde estiver o teu tesouro, aí estará o teu coração, adverte o evangelho. Por isso, quando entregamos o coração às riquezas, vendemos a alma ao diabo; a partir desse momento, só possuímos do ponto de vista contabilístico, porque do ponto de vista psicológico e espiritual, somos nós os possuídos, como se fossemos possuídos pelo diabo.

Se os objetos de amor são bens materiais, então uma estranha simbiose acontece entre a pessoa e os bens materiais que ama. Define-se simbiose como uma relação de mútuo benefício e dependência entre dois seres vivos. Há uma troca ou partilha entre os dois: os bens materiais partilham a sua matéria, pelo qual a pessoa que os ama materializa-se; a pessoa partilha o seu espírito, através do qual os bens materiais se espiritualizam. O sujeito que antes dizia que possuía, passa a ser possuído. Não era o jovem rico que possuía os bens materiais, eram os bens materiais que possuíam o jovem rico.

O dinheiro é um bom escravo, mas um malévolo Senhor. Por isso, aquele que é seduzido pela riqueza, perde a sua liberdade. Na realidade, é a riqueza que passa a "comandar" a sua vida e não ele mesmo. Quando o único objetivo da vida é possuir, e o possuir só serve para manter as funções vitais, a pessoa vive para se manter viva, ou seja, vegeta.

Do ponto de vista material ou prático, económico ou financeiro, eu possuo as riquezas; do ponto de vista psicológico ou espiritual, elas possuem-me a mim. Ao amar as coisas, o homem perde a liberdade, materializa-se. Como o seu coração não foi feito para amar coisas, mas sim pessoas e a Deus, ao amar as coisas, transforma-se num poço sem fundo e nunca tem o suficiente. Consequentemente, mais tarde ou mais cedo vai indispor-se com os outros, já que tem tendência a acumular muito mais do que o pão nosso de cada dia. Aquilo que acumula em excesso, começa a faltar aos outros que vêem nisso uma injustiça; rapidamente a situação degenera em violência.

O dinheiro não compra o essencial para a vida
A verdade é que o dinheiro, longe de comprar tudo, não compra sequer as coisas mais importantes, as de que realmente precisamos na vida. É por isso que não é difícil encontrar pessoas deprimidas e infelizes entre os ricos, e pessoas felizes e realizadas entre os pobres.

O dinheiro pode comprar uma cama, mas não compra o sono; pode comprar comida, mas não o apetite; pode comprar livros, mas não a inteligência; pode comprar luxo, mas não beleza; pode comprar uma casa, mas não um lar; medicamentos, mas não a saúde; reuniões sociais, mas não amor; brincadeira ou diversão, mas não felicidade; um crucifixo, mas não a fé; um lugar luxuoso no cemitério, mas não no céu.

Não há nada mais valioso do que a vida e a vida é um dom de Deus; o amor, que é o princípio da vida, é livre e não pode ser vendido nem comprado. Em essência, só se compram os meios materiais, essenciais para estarmos vivos; a vida não, se compra não se vende nem se possui.

Só Deus possui
(…) guardai-vos de toda a ganância, porque, mesmo que um homem viva na abundância, a sua vida não depende dos seus bens.» Lucas 12, 13

Nus saímos do seio da nossa mãe e nus voltamos ao seio de Deus, de onde também a nossa mãe saiu. Não somos proprietários de coisa nenhuma, pois não podemos possuir nada indefinidamente; nem a nossa própria vida possuímos indefinidamente.

“Quero uma noite neste refúgio de caravanas,” disse um peregrino. Como te atreves a chamar refúgio de caravanas ao meu sumptuoso palácio?” disse o Rei. “E de quem era o palácio antes de ser teu?” perguntou o peregrino, “Era do meu pai.” E antes de ser do teu pai de quem era?” continuou o peregrino. “Do meu avô,” disse o rei. “Então,” concluiu o peregrino, “um edifício que passa de mão em mão o que é, se não refúgio de caravanas?”


Trabalhar por dinheiro é ser escravo
Ora constou-nos que alguns vivem no meio de vós desordenadamente, não se ocupando de nada, mas vagueando preocupados. A estes tais ordenamos e exortamos no Senhor Jesus Cristo a que ganhem o pão que comem, com um trabalho tranquilo. 2 Tessalonicenses 3, 11-12

É certo que devemos trabalhar pelo nosso sustento, mas se a única razão do nosso trabalho for ganhar dinheiro para nos sustentarmos, não seremos superiores ao burro que também trabalha para poder comer, ou ao escravo de antigamente que também trabalhava de sol a sol para ter o alimento assegurado.

É certo que precisamos do salário, mas a razão principal da nossa atividade laboral não deveria ser o dinheiro, mas sim a satisfação por criar coisas novas. O nosso trabalho é uma escravidão se for feito só para ganhar dinheiro, e uma arte, se gostarmos do que fazemos. Por isso, todo o passatempo é um trabalho e todo o trabalho deveria ser um passatempo.

Um médico, um professor que exerçam a sua profissão por dinheiro, nunca serão bons profissionais, e certamente ninguém quer ter um amante do dinheiro por médico ou por professor. O que na vida fazemos melhor é o que fazemos por amor: esta deve ser a motivação primeira da nossa atividade, não o dinheiro nem o dever, mas o amor.

Isto não se aplica apenas ao médico ou ao professor, mas ao carpinteiro, ao pedreiro, ao ferreiro, ao arquiteto etc. ou a qualquer outra profissão. Se o trabalhador não gostar do que faz, não o fará bem e se o dinheiro for a sua única motivação, custar-lhe-á fazer o que faz. Por outro lado, o que faz por amor, procurará sempre fazer melhor, auto superando-se sem nunca se cansar; já lá diz o provérbio, quem corre por gosto não cansa.

AMOR
Aproximou-se dele um escriba que os tinha ouvido discutir e, vendo que Jesus lhes tinha respondido bem, perguntou-lhe: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?» Jesus respondeu: «O primeiro é: Escuta, Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor; amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças. O segundo é este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior que estes.» Marcos 12, 28-31

O amor humano pode satisfazer um pouco o ser humano, mas não o satisfaz plenamente. Santo Agostinho dizia “Fizeste-nos, Senhor, para ti e o nosso coração anda inquieto enquanto não repousa em ti”. Tantos descobriram isto que até abdicaram do amor humano para ficar só com o divino.

A Princesa Diana de Gales, tinha tudo o que uma jovem poderia pedir na vida: juventude, beleza, poder, dinheiro, fama, "sangue azul" e dois filhos preciosos e, mesmo assim, não estava feliz porque lhe faltava o principal, o que o dinheiro não pode comprar: amor.

À procura deste, abandonou tudo e foi nessa busca que perdeu a vida. Outros há, que tendo o essencial, o amor, fazem o oposto da princesa, buscando com afã tudo aquilo que ela desprezou, gastando nisso as suas vidas, muitas vezes acabando por perder o que já tinham, o amor.

Tal como Diana de Gales, S. Bento de Núrsia, S. Bernardo de Claraval, S. Francisco de Assis, Santo Inácio de Loyola, S. Francisco Xavier, Santo António de Lisboa, Santa Isabel de Portugal, S. Nuno Alvares Pereira, Santa Beatriz da Silva etc., os santos da Igreja católica, na sua grande maioria, eram de classe média alta, cultos, jovens, belos, ricos, alguns de sangue azul, e todos abandonaram tudo por Cristo, tal como S. Paulo fizera: por causa Dele, tudo perdi e considero esterco, a fim de ganhar a Cristo, Fl, 3, 8.

História do João

Amar e ser amado é a primeira necessidade humana. Nascemos do amor entre o nosso pai e a nossa mãe, é o amor que eles nos têm que nos fez crescer sãos no corpo e na alma. Quem não é amado incondicionalmente enquanto criança, tarde ou nunca chegará a ser plenamente humano.

João tinha 7 anos quando foi abandonado pelo seu pai; a sua mãe ficou sozinha durante algum tempo, mas acabou por casar-se e o João foi catapultado para casa da avó. Ao sentir-se rejeitado, começou a não estudar, a comportar-se mal na escola, a ser violento com os colegas e com os professores. Como a avó não tinha mão nele e a mãe, cedendo às exigências do novo marido, não o queria em casa, a Segurança Social colocou o João num lar.

Estando no lar, vivia na esperança de passar os fins-de-semana com a família; o pai não cumpria as promessas e a mãe arranjava desculpas esfarrapadas. Ao contrário de muitos outros miúdos, o João passava até os fins-de-semana e as férias no lar.

Com isto, aos maus comportamentos anteriores, juntaram-se os assaltos a casas, o furto de carros e a entrada no mundo da venda e consumo de droga. Quando já nem o lar conseguia lidar com a situação, o João foi parar a um centro educativo como recluso.

O João tem agora à sua disposição um médico, uma enfermeira, um psiquiatra e uma assistente social. Juntos vão tentar a recuperação e reinserção social do João e de tantos que estão na mesma situação. A taxa de sucesso é muito baixa; muitos miúdos e miúdas não se recuperam nunca.

Em lares e em centros educativos, em profissionais e terapias sofisticadas, o Estado gasta, quase sem sucesso, milhões de euros quando afinal o João e outros como ele só precisavam do amor incondicional de uma mãe e de um pai, por mais ignorantes que estes fossem em matéria de educação.

O amor incondicional de dois pais teria certamente mais sucesso que todos os profissionais da educação com as suas sofisticadas terapias. Se o João tivesse tido este amor incondicional dos seus pais, não teria chegado onde chegou e não teria tido necessidade de todos aqueles profissionais.

Os profissionais poderiam até ter amado o João incondicionalmente; o mais certo é que o João rejeite este amor. Por experiência própria, num período da minha infância em que pensava que a minha mãe não me amava, era porem amado pela minha professora. Mas eu rejeitei o amor dela, lembro-me muito bem, porque não era dela que eu queria receber amor.

Com uma taxa atual de 70% de divórcios em Portugal, quantos miúdos e miúdas como o João vamos ter na nossa sociedade? Quem não é amado incondicionalmente passa depois a vida à procura de amor, quando na idade adulta a prioridade deveria ser amar.

Adultos que buscam amor
Como dissemos, amar e ser amado é a necessidade básica do ser humano. Sem amor não há vida humana, amar e viver são sinónimos. Só o amor nos preenche e satisfaz. Mais importante que saber por que vivemos, que só satisfaz a nossa mente, é saber para quem vivemos porque satisfaz o nosso coração e a nossa alma.

Como a Bíblia diz, há um tempo para tudo. Eu diria que fundamentalmente há um tempo para amar e um tempo para ser amado. Em todas as etapas da nossa vida necessitamos de amar e ser amados; porém, o tempo da infância é o tempo em que é essencial sermos amados, porque ainda não sabemos amar.

Uma criança, como dissemos, não pode passar sem amor. Porém, um adulto pode passar sem amor porque, para ele, o principal já não é (ou não deveria ser), ser amado. Se é adulto e maduro, o principal, o mais urgente, deveria ser amar.

O principal, o mais importante para um adulto é amar. Gosto de afirmar isto olhando para o mais adulto de todos os adultos, para o modelo de humanidade que é Jesus de Nazaré. Jesus não andava pela vida procurando quem o amasse, mas sim a quem amar. Podia muito bem passar sem o amor dos homens e, de facto, assim aconteceu muitas vezes. Porém, também não se sentiu autossuficiente e aceitou todo o amor que algumas pessoas lhe dedicaram, entre estas os seus discípulos e discípulas.

No entanto, não mendigou amor, não andou pelo mundo mendigando amor, como vemos hoje tantos adultos, solteiros, divorciados ou mal casados procurando quem os ame. Que triste é ver uma telenovela e as coisas que estes adultos fazem para obter ou reter o amor. O mesmo vemos nas letras da maior parte das canções românticas: poucas cantam o amor que se quer dar, a maior parte canta o amor que se quer receber.

Outros fatores do sucesso
Conta-se que uma mulher encontrou três veneráveis senhores à sua porta; ao convidá-los para entrarem, eles disseram-lhe que só um deles podia entrar e que a escolha era dela. Um disse que se chamava riqueza, o outro amor e o terceiro sucesso.

Consultando a sua família, uns diziam sucesso, outros riqueza, mas por fim todos concordaram que deveria convidar o amor. Foi até à porta e informou que convidava o amor; nesse momento, viu que os três se dispunham a entrar. Disse ela, “eu só convidei o amor, por que é que todos quereis entrar agora?” Enquanto o amor entrava em casa, os outros dois responderam à mulher dizendo “onde ele entra, nós também entramos.”

O amor é de facto a pedra filosofal que tudo transforma em ouro. Onde há amor, tudo o resto vem por acréscimo; onde não há amor, nem o sucesso nem a riqueza se mantêm por muito tempo.

Nesta paixão por encontrar realidades tridimensionais, aqui ficam outros fatores que nos ajudam a ter sucesso na vida; sobre cada um deles poderia escrever um texto, mas como não vou ter tempo nem espaço para o fazer, aqui ficam enumerados numa lista que poderia ainda aumentar:
3 coisas menos confiáveis no mundo – poder – sorte – prosperidade
3 coisas que não deves perder - paciência – esperança - dignidade
3 coisas mais valiosas - amor – princípios – confiança
3 coisas que dão valor a uma pessoa – sinceridade – esforço – coerência
3 coisas que definem uma pessoa - honestidade – trabalho – resultados
3 coisas difíceis de dizer - amo-te – perdoo-te – perdoa-me.

Conclusão: a saúde e o dinheiro só servem para nos manter vivos. O que justifica, dá sentido, cor e sabor à nossa vida é o amor. Não somos o que comemos, como alguém diz, mas somos o que amamos.

Pe. Jorge Amaro, IMC


 

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