«Irmãos: quanto a mim, de nada me quero gloriar, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo. Pois nem a circuncisão vale alguma coisa nem a incircuncisão, mas sim uma nova criação.
Paz e misericórdia para todos quantos seguirem esta regra, bem como para o Israel de Deus. De agora em diante ninguém mais me venha perturbar; pois eu levo no meu corpo as marcas de Jesus.» (Gálatas 6,14-17)
Os que Jesus escolheu como apóstolos, bem como os que O seguiram durante a sua vida terrena e após a sua morte, eram, na sua maioria, gente simples. Nenhum dos grandes do seu tempo — nem do mundo da política, nem da elite religiosa judaica, nem entre os intelectuais — se fez seu discípulo. José de Arimateia e Nicodemos foram meros simpatizantes, e só após a sua morte se manifestaram publicamente.
Assim como depois do carismático São Francisco de Assis foi necessário o espírito prático e organizador de Frei Elias, também após Jesus de Nazaré foi preciso alguém que sistematizasse e interpretasse, à luz do judaísmo e da mentalidade do mundo greco-romano, o significado da sua vinda para Israel e para a humanidade.
São Paulo, contemporâneo de Jesus, não O conheceu pessoalmente nem conviveu com Ele como os doze apóstolos e outros discípulos. No entanto, foi o primeiro grande teólogo da Igreja. Coube-lhe a tarefa de interpretar, com profundidade e rigor, o significado dos factos históricos vividos pelos apóstolos, preparando o cristianismo para dialogar com o pensamento do seu tempo.
Gloriar-se na cruz de Cristo
A cruz, hoje símbolo do cristianismo, presente no topo de igrejas e em sinais de ajuda e salvação como a Cruz Vermelha, não tinha esse significado há dois milénios. Para judeus, gregos e romanos, a cruz era um instrumento de tortura, vergonha e humilhação.
Após a derrota da revolta liderada pelo gladiador Espártaco, em 71 a.C., os romanos crucificaram cerca de seis mil escravos ao longo dos 200 km da Via Ápia, entre Roma e Cápua. Morrer na cruz era o pior destino, o equivalente, em termos de reputação, a morrer hoje de uma doença estigmatizada como a SIDA.
O mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo
São Paulo gloriava-se na cruz não apenas por esta ser um meio de salvação, mas sobretudo porque, na cruz de Cristo, tudo se clarificou. No julgamento de Jesus, quem verdadeiramente foi julgado foram os poderes do mundo; na sua crucifixão, foram os valores mundanos que foram expostos e condenados.
Neste sentido, afirma o Apóstolo: «O mundo está crucificado para mim e eu para o mundo.» A ressurreição do Crucificado revelou que os poderes humanos — com os seus ódios, divisões e injustiças — foram derrotados. Paulo, doravante, já não vive segundo os critérios desse mundo, mas segundo outros valores.
Nem circuncisão, nem incircuncisão
A circuncisão, sinal distintivo dos judeus, perde para Paulo qualquer valor salvífico. Nem a prática da circuncisão, nem a sua ausência são determinantes — o que conta é uma nova criação em Cristo.
Foi São Paulo quem libertou o cristianismo da pesada herança do judaísmo. Convertido da mais estrita observância farisaica, só ele tinha autoridade para romper o cordão umbilical com a antiga lei e emancipar, de uma vez por todas, a fé cristã da tutela judaica.
Para Paulo, o mundo anterior — com as suas distinções raciais, sociais e sexistas — perdeu todo o sentido à luz de Cristo:
“Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher, pois todos sois um só em Cristo Jesus.» (Gálatas 3,28)
Numa única frase, Paulo expressa de forma admirável como devem ser as relações humanas após Cristo: qualquer forma de discriminação — por raça, estatuto social, cultura ou género — é contrária à nova realidade inaugurada por Ele. Todos os seres humanos merecem igual dignidade, pois são irmãos de Jesus e filhos de um mesmo Pai.
Paz e misericórdia para o novo Israel de Deus
Com a ressurreição de Cristo, tem início uma nova criação: uma nova forma de ver e viver a vida. Esta nova vida forma também um novo povo de Israel, que é o corpo místico de Cristo — a Igreja — na qual somos chamados a participar:
“N’Ele é que vivemos, nos movemos e existimos, como disseram alguns dos vossos poetas: “Pois também nós somos da sua descendência.” (Atos 17,28)
Levo no meu corpo as marcas de Cristo
Este novo povo não se identifica pela antiga marca da circuncisão, mas pelas marcas de Cristo — as suas cinco chagas — que continuam a ser sinais eternos da sua entrega. São marcas visíveis em alguns dos santos que mais se identificaram com o Crucificado, como São Francisco de Assis, e que figuram com orgulho na bandeira nacional portuguesa desde a fundação da nossa identidade.
Essas marcas permanecem como tatuagens sagradas, recordando-nos sempre até onde foi o amor de Deus por nós: até dar a vida por cada um.
Conclusão - Jesus passou pelo mundo fazendo o bem, pregando, curando e realizando milagres. Paulo, embora não tenha feito parte do grupo dos Doze, foi quem melhor compreendeu, interpretou e transmitiu o sentido profundo da vida, morte e ressurreição de Jesus, dotando o cristianismo de uma linguagem capaz de dialogar com o mundo e com a história.
Pe. Jorge Amaro, IMC

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