15 de novembro de 2017

Fátima: A Oração como Missão

2 comentários:
A Penitência e a Oração são o cerne da mensagem e espiritualidade de Fátima. O objetivo principal da Penitência e Oração, que Maria pede aos pastorinhos em Fátima, não é o aperfeiçoamento pessoal. A Nossa Senhora não exorta as três crianças a fazerem sacrifícios e a rezar pela sua santificação pessoal; por isso, espiritualidade de Fátima não é uma espiritualidade egocêntrica, ou seja, um conjunto de praticas espirituais que têm como objetivo o benefício, ou perfeição de quem as pratica; não é por isso comparável à ascética dos monges, que sim tem como finalidade a santificação, a mística e a visão beatifica.

Muito pelo contrário, tanto a penitência como a oração que Maria pede aos pastorinhos, têm um fim muito concreto e específico: a da conversão dos “pobres pecadores” e o desagravo do Sagrado Coração de Jesus e do Coração Imaculado de Maria; é, portanto, uma espiritualidade “altruísta”.

É certo que nestas práticas os pastorinhos se santificaram, mas não as praticaram para se santificar, mas sim para contribuir ao bem espiritual de outros. Não foi para salvar-se que as praticaram, mas sim para salvar os outros. Neste sentido tanto a sua oração pessoal como a sua penitência eram o seu contributo para a missão universal de salvação.

Até quando os pastorinhos resolveram não pecar mais, a razão fundamental que os levou a esta resolução não foi o ser santos, mas sim para não ofenderem mais a Nosso Senhor; ou seja, até no evitar o pecado, o objetivo é altruísta; os pastorinhos não pecaram por amor a Deus. Os videntes nunca fizeram nada cujo objetivo fosse a santidade.

A oração de intercessão
Abraão aproximou-se e disse: «E será que vais exterminar, ao mesmo tempo, o justo com o culpado? Talvez haja cinquenta justos na cidade; matá-los-ás a todos? Não perdoarás à cidade, por causa dos cinquenta justos que nela podem existir? (…) Se encontrar em Sodoma cinquenta justos perdoarei a toda a cidade, por causa deles. Génesis 18, 23-33

E acontecia que, enquanto Moisés tinha as mãos levantadas, era Israel o mais forte; mas quando descansava as mãos, o mais forte era Amalec. Êxodo 17, 11

Os dois grandes patriarcas da nossa fé, Abraão e Moisés, experimentaram o valor e a eficácia da oração de intercessão a Deus pelo povo. Mais tarde cabe aos sacerdotes, descendentes de Aarão, esta tarefa de pedir a Deus pelo bem-estar do povo. A sociedade medieval cristã estava dividida em classes e cada classe tinha uma tarefa específica; os nobres defendiam o clero e o povo, o clero intercedia pelos nobres e pelo povo, e o povo sustentava materialmente o clero e os nobres.

Hoje a oração não é tarefa exclusiva de uma classe de pessoas, mas todos estão chamados a rezar. A oração não é só um meio para expressarmos o nosso amor a Deus. De facto, a oração tanto expressa o nosso amor a Deus como o nosso amor ao próximo, quando rezamos por ele. A oração pode ser a nossa resposta a Deus, que nos pergunta onde está o teu irmão (Génesis 4,9). Ao contrário de Caim devemos sentir-nos guardiães do nosso irmão, preocuparmo-nos por ele, querer o seu bem, atuar em seu favor, não só nas obras, mas também na oração, intercedendo por ele a Quem lhe pode fazer mais bem do que eu, especialmente onde eu não posso chegar.

A oração do Pai “Nosso” e da Ave Maria, assim como a maior parte das orações, nunca excluem os outros; podemos rezá-las na privacidade do nosso quarto e no íntimo do nosso coração, os outros estão sempre lá, pois a Deus nos dirigimos em plural como comunidade; e o que quer que peçamos, nestas ou noutras orações, não o pedimos para nós somente, mas para a toda a comunidade dos crentes.

O capitulo 17 do Evangelho de São João apresenta a chamada oração sacerdotal, que é a oração mais longa de toda a bíblia. Na segunda e a terceira parte dessa oração Jesus pede ao Pai pelos seus discípulos e depois por todos os crentes; ponto importante nesta oração é a unidade entre todos; é nesta unidade de sermos todos membros do corpo místico de Cristo que assenta a oração de interseção. 

A comunhão dos santos é uma crença muito querida do catolicismo; esta consta da solidariedade que se estabelece entre todos os batizados, vivam eles no espaço e no tempo, ou para além destes, no purgatório ou no seio de Deus. É com base nesta comunhão que o povo português tem um afeto especial em rezar e oferecer o sacrifício da Eucaristia pelas almas mais abandonadas do purgatório; aqueles que não têm ninguém que interceda por elas.

Quando já tinha decidido não ir hoje a cortar o cabelo, comecei a escutar com insistência uma voz no meu interior que me dizia que tinha de ir; como eu recusava a voz fez-se cada vez mais insistente até ser uma obsessão. Decidi então aceder e fui. Ao entrar o barbeiro surpreendeu-me dizendo estava agora mesmo a rezar para que o senhor viesse hoje.

"... A oração é o complemento mais eficaz depois da medicina tradicional, superando a acupuntura, ervas, vitaminas e outros remédios alternativos." Washington Post, March 24, 2006

É difícil quantificar a eficácia da oração; nas aparições de Fátima são muitas as intenções que Lúcia apresenta à Senhora e ela mesmo respondia que algumas as satisfazia outras não. Ante esta realidade, só temos uma certeza que é mais fácil que os nossos pedidos sejam atendidos se os formulamos que se não os formulamos. No entanto, quer os nossos pedidos sejam atendidos quer não, é a vontade de Deus que se cumpre; uma vontade que devemos aceitar incondicionalmente, porque Deus, porque é Pai, sabe, muito mais que nós, o que nos convém e verdadeiramente nos faz falta

Mateus 5, 44 - Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem; - Até o inimigo deixa de ser inimigo quando tenho a coragem de rezar por ele como o evangelho nos manda. É de facto algo misterioso que todos podemos experimentar; no momento em que conseguimos rezar pelos que nos querem mal, cessa o nosso ódio por eles.

Francisco e Jacinta reparadores da humanidade
No Verão de 1916, enquanto os três brincavam no quintal da casa da Lúcia, junto ao Poço do Arneiro o Anjo aparece-lhes e diz-lhes:
– Que fazeis? Orai! Orai muito! Os Corações de Jesus e Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia. Oferecei constantemente ao Altíssimo orações e sacrifícios.

À distancia do tempo, a irmã Lúcia interpreta esta interpelação do Anjo não como uma repreensão por estarem a brincar, mas como uma chamada de atenção para algo de suprema importância, a oração. Esta chamada de atenção deve ainda ecoar nos nossos corações porque como cristãos perdemos o tempo em mil e uma coisa, como a Marta do Evangelho, e não escolhemos o mais importante… sentar-se, parar no meio do frenesi dos nossos dias e como Maria, a irmã de Marta, dirigir-nos a Ele que é tudo em todos.

Os pastorinhos responderam fielmente à chamada de atenção do Anjo e um ano depois às exortações da Senhora, em rezar e oferecer sacrifícios, de tudo o que podiam, como lhes tinha sugerido o Anjo, pela conversão dos pecadores. Tomaram essa tarefa como uma missão, e encarnaram-na em conformidade com a sua personalidades e carácter:

Jacinta sendo emocional, e sem descuidar a oração, sobretudo a eucarística ao Jesus escondido, era mais dada aos sacrifícios, pois tinha muita pena dos pecadores, queria salvar quantos mais melhor. Francisco como era mais instintivo, sem descuidar como a irmã os sacrifícios, era mais dado à oração; estava particularmente sensibilizado pela tristeza de Jesus e passava horas e horas a sós com Ele para o consolar.

Oração & Sacrifício é um binómio inseparável, como a teoria e a praxis. Rezar sem fazer sacrifícios é comparável aquela personagem do Evangelho que diz “Senhor, Senhor”, mas nada faz para encarnar a Palavra, ou seja pô-la em pratica (Mateus 7,21).

Por outro lado, o sacrifício sem oração não seria cristão; por isso mais tarde a Virgem Maria ensina aos pastorinhos uma oração que deve acompanhar todos os sacrifícios que fazem: "Ó Jesus, é por Vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria".

Usando uma carta dos correios como alegoria para explicar a relação entre o sacrifício e a oração, o sacrifício é o texto da carta, a oração é o envelope onde está escrita a direção à qual é dirigida a carta, neste caso a Deus para interceder pelos “pobres pecadores”.

Francisco consolador do Senhor
Um dia a Lúcia perguntou a Francisco:
– Francisco, por que não me dizes para rezar contigo e mais a Jacinta?
– Gosto mais – respondia – de rezar sozinho, para pensar e consolar a Nosso Senhor que está tão triste.
Um dia, perguntei-lhe:
– Francisco, tu, de que gostas mais: de consolar a Nosso Senhor ou converter os pecadores, para que não (vão) fossem mais almas para o inferno?
– Gostava mais de consolar a Nosso Senhor. Não reparaste como Nossa Senhora, ainda no último mês, se pôs tão triste, quando disse que não ofendessem a Deus Nosso Senhor que já está muito ofendido? Eu queria consolar a Nosso Senhor e depois converter os pecadores, para que não O ofendessem mais.

Francisco reconhece simultaneamente a transcendência de Deus e o júbilo pela sua presença. Confessa: «do que gostei mais foi de ver a Nosso Senhor, naquela luz que Nossa Senhora nos meteu no peito. Gosto tanto de Deus!». Francisco Sente-se «a arder, naquela luz que é Deus [...]. e afirma Como é Deus! Não se pode dizer!».

É esta união com Deus que o faz perceber a dor que lhe provocam as ofensas humanas. Dá-lhe pena por «Ele estar tão triste» e, por isso, brota nele a resposta enternecedora: «Se eu O pudesse consolar! ( Cfr. Conferencia episcopal Portuguesa 2017)

Será talvez a parte mais contemplativa da mensagem de Fátima. Francisco era de facto um contemplativo, afastava-se dos outros companheiros, teria vocação de monge se tivesse vivido. No entanto a contemplação que faz a sua oração, de manhãs inteiras na igreja de Fátima diante do Jesus escondido, enquanto Jacinta e Lúcia iam à escola, não era para se sentir bem na companhia de Deus, mas sim para consolar Jesus triste pelas ofensas dos pecadores.

Devoção ao Imaculado Coração de Maria
… A Jacinta e o Francisco levo-os em breve. Mas tu ficas cá mais algum tempo. Jesus quer servir-Se de ti para me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. [A quem a abraçar, prometo a salvação; e serão queridas de Deus estas almas, como flores postas por Mim a adornar o Seu trono].

O mundo moderno frio e tecnológico é pouco dado aos símbolos. Para melhor entendermos o que significam o Coração de Jesus e o Coração de Maria, é de ajuda que nos adentremos no mundo da poesia.  Todos conhecemos a expressão de “falar com o coração na mão” que segundo o dicionário significa: Estar muito aflito, muito angustiado, preocupado ou nervoso com alguma assunto ou alguma situação. Pois assim se apresentam o Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria; angustiados e preocupados pela situação da humanidade.

No sentido bíblico, e também na mensagem de Fátima, o coração não é somente o músculo de forma arredondada, que coloca o sangue em movimento, mas também o símbolo do mais íntimo do homem, onde se conjugam os pensamentos, os afetos e a vontade.

O Sagrado Coração de Jesus – A imagem de Jesus, com o coração diante do peito e às vezes na mão, quer ser uma representação gráfica para deixar bem patente, o quanto Jesus nos amou nos homens do seu tempo a ponto de sofrer e dar a vida por eles, seus amigos e pela humanidade inteira neles representada. A devoção a esta imagem tem inspirado a cristandade desde as aparições a Sta. Margarida em 1675. Estas visões não estão descabidas de sentido histórico e bíblico se pensamos que verdadeiramente foi o soldado que abriu o peito de Jesus e nos mostrou o seu coração.

O Imaculado Coração de Maria – A imagem de Maria, representada como a de Jesus com o coração diante do peito, significa o amor e dedicação e padecimento pelo seu filho desde a sua conceção até à morte na cruz; já crucificado e antes de morrer, Jesus entrega-nos a sua mãe como nossa mãe, começando assim a paixão Desta pelos irmãos do seu filho.

A virgem Maria comunica aos pastorinhos em Fátima que o seu filho quer estabelecer esta devoção na terra, sendo também esta uma das razões pela qual a Lúcia ficaria ainda algum tempo em vida. Também esta imagem não está descabida de sentido histórico e bíblico se pensamos no vaticínio do velho Simeão em relação à Virgem Maria: “uma espada atravessará a tua alma”.

Amor com amor se paga” – A devoção ao coração de Jesus, como ao Coração Imaculado de Maria, como todas as devoções e atos de amor a Deus não se justificam pelo facto de que Deus precise deles. Somos nós os que precisamos, pelo facto de que só quando nos abrimos ao amor de Deus é que o amor de Deus produz frutos na nossa vida.

Enquanto permanecemos de costas voltadas para Deus, o seu amor, que não cessa nunca, não produz nenhum efeito nas nossas vidas. Por outro lado, não é possível ao mesmo tempo estar abertos ao amor de Deus sem o amar, por isso o provérbio faz todo sentido; Deus precisa do nosso amor para nos amar. Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada. João 14,23

O Imaculado Coração de Maria é medianeiro de todas as graças; foi este coração, imaculado por ter sido concebido sem pecado, que acedeu ao plano de Deus, concebendo o Seu filho para salvação da humanidade. Por ser medianeira da Graça primigénia que é Cristo, também em graças menores, Maria é sempre medianeira entre a Terra e o Ceu.

Por isso, Jacinta fervente devota do coração Imaculado de Maria, exorta a sua prima Lúcia que propague essa devoção que por essa razão fica mais algum tempo em vida:

Já me falta pouco para ir para o Céu. Tu ficas cá para dizeres que Deus quer estabelecer no Mundo a devoção do Imaculado Coração de Maria. Quando for para dizeres isso, não te escondas. Diz a toda a gente que Deus nos concede as graças por meio do Coração Imaculado de Maria; que Ihas peçam a Ela; que o Coração de Jesus quer que, a Seu lado, se venere o Coração Imaculado de Maria; que peçam a paz ao Imaculado Coração de Maria, que Deus Lha entregou a Ela. Se eu pudesse meter no coração de toda a gente o lume que tenho cá dentro no peito a queimar-me e a fazer-me gostar tanto do Coração de Jesus e do Coração de Maria…
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de novembro de 2017

Fátima: O Sacrificio como Missão

5 comentários:
– Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?
– Sim, queremos!
– Ides, pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.

Tema central da mensagem de Fátima
Na primeira aparição, logo após as apresentações e a petição aos pastorinhos de virem ali nos seis meses seguintes, a Nossa Senhora perguntou-lhes se queriam oferecer-se a si mesmos pela salvação dos pecadores.

Fátima faz-se eco da forma como a comunidade cristã interpretou a morte de Jesus o qual se ofereceu como cordeiro sem mancha para expiar os pecados da humanidade. Jesus não deu por nós a vida só no ato da sua morte, toda a sua vida foi uma vida para os outros; veio para servir e não para ser servido (Marcos 10, 45). Jesus na sua vida combateu o pecado e o mal nas suas mais variadas formas; ao fim foi o mesmo pecado que o matou; morreu não só pelos nossos pecados, mas também a causa do nosso pecado.

Jesus lutou contra o pecado da mesma forma que o nosso corpo luta contra a doença. Quando uma bactéria ou vírus invade o nosso corpo, um glóbulo branco chamado neutrófilo persegue estes invasores depois dos anticorpos os terem identificado e marcado para serem destruídos. Por um processo chamado fagocitose, o neutrófilo captura e devora o invasor e morre. Também Jesus assumiu o pecado da humanidade, morrendo neste mesmo processo, mas salvando a humanidade da morte eterna

O que Maria pede aos pastorinhos é a solidariedade e participação na paixão de Cristo no seu ato único de reparação dos pecados da humanidade. A participação no mistério da redenção de Cristo com o nosso sacrifício voluntário, de sujeitos passivos e alheios, faz-nos proactivos em relação não só à nossa salvação como à salvação dos outros.

Este tema central da mensagem de Fátima é também o mais difícil de entender nos nossos dias. Mas tal como Maria em Lourdes veio reafirmar o dogma da Imaculada Conceição, em Fátima vem reafirmar a teologia, para muitos obsoleta e retrograda, da expiação e reparação. Mas como pode uma pessoa reparar os próprios pecados e os pecados dos outros?

Jesus morreu para expiar os pecados da humanidade
O salário do pecado é a morte (Romanos 6,23) – É a ordem das coisas, não há atos inócuos ou neutros; o que não promove a vida, leva à morte. O bem promove a vida o mal leva à morte como consequência lógica, esta é uma verdade irrefutável. Vemos prova disso em cada má ação que praticamos; como diz o provérbio, “o mal fica com quem o pratica”; o castigo acompanha a má ação como o anexo acompanha o email.

Não há obra má que pratiquemos que não seja sucedida por um castigo, que não provém de Deus, mas sim da mesma ordem das coisas, como consequência logica da má ação praticada. Deus perdoa sempre, o homem às vezes, a natureza nem perdoa nem esquece; o mal que fazemos contra a nossa natureza humana ou contra a natureza do planeta paga-se e bem caro.

Se Jesus de Nazaré só fosse um profeta e nada mais, a sua morte seria vista como a morte individual do justo. Mas como Jesus, para além de ser verdadeiro homem é também verdadeiro Deus, a sua morte já não pode ser interpretada ou vista como um acontecimento meramente pessoal, mas sim um acontecimento que tem repercussões na humanidade por Ele criada e Nele representada. Como Jesus ressuscitou, a sua morte serviu para matar a morte; aquela morte eterna à qual a humanidade estava abocada.

Jesus morreu pelos nossos pecados, no sentido de que foram os nossos pecados que o mataram; mas como Jesus não permaneceu morto, mas ressuscitou, os nossos pecados mataram-se a si mesmos; a sua morte foi, portanto, o fim da morte como consequência do pecado.

Deus não pode negar a ordem das coisas por Ele criadas; como vimos acima, pertence a essa ordem das coisas que com o pecado vai o castigo e o castigo é a morte. Sem a intervenção divina, seriamos com um comboio sem freios que corre para um destino mortal irreversível.

João 15, 3 - Sem mim nada podeis fazer - Se pelas nossas próprias forças fossemos capazes de nos salvar, não teria sido necessária a vinda de Cristo ao mundo. O pecado colocou-nos no fundo de um poço sem possibilidade de sair; em areias movediças nas quais quanto mais nos movemos mais nos enterramos; em buraco feito no gelo estaladiço que cobre a água de um lago, que parte quando nos apoiamos nele. Do mal e do pecado não podemos sair sozinhos.

João 1.29 – Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. –  João Batista que apesar de ser filho de sacerdote atua fora do sistema sacrificial do templo oferecendo o perdão dos pecados por intermédio de um batismo de purificação, aponta a Jesus como sendo o verdadeiro cordeiro de Deus que vem substituir o sacrifício de cordeiros do Templo de Jerusalém. Só quem não tem pecado, pode pagar pelos pecados dos outros.

O sacrifício de Cristo é um sacrifício perfeito porque ele mesmo é o sacerdote, a vítima, o altar e o Templo onde se oferece. Se algo é perfeito não pode ser igualável pelo que o sacrifício de Cristo, e só o sacrifício de Cristo é suficiente para pagar pelos pecados de toda a humanidade presente passada e futura.

No sacrifício de Cristo, a justiça de Deus, a ordem natural das coisas é satisfeita; alguém pagou o preço do pecado que é a morte; por outro lado também é satisfeita a bondade, a graça e o amor de Deus pois não fomos nós que pagámos mas sim o seu filho.

Associar-se ao sacrifício de Cristo
Misteriosa solidariedade - Tanto somos solidários no mal, como somos solidários no bem. A ideia de que pertencemos todos ao Corpo Místico de Cristo, não é só uma ideia piedosa, mas também científica; o ser humano vem de um tronco comum; há laços que unem toda a Humanidade desde o seu aparecimento sobre a Terra. "Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade" disse, quando pôs o pé na Lua; Neil Armstrong. Não foi uma empresa de franco atirador, nem na sua execução nem no seu significado; em realidade, nele, por ele, e com ele a Humanidade chegou à Lua.

Inconsciente espiritual coletivo – Freud descobriu uma instância no interior da nossa personalidade chamada - inconsciente, constituído pelo que foi vivido experimentado, recalcado, escondido, esquecido, nos primeiros anos da nossa vida quando ainda não eramos conscientes de nós mesmos. Este material influencia o nosso pensar, sentir e atuar de uma forma automática e fora do nosso controle; às vezes aflora à consciência em forma de linguagem corporal, lapsus linguae, e em especial em sonhos.

Para além deste inconsciente individual, a um nível ainda mais profundo, Jung, discípulo de Freud, defende que existe um inconsciente coletivo. O material que o constitui, já não tem que ver com as minhas vivências individuais, mas sim com o que a humanidade como um todo viveu.

Cada uma das nossas obras entra a formar parte de uma base de dados coletiva de tal forma que qualquer individuo da espécie humana está, à nascença capacitado para fazer os atos mais heroicos que já foram feitos assim como os mais criminosos e deploráveis, sem precisar de nenhuma aprendizagem. Desta forma o individual influência o coletivo e o coletivo influência o individual.

Efeito borboleta - Pequenas e até irrisórias causas podem ter grandes efeitos ou consequências. Os efeitos de um grande furacão que aqui se faz sentir podem ter sido causados pelo esvoaçar de uma borboleta milhares de quilómetros de aqui, que ao perturbar o equilíbrio, fez cair a primeira peça do efeito dominó. Assim se explicam também as grandes avalanches de neve que sepultam casas e aldeias.

Na vida humana não há atos inócuos, neutros e sem consequências que não tenham tarde ou cedo repercussões, positivas ou negativas, no resto da humanidade, consoante o ato seja positivo ou negativo. 

Mateus 16:24 - Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me; - Todo sacrifício é imolação do nosso Ego tudo o que fazemos pelos outros todo é altruísmo, é um sacrifício do ego. Só negando o meu ego posso eu afirmar o outro, o alter ego. Depois do sacrifício de Cristo os sacrifícios que valem aos olhos de Deus não são o dom de algo que me pertence, como eram os sacrifícios da antiga lei, a imolação de cordeiros e cabritos, mas sim a imolação de mim mesmo.

Tertuliano 197 DC - O sangue de mártires é semente de cristãos – pelo martírio o cristão configura a sua vida a Cristo de uma forma quase absoluta, pelo que é via direta para o Reino de Deus. Por outro lado, não só ganha ele individualmente, a Igreja também ganha, pelo seu testemunho em repetir, renovar e atualizar na sua vida a paixão de Cristo no aqui e agora da história. É sobretudo edificante e encorajante para os novos cristãos, para os que ainda estão num processo de conversão a Cristo.

Agora, alegro-me nos sofrimentos que suporto por vós e completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, pelo seu Corpo, que é a Igreja. Colossenses 1, 24

Este é o texto que tem sido citado para dar fundamento bíblico à prática pedida por Nossa Senhora logo na primeira aparição, de oferecer sacrifícios pela conversão dos pecadores. É preciso deixar bem claro que os nossos sacrifícios não têm o valor redentor do sacrifício de Cristo, nem aumentam a sua eficácia. Portanto, e neste sentido, nada falta ao sacrifício de Cristo que foi perfeito e a perfeição não é aperfeiçoável.

As nossas aflições individuais, a nossa cruz, o sofrimento com que a vida nos depara, pode ser vivido com sentido ou sem sentido. O cristão que em todos os aspetos da sua vida vê em Cristo o caminho a verdade e a vida configurando a sua vida à Dele, associa também o seu sofrimento ao Dele. Os apóstolos ficaram contentes quando começaram a sofrer por Cristo. Atos 5,41

Associando os nossos sofrimentos aos de Cristo estamos-lhe a dar um sentido, pelo que serão mais fáceis de suportar, e um bom uso pois damos-lhe um valor redentor. O ponto principal é que nossos sofrimentos não são desperdiçados se podemos juntá-los ao sacrifício de Cristo; Eles se tornam de grande valor.

O inferno evita-se com o purgatório
O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: "Penitência, Penitência, Penitência!" (Terceira parte do segredo)

São as palavras do anjo com a espada de fogo. A Nossa Senhora mostra aos pastorinhos o inferno como possibilidade na outra vida e o inferno em que se tinha tornado mundo no século XX. Para evitar tanto um como o outro a alternativa é a penitência. O inferno evita-se com o purgatório tanto nesta vida como na outra; de facto na tradição católica o purgatório está entre o Céu e o inferno.

Cristo expiou pelos nossos pecados, pelo que nós não precisamos já de expiar por eles; por outro lado Deus perdoa e esquece, para quê então o purgatório? Somos nós que não perdoamos e esquecemos nem aos outros nem a nós mesmos; o purgatório é uma exigência da nossa natureza. Vemos isso no Evangelho no episódio da conversão de Zaqueu:

…”de pé, disse ao Senhor: «Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais.». (Lucas 19,8) Jesus já tinha perdoado a Zaqueu não lhe exigiu nada como preço desse perdão; o que Zaqueu ofereceu como expiação foi da sua livre vontade e como consequência da sua conversão e de ter obtido perdão, e não como requisito desta.

“Pænitemini et credite evangelioArrependei-vos e acreditai no evangelho - (Mc 1, 15). A penitência, o sacrifício faz parte do processo de conversão, como o deserto medeia entre o Egito do Pecado e a Terra Prometida da Graça. Quanto mais puros vamos desta vida, menos purgatório precisamos na outra vida. O purgatório pode ser já feito aqui e agora. Tanto se é feito aqui ou na outra vida a bem-aventurança permanece válida: Só os puros de coração verão a Deus.

Sobre a natureza do fogo purificador a irmã Lúcia diz anos mais tarde, que não se trata de um fogo físico sustentado por qualquer combustível, mas sim do fogo do amor divino comunicado por Deus às almas. Diz ainda que um ato perfeito de amor como por exemplo o martírio, leva a pessoa diretamente ao céu pois purifica de imediato todos os pecados até ali cometidos.

Jacinta a boa pastora
Um dia, ao voltar para casa, meteu-se no meio do rebanho.
– Jacinta – perguntei-lhe – para que vais aí, no meio das ovelhas?
– Para fazer como Nosso Senhor, que, naquele santinho que me deram, também está assim, no meio de muitas e com uma ao colo.

Jacinta encarna o aspeto sacrificial da mensagem de Fátima; ela a seu modo imita Jesus bom pastor, que se preocupa e busca a ovelha perdida, e depois a traz aos ombros de volta ao rebanho. Muitos foram os sacrifícios que Jacinta ofereceu pelos pecadores durante os três anos que se sucederam às aparições. E quando, já na cama estava a viver a sua paixão, a Nossa Senhora perguntou-lhe se ainda queria sofrer mais para converter mais pecadores, ela respondeu que sim. Como Cristo bom Pastor, ela a pequena pastorinha também deu a vida pelas ovelhas do Senhor.

A visão do inferno afetou de tal maneira a Jacinta que mesmo a brincar não deixava de se interrogar e perguntar à Lúcia: E se a gente rezar muito por os pecadores, Nosso Senhor livra-os de lá? E com os sacrifícios também? Coitadinhos! Havemos de rezar e fazer muitos sacrifícios por eles!

A expressão, pobres pecadores foi cunhada em Fátima; sempre que se fala de pecadores, a mensagem de Fátima refere-se aos pecadores como pobres que tem o mesmo sentido afetivo de “coitadinhos” usado por Jacinta. Os pecadores são tratados com afeto, pelo Anjo na oração à Santíssima Trindade, por Maria depois da visão do Inferno e pelos mesmos pastorinhos.

Jacinta, a mais sentimental dos três, é a que melhor espelha a misericórdia e a solicitude amorosa de Deus pelos pecadores que percorre os dois Testamentos da Bíblia: Porventura me hei-de comprazer com a morte do pecador - oráculo do Senhor Deus - e não com o facto de ele se converter e viver? Ezequiel 18,23.

Em Jesus de Nazaré, a misericórdia de Deus encarna-se em ações concretas; Jesus, ao contrário dos fariseus que os criticavam e fugiam deles, com medo a serem contaminados, buscava a sua companhia, tocava-os, curava-os e comia com eles e por fim entregou-se por eles como vitima imolada sendo comida na eucaristia e na cruz, corpo entregado e sangue derramado.

Os pastorinhos em especial Jacinta na sua curta vida e Lúcia na sua longa vida entenderam e  associaram os seus sacrifícios à paixão de Cristo fazendo-se eco desta mesma, dando-lhes aqueles um sentido e uma utilidade, para atualizar ou sublinhar no aqui e agora a paixão de Cristo redentora da humanidade.
Pe. Jorge Amaro, IMC