15 de outubro de 2017

Fátima: O Sacrificio como Missão

– Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?
– Sim, queremos!
– Ides, pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.

Tema central da mensagem de Fátima
Na primeira aparição, logo após as apresentações e a petição aos pastorinhos de virem ali nos seis meses seguintes, a Nossa Senhora perguntou-lhes se queriam oferecer-se a si mesmos pela salvação dos pecadores.

Fátima faz-se eco da forma como a comunidade cristã interpretou a morte de Jesus o qual se ofereceu como cordeiro sem mancha para expiar os pecados da humanidade. Jesus não deu por nós a vida só no ato da sua morte, toda a sua vida foi uma vida para os outros; veio para servir e não para ser servido (Marcos 10, 45). Jesus na sua vida combateu o pecado e o mal nas suas mais variadas formas; ao fim foi o mesmo pecado que o matou; morreu não só pelos nossos pecados, mas também a causa do nosso pecado.

Jesus lutou contra o pecado da mesma forma que o nosso corpo luta contra a doença. Quando uma bactéria ou vírus invade o nosso corpo, um glóbulo branco chamado neutrófilo persegue estes invasores depois dos anticorpos os terem identificado e marcado para serem destruídos. Por um processo chamado fagocitose, o neutrófilo captura e devora o invasor e morre. Também Jesus assumiu o pecado da humanidade, morrendo neste mesmo processo, mas salvando a humanidade da morte eterna

O que Maria pede aos pastorinhos é a solidariedade e participação na paixão de Cristo no seu ato único de reparação dos pecados da humanidade. A participação no mistério da redenção de Cristo com o nosso sacrifício voluntário, de sujeitos passivos e alheios, faz-nos proactivos em relação não só à nossa salvação como à salvação dos outros.

Este tema central da mensagem de Fátima é também o mais difícil de entender nos nossos dias. Mas tal como Maria em Lourdes veio reafirmar o dogma da Imaculada Conceição, em Fátima vem reafirmar a teologia, para muitos obsoleta e retrograda, da expiação e reparação. Mas como pode uma pessoa reparar os próprios pecados e os pecados dos outros?

Jesus morreu para expiar os pecados da humanidade
O salário do pecado é a morte (Romanos 6,23) – É a ordem das coisas, não há atos inócuos ou neutros; o que não promove a vida, leva à morte. O bem promove a vida o mal leva à morte como consequência lógica, esta é uma verdade irrefutável. Vemos prova disso em cada má ação que praticamos; como diz o provérbio, “o mal fica com quem o pratica”; o castigo acompanha a má ação como o anexo acompanha o email.

Não há obra má que pratiquemos que não seja sucedida por um castigo, que não provém de Deus, mas sim da mesma ordem das coisas, como consequência logica da má ação praticada. Deus perdoa sempre, o homem às vezes, a natureza nem perdoa nem esquece; o mal que fazemos contra a nossa natureza humana ou contra a natureza do planeta paga-se e bem caro.

Se Jesus de Nazaré só fosse um profeta e nada mais, a sua morte seria vista como a morte individual do justo. Mas como Jesus, para além de ser verdadeiro homem é também verdadeiro Deus, a sua morte já não pode ser interpretada ou vista como um acontecimento meramente pessoal, mas sim um acontecimento que tem repercussões na humanidade por Ele criada e Nele representada. Como Jesus ressuscitou, a sua morte serviu para matar a morte; aquela morte eterna à qual a humanidade estava abocada.

Jesus morreu pelos nossos pecados, no sentido de que foram os nossos pecados que o mataram; mas como Jesus não permaneceu morto, mas ressuscitou, os nossos pecados mataram-se a si mesmos; a sua morte foi, portanto, o fim da morte como consequência do pecado.

Deus não pode negar a ordem das coisas por Ele criadas; como vimos acima, pertence a essa ordem das coisas que com o pecado vai o castigo e o castigo é a morte. Sem a intervenção divina, seriamos com um comboio sem freios que corre para um destino mortal irreversível.

João 15, 3 - Sem mim nada podeis fazer - Se pelas nossas próprias forças fossemos capazes de nos salvar, não teria sido necessária a vinda de Cristo ao mundo. O pecado colocou-nos no fundo de um poço sem possibilidade de sair; em areias movediças nas quais quanto mais nos movemos mais nos enterramos; em buraco feito no gelo estaladiço que cobre a água de um lago, que parte quando nos apoiamos nele. Do mal e do pecado não podemos sair sozinhos.

João 1.29 – Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. –  João Batista que apesar de ser filho de sacerdote atua fora do sistema sacrificial do templo oferecendo o perdão dos pecados por intermédio de um batismo de purificação, aponta a Jesus como sendo o verdadeiro cordeiro de Deus que vem substituir o sacrifício de cordeiros do Templo de Jerusalém. Só quem não tem pecado, pode pagar pelos pecados dos outros.

O sacrifício de Cristo é um sacrifício perfeito porque ele mesmo é o sacerdote, a vítima, o altar e o Templo onde se oferece. Se algo é perfeito não pode ser igualável pelo que o sacrifício de Cristo, e só o sacrifício de Cristo é suficiente para pagar pelos pecados de toda a humanidade presente passada e futura.

No sacrifício de Cristo, a justiça de Deus, a ordem natural das coisas é satisfeita; alguém pagou o preço do pecado que é a morte; por outro lado também é satisfeita a bondade, a graça e o amor de Deus pois não fomos nós que pagámos mas sim o seu filho.

Associar-se ao sacrifício de Cristo
Misteriosa solidariedade - Tanto somos solidários no mal, como somos solidários no bem. A ideia de que pertencemos todos ao Corpo Místico de Cristo, não é só uma ideia piedosa, mas também científica; o ser humano vem de um tronco comum; há laços que unem toda a Humanidade desde o seu aparecimento sobre a Terra. "Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade" disse, quando pôs o pé na Lua; Neil Armstrong. Não foi uma empresa de franco atirador, nem na sua execução nem no seu significado; em realidade, nele, por ele, e com ele a Humanidade chegou à Lua.

Inconsciente espiritual coletivo – Freud descobriu uma instância no interior da nossa personalidade chamada - inconsciente, constituído pelo que foi vivido experimentado, recalcado, escondido, esquecido, nos primeiros anos da nossa vida quando ainda não eramos conscientes de nós mesmos. Este material influencia o nosso pensar, sentir e atuar de uma forma automática e fora do nosso controle; às vezes aflora à consciência em forma de linguagem corporal, lapsus linguae, e em especial em sonhos.

Para além deste inconsciente individual, a um nível ainda mais profundo, Jung, discípulo de Freud, defende que existe um inconsciente coletivo. O material que o constitui, já não tem que ver com as minhas vivências individuais, mas sim com o que a humanidade como um todo viveu.

Cada uma das nossas obras entra a formar parte de uma base de dados coletiva de tal forma que qualquer individuo da espécie humana está, à nascença capacitado para fazer os atos mais heroicos que já foram feitos assim como os mais criminosos e deploráveis, sem precisar de nenhuma aprendizagem. Desta forma o individual influência o coletivo e o coletivo influência o individual.

Efeito borboleta - Pequenas e até irrisórias causas podem ter grandes efeitos ou consequências. Os efeitos de um grande furacão que aqui se faz sentir podem ter sido causados pelo esvoaçar de uma borboleta milhares de quilómetros de aqui, que ao perturbar o equilíbrio, fez cair a primeira peça do efeito dominó. Assim se explicam também as grandes avalanches de neve que sepultam casas e aldeias.

Na vida humana não há atos inócuos, neutros e sem consequências que não tenham tarde ou cedo repercussões, positivas ou negativas, no resto da humanidade, consoante o ato seja positivo ou negativo. 

Mateus 16:24 - Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me; - Todo sacrifício é imolação do nosso Ego tudo o que fazemos pelos outros todo é altruísmo, é um sacrifício do ego. Só negando o meu ego posso eu afirmar o outro, o alter ego. Depois do sacrifício de Cristo os sacrifícios que valem aos olhos de Deus não são o dom de algo que me pertence, como eram os sacrifícios da antiga lei, a imolação de cordeiros e cabritos, mas sim a imolação de mim mesmo.

Tertuliano 197 DC - O sangue de mártires é semente de cristãos – pelo martírio o cristão configura a sua vida a Cristo de uma forma quase absoluta, pelo que é via direta para o Reino de Deus. Por outro lado, não só ganha ele individualmente, a Igreja também ganha, pelo seu testemunho em repetir, renovar e atualizar na sua vida a paixão de Cristo no aqui e agora da história. É sobretudo edificante e encorajante para os novos cristãos, para os que ainda estão num processo de conversão a Cristo.

Agora, alegro-me nos sofrimentos que suporto por vós e completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, pelo seu Corpo, que é a Igreja. Colossenses 1, 24

Este é o texto que tem sido citado para dar fundamento bíblico à prática pedida por Nossa Senhora logo na primeira aparição, de oferecer sacrifícios pela conversão dos pecadores. É preciso deixar bem claro que os nossos sacrifícios não têm o valor redentor do sacrifício de Cristo, nem aumentam a sua eficácia. Portanto, e neste sentido, nada falta ao sacrifício de Cristo que foi perfeito e a perfeição não é aperfeiçoável.

As nossas aflições individuais, a nossa cruz, o sofrimento com que a vida nos depara, pode ser vivido com sentido ou sem sentido. O cristão que em todos os aspetos da sua vida vê em Cristo o caminho a verdade e a vida configurando a sua vida à Dele, associa também o seu sofrimento ao Dele. Os apóstolos ficaram contentes quando começaram a sofrer por Cristo. Atos 5,41

Associando os nossos sofrimentos aos de Cristo estamos-lhe a dar um sentido, pelo que serão mais fáceis de suportar, e um bom uso pois damos-lhe um valor redentor. O ponto principal é que nossos sofrimentos não são desperdiçados se podemos juntá-los ao sacrifício de Cristo; Eles se tornam de grande valor.

O inferno evita-se com o purgatório
O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: "Penitência, Penitência, Penitência!" (Terceira parte do segredo)

São as palavras do anjo com a espada de fogo. A Nossa Senhora mostra aos pastorinhos o inferno como possibilidade na outra vida e o inferno em que se tinha tornado mundo no século XX. Para evitar tanto um como o outro a alternativa é a penitência. O inferno evita-se com o purgatório tanto nesta vida como na outra; de facto na tradição católica o purgatório está entre o Céu e o inferno.

Cristo expiou pelos nossos pecados, pelo que nós não precisamos já de expiar por eles; por outro lado Deus perdoa e esquece, para quê então o purgatório? Somos nós que não perdoamos e esquecemos nem aos outros nem a nós mesmos; o purgatório é uma exigência da nossa natureza. Vemos isso no Evangelho no episódio da conversão de Zaqueu:

…”de pé, disse ao Senhor: «Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais.». (Lucas 19,8) Jesus já tinha perdoado a Zaqueu não lhe exigiu nada como preço desse perdão; o que Zaqueu ofereceu como expiação foi da sua livre vontade e como consequência da sua conversão e de ter obtido perdão, e não como requisito desta.

“Pænitemini et credite evangelioArrependei-vos e acreditai no evangelho - (Mc 1, 15). A penitência, o sacrifício faz parte do processo de conversão, como o deserto medeia entre o Egito do Pecado e a Terra Prometida da Graça. Quanto mais puros vamos desta vida, menos purgatório precisamos na outra vida. O purgatório pode ser já feito aqui e agora. Tanto se é feito aqui ou na outra vida a bem-aventurança permanece válida: Só os puros de coração verão a Deus.

Sobre a natureza do fogo purificador a irmã Lúcia diz anos mais tarde, que não se trata de um fogo físico sustentado por qualquer combustível, mas sim do fogo do amor divino comunicado por Deus às almas. Diz ainda que um ato perfeito de amor como por exemplo o martírio, leva a pessoa diretamente ao céu pois purifica de imediato todos os pecados até ali cometidos.

Jacinta a boa pastora
Um dia, ao voltar para casa, meteu-se no meio do rebanho.
– Jacinta – perguntei-lhe – para que vais aí, no meio das ovelhas?
– Para fazer como Nosso Senhor, que, naquele santinho que me deram, também está assim, no meio de muitas e com uma ao colo.

Jacinta encarna o aspeto sacrificial da mensagem de Fátima; ela a seu modo imita Jesus bom pastor, que se preocupa e busca a ovelha perdida, e depois a traz aos ombros de volta ao rebanho. Muitos foram os sacrifícios que Jacinta ofereceu pelos pecadores durante os três anos que se sucederam às aparições. E quando, já na cama estava a viver a sua paixão, a Nossa Senhora perguntou-lhe se ainda queria sofrer mais para converter mais pecadores, ela respondeu que sim. Como Cristo bom Pastor, ela a pequena pastorinha também deu a vida pelas ovelhas do Senhor.

A visão do inferno afetou de tal maneira a Jacinta que mesmo a brincar não deixava de se interrogar e perguntar à Lúcia: E se a gente rezar muito por os pecadores, Nosso Senhor livra-os de lá? E com os sacrifícios também? Coitadinhos! Havemos de rezar e fazer muitos sacrifícios por eles!

A expressão, pobres pecadores foi cunhada em Fátima; sempre que se fala de pecadores, a mensagem de Fátima refere-se aos pecadores como pobres que tem o mesmo sentido afetivo de “coitadinhos” usado por Jacinta. Os pecadores são tratados com afeto, pelo Anjo na oração à Santíssima Trindade, por Maria depois da visão do Inferno e pelos mesmos pastorinhos.

Jacinta, a mais sentimental dos três, é a que melhor espelha a misericórdia e a solicitude amorosa de Deus pelos pecadores que percorre os dois Testamentos da Bíblia: Porventura me hei-de comprazer com a morte do pecador - oráculo do Senhor Deus - e não com o facto de ele se converter e viver? Ezequiel 18,23.

Em Jesus de Nazaré, a misericórdia de Deus encarna-se em ações concretas; Jesus, ao contrário dos fariseus que os criticavam e fugiam deles, com medo a serem contaminados, buscava a sua companhia, tocava-os, curava-os e comia com eles e por fim entregou-se por eles como vitima imolada sendo comida na eucaristia e na cruz, corpo entregado e sangue derramado.

Os pastorinhos em especial Jacinta na sua curta vida e Lúcia na sua longa vida entenderam e  associaram os seus sacrifícios à paixão de Cristo fazendo-se eco desta mesma, dando-lhes aqueles um sentido e uma utilidade, para atualizar ou sublinhar no aqui e agora a paixão de Cristo redentora da humanidade.
Pe. Jorge Amaro, IMC

4 comentários:

  1. Gratificante como sempre ler tão belos momentos que certamente nos enriquecem ,um grande abraço ,abençoada semana caro amigo Jorge

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  2. Mais um excelente texto para ler e refletir...
    Obrigada P. Jorge

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  3. Mais uma vez o Pe Jorge nos oferece um excelente texto.
    Não posso deixar de enaltecer a sua "arte" de expor...explicar o que pretende.
    Parabéns e obrigada...pois nós (leitores) é que lucramos.

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  4. Como é maravilhoso ler estes textos em que nos transmite de forma tão explícita o que tanto nos,(eu)confude com a carga de informações,que nos deparamos todos os dias.Obrigada pela bela lucidez destes textos.Dou Graças a Deus por nos por no nosso caminho membros do seu rebanho para poder também integrar o seu rebanho.PARABÉNS pela pessoa que É.Abraço

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