1 de dezembro de 2016

O profeta Isaías - um cristão “avant la lettre”

Moisés e Elias ao lado de Jesus no monte da Transfiguração simbolizam a Lei e os Profetas, uma forma sintética de referir-se aos livros que compõem o Antigo Testamento. Para os Judeus, como Moisés, o legislador do Monte Sinai ao qual são atribuídos os 5 livros do Pentateuco simboliza a Lei. Elias, que dizimou os profetas do deus Baal no Monte Carmelo, simboliza os profetas por estar considerado para os hebreus, o maior de todos os profetas; tão grande era Elias que nem experimentou a morte como o resto dos mortais, em vida foi arrebatado ao céu do qual se esperava que voltasse como percursor do messias para anunciar a sua vinda.

Diferente da perspetiva judaica, do ponto de vista do Cristianismo, e entendendo o Antigo Testamento como uma preparação para o Novo, o maior profeta é Isaías. Ao contrário de Elias que era tendenciosamente nacionalista e algo xenófobo, Isaías é universalista e está aberto a todos os povos e a todas as raças. Todos os anos no advento nos deleita com a sua visão idílica de uma sociedade aberta e inclusiva onde reina a paz e a harmonia entre todos apesar das suas diferenças:

Então o lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito; o novilho e o leão comerão juntos, e um menino os conduzirá. (Isaías 11, 6) Neste mundo renovado onde as espadas se transformam em arados e as lanças em foices, (Isaías 2,4) Jerusalém não é a capital de Israel mas do mundo pois é lá que o Senhor do Universo vai preparar para todos os povos um banquete de manjares deliciosos e vinhos generosos. (Isaías 25,6).

Cristo de facto no discurso inaugural da sua vida pública cita este mesmo profeta para dizer que a Palavra que Deus proferiu pela sua boca como promessa é hoje em Jesus cumprimento, Palavra encarnada facto. O espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu: enviou-me para levar a boa-nova aos que sofrem… (Isaías 61, 1-2; Lucas 4,16-22)

É Isaías que 300 anos antes de Cristo nos fala das circunstâncias do nascimento de Jesus apresentando-nos a sua visão do mistério da encarnação de Deus; uma virgem dará à luz um filho e o seu nome será Emanuel que significa Deus connosco. (Isaías 7, 14).

É também Isaías que nos antecipa a paixão do Senhor no seu canto sobre o servo de Javé e nos oferece também o sentido expiatório da paixão e morte do Senhor: Na verdade, ele tomou sobre si as nossas doenças, carregou as nossas dores. (…) Foi ferido por causa dos nossos crimes, esmagado por causa das nossas iniquidades. (…) Foi maltratado, mas humilhou-se e não abriu a boca, como um cordeiro que é levado ao matadouro (Isaías 53, 2-7).

Isaías faz no Antigo Testamento o que o autor da carta aos Hebreus faz no novo. Tal como, no Novo Testamento, o autor da carta aos hebreus procura demostrar que o Novo Testamento, a Nova Aliança, não é radicalmente diferente e oposta à Antiga, mas sim uma continuação desta e sobretudo a realização das promessas ali descritas. Assim Isaías com o seu universalismo personifica e preconiza, já no Antigo Testamento de uma forma utópica, o Reino de Deus que Cristo veio trazer à Terra; sobretudo intui já no seu tempo que a salvação é para todos os sem distinção de língua, povo ou nação.

Os dois são personalidades cerneiras para fazer a ponte entre os dois Testamentos. Isaías, desde o Antigo Testamento estende-se ao novo ligando-os detrás para a frente. Ao invés, o autor da carta aos Hebreus da frente para trás, visualizando o Velho como pré-história do Novo.

Como uma árvore que para crescer para cima e alongar os seus ramos precisa de crescer para baixo aprofundando as suas raízes, assim o autor da Carta aos Hebreus, desde o Novo Testamento aprofunda no Antigo para encontrar nele as promessas que agora vê cumpridas no Novo, os cabos soltos que agora são atados, a semente semeada que agora dá fruto, e de como toda a história da salvação estava orientada para a vinda de Cristo.

Como um velho agricultor que planta uma árvore da qual não irá comer fruto, assim foi o sonho utópico do Profeta Isaías acerca de um mundo que havia de vir no qual não houvesse nenhum “povo escolhido” pois se Deus é o Criador logo é também o Pai de todos; um mundo como um teto comum, uma cidade à qual todos chamam lar; uma mesa redonda como o mundo onde lobos e cordeiros partilham a mesma comida; um mundo que não encontra utilidade nas armas ou instrumentos de destruição e as transforma em utensílios de construção.

O autor da carta aos Hebreus é embaixador do Novo Testamento no Antigo porque tenta explicar e conceptualizar o Novo usando os mesmos conceitos teológicos do antigo; por outro lado, Isaías é o embaixador do Novo no Antigo porque apesar de viver no Antigo Testamento, tem uma mentalidade que sintoniza melhor com o Novo que com o Antigo Testamento. Assim sendo, podemos chamar Isaías um cristão “avant la lettre”, e ao autor da carta aos Hebreus um Judeu convertido.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 comentário:

  1. Como sempre nos presenteia com excelentes reflexões...bom Domingo e boa semana de trabalho

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