1 de julho de 2015

A Castidade como atitude

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Um jovem monge, olhando para um prado, maravilhosamente florido, disse ao seu mestre, “Como é difícil para nós monges a castidade; é como estar perante uma multidão de maravilhosas flores perfumadas, sem poder colher uma sequer... O homem casado que por ali passava, ao ouvir estas palavras observou, “Que diremos nós os casados? Colhemos uma flor, inebriámo-nos com o seu perfume, e agora temos um desejo fortíssimo para conhecer outras; não é acaso mais difícil a castidade para nós? Uma mulher ao escutar estas afirmações exclama, “Existe sofrimento maior que o não ser recolhida por quem verdadeiramente queríamos e quando queríamos? Deus ouvindo os três pensou, “Têm razão os três por isso mesmo prometi aos puros de coração de que veriam a minha cara.

A virgindade ou castidade, nem é inata, nem temporária, nem coisa só de padres e freiras. Os valores humanos, para serem valores e serem humanos, devem poder ser aplicáveis universalmente. Consideremos então que todos estão chamados a viver em castidade, embora a prática desta virtude por cada pessoa dependa da sua opção fundamental.

Sexualidade como liturgia do amor
Até há bem pouco tempo, a sexualidade era vista como algo impura e suja. O próprio acto conjugal, apesar de ser o único meio para a transmissão da vida, era visto como negativo. Depois de Sigmund Freud, começámos a olhar para a nossa sexualidade de uma forma mais positiva, superando até as dicotomias sujo-limpo, puro-impuro ao tratar-se de partes da nossa anatomia; desta forma, hoje, a grande maioria das pessoas conceptualiza o seu corpo como puro e limpo, na sua totalidade e em cada uma das suas partes.

Após ter sido dissociada de um hipotético lado sombrio da nossa natureza, a sexualidade começou também a ser entendida num sentido muito mais amplo para além do puramente genital. O ser humano não é só masculino ou feminino no seu corpo, mas também na sua mente, personalidade e carácter. Masculinidade e feminilidade são então duas formas diferentes e complementares de ser, estar, e expressar-se como indivíduo, e não apenas uma referência de género.

No contexto de um casal o ato conjugal é, e deve ser ante tudo, uma expressão de amor e só depois um meio para a procriação e nunca, como era entendido teologicamente, um remédio para a concupiscência. Na eventualidade do acto conjugal ser procreativo, os filhos são, e devem ser, frutos do amor e não do desejo, ou da concupiscência.

Como nem todos os actos conjugais estão naturalmente abertos à transmissão da vida, podemos concluir que, enquanto a procriação nem sempre sucede a todos e cada um dos actos conjugais, o amor deve sempre preceder e acompanhar todos e cada um destes actos.

Castidade para todos
Ao longo da história a castidade, entendida como abstinência, tem sido o atributo distintivo de, uns poucos, monges, padres e freiras. A mesma santidade entendida como sendo o ideal e o objectivo para todo cristão, com poucas excepções, estava somente ao alcance do citado grupo de pessoas, pois à partida considerava-se que estavam numa posição melhor para lá chegar. Os outros estavam vetados a ser candidatos à castidade e à santidade pelo simples facto de estarem casados

Os leigos casados eram encorajados a imitar o clero tanto quanto podiam, especialmente durante a Quaresma estendendo a abstinência e o jejum à prática sexual; alguns foram tão longe que chegaram a fazer o voto clerical de castidade, abstendo-se de qualquer forma de comportamento sexual para o resto das suas vidas, vivendo como irmãos e irmãs.

Como dissemos, para ser um valor universal, a castidade tem de ser aplicável universalmente a todo o ser humano, qualquer que seja a sua forma de ser e estar na vida. Como tal castidade, para a maior parte das pessoas, não pode significar abstinência de sexo pois esta é a forma de expressar amor e união entre os esposos.

Assim sendo, a castidade deve ser buscada mais nas atitudes que nos actos; todo o beijo, abraço e carícia pode ao mesmo tempo ser expressão de amor e de luxúria, tudo depende da intenção de quem os dá. Como tais, não há actos puros e actos impuros, limpos ou sujos em si mesmos; o amor ou a luxúria não se encontram no ato em si mas no actor e nas suas motivações.

Que há de mau no prazer?
Essa é a questão que muitos jovens adultos me fizeram no contexto do Sacramento da reconciliação. A minha resposta tem sido sempre, “O prazer não tem nada de mau com tal de que a obtenção do mesmo não seja o motivo principal de nenhum acto humano”. Por exemplo, apreciamos a nossa comida e criamos até um cem número de diferentes receitas para torná-la mais agradável, mas não comemos por prazer. O prazer não é, nem deve ser, a razão principal para comer.

O Prazer pode ser uma das razões pelas quais comemos, mas a primeira é a sobrevivência e a saúde. Aqueles que cedem ao prazer de comer depressa arruínam a sua saúde. Comemos com prazer, para ter saúde. Quando o prazer se torna uma motivação primordial, facilmente se cai na dinâmica do vício, actos obsessivos e repetitivos sobre os quais não se tem controlo.

O que dissemos sobre a relação comida – prazer - saúde pode aplicar-se à relação sexo – prazer -amor. O prazer degrada, vicia e instrumentaliza as pessoas, quando é a razão principal para a prática do acto sexual. O prazer pode, e deve acompanhar o acto sexual como o faz no acto de comer, mas é o amor que dignifica e dá valor ético ao sexo.

Como dizia Erich Fromm afirmar o prazer, para além da realidade, é equivalente a negá-lo. Qualquer prazer agradável ao longo da vida deve ser restrito dentro dos limites da natureza humana. Abusando do prazer, seja do tipo que seja, para além da condição e natureza humana, encurta a vida e por consequência também o prazer.

Castidade quer certamente dizer abstinência para alguns e às vezes para todos. No entanto, como valor universal ou virtude a ser proposta a todos, sejam casados, solteiros ou religiosos, a castidade refere-se não só à prática ou não prática do acto sexual genital, mas a toda a nossa vida e a todos os nossos actos, pensamentos e sentimentos; sendo a nossa sexualidade, masculina ou feminina, transversal e intrínseca ao nosso ser, não há pensamentos, sentimentos e acções que sejam assexuadas.

Tão casto é o religioso que por amor ao Reino se abstém de relações sexuais, como o casado que as tem com e por amor à sua esposa. Como atitude, a castidade tem mais que ver com a purificação do sexo, ou seja antepor o amor ao prazer, que com a ausência dele.

St. Agostinho, já no século IV, dava mais importância à atitude que ao acto quando dizia: "Ama et fac quod vis." Ama e faz o que queres. Amar como define Sto Tomás de Aquino, é querer o bem do outro pelo que quem ama, verdadeiramente, não pode não fazer o bem.
Pe. Jorge Amaro, IMC