19 de julho de 2014

Jovens que desperdiçam a juventude

"You are young, so shut up and enjoy life..."
“Youth is wasted on young people”… É uma máxima popular do mundo inglês, normalmente citada pelos adultos, acerca da forma como os jovens desperdiçam a sua juventude. A juventude é o tempo em que o corpo e a mente estão ao máximo das suas potencialidades mas geralmente falta a sabedoria, a motivação e a força de vontade para o gerir. Caso para dizer “Dá Deus nozes a que não tem dentes e dentes a quem não tem nozes”; quando há energia não há sabedoria, quando a sabedoria vem a energia foi-se…

É certo que todos aprendemos com os nossos erros, mas a vida é tão curta que melhor é aprender dos erros dos outros, pois não há materialmente tempo para fazer todos os erros e tirar deles todas as lições que precisamos… Três são, a meu ver, os dilemas que a juventude tem à sua frente e das opções que tomarem, ante estes três dilemas, vai depender a sua juventude e o resto da sua vida.

Hormonas versus mente
A explosão de hormonas, de que é alvo o organismo jovem, é muito intensa e o adolescente sente que o corpo lhe pede actividade, acção. Consumidores bulímicos do audiovisual, telemóvel, videogames televisão, computadores, cinema, privilegiam a experiência sensorial e emocional em detrimento da actividade mental e racional.

O corpo, como as suas exigências, governa a mente e não o contrario; as suas identidades, pessoais e sociais, não são construídas a partir dos valores ou categorias racionais, como o dever e o compromisso, mas sim a partir das suas experiências sensoriais. Sem estímulos sensoriais, os jovens de hoje, são como brinquedos sem pilhas.

Toda a forma de regulação institucional é percebida como uma restrição intolerável da liberdade e realização pessoal. Os ideais e as normas tradicionais, assim como a sua concretização em obrigações e valores, foram substituídos pelos imperativos da felicidade, e os direitos individuais. Os jovens adotam uma moral “light”, sem obrigações nem sanções, onde tudo o que é agradável é bom, e vice-versa, sendo o bem sinónimo de bem-estar.

Ensimesmados e rodopiando à volta de si mesmos, muitos jovens, vêem a vida, não como tempo e energias dedicados a alguém ou a um valor humano mas sim, como um bem de consumo, pelo que na prática podem concluir: “Consumo, logo existo”

Prazer imediato versus prazer adiado
A satisfação ilimitada dos desejos não produz bem-estar, não é o caminho da felicidade nem sequer do máximo prazer. ERICH FROMM Ter e Ser

O segundo dilema planteia-se entre o prazer imediato e o prazer adiado; ou mesmo o trocar o prazer imediato de hoje pela alegria de amanhã. Um corpo jovem está capacitado para fruir e usufruir dos prazeres mais variados e requintados, em intensidade e qualidade, sem consequências nefastas imediatas; por outro lado, nunca como hoje, a sociedade de consumo ofereceu tantos meios para a consecução de todo tipo de prazeres e sensações.

A força da tentação, conjugada com a mentalidade de gozar enquanto é tempo, leva muitos a sucumbir e a ficar adictos a substâncias, ou comportamentos obsessivos, repetitivos e viciantes, que levam à perda da liberdade e à ruina do corpo e do futuro… Como alguém dizia, Uso – Abuso – Fora de Uso… O psicanalista Erich Fromm alertou há muito que o prazer ilimitado não conduz ao máximo prazer mas à dor.

No âmbito da capacidade para adiar prazeres, foi conduzida uma experiência com crianças de 5 anos, às quais foi dado um caramelo e dito que as que se abstivessem de o comer, durante uma hora receberiam três mais. As crianças que resistiram à tentação, de comer o caramelo esperando outros três depois de uma hora, triunfaram mais na vida que as que não resistiram à tentação de o comer.

O prazer desbocado, sem rédeas, do corpo conduz à tristeza da alma. A alegria interior requer muitas vezes o sacrifício, ou sofrimento, do corpo mas recompensa pois é mais duradoira que o prazer e mais gratificante. A memoria do bem feito, especialmente quando contribuímos para a felicidade e bem-estar dos outros, é como a água que Jesus prometeu à Samaritana, dá alegria até ao fim da vida…

Contraria a esta realidade a tendência na juventude é de buscar cada vez mais o imediato: no campo das drogas, estas estão cada vez mais puras e sintéticas, levando à adição de uma forma mais rápida; no campo do consumo do álcool, o “shot” substituiu o beber alongadamente, em quantidade e em tempo. Por isto, faltando o realismo que confere o passado, e o idealismo ou utopia que confere o futuro, o jovem de hoje não tem nada pelo que lutar, só tem uma vida para viver no sentido de consumi-la.

Não queremos dizer que ser estóico é bom e ser hedonista é mau… De facto, o prazer em si é bom, desde que não seja a motivação principal de nenhum acto humano. Gozar a vida no presente é bom, desde que não comprometa e arruíne o futuro; o prazer da bebida é bom, quando a motivação principal é a saúde e o socializar; o prazer da comida é bom, quando tem em conta a saúde como motivação principal; o prazer do sexo é bom, quando é expressão de amor no contexto de um compromisso entre duas pessoas.

 Alguém dizia que a juventude de agora é como a fruta de estufa; vai de verde a podre sem passar por madura. Trata-se de uma generalização exagerada, no entanto não são poucos os jovens que se enquadram nestes paramentos.

Mínimo esforço versus máximo esforço
A lei do mínimo esforço tem governado e inspirado o progresso, a ciência e a técnica desde o aparecimento do homo sapiens; enquanto o Neandertal se adaptava à natureza, o homo sapiens adaptava a natureza à sua mente e necessidades. Basta olhar à nossa volta para ver como as descobertas científicas do seculo XIX, e as aplicações técnicas no seculo XX e XXI, trouxeram uma melhoria de vida material. Desde a descoberta da máquina a vapor, o trabalho humano é cada vez menos físico e cada vez mais intelectual.

Consumidores numero um, de todos os avances da técnica, os jovens podem ser levados a pensar que o progresso pessoal e espiritual é também governado pela lei do mínimo esforço, e tomar a atitude da lebre, com relação à tartaruga, na corrida para a meta. Se a lei do mínimo esforço governa o progresso material, o progresso pessoal e espiritual continua a ser governado pela lei do máximo esforço.

Analogamente Freud definiu maturidade como sendo a mudança de uma vida que assenta no princípio do prazer, como é a da criança e adolescente, para uma vida que assenta no principio da realidade. Por isso se no progresso material devemos ser homo sapiens, ou seja adaptar a realidade à nossa mente, no progresso espiritual e pessoal devemos ser neandertais, ou seja, adaptarmo-nos à realidade e natureza das coisas. Se a vida matéria é descendente, e a descer todos os santos ajudam, a vida espiritual é ascendente. O jovem, quando devia adiar o prazer e não a responsabilidade, faz precisamente ao contrário, como um Peter Pan, adia a responsabilidade e frui do prazer.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 comentário:

  1. Aonde é que isto vai parar!
    Ou aí perto!
    À espera dos muçulmanos!

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