15 de janeiro de 2014

Praxe académica um "Bullying" permitido

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As árvores puseram-se a caminho para ungirem um rei para si próprias. Disseram, então, à oliveira: 'Reina sobre nós.' Disse-lhes a oliveira: 'Irei eu renunciar ao meu óleo, com que se honram os deuses e os homens, para me agitar por cima das árvores?' As árvores disseram, depois, à figueira: 'Vem tu, então, reinar sobre nós.' Disse-lhes a figueira: 'Irei eu renunciar à minha doçura e aos meus bons frutos, para me agitar sobre as árvores?' Disseram, então, as árvores à videira: 'Vem tu reinar sobre nós.' Disse-lhes a videira: 'Irei eu renunciar ao meu mosto, que alegra os deuses e os homens, para me agitar sobre as árvores?' Então, todas as árvores disseram ao espinheiro: 'Vem tu, reina tu sobre nós.' Disse o espinheiro às árvores: 'Se é de boa mente que me ungis rei sobre vós, vinde, abrigai-vos à minha sombra; mas, se não é assim, sairá do espinheiro um fogo que há-de devorar os cedros do Líbano!' Juízes 9, 8-15

O lado bom da praxe
A saída da escola secundaria e a entrada na Universidade é um marco na vida do jovem de hoje. As praxes, de alguma forma, são com um rito de passagem da adolescência para a juventude e idade adulta, da escola secundária para a Universidade. É também a celebração de uma vitória, o ter conseguido entrar numa faculdade, e o culminar de muitos anos de esforço para conseguir a média exigida. Muitos tentam mas nem todos o conseguem, por isso vestir o traje preto de estudante de universidade tem o seu garbo e é todo um distintivo de sucesso. 

As praxes ajudam a integração, criam uma identificação com a universidade, com o curso, com os colegas, cria laços de amizade e cria uma comunidade. A praxe pode transformar a massa informe, da multidão de alunos de uma universidade, na familiaridade de um lar académico ao que os alunos se tinham habituado na sua escola secundaria.

As praxes constam de jogos ou rituais ridículos e parvos que fazem rir o próprio, a comissão dos que praxam e a grande assistência: seguir uma pessoa como se fossemos a sua sombra; buscar coisas com a boca num pote cheio de farinha; fazer uma declaração de amor, matar uma formiga com gritos, cortar a relva com um corta-unhas etc…

Assim sendo, e se assim sempre fosse, as praxes seriam positivas pois funcionariam como “icebreakers”, dinâmicas de conhecimento, comunicação, afirmação, confiança, cooperação para intimidar os mais tímidos a sair da casca e integrar-se no grupo. Tudo isto envolto em clima de festa, riso, comédia e farra.

A institucionalização do “bullying”
Há uns anos a esta parte a prática da praxe, supostamente ainda cumprindo com a tradição e a razão para a qual foi criada, tem vindo a descambar. Em muitos casos já não é um divertimento inocente, mas uma brincadeira de mau gosto, um atentado contra a dignidade, decência e integridade moral e física dos jovens que a ela se submetem. Facilmente se recorre à humilhação, ao insulto, à violência, ao álcool e ao sexo. Tem havido estudantes traumatizados, física e psiquicamente, com mazelas para o resto da vida e até algumas mortes, pelo que já não podemos considera-las praxes mas crimes.

Uma caloira conta que foi insultada durante horas, coberta de excrementos e obrigada a ficar assim até ficarem secos; um caloiro foi suspenso pelos pés de cabeça para baixo no alto de uma ponte; outros foram obrigados a beber copos de bar em bar até cairem para o lado.

Ante esta perspectiva uma caloira, inteligentíssima com média de dezanove, no dia anterior a entrada na universidade teve um ataque de pânico ante o prospecto da praxe que a aguardava; tiveram que vir os pais da sua terra natal, para a acalmar, e teve que haver uma intercessão do namorado na comissão das praxes para serem lenientes com ela.

Uma actividade completamente desbocada, arbitraria e desbalizada, que não se limita a um espaço, nem a um tempo, nem se regula por umas normas, praticada pelos piores alunos da universidade sobre jovens vulneráveis por serem novos e quererem integrar-se, só pode dar problemas.

Há vários elementos que levaram a este desvio e que seria bom que o ministério da educação, reitores e professores tivessem em conta para que a praxe volte a ser o que era e deixe de ser o que se tornou: limite ilimitado

  • Já raramente são praticadas no campus, e durante o dia mas sim muitas vezes à noite e fora dele. Reitores e professores podem ver nisto uma vantagem mas a falta, de toda e qualquer, supervisão só pode levar ao abuso.
  • Já não é só no primeiro dia de aulas, mas estendem-se por toda a semana, por varias semanas, todos o ano e frequentemente todos os anos do curso tendo já acontecido até depois do curso.
  • A “peer pressure”, e o medo a ser ostracizado, é tal que os jovens caloiros estão dispostos a submeter-se a tudo com o objetivo de se integrarem bem; isto coloca-os num posição muito vulnerável, susceptíveis de serem abusados.
  • O secretismo e o silêncio que envolve estas práticas são de tipo mafioso, e onde há máfia há impunidade
  • Não se entende como um ritual de passagem para a idade adulta possa constar de uma submissão acrítica a uma autoridade tão frouxa como é o Dux.
  • Se a praxe é as boas vindas à universidade, teria lógica que praxasse o aluno mais brilhante mas a realidade é que é todo o contrário; quem praxa, o Dux é o mais imbecil, o que tem mais matriculas. O que se instalou existencialmente na universidade; o que quer ser sempre estudante como diz o fado; um Peterpan que não quer crescer para continuar a viver parasitariamente à custa do suor dos seus pais e dos impostos dos contribuintes. Assim se premeia o insucesso a preguiça e a irresponsabilidade. Um antigo dux da Lusófona disse em entrevista à TVI que era  sempre convidado a todos os actos públicos da universidade, a todas as festas e farras, chegava a ser mais conhecido e mais popular que o reitor.
  • A não existência de quaisquer regras ou normas faz depender estas práticas do critério e da arbitrariedade do Dux e demais membros da comissão que praxa. A falta de carácter e de maturidade psicológica pode levar estes senhores a projectar, sobre os caloiros cheios de esperança, o ressentimento do seu insucesso escolar e existencial em forma de vingança, endurecendo as praxes. “Se queres conhecer o vilão mete-lhe a vara na mão” O Dux, ou Duce como se chamava o ditador Mussolini, é a pessoa menos indicada para fazer praxes.
Pe. Jorge Amaro, IMC


1 de janeiro de 2014

A vida em três tempos e em três actos

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O homem de hoje é fortemente influenciado pela espiritualidade do “presentismo”, vinda do extremo oriente, e pela filosofia de vida do consumismo, que apela mais aos nossos instintos básicos e menos à nossa razão, buscando desligar os nossos actos no presente, das suas causas no passado e das suas consequências no futuro. O objectivo é levar o homem a viver no pseudo eterno presente de um nirvana consumista.

Quando, na última etapa da nossa vida,  vivermos no verdadeiro eterno presente, o Céu, então o passado e o futuro deixarão de ser importantes; mas até lá, e enquanto vivermos limitados pelas coordenadas do espaço e do tempo, o passado e o futuro são de capital importância.

A vida é como uma peça de teatro em três tempos e em três actos. Quem vive no passado é um morto-vivo, porque o passado já não está operativo, não se pode actuar nele, está fechado, passou; “Águas passadas não movem moinhos”.

Quem vive no presente desintegrado e sem referência ao passado é um vivo-morto, pois não possuindo memória histórica, é uma cana agitada pelo vento, e como não sabe de onde vem não sabe quem é, não tem identidade; quem vive no presente desintegrado e sem referência ao futuro, sem um sonho, sem um projecto, não sabe para onde vai, e “para quem não sabe para onde vai não há ventos favoráveis”.

Quem vive só no futuro, perde muitas oportunidades no presente e esquece-se que esse futuro, para ser possível, tem de ter um pé no presente, ou seja há coisas no presente que devem ser feitas para preparar o projecto a ser completado no futuro; se o futuro é o telhado da casa, o presente são os alicerces e as paredes. Um futuro sem presente é uma utopia, uma fantasia; é viver no limbo num eterno “stand by”.

A vida humana resulta de um vivência equilibrada e harmónica dos três tempos, entre os quais decorre. Vivemos no presente e só no presente; mas ao olhar para o passado descobrimos quem somos e o sentido da nossa vida; e ao projectar-nos no futuro encontramos a motivação do nosso viver. O presente é só uma peça de um puzzle que na sua totalidade inclui o passado e o futuro.

  • O passado é a razão, o presente a nossa acção, o futuro a nossa motivação.
  • O passado é a tradição, o presente a acção, o futuro a inovação.
  • O passado é o que fomos, o presente o que somos, o futuro o que seremos.
  • O passado é o ser, o presente o existir, o futuro o transcender.
  • O passado é Deus Pai que nos criou por amor, o presente Deus filho que nos salvou e salva dando-nos saúde aqui e agora; e o futuro é Deus Espírito Santo que nos anima, inspira e dá força no nosso caminhar.
  • O passado é a fé, o futuro a esperança, e o presente a caridade.
A fé identifica-nos com um passado
O património da humanidade não é constituído só pelos monumentos históricos, mas por tudo o que a raça humana é e fez ao longo dos 5 milhões de anos da sua existência neste planeta. Tudo isto é geneticamente incorporado no ADN, de cada criança que vem a este mundo, é algo assim como o inconsciente colectivo de Jung, é parte de nós e define-nos como tal. Tudo isso é passado.

“Libris ex libris fiunt”, quando quero criar algo novo, em qualquer campo do saber, tenho que pesquisar sobre o que já foi feito naquela matéria, para assim agregar o fruto do meu trabalho. Só Deus tem a capacidade de criar do nada.

A fé num Deus pessoal, criador de tudo e de todos, que se revelou pelos profetas e depois no Seu Filho, que nos enviou o Espírito Santo, já tem uma história. A minha aderência a esta fé leva-me a fazer parte desta história, e dá-me identidade, e sentido de pertença a um povo e uma comunidade.

O mesmo sucede a nível individual; sei o que sou e do que sou capaz ao olhar para trás, e ver o desempenho dos meus talentos e dos meus defeitos nas diversas circunstancias que a vida me deparou ao longo da minha história pessoal. É a aprovação desse passado que me dá o sentido de autoestima, que preciso para me relacionar adequadamente comigo mesmo, com Deus, com os outros e como o meu entorno.

Até Deus que vive na eternidade, fora do espaço e devir do tempo, para se apresentar aos homens, fez-se valer da sua convivência com eles no passado, apresentando-se a Moisés como sendo o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob…

A esperança projecta-nos no futuro
Obstinado o burro, como não queria andar, o moço atou uma cenoura, na ponta de um cordel, que pendurou num pau, depois montou no burro e colocou a cenoura dois palmos à frente do focinho do burro. Na esperança de trincar a cenoura o burro lá ia andando, não se dando conta que a cenoura também se deslocava.

A esperança é a fé com rodas; a fé dinâmica que nos projecta no futuro. Todos precisamos de uma “cenoura” para caminhar. O sonho é o motor da vida; não está no presente o que inspira o nosso presente.

Martin Luther king foi um daqueles que, projectado no futuro, hipotecou a sua vida na luta pela igualdade entre brancos e pretos; um sonho que ele sabia que não se realizaria na sua vida. No dia anterior ao seu assassinato, inspirando-se em Moisés que depois de 40 anos a caminhar pelo deserto viu a Terra Prometida, na qual não entrou, desde o alto do Monte Nebo disse: Estou grato a Deus porque me concedeu ver a Terra Prometida, posso não entrar nela convosco mas estou certo de que nós, como povo, um dia entraremos nela.

Só se vive com sentido no presente se este está impregnado de futuro. Viver um presente sem a presença do futuro é andar à deriva. E quando o presente é doloroso, é a esperança num futuro melhor que nos ajuda a suporta-lo.

A caridade preenche o nosso presente
Ao contrário do passado e do futuro, o presente está nas nossas mãos, nele e só nele somos livres para actuar. O presente é o aqui e agora da nossa vida que devem ser cheios de acção, de actos de caridade e amor. Para o cristão viver é amar e amar é servir, colocar-se ao serviço dos que mais necessitam.

Pondo em proporção o que a Madre Teresa de Calcutá fazia, e o muito que havia para fazer ante tanta pobreza e miséria, um jornalista disse um dia, “O que a Madre faz é como uma gota de água no oceano”; ao que ela respondeu com muita humildade, “sim mas se o não fizesse o oceano teria uma gota de água menos”. 

Deus não nos pede que revolucionemos o mundo, ou que façamos o melhor, só nos pede o nosso melhor. Na parábola dos talentos, o que conseguiu mais não é mais louvado que o que conseguiu menos; na parábola dos trabalhadores da vinha, os que trabalharam o dia inteiro não receberam mais do que os que trabalharam só uma hora; na parábola do semeador, os que produzem 100% não são mais exaltados que os que produzem 60% ou os que só produzem 30%.

Muito ou pouco, tudo o que o Senhor nos pede é que demos fruto. Que a nossa vida seja produtiva; que deixemos cá mais do que o que cá encontramos. Que sejamos parte da solução e não parte do problema; ou seja que o nosso viver e actuar seja um contributo para a solução dos problemas deste mundo e não um contributo para os agravar.

Três virtudes três Papas
Há quem queira ver uma encarnação das virtudes teologais na vida dos três últimos papas da Igreja. João Paulo II, o que transpôs o umbral do terceiro Milénio, é o papa da Esperança; Bento XVI, que escreveu uma encíclica sobre a fé, proclamou o ano da fé e toda a usa vida como teólogo se debateu pela razoabilidade da fé, é por consequência o papa da Fé; O Papa Francisco, pelo nome que escolheu pelas suas palavras e gestos, o papa da caridade.
Pe. Jorge Amaro, IMC