1 de outubro de 2013

Falhas na transmissão da Fé

Obama, jurou o seu cargo sobre a Bíblia
A transmissão da fé cristã, de geração em geração desde os Apóstolos, tem vindo a enfraquecer; o rebanho de Cristo diminuiu drasticamente; hoje são mais as ovelhas perdidas que as que continuam no redil. O que estará a acontecer? Inúmeras podem ser as causas, enumero algumas na esperança de que os leitores, destas linhas, possam descobrir outras.

Transmite-se uma doutrina, não uma relação pessoal com Cristo – O cristianismo não é uma doutrina, uma ideologia, nem sequer uma filosofia de vida. O cristianismo é sobretudo, e acima de tudo, uma relação pessoal, íntima e amorosa com Cristo. São poucos os educadores da fé (Clérigos, pais, catequistas e professores) que a têm; e como ninguém dá o que não tem, o que transmitem estes educadores da fé, às gerações vindoiras, é uma doutrina e uns preceitos que em grande medida a cultura ocidental já assimilou ao longo dos séculos.

Por isso, sobram os cristãos que o são desde um ponto de vista sociológico, cultural ou de cosmovisão e faltam os cristãos que põem em prática a sua fé, esforçando-se por ser como Cristo no seu dia-a-dia; faltam os cristãos que celebram a sua fé em comunidade; faltam os cristãos éticos que são pessoas de bem e se debatem por um mundo melhor às vezes com o risco da própria vida.

Falta de pedagogia – O homem pós-moderno, sobretudo o jovem, fez de si próprio medida de todas as coisas. Não há verdades objectivas, universais e eternas; só é verdade, só tem valor e é normativo, o que ele descobre por si mesmo, não o que lhe vem imposto desde fora por quem quer que seja.

Ante esta realidade impõe-se não uma “nova evangelização”, como propunha João Paulo II, mas sim uma “evangelização nova”, como propunha o Cardial Martini. A solução não é evangelizar de novo, mas sim evangelizar de outra forma.

É certo que Cristo continua a ser o único caminho, verdade e vida, não havendo uma alternativa igualmente valida e viável para viver a vida humana em plenitude e com sentido. Só que agora, para que esta verdade seja operativa, o homem pós-moderno tem que a descobrir, ele mesmo, no interior do seu ser.

Algo de semelhante se passa na psicoterapia. As descobertas que o psicoterapeuta faz e declara ao cliente a modo de diagnóstico, não só não têm nenhum valor para o dito cliente como podem até ser contraproducentes. O que verdadeiramente tem valor terapêutico, e pode ser o princípio de uma transformação interior, é o que o cliente descobre de si mesmo e por si mesmo com a ajuda do psicoterapeuta.

É com base neste princípio que operam duas grandes correntes de psicoterapia, a não directiva de Carl Rogers e a Guestaltica de Fritz Perls, assim como as teorias de intervenção social de Paulo Freire.

O que fazem estes autores é adaptar a velha maiêutica de Sócrates; a arte de ajudar a dar à luz. A verdade ou já está dentro de nós ou temos capacidade para a descobrir. Jesus de Nazaré usou este mesmo método na sua forma de evangelizar. Dialogava com os seus interlocutores e por meio de parábolas que revelavam a verdade da vida do dia-a-dia que eles conheciam, interpelava-os, exortava-os e ajudava-os a descobrir verdades eternas que desconheciam:
  • «Simão, que te parece? De quem recebem os reis da terra impostos e contribuições? Dos seus filhos, ou dos estranhos?» Mateus, 17,25
  • Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?» Lucas 10, 36
  • «Um prestamista tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários o outro cinquenta. Não tendo eles com que pagar, perdoou aos dois. Qual deles o amará mais?» Lucas 7,41-42
  • O Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda, fermento, tesouro escondido num campo, negociante de pérolas, uma rede lançada ao mar, um proprietário que saiu ao romper da manhã, 10 virgens…

  Faltam ícones ou de pontos de referência – Os Ícones são imagens ou pessoas que nos fazem recordar as verdades da nossa fé; quando olhamos para eles, e os contemplamos, somos magicamente transportados do presente imediato para o eterno de Deus; de uma forma genérica, ícone é tudo o que nos invoca algo para além de si mesmo; os ícones são assim ponto de referencia da nossa fé, recordatórios e contínuos convites a encarnar a nossa fé no aqui e agora da nossa historia pessoal. Enfim são são da terra e luz do mundo, sem eles andamos todos mais perdidos e não encontram ajuda os homens de pouca fé. Vejamos alguns exemplos:
  • Alguns sacerdotes, religiosas e religiosos, sem nenhum signo exterior que os identifique, optam por andar camuflados;
  • Crucifixos e imagens foram retirados de lugares públicos e das paredes dos nossos lares
  • Os célebres, políticos, cientistas, famosos das artes e do desporto declaram-se agnósticos, como se essa fosse agora a moda, e se por ventura são religiosos entendem que a fé pertence ao domínio privado;
  • Em vez de jurar o cargo sobre a constituição, muitos presidentes dos Estados Unidos juram-no sobre a bíblia, e não começam nem terminam um discurso sem invocar a Deus, os políticos europeus, quando religiosos, têm vergonha ou medo de se assumirem como cristãos, temem perder os votos dos agnósticos talvez.
  • O primeiro banco da Igreja era o colo dos pais e Jesus era a terceira palavra que um bebé aprendia depois de papa e mamã…
Ciência e a técnica como nova religião – Um crescente número de pessoas, substituíram a fé na omnipotência de Deus pela fé na pseudo omnipotência da ciência e da técnica. A ciência e a técnica são de facto importantes, pois solucionam inúmeros problemas e fazem a nossa vida mais confortável; a ciência e a técnica dizem-nos ou respondem-nos ao “como”, Mas nunca nos dirão o “porque” nem o “para que”.

O agnóstico dirá que a ninguém importa saber o “porque” e "para que"; É verdade, como dizem os ateus, que o homem é o momento em que a natureza tomou consciência de si mesma. Precisamente desde esse momento o ser humano busca sentido para o seu viver. Todo individuo no momento em que toma consciência de que existe, à volta dos 6 ou 7 anos de idade se pergunta de onde vem a onde vai e que sentido tem a vida; só os animais, o não fazem porque não têm consciência de que existem.

Pe. Jorge Amaro, IMC

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