15 de janeiro de 2013

Fé, Missão e Martírio

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Eu vim lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que ele já se tivesse ateado! Lucas 12.49
Em sintonia com o ano da fé, proclamado pelo Papa Bento XVI, Fé Missão e Martírio é o tema anual, de reflexão, para toda a família Consolata. Este tema percorre transversalmente e inspira as nossas actividades, encontros e retiros para este ano.

A fé verdadeira é mais que uma cosmovisão - uma forma de ver e interpretar o mundo e a vida; mais que um assentimento intelectual à crença na existência de um Deus, Criador do Céu e da Terra e Salvador em Cristo seu único filho; mais que um sentimento de amor por Deus e pelo próximo; mais que uma opção fundamental, pois transversalmente penetra tudo o que somos, sentimos e fazemos. A fé é tudo isto, mas é também, e sobretudo, um dom de Deus. Tal fé encontra na Missão a sua expressão natural. Parafraseando o apóstolo, Tiago 2,17, a fé sem Missão é uma fé morta.

Missão e martírio são uma e a mesma coisa. Missão não é fundamentalmente pregar a palavra de Deus, nem fazer obras de caridade, Missão é dar testemunho da nossa relação íntima de amor com Cristo, e oferece-la aos outros. Ninguém pode dar o que não tem, se não possuímos uma relação intima, pessoal e amorosa com Cristo não podemos, nem devemos ser missionários.

Testemunho em Grego é “martirete”; o missionário é o que dá testemunho de Cristo, quaisquer que sejam as circunstâncias, a tempo e a destempo, a propósito e a desproposito, como diz São Paulo. Esse dar testemunho pode significar uma vida curta, como a de Cristo, dar a vida num minuto; ou pode significar uma vida longa, sendo fiel minuto a minuto, todos os minutos da nossa vida.

Há portanto duas formas de martírio, como há duas formas de combustão: combustão viva, “poner toda la carne en el assador”, ou combustão lenta, como quando se faz carvão vegetal, lentamente a madeira transforma-se em carvão, que por sua vez lentamente vai ardendo e aquecendo quem tem frio.

Na verdade, quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, há-de salvá-la. Marcos 8, 35

Missão apela à vida, martírio apela à morte. Em Cristo, vida e morte encontram-se harmonizadas: “What is not worth dying for is not worth living for”. Não ocupes a tua vida com coisas pelas quais não estás disposto a morrer; que a razão da tua vida seja a razão da tua morte e vice-versa.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de janeiro de 2013

Dimensão Cristã do Tempo

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Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e pelos séculos. Hebreus 13,8

Eu sou o Alfa e o Ómega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim. Apocalipse 22, 13

O tempo cósmico, o Circulo, – Partindo do objectivamente observável, na Antiga Grécia e no Extremo Oriente prevaleceu sempre uma compreensão circular do tempo: do ponto de vista cósmico, os 365 dias que a terra leva a dar uma volta ao sol; do ponto de vista da Natureza, mais propriamente das mudanças climatéricas, as quatro estações do ano, Primavera, Verão, Outono e Inverno. A partir destes factos, nasceu para a Filosofia o mito do “eterno retorno”, para a Ciência a ideia de que “Não há nada de novo de baixo do sol” e para a Religião a crença na “reencarnação”.

O tempo humano, a Recta – Do ponto de vista existencial e humano, cada dia que passa é um dia mais que vamos viver e um dia menos do que nos resta de vida. Conceber o tempo como uma recta, que vem do passado, passa pelo presente e se dirige ao futuro, não é nada que se possa observar na natureza. O tempo em linha recta é o tempo da história individual e comunitária, o tempo que integra a ideia de progresso: hoje foi melhor que ontem, amanhã será melhor que hoje. Na Filosofia, a máxima “não nos banhamos duas vezes nas águas do mesmo rio” de Heraclito partilha desta compreensão do tempo, verificando-se o mesmo na Cosmologia e na Religião que veiculam as noções do princípio e do fim do mundo.

Esta é também a concepção judaica do tempo: a saída do Egipto (terra de escravidão), a passagem pelo deserto (lugar do sofrimento, penitência, purificação e esforço) e a entrada na Terra prometida, onde corre leite e mel (terra da liberdade, do esforço recompensado e da obra acabada). Este é o arquétipo do progresso e da vida humana preconizado, até, pelo teoria de Karl Marx, na qual: o Egipto seria o capitalismo, o deserto seria a ditadura do proletariado e a terra prometida seria o socialismo e a sociedade sem classes.

O tempo Cristão, a Espiral – É a síntese entre a recta e o círculo, dado que é um círculo em contínuo movimento para a frente. O dicionário da língua Portuguesa define espiral como sendo “uma linha curva, ilimitada, descrita por um ponto que dá voltas em torno de um polo e do qual se afasta progressivamente” como uma hélice, uma mola ou uma escada em caracol. Este é o tempo cristão e, inclusive, o humano (é de notar que é sob a forma espiral que o ADN do nosso código genético é representado). Como indica a figura, cada ano constitui-se por 365 dias à volta do Sol – Sol que é Cristo, que ilumina e dá sentido à nossa vida, que é o princípio e é o fim, quer do Universo como das nossas vidas individuais.

O tempo cristão, portanto, nem é um círculo nem é uma recta, ou seja, cada Natal e cada Páscoa são diferentes, dado que o ano em que estamos e as condições situacionais em que vivemos são diferentes. No entanto, Cristo é a constante durante toda a nossa vida, Ele é o eixo à volta do qual gravitamos, “É nele, realmente, que vivemos, nos movemos e existimos” (Actos dos Apóstolos 17,28). Cada ano que passa meditamos em torno do mistério de Cristo, desde a sua Encarnação até à sua Morte, Ressureição e Ascensão aos céus. Em última análise, para irmos saindo do nosso “Egipto” pessoal, configurando a nossa vida cada vez mais à Dele, no sentido um dia chegarmos à Terra Prometida e podermos dizer como São Paulo: “Já não sou eu que vivo é Cristo que vive em mim”. (Gálatas 2,20). Feliz Ano Novo amigos!
Pe. Jorge Amaro, IMC