15 de junho de 2022

Saramago já deve saber...

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Os filhos de Israel subiram à cidade, cada um pela brecha que tinha na sua frente e tomaram a cidade. Votaram-na ao anátema, passando ao fio da espada quanto nela encontraram, homens e mulheres, crianças e velhos, e os bois, as ovelhas e os jumentos. Josué 6, 20-21

Mas, se não expulsardes da vossa frente todos os habitantes do país, aqueles que tiverdes poupado serão como espinhos nos vossos olhos e como aguilhões nos vossos flancos; atormentar-vos-ão no território que ocupardes e eu tratar-vos-ei a vós como tinha resolvido tratá-los a eles. Números 33, 55-56

Nestes textos de uma violência extrema Deus não só ordena o genocídio dos cananeus como fica irado por terem sido poupados alguns. No capítulo 15 do 1º livro de Samuel lemos que o rei Saul perde a confiança de Deus, que passa para David, por ter sido bom demais e ter poupado alguns amalequitas, quando o mandamento de Deus era exterminar todos, inclusive as mulheres, as crianças e os idosos.

O Antigo Testamento está repleto de histórias de violência que contradizem a ideia de um Deus compassivo e misericordioso do Novo Testamento. Não é sem razão, portanto que o finado Saramago (Prémio Nobel da Literatura em1998) disse que a Bíblia era um livro violento. Embora em número menor, mesmo no Novo Testamento também encontramos algumas imperfeições que poderiam envergonhar-nos.

História de Israel e natureza humana
No que se refere ao Antigo Testamento, a Bíblia contém a história de Israel e a idiossincrasia do povo judeu, tal e qual ele foi ao longo dos tempos. Neste sentido, a Bíblia é uma obra literária que é para os judeus o que “Os Lusíadas” de Camões, é para os portugueses.

Para além da história e idiossincrasia de um povo, na Bíblia descreve-se a natureza caída do ser humano: o ser humano tal qual ele é, com os seus altos e baixos, perfeições e imperfeições. Apesar de inspirados por Deus, os autores da Bíblia não esconderam esta natureza caída debaixo do tapete, pois o que não é assumido não é redimido, como disse mais tarde Sto. Atanásio.  

O episódio dos fariseus que trouxeram a Jesus uma mulher apanhada em flagrante ato de adultério (João 8, 1-11) pode ser lido como uma metáfora do que a Bíblia é: o encontro de Deus com o Homem, ou seja, o encontro da misericórdia divina com a miséria humana.

Desde o princípio, logo depois do primeiro pecado, Deus não abandonou o homem a si mesmo, mas foi pedagogicamente acompanhando-o e enviando-lhes profetas, preparando-o para a Sua própria vinda como ser humano modelo ao encontro do ser humano caído em desgraça.

Jesus de Nazaré assumiu a natureza humana, pois foi em tudo igual a nós exceto no pecado, porque o pecado não pertence à natureza humana tal como Deus idealizou e criou, mas sim à natureza humana que o homem arruinou com o pecado. Jesus, Deus feito homem, assume e aceita esta natureza humana caída, entrando em comunhão com os pecadores, comendo com eles nas suas casas e andando na sua companhia, sem lhes exigir que mudem de vida. São eles que decidem mudar de vida ao verem-se incondicionalmente aceites por Jesus tal como são, como se vê no episódio de Zaqueu (Lucas 19, 1-10).

Ouvistes o que foi dito… eu digo-vos
Ouvistes o que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, digo-vos: Não oponhais resistência ao mau. Mas, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. Se alguém quiser litigar contigo para te tirar a túnica, dá-lhe também a capa. Mateus 5, 38-40

Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Mateus 5, 43-44

No Sermão da Montanha, Jesus contrapõe a sua doutrina, à qual metaforicamente se refere como vinho novo, à doutrina de Moisés e aos costumes do Antigo Testamento. Também estabelece uma nova e eterna aliança que revoga a antiga.

Por isso, a norma para nós é o que diz o Novo Testamento e o que no Antigo Testamento está em linha com o Novo. Neste último, é o próprio Deus, através do seu filho Jesus Cristo, a falar à natureza humana, a partir do interior da natureza humana. Com Cristo e a sua doutrina em mente, interpreta mal a Bíblia quem pretenda com ela justificar atos de violência.

Ler a Bíblia da frente para trás
Ninguém, nem no céu nem na terra, nem debaixo da terra era capaz de abrir o livro nem de olhar para ele. (…) O Cordeiro aproximou-se e recebeu o livro da mão direita do que estava sentado no trono (…) Tu, és digno de receber o livro e de abrir os selos; porque foste morto e, com teu sangue, resgataste para Deus, homens de todas as tribos, línguas, povos e nações; Apocalipse 5, 3, 7, 9

Ao contrário dos outros livros, a Bíblia deve ser lida da frente para trás. É Cristo, cordeiro imolado, que pode “abrir”, ou seja, interpretar a Bíblia. É a partir d’Ele, palavra definitiva do Pai, que tudo deve ser lido, pois tudo aponta para Ele. Ele e só Ele tem a chave da sua interpretação.

A Bíblia deve ser lida da frente para trás, ou seja, o Antigo Testamento deve ser lido a partir do Novo, a partir da perspetiva que adquirimos com a leitura do Novo. Neste caso, a chave de interpretação destes textos é a figura de Cristo como o cordeiro de Deus sacrificado.

Ler o Antigo Testamento em sentido metafórico
Face a isto, os textos violentos, sobretudo os que apelam ao genocídio, podem ter um valor simbólico e metafórico. Neste sentido, Israel representa a vontade de Deus, o fermento do Reino de Deus, o povo que Deus chamou para com Ele começar uma história de salvação para toda a humanidade. Os inimigos de Israel, cananeus, filisteus, amalequitas, babilónios ou assírios, são os inimigos do plano universal de salvação. A luta deixa de ser física e passa a ser espiritual.

Quando se luta contra o mal, chame-se este como se chamar, não podemos usar meias medidas, pois não é com meias medidas que se erradica o mal, mas sim com o radicalismo de o arrancar pela raiz. Acabar com os inimigos de Israel, matando homens, mulheres e crianças e até os seus animais domésticos tem agora o sentido de erradicar o mal pela raiz. O vício do tabaco, do álcool ou qualquer outro também não se combate com meias medidas, mas com radicalismo e determinação. 

Conclusão: O finado escritor José Saramago, ateu e Prémio Nobel da Literatura de 1998, já deve saber que Deus existe de facto e que a Bíblia é constituída por dois testamentos – o Antigo, representa o homem tal como é e o Novo o homem como deve ser, à imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo.   

Pe. Jorge Amaro, IMC

 

1 de junho de 2022

Para que serve a Religião?

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Há cada vez menos pessoas religiosas. Será que a religião não serve para nada? Que dizem as estatísticas sobre a vida dos que são religiosos e dos que não são? Quais deles são mais felizes? Quais os melhor preparados para enfrentar o infortúnio?

Uma chamada à autotranscendência
Os antigos olhavam à noite para as estrelas e isso elevava o seu pensamento para além dos afazeres e preocupações do dia-a-dia; um olhar mais além de si mesmos e do mundo para a transcendência levava naturalmente a uma maior auto-transcendência. Nestes tempos modernos, os homens já não olham para as estrelas, mas sim para a televisão.

A televisão em geral, nos horários de maior audiência ou no chamado horário nobre, apresenta os programas menos nobres. Longe de ser um chamamento à autotranscendência, a TV leva o homem a imiscuir-se mais do que está no mais imediato e urgente, nos assuntos do dia-a-dia. Alguém dizia que os homens contemporâneos andam em círculos, às turras uns com os outros, porque deixaram de olhar para o céu.

Numa aldeia havia um moço que atirava pedras à lua; é claro que nunca a atingiu a sua diana a Lua, mas era, de todos os moços, o que atirava pedras mais longe. Por isso o que aparentemente parece algo sem sentido como atirar pedras à lua levou o moço à autossuperação e fez dele o melhor atirador de pedras. O mesmo acontece com a religião que aparentemente não serve para nada, mas a longo prazo os seus efeitos notam-se e são indiscutíveis.

Busca de sentido
A religião deixou de estar presente no dia-a-dia das pessoas, pois já não explica nada nem tem aplicações práticas que tornem a vida melhor e mais aprazível. Ao contrário, a ciência explica cada vez mais coisas e tem aplicações práticas para o dia-a-dia que tornam a nossa vida mais confortável.

A ciência de facto explica muitas coisas, mas não explica o mais importante: diz-nos que o mundo começou com um “Big Bang,” mas não nos diz quem provocou essa grande explosão ou o que havia antes dela, e para que foi prvocada; diz-nos que, desde essa grande explosão, o mundo continua em expansão e vai expandir-se até gastar toda a sua energia e acabar, mas não nos diz o que há para além do fim do mundo. Por fim, o que é mais importante, entre o “Big Bang” e o fim do mundo não nos diz que sentido tem a vida, para que existimos ou por que existimos.

É certo que podemos muito bem viver sem estas questões, como aliás fazem os agnósticos que metem a cabeça debaixo da areia; acham que ignorar as questões é a melhor maneira de responder a elas. Com esta atitude não passaríamos da cepa torta em todos os ramos do saber. A ciência nasce do questionar e buscar razões.

O espírito do ser humano é como a criança que acaba de chegar à idade da razão. Pelos 7 anos de idade, a criança ganha autoconsciência e descobre que existe. Então questiona tudo e todos, buscando razões para satisfazerem o seu espírito inquieto. Normalmente, agarra-se aos pais ou a algum adulto em quem confia e bombardeia-o como uma sucessão de porquês, à procura da razão última ou primigénia da causa não causada.

Frequentemente leva os adultos, que não querem admitir a Deus como causa não causada e razão primordial de tudo e de todos, a um beco sem saída. Neste momento, mandam-na calar e chamam-lhe chata. Assim, a criança pára de questionar-se e de questionar e, como os adultos seus mentores, põe fim a este exercício de buscar o porquê de cada coisa e contenta-se com viver na pura mundanidade, como aliás fazem o resto dos seres vivos que também não se questionam.

A ciência e o resto dos saberes e instâncias da sociedade desentendem-se quanto ao problema da morte. Só a religião apresenta uma solução coerente. Os mais intelectuais, como Karl Marx, dizem que não deve preocupar-nos, pois enquanto nós formos, ela não é; quando ela for, nós não seremos…. Os mais materialistas dizem “Morra Marta morra farta” porque “Enquanto dura é doçura”.

O confronto entre a ciência e a religião é como o confronto entre o amor e o dinheiro. Ninguém nega que ter dinheiro sempre foi e é cada vez mais importante, pois com ele tem-se acesso a uma infinidade cada vez maior de confortos e prazeres. Apesar da inegável importância do dinheiro para a vida, todos concordam que o amor é ainda mais importante. O dinheiro não compra amor, mas o amor pode comprar dinheiro; sem dinheiro a vida ainda tem sentido, mas sem amor não o tem.

Técnica, espiritualidade e ética
Se a ciência, teoria geral das coisas, se traduz pela técnica em aplicações práticas que nos facilitam a vida, a religião, teoria mais geral ainda e mais englobante que a ciência, traduz-se no dia-a-dia em espiritualidade e em ética.

A ciência pela técnica não nos diz como viver a vida e leva a uma forma de materialismo e consumismo, ou seja, a encher a casa de tralhas.

A religião não só dá sentido à vida como, pela espiritualidade e pela ética, nos mostra o caminho que leva à vida em plenitude, à auto-realização, ou seja, à felicidade que todos desejamos. O que a técnica é para a ciência, a espiritualidade e a ética são para a religião.

Se a técnica contribui para o bem-estar material do corpo, a espiritualidade contribui para o bem-estar da alma. Enquanto a ciência e a técnica só se preocupam com o bem-estar material do homem, a espiritualidade visa o bem-estar da pessoa como ser individual, a ética visa o bem-estar do indivíduo como ser social e parte integrante de uma comunidade

Os que vivem na pura mundanidade dirão que tanto a espiritualidade como a ética podem existir e subsistir sem a religião. De facto é essa a tendência do homem pós-moderno.

Isto leva-nos de volta à criança inquisitiva que acima comparámos com o verdeiro espírito do ser humano. Perante uma ética sem religião, somos obrigados a concluir que se o que verdadeiramente conta é o que se passa aqui em baixo, não há uma razão última para as coisas e, se não a há, por que devo ser bom se, sendo mau, obtenho mais coisas, mais dinheiro e mais prazeres?

A espiritualidade sem religião é algo assim como o budismo, o caminho para a iluminação, um aperfeiçoamento pessoal individualista e egoísta que definitivamente leva à sociedade de elites e castas que ainda vigoram na terra natal do budismo. A religião chama a espiritualidade ao altruísmo, a dizer que devemos amar os outros como nos amamos a nós mesmos; ou seja, tudo o que de bom buscamos para nós mesmos, devemos buscá-lo em igual medida para os outros.

Conclusão: Como o ser humano é naturalmente religioso, a vida na pura mundanidade é uma religião politeísta que consta do amor pelo poder, pela fama e pelo prazer e que tem o dinheiro como Zeus, o pai dos deuses.

A religião faz-nos livres do apego aos bens materiais, quando amamos a Deus sobre todas as coisas; dá-nos a alegria de viver quando nos amamos a nós mesmos como Deus nos ama, constrói uma sociedade justa e pacífica quando amamos o próximo como a nós mesmos.  

Pe. Jorge Amaro, IMC



15 de maio de 2022

Maria, a nova Arca da Aliança

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Muitos dos títulos que se aplicam a Maria nas ladainhas que rezamos depois do Rosário podem ter origem na imaginação e na devoção do povo de Deus. Maria como Arca da Aliança tem as suas raízes na Bíblia. Assim a apresenta o evangelista S. Lucas.

Origem e função da Arca da Aliança
Como regra geral, o judaísmo rejeita manifestações públicas de espiritualidade, preferindo concentrar-se nas ações e crenças. Na verdade, a história do judaísmo começa com Abraão que, de acordo com fontes antigas, destruiu os ídolos que eram o método convencional da observância religiosa na época.

A adoração de imagens ou esculturas é severamente condenada em toda a Torá; o maior pecado que os israelitas, coletivamente, cometeram foi a construção do bezerro de ouro (Êxodo 32), destinado a servir como um intermediário material entre eles e Deus.

Mas na história do povo judeu, houve uma exceção a esta regra. Um objeto feito pelo homem foi considerado intrinsecamente sagrado – a Arca da Aliança.

Construída durante a travessia do deserto, foi utilizada até à destruição do primeiro templo. A Arca era o símbolo mais importante da fé judaica e serviu como manifestação material e concreta de Deus na Terra. As lendas associadas a esse objeto – e as penas severas atribuídas a quem abusasse dele – confirmam a centralidade da Arca para a fé judaica daquele período.

A construção da Arca é ordenada por Deus a Moisés, enquanto os judeus ainda estavam acampados no Sinai (Êxodo 25). A Arca era uma caixa de dois côvados e meio de comprimento, um côvado e meio de largura e um côvado e meio de altura. Feita de madeira de acácia revestida por lâminas de ouro puro, por dentro e por fora.

Na parte inferior da caixa, quatro argolas de ouro foram anexadas, através das quais as duas varas, também feitas de acácia e revestidas a ouro, eram colocadas. A família de Kehath, da tribo de Levi, levaria a Arca em ombros, usando dois varões.

A caixa estava coberta pelo kapporet, de ouro puro, de dois côvados e meio por um e meio. Fixados ao kapporet estavam dois querubins esculpidos, também em ouro puro. Os dois querubins estavam frente a frente, e as suas asas, que envolviam os seus corpos, tocavam-se.

A lenda diz que a Arca caminhava à frente do povo, queimando escorpiões, cobras e espinhos com jatos de fogo que surgiam dela, preparando assim o caminho para o povo de Deus. Também acompanhava os soldados para a guerra; de facto, foi uma vez tomada pelos Filisteus numa batalha.

Do ponto de vista espiritual, a Arca era a manifestação da presença física de Deus na Terra (a Shekhinah). Quando Deus falava com Moisés na Tenda do Encontro no deserto, fazia-o entre os dois querubins (Números. 7, 89). Depois de a Arca ser transferida para o espaço mais sagrado e privado do Tabernáculo, e mais tarde no templo, passou a ficar acessível apenas uma vez por ano e apenas por uma pessoa. No Yom Kippur, o sumo-sacerdote (Kohen Gadol) podia entrar nesse espaço para pedir perdão para si e para toda a nação de Israel (Levítico 16:2).

Maria é a nova Arca
A Virgem Maria é a Arca da Nova Aliança pois, "O Espírito Santo desceu sobre ela, e a força do Altíssimo envolveu-a com a sua sombra. Por isso o santo que nasceu dela foi chamado Filho de Deus." Lucas 1,35.

A descrição de que Maria foi coberta com a sombra e o poder de Deus é a mesma e única descrição encontrada na passagem sobre a Arca que lemos no Êxodo: Então a nuvem cobriu a tenda de reunião e a glória do Senhor encheu o tabernáculo. (Êxodo 40,34). Era no tabernáculo que se encontrava a Arca.

A Arca viajou para a região montanhosa de Judá para descansar na casa de Obede-edom (2 Samuel 6:1-11). Maria viajou para a região montanhosa de Judá para a casa de Isabel (Lucas 01:39).

David perguntou: “como é que a Arca do Senhor vem ter comigo?” (2 Samuel 6, 9). Isabel pergunta, “por que me foi concedido a mim, que a mãe do meu Senhor venha a mim?” (Lucas 1:43).

Vestido com uma estola sacerdotal, o rei David aproximou-se da Arca e dançou e pulou de alegria (2 Samuel 6:14). João Batista, filho de um sacerdote, pulou de alegria no ventre de Isabel aquando da aproximação de Maria, a nova Arca (Lucas 1:43).

A Arca permaneceu na casa de Obede-edom durante 3 meses (2 Samuel 06:11). Maria permaneceu na casa de sua prima Isabel por 3 meses (Lucas 1:56).

A casa de Obede-edom foi abençoada pela presença da a Arca (2 Samuel 6:11). A palavra abençoada é usada 3 vezes em Lucas 1:39-45 sobre Maria na casa de Isabel.

A Arca voltou ao seu santuário e eventualmente terminou em Jerusalém, onde a presença e a glória de Deus foram reveladas no templo recém-construído 2 Samuel 06:12; 1 Reis 8:9-11. Maria retornou a casa depois de visitar Isabel e eventualmente veio a Jerusalém, onde apresentou o filho a Deus, no templo (Lucas 01:56; 02:21-22).

O conteúdo da Arca
Prova final de que de facto Maria é a Arca da Nova e eterna Aliança é-nos dada pelo conteúdo da Arca. Que continha então a Arca da Antiga Aliança e que conteve Maria, a Arca da Nova e eterna Aliança?

Lei antiga e lei nova – Maria é a Arca da Nova Aliança, pois assim como a Arca guardava as tábuas da lei (Hebreus 9,4), Maria guardou Cristo, a nova lei. A antiga Arca continha as tábuas da lei, os dez mandamentos; Cristo é a nova lei, a lei do amor que resume os mandamentos e vai mais além destes, pois nos convida a amar sem medida enquanto, os mandamentos só nos diziam o que não fazer.

Jesus também é apresentado no evangelho de Mateus, especialmente no Sermão da Montanha (o novo Sinai) como o novo Moisés e aquele que diz: Ouvistes o que foi dito ao aos antigos ... mas eu digo-vos... (Mateus 5:21-22).

O Maná é o verdadeiro pão descido dos céus – Maria é a Arca da Nova Aliança, pois assim como a Arca guardou o Maná, o pão descido do céu (Hebreus 9,4), Maria guardou Jesus em seu ventre, o verdadeiro Pão que dá a vida eterna, pois os que comeram o maná, morreram.

O Maná é o pão que os judeus comiam para logo voltarem a ter fome. O verdadeiro pão é aquele que, uma vez comido, faz com que nunca mais se tenha fome; é o verdadeiro pão descido dos céus que é Cristo. Este pão foi semeado no seio de Maria, como diz um cântico de Fátima:

 “O Trigo que Deus semeou no seio de Maria, tornou-se para nós o pão que nos dá vida e salvação eterna…. Maria é a terra onde germina essa semente a 100%. Ela é também o forno que o cozinhou por nove meses e o apresentou.

Os Pastores Moisés e Aarão e o Bom Pastor – Maria é a Arca da Nova Aliança, pois assim como a Arca continha o cajado de Aarão e de Moisés com o qual apascentaram o povo de Israel (Hebreus 9,4), Maria conteve no seu seio o novo e derradeiro Moisés, aquele que é o Bom Pastor, aquele que dá a vida pelas suas ovelhas.

Se a antiga Arca continha o cajado de Moisés com o qual guiava o seu povo e operava prodígios, a nova Arca contém o Bom Pastor, o que dá a vida pelas ovelhas e nos diz que só devemos reconhecer uma autoridade, um Pai, um Mestre, um Senhor que é Deus.

Conclusão: Se Arca da Aliança que apenas continha sinais da glória de Deus, foi venerada, duplamente venerada deve ser Maria, Nova Arca da Aliança, por ter contido o próprio Deus.

Pe. Jorge Amaro, IMC



 

1 de maio de 2022

Theotokos ou Mater Dei?

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Um entusiasmado prosélito protestante entra num autocarro e diz, “esta é a carta e este é o envelope que a continha, ficamos com a carta e atiramos com o envelope para o lixo. Cristo é a carta, Maria é o envelope. “A tua mãe também é um envelope que atiras para o lixo?”, alguém perguntou, e não obteve resposta…

Até ao século V, a reflexão da Igreja situava-se à volta da identidade de Cristo. Mas ainda antes do Concílio de Calcedónia, em 451, no qual se define a Cristo como verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, a reflexão da Igreja já estava a voltar-se para a sua mãe. De facto, já no ano 431 o Concílio de Éfeso tinha chamado a Maria “teotokos”.

“Ave, o Theotokos! Ave, o Mater Dei! Ave, Ave Maria! Ave, Ave, Maria!”, reza um cântico de Fátima, traduzindo o termo grego “Teotokos” pelo latino “Mater Dei”, mas não é assim. “Teotokos” significa portadora de Deus que não é a mesma coisa que mãe de Deus.

História da reprodução humana
Até ao princípio do século XX, desconhecia-se que o ser humano era o resultado da fusão numa célula de duas meias células – o espermatozoide do homem e o óvulo da mulher – algum tempo depois do ato conjugal.

Na longa evolução desde o aparecimento do homo sapiens, há 5 milhões de anos, até aos nossos dias, houve um tempo em que se desconhecia a génese de um novo ser humano. Na sua reduzida inteligência, o homem primitivo, não aplicava o princípio de causa/efeito que associava o ato sexual ao nascimento de uma criança nove meses depois.

Durante este tempo, apesar de o homem ter mais força física, quem governava o mundo era a mulher, pois era dela e só dela que vinha o futuro da espécie humana; era ela e só ela que assegurava a sobrevivência do ser humano. As sociedades eram matriarcais; em todas as línguas ainda hoje o nome Terra, Natureza são palavras femininas; Deus era conceptualizado como mulher como uma grande mãe.

Com a descoberta do papel do homem na reprodução, passámos abruptamente de um matriarcado para o patriarcalismo. Afinal a mulher não tinha arte nem parte na reprodução; pelo contrário, era o homem que colocava o novo ser nela e ela era só o terreno fértil onde este crescia. Deixou-se de pensar em Deus como mãe, mas sim como pai, e o homem relegou para segundo plano a mulher até aos dias de hoje.

A definição de Maria como “Teotokos” ou portadora de Deus está em concordância com o que se pensava no tempo do Concílio de Éfeso acerca do papel da mulher no ato da reprodução humana. A mulher é só o terreno fértil onde a semente cresce; é o homem que implanta esta semente que é o espermatozoide que, em si mesmo, era entendido como homúnculo, ou seja, um ser humano em tamanho reduzido, mas já completo em si mesmo. Se esta crença estivesse ainda em vigor, Maria seria, como todas as mulheres, uma “barriga de aluguer”.

Santa Maria, Mãe de Deus…
Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob o domínio da Lei… Gálatas 4, 4    

S. Paulo não diz nascido por intermédio de uma mulher, mas sim nascido de mulher. Mãe é aquela que acolhe uma criança no seu seio e contribuiu geneticamente para a sua formação; Maria é mãe nestes dois sentidos.

Lendo a encarnação de Cristo à luz do que hoje sabemos sobre a génese do ser humano, podemos afirmar então que o espermatozoide vem por via do Espírito Santo, pelo que Cristo era verdadeiramente Deus, e que o óvulo era de Maria, pelo que Cristo era verdadeiramente homem. Ora se Maria é mãe de Jesus e Jesus é Deus, Maria é mãe de Deus; um silogismo perfeito e incontornável.

Não é mãe de Deus no sentido de ser ela a origem de Deus, ou de ser mais velha que Deus e origem da divindade de Jesus. É mãe de Deus porque acolheu a Deus no seu seio, e porque contribuiu com material genético para a forma humana que Deus tomou em Jesus de Nazaré.

Voltando ao envelope
Maria não é só “Teotokos”, portadora de Deus; é como a nossa mãe, que nos acolheu e transportou por nove meses, mas contribuiu também com metade do material genético que nos forma. Maria não é, portanto, só envelope que conteve a Deus mas é mesmo mãe de Deus.

“Quem os meus filhos beija, minha boca adoça”. Uma mãe fica contente quando tratam bem os seus filhos e triste quando os tratam mal; o mesmo se pode dizer de um filho com respeito à sua mãe. Como podem os protestantes amar o filho e desrespeitar a mãe ou ignorá-la?

Mas usando ainda a metáfora do envelope, os amantes que guardam as cartas de amor guardam-nas com os respetivos envelopes. Cristo é uma carta de amor de Deus para a humanidade. Maria é esse envelope florido e colorido que contém essa carta; quem é mãe, sempre é mãe.

Por outro lado, no remetente os envelopes contêm a direção de quem envia a carta. Precisamos dela para responder, como precisamos da mediação de Maria pois, como foi mediadora da graça primigénia que foi Jesus Cristo, é mediadora de todas as graças.

Conclusão: Maria não é só Teotokos porque acolheu a Jesus no seu seio; é também Mãe porque contribuiu com o seu próprio material genético. Neste sentido, Jesus, é carne da sua carne, sangue do seu sangue. Se, para entendernos, a divindade de Jesus procede de Deus, a sua humanidade vem de Maria.

Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de abril de 2022

O corpo com que ressucitamos

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Isto é tudo muito confuso; explique-me lá, senhor padre: quando morremos o nosso corpo vai para a terra, a nossa alma vai para o céu, e nós? Para onde vamos nós?

A morte como passagem – Páscoa
Do ponto de vista da nossa fé, não devemos usar a palavra morte como se fosse um destino final. Os finados são os mortos; finado indica fim, findado, acabado. Isto não é verdade no âmbito da nossa fé.

Neste âmbito, a morte não é a última coisa que pode acontecer-nos, mas sim a penúltima. A morte é mais uma etapa de crescimento, a passagem da vida espácio-temporal para uma vida eterna além do espaço e do tempo. Acreditamos haver vida para além do espaço e do tempo. Porque Deus o Senhor da vida vive para além do espaço e do tempo por ele criados.

Já na Natureza a morte não é nunca um estado definitivo, mas sim uma passagem entre uma forma de vida e outra forma de vida. Segundo Lavoisier, na Natureza nada se cria, nada se destrói, tudo se transforma. A morte de um ser vivo dá sempre lugar à vida de outro. A vida é um círculo eterno de morte e vida, porque a vida se alimenta de vida, todo o ser vivo é alimento de outro ser vivo.

Nasce a erva que morre nos dentes da gazela que dela se alimenta. A erva não morre, transforma-se em gazela, que depois se transformará em leão, que ao morrer será comido pelos abutres e pelas hienas, que ao morrer darão vida a inúmeros vermes, que ao morrer fecundarão a – terra onde volta a nascer a erva.

A morte não é um estado, mas uma passagem. Aqueles que têm experiências de quase morte falam de um túnel e da luz no fim de um túnel. O mesmo acontece quando nascemos: há um túnel e a luz e dizemos em português que deu à luz. O nosso nascimento pode ser visto como a nossa primeira morte, morte à vida que tínhamos no seio da nossa mãe. Do mesmo modo, a nossa morte pode ser vista como o nosso nascimento para a vida eterna, para o seio de Deus

A morte é uma passagem de uma forma de vida para outra forma de vida, de estar no seio ligados à nossa mãe pelo cordão umbilical para vir para a luz, respirando por nós mesmos. A vida é um dom de Deus, é o ar que inalamos pelas nossas narinas e que nos leva a começar a viver até ao dia em que expiramos esse ar e voltamos para Ele.

A metáfora da borboleta
Na Natureza, há seres vivos que mudam de forma durante a sua vida. A rã é um deles, a borboleta é outro. A mudança de forma obriga também a uma mudança de meio, tanto no caso da rã como no caso da borboleta. A borboleta nasce sendo uma lagartixa que arrasta o seu ventre pela terra, comendo folhas até ao dia em que, aparentemente, morre.

O que aparentemente é uma morte é só uma mudança de forma que, guardando semelhanças com a anterior, é diferente dela. A nossa vida na Terra é como a da lagartixa, a nossa vida no céu é como a da borboleta; o nosso corpo físico é como o da lagartixa, muito apegado à terra, o nosso corpo espiritual é como o da borboleta, mais livre, voando de flor em flor.

A lagartixa é uma metáfora da nossa vida na Terra, do nosso corpo físico que está dependente da Terra. Como a lagartixa, arrastamos o nosso corpo pela terra, mas estamos chamados a ter uma vida superior, somos potenciais borboletas. Para chegar a ser borboletas e a realizar o sonho do Homem de poder voar, temos de passar pela quase morte. Não podemos ser lagartixa e borboleta; para sermos borboleta temos de deixar de ser lagartixa.

A vida como borboleta, voando num mar de diferentes flores, com outras borboletas de diferentes cores, num dia cálido de primavera, por campos, vales e valados à luz do sol radiante das primeiras horas da manhã, esta é a vida à qual todos estamos chamados: o Céu.

A metáfora da água
Uma outra metáfora que a Natureza nos dá para nos ajudar a conceptualizar a Ressurreição, são os três estados físicos da água. A água, sem deixar de ser o que é, ou seja, sem se transformar em outro elemento, existe na Natureza em três diferentes estados que são tão distintos entre si que poderíamos até pensar que se trata de diferentes elementos quando os comparamos entre si.

Vem do oceano e é vapor que não pode ser visto. Condensa-se e cai sobre a Terra, penetra nela e nasce em forma de surgente, formando regatos, ribeiros e rios. É enterrada e brota novamente, correndo e formando rios, dando vida à sua passagem, até voltar ao mar.

Em vez de chuva, pode cair em forma de neve; a 0 graus congela, ficando rija como uma rocha; a 100 graus ferve e evapora-se e, sem deixar de ser o que é, passa a existir em estado gasoso, invisível aos nossos olhos e intangível ao nosso tato. Podemos voltar a vê-la e a tocar-lhe se a fizermos condensar numa superfície mais fria que a temperatura do ar.  

Se a água, sem deixar de ser o que é, pode existir numa forma invisível e intangível, diríamos quase espiritual, como não podemos também existir invisível e intangivelmente nós que até temos um corpo que é formado por 80% deste elemento?

Os 17 corpos físicos da nossa vida
O primeiro ser vivo que habitou este planeta era um ser unicelular; ainda existem seres vivos que são unicelulares, como por exemplo a ameba. A ontogénese recapitula a filogénese, ou seja, os milhões de anos da História da vida neste planeta recapitulam-se ou repetem-se abreviadamente na história individual de cada ser humano que vem a este mundo.

Também nós já fomos uma única célula formada por meia célula do nosso pai, o espermatozoide, e meia célula da nossa mãe, o óvulo. Unidas as duas, nascemos nós, uma célula humana com um código genético único na História da humanidade; em pouco tempo, esta célula subdividiu-se em outras células para formar um corpo humano adulto, constituído por 300 triliões de células.

Cada uma das nossas células segue a lei geral que rege a vida neste planeta: nascer, crescer, reproduzir-se e morrer. Assim se explica o crescimento e envelhecimento do nosso corpo. De facto, à exceção das células do nosso cérebro, os neurónios, todas as outras seguem a regra geral – podemos dizer que a cada 5 anos mudamos, a cada 5 anos temos um corpo biologicamente diferente.

Numa vida média de 85 anos, temos 17 corpos diferentes. Com qual dos 17 ressuscitaríamos? Com nenhum deles, pois não é o corpo físico que ressuscita, mas sim o corpo espiritual que é uma síntese de todos eles, mas nenhum deles em particular.

O que é o corpo espiritual?
Sabemos, com efeito, que, quando a nossa morada terrestre, a nossa tenda, for destruída, temos uma habitação no Céu, obra de Deus, uma casa eterna, não construída por mãos humanas. E por isso, gememos nesta tenda, ansiando por revestir-nos daquela habitação celeste, contanto que nos encontremos vestidos e não nus. 2 Coríntios 5, 1-3

De uma forma simples e sem rodeios, o corpo espiritual é constituído pelos tesouros que durante toda a nossa vida acumulamos no Céu. (Mateus 6, 19-34). Esses tesouros, esses bens espirituais, que ao fim da nossa vida formam um corpo que é a nossa história, são as boas obras, são o que conseguimos espiritualizar com os nossos recursos materiais e os nossos talentos espirituais.

Diz o povo que quem dá aos pobres empresta a Deus, ou seja, que o dinheiro ou qualquer bem material temporal, quando é usado para um fim espiritual, se transforma num bem eterno, se espiritualiza, tornando-se num tesouro acumulado no Céu.

Usando uma metáfora que todos entendemos, a nossa vida é como uma destilaria. A destilação é um processo onde os bens materiais se evaporam pela fervura, retirando-se deles a sua essência. Para obter a essência de um perfume é necessário destilar toneladas de uma flor particular, adquirindo-se assim umas poucas gotas de essência. O álcool resultante da destilação da uva ou da cevada chama-se em inglês “spirit”, o whiskey e o brandy ou conhaque   são chamados desta forma porque resultam do processo de destilação.

Reza a história que uma mulher estava habituada neste mundo a todos os luxos e bajulação das pessoas porque era famosa. Morreu um dia e, quando chegou ao Céu, S. Pedro levou-a pela mão para a conduzir à sua habitação celestial.

Passaram por muitas mansões encantadoras, ao estilo de Beverly Hills e a mulher pensou que seria uma daquelas que lhe tinha sido atribuída. Depois chegaram aos subúrbios e aos edifícios altos com apartamentos e ela pensou “Bem, será pelo menos um daqueles”, mas não...

Depois chegaram aos bairros de lata do Céu e S. Pedro mostrou-lhe uma cabana feita de cartão e lata. "Esta é a sua casa", disse S. Pedro. "O quê?", disse a mulher, “aquilo? Não posso viver nessa espelunca! “Sinto muito", disse S. Pedro, mas foi isto que conseguimos construir para si com os materiais que durante a sua vida nos enviou".


Tenho para mim que quanto mais a ciência desvenda os mistérios da Natureza, mais fácil se torna acreditar em Deus que tudo fez, na vida para além da morte. No contexto da física mecanicista de Newton, onde matéria é matéria e energia é energia, era difícil acreditar na Ressurreição.

Com Einstein, que descobriu que a matéria e a energia são a mesma coisa, ou seja, que a matéria pode transformar-se em energia e que a energia pode transformar-se em matéria, é bem mais fácil acreditar que o nosso corpo físico material pode transformar-se num corpo energético espiritual.

Pe. Jorge Amaro, IMC


1 de abril de 2022

Religião e Ciência

Sem comentários:

A ciência descobre; a religião interpreta. A ciência dá conhecimentos e poder ao homem; a religião dá-lhe sabedoria e controlo. A ciência é acerca de factos; a religião é acerca de valores. As duas não são rivais; são complementares. A ciência faz com que a religião não caia no irracionalismo, no fanatismo e no obscurantismo paralisante. A religião impede a ciência de cair no pântano do materialismo obsoleto e niilismo moral." Rev. Martin Luther King

Ciência e técnica como nova religião
Uns crescentes números de pessoas têm vindo a substituir a fé na omnipotência de Deus, pela fé na pseudo- omnipotência da ciência e da técnica. A ciência descobre, a técnica aplica, e a nossa vida torna-se mais confortável do ponto de vista material. Para além da matéria, o ser humano também é espírito, um espírito que questiona o porquê e o para quê da vida e de tudo o que nos rodeia. A ciência nunca terá respostas para estas questões, a religião tem.

O agnóstico dirá que a ninguém importa saber o “porquê” e “para quê”. É verdade, como dizem os ateus, que o homem é o momento em que a natureza tomou consciência de si mesma. Precisamente desde esse momento, o ser humano busca sentido para o seu viver. Todo o indivíduo, no momento em que toma consciência de que existe, por volta dos 6 ou 7 anos de idade, se pergunta de onde vem, para onde vai e que sentido tem a vida; só os animais não o fazem e apenas porque não têm consciência de que existem.

São cada vez mais os que abandonaram a Deus para idolatrarem a ciência e a técnica. Está instalada na opinião pública de hoje a ideia de que a religião não é mais que uma forma ignorante e primitiva de investigar os mistérios do mundo. O episódio da condenação de Galileu valeu à Igreja a fama de obscurantista que prevalece até hoje.

Galileu foi condenado, por um lado porque os obtusos líderes da Igreja naquele tempo ainda não se tinham dado conta de que a Bíblia não revela verdades científicas, mas apenas verdades relativas à natureza humana. Por outro lado, como dizem alguns historiadores, Galileu não apresentou provas que confirmassem a sua teoria. Porque estamos na Terra, não nos apercebemos do movimento desta e parece que é o sol que se move; o mesmo nos acontece quando viajamos de carro ou de comboio – nós que estamos em movimento parecemos não nos mover e a paisagem que está fixa parece mover-se diante dos nossos olhos.

Einstein foi também criticado por alguns cientistas do seu tempo porque a sua teoria da relatividade carecia de provas empíricas, pois foi uma elucubração intuitiva da mente de Einstein. Só agora começam a aparecer provas empíricas que demostram a veracidade desta teoria.

A fé e a razão
Se Deus existe é o Criador de tudo e de todos; como criaturas que somos, não é lógico que a nossa mente possa abarcar a mente de Deus, que a parte possa compreender o todo. Deus não pode ser nunca objeto da ciência; aliás, nem o Homem o é. Por outro lado, o mistério não envolve só Deus e o Homem, é comum a todas as áreas do saber.

Nenhuma ciência ou área do saber, pode vangloriar-se de já ter descoberto tudo o que há para conhecer no seu campo; quanto mais se sabe, mais se pode saber; por isso, o verdadeiro sábio considera-se ignorante. Nicolau de Cusa chamava-lhe a douta ignorância: face à imensidade do que há para se conhecer, só sei que nada sei.

A ciência investiga a Natureza, a religião também investiga a Natureza de Deus. A verdadeira ciência sabe que quanto mais se sabe mais há para saber. A religião sabe e vai investigando o mistério de Deus, mas nunca poderá abrangê-lo na sua totalidade.

Historicamente, a razão foi-se constituindo e instituindo como ciência, que é o processo de determinar o comportamento da matéria ou do universo usando a observação, a experimentação e a razão. Historicamente, a fé foi-se constituindo e instituindo como religião, que é um sistema organizado de crenças, ideias ou respostas sobre a causa, natureza e finalidade do universo que não são nem podem ser objeto de ciência.

Nem só de religião vive a fé, nem só de ciência vive a razão. Fé e razão fazem parte e precisamos de ambas no nosso dia-a-dia. Praticamente todos os atos contêm um pouco de razão e um pouco de fé. Na nossa vida, a razão analisa, a fé decide. Sem a razão decidiríamos prematuramente e faríamos mais erros do que os que já fazemos; sem a fé nunca chegaríamos a decidir, a arriscar uma solução para os nossos problemas, pois sempre pensaríamos que algo poderia ter escapado à nossa análise e cairíamos num imobilismo.

Quando aceito um cheque por um serviço prestado, acredito que tem cobertura, seria indelicado e poderia perder um amigo se o recusasse. Quando embarco num avião, acredito que os polícias fizeram um bom trabalho no sentido de evitar que alguém tenha colocado uma bomba na bagagem e acredito que os pilotos estão bem preparados e são bem-intencionados.

Quando me sento para comer num restaurante, confio que a comida está em boas condições e não exijo que seja analisada em laboratório antes de a consumir; é a falta de fé e o medo do envenenamento que faz com que na Etiópia a cozinheira sempre prove a comida à frente dos convidados.

Conhecer e amar
Conhecer significa dominar e controlar. Se eu sei qual é o princípio que regula a chuva, eu posso fazer chover, como de facto fizeram os chineses uns dias antes da abertura dos Jogos Olímpicos, para evitar que chovesse no dia da abertura. A Deus não se pode conhecer do mesmo modo. Conhece-se a Deus como se conhecem as pessoas humanas.

Uma pessoa só se revela, só se dá a conhecer se a amarmos. Pelo contrário, se for um inimigo que nos conhece, ficamos vulneráveis perante ele. Como todas as pessoas, Deus só se dá a conhecer a quem o ama. Não se pode conhecer a Deus ou a uma pessoa sem nos implicarmos pessoalmente com ela. Não podemos colocar Deus nem as pessoas humanas dentro de um tubo de ensaio. Amar é implicar-se com a pessoa amada; entre os humanos, o conhecimento sem amor é manipulador.

Igreja, sociedade e ciência
No caso do aborto, é a Igreja que está com a ciência, e é o mundo político-social, culto ou não culto, que está contra ela. Não há nenhum cientista que negue que a vida humana começa na conceção, quando meia célula constituída por 23 cromossomas – o espermatozoide – se une a outra meia célula constituída pelo mesmo número de cromossomas – o óvulo – formando uma união indivisível, uma célula humana de 46 cromossomas com um código genético único na história do Universo.

Esta célula humana imediatamente se subdivide em réplicas de si mesma, pois todas as células que compõem o corpo humano contêm o mesmo ADN. Muitos, seguindo as suas conveniências, não a ciência, decidem que esta vida embrionária não é vida humana ainda, como se o tempo pudesse transformar algo que não é humano em algo que o é, e algo que o é pudesse não o ser ainda para o ser depois, ou pudesse ser num tempo para o não ser depois. Esquecem-se estes amantes e ignorantes da ciência que eles mesmos já passaram por esta fase embrionária e que eram, naquele tempo, eles mesmos não humanos?

O aborto é um homicídio legal, uma conveniência para alguns, e um negócio para outros. Não tem qualquer base científica, moral ou humana essa matança e, no entanto, a ciência que sabe que a vida humana começa na sua conceção também se cala por conivência. Este é o Galileo Galilei da sociedade e da ciência, a hipocrisia levada ao mais alto nível.

A Igreja não teme a ciência
Longe de temer a ciência, a Igreja até a promove. No século XIX, o frade agostinho Gregório Mendel foi o pai da genética. A única teoria aceitável sobre o começo do Universo é da autoria de Georges Lemaître, sacerdote católico belga. Segundo ele, um “Big Bang” marca o começo do Tempo, do Espaço e da Matéria.  

Como no Universo e na Natureza nada se cria a si próprio, é perfeitamente plausível que tenha sido Deus, alguém exterior à criação, a causa não causada que ao exteriorizar a sua criatividade e amor, fez explodir o átomo que previamente tinha criado e, com esta grande explosão, criou o tempo, o espaço e a matéria.

O Big Bang é o pontapé de saída para uma infinita sucessão de causas causadas e causadoras, até chegar ao momento em que aparece o ser humano. Como a Igreja não é adversa à ciência, já o Papa Pio XII, na sua encíclica Humanae Generis, refere que a teoria da evolução das espécies de Darwin não está em contradição com o livro do Genesis, o qual, usando uma linguagem mitológica, diz que o homem foi o último ser vivo a ser criado. Se foi criado diretamente ou como fim de um processo evolutivo, faz pouca diferença.

Quanto mais avança a ciência, mais fácil é acreditar. Durante séculos, a Bíblia e a Igreja foram ridicularizadas por falarem no fim do mundo; hoje, é científico afirmar que o Universo teve um começo e terá um fim. Creio firmemente que a ciência nunca chegará a provar que a fé está equivocada, muito pelo contrário, quanto mais descobre a ciência, mais fácil, mais razoável é crer que não crer, pelo que não crer vai ficar reduzido a uma obstinação mais orgulhosa e ignorante que científica ou ilustrada. Não estamos longe do tempo em que poderemos afirmar que, com toda a evidência científica de que dispomos, só não acredita quem não quer acreditar.

Falar dos milagres que Jesus fez no quadro da física mecanicista de Newton, segundo o qual a realidade funciona como uma máquina perfeita na rotina inalterável de um relógio, é mais difícil que falar dos mesmos temas no quadro da teoria da relatividade e da física quântica, onde já não se fala de leis fixas e absolutas da natureza, mas sim de probabilidades estatísticas. O princípio de Heisenberg vai ainda mais além, quando sugere que a realidade, longe de ser fixa e sujeita a uma rotina, tem um alto grau de incerteza e imprevisibilidade.

Para Einstein, a matéria é uma forma de energia, e a energia é uma forma de matéria; 95% do Universo é constituído por matéria negra que é invisível. Que fácil passa a ser falar da ressurreição, do corpo glorioso de Cristo e do corpo espiritual que possuiremos depois da morte!

 Conclusão: A ciência descobre, a técnica aplica, e a nossa vida torna-se mais confortável. A religião descobre o sentido da vida, a ética os valores que definem a natureza humana, a espiritualidade mostra-nos o caminho para a autorrealização e a felicidade enquanto filhos e filhas de Deus.

P. Jorge Amaro, IMC




15 de março de 2022

Cristianismo, Islão e violência

Sem comentários:

Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram: «Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?» Mas Ele, voltando-se, repreendeu-os. E foram para outra povoação. Lucas 9, 54-56

(…) Há de chegar mesmo a hora em que quem vos matar julgará que presta um serviço a Deus! E farão isto por não terem conhecido o Pai nem a mim. João 16, 2-3

Vamos misturar essência com existência, ou seja, o que são em si mesmas estas duas religiões, com a História que ambas têm escrito ao longo dos séculos desde que nasceram. É claro que escrevo a partir da minha fé em Cristo, único Salvador, Caminho, Verdade e Vida para todo o ser humano, incluindo os muçulmanos; mas não uso a fé como argumento; espero argumentar exclusivamente a partir da razão.

Fanatismo e violência
Há dois conceitos que foram talvez mal interpretados, ou interpretados de forma a satisfazer, justificar e abençoar a sede de poder de alguns. O certo é que foi esta “má interpretação” dos conceitos que escreveu História e fez correr muito sangue. Refiro-me ao conceito de JIHAD, que significa esforço, luta, guerra santa, e o conceito de ISLÃO que significa submeter-se à vontade de Deus.

Como dizem os estudiosos, a JIHAD refere-se à luta que todo o ser humano deve travar dentro de si mesmo contra o mal. O caso é que, historicamente, a luta interior que devia permanecer interior, tornou-se numa luta exterior; na prática, essa luta traduziu-se, e ainda atualmente se traduz, na luta contra aqueles que o Islão considera infiéis, declarando-lhes uma guerra que se justifica a si mesma por ser santa, por ser por uma boa causa. Nesta época, não tinham ainda entendido que “Os fins não justificam os meios”.

O Cristianismo tem também a sua versão de guerra santa, as cruzadas. A primeira cruzada nasceu como resposta ao pedido do Imperador cristão do Oriente, Aléxis I para que o ajudassem a reconquistar a cidade santa de Jerusalém e a libertar os cristãos orientais do domínio muçulmano. No entanto, rapidamente se transformou numa forma de travar o avanço dos muçulmanos que ameaçavam acabar com o mundo cristão. Começou por ser um direito à autodefesa que rapidamente se transformou em agressão, conquista e massacre em nome de Cristo.

Islão significa submeter-se a Deus; a base da religião muçulmana reside nesta submissão simbolicamente representada pela postura física que os muçulmanos adotam quando rezam. Era este o propósito da Jihad, o esforço, a luta para submeter toda a personalidade de cada um a Deus; aliás, é mesmo isso que significa adorar a Deus: submeter-se à sua vontade.

Enquanto este princípio não passou da esfera pessoal, enquanto se manteve reflexivo e intransitivo, foi bom e não causou problemas; mas não é desta submissão que reza a História. Submeter-se a Deus rapidamente se transformou em submeter os outros a Deus. Por isso, tal como o judaísmo chama gentio a todo o que não é judeu, o Islão chama infiel a todo aquele que não é muçulmano.

Ao contrário do Cristianismo que nasceu num mundo adverso dominado pelos romanos e durante 5 séculos foi uma religião clandestina que se propagava pelo exemplo de vida e pela pregação, o Islão nasceu numa conquista bélica de Meca e na submissão à nova fé de cristãos e politeístas que lá viviam.

Rapidamente se confundiu com poder e continuou a propagar-se não pela pregação como o cristianismo, mas sim pela conquista bélica e pelo comércio. Os muçulmanos submeteram de facto à sua fé o mundo antes cristão: a zona sul e norte do Mar Mediterrâneo, invadindo a Europa pelo Ocidente até França e pelo Oriente até à Áustria. Durante toda a Idade Média, assolaram a Europa que se fechou sobre si mesma num regime feudal.

Depois do Imperador romano Constantino, o Cristianismo transformou-se na religião do Estado e, como tal, também usou a técnica de submissão não só pela via da tortura da Inquisição, mas também como forma de evangelização.

De facto, os latino-americanos ainda hoje nos acusam de termos evangelizado a América Latina mais pela espada que pelo crucifixo; como a espada no Ocidente sempre foi em forma de cruz, talvez venha daí a confusão. O Cristianismo abandonou há muito estas práticas de violência que ficaram na Idade Média; o Islão ainda as usa hoje. Porquê?

Ressentimento contra o mundo ocidental cristão
Com a vitória na batalha de Lepanto em 1571, entre cristãos e muçulmanos, a cultura e civilização cristã acabou de uma vez por todas com a constante ameaça do Islão e cresceu até ser hoje o que é, ao passo que a civilização muçulmana, cujo auge tinha sido atingido com Averróis e Avicena, estagnou numa mentalidade medieval.

O mundo muçulmano ainda não se recuperou do ressentimento e ódio que essa derrota causou. Este ódio motiva as ações da Al Qaeda, em especial contra os Estados Unidos que representam o mundo ocidental.

Atualmente não há nenhum país tradicionalmente cristão que persiga muçulmanos só pelo facto de o serem, enquanto nos países tradicionalmente muçulmanos os cristãos são sistematicamente perseguidos: Egipto, Paquistão, Irão, Iraque, etc.

Os muçulmanos no Ocidente estão amparados pela democracia e pelo direito à liberdade religiosa; os cristãos no mundo árabe não têm direitos, estão à mercê do fanatismo. Os muçulmanos no Ocidente podem construir as suas mesquitas; os cristãos no mundo árabe não têm direito a construir igrejas nem a reparar as que estão construídas e, na Arábia Saudita, nem podem usar um crucifixo ao pescoço.

Quem não deve não teme
Nunca somos tão violentos como quando lutamos pela nossa sobrevivência. Enquanto a religião cristã, posta em causa pela Revolução Francesa, pela idade da razão, pelo iluminismo e ultimamente pelas filosofias ateias, sobreviveu, a religião muçulmana opõe-se a todo o pensamento crítico vindo de dentro e de fora e ameaça quem o faça.

Quem não deve não teme: esta agressividade mais não é que uma forma de esconder as graves deficiências do ponto de vista filosófico, histórico e teológico. Alimentada pelo petróleo e pelo ódio contra o Ocidente, a expansão muçulmana é como um gigante com pés de barro – um dia que as deficiências venham à luz da razão, talvez não fique pedra sobre pedra.

Segundo Carl Jung, o fanatismo é uma forma de sufocar uma dúvida interior. Assim explicava Jung o fanatismo de S. Paulo contra os cristãos, antes da sua conversão. A dúvida de S. Paulo era entre a segurança que dá a lei, uma falsa segurança, e a liberdade da graça que Santo Estêvão oferecia.

S. Paulo encontrava-se dividido entre estas duas formas de viver a vida. Por um lado, atraído pela liberdade, ao dar-se conta de que nunca conseguia satisfazer as exigências da lei e que, mesmo que o fizesse, não tinha nenhuma segurança ou garantia de salvação que tornasse a vinda de Cristo prescindível se o homem pudesse salvar-se a si mesmo.

É evidente, até pela forma como tratam as mulheres, como seres humanos de segunda categoria, que a religião muçulmana estava bem para a Idade Média, mas não para o mundo de hoje. Como a forma de pensar de hoje se infiltra de muitas formas, mesmo nos países muçulmanos, pela TV, pela Internet, eles sentem-se intimidados e temem perder fiéis, temem que a sua religião não aguente o embate da razão, como o cristianismo teve que aguentar, reformulando-se.

Então tornam-se agressivos contra o Ocidente, que se governa pela razão e se infiltra por todo o lado porque a razão ~e a única via para o desenvolvimento e progresso. Como o Ocidente é de raiz cristã, voltam-se contra os cristãos nos seus países, chamando-os traidores e americanos, quando estes existiam antes da religião muçulmana. Chamam o Cristianismo de religião estrangeira, quando ele esteve implantado muitos séculos antes de a religião muçulmana chegar ao seu país.

Os animais mostram o seu máximo de agressividade quando sentem ameaçada a sua existência. Sob este ponto de vista, os humanos não são diferentes. Os gatos são animais pacíficos e nunca se voltam contra os seus donos a menos que estes os ameacem e não tenham forma de fugir. Assim se sente a religião muçulmana encurralada face ao mundo ocidental de tradição cristã.

Não há razões para matar
Como acima se citou, a tentação de impor a nossa crença ou idiossincrasia aos outros já era visível nos apóstolos. Jesus rejeita a violência como meio para chegar a algum fim. Rejeita também matar em nome de Deus, dizendo que quem o faz nunca o conheceu a Ele nem a Deus. Deus é Amor e Vida, não ódio e morte. Para Jesus não há razões para matar, só há razões para morrer.

A diferença entre o Islão e o cristianismo é simples: os cristãos seguem o seu Mestre que os ensinou a morrer por uma causa e que morreu Ele mesmo pela causa da justiça; os muçulmanos seguem o seu profeta que os exortou a matar por uma causa e que matou ele mesmo por uma causa.

Numa reunião de indianos contra o Império Britânico, antes da independência da Índia um Muçulmano incitava à violência, incitando os presentes à matança dos britânicos. Ao que Mahatma Gandhi respondeu “Por esta causa [independência da Índia], eu estou disposto a morrer; não há nenhuma causa, porém, pela qual eu esteja disposto a matar.”

Conclusão: Ao longo da sua História, o Cristianismo já conheceu momentos de violência, fanatismo e intolerância; o Islão, porém, ainda não descobriu a tolerância, o diálogo e a coexistência pacífica com a sociedade civil e as outras religiões.

Pe. Jorge Amaro, IMC

 

1 de março de 2022

Islão, razão e Jesus

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Deus criou-nos como seres racionais e, como tal, não pode pretender que nos relacionemos com Ele sem o uso da razão. Temos de ter um mínimo de garantia. A razão está para a fé como o sal para a comida. O sal dá gosto, dá sentido à comida; assim a razão dá sentido à fé.

Maomé, o último profeta, Jesus, o filho de Deus
O Islão aceita como válida a tradição religiosa judaica descrita no Antigo Testamento que eles consideram também seu. Maomé é, portanto, o último dos profetas que Deus enviou ao mundo, sendo o penúltimo Jesus.

Se a humanidade viver mais 10 000 ou 20 000 anos, que sentido faz que o último profeta tenha vindo no ano 524? Mais mudanças sofreu o mundo e a humanidade desde o ano 524 que em todos os milhões de anos anteriores. Por que motivo então antes desta data os profetas se sucediam uns aos outros com frequência e depois do ano 524 já não são precisos?

Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por meio de quem fez o mundo. Hebreus 1, 1-2

No caso do cristianismo, mesmo que a humanidade viva até ao ano 20 000, faz sentido que a revelação tenha acontecido no ano zero. Como explica o autor da carta aos Hebreus, o enviado não é mais um profeta, mas sim o próprio Deus que vem viver entre nós.

Há aqui um salto qualitativo; os profetas trazem mensagens para um tempo, a Palavra de Deus é eterna para todos os tempos e lugares, porque Deus não precisa de falar duas vezes. Por outro lado, Cristo não é só uma palavra proferida, é uma palavra vivida e só se vive uma vez.

Em que sentido é o último profeta? É porque o Islão tem uma doutrina mais refinada e em caminho ascendente, segundo a qual já chegamos ao topo? Mas o topo até parece pertencer ao cristianismo, que tem o amor como único mandamento; um amor que inclui até os nossos próprios inimigos.

O Islão, na sua prática e doutrina, até se assemelha mais ao Antigo Testamento que ao Novo. Prova disso o facto de que enquanto que Jesus, há dois mil anos, tratou as mulheres de igual para igual, e não deixou que uma mulher adultera fosse apedrejada, no mundo muçulmano as mulheres são tratadas como cidadãos de segunda categoria, e as adulteras ainda hoje são apedrejadas.

Se um observador imparcial comparasse a narrativa cristã, ou seja, o Novo Testamento com a narrativa muçulmana, ou seja, o Alcorão escrito quase 600 anos depois, teria necessariamente que concluir que há de longe muito mais humanismo no Novo testamento que no Alcorão.

O Islão é em si violento por natureza pois não se trata de amar a Deus que nos amou primeiro; não se trata de amor com amor se paga. Deus no Islão é o senhor do Antigo Testamento que ordena submissão. A palavra, Islão significa de facto submissão. Em termos humanos, ninguém ama aquele que nos exige submissão; onde há submissão não há liberdade nem amor. Em contraste com isto, Jesus diz aos seus discípulos: "Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai." João, 15, 15

Historicamente, Mohamed, o fundador do Islão era um guerreiro; a própria religião começou com a conquista violenta de Meca, espalhada e expandida por meios de guerra conquistas e submissões das populações conquistadas e não pregando como o cristianismo.

O sentido da Encarnação de Deus
Desde a perspetiva da religião muçulmana e demais religiões, eu posso queixar-me e dizer a Deus. “Ouve, porque não paras de mandar mensageiros e profetas e vens cá tu viver a nossa condição humana? É fácil dar conselhos; por que não nos mostras como se vive a vida humana sendo exemplo para nós? Vem cá a baixo e fala-nos com conhecimento de causa, isto é, a partir da nossa condição humana, depois de teres sentido na carne o frio, a fome, a dor, a tentação, o prazer, a injustiça, a traição?”

Da perspetiva do cristianismo, não posso defender este argumento na frente de Deus. porque Cristo, apesar da sua condição divina, tornou-se um de nós, em tudo igual a nós exceto no pecado, para nos mostrar na sua própria vida que é possível viver a vida humana tal como Deus a idealizou antes da queda de Adão.

Cristo não mostra o caminho, a verdade e a vida; é Ele mesmo o Caminho, a Verdade e a Vida. Na sua pessoa e vida, vemos o que Deus é e o que o homem está chamado a ser. Cristo é o peso e a medida do ser humano, a referência de humanidade, porque só Ele que era 100% Deus foi também 100% homem. Por isso, todo o indivíduo que queira chegar à felicidade e autorrealização como pessoa, é com Cristo que tem de se comparar.

Qualquer pessoa que queira avaliar o seu próprio nível de humanidade, e o quão genuíno ele ou ela é como pessoa humana, deve medir-se com Jesus, o único modelo para os seres humanos. Ao contrário, A vida do profeta Maomé está longe de ser exemplar. Na verdade, os próprios muçulmanos não o têm como santo nem como modelo a imitar. Como guerreiro e chefe militar exerceu violência e cometeu crimes de guerra quando mandou matar 600 judeus e escravizou as suas mulheres e crianças.

Permitia aos seus fiéis que se casassem até 5 vezes, mas ele mesmo casou-se 8 vezes e tinha concubinas, algumas das quais menores de idade; mandava cortar as mãos aos ladrões e flagelar as adúlteras. De alguma forma, mesmo para os muçulmanos, mais importante é Jesus o filho de Maria porque é Ele, e não Maomé, que vai voltar para julgar os vivos e os mortos, tal como nós acreditamos.

“Deus é amor” 1ª João 4,8
Nenhuma religião define tão bem a essência de Deus como a cristã. Mas ainda que a religião tivesse uma formulação próxima ou parecida com esta, sabemos que o amor é como uma moeda na qual uma das faces é alegria e prazer e a outra é tristeza e dor. “Quem se obriga a amar obriga-se a padecer”.

Como não há amor sem sofrimento, da perspetiva muçulmana, ou seja, da forma de conceptualizar o divino no Islão, como pode Deus provar que nos ama se nunca sofreu por nós? Em Cristo, Deus sofreu a tortura e a traição, o abandono dos amigos e até o abandono do seu Pai; sofreu por nós e no nosso lugar o que nenhum homem sofreu nem sofrerá: sentir-se condenado à morte eterna sob o peso dos nossos pecados.

Ao contrário de Maomé, Buda e os demais fundadores de religiões que morreram velhos depois de uma vida longa, Cristo viveu uma vida curta, foi condenado à morte, torturado e executado. Encarnou o homem novo na sua vida, sendo modelo de humanidade e pagou com a própria vida o ter enfrentado os poderosos exploradores do povo, dos mais pobres e humildes.

Deus é uno e trino, é comunidade
O Islão herdou o monoteísmo simples dos hebreus. Por isso, tanto judeus como muçulmanos, não têm forma de fundamentar teologicamente que o homem é feito à imagem e semelhança de Deus. Se Deus é amor e o amor que não sai fora de si mesmo é egocentrismo, Deus é mais que um; Deus é uma família: Pai, Filho e Espírito Santo e, através Dele, encontramos o modelo da família humana: pai, mãe e filho.

Deus é uno e trino, tal como uma família humana está chamada a ser uma unidade de três pessoas, onde a existência de uma só não é possível sem a existência das outras duas – um homem não é pai sem ter uma mulher e um filho; uma mulher não é mãe sem ter um filho e um marido; e um filho não existe por si mesmo sem ter um pai e uma mãe.

Como Cristo é o modelo para a vida humana individual, a Santíssima Trindade é o modelo para a vida humana social; um modelo de paz, harmonia e amor. O judaísmo e o Islão carecem de modelos, de pontos de referência teológicos para a vida em família e em sociedade, concebendo a Deus como um grande solitário.

Conclusão: Quem não deve, não teme… Se o Islão acha que não tem incoerências e inconsistências que ameaçam a sua própria existência que se submeta, já que é a religião da submissão, à crítica da razão, como o fez e faz o cristianismo. Uma fé que não se deixa confrontar pela razão não é fé, é superstição.

Pe. Jorge Amaro, IMC



1 de fevereiro de 2022

Islão, razão e Maria

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O  concílio Vaticano I define a fé como sendo um “Obséquio razoável”. Razoável porque é plausível, contém um mínimo de razão, faz sentido sem chegar nunca a ser racional como as ciências positivas. A fé totalmente desprovida de razão é irracionalidade e superstição que facilmente conduzem ao fanatismo.

Por outro lado, a parte não pode conter o todo, é ilógico que a criatura com a sua razão possa compreender totalmente o seu Criador. A fé não pode ser completamente racional, sendo, por isso, um obséquio de nós próprios a Deus: é confiar e render-se incondicionalmente ao outro.

Juntamente com a Grécia e Roma, o cristianismo é um dos vértices do triângulo onde assenta a cultura e civilização da Europa e do mundo ocidental para onde Europa se alargou. A Igreja foi mãe e mestra da cultura ocidental e, precisamente por isso, no processo de emancipação foi e continua a ser agredida por todas as instâncias da cultura e vida social.

Se há uma religião que está sempre sob o severo escrutínio da razão e da crítica social é o cristianismo. A meu ver, o Islão não tem passado nem passou ainda por este crisol purificador, por isso contém muitas inconsistências e deficiências do ponto de vista da razão.

Génese histórica e literária do Alcorão
O Alcorão foi escrito no antigo dialeto árabe e os muçulmanos acreditam que se trata de uma compilação de revelações feitas por Alá ao Profeta Maomé (Mohammad) ao longo de vinte e três anos. As revelações foram feitas em árabe e, segundo as crenças muçulmanas, através do Arcanjo Gabriel (Yibrail).

A Bíblia é um grupo de livros, cada um com o seu autor inspirado por Deus. No entanto, é o autor que escreve, pelo que devemos retirar desses escritos o seu caráter e personalidade individuais, usos, costumes e crenças da época se quisermos chegar à “ipssismima Dei verbum” ou seja, à Palavra de Deus. Por isso, a ideia de que o Arcanjo Gabriel ditou o Corão ao profeta soa a conto de fadas e não é plausível nem humanamente credível.

“Libris ex libris fijnt fiunt”, do nada só Deus cria. É de supor que Maomé teria extraído as suas ideias após uma leitura direta das revelações anteriores, judias, cristãs e outras. Nas suas viagens, o profeta conheceu judeus e cristãos e estava familiarizado com a Bíblia, tanto com o Velho Testamento como com o Novo Testamento.

Do Corão, pode deduzir-se que Maomé era um cristão nestoriano (oriental), que viveu unido em matrimónio cristão com a sua única esposa Khadija. Maomé foi um dos líderes numa luta de poder em Meca entre cristãos que queriam erradicar o politeísmo e introduzir o cristianismo, e os governantes da cidade que veneravam os deuses tradicionais do Kaaba.

A estratégia de Maomé era unir todo o povo da Bíblia cristã, isto é, tanto os cristãos judeus como os cristãos orientais, contra os politeístas idólatras. Em 615, quando a luta religiosa em Meca entre cristãos e politeístas se tornou mais intensa, partes do grupo de Maomé fugiram para os seus irmãos na fé na cidade cristã de Axum, no norte da Etiópia.

Em 622, o grupo de monoteístas de Maomé mudou-se para Yatrib (Medina). Aqui começou a unir cristãos judeus e cristãos orientais, como nestorianos monofisistas, contra os politeístas de Meca. Em 630, as tropas de Maomé conquistaram finalmente Meca e tomaram o templo Kaaba, convertendo-o num santuário monoteísta.

O que o profeta pretendia era, portanto, uma síntese do judaísmo e cristianismo adaptado à realidade árabe. Provavelmente, nunca pensou numa nova religião, pelo que se voltasse à Terra hoje não se reconheceria na religião muçulmana atual. O mesmo aconteceria com Lutero e a sua Reforma, que nunca pretendeu criar um cisma na Igreja – se voltasse à Terra hoje, provavelmente não se reconheceria como protestante. De facto morreu como católico.

Jesus e Maria no Alcorão
Com um capítulo inteiro (sutra) dedicado só a ela, a Virgem Maria é a única mulher referida pelo seu próprio nome no livro do Alcorão. Todas as outras são mencionadas em relação a um varão; por exemplo, não há referências a Sara, mas sim à mulher de Abraão. Sobre a virgindade de Maria, o Alcorão afirma claramente que está em pecado aquele que não acredita nela ou a põe em causa.

Segundo as duas tradições, tanto a cristã como a muçulmana, ambos, Maria e o profeta Maomé, recebem a visita do Arcanjo Gabriel que a ambos sopra a Palavra. Esta Palavra em Mohammed tornou-se num livro – o Alcorão – em Maria, tornou-se num homem – Jesus de Nazaré. Pelo que, dizem alguns estudiosos do Islão, Jesus ou o profeta Isa, como é chamado no Islão, é o Alcorão em forma de homem e o Alcorão é Jesus em forma de livro.

Muitos muçulmanos podem convenientemente querer esquecer que, quando Maomé voltou para Meca, deu ordens para que todas as estátuas de ídolos fossem destruídas, mas ele mesmo correu para abraçar e proteger com o próprio corpo a estátua da Virgem Maria com o seu filho Jesus ao colo.

O Islão atual, para marcar as diferenças com o cristianismo, ignora estes factos, mas o certo é que até para a fé muçulmana é o profeta Isa, Jesus, o filho da Virgem Maria, que há de voltar no último dia para julgar os vivos e os mortos.

O cristianismo e o Islão não são irreconciliáveis e Maria podia ser a base comum sobre a qual se estabeleceria a paz e o entendimento, não só entre o cristianismo e o Islão, mas também com o judaísmo.

A virgindade de Maria no Alcorão
Face a estes factos, vejamos a primeira contradição e inconsistência na religião muçulmana – se para a fé Muçulmana, como para nós, Maria a mãe de Jesus é Virgem, quem é o pai de Jesus? É óbvio que não pode ser José, o carpinteiro, pois se é ele Maria não pode ter permanecido virgem.

E se José não é o pai de Jesus e Maria permanece virgem depois de conceber, então a conceção não pode ter sido natural e o pai não pode ter sido humano. Se não é obra humana, só pode ser obra de Deus, e se é obra de Deus então Deus tem um filho e não é como o Judaísmo e o islão o concebe, um Deus solitário, mas sim como o concebe o cristianismo e como nos foi revelado por Jesus Cristo, um Deus amor, expressado e vivido em família ou comunidade, a Santíssima Trindade.

Conclusão: Maria, a mulher judia mais popular de todos os tempos, respeitada e amada pelos muçulmanos como mãe do profeta Isa, venerada e amada pelos cristãos como a mãe do filho de Deus, pode um dia trazer a paz, a harmonia e o entendimento entres as três religiões abraâmicas. Sendo Fátima, o nome da filha preferida de Maomé, este poderia ser o quarto segredo escondido no nome da localidade portuguesa onde a Nossa Senhora apareceu

Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de janeiro de 2022

Deus só abençoa, a Natureza pode amaldiçoar

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Tomo hoje por testemunhas contra vós o céu e a terra; ponho diante de vós a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe a vida para viveres, tu e a tua descendência. Deuteronómio 30,19

Autonomia da criação
Influenciados por um sentimento religioso ancestral, quando uma calamidade se abate sobre nós ou sobre os outros, podemos não o afirmar por palavras, mas sempre temos o pressentimento de que foi castigo de Deus, e chegamos a dizer: “Que mal fiz eu a Deus?” “Porque me acontece isto a mim?” Ao que eu respondo às vezes sarcasticamente “E porque não a ti?” A todos nós pode acontecer tudo.

Foi esta ideia que os amigos de Job tentaram inculcar-lhe, “Se toda esta tragédia te sucedeu, perderes a riqueza, a saúde e os teus filhos, é porque fizeste alguma coisa contra Deus que agora te castiga.” Job confessa a sua inocência e, indiretamente, afirma que ninguém está livre de tragédias, desastres, mesmo não tendo infringido nenhuma lei, nem de Deus nem da Natureza.

A criação é autónoma. Deus criou-a e deu-lhe independência e autonomia, como no la deu a nós. Deus que cria a Natureza com as suas leis, não vai ser Ele o primeiro a infringi-las ao intervir caprichosamente contra estas mesmas leis. É certo que já não entendemos a Natureza à maneira da Física de Newton, funcionando mecanicamente como um relógio suíço.

Mesmo entendendo a realidade como hoje a entende a Física Quântica, onde as leis da Natureza não se verificam sempre em todo o momento e em todo o espaço da mesma forma, mas sim segundo uma probabilidade estatística, mesmo entendendo uma Natureza onde há lugar para o acaso, a incerteza e a indeterminação, nada acontece que Deus não saiba e tenha previsto. A criação tem um elevado grau de autonomia, mas não está fora dos desígnios de Deus nem Deus fora dela, pois é imanente, ou seja, está presente no coração de cada coisa que ele criou.

Os castigos de Deus são antropomorfismos humanos
A Bíblia no Antigo Testamento, está cheia de episódios onde Deus aparece como vingativo e castigador: o dilúvio (Génesis 6:9–8:22), a Torre de Babel (Génesis 11:1–9), Sodoma e Gomorra (Génesis 18:20–21, 19:23–28), as dez pragas do Egito, (Êxodo, capítulos 7–12), entre outros.

A verdade é que Deus não castiga ninguém, Deus não sabe castigar, não sabe amaldiçoar, só sabe abençoar, só quer o nosso bem. A imagem que devemos ter de Deus é a que nos transmite Jesus de Nazaré. A do Antigo Testamento é um antropomorfismo, ou seja, uma forma de imaginar a Deus de maneira humana. Uma projeção humana sobre a identidade de Deus. Como eu sou castigador e vingativo, projeto sobre Deus a imagem que eu tenho de mim mesmo.

Os meus planos não são os vossos planos, os vossos caminhos não são os meus caminhos - Oráculo do Senhor. Tanto quanto os céus estão acima da terra, assim os meus caminhos são mais altos que os vossos, e os meus planos, mais altos que os vossos planos. Isaías 55, 8-9

O mal que nos acontece, seja em forma de acidente, calamidade ou doença, nunca é da responsabilidade de Deus nem querido por Ele. Deus que faz chover sobre justos e injustos, (Mateus 5, 45) ama-nos incondicionalmente e não ama os bons mais do que ama os maus, os justos mais que os injustos.

A Natureza castiga
Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos é que ficaram embotados. Ezequiel 18, 2

O facto de Deus não castigar, não significa que não haja castigos. Toda a boa ação tem um prémio e toda a má ação tem um castigo. Os prémios são dados por Deus em forma de graças concedidas; os castigos são aplicados pela Natureza.

Deus perdoa sempre, os homens perdoam às vezes, a Natureza não perdoa nem esquece. O que fazemos contra a Natureza, seja a nossa natureza humana, individual e social ou a natureza física, será pago por nós ou por alguém.

“What goes around comes around”, como se diz em inglês; tanto o mal como o bem que fazemos têm um efeito boomerang. Como diz o nosso povo “o mal fica com quem o pratica” ou ainda “cá se fazem cá se pagam”.

Tomemos por exemplo o consumo de álcool; o nosso fígado tem capacidade para sintetizar uma certa percentagem de álcool, tudo o que for para além dessa percentagem danifica o fígado e as consequências são sempre nefastas, como sabemos. O pecado é o e-mail, a penitência ou o castigo é o anexo.

O universo astronómico, seja o da natureza física, o da natureza animal ou o da natureza humana, rege-se pelas mesmas regras; ninguém infringe essas regras sem pagar o preço.

A nível individual, portanto, o que fazemos contra a nossa natureza será pago por nós próprios ou por algum descendente nosso; o que é certo é que alguém o pagará. Nada se faz contra a Natureza que não tenha consequências. O castigo ou a penitência segue o pecado, como o anexo de um e-mail.

A temperatura do planeta está a aumentar devida à excessiva concentração de gases carbónicos na atmosfera que evitam que o calor do nosso planeta se disperse. Algumas consequências já são visíveis, mas vão piorar muito se não começarmos a reduzir drasticamente a emissão desses gases.  

Deus adapta-se a nós
Deus escreve sempre direito por linhas tortas.
Não há mal que por bem não venha


Nós partimos o prato, Deus recolhe os cacos e trata de o reparar. Adão e Eva pecaram e Deus não ficou ali impávido e sereno, saboreando a vingança da Natureza que se revoltou contra aqueles que quebraram as suas leis, castigando-os, mas divisou um plano para os salvar.

O filho pródigo abandonou o Pai em busca de uma falsa liberdade, e o Pai deixou-o ir respeitando a sua escolha errada, sabendo muito bem que certas lições só se aprendem experiencialmente, errando antes de acertar.

Por outro lado, não podemos obrigar um adulto a fazer o bem; uma criança que não sabe a diferença entre o bem e o mal, sim, podemos obrigá-la a fazer o bem; para um adulto, no entanto, o bem tem de ser uma escolha sua, não uma obrigação imposta.

Deus que, por respeito à nossa liberdade, nos permite fazer o mal, não tem desejos de vingança como por antropomorfismo nos diz o Antigo Testamento. Pelo contrário, o Deus Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo é um Deus compassivo, nem sequer lento para a ira, mas completamente desprovido dela. Como filhos pródigos longe d’Ele, nunca nos esquece ou perde de vista, está sempre de atalaia a ver se um dia voltamos e, no dia em que voltamos, faz uma festa.

A ovelha deixa de ser ordeira e quer ser ovelha negra. Sai do rebanho, quer ver o que há mais além, descobrir pastos novos, experimentar e perder-se. Mas o pastor não a abandona ante o perigo e, quando supõe que esta está perdida nas suas buscas e quer regressar ao rebanho, o pastor busca-a por vales e valados até a encontrar. Quando a encontra, põe-na aos ombros e alegra-se; ele e os seus amigos fazem uma festa.

Nós homens matamos o Salvador da Humanidade, fomos livres de o fazer, mas Deus que escreve direito por linhas tortas e que tira bem do nosso mal, que se adapta sempre aos nossos erros, buscando a melhor solução para eles, Ressuscitou de entre os mortos para o fazer primicia dos que se salvam.

Deus não quer a morte do pecador. Perante o nosso mal, mesmo o merecido, busca sempre formas de nos salvar das situações em que nos colocamos ou nos colocam os outros ou a natureza. Isto acontece porque Deus é a regra suprema e tudo Lhe está submetido por muito tortos que sejam os nossos caminhos.

Deus, que por nos amar respeita a nossa liberdade e as nossas más escolhas, deixa-nos entrar no túnel do erro e espera ansiosamente por nós à saída. E se vê que não saímos e estamos em apuros, sempre que O invocamos, aparece-nos na hora H com o sétimo de cavalaria para nos salvar dos palpos de aranha onde nos colocámos.

Conclusão: Deus sempre perdoa e esquece, abençoa e não castiga; pelo contrário, a Natureza não perdoa nem esquece e sempre castiga.

Pe. Jorge Amaro, IMC



1 de janeiro de 2022

O Mar de Deus e o Rio da vida

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Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, como teria dito Eu que vos vou preparar um lugar? E quando eu tiver ido e vos tiver preparado lugar, virei novamente e hei-de levar-vos para junto de mim, a fim de que, onde eu estou, vós estejais também. E, para onde eu vou, vós sabeis o caminho.» Disse-lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos nós saber o caminho?» Jesus respondeu-lhe: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim.» João 14,2-6

Os bebés e as crianças pequenas não têm consciência de que existem e frequentemente falam de si mesmos na terceira pessoa. Quando à idade de 6 ou 7 anos ganhamos autoconsciência, ou seja, temos consciência de que existimos como pessoas humanas, livres e independentes, damo-nos conta de que somos finitos, de que somos, como dizia Heidegger, um ser para a morte.

É por essa mesma altura que buscamos o sentido da nossa vida e nos colocamos as três clássicas perguntas: de onde vimos? Para onde vamos? Que sentido tem a vida? Os agnósticos dizem que não sabem, que não têm informação suficiente para responder às perguntas; os ateus sim, sabem e dizem que vêm do nada, que vão para o nada e por muito que busquem o sentido da vida, algo que começa no nada e termina no nada não pode, pela lógica do raciocínio, ser mais do que nada. Em matemática, zero mais zero é igual a zero.  

Os crentes dizem que vêm de Deus, vão para Deus e vivem para dar glória a Deus, pondo os talentos Dele recebidos ao serviço da humanidade, chegando assim à plena realização de si mesmos e à felicidade que nunca será completa nesta vida. Daí que Sto. Agostinho tenha dito: “Fizeste-nos Senhor para vós e o nosso coração anda inquieto enquanto não repousa em vós”.

Deus e a água: princípios de vida
A vida é como água a correr…

Todos os rios vão parar ao mar e o mar nunca se enche porque é no mar que os rios nascem. O ciclo da água é uma metáfora da vida humana: a vida vem de Deus que é o criador de tudo e de todos e volta a Deus.

É nele, realmente, que vivemos, nos movemos e existimos Atos 17, 28.

Tal como Deus é ao mesmo tempo imanente e transcendente a toda a criação, a água contida no oceano é transcendente a toda a forma de vida, pois existe por si mesma, independente e fora dos seres vivos. Ao mesmo tempo, permeia-os a todos, pois não há vida sem água. Parafraseando o livro dos Actos dos Apóstolos, é nela realmente que vivemos, nos movemos e existimos do ponto de vista físico; do ponto de vista espiritual é Nele, Deus, que vivemos, nos movemos e existimos. A água é o princípio da vida física, Deus é o princípio da vida espiritual.

Constituídos por 70% de água, aprendamos com ela.
No seu peregrinar por este mundo, a água não discute nem enfrenta os seus obstáculos, contorna-os por cima ou por baixo ou por um dos lados; encontra sempre uma saída. Assim deve ser a nossa vida: não há problemas sem solução e, como diz o povo, o que não tem solução solucionado está, não é sequer um problema, pois todo o problema tem solução.

Podemos viver sem uma perna, sem um braço, sem o pai, sem a mãe, em cadeira de rodas, como paraplégicos, tetraplégicos. Como a água contorna e volta a correr, assim nós, perante um infortúnio, devemos contornar e não rebelar-nos contra a situação, voltando a reencontrar o sentido da vida. Não deve haver lugar para o desespero, o suicídio ou a eutanásia. Aquele que no seu tempo foi considerado como a pessoa mais inteligente do mundo, Stephen Hawking, vivia numa cadeira de rodas, apenas falava com a ajuda de um computador e tinha uma mobilidade muito reduzida nos braços e nas mãos.

“Águas passadas não movem moinhos”. Tal como a água, uma vez passada, já não move o moinho que ficou para trás, deixemos o passado no passado, não permitamos que influencie negativamente ou hipoteque o nosso presente.

O ciclo da água e o ciclo da vida
A água está contida no mar; este é o grande reservatório onde toda a água vai parar e de onde toda a água procede. Com a ajuda dos ventos e das marés, a água do mar evapora-se e, em forma de vapor de água, é transportada pelo mesmo vento para a atmosfera a cima da terra. Aí condensa-se em gotas de água pura que caem sobre a terra em forma de chuva, neve, geada, orvalho e penetram a terra, formando rios e lençóis de água subterrânea.

Posteriormente, esta água emana da terra em forma de surgentes, também chamadas nascentes de água, das quais as maiores dão origem a um rio. Tal como a água, antes de nascer nós já existíamos na mente de Deus; e como a água que era pura encarna num “corpo” constituído pelos sais minerais da terra que a alberga, assim nós, puros na mente de Deus, adquirimos um corpo físico geneticamente em conformidade com o dos nossos pais que nos conceberam.

Como um rio que nasce pequenino e vai engrossando com a ajuda de afluentes, regatos, ribeiros, ribeiras e outros rios, assim nós vamos crescendo em estatura e caráter com a ajuda dos nossos pais, dos nossos irmãos, tios, professores, catequistas, médicos, etc. Há rios que tristemente não chegam ao mar, perdem-se no calor das areias do deserto; assim como há vidas que se perdem, que fracassam nos seus objetivos e se perdem.

Um rio pode já ter um grande caudal, mas pode sempre receber mais água, até de pequenos regatos. Do mesmo modo, nós aprendemos até morrer; não há ninguém tão pobre que não tenha nada que dar nem tão rico que não tenha nada que receber.

Como um rio, não podemos instalar-nos por mais bonita que seja a paisagem, pois não temos aqui cidade permanente. Podemos até formar um lago como o rio Jordão forma o mar da Galileia, mas a água transborda e o Jordão continua até ao Mar Morto que é morto não porque não recebe, mas porque não dá. O rio Jordão morre no Mar Morto porque, ao contrário do mar da Galileia, não transborda e continua até ao Mar Vermelho, ficando ali.

No caudal de grandes rios constroem-se grandes barragens, enormes paredes côncavas para reter a força das águas. Esta força é encaminhada ou sublimada em forma de canais para irrigar os campos e dar vida ao mundo rural e também como energia eléctrica que dá energia e torna possível a vida urbana. Na nossa vida precisamos também de grandes contenções dos nossos instintos básicos, grandes sacrifícios e penitências para que essa energia seja canalizada e atinja altos objetivos e benefícios pessoais, culturais e sociais. Nada na vida se consegue sem esforço, suor e lágrimas.

Em delta ou em estuário, os rios chegam finalmente ao mar, depois de um percurso de milhares de km como acontece com o rio Nilo. Mais curtas ou mais longas, também as nossas vidas chegarão um dia ao seu termo; como a água se deixa ir para o mar, morrer é deixar-se ir para o seio de Deus onde já tínhamos estado.

Assim como a chuva e a neve descem do céu, e não voltam mais para lá, senão depois de empapar a terra, de a fecundar e fazer germinar, para que dê semente ao semeador e pão para comer, (Isaías 55, 10), assim nós também não regressamos ao céu de mãos vazias, mas sim com os frutos das sementes que eram os talentos que Deus nos deu. Morrer é, portanto, regressar a casa; um regresso cantando de alegria, carregando os feixes de espigas. (Salmo 126, 6)

Viver é deixar (to live is to leave)
Desde o princípio da criação, Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher, e serão os dois um só. Marcos 10, 6-7

Para quem o inglês é uma segunda língua, existe a tendência de pronunciar “to live” (viver) e “to leave” (deixar) da mesma maneira. Inspirado neste facto cheguei à conclusão de que viver é deixar, e exige de nós um largar contínuo. A vida começa quando um homem e uma mulher deixam os respetivos lares para formarem um lar novo.

No ato conjugal, um espermatozoide X ou Y parte correndo para se unir ao óvulo e os dois formam uma só carne, como diz a escritura sobre o matrimónio. Concebida esta célula primigénia nas trompas de Falópio, a vida requer que esta deixe este espaço e emigre para o útero onde se instalará e crescerá por nove meses.

Passados os nove meses e quando o bebé está plenamente constituído, a vida requer que saia, não pode continuar no útero pois matar-se-ia e mataria a mãe. Saído deste a duras penas, é acolhido num útero maior. A família onde o bebé sente o amor incondicional de pais e irmãos; porém, para continuar a crescer, para viver, tem de deixar este ambiente de amor incondicional para frequentar a escola primária onde o amor já não é incondicional. Não há criança que não chore no primeiro dia da escola.

Quando a criança já se familiarizou com a sua escola e quando esta já se tornou numa segunda família, tem de a deixar e voltar a ser o mais pequeno numa escola secundária. Depois deixa esta para a universidade, o que requer deixar também a sua terra natal pois ali não há universidade. Muitos emigram para outro país para ter uma vida melhor.

E todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá por herança a vida eterna. Mateus 19, 29

O povo hebreu constituiu-se como tal ao deixar a escravidão do Egito, atravessando o deserto, rumo à terra Prometida; este é o arquétipo de todo o tipo de progresso, do científico ao espiritual. Para ser discípulo de Cristo também é preciso deixar. Não há crescimento de nenhuma espécie sem morrer no anterior. A cobra, para crescer, tem de abandonar a pele que tinha antes. Crescer significa morrer; assim se explica o crescimento físico do nosso corpo; umas células morrem para dar lugar a outras. Do ponto de vista biológico, a cada cinco anos temos um corpo diferente, pois nenhum das células que o constituía há cinco anos existe agora.

Deixar a vida pelo mundo em pedaços repartida
Tem sido o meu lema desde que me fiz missionário. Desde os 10 anos, nunca estive mais de 5 anos no mesmo lugar. Vivi em vários sítios em Portugal, depois em Espanha, Inglaterra, Etiópia, Canadá, Israel, Estados Unidos. Em vez de viver a minha vida toda sempre no mesmo lugar e com as mesmas pessoas, vou caminhando como peregrino, deixando pedaços de mim aqui e ali para os recolher todos ao chegar à Terra Prometida do Céu.

Conclusão: Não há vida sem água. O ciclo da água que começa e termina no Mar, espelha o ciclo da vida que começa e termina em Deus. Pela água, vivemos, nos movemos e existimos fisicamente. Em Deus, vivemos, nos movemos e existimos espiritualmente.

Pe. Jorge Amaro, IMC