15 de abril de 2026

Jesus carismático, Paulo sistemático

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«Irmãos: quanto a mim, de nada me quero gloriar, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo. Pois nem a circuncisão vale alguma coisa nem a incircuncisão, mas sim uma nova criação. 

Paz e misericórdia para todos quantos seguirem esta regra, bem como para o Israel de Deus. De agora em diante ninguém mais me venha perturbar; pois eu levo no meu corpo as marcas de Jesus
.» (Gálatas 6,14-17)

Os que Jesus escolheu como apóstolos, bem como os que O seguiram durante a sua vida terrena e após a sua morte, eram, na sua maioria, gente simples. Nenhum dos grandes do seu tempo — nem do mundo da política, nem da elite religiosa judaica, nem entre os intelectuais — se fez seu discípulo. José de Arimateia e Nicodemos foram meros simpatizantes, e só após a sua morte se manifestaram publicamente.

Assim como depois do carismático São Francisco de Assis foi necessário o espírito prático e organizador de Frei Elias, também após Jesus de Nazaré foi preciso alguém que sistematizasse e interpretasse, à luz do judaísmo e da mentalidade do mundo greco-romano, o significado da sua vinda para Israel e para a humanidade.

São Paulo, contemporâneo de Jesus, não O conheceu pessoalmente nem conviveu com Ele como os doze apóstolos e outros discípulos. No entanto, foi o primeiro grande teólogo da Igreja. Coube-lhe a tarefa de interpretar, com profundidade e rigor, o significado dos factos históricos vividos pelos apóstolos, preparando o cristianismo para dialogar com o pensamento do seu tempo.

Gloriar-se na cruz de Cristo
A cruz, hoje símbolo do cristianismo, presente no topo de igrejas e em sinais de ajuda e salvação como a Cruz Vermelha, não tinha esse significado há dois milénios. Para judeus, gregos e romanos, a cruz era um instrumento de tortura, vergonha e humilhação. 

Após a derrota da revolta liderada pelo gladiador Espártaco, em 71 a.C., os romanos crucificaram cerca de seis mil escravos ao longo dos 200 km da Via Ápia, entre Roma e Cápua. Morrer na cruz era o pior destino, o equivalente, em termos de reputação, a morrer hoje de uma doença estigmatizada como a SIDA.

O mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo
São Paulo gloriava-se na cruz não apenas por esta ser um meio de salvação, mas sobretudo porque, na cruz de Cristo, tudo se clarificou. No julgamento de Jesus, quem verdadeiramente foi julgado foram os poderes do mundo; na sua crucifixão, foram os valores mundanos que foram expostos e condenados.

Neste sentido, afirma o Apóstolo: «O mundo está crucificado para mim e eu para o mundo.» A ressurreição do Crucificado revelou que os poderes humanos — com os seus ódios, divisões e injustiças — foram derrotados. Paulo, doravante, já não vive segundo os critérios desse mundo, mas segundo outros valores.

Nem circuncisão, nem incircuncisão
A circuncisão, sinal distintivo dos judeus, perde para Paulo qualquer valor salvífico. Nem a prática da circuncisão, nem a sua ausência são determinantes — o que conta é uma nova criação em Cristo.

Foi São Paulo quem libertou o cristianismo da pesada herança do judaísmo. Convertido da mais estrita observância farisaica, só ele tinha autoridade para romper o cordão umbilical com a antiga lei e emancipar, de uma vez por todas, a fé cristã da tutela judaica.

Para Paulo, o mundo anterior — com as suas distinções raciais, sociais e sexistas — perdeu todo o sentido à luz de Cristo:

“Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher, pois todos sois um só em Cristo Jesus.» (Gálatas 3,28)

Numa única frase, Paulo expressa de forma admirável como devem ser as relações humanas após Cristo: qualquer forma de discriminação — por raça, estatuto social, cultura ou género — é contrária à nova realidade inaugurada por Ele. Todos os seres humanos merecem igual dignidade, pois são irmãos de Jesus e filhos de um mesmo Pai.

Paz e misericórdia para o novo Israel de Deus
Com a ressurreição de Cristo, tem início uma nova criação: uma nova forma de ver e viver a vida. Esta nova vida forma também um novo povo de Israel, que é o corpo místico de Cristo — a Igreja — na qual somos chamados a participar:

“N’Ele é que vivemos, nos movemos e existimos, como disseram alguns dos vossos poetas: “Pois também nós somos da sua descendência.” (Atos 17,28)

Levo no meu corpo as marcas de Cristo
Este novo povo não se identifica pela antiga marca da circuncisão, mas pelas marcas de Cristo — as suas cinco chagas — que continuam a ser sinais eternos da sua entrega. São marcas visíveis em alguns dos santos que mais se identificaram com o Crucificado, como São Francisco de Assis, e que figuram com orgulho na bandeira nacional portuguesa desde a fundação da nossa identidade.

Essas marcas permanecem como tatuagens sagradas, recordando-nos sempre até onde foi o amor de Deus por nós: até dar a vida por cada um.

Conclusão - Jesus passou pelo mundo fazendo o bem, pregando, curando e realizando milagres. Paulo, embora não tenha feito parte do grupo dos Doze, foi quem melhor compreendeu, interpretou e transmitiu o sentido profundo da vida, morte e ressurreição de Jesus, dotando o cristianismo de uma linguagem capaz de dialogar com o mundo e com a história.

Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de abril de 2026

O Mal é natural, o Bem é arti-ficial

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“O homem natural não aceita o que vem do Espírito de Deus, pois para ele é loucura. Não o pode compreender, porque só espiritualmente se pode discernir.” (1 Cor 2,14)

Temos tendência a pressupor que o artificial é mau e o natural é bom. No supermercado, procuramos produtos naturais e biológicos, cultivados sem adubos químicos nem pesticidas; os amish vivem como se ainda estivéssemos no século XIX, rejeitando tudo o que é moderno; fugimos da poluição das cidades em busca do ar puro das aldeias. Por outro lado, a palavra artificial faz-nos lembrar o plástico, o que lhe confere uma carga semântica frequentemente negativa.

Os artificiais são naturais e os naturais são artificiais
Foi assim que o meu professor de moral sexual, o falecido jesuíta Javier Jaffo, introduziu o tema dos métodos anticonceptivos. A contagem dos dias férteis, a medição da temperatura basal e a verificação da viscosidade do muco cervical são, em teoria, métodos naturais. Contudo, a sua aplicação torna-os artificiais, pois o casal já não realiza o acto conjugal quando deseja, mas quando as circunstâncias o permitem.

A artificialidade destes métodos reside no facto de serem as condições e não os cônjuges a determinar o momento da união conjugal. Pode até suceder que, quando as condições permitem, os cônjuges não o desejem — e vice-versa.

Pelo contrário, como dizia o meu professor, os chamados métodos “artificiais” — a pílula, o preservativo, o diafragma, entre outros (excluindo o DIU e a pílula do dia seguinte por serem abortivos) — são, paradoxalmente, os verdadeiramente naturais. Eles conferem ao casal a liberdade de decidir quando unir-se, sem impedimentos externos.

A Igreja escreveu muito sobre este assunto e, como o meu professor, nunca compreendi porque motivo a pílula seria má e a aspirina boa — não são ambos produtos artificiais da inteligência humana? Uns dizem que têm efeitos secundários. Mas haverá algum medicamento químico que não os tenha?

Uma vez aceite o princípio da paternidade responsável, que reconhece o valor moral da limitação dos nascimentos, pouco importa o método utilizado: que se use o que for mais adequado ao casal. Ou será que os métodos chamados “naturais” são bons porque falham, e os “artificiais” maus porque funcionam? Estará, então, a contar com o fracasso?

Homo sapiens versus Neandertal
O homem de Neandertal, que imigrou da África muito antes do Homo sapiens, era mais propenso a adaptar-se à natureza, vivendo em simbiose com ela, tal como muitos animais. Se tivéssemos seguido por esse caminho, talvez nunca nos tivéssemos libertado da nossa animalidade, nunca nos teríamos diferenciado suficientemente para alcançar a plenitude da condição humana.

Não se sabe ao certo por que razão os Neandertais, que habitaram a Eurásia há cerca de 350.000 anos, se extinguiram. Talvez tenham sido suplantados pelo Homo sapiens, com quem chegaram a cruzar-se geneticamente.

Ao contrário dos Neandertais, o Homo sapiens — como o nome indica — não se limita a adaptar-se à natureza, mas procura adaptá-la a si. Mais inteligente, combina os elementos naturais para os colocar ao seu serviço. Desde a invenção da agricultura e a descoberta do fogo, até à fabricação de instrumentos e tecnologias, a criatividade humana tem sido o motor da emancipação da natureza, o corte do “cordão umbilical” que nos ligava à sua tutela.

Neste sentido, o que é “natural” aproxima-nos dos animais, enquanto o que é “artificial” aproxima-nos de Deus. A palavra “artificial” vem do latim ars facere, ou seja, “fazer arte”. A diferença entre nós e Deus é que Ele cria a partir do nada, enquanto nós criamos manipulando os elementos naturais, fazendo novas combinações e modificações com os nossos instrumentos.

O natural no homem não é obedecer cegamente à natureza, mas sim libertar-se dela, compreendê-la e dominá-la. O natural no Homo sapiens é, paradoxalmente, o artificial — ou seja, a capacidade de fazer arte.

A nossa natureza caída
As ciências humanas afastam-se cada vez mais da teoria do bom selvagem de Rousseau e aproximam-se da de Hobbes: homo homini lupus — “o homem é o lobo do homem”. Não nascemos como tábua rasa, aprendendo o mal pela educação. Pelo contrário, já nascemos com o mal em nós.

Podemos, sim, aprender técnicas para o praticar, mas o espírito do mal não precisa de ser ensinado — é inato. Sabemos praticá-lo espontaneamente. Tudo o que de mau a humanidade fez ao longo da história parece integrar uma base de dados universal, semelhante ao inconsciente coletivo descrito por Jung.

São Paulo: o homem natural ou homem velho
“As obras da carne são bem conhecidas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, inimizades, contendas, ciúmes, iras, ambições, discórdias, divisões, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a estas. [...] Os que praticam tais coisas não herdarão o Reino de Deus.”  (Gálatas 5, 19-21)

“Não entendo o que faço. Pois não faço o bem que quero, mas o mal que aborreço.” (Romanos 7,15)

São Paulo sentia na própria carne a força da natureza humana decaída — a inclinação natural para o mal. A isso chamou “obras da carne”, características do homem velho. Esta é a herança do pecado original: Adão, nosso pai terreno, transmitiu-nos uma natureza ferida. Fazer o mal não exige esforço — é quase como uma segunda natureza.

São Paulo: o homem espiritual ou homem novo
“O fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio de si. Contra estas coisas não há lei. Os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e desejos.” (Gálatas 5, 22-24)

O dilúvio não foi solução; destruir tudo e começar de novo com Noé não resolveu o problema, porque o mal já estava entranhado na natureza humana. Deus desenhou outro plano: enviou o seu Filho, igual a nós em tudo, excepto no pecado. O pecado não faz parte da criação divina — é invenção nossa.

Cristo é o Homem Novo, não surgido após o dilúvio, mas nascido da união entre a natureza divina e a natureza humana purificada em Maria. Cristo foi enxertado no Adão original, não no que este se tornou. Como todo o enxerto, o de Cristo transforma a árvore desde dentro, tornando-a capaz de dar novos frutos.

Cristo: Caminho, Verdade e Vida
    “Quem quiser ganhar a sua vida, há de perdê-la.”
    “Quem quiser seguir-me, renuncie a si mesmo.”
    “Amai os vossos inimigos.”
    “Bem-aventurados os pobres.”
    “Não convideis os vossos familiares e amigos…”

Jesus usa, frequentemente, uma linguagem paradoxal. O modelo de humanidade que Ele propõe é, à luz da lógica natural, artificial. Vai contra a corrente das nossas tendências instintivas — e, no entanto, está mais que provado que não há outro caminho para a verdadeira felicidade.

Como dizem os italianos, “Se non è vero, è ben trovato”. Mesmo que a figura histórica de Jesus de Nazaré nunca tivesse existido, a narrativa construída pelos quatro evangelistas seria, ainda assim, a melhor de todos os tempos.

O cristão é a medida do humano, e o humano é a medida do cristão. Os valores do Evangelho orientam a vida pessoal e social. A própria Carta dos Direitos Humanos das Nações Unidas é, em grande parte, inspirada nos valores evangélicos.

Indiscutivelmente, não há melhor modelo de vida humana do que Jesus de Nazaré. O seu quotidiano, os seus gestos e palavras constituem, verdadeiramente, Caminho, Verdade e Vida para todos os tempos e lugares.

Como modelo de vida, como estrela polar da humanidade, não existe alternativa igualmente válida. Como Ele próprio disse: “Quem não recolhe comigo, dispersa.” (Lc 11, 23) — não porque recolha com outro, mas porque se perde no vazio.

Conclusão - Natural é aquilo que recebemos da natureza; artificial — do latim “Ars facere” — é o que nasce da nossa mente e criatividade. A vida humana tem, afinal, mais de artificial do que de natural.

Pe. Jorge Amaro, IMC