Ele consola-nos em todas as nossas tribulações, para podermos também nós consolar os que se encontram na tribulação. 2 Coríntios 1, 4
Como conceptualizo a génese da minha vocação
Hoje, à distância de muitos anos, quando olho para trás para a génese da minha vo
cação, consigo entender dois provérbios que explicam como Deus está sempre em ação na História dos homens e como consegue sempre “puxar a brasa à sua sardinha” ou “levar a água ao seu moinho”, mesmo quando a situação é adversa, pois Deus quer conduzir a História dos homens pelo caminho que leva à salvação.
“Deus escreve direito por linhas tortas” – Conhecido e traduzido praticamente em todas as línguas, é um provérbio português cuja origem remonta o século XVI. Usado e até abusado em teologia para dizer que, apesar de serem enviesados os caminhos dos homens, Deus consegue sempre que a sua vontade seja feita. Não precisa de linhas direitas para escrever direito; sempre escreve direito até mesmo quando as linhas são tortas. Escreve nas linhas e nas entrelinhas, conduzindo a História dos homens a um final feliz.
“Há males que vêm por bem” – É a versão portuguesa do provérbio espanhol bastante mais radical, “No hay males que por bien no vengan”. Significa praticamente a mesma coisa que o provérbio anterior. Deus consegue tirar partido até do mal; para Deus não há impossíveis, como diz a Escritura. Este pensamento já estava na mente de Sto. Agostinho quando chamou “Félix culpa” ao pecado de Adão. Adão pecou e isso foi mau, mas Deus “tirou partido”, engendrou um plano B ao preparar o mundo para o envio do seu Filho.
Promessa ou graça?
Decorria o ano santo de 1951, quando no dia 13 de outubro, aos 35 anos de idade, com mais 13 anos que o meu pai, a minha mãe se casou às 3h00 horas da manhã, fugida de casa, na Igreja paroquial da minha terra, Loriga, na Serra da Estrela. Não podendo ser celebrada a missa antes da aurora, partiram para Fátima em peregrinação. Lá, só Deus sabe se a minha mãe fez uma promessa ou se pediu uma graça, já não se recordava quando falámos sobre o assunto.
Pediu a graça de ter um filho sacerdote ou, com medo de não poder ter filhos dada a idade avançada com que se casava, prometeu que se os tivesse, um seria sacerdote. O meu irmão mais velho entrou no seminário do Verbo Divino de Tortosendo, mas, passado um ano, estava em casa. Não era aquela a sua vocação.
Por aqueles tempos, às voltas com o complexo de Édipo, eu vivia na crença de que a minha mãe não gostava de mim, em parte porque era muito parca em carícias físicas ou verbais. Quase nunca me tocava a não ser para me dar uma bofetada; mas pior ainda, era muito trocista comigo, chegando a fazer coro com os meus dois irmãos mais velhos. E colocava-me alcunhas de fazer rir toda a família, coisa a que eu não achava graça nenhuma.
Hoje sei que a minha mãe sempre me amou, mas à sua maneira, um amor que se manifestava mais em obras, que em expressões físicas ou verbais. Também vim a saber pelo meu pai que ela sofria por não saber ou poder expressar os seus sentimentos. Vi isso na maneira fria como ela tratava os meus sobrinhos, os seus netos. Mas este foi o mal do qual Deus se serviu para me chamar desde criança.
Esta frieza e distância contrastavam com o muito afeto que me tinha a minha professora, a Dona Soledade que, ao contrário da minha mãe, era muito afetiva, especialmente comigo. Eu não me sentia bem recebendo afeto de quem não tinha de mo dar e não o recebendo de quem tinha de mo dar. Revoltado com tanta amabilidade, um dia dei um pontapé à minha professora e recordo com pena que ela chorou e deitou sangue do nariz; puniu-me, mas não se vingou nem deixou de gostar de mim.
Coisas de criança?
Por causa do meu irmão sair do seminário, a minha mãe chorou durante uma semana pelo incumprimento da promessa ou não concretização da graça. Vendo que os dias passavam e as lágrimas não secavam, julguei, na minha mente de criança ser aquela a ocasião mais favorável para conquistar o amor da minha mãe. Foi então que lhe disse que não se preocupasse, que eu entraria no seminário e chegaria a sacerdote.
A minha mãe não deu muita importância àquela promessa, deve ter pensado que eram coisas de crianças. Mas há crianças que determinam ou decidem a sua vida bem cedo; eu não fui a única. De facto, comparo-me a uma outra criança, canadiana que, com a mesma idade que eu, também decidiu o resto da sua vida.
Chama-se Ryan Hreljac que, ao ouvir que a causa principal da morte de muitas crianças era a falta de água potável, angariou fundos para construir um poço em África. Depois do primeiro, outros se seguiram; hoje, ainda não tem 30 anos, é engenheiro hidráulico e continua a construir poços em África.
Durante os meus anos de escola, a promessa feita à minha mãe não foi um pensamento recorrente, diria até que foi esquecido, que se me varreu da mente. Vivi normalmente a minha infância, como um potro selvagem, sempre metido em aventuras com os meus amigos. Por aqueles tempos não havia sítio que eu não conhecesse.
Recordo que olhava para a minha terra com certo desprezo, rodeada de montanhas, sem grandes horizontes: eu chamava a Loriga uma tigela. Quando subia à Portela de Arão e olhava para a imensidão de terras que dali se avistava para os lados de Seia, Viseu, e Guarda, recordo que esse horizonte me atraía…
De facto, o gosto pela aventura e pelo mundo desconhecido fez-me um dia tentar uma fuga. Por esses dias estava provavelmente cheio da minha família, da escola onde o professor me batia todos os dias. Na família, a minha mãe troçava de mim, assim como os meus irmãos mais velhos, o meu pai era muito severo, o que fazia com que eu levasse porrada quase todos os dias.
Um dia levantei-me sorrateiramente, combinado com um amigo e fui para o coberto escuro da escola. Ali nos aninhámos os dois, esperando a primeira luz do dia para empreender viagem rumo a esse horizonte…
Só que a minha mãe tinha ouvido a porta ranger e mandou o meu pai ver se os filhos estavam todos na cama. O meu pai deu o alarme, faltava eu. Esse dia era de feira. Foi direito ao coberto da escola, chamou-me e perguntou-me o que eu estava a fazer. Eu não disse nada, mas ele pensou que eu tinha ido esperar os feirantes, pois tinham-me prometido que nesse dia iam comprar-me umas botas novas na feira. A verdade é que eu ia fugir de casa e isso os meus pais, até ao dia de hoje, nunca souberam.
Além disso, a vida era dura, a minha família era pobre. A sardinha era dividida em três, muitas vezes à noite íamos para a cama só com um prato de papas de milho, sem açúcar nem leite. Recordo que eu e os meus irmãos apanhámos um dia uma cobra com uma truta na boca; matámos a cobra e trouxemos a truta para casa, pensando que a íamos comer…
Mas não foi isso que aconteceu, já que, precisamente naquele dia, a minha mãe não tinha nada para fazer o jantar que eu iria levar ao meu pai na fábrica; a truta veio à minha mãe como anel ao dedo.
Um ovo misturado com muita farinha e uns pedaços de bacalhau era comida para toda a família. Não era costume, mas eu sempre fiz questão de celebrar o meu dia de anos e esse dia exigia comer um ovo sozinho. Chegou o meu dia de anos e não havia ovos em casa. Fui ver das galinhas, já que muitas vezes era eu que as tratava.
Apalpei uma e vi que tinha ovo prestes a pôr; já não a larguei, seguia-a para o palheiro e ela aninhou-se no meio do feno. Fiquei ali também perto dela e, como tardasse em pôr o ovo, adormeci e acordei quando senti algo quente na minha mão: era o ovo que ela tinha posto mesmo na minha mão. Corri para casa e lá satisfiz a tradição por mim estabelecida. Ainda hoje festejo os meus anos com um ovo estrelado.
Mais ou menos por esta época, um missionário visitou a nossa escola e falou-nos das suas aventuras em África; fiquei logo cativado. Eu era um aluno medíocre e provavelmente não seria apresentado a exame se, um belo dia, o professor Coutinho não tivesse perguntado o que é que queríamos ser depois da escola primária. Fui pronto a responder: queria ser missionário.
O meu professor tinha sido seminarista e era uma pessoa crente que não faltava à uma missa dominical; ao ouvir a minha resposta mudou-me de lugar e colocou-me bem perto da sua secretária. Vi logo que ele, embora não desse um chavo por mim, ia agora apertar-me para me preparar para o exame final da quarta classe. Assim aconteceu, com a sua ajuda passei o exame final que me dava acesso ao ciclo preparatório.
Sabia o que queria
Depois do exame final da escola primária, vindo eu a correr da escola como era habitual com a notícia de “aprovado”, a minha mãe perguntou “E agora o que é que queres fazer?” “Quero ser missionário”, foi logo a minha resposta. A minha mãe rejeitou a ideia dizendo “Queres fazer como o teu irmão? Entras e nem o ano terminas como ele fez?! “Não”, respondi eu, “eu chego ao sacerdócio!” disse eu, Não te lembras da promessa que eu fiz?” É provável que ela ainda se recordasse da promessa, são dessas coisas que as mães guardam no seu coração, pois o facto é que, ao recordar-lhe a promessa, ela passou a levar a sério as minhas palavras.
Tratámos logo de buscar seminário, contactámos o antigo seminário onde o meu irmão fracassara. Não havia vaga ou as condições e as propinas eram muito altas; o mesmo sucedeu com os Combonianos de Viseu. Não conseguindo nada com estas duas congregações missionárias, a minha mãe pediu ajuda ao Pe. Barreiros, o pároco da minha terra. Este, esquecendo a minha vocação missionária, tratou de me mandar para o seminário diocesano do Fundão.
Para a minha mãe era o mesmo, mas eu deixei-a envergonhada quando me neguei veementemente a entrar na diocese; o meu sonho era ser missionário, o que ela entendeu porque pelos vistos ela tinha, em tempos de donzela, considerado essa vocação.
Entrámos num impasse que durou dias, em que o meu pároco queria mandar-me para a diocese com a meia aprovação da minha mãe, mas eu não cedi. Por fim, cedeu o meu pároco, dizendo à minha mãe que tinha encontrado uma congregação missionária mais favorável, que eram os Missionários da Consolata de Fátima, com seminário menor em Vila Nova de Poiares, perto de Coimbra.
Feitos os devidos contactos, ali entrei. Quando em outubro deixei a minha terra pela primeira vez e o meu pai me foi lá pôr com 10 anos, o mundo desabou sob os meus pés quando o vi ir embora. Na minha terra vivia muito independente dos meus pais, mas eles, os meus amigos e irmãos eram tudo o que eu tinha.
Quando o meu pai se foi embora, fiquei só, sem a minha família, sem os meus amigos e chorei amargamente; era este o preço que tinha que pagar. No entanto, nunca à minha cabeça veio o pensamento de abandonar, de voltar para a familiaridade da minha casa.
Fatores determinantes na minha vocação para além da minha mãe
Pensando bem, para que a génese da minha vocação não fosse só a minha mãe, teria que haver outros fatores que contribuíssem para eu ser hoje o que sou. Esses fatores existem e a minha mãe foi talvez só o gatilho que me fez decidir. Deixem-me então enumerar esses fatores, de caráter negativo e positivo.
Eu era um miúdo feliz no meu grupo de rua com os meus amigos e amigas; éramos 3 Jorge(s) duas Fernanda(s) e um Carlitos. Na escola, era mau aluno e muito infeliz apanhando reguadas quase todos os dias. Muitas vezes, não ia à escola e nunca ninguém sabia, pois saía de casa como quem vai para a escola e voltava a casa como quem vem da escola; mas o dia passava-o sozinho nos montes.
Para além destes dois fatores negativos, há outros positivos que orientaram a minha vida. Um missionário visitou a minha escola e falou-nos de África e das suas aventuras lá, deixou-nos a todos entusiasmados e a mim em particular que sempre gostei de aventuras e terras desconhecidas.
A minha mãe tinha sido catequista e cantora na paróquia e confessou na família que em certa altura da sua vida tinha pensado em fazer-se missionária.
Os filmes e bandas desenhadas de cowboys sempre me tinham fascinado pelas aventuras neles descritas em que o cowboy sempre desempenhava o papel de bom, de salvador, sem pedir nada para si mesmo. Fascinava-me o facto de depois de libertar a cidade de bandidos, o cowboy nunca aceitar casar-se com a moça que, entretanto, se apaixonara por ele, nem aceitar a estrela de xerife que lhe ofereciam os habitantes da cidade. O filme acabava sempre com a despedida dele, cavalgando para ocidente, em busca de outra cidade onde a justiça e a paz precisassem de ser restabelecidas.
No ano em que devia fazer a quarta e última classe da escola primária e porque me considerava mau aluno, o professor Coutinho colocou-me nas últimas carteiras da turma, junto com os alunos que ele tinha decidido não propor ao exame nacional da quarta classe. Um belo dia, porém, a uns meses desse exame, perguntou aos alunos o que queriam ser depois da quarta classe. Eu disse que queria ser missionário. O professor ouviu e calou.
No dia seguinte, quando chegou à escola, chamou-me e mudou-me de carteira, colocou-me na carteira junto à sua mesa. Isso significava que ia levar-me a exame e que ia puxar por mim, dando-me uma preparação especial para eu passar no exame, o que acabou por acontecer. Mais tarde, vim a saber que ele tinha sido seminarista.
É minha ou é da minha mãe esta vocação?
Terminados os anos de Poiares, fui para Fátima, depois para Abrantes, depois para o Cacém, Valladolid, Madrid. Fui vendo, os meus colegas abandonarem os estudos e eu sem uma única crise vocacional. Uma crise forjei-a eu para me certificar de que retirava a minha mãe da minha vocação depois de terminar o liceu de Abrantes: convencia-a de que saía e durante todo o verão ela pensou que de facto eu tinha saído; ou então não acreditou em mim ou não fez grande questão….
Terminadas as férias de verão, fui para a faculdade no Cacém, escolha minha e não dela. A outra crise foi-me provocada artificialmente pelo Pe. Dário que me convenceu de que esta não era a minha vida; foi tão convincente que eu aceitei…. Passei talvez a única noite da minha vida em vigília e durante a noite dei-me conta de que não era verdade, que a minha vocação era mesmo esta e disse-lho. Ele aceitou, pelo que não se concretizou a minha saída.
Depois de muitas vicissitudes e dúvidas por parte dos meus formadores, nunca da minha parte, aos 28 anos, no dia 4 de maio de 1985, um mês depois do meu dia de anos, fui ordenado na capela do nosso seminário em Fátima pelo então bispo da Guarda Dom António dos Santos. Tudo tinha começado em Fátima pela promessa da minha mãe e tudo se cumpriu em Fátima.
Hoje, quando as pessoas me perguntam como nasceu a minha vocação, esperam uma resposta bem diferente da que lhes dou, pois pensam que ela nasceu na juventude como acontece com muitas de hoje, ou já mesmo na idade adulta. Ficam pasmadas quando lhes digo que aos seis anos de idade eu quis ser o que hoje sou.
Conclusão – A necessidade de consolar a minha mãe levou-me a descobrir a minha vocação como missionário da Consolata, vocação esta que me tem dado a oportunidade de levar a consolação do Evangelho a milhares de pessoas.
Pe. Jorge Amaro, IMC
15 de outubro de 2026
1 de outubro de 2026
Missão é Consolação
“O cliente tem sempre razão”
Era uma vez um macaco e um peixe que se tinham feito amigos e passavam os dias a brincar no rio. Um dia, enquanto se encontravam a brincar, o rio cresceu em virtude da chuva que tinha caído nas montanhas.
O macaco com a sua agilidade depressa se agarrou ao ramo de uma árvore. Pensando que o seu amigo estava em apuros, lançou-se à água, agarrou-o e colocou-o em cima dum ramo; mas como este se contorcia em sinal de protesto o macaco disse «É amigo, se não fosse por mim morrias afogado».
Este conto pode muito bem ilustrar e ajudar a interpretar a acusação que, no evangelho de S. Lucas, Marta faz de Maria. Neste caso, Maria, mais do que Marta, soube interpretar as necessidades do Mestre que, a caminho da morte, mais precisava de calma, sossego e consolação que de uma boa refeição (Lucas 10, 38-42).
Os destinatários da Missão, os indígenas, os pobres ou os indigentes sabem melhor que nós do que necessitam. Por isso, a Missão não é mais que uma proposta: a Missão e a evangelização, mais que um menu único, devem assemelhar-se a um buffet de self-service, onde são os destinatários que escolhem o que precisam.
Jesus, de facto, em muitas ocasiões perguntava ao necessitado, “Que queres que te faça?” (Marcos 10, 51), mesmo quando era patente aos olhos de todos o que a pessoa carente queria e do que necessitava.
Jesus sabia, já naquele tempo, que há pessoas que, por muito incrível que pareça, não querem sair da sua miséria, acostumaram-se demasiado a ela e até dizem, “vale mais o mal conhecido que o bom por conhecer”. Por exemplo, todos sabemos que há mendigos que preferem mendigar a serem reintegrados na sociedade, pessoas sem teto que quase ideologicamente preferem continuar sem teto.
Nos negócios estamos habituados a escutar o slogan publicitário de que o cliente tem sempre razão. A razão de ser de um negócio é vender, por isso a publicidade vai ao encontro das necessidades dos compradores ou consumidores e não dos vendedores. “O cliente tem sempre razão” porque é ele que mantém o negócio, é a procura e não a oferta que é o motor do negócio.
As minhas necessidades ou as tuas?
Conta-se que um missionário foi enviado para um lugar remoto, onde um cacique e proprietário de muitas terras abusava dos camponeses, arrendando-lhes as suas terras, cobrando-lhes dois terços da colheita ou tendo-os diretamente a trabalhar para ele por um salário de miséria.
Quando o missionário, vindo da Europa com a sua bagagem cultural, se deu conta da situação, um dia falando-lhes no sermão das Bem-aventuranças descreveu-lhes a sua situação perante o proprietário e ao fim, quando achou que, segundo a sua cosmovisão tinha ilustrado bem a situação dos camponeses, parafraseando a quarta bem-aventurança (Mateus 5, 6) bradou:
– Perante esta vossa situação, vós não tendes fome e sede de justiça?
Ao que eles responderam quase em uníssono:
– Nós, senhor padre, o que temos é fome de pão e sede de água.
Regra geral, os sociólogos e antropólogos concordam com a seguinte lista de necessidades humanas: sobrevivência, proteção, sentido, autonomia, interdependência, honestidade, empatia, bem-estar, regeneração, transcendência.
Abraham Maslow coloca estas mesmas necessidades numa pirâmide hierárquica na perspetiva do que é mais importante e mais urgente, entendendo que o ser humano não tem, por exemplo, necessidade de realização pessoal enquanto não tiver as necessidades básicas satisfeitas.
A satisfação da necessidade inferior leva a sentir a necessidade seguinte e assim sucessivamente, até ao cimo da pirâmide; e vice-versa, a insatisfação da necessidade imediatamente inferior leva a não sentir a necessidade imediatamente superior.
Assim, na base da pirâmide estão as necessidades fisiológicas, seguidas, num movimento ascendente, pelas necessidades de segurança, necessidades sociais, necessidades de estatuto, autorrealização e espirituais ou de transcendência.
Esta é, portanto, a razão pela qual os camponeses da história acima citada não tinham ainda necessidade ou fome e sede de justiça porque estavam subalimentados. Ainda há quem não entenda isto e projete a imagem que tem de si próprio, assim como as suas necessidades, no outro – em vez de ver a realidade como ele a vê. Exemplo disto é a invasão do Iraque pelos Estados Unidos para impor a democracia. Parte-se aqui do pressuposto de que o que é bem para nós deve ser, e tem que ser, bem para os outros.
Esquecemo-nos que aos adultos não se lhes pode obrigar a fazer o bem como se faz às crianças. Para os adultos, o bem tem que ser escolha própria. O pai do filho pródigo bem sabia que o filho ia enveredar pela estrada errada, mesmo assim, teve de o deixar ir.
Os valores humanos e evangélicos não se contradizem nem chocam entre si; uma “consolação” que não respeite a liberdade e a idiossincrasia do outro não é consolação, mas sim paternalismo colonial.
Voltando às questões de negócios, “o cliente tem sempre razão” porque é ele, é a lei da procura que manda no mercado, é ela que dá o pontapé de saída e põe tudo em movimento. Da mesma forma, são as necessidades reais do outro sob a sua perspetiva que devem provocar a nossa caridade. Esta deve ser uma resposta ao clamor dos oprimidos e não a aplicação à priori de uns esquemas que têm a ver mais connosco que com os pobres que queremos servir.
Conclusão – Não há verdadeira consolação sem empatia, ou seja, sem nos colocarmos no lugar do outro e tentar ver a realidade como ele a vê.
Pe. Jorge Amaro, IMC
15 de setembro de 2026
"Caminha na minha presença..."
Aproxima-se mais um ano a celebração dos fiéis defuntos – daqueles que nos precederam no espaço e no tempo e que agora gozam já da eternidade junto de Deus.
Já lá vai a folia do Verão, o verde vai dando lugar ao amarelo e ao vermelho, as árvores perdem as folhas e toda a Natureza se prepara para a letargia do Inverno. É como se tudo estivesse a morrer. Sabemos, contudo, que se trata de uma morte passageira, assim como também a nossa morte o será. Ainda assim, leva-nos a refletir sobre o sentido da vida.
Sempre que contemplamos a nossa existência no seu todo, não podemos deixar de nos interrogar: de onde vimos, para onde vamos e que sentido tem tudo isto? Para os ateus e agnósticos que respondem “nada” às duas primeiras perguntas, é natural que também respondam “nada” à terceira. Mas os crentes dão uma resposta diferente:
Vimos de Deus – Deus pensou em nós desde toda a eternidade. Se sempre estivemos na mente de Deus, mesmo antes do “Big Bang”, então não seremos eternos apenas depois da morte: já o éramos antes desta vida, ao menos como projecto. Existíamos em Deus, como ideia, como desejo, como amor.
Vamos para Deus – A nossa vida não é uma sucessão de primaveras, verões, outonos e invernos; não vivemos apenas de janeiro a janeiro. O nosso caminho não é um círculo vicioso, mas uma linha com direção. Caminhamos para a Terra Prometida, que é o Reino dos Céus. Deus e o seu Reino são o objetivo da nossa existência.
Por isso, buscamos em primeiro lugar o Reino e a sua justiça – ou seja, o bem comum –, pois tudo o resto, aquilo de que precisamos, nos será dado por acréscimo (cf. Mateus 6,33).
Que sentido tem a vida? – Se Deus está no princípio e no fim da nossa vida, é natural que vivamos já, aqui e agora, n’Ele e com Ele. Que O amemos acima de todas as coisas, que só n’Ele depositemos a nossa confiança e segurança. Que, como Abraão, caminhemos na sua presença, pois, como diz São Paulo nos Atos dos Apóstolos, é n’Ele que nos movemos, existimos e somos (Atos 17,28).
Deus, que nos criou sem o nosso consentimento, não nos salvará sem a nossa colaboração. A nossa vida é um processo de configuração com Cristo, Caminho, Verdade e Vida (cf. Romanos 13,14).
Há quem viva sem Deus e para outros fins, justificando a própria vida através de valores como o poder, o prazer, a riqueza ou a fama. Mas tudo isso são “bens” passageiros, que não satisfazem o coração humano.
Poder e controlo
Em inglês, chama-se “power and control freak” a quem vive obcecado com poder e controlo. É uma patologia da alma. Curiosamente, quem mais busca poder sobre os outros, normalmente, tem pouco controlo sobre si mesmo. Esquecem-se de que governar-se a si próprio é o maior dos impérios.
A verdade é que nascemos completamente impotentes, em total dependência dos outros. E, por muito poder que se alcance ao longo da vida, este nunca é absoluto, dura pouco e é frequentemente ilusório. Não controlamos nem os próprios esfíncteres – razão pela qual usamos fraldas no início da vida e, por vezes, também no fim.
Se sem poder nascemos e sem poder morremos, o pouco poder que detemos é ilusório. Melhor do que o poder é o amor – o poder do amor.
Prazer hedonista
Há quem fuja da dor como o diabo foge da cruz e busque apenas o prazer. Mas o sofrimento é parte essencial da vida. O mal é fácil, como descer uma ladeira; o bem é difícil, como subi-la. Nada de bom nasce da preguiça ou do “dolce fare niente”. Tudo o que vale a pena exige esforço, coragem, lágrimas e perseverança.
A alegria da superação e da vitória é superior a qualquer prazer físico, e nunca se alcança sem luta. O sofrimento está presente desde o nascimento até à morte – e é, muitas vezes, através dele que pagamos o preço de uma vida digna e com sentido.
No fundo, não é a morte que mais tememos, mas o sofrimento. E, por isso mesmo, o medo da morte é, muitas vezes, o medo da verdadeira vida, pois viver implica também sofrer.
Amor pela riqueza
“Que o espírito de Deus esteja contigo para que possas ver que todas as coisas são boas, mas ai de ti se amares as criaturas abandonando o Criador!” – Francisco Benzoni
Nus saímos do ventre da nossa mãe e nus voltaremos ao seio de Deus – de onde também ela veio. Não somos donos de nada, pois nada possuímos de forma definitiva – nem sequer a própria vida.
Fama e popularidade
Ao nascermos, não somos ninguém – já não há sangue azul. Durante os primeiros seis anos da nossa vida, nem sequer temos plena consciência de nós mesmos. Muitos vivem anos em coma, outros terminam a vida como a começaram – inconscientes de quem são. O grande Ronald Reagan, vítima de Alzheimer, não se recordava de ter sido presidente dos Estados Unidos. Assim é a fama: efémera e frágil. O que hoje brilha, amanhã é esquecido.
À volta da esquina
Um acidente de viação, um enfarte, um diagnóstico inesperado, e num instante estamos diante do Criador. Sem aviso, sem tempo de preparação. Por isso, diz São Lucas: “Vivamos em santidade e justiça na Sua presença, todos os dias da nossa vida” (Lucas 1,75).
E que também de nós se possa dizer, como foi dito de Jesus: “Passou pelo mundo fazendo o bem” (cf. Atos 10,34-38).
Conclusão - Como não sabemos o dia nem a hora, caminhemos todos os dias e a todas as horas na presença de Deus. Assim, estaremos sempre preparados – em todo o tempo e em todo o lugar – para O encontrar, pois vivemos já com Ele, por Ele e para Ele.
Pe. Jorge Amaro, IMC
1 de setembro de 2026
Cruz, marca resgistada ®
“Ichthus”, o primeiro símbolo do cristianismo
Durante os primeiros 9 séculos do cristianismo, os artistas não pintaram nem esculpiram a cruz de Cristo, pois era tida como um instrumento brutal de tortura. O filme “A paixão de Cristo”, de Mel Gibson, ilustra bem a realidade e a brutalidade desta forma de execução romana.
Obedeceu até a morte, e morte de cruz. (Filipenses 2, 8) Com diz São Paulo, a palavra fez-se carne, fez ser humano e aceitou todas as limitações e vicissitudes inerentes a essa condição, até a mesma morte e, entre tantas formas de morte, a pior de todas, a morte na cruz.
Por isso, o primeiro símbolo que o cristianismo adotou foi o peixe; não tanto porque os primeiros discípulos eram pescadores ou porque parte do ministério de Cristo foi realizado à beira do lago, mas porque a confissão de fé por extenso, de Jesus Cristo, Filho de Deus, salvador do mundo, nas suas iniciais em grego formava a palavra “Ichthus” que significa peixe.
De facto, o símbolo do peixe desenhado no ar ou na terra era usado como palavra-passe, senha e contra-senha por dois estranhos para se identificarem entre si como cristãos, no tempo em que o cristianismo era uma religião clandestina e portanto proibida.
Cruz de Cristo e mandamentos
Mesmo quando o evangelho os convidava a abraçar a Cruz, os primeiros cristãos fugiram dela. Ainda hoje, os nossos irmãos protestantes não gostam de representar a Cristo na Cruz, pois dizem que Ele ressuscitou e não está na cruz. Nós católicos, não somos masoquistas, sabemos que ressuscitou, mas não queremos esquecer o que Ele passou por nós.
A cruz de Cristo é a nossa bandeira, o Norte, o Sul o Este e o Oeste da nossa existência. Feita de duas hastes, uma vertical e outra horizontal, simboliza também os dois mandamentos do amor: amar a Deus sobre todas as coisas que nos convida a uma vida ascendente, a ascender sobre tudo e so
bre todos, provando só assim que somos livres, autónomos e independentes de tudo e de todos.
O amor subjuga-nos ao objeto amado; se o objeto do nosso amor é primeiramente Deus acima de todos os outros, pessoas e coisas, então somos verdadeiramente livres. E o segundo mandamento do amor, amar ao próximo como a nós mesmos, leva-nos ao princípio da igualdade: eu não sou inferior nem superior a ninguém, pelo que perante Deus somos todos iguais, sendo Ele nosso Pai, nós somos todos irmãos.
Miséria e misericórdia
Tenho sempre diante de mim as minhas culpas. (Salmo 50, 5) - Ao olhar para a cruz de Cristo devemos ver a nossa fealdade. O que levou Cristo à cruz foram os pecados dos homens do seu tempo e de todos os tempos: estupidez, raiva, desconfiança, corrupção institucional, traição de um amigo, negação de outro, fuga dos restantes, crueldade, injustiça, busca de bode expiatório, medo, inveja etc., a coleção completa da disfunção humana.
Na cruz de Cristo, a disfunção humana é revelada, exposta. São Pedro coloca esta mesma ideia claramente dizendo: Matastes o Príncipe da vida, mas Deus ressuscitou-o de entre os mortos: disso nós somos testemunhas. (Atos 3, 15). Em definitiva, o autor da vida veio e nós matámo-lo; pelo que à luz da cruz de Cristo ninguém é inocente. Foi morto pelos nossos pecados, os nossos pecados O mataram, pelos nossos pecados Ele morreu.”
Na cruz de Cristo encontramos o nosso pecado patente, a nossa miséria, mas também vemos nela a divina misericórdia. Jesus tomou sobre si o nosso pecado que acabou por matá-l´O; se permanecesse morto seria o seu fim e o nosso, mas como ressuscitou, na sua ressurreição devolveu-nos a vida que o pecado nos tirara e tiraria.
Na cruz de Cristo encontram-se a miséria humana com a misericórdia divina; na cruz de Cristo a misericórdia divina vence a miséria humana. Na árvore do paraíso venceu a miséria humana; na cruz de Cristo vence a misericórdia divina.
Salvação e saúde
Assim como Moisés ergueu a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do Homem seja erguido ao alto, a fim de que todo o que nele crê tenha a vida eterna. João 3, 14-15
Salvação e saúde têm em latim o mesmo termo, “salus”. Segundo a leitura, o símbolo da medicina é de facto também um símbolo religioso. O próprio Cristo se identificou com aquela serpente que Moisés ergueu no deserto para curar os judeus que tinham sido mordidos por serpentes venenosas.
Em Adão e Eva todo o género humano foi mordido pela serpente que espalhou o seu veneno e infetou a raça humana. Neste episódio do Livro dos Números que Jesus cita e com o qual se identifica, vemos já a ideia que levaria mais tarde os cientistas a descobrir que o antídoto contra o veneno de uma serpente é tirado desse mesmo veneno.
Injetado o veneno num corpo volumoso como o do cavalo, este reage criando anticorpos. Estes anticorpos injetados no corpo de alguém mordido por uma serpente vão neutralizar o efeito do veneno.
Há um tipo de glóbulos brancos no nosso sangue que se chamam neutrófilos e que, perante uma invasão de bactérias ou vírus, ingerem essas mesmas bactérias, germes ou vírus, causando-lhes a morte e evitando assim uma infeção generalizada; morrem para nos salvar.
“Vida por vida”, como diz o lema dos bombeiros. Cristo, como um neutrófilo, tomou sobre si o veneno da antiga serpente espalhado pela espécie humana, engoliu-o e este matou-o. Mas, do seu lado, saiu sangue e água que são os anticorpos de que precisamos para combater o pecado. A água do batismo e o sangue da eucaristia vencem o pecado.
Conclusão – Os grandes pecados que os protagonistas da morte de Cristo cometeram, são os mesmos que ainda hoje cometemos. Cristo morreu pelos nossos pecados porque foram os nossos pecados que O mataram.
Pe. Jorge Amaro, IMC
Durante os primeiros 9 séculos do cristianismo, os artistas não pintaram nem esculpiram a cruz de Cristo, pois era tida como um instrumento brutal de tortura. O filme “A paixão de Cristo”, de Mel Gibson, ilustra bem a realidade e a brutalidade desta forma de execução romana.
Obedeceu até a morte, e morte de cruz. (Filipenses 2, 8) Com diz São Paulo, a palavra fez-se carne, fez ser humano e aceitou todas as limitações e vicissitudes inerentes a essa condição, até a mesma morte e, entre tantas formas de morte, a pior de todas, a morte na cruz.
Por isso, o primeiro símbolo que o cristianismo adotou foi o peixe; não tanto porque os primeiros discípulos eram pescadores ou porque parte do ministério de Cristo foi realizado à beira do lago, mas porque a confissão de fé por extenso, de Jesus Cristo, Filho de Deus, salvador do mundo, nas suas iniciais em grego formava a palavra “Ichthus” que significa peixe.
De facto, o símbolo do peixe desenhado no ar ou na terra era usado como palavra-passe, senha e contra-senha por dois estranhos para se identificarem entre si como cristãos, no tempo em que o cristianismo era uma religião clandestina e portanto proibida.
Cruz de Cristo e mandamentos
Mesmo quando o evangelho os convidava a abraçar a Cruz, os primeiros cristãos fugiram dela. Ainda hoje, os nossos irmãos protestantes não gostam de representar a Cristo na Cruz, pois dizem que Ele ressuscitou e não está na cruz. Nós católicos, não somos masoquistas, sabemos que ressuscitou, mas não queremos esquecer o que Ele passou por nós.
A cruz de Cristo é a nossa bandeira, o Norte, o Sul o Este e o Oeste da nossa existência. Feita de duas hastes, uma vertical e outra horizontal, simboliza também os dois mandamentos do amor: amar a Deus sobre todas as coisas que nos convida a uma vida ascendente, a ascender sobre tudo e so
bre todos, provando só assim que somos livres, autónomos e independentes de tudo e de todos.
O amor subjuga-nos ao objeto amado; se o objeto do nosso amor é primeiramente Deus acima de todos os outros, pessoas e coisas, então somos verdadeiramente livres. E o segundo mandamento do amor, amar ao próximo como a nós mesmos, leva-nos ao princípio da igualdade: eu não sou inferior nem superior a ninguém, pelo que perante Deus somos todos iguais, sendo Ele nosso Pai, nós somos todos irmãos.
Miséria e misericórdia
Tenho sempre diante de mim as minhas culpas. (Salmo 50, 5) - Ao olhar para a cruz de Cristo devemos ver a nossa fealdade. O que levou Cristo à cruz foram os pecados dos homens do seu tempo e de todos os tempos: estupidez, raiva, desconfiança, corrupção institucional, traição de um amigo, negação de outro, fuga dos restantes, crueldade, injustiça, busca de bode expiatório, medo, inveja etc., a coleção completa da disfunção humana.
Na cruz de Cristo, a disfunção humana é revelada, exposta. São Pedro coloca esta mesma ideia claramente dizendo: Matastes o Príncipe da vida, mas Deus ressuscitou-o de entre os mortos: disso nós somos testemunhas. (Atos 3, 15). Em definitiva, o autor da vida veio e nós matámo-lo; pelo que à luz da cruz de Cristo ninguém é inocente. Foi morto pelos nossos pecados, os nossos pecados O mataram, pelos nossos pecados Ele morreu.”
Na cruz de Cristo encontramos o nosso pecado patente, a nossa miséria, mas também vemos nela a divina misericórdia. Jesus tomou sobre si o nosso pecado que acabou por matá-l´O; se permanecesse morto seria o seu fim e o nosso, mas como ressuscitou, na sua ressurreição devolveu-nos a vida que o pecado nos tirara e tiraria.
Na cruz de Cristo encontram-se a miséria humana com a misericórdia divina; na cruz de Cristo a misericórdia divina vence a miséria humana. Na árvore do paraíso venceu a miséria humana; na cruz de Cristo vence a misericórdia divina.
Salvação e saúde
Assim como Moisés ergueu a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do Homem seja erguido ao alto, a fim de que todo o que nele crê tenha a vida eterna. João 3, 14-15
Salvação e saúde têm em latim o mesmo termo, “salus”. Segundo a leitura, o símbolo da medicina é de facto também um símbolo religioso. O próprio Cristo se identificou com aquela serpente que Moisés ergueu no deserto para curar os judeus que tinham sido mordidos por serpentes venenosas.
Em Adão e Eva todo o género humano foi mordido pela serpente que espalhou o seu veneno e infetou a raça humana. Neste episódio do Livro dos Números que Jesus cita e com o qual se identifica, vemos já a ideia que levaria mais tarde os cientistas a descobrir que o antídoto contra o veneno de uma serpente é tirado desse mesmo veneno.
Injetado o veneno num corpo volumoso como o do cavalo, este reage criando anticorpos. Estes anticorpos injetados no corpo de alguém mordido por uma serpente vão neutralizar o efeito do veneno.
Há um tipo de glóbulos brancos no nosso sangue que se chamam neutrófilos e que, perante uma invasão de bactérias ou vírus, ingerem essas mesmas bactérias, germes ou vírus, causando-lhes a morte e evitando assim uma infeção generalizada; morrem para nos salvar.
“Vida por vida”, como diz o lema dos bombeiros. Cristo, como um neutrófilo, tomou sobre si o veneno da antiga serpente espalhado pela espécie humana, engoliu-o e este matou-o. Mas, do seu lado, saiu sangue e água que são os anticorpos de que precisamos para combater o pecado. A água do batismo e o sangue da eucaristia vencem o pecado.
Conclusão – Os grandes pecados que os protagonistas da morte de Cristo cometeram, são os mesmos que ainda hoje cometemos. Cristo morreu pelos nossos pecados porque foram os nossos pecados que O mataram.
Pe. Jorge Amaro, IMC
1 de agosto de 2026
Os Montes da Bíblia
Os homens que desafiaram o Evereste, não desistiram nem à primeira nem à segunda derrota. De facto, as expedições falhavam uma detrás da outra e não foram poucos os que perderam a vida.
Durante uma cerimónia comemorativa na qual se recordava a Mallory e os seus valorosos companheiros, o orador expressa e resume o espírito e os sentimentos daquela assembleia. Olhando para a janela dirigiu-se ao Evereste dizendo:
Evereste! Falo-te em nome de todos os homens corajosos. Tu derrotaste-nos não uma nem duas, mas muitas vezes. No entanto, um dia, seremos nós a vencer, porque tu não podes crescer mais do que és; nós podemos…
O atractivo do Monte
Desde sempre o monte exerceu uma atracção sobre o Homem pois desafia a sua coragem, o seu espírito de aventura, criatividade, força e resistência.
O monte é o ponto mais elevado da terra e, simultaneamente, o mais baixo do céu. É o lugar onde o céu e a terra se tocam; onde o Homem sobe até Deus e Deus desce até ao Homem. Isto implica, da parte de Deus, uma kenosis, um rebaixamento cujo ponto culminante foi a encarnação do seu Filho. Da parte do ser humano, implica uma ascensão, uma superação da natureza decaída pelo pecado, rumo à vida nova em Cristo, que é o Caminho, a Verdade e a Vida.
O Zigurate
Os primeiros templos da antiga Mesopotâmia, chamados zigurates, eram construídos em forma helicoidal, como escadas em espiral. Esta estrutura não era casual, mas antes um símbolo arquitectónico do caminho espiritual que todo o ser humano é chamado a percorrer se deseja unir-se a Deus.
São João da Cruz, no seu livro A Subida ao Monte Carmelo, interpreta essa
ascensão como um percurso de purificação e auto-transcendência. O autor convida-nos a abandonar tudo aquilo que é obstáculo à união com Deus — bens, afetos, desejos — a fim de alcançar o cume da vida espiritual.
Santa Teresa de Ávila, companheira de João da Cruz e reformadora do Carmelo, propõe um percurso análogo na sua obra O Castelo Interior. Utiliza a imagem de um castelo com muralhas concêntricas, onde a viagem espiritual se faz em direção ao centro mais íntimo de nós mesmos, onde habita Deus. Como dizia Santo Agostinho: “Deus intimior intimo meo” — Deus está mais íntimo a mim do que eu próprio.
Essa ideia de progresso espiritual, autossuperação e purificação também aparece na obra de Dante Alighieri. Na Divina Comédia, o Purgatório é representado precisamente como um zigurate, uma montanha que se sobe gradualmente até ao Paraíso.
Os montes da Bíblia
Monte Hermon - (ou "montanha sagrada") é a montanha mais alta da antiga Israel, picos cobertos de neve até junho, quando sobe 2.814 metros acima do nível do mar. Alguns estudiosos acreditam que o Monte Hermon foi o local da transfiguração de Jesus, um evento sobrenatural no qual Cristo apareceu em Sua verdadeira glória como o Filho de Deus, revelando Sua identidade como Messias e cumprindo a lei e os profetas (Mateus 17:1–8).
Se assim não foi, foi no sopé desta montanha, onde o rio Jordão abre o Vale do Rift, que se estende até ao Mar Vermelho, na Etiópia, até ao oceano Índico, em Moçambique, que os apóstolos descobriram a identidade de Jesus de Nazaré como o messias que estava para vir, o filho de Deus.
No Monte Moriah – A fé de Abraão é posta à prova, quando Deus lhe pede que sacrifique o seu filho Isaac. Ao superar este teste, Abraão transformar-se no nosso pai na Fé aprendendo que a Deus é preciso ama-lo sobre todas as coisas e sobre todas as pessoas.
No Monte Sinai – Moisés recebe de Deus os dez mandamentos que constituíram na altura uma pedagogia educativa para constituir os Judeus no Povo de Deus com uma idiossincrasia própria.
No Monte Carmelo – O profeta Elias desafia e expõe os que abandonaram a verdadeira fé num Deus que os fazia livres para se subjazerem a um sem número de ídolos que escravizam. Hoje os idólatras pretendem ser ateus ou agnósticos mas se olhamos para as suas vidas no dia-a-dia verificamos que têm pequenos ídolos que adoram e a volta dos quais orbitam.
No Monte Nebo – Moisés avista a terra prometida sem entrar nela. Martin Luther King disse no dia anterior ao seu assassinato, “O senhor concedeu-me ver a terra prometida, é possível que eu não entre nela convosco mas tenho a certeza de que nós como povo um dia entraremos na terra prometida. O sonho com um mundo mais justo e mais fraterno, o Reno de Deus, deve sempre inspirar a luta do nosso dia-a-dia.
No Monte das Bem-aventuranças – Neste monte, Jesus, o novo Moisés, proclama o seu Sermão da Montanha, propondo as Bem-Aventuranças como caminho único e inadiável para a verdadeira felicidade. Este monte é o novo Sinai do Novo Testamento.
No Monte da Transfiguração - Ali, Jesus revelou a sua identidade divina aos discípulos, preparando-os para a provação da sua Paixão. Este monte é, por isso, o novo Monte Nebo do Novo Testamento: uma visão antecipada da glória antes da travessia dolorosa do sofrimento.
No Monte do Calvário – Jesus encontra a sua morte pagando o preço por ter sido quem foi e vivido como viveu. Por um momento a injustiça parecia ter a ultima palavra, mas Jesus ressuscitou fazendo triunfar a justiça sobre a injustiça, a graça sobre o pecado. A ressurreição de Jesus levou a Igreja a entender o valor salvífico da Sua morte. O Calvário é o novo Monte Moriá: ali o Pai ofereceu o seu Filho amado pela salvação de todos. Ali Jesus foi testado como Abraão no monte Moriah.
No Monte da Ascensão – Cristo termina a sua missão terrena e sobe ao Céu, levando consigo a nossa humanidade. O anjo que aparece exorta os Apóstolos a descer do monte e levar o Evangelho a todos os cantos da terra. Este é o novo Monte Carmelo: depois da contemplação, segue-se a missão. Não uma missão violenta como a de Elias impondo a verdade, mas sim uma missão pacifica propondo a verdade.
Conclusão - A Bíblia é marcada por uma geografia espiritual onde cada monte nos fala de um passo na história da salvação — e na nossa própria caminhada interior. Subir o monte é aceitar o desafio da fé, da purificação e da entrega. Mas nenhum cume é fim em si mesmo: cada monte aponta para o Céu, mas também para a missão cá em baixo.
Como Abraão, Moisés, Elias e Jesus, somos chamados a subir — não para fugir do mundo, mas para ver de outra perspetiva e, depois, descer transformados, levando aos outros a luz, a esperança e a promessa que do alto recebemos.
Pe. Jorge Amaro, IMC
Durante uma cerimónia comemorativa na qual se recordava a Mallory e os seus valorosos companheiros, o orador expressa e resume o espírito e os sentimentos daquela assembleia. Olhando para a janela dirigiu-se ao Evereste dizendo:
Evereste! Falo-te em nome de todos os homens corajosos. Tu derrotaste-nos não uma nem duas, mas muitas vezes. No entanto, um dia, seremos nós a vencer, porque tu não podes crescer mais do que és; nós podemos…
O atractivo do Monte
Desde sempre o monte exerceu uma atracção sobre o Homem pois desafia a sua coragem, o seu espírito de aventura, criatividade, força e resistência.
O monte é o ponto mais elevado da terra e, simultaneamente, o mais baixo do céu. É o lugar onde o céu e a terra se tocam; onde o Homem sobe até Deus e Deus desce até ao Homem. Isto implica, da parte de Deus, uma kenosis, um rebaixamento cujo ponto culminante foi a encarnação do seu Filho. Da parte do ser humano, implica uma ascensão, uma superação da natureza decaída pelo pecado, rumo à vida nova em Cristo, que é o Caminho, a Verdade e a Vida.
O Zigurate
Os primeiros templos da antiga Mesopotâmia, chamados zigurates, eram construídos em forma helicoidal, como escadas em espiral. Esta estrutura não era casual, mas antes um símbolo arquitectónico do caminho espiritual que todo o ser humano é chamado a percorrer se deseja unir-se a Deus.
São João da Cruz, no seu livro A Subida ao Monte Carmelo, interpreta essa
ascensão como um percurso de purificação e auto-transcendência. O autor convida-nos a abandonar tudo aquilo que é obstáculo à união com Deus — bens, afetos, desejos — a fim de alcançar o cume da vida espiritual.
Santa Teresa de Ávila, companheira de João da Cruz e reformadora do Carmelo, propõe um percurso análogo na sua obra O Castelo Interior. Utiliza a imagem de um castelo com muralhas concêntricas, onde a viagem espiritual se faz em direção ao centro mais íntimo de nós mesmos, onde habita Deus. Como dizia Santo Agostinho: “Deus intimior intimo meo” — Deus está mais íntimo a mim do que eu próprio.
Essa ideia de progresso espiritual, autossuperação e purificação também aparece na obra de Dante Alighieri. Na Divina Comédia, o Purgatório é representado precisamente como um zigurate, uma montanha que se sobe gradualmente até ao Paraíso.
Os montes da Bíblia
Monte Hermon - (ou "montanha sagrada") é a montanha mais alta da antiga Israel, picos cobertos de neve até junho, quando sobe 2.814 metros acima do nível do mar. Alguns estudiosos acreditam que o Monte Hermon foi o local da transfiguração de Jesus, um evento sobrenatural no qual Cristo apareceu em Sua verdadeira glória como o Filho de Deus, revelando Sua identidade como Messias e cumprindo a lei e os profetas (Mateus 17:1–8).
Se assim não foi, foi no sopé desta montanha, onde o rio Jordão abre o Vale do Rift, que se estende até ao Mar Vermelho, na Etiópia, até ao oceano Índico, em Moçambique, que os apóstolos descobriram a identidade de Jesus de Nazaré como o messias que estava para vir, o filho de Deus.
No Monte Moriah – A fé de Abraão é posta à prova, quando Deus lhe pede que sacrifique o seu filho Isaac. Ao superar este teste, Abraão transformar-se no nosso pai na Fé aprendendo que a Deus é preciso ama-lo sobre todas as coisas e sobre todas as pessoas.
No Monte Sinai – Moisés recebe de Deus os dez mandamentos que constituíram na altura uma pedagogia educativa para constituir os Judeus no Povo de Deus com uma idiossincrasia própria.
No Monte Carmelo – O profeta Elias desafia e expõe os que abandonaram a verdadeira fé num Deus que os fazia livres para se subjazerem a um sem número de ídolos que escravizam. Hoje os idólatras pretendem ser ateus ou agnósticos mas se olhamos para as suas vidas no dia-a-dia verificamos que têm pequenos ídolos que adoram e a volta dos quais orbitam.
No Monte Nebo – Moisés avista a terra prometida sem entrar nela. Martin Luther King disse no dia anterior ao seu assassinato, “O senhor concedeu-me ver a terra prometida, é possível que eu não entre nela convosco mas tenho a certeza de que nós como povo um dia entraremos na terra prometida. O sonho com um mundo mais justo e mais fraterno, o Reno de Deus, deve sempre inspirar a luta do nosso dia-a-dia.
No Monte das Bem-aventuranças – Neste monte, Jesus, o novo Moisés, proclama o seu Sermão da Montanha, propondo as Bem-Aventuranças como caminho único e inadiável para a verdadeira felicidade. Este monte é o novo Sinai do Novo Testamento.
No Monte da Transfiguração - Ali, Jesus revelou a sua identidade divina aos discípulos, preparando-os para a provação da sua Paixão. Este monte é, por isso, o novo Monte Nebo do Novo Testamento: uma visão antecipada da glória antes da travessia dolorosa do sofrimento.
No Monte do Calvário – Jesus encontra a sua morte pagando o preço por ter sido quem foi e vivido como viveu. Por um momento a injustiça parecia ter a ultima palavra, mas Jesus ressuscitou fazendo triunfar a justiça sobre a injustiça, a graça sobre o pecado. A ressurreição de Jesus levou a Igreja a entender o valor salvífico da Sua morte. O Calvário é o novo Monte Moriá: ali o Pai ofereceu o seu Filho amado pela salvação de todos. Ali Jesus foi testado como Abraão no monte Moriah.
No Monte da Ascensão – Cristo termina a sua missão terrena e sobe ao Céu, levando consigo a nossa humanidade. O anjo que aparece exorta os Apóstolos a descer do monte e levar o Evangelho a todos os cantos da terra. Este é o novo Monte Carmelo: depois da contemplação, segue-se a missão. Não uma missão violenta como a de Elias impondo a verdade, mas sim uma missão pacifica propondo a verdade.
Conclusão - A Bíblia é marcada por uma geografia espiritual onde cada monte nos fala de um passo na história da salvação — e na nossa própria caminhada interior. Subir o monte é aceitar o desafio da fé, da purificação e da entrega. Mas nenhum cume é fim em si mesmo: cada monte aponta para o Céu, mas também para a missão cá em baixo.
Como Abraão, Moisés, Elias e Jesus, somos chamados a subir — não para fugir do mundo, mas para ver de outra perspetiva e, depois, descer transformados, levando aos outros a luz, a esperança e a promessa que do alto recebemos.
Pe. Jorge Amaro, IMC
1 de julho de 2026
A primazia ou primado de Pedro
(…) tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus: o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus. Mateus 16, 18-19
Marcos em 8,27-30, e Lucas em 9,18-21 referem-se a este episódio, da ida de Jesus à Cesareia de Filipe às nascentes do rio Jordão, no sopé do monte Hérmon, onde começa o vale de Rift o mais longo e o mais profundo do planeta no qual nasceu a raça humana.
Os três evangelistas sinóticos coincidem na confissão de Pedro. Não sabemos se a sua confissão de fé em Jesus como mais que um profeta, como o Messias, teria sido uma convicção individual ou se atuou como porta-voz do grupo. Em ambos casos mostra a sua liderança no grupo.
O episódio das chaves, porém só Mateus o revela assim como a palavra Igreja que não aparece em nenhum outro evangelho, e em Mateus só aqui aparece. Sendo isto um facto o poder das chaves é questionável e, no entanto, ao longo da história na Igreja católica foi lhe dado exagerada importância.
Quem tem as chaves de um templo tem o poder de abri e fechar, de abrir para quem quer e fechar para quem não quer. É o poder de excomungar e entender que essa excomunhão essa condenação tem igual valor no Céu como o tem na terra. Foi o poder das chaves que justificou tantas excomunhões injustas e todos os crimes da Inquisição.
Podemos, portanto, concordar com os protestantes e os ortodoxos, pois os outros evangelhos não o mencionam. Porém, o facto de que Simão filho de João o leader eleito por Jesus, que exe
rce já essa liderança em tempos do mesmo Mestre e depois no livro dos Atos dos Apóstolos é inegável só cegos protestantes e ortodoxos cegados pela sua ideologia o não veem.
Prova desta liderança durante o tempo de Jesus é o facto de que os filhos de Zebedeu companheiros de Pedro no círculo íntimo dos discípulos de Jesus, querem provocar um golpe de estado e usurpar o poder que ostentava pedro quando sem vergonha nenhuma lhe pediram ao Senho de sentar-se um à direita e outro à esquerda no reino. Se Pedro não tivesse e exercesse uma liderança não era preciso este claro golpe de estado por parte de Tiago e João (Marcos 10, 35-45).
Ao nomear a lista dos apóstolos os três sinópticos (Marcos 3, 13-19, Mateus 10,1-4; Lucas 6,12-16), concordam ao colocar o nome de Sião a quem o mestre apelidou de Pedro, em primeiro lugar. Neste caso até o evangelho de João se une ao coro dos sinópticos quando em João 1, 42, André leva o seu irmão a Jesus, também neste caso Jesus chama Pedro a Simão.
Depois de Jesus, quem dá o pontapé de saída da Igreja com um grande discurso publico segundo o livro dos atos dos apóstolos é Pedro, ais tarde é Pedro que fala pelo grupo no Sinédrio, é Pedro que vai para a prisão e é Pedro que sai milagrosamente da prisão. É Pedro que alerta os demais apóstolos que falta uma para completar o número de 12 e ocupar o lugar de Judas iscariotes, e por fim é Pedro que no concilio de Jerusalém concilia as duas fações a do cristianismo, uma com a outra a de Paulo, com a de Tago o irmão do Senhor.
A escritura fala muitas vezes dos apóstolos em geral. De entre os doze, alguns não são nomeados mais que quando se enumera a lista dos apóstolos; outros são nomeados um par de vezes. Sem dúvida, a figura mais emblemática dos doze é Pedro. Além de fazer parte dos doze faz também parte do círculo íntimo de Jesus, composto, além dele mesmo, por Tiago e João. É o porta-voz do grupo e o líder consagrado pelo próprio Cristo.
Sondagem à opinião pública
Jesus não precisava de saber o que os outros pensavam d’Ele por questões de autoestima ou para ver se tinha que imprimir outra direção ao seu ministério. A pergunta é mais bem retórica e preparatória da mais importante que era “E vós quem dizeis que Eu sou?”
Perante esta pergunta pessoal que Jesus dirige a cada um de nós, não podemos responder como Pilatos, por ouvir dizer; devemos buscar a resposta dentro de nós, esta resposta deve ser nossa; não podemos viver toda a vida com a fé que os nossos pais nos emprestaram no batismo.
Experiência – pregação – fé – experiência: este é o processo da fé que nos permite dar uma resposta pessoal à pergunta acima referida. Tal como a mezinha que a nossa vizinha toma e acaba curada, tudo começa na experiência; a experiência não é segredo que se possa levar para a sepultura, pois produz uma alegria tamanha que só nos sentimos bem pregando-a, divulgando-a, como se nos tivesse saído a lotaria: leva à pregação, ao anúncio.
Na verdade, o conteúdo da pregação cristã não é outro senão dizer “O Senhor fez em mim maravilhas”, ou seja, relatar como o Senhor nos salvou, tal como a vizinha testemunha sobre a mezinha que a curou. Este anúncio tão convincente gera fé em quem O ouve e testemunha, e esta fé leva a que tomemos a mezinha, ou seja, leva-nos a provar, a experimentar a Cristo.
A pergunta não era bem “quem dizeis vós que Eu sou”, mas sim “que experiência tendes de Mim, que concluís depois de comer e beber, viver, ver e ouvir”. Ninguém fica bêbado por pronunciar a palavra vinho, mesmo que o faça milhares de vezes, mas sim por bebê-lo.
Petrus simul justus ed peccator
“Homo simul Justus ed peccator” como dizia Santo Agostinho, também se aplica a Pedro; Jesus não o escolheu por ser santo. Bem vemos que não o era e os apóstolos não lavam a roupa suja em casa, mas optam por expô-la e assim nos mostram a personalidade dos apóstolos, sobretudo de Pedro, com as suas luzes e as suas sombras.
O próprio Pedro recorda a Jesus que é pecador ao dizer “afasta-Te de mim que sou pecador”. Jesus escolhe-o não pelo que ele era, mas por aquilo que podia ser com a ajuda da graça de Deus. De facto, proclamar Jesus como o Messias não foi uma dedução resultante de um pensamento sistemático, ou reflexão ou estudo, mas sim de uma intuição do Espírito Santo, pois não foi a carne que o revelou.
Era um homem impulsivo, entusiasta, mas também medricas e até covarde. Tanto agarra na espada e corta a orelha do servo do sumo sacerdote como, por covardia, nega conhecer o Senhor. Diz que nunca O deixaria e aconselha Jesus a não ir a Jerusalém: É um dos que foge e até mais tarde da perseguição de Roma, como diz a tradição “quo vadis”. Mostra-se forte na tempestade – manda-me ir ter contigo” – e depois tem medo e afunda-se, não por causa da tempestade, mas pelo medo.
Rock & Roll Pedro e Paulo
Os evangelhos – Todos os quatro evangelhos referem o lugar proeminente de que goza Pedro entre os membros do grupo. A cidade de Pedro, Cafarnaum e mais propriamente a sua própria casa, é a base de onde Jesus vai e vem no seu ministério. Era tão chegado a Pedro e à sua família que até cura a sogra deste de uma febre, o único milagre que quase não se justificava.
Porta-voz do grupo: nós deixamos tudo, que recompensa teremos? Façamos aqui três tendas…. Tu és o Messias…. A quem iremos? Só. Tu tens palavras de vida eterna…
As cartas de Paulo – os evangelhos foram escritos depois da morte de Pedro e, por este motivo, poder-se-ia dizer que representam a ideologia da Igreja, não a vontade de Cristo. As cartas de Paulo foram escritas durante a vida de Pedro e relatam o mesmo. São Paulo relata na carta aos gálatas quando a sua conversão, diz que foi a Jerusalém e esteve com Pedro 15 dias e que não viu nenhum outro apóstolo.
Paulo opõe-se a Pedro por este entrar nas casas dos gentios e comer com eles; com a vinda a Jerusalém deixa de o fazer. Critica abertamente Pedro por este comportamento incongruente, mas nem por isso nega ou deixa de acatar a sua autoridade. De facto, trata de o conquistar para o seu grupo contra os de Santiago. Assim tivesse feito Lutero como São Paulo que, apesar das divergências respeitou a autoridade de Pedro e a Igreja não estaria hoje dividida.
Como a roda de uma bicicleta
Sem uma figura que desempenhe o ministério petrino (ou ministério de Pedro) não há união. A igreja é como uma roda de bicicleta. Todos os raios apontam e estão ligados ao centro e é dali que contribuem para que a roda se mantenha resistente. Se um dos raios se partir, a roda começa a ficar empenada e anda aos ziguezagues.
De facto, fora da igreja católica, tanto as igrejas protestantes como as ortodoxas são muitas, pequenas e divididas porque não há uma figura aglutinadora como era Pedro para os doze na primeira igreja e como é o sucessor de Pedro para a Igreja ao longo do tempo e do espaço.
Conclusão – Uma, grande, universal, e livre é a Igreja Católica fundada por Cristo sobre a rocha de Pedro. Muitas, pequenas, divididas e nacionais são as igrejas ortodoxas e protestantes fundadas por seres humanos.
Pe. Jorge Amaro, IMC
Marcos em 8,27-30, e Lucas em 9,18-21 referem-se a este episódio, da ida de Jesus à Cesareia de Filipe às nascentes do rio Jordão, no sopé do monte Hérmon, onde começa o vale de Rift o mais longo e o mais profundo do planeta no qual nasceu a raça humana.
Os três evangelistas sinóticos coincidem na confissão de Pedro. Não sabemos se a sua confissão de fé em Jesus como mais que um profeta, como o Messias, teria sido uma convicção individual ou se atuou como porta-voz do grupo. Em ambos casos mostra a sua liderança no grupo.
O episódio das chaves, porém só Mateus o revela assim como a palavra Igreja que não aparece em nenhum outro evangelho, e em Mateus só aqui aparece. Sendo isto um facto o poder das chaves é questionável e, no entanto, ao longo da história na Igreja católica foi lhe dado exagerada importância.
Quem tem as chaves de um templo tem o poder de abri e fechar, de abrir para quem quer e fechar para quem não quer. É o poder de excomungar e entender que essa excomunhão essa condenação tem igual valor no Céu como o tem na terra. Foi o poder das chaves que justificou tantas excomunhões injustas e todos os crimes da Inquisição.
Podemos, portanto, concordar com os protestantes e os ortodoxos, pois os outros evangelhos não o mencionam. Porém, o facto de que Simão filho de João o leader eleito por Jesus, que exe
rce já essa liderança em tempos do mesmo Mestre e depois no livro dos Atos dos Apóstolos é inegável só cegos protestantes e ortodoxos cegados pela sua ideologia o não veem.
Prova desta liderança durante o tempo de Jesus é o facto de que os filhos de Zebedeu companheiros de Pedro no círculo íntimo dos discípulos de Jesus, querem provocar um golpe de estado e usurpar o poder que ostentava pedro quando sem vergonha nenhuma lhe pediram ao Senho de sentar-se um à direita e outro à esquerda no reino. Se Pedro não tivesse e exercesse uma liderança não era preciso este claro golpe de estado por parte de Tiago e João (Marcos 10, 35-45).
Ao nomear a lista dos apóstolos os três sinópticos (Marcos 3, 13-19, Mateus 10,1-4; Lucas 6,12-16), concordam ao colocar o nome de Sião a quem o mestre apelidou de Pedro, em primeiro lugar. Neste caso até o evangelho de João se une ao coro dos sinópticos quando em João 1, 42, André leva o seu irmão a Jesus, também neste caso Jesus chama Pedro a Simão.
Depois de Jesus, quem dá o pontapé de saída da Igreja com um grande discurso publico segundo o livro dos atos dos apóstolos é Pedro, ais tarde é Pedro que fala pelo grupo no Sinédrio, é Pedro que vai para a prisão e é Pedro que sai milagrosamente da prisão. É Pedro que alerta os demais apóstolos que falta uma para completar o número de 12 e ocupar o lugar de Judas iscariotes, e por fim é Pedro que no concilio de Jerusalém concilia as duas fações a do cristianismo, uma com a outra a de Paulo, com a de Tago o irmão do Senhor.
A escritura fala muitas vezes dos apóstolos em geral. De entre os doze, alguns não são nomeados mais que quando se enumera a lista dos apóstolos; outros são nomeados um par de vezes. Sem dúvida, a figura mais emblemática dos doze é Pedro. Além de fazer parte dos doze faz também parte do círculo íntimo de Jesus, composto, além dele mesmo, por Tiago e João. É o porta-voz do grupo e o líder consagrado pelo próprio Cristo.
Sondagem à opinião pública
Jesus não precisava de saber o que os outros pensavam d’Ele por questões de autoestima ou para ver se tinha que imprimir outra direção ao seu ministério. A pergunta é mais bem retórica e preparatória da mais importante que era “E vós quem dizeis que Eu sou?”
Perante esta pergunta pessoal que Jesus dirige a cada um de nós, não podemos responder como Pilatos, por ouvir dizer; devemos buscar a resposta dentro de nós, esta resposta deve ser nossa; não podemos viver toda a vida com a fé que os nossos pais nos emprestaram no batismo.
Experiência – pregação – fé – experiência: este é o processo da fé que nos permite dar uma resposta pessoal à pergunta acima referida. Tal como a mezinha que a nossa vizinha toma e acaba curada, tudo começa na experiência; a experiência não é segredo que se possa levar para a sepultura, pois produz uma alegria tamanha que só nos sentimos bem pregando-a, divulgando-a, como se nos tivesse saído a lotaria: leva à pregação, ao anúncio.
Na verdade, o conteúdo da pregação cristã não é outro senão dizer “O Senhor fez em mim maravilhas”, ou seja, relatar como o Senhor nos salvou, tal como a vizinha testemunha sobre a mezinha que a curou. Este anúncio tão convincente gera fé em quem O ouve e testemunha, e esta fé leva a que tomemos a mezinha, ou seja, leva-nos a provar, a experimentar a Cristo.
A pergunta não era bem “quem dizeis vós que Eu sou”, mas sim “que experiência tendes de Mim, que concluís depois de comer e beber, viver, ver e ouvir”. Ninguém fica bêbado por pronunciar a palavra vinho, mesmo que o faça milhares de vezes, mas sim por bebê-lo.
Petrus simul justus ed peccator
“Homo simul Justus ed peccator” como dizia Santo Agostinho, também se aplica a Pedro; Jesus não o escolheu por ser santo. Bem vemos que não o era e os apóstolos não lavam a roupa suja em casa, mas optam por expô-la e assim nos mostram a personalidade dos apóstolos, sobretudo de Pedro, com as suas luzes e as suas sombras.
O próprio Pedro recorda a Jesus que é pecador ao dizer “afasta-Te de mim que sou pecador”. Jesus escolhe-o não pelo que ele era, mas por aquilo que podia ser com a ajuda da graça de Deus. De facto, proclamar Jesus como o Messias não foi uma dedução resultante de um pensamento sistemático, ou reflexão ou estudo, mas sim de uma intuição do Espírito Santo, pois não foi a carne que o revelou.
Era um homem impulsivo, entusiasta, mas também medricas e até covarde. Tanto agarra na espada e corta a orelha do servo do sumo sacerdote como, por covardia, nega conhecer o Senhor. Diz que nunca O deixaria e aconselha Jesus a não ir a Jerusalém: É um dos que foge e até mais tarde da perseguição de Roma, como diz a tradição “quo vadis”. Mostra-se forte na tempestade – manda-me ir ter contigo” – e depois tem medo e afunda-se, não por causa da tempestade, mas pelo medo.
Rock & Roll Pedro e Paulo
Os evangelhos – Todos os quatro evangelhos referem o lugar proeminente de que goza Pedro entre os membros do grupo. A cidade de Pedro, Cafarnaum e mais propriamente a sua própria casa, é a base de onde Jesus vai e vem no seu ministério. Era tão chegado a Pedro e à sua família que até cura a sogra deste de uma febre, o único milagre que quase não se justificava.
Porta-voz do grupo: nós deixamos tudo, que recompensa teremos? Façamos aqui três tendas…. Tu és o Messias…. A quem iremos? Só. Tu tens palavras de vida eterna…
As cartas de Paulo – os evangelhos foram escritos depois da morte de Pedro e, por este motivo, poder-se-ia dizer que representam a ideologia da Igreja, não a vontade de Cristo. As cartas de Paulo foram escritas durante a vida de Pedro e relatam o mesmo. São Paulo relata na carta aos gálatas quando a sua conversão, diz que foi a Jerusalém e esteve com Pedro 15 dias e que não viu nenhum outro apóstolo.
Paulo opõe-se a Pedro por este entrar nas casas dos gentios e comer com eles; com a vinda a Jerusalém deixa de o fazer. Critica abertamente Pedro por este comportamento incongruente, mas nem por isso nega ou deixa de acatar a sua autoridade. De facto, trata de o conquistar para o seu grupo contra os de Santiago. Assim tivesse feito Lutero como São Paulo que, apesar das divergências respeitou a autoridade de Pedro e a Igreja não estaria hoje dividida.
Como a roda de uma bicicleta
Sem uma figura que desempenhe o ministério petrino (ou ministério de Pedro) não há união. A igreja é como uma roda de bicicleta. Todos os raios apontam e estão ligados ao centro e é dali que contribuem para que a roda se mantenha resistente. Se um dos raios se partir, a roda começa a ficar empenada e anda aos ziguezagues.
De facto, fora da igreja católica, tanto as igrejas protestantes como as ortodoxas são muitas, pequenas e divididas porque não há uma figura aglutinadora como era Pedro para os doze na primeira igreja e como é o sucessor de Pedro para a Igreja ao longo do tempo e do espaço.
Conclusão – Uma, grande, universal, e livre é a Igreja Católica fundada por Cristo sobre a rocha de Pedro. Muitas, pequenas, divididas e nacionais são as igrejas ortodoxas e protestantes fundadas por seres humanos.
Pe. Jorge Amaro, IMC
15 de junho de 2026
A Vida: Dom - Empréstimo - Aluguer?
- Quero passar esta noite neste refúgio de caravanas - disse um romeiro.
- Como te atreves a chamar refúgio de caravanas ao meu sumptuoso palácio?
- E de quem era o palácio antes de ser teu? perguntou o romeiro.
- Era do meu pai - respondeu o nobre senhor.
- E onde está o teu pai agora?
- Morreu.
- E de quem era o palácio antes do teu Pai?
- Era do meu avô…
- E onde está o teu avô agora?
- Morreu…
- De quem será este palácio depois da tua morte?
- Do meu filho…
- Então, - concluiu o romeiro, - um edifício no qual habitam diferentes pessoas durante um tempo determinado dizes tu que não é um refúgio de caravanas?”
Da “nossa” vida somos administradores não proprietários
Nus saímos do seio da nossa mãe e nus voltamos ao seio de Deus, de onde também a nossa mãe saiu. Não somos proprietários de coisa nenhuma, pois não podemos possuir nada indefinidamente, nem sequer a nossa própria vida podemos possuir indefinidamente.
O cristão deveria substituir o uso dos pronomes possessivos por pronomes administrativos. Na sua vida, em vez de conjugar o verbo ter e possuir, deveria usar o verbo usar e administrar. As coisas foram feitas para serem usadas, não possuídas nem amadas; da mesma forma, as pessoas foram feitas para serem amadas, não possuídas nem usadas.
Não somos proprietários de coisa nenhuma. De todos os recursos que dizemos possuir, e como diz o poeta, tal como não fomos ouvidos no ato de nascer, ou seja, ninguém nos perguntou se queríamos viver ou não, podemos concluir que nem a nossa vida é nossa.
“Ao feito, peito”, dizia uma mulher dando de mamar ao seu filho. Somos postos nesta vida tal como um boneco que toca tambor, seja de corda ou elétrico, e dão-nos corda ou colocam-nos uma pilha e a nossa vida dura enquanto durar a corda ou a pilha. Não temos nenhum controlo sobre o tempo da nossa vida, pois não somos senhores do tempo nem da vida.
Somos administradores, não só dos recursos materiais ou espirituais (talentos) que usamos na vida, mas também da própria vida: do tempo, das energias e da opção fundamental, ou seja, da nossa vocação ou missão e do lugar que ocupamos no mundo e na sociedade.
De tudo quanto existe, incluindo nós mesmos, o proprietário é Deus. Apesar de, ao contrário das outras criaturas, termos sido criados à Sua imagem e semelhança, somos apenas meros administradores das nossas vidas e algum dia teremos de prestar contas desta administração.
“Deus contou os anos de teu reinado e nele põe um fim; foste pesado na balança e considerado leve demais; teu reino vai ser dividido e entregue aos medos e persas”. Daniel 5, 26-28
O profeta Daniel interpretou o sonho do rei da Babilónia. Na conclusão da sua interpretação, disse ao rei que colocando num dos pratos da balança o que ele podia ter sido e no outro o que realmente foi, o que estava chamado a ser e o que foi, pesando as suas conquistas e as suas derrotas, as suas boas obras e as suas más obras, a parte positiva não tinha peso suficiente.
As coisas foram feitas para ser usadas, não possuídas, porque não são um fim em si mesmas, mas somente um meio de vida; estão ao serviço da vida. As pessoas foram feitas para serem amadas, não para serem possuídas ou usadas porque são um fim em si mesmas e nunca um meio.
Perverso é o que ama as coisas e usa as pessoas para ter mais coisas. Quem se relaciona assim com as coisas vê a vida como poder e possuir. Para ele, amar é possuir coisas e pessoas; nunca poderá ser feliz, pois ninguém gosta de ser usado ou possuído.
A vida como dom
Um dia bateu à porta do mosteiro um camponês; o irmão porteiro abriu a porta e o camponês deu-lhe um cacho de uvas. “São para si”, disse o camponês “por me ter socorrido em tempos de escassez.” O porteiro recebeu as uvas com muita alegria, agradeceu. Mais tarde quando ia comê-las, pensou, “é melhor dá-las ao abade, acho que as merece pela forma como governa o convento.”
O abade recebeu-as com a mesma alegria do irmão porteiro e quando se dispunha a comê-las na sua cela, lembrou-se que elas fariam a delícia de um dos irmãos que estava doente. O irmão doente recebeu-as com alegria e logo pensou no irmão cozinheiro que tão amavelmente tinha cuidado dele. Assim que este apareceu com o almoço, deu-lhas. Este admirou a beleza, o perfume e a perfeição das uvas e pensou em dá-las ao irmão sacristão, já que lembravam aquelas que eram oferecidas nos ofertórios da missa.
O irmão sacristão recebeu-as e entendeu o símbolo, mas não quis comê-las, pensou logo no irmão noviço que andava em crise vocacional e com muito agrado lhas deu. Por fim, o irmão noviço lembrou-se da primeira pessoa que lhe tinha aberto a porta do mosteiro e deu-as ao irmão porteiro. Desta forma, o irmão porteiro entendeu que as uvas eram para si e para mais ninguém, pelo que as saboreou uma por uma. (Resumida e adaptada de Paulo Coelho O círculo da alegria)
Esta história ilustra perfeitamente que a vida é um dom, sim, mas um dom que não se destina a ser possuído, mas sim dado. Em teologia e em livros de espiritualidade frequentemente encontramos a expressão “dom da vida”, expressando que a vida é um dom, uma dádiva de Deus. Se nos foi dada, então somos os seus proprietários, o que, como dissemos, não corresponde à verdade, pois não temos forma de reter indefinidamente esta dádiva.
Pois aquele que quiser salvar a sua vida há de perdê-la, mas aquele que perder a sua vida por causa de mim há de encontrá-la. Mateus 16, 25
A vida do outro é para mim um valor absoluto, a minha vida para mim é um valor relativo. A vida é para ser dada, consumida ao serviço dos outros ou de uma causa humana. A nossa vida não gira à nossa volta, não é nem deve ser acerca de nós, mas de algo fora de nós porque não se justifica por si mesma. Não é nem nunca deve ser autorreferencial.
Usamos a nossa vida, tempo e energias no cultivo de valores humanos que valem mais que a vida. Esses valores sim, são absolutos, pois são a razão da vida. São os valores pelos quais vivemos, os valores aos quais dedicamos todos os minutos da vida e pelos quais estaríamos dispostos a dá-la num minuto.
Cada um dos valores, talentos ou dons que dão forma à nossa vida, temo-los na medida em que os usamos pelo nosso bem e pelo bem dos outros. Se deixamos de os usar, deixamos de os ter. Neste sentido, se é verdade que só damos o que temos, também é verdade que só temos o que damos.
Por outro lado, viver é amar e amar é dar-se ao outro. Ora quando nos damos já não nos possuímos. De facto, ninguém é tão vulnerável como quando, por amor, se dá ao outro. O outro fica com um imenso poder sobre nós e pode abusar desse poder se o amor dele por nós não for recíproco. Ou seja, se ele ou ela não se nos der.
No matrimonio cristão ´amor é sempre trinitário, ou seja, os dois dão-se mutuamente um ao outro sem que ninguém possua ninguém pois quem possui os dois é Deus. Eu dou-me a Deus por intermedio de ti, tu dás-te a Deus por intermedio de mim. Os dois nos damos um ao outro sem que nenhum de nós possua o outro.
A vida como empréstimo
Um homem, ao partir em viagem, chamou os seus servos e entregou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois, a outro um, a cada um segundo a sua capacidade, e partiu em viagem. Imediatamente, o que recebera cinco talentos foi negociar com eles e ganhou outros cinco. Do mesmo modo, o que recebera dois ganhou outros dois. Mas o que recebera um, afastando-se, fez uma cova na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor. Mateus 25, 14-18
Quaisquer que sejam as circunstâncias do seu nascimento, seja um filho sumamente projetado pelos pais, que escolhem até o sexo do bebé, filho de um casal, mas não querido nem projetado, que vem ao mundo por acidente, filho de uma noite de prazer, filho ilegítimo que nasce fora do vínculo matrimonial, filho de uma prostituta e até mesmo o filho de uma violação, todos são igualmente filhos de Deus.
Se Deus permitiu que viessem ao mundo, quaisquer que sejam as circunstâncias do seu nascimento, todos, absolutamente todos são filhos de Deus e a sua vida é viável. Deus dotou cada um destes seus filhos de um projeto, um lugar no mundo e na sociedade, e dos talentos suficientes para realizar o projeto que Ele pensou para cada um dos seres humanos.
Deus é, portanto, o arquiteto da nossa vida, é Ele que tem os desenhos, os planos os cálculos referentes à construção da nossa vida, construção que termina com a nossa morte e passagem para o seio de Deus.
Tanto o plano como os talentos e limitações para o executar vão-nos sendo revelados pouco a pouco, à medida que vão sendo necessários. Não recebemos as telhas para o telhado enquanto os alicerces não forem escavados e estiverem firmes.
A parábola dos talentos ilustra que a vida é um empréstimo, um crédito que Deus nos deu para que o administremos. Tal como na parábola, ao fim temos de prestar contas, ou seja, o empréstimo tem que render lucros.
Todos nós recebemos determinados talentos e não outros. Todos recebem talentos suficientes para viabilizar a sua vida, mas ninguém recebe todos os talentos. O importante é desenvolver, fazer frutificar os talentos que se recebeu e não os esconder para depois admirar ou invejar os talentos que os outros receberam, procurando viver a vida deles, coisa que nunca se consegue.
O ato ou atitude de invejar os talentos dos outros equivale a esconder os nossos talentos, pois quando a nossa vista se foca ao longe não pode focar-se ao perto ao mesmo tempo. Ao olharmos para os talentos dos outros não vemos os nossos, pelo que é como se tentássemos viver uma vida que não é nossa e, claro, nunca viveremos felizes, com sentido e realizados. Ao tentar ser quem não somos, qualquer um pode ganhar-nos e ser superior a nós; ao ser quem somos, ninguém consegue vencer-nos.
A todo aquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e a quem muito se confiou, mais lhe será pedido. Lucas 12, 48
A falta de frutos das cidades de Corazim, Betsaida e Cafarnaum, apesar de Jesus ter ali feito uma grande sementeira, é também fortemente criticada. Se calhar, se essa sementeira tivesse sido feita fora de Israel, nas cidades fenícias de Tiro e Sidónia, o resultado teria sido outro. Por isso, o Juízo Final será mais clemente para com Sodoma do que para com estas cidades. Na verdade, delas apenas restam atualmente ruínas. (Lucas 10, 13-16)
A vida como aluguer
Havia um homem, o senhor da casa, que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar, edificou uma torre, arrendou-a a uns agricultores e partiu de viagem. Quando se aproximou o tempo dos frutos, enviou os seus servos aos agricultores para receber os seus frutos. Mateus 21, 33-34
O salmo diz que a vinha do Senhor é a casa de Israel, porém, ao ouvir este evangelho, devemos personalizá-lo. A vinha do Senhor somos cada um de nós. Ou melhor é a nossa vida e nós somos os que a alugamos, somos os caseiros. Devemos dar frutos, fazer render a vinha, esta deve ser a nossa preocupação, que a nossa vida dê frutos, que esteja cheia de boas obras. Porém a espiritualidade que nos inculcaram diz que devemos manter-nos limpos, evitar o mal e o pecado, mas não refere que temos de praticar o bem.
Espiritualidade positiva
A mania da limpeza é uma doença psíquica. Há pessoas que passam a vida a lavar as mãos e, se calhar, podem apresentar-se diante de Deus com as mãos limpas, mas Deus vai dizer-lhes que estão vazias… A nossa vida espiritual concentra-se em evitar o mal, não em fazer o bem. Isso era o que o jovem rico sempre tinha feito, cumprir os mandamentos que só nos dizem o que não devemos fazer.
Os mandamentos de Cristo são positivos: amar a Deus sobre todas as coisas e pessoas, ao próximo como a nós mesmos, a nós mesmos como Deus nos ama. Estes são mandamentos que implicam uma ação positiva, ao contrário dos 10 mandamentos que só nos exortam a evitar o mal, não a fazer o bem.
No fim das nossas vidas não seremos julgados pelo mal que fizemos, mas pelo bem que não fizemos e tínhamos a possibilidade de ter feito. Seremos julgados por ter sido maus samaritanos, por termos presenciado irmãos em necessidade e, podendo fazer alguma coisa, não fizemos nada, assobiámos para o lado e dissemos que não era connosco, que não era problema nosso.
A natureza tem horror ao vazio
Quando o espírito impuro sai do homem, anda por lugares áridos em busca de repouso e não o encontra. Então diz: "À minha casa voltarei, de onde saí". Ao chegar, encontra-a vazia, varrida e em ordem. Então vai, toma consigo sete outros espíritos piores que ele e, entrando, estabelecem ali morada. A situação final desse homem torna-se pior que a primeira. Assim acontecerá a esta geração má. Mateus 12, 43-45
Tudo o que buscamos fazer na nossa alma é vazio, esquecendo que a natureza tem horror ao vazio, como aprendemos nas aulas de Física. É uma lei da Física cuja aplicação no campo espiritual está provada no evangelho acima citado.
O vazio na natureza não existe, só pode ser criado artificialmente. Uma garrafa vazia não existe, pois ela pode estar vazia de vinho ou de água, mas nunca de ar. Se quisermos retirar o ar de um copo podemos extraí-lo artificialmente com uma máquina, criando o vácuo ou podemos naturalmente enchê-lo de vinho.
No Juízo Final, os que se salvam são os que socorreram o Senhor no pobre e desvalido e lhe deram de comer, de beber, acolheram-no quando era estrangeiro ou peregrino, vestiram-no quando estava nu e visitaram-no quando estava na prisão ou no hospital. Os condenados não foram os maus, mas os que voltaram as costas a todas as oportunidades que a vida lhes deu para fazerem o bem, pois a sua preocupação era evitar o mal. (Mateus 25, 31-46)
Novo exame de consciência e nova confissão
Com base ao texto de Mateus sobre o juízo final, deixa de ocupar o teu psiquismo com o mal e ocupa-o com o bem; usa o teu tempo e as tuas energias para fazer o bem onde quer que seja a quem quer que seja, oportunidades não vão faltar. Em vez de usar as tuas energias em lutar contra o mal dentro de ti procurando erradicá-lo e ficar com a alma limpa e vazia.
“Quem não tem dinheiro não tem vícios” enquanto andas ocupado a fazer o bem, não podes fazer o mal, pois não tens tempo nem energias para isso; como o bem ocupa na tua mente e no teu coração o lugar que antes era ocupado pelo mal, cria lugar para o bem, da mesma forma que o vinho, ao entrar no copo, expulsa naturalmente o ar.
Com base nesta mesma filosofia, há um fármaco que combate o cancro sem o atacar com quimioterapia ou radioterapia; o que este fármaco faz é destruir os vasos sanguíneos que alimentam as células cancerígenas; sem alimento, estas morrem.
Quando enchemos a nossa vida de boas obras, quando ocupamos o nosso tempo a fazer o bem, o mal desaparece por si mesmo. Não podemos ao mesmo tempo fazer o bem e o mal; ao ocupar o nosso tempo com o bem, o mal desaparece por falta de tempo para o fazer.
Numa espiritualidade positiva só existem os pecados de omissão. O meu exame de consciência vai constar em rever o meu dia-a-dia e identificar as situações que requeriam a minha atuação solidária; os meus pecados a confessar serão as oportunidades em que podia ter feito o bem e não o fiz.
Conclusão – A vida é um dom para ser dado, não para ser possuído. É um empréstimo que um dia devolveremos com juros, e um arrendamento pelo qual devemos pagar renda.
Pe. Jorge Amaro, IMC
1 de junho de 2026
A tua vida não é acerca de ti
Um homem, ao partir para fora, chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual conforme a sua capacidade; e depois partiu. Aquele que recebeu cinco talentos negociou com eles e ganhou outros cinco. Da mesma forma, aquele que recebeu dois ganhou outros dois.
Mas aquele que apenas recebeu um foi fazer um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor. (…) O senhor respondeu-lhe: “Servo mau e preguiçoso! (…) Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos. Porque ao que tem, será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. A esse servo inútil, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.” Mateus 25, 14.26.28-30
Ninguém veio a este mundo por acaso.
O filho da prostituta que nasceu de uma relação por dinheiro, o filho de uma violência sexual, o filho de uma noite de prazer ocasional, o filho de um “acidente” ou de um deslize, todos eles foram chamados à vida e vieram ao mundo porque Deus, na sua infinita e misteriosa providência, assim o quis.
O filho de uma noite de amor entre dois seres que se prometeram para toda a vida e vivem em fidelidade mútua, não é superior em dignidade a nenhum dos acima mencionados. Deus ama-os a todos por igual. Para Deus, não há filhos ilegítimos — todos são filhos legítimos do Pai de tudo e de todos. Podem não ter o amor dos seus pais, mas nunca lhes faltará o amor do Pai dos pais, Deus.
Ganhar a vida ou perder a vida
“Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la. Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida?” Mateus 16, 25-26
É comum dizer-se daquele que trabalha incansavelmente que “anda a ganhar a vida”. Neste sentido, ganhar a vida é sinónimo de garantir o sustento; mas buscar meios de vida e viver plenamente não são a mesma coisa. Tal como estar vivo e viver com sentido não são sinónimos.
Os que gastam a sua vida — tempo e energia — apenas a buscar meios de sobrevivência, não diferem muito dos restantes seres vivos deste planeta. Gazelas e leões, tigres e leopardos — todos os animais passam os seus dias a procurar sustento. Sobrevivem, não vivem.
O ser humano, porém, possui um dom singular: tem poder e controlo sobre a sua própria vida. Pode moldá-la, transformá-la num céu ou num inferno, conforme administra o tempo e os dons que lhe foram concedidos.
“Olhai, guardai-vos de toda a ganância, porque mesmo que um homem viva na abundância, a sua vida não depende dos seus bens.” (…) “Havia um homem rico, a quem as terras deram uma grande colheita. E pôs-se a discorrer, dizendo consigo: ‘(…) Tens muitos bens armazenados para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te’. Deus, porém, disse-lhe: ‘Insensato! Nesta mesma noite será reclamada a tua vida; e o que acumulaste, para quem será?’ Assim acontecerá ao que acumula para si, e não é rico em relação a Deus.” Lucas 12, 16-17.20-21
Há quem acumule em vida bens que dariam para sustentar duas ou três vidas humanas. Mas acaso terá essas vidas? Acaso prolongará os seus dias por ter acumulado mais do que o necessário? Não. A vida não se resume a ganhar meios de vida.
A vida não é acumular, mas esvaziar-se. Não é centrar tudo em si, mas irradiar-se em amor. A vida não é força centrípeta — puxar tudo para dentro —, mas sim centrífuga: é partilha, é entrega, é doação. Por isso, paradoxalmente, a vida perde-se quando se retém e ganha-se quando se dá.
A tua vida não é acerca de ti — nasceste para uma missão
“Pois também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos.” Marcos 10, 45
“Pois, quem é maior: o que está sentado à mesa, ou o que serve? Não é o que está sentado à mesa? Ora, Eu estou no meio de vós como aquele que serve.” Lucas 22, 27
Ninguém perguntou a Jesus qual era o objetivo da sua vida, mas se o tivessem feito, esta última teria sido a sua resposta.
A minha vida é um valor absoluto para os outros, mas relativo para mim; absoluto, para mim, é o propósito pelo qual vivo. A minha vida não gira em torno de mim. Se eu fosse o centro da minha própria existência, viver seria apenas sobreviver — manter as funções vitais. Mas viver é muito mais do que isso: é consagrar tempo e energia a uma causa maior.
A vida de Beethoven girou em torno da música; a de Picasso, da pintura; a de Einstein, da física; a de Mandela, da justiça e da igualdade. A vida de Jesus, Filho de Deus, girou em torno da salvação da Humanidade.
Ninguém é mais feliz do que aquele que se torna útil. E ninguém é mais útil do que aquele que ama — e amar, como dizia São Tomás de Aquino, é querer e buscar o bem do outro.
Os talentos, como os dons do Espírito Santo, servem tanto para a realização pessoal como para o bem da comunidade. E é precisamente ao ser útil aos outros que te descobres pleno em ti próprio. Quem é inútil para os outros, acaba por sê-lo também para si mesmo.
Talentos, as alfaias da vida
“A pior desgraça que vos pode acontecer, jovens, é não serdes úteis a ninguém e que as vossas vidas não sirvam para nada.” Raoul Follereau
Deus, arquiteto da nossa existência, traçou um projeto para cada um de nós. Ninguém vem ao mundo sem um propósito. Em diálogo com Deus na oração, atentos aos sinais dos tempos, devemos discernir o projeto divino que nos foi confiado — e para o qual recebemos talentos suficientes.
Em vez de invejarmos os talentos dos outros, como adolescentes que preenchem os seus quartos com ídolos e cartazes, voltemo-nos para nós próprios e descubramos os nossos dons. Há sempre algo escondido que talvez nunca tenhamos explorado…
Ter inveja dos talentos alheios é o mesmo que esconder os nossos e acusar Deus de parcialidade. Mas Deus não é injusto: a cada um dá o necessário para tornar a sua vida significativa e fecunda.
Quando olhamos por uma janela, podemos fixar o olhar na própria janela ou na paisagem que está para além dela — não nos é possível focar os dois ao mesmo tempo. Assim, quem se concentra nos talentos dos outros, desfoca os seus próprios, como se não existissem.
Nunca serás melhor do que aquele que tentas imitar. Mas em seres tu mesmo, ninguém te poderá superar. Por isso, não finjamos ser quem não somos nem jamais seremos.
Assim como “a ocasião faz o ladrão”, também os grandes desafios criam grandes homens — homens que se lançam, que arriscam, que ousam. Só experimentando o novo, e correndo riscos, podemos descobrir se estamos à altura da missão.
A Segunda Guerra Mundial criou Churchill, e o mesmo se aplica a todos os grandes da história.
“Quem não arrisca, não petisca”. Talento não usado é talento irremediavelmente perdido. Dons não descobertos nem cultivados afastam-nos do objetivo que Deus nos confiou — e, sem atingir esse objetivo, a vida torna-se fútil.
Aquilo que não tem utilidade é lixo. E o lixo é queimado. Eis o verdadeiro significado do inferno.
Conclusão - O objetivo da vida não é ser feliz, mas ser útil. Quem não encontra realização pessoal no serviço ao próximo é inútil — para a sociedade e para si mesmo. E, naturalmente, será infeliz.
Pe. Jorge Amaro, IMC
15 de maio de 2026
Santa Maria
A Santa Igreja de Deus acrescentou ao louvor da primeira parte da Ave Maria uma petição e uma invocação à Santíssima Mãe de Deus. Tal inclusão implica que devemos, com piedade e humildade, recorrer a ela, a fim de que, por sua intercessão, sejamos reconciliados com Deus, nós que somos pecadores, e alcancemos as bênçãos de que tanto necessitamos no presente e no futuro da nossa vida.
Assim se pronuncia o Catecismo do Concílio de Trento sobre a segunda parte da Ave Maria. Não se conhece o seu autor concreto; trata-se do fruto de muitos anos de reflexão, prática litúrgica e oração. Começou por ser integrada em alguns breviários das antigas ordens religiosas, até passar ao uso regular do povo de Deus por volta do século XV. Como toda a Tradição, não foi simplesmente copiada da Bíblia, mas está profundamente enraizada nela.
Santa Maria – Ao contrário de Eva, que, com orgulho diante de Deus, desejou usurpar o poder divino, submetendo-se à serpente, símbolo do Mal, Maria, humilde diante de Deus e totalmente submissa à Sua vontade, esmaga a cabeça da serpente. Ao tornar-se Mãe de Deus, Maria alcançou, pelo caminho da humildade, aquilo que Eva pretendia alcançar pelo orgulho: “ser como Deus” (Génesis 3,5). Eva, a pretensiosa, queria ser como Deus em omnipotência; Maria, a humilde serva de Sião, aspira ser como Deus em santidade.
Se Abraão é o nosso pai na fé, Maria é a nossa mãe na fé; nela se cumprem, em plenitude, a fé e a esperança transmitidas ao longo dos séculos.
Mãe de Deus – Um entusiasta pregador protestante, ao entrar num autocarro, afirmou: “Esta é a carta e este é o envelope que a continha; ficamos com a carta e deitamos o envelope ao lixo. Cristo é a carta; Maria, o envelope.” Alguém respondeu: “A tua mãe também é um envelope que atiras para o lixo?”
Na verdade, não se deita fora o envelope. Os amantes que guardam cartas de amor conservam-nas com os respectivos envelopes. Cristo é a carta de amor de Deus à humanidade. Maria é esse envelope florido e precioso que transporta essa carta. Quem é mãe, é sempre mãe. Por outro lado, o envelope traz o remetente — a direção de quem envia a mensagem. Precisamos dessa indicação para poder responder, assim como precisamos da mediação de Maria para nos dirigirmos plenamente a Cristo.
Mãe é aquela que leva um filho no seio e contribui geneticamente para a sua formação. Maria é mãe em ambos os sentidos. Se Maria é mãe de Jesus, e Jesus é Deus, então Maria é Mãe de Deus. É um silogismo incontornável.
Ela não é Mãe de Deus no sentido de ser a origem de Deus ou anterior a Ele, nem é a fonte da divindade de Jesus. É Mãe de Deus porque concebeu e deu à luz Aquele que é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e porque contribuiu com o seu ser para a natureza humana da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.
Rogai por nós, pecadores – Nova Eva, novo Abraão, novo Jacob, Maria é também novo Moisés. Abraão intercedeu por Sodoma e Gomorra; Moisés, continuamente, intercedia pelo povo, mesmo quando já não conseguia manter os braços erguidos. Na Nova e Eterna Aliança, instituída por Cristo, o papel de intercessora pertence a Maria, pois não há criatura humana mais próxima de Deus do que ela.
Já durante a peregrinação terrena do seu Filho, Maria exerceu esse papel de intercessora e mediadora de todas as graças. O primeiro milagre de Jesus, nas bodas de Caná, foi realizado a pedido de Maria (João 2,1-11). Ela não impõe, mas aponta; não exige, mas confia; e o Filho atende à súplica da Mãe.
Agora – “Águas passadas não movem moinhos.” A vida acontece no presente. No entanto, há pessoas que permanecem prisioneiras do passado, de acontecimentos traumáticos ou culpabilizantes, que funcionam como maldições e lhes impedem a liberdade interior e a responsabilidade plena pelo seu comportamento atual.
O pecado é cometido no passado e perdoado no presente. O perdão de Jesus liberta-nos e desfaz os grilhões do passado, que passa a ser integrado no conjunto da vida com um novo significado. Com Cristo, podemos entoar o nosso “Felix Culpa” — “Ó culpa feliz!” — pois “não há males que por bem não venham” e “Deus escreve direito por linhas tortas”.
As três virtudes teologais moldam a nossa existência nos três tempos. Vive-se apenas no presente, mas é a fé que nos chega do passado que ilumina esse presente, e é a esperança no futuro que o anima. A caridade, no entanto, é a única ação própria do presente: viver é amar — a Deus e ao próximo.
E na hora da nossa morte – “Quero morrer”, disse a minha mãe em agonia, quando percebeu que a morte a vinha buscar para Deus. Jesus declarou: “Ninguém Me tira a vida; Eu dou-a livremente” (João 10,18). Se vivermos amando a Deus sobre todas as coisas, a morte não nos priva de nada nem de ninguém. Largar o pouco para nos entregarmos ao Tudo que é Deus não deve ser motivo de temor. Vivamos com a esperança firme de que o melhor ainda está para vir.
Ámen – “Assim seja”, “eu creio” — é o nosso selo, a nossa assinatura no final da oração. Com esta palavra, subscrevemos tudo quanto acabámos de dizer, com fé e confiança.
Conclusão – A primeira parte da Ave Maria refere-se ao passado e ao papel de Maria na história da salvação da humanidade. A segunda parte trata do presente e do futuro, e do papel de Maria na salvação de cada um de nós.
Rezar a Ave Maria é, pois, entrar na eternidade de Deus, acolhendo o dom da Sua Mãe como intercessora e companheira de caminho, desde agora até à hora da nossa morte.
Pe. Jorge Amaro, IMC
1 de maio de 2026
Ave Maria
A Ave Maria é, sem dúvida, a oração mais popular e mais repetida pelos católicos. Só no Rosário — tão querido por sábios e simples — ela é recitada cinquenta vezes, mas também se repete em inúmeras outras situações e circunstâncias.
Tal como a oração do Pai-Nosso, a Ave Maria divide-se em duas partes; contudo, ao contrário daquela, não é inteiramente bíblica. Num movimento ascendente, a primeira parte — retirada diretamente da Sagrada Escritura — compõe-se de cinco degraus que se elevam até Jesus. Num movimento descendente, a segunda parte, nascida da Tradição, é igualmente formada por cinco degraus que nos conduzem até à nossa realidade humana, culminando na hora da morte.
Esta oração não pode ser plenamente compreendida pelos defensores do princípio protestante “sola fide, sola scriptura, solus Christus”, pois nela se unem, de forma harmoniosa, a Escritura — Palavra de Deus, presente na primeira parte — com a Tradição da Igreja, ou seja, a fé viva da comunidade cristã ao longo dos séculos, expressa na segunda parte. Jesus, Alfa e Ómega, centro da história da salvação, é o elo que une ambas as partes.
A Ave Maria é, por isso, um compêndio da história da salvação: nela se encontram o Céu, representado pelo anjo Gabriel, e a Terra, representada por Isabel, prima de Maria. Une o passado — a Anunciação e a Visitação — com o presente, quando pedimos a intercessão de Maria “agora”, e com o futuro, ao invocá-la para “a hora da nossa morte”.
“Avé” - Significa “alegra-te”; ecoa o anúncio profético: Alegra-te, filha de Sião, o Senhor está no meio de ti. É assim que o anjo Gabriel saúda Maria. Poucos versículos antes, apresenta-se a Zacarias com estas palavras: Eu sou Gabriel, que estou sempre na presença de Deus (Lucas 1,19).
Maria, sendo humana, e os humanos estando afastados de Deus por causa do pecado, é aqui exaltada pelo próprio arcanjo, que reconhece nela uma dignidade superior à sua. Esta saudação insinua já o dogma da Imaculada Conceição: Maria foi concebida sem pecado, preservada desde o primeiro instante por singular graça divina.
“Maria” - O nome “Maria” pode ser interpretado como “iluminada” e “iluminadora”. Iluminada interiormente por Cristo, o Sol nascente, é, como a lua, que reflete a luz do sol. Assim, Maria não brilha por si, mas por referência a Cristo. Ela é o espelho mais puro da luz divina, o dedo que aponta sempre para o Senhor.
“Cheia de graça” - A graça é a presença viva de Deus. O anjo reconhece que Maria está plena dessa presença. Cheia de graça porque foi concebida sem o pecado original; cheia de graça porque, ao acolher Jesus no seu seio, tornou-se medianeira da Graça por excelência. Por isso, é medianeira de todas as graças que Deus concede aos que O amam.
“O Senhor é convosco” - Maria é a morada do Altíssimo. É a nova Arca da Aliança. Se a arca antiga continha sinais e testemunhos da presença e das maravilhas de Deus, Maria contém o próprio Deus feito homem. Simultaneamente, é templo e esposa do Espírito Santo.
A antiga arca da Aliança continha:
Maná - que alimentava o povo temporariamente — mas Maria contém Cristo, o novo maná, o pão vivo descido do Céu, que sacia para a vida eterna;
As tábuas da Lei - mas Maria contém Cristo, a Nova Lei, a Lei do Amor, que não apenas proíbe o mal, mas convida ao bem sem medida;
O cajado de Moisés - símbolo da autoridade — mas Maria traz no seu seio o Bom Pastor, que dá a vida pelas suas ovelhas.
“Bendita sois vós entre as mulheres” - Terminada a Anunciação, começa a Visitação. Se, no primeiro episódio, Maria contempla a Deus e acolhe a Sua Palavra, no segundo, ela age: parte apressadamente para servir Isabel, sua prima. A oração e a ação unem-se. Maria é exemplo de quem vive a Palavra escutada.
Fazemos nossa esta saudação de Isabel, inspirada pelo Espírito Santo. É de Isabel que provém a primeira bem-aventurança do Evangelho:
Feliz de ti que acreditaste, porque se há-de cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor (Lc 1,45).
Maria é o culminar da fé de Abraão, transmitida de geração em geração. Não por Jacob, mas por Maria, tem Abraão uma descendência mais numerosa que as estrelas do céu e as areias do mar: ele é pai de todos os crentes, dentro e fora de Israel.
“Bendito é o fruto do vosso ventre”
O trigo que Deus semeou no seio de Maria tornou-se para nós o Pão vivo, que dá vida e salvação eterna. (Cântico de Fátima)
Maria é discípula porque escutou e praticou a Palavra de Deus. É Mãe porque foi, primeiro, discípula. É o terreno fértil por excelência: nela, a Palavra deu fruto abundante. É também a escada de Jacob — a ponte entre o Céu e a Terra.
Sempre que recitamos a Ave Maria, unimos o Céu e a Terra: o anjo Gabriel e Isabel, a Palavra de Deus e a resposta humana. Pela escada que é Maria, desce Deus à Terra, e por ela sobe a humanidade, em Cristo, até ao Pai.
Jesus - Por paradoxal que pareça, a Ave Maria é uma oração profundamente cristocêntrica. Jesus é o centro e o coração da oração. É n’Ele e por Ele que Maria é louvada. Jesus é o ponto de união entre a parte bíblica e a parte tradicional da oração.
Tal como uma pedra lançada ao lago cria círculos concêntricos que se expandem até aos limites da água, assim também Jesus, vindo ao mundo, tornou-Se o centro da história da humanidade. A Sua ação continua a expandir-se até que Deus seja tudo em todos (1 Coríntios 15,28).
Jesus é a pedra angular (Atos 4,11), o alicerce firme da Igreja, aquele que mantém tudo unido de forma harmoniosa e segura.
Conclusão - As palavras do Anjo, seguidas pelas de Isabel, constituem a parte bíblica da Ave Maria, que culmina em Jesus, o centro e a razão de ser desta oração. Ele é o elo que une a Escritura à Tradição da Igreja, representada na segunda parte da oração.
Assim, a Ave Maria é um eco contínuo da história da salvação. Cada vez que a rezamos, reavivamos a memória do mistério da Encarnação e abrimo-nos à intercessão daquela que, com humildade e fé, se fez morada de Deus entre nós.
Pe. Jorge Amaro, IMC
15 de abril de 2026
Jesus carismático, Paulo sistemático
«Irmãos: quanto a mim, de nada me quero gloriar, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo. Pois nem a circuncisão vale alguma coisa nem a incircuncisão, mas sim uma nova criação.
Paz e misericórdia para todos quantos seguirem esta regra, bem como para o Israel de Deus. De agora em diante ninguém mais me venha perturbar; pois eu levo no meu corpo as marcas de Jesus.» (Gálatas 6,14-17)
Os que Jesus escolheu como apóstolos, bem como os que O seguiram durante a sua vida terrena e após a sua morte, eram, na sua maioria, gente simples. Nenhum dos grandes do seu tempo — nem do mundo da política, nem da elite religiosa judaica, nem entre os intelectuais — se fez seu discípulo. José de Arimateia e Nicodemos foram meros simpatizantes, e só após a sua morte se manifestaram publicamente.
Assim como depois do carismático São Francisco de Assis foi necessário o espírito prático e organizador de Frei Elias, também após Jesus de Nazaré foi preciso alguém que sistematizasse e interpretasse, à luz do judaísmo e da mentalidade do mundo greco-romano, o significado da sua vinda para Israel e para a humanidade.
São Paulo, contemporâneo de Jesus, não O conheceu pessoalmente nem conviveu com Ele como os doze apóstolos e outros discípulos. No entanto, foi o primeiro grande teólogo da Igreja. Coube-lhe a tarefa de interpretar, com profundidade e rigor, o significado dos factos históricos vividos pelos apóstolos, preparando o cristianismo para dialogar com o pensamento do seu tempo.
Gloriar-se na cruz de Cristo
A cruz, hoje símbolo do cristianismo, presente no topo de igrejas e em sinais de ajuda e salvação como a Cruz Vermelha, não tinha esse significado há dois milénios. Para judeus, gregos e romanos, a cruz era um instrumento de tortura, vergonha e humilhação.
Após a derrota da revolta liderada pelo gladiador Espártaco, em 71 a.C., os romanos crucificaram cerca de seis mil escravos ao longo dos 200 km da Via Ápia, entre Roma e Cápua. Morrer na cruz era o pior destino, o equivalente, em termos de reputação, a morrer hoje de uma doença estigmatizada como a SIDA.
O mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo
São Paulo gloriava-se na cruz não apenas por esta ser um meio de salvação, mas sobretudo porque, na cruz de Cristo, tudo se clarificou. No julgamento de Jesus, quem verdadeiramente foi julgado foram os poderes do mundo; na sua crucifixão, foram os valores mundanos que foram expostos e condenados.
Neste sentido, afirma o Apóstolo: «O mundo está crucificado para mim e eu para o mundo.» A ressurreição do Crucificado revelou que os poderes humanos — com os seus ódios, divisões e injustiças — foram derrotados. Paulo, doravante, já não vive segundo os critérios desse mundo, mas segundo outros valores.
Nem circuncisão, nem incircuncisão
A circuncisão, sinal distintivo dos judeus, perde para Paulo qualquer valor salvífico. Nem a prática da circuncisão, nem a sua ausência são determinantes — o que conta é uma nova criação em Cristo.
Foi São Paulo quem libertou o cristianismo da pesada herança do judaísmo. Convertido da mais estrita observância farisaica, só ele tinha autoridade para romper o cordão umbilical com a antiga lei e emancipar, de uma vez por todas, a fé cristã da tutela judaica.
Para Paulo, o mundo anterior — com as suas distinções raciais, sociais e sexistas — perdeu todo o sentido à luz de Cristo:
“Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher, pois todos sois um só em Cristo Jesus.» (Gálatas 3,28)
Numa única frase, Paulo expressa de forma admirável como devem ser as relações humanas após Cristo: qualquer forma de discriminação — por raça, estatuto social, cultura ou género — é contrária à nova realidade inaugurada por Ele. Todos os seres humanos merecem igual dignidade, pois são irmãos de Jesus e filhos de um mesmo Pai.
Paz e misericórdia para o novo Israel de Deus
Com a ressurreição de Cristo, tem início uma nova criação: uma nova forma de ver e viver a vida. Esta nova vida forma também um novo povo de Israel, que é o corpo místico de Cristo — a Igreja — na qual somos chamados a participar:
“N’Ele é que vivemos, nos movemos e existimos, como disseram alguns dos vossos poetas: “Pois também nós somos da sua descendência.” (Atos 17,28)
Levo no meu corpo as marcas de Cristo
Este novo povo não se identifica pela antiga marca da circuncisão, mas pelas marcas de Cristo — as suas cinco chagas — que continuam a ser sinais eternos da sua entrega. São marcas visíveis em alguns dos santos que mais se identificaram com o Crucificado, como São Francisco de Assis, e que figuram com orgulho na bandeira nacional portuguesa desde a fundação da nossa identidade.
Essas marcas permanecem como tatuagens sagradas, recordando-nos sempre até onde foi o amor de Deus por nós: até dar a vida por cada um.
Conclusão - Jesus passou pelo mundo fazendo o bem, pregando, curando e realizando milagres. Paulo, embora não tenha feito parte do grupo dos Doze, foi quem melhor compreendeu, interpretou e transmitiu o sentido profundo da vida, morte e ressurreição de Jesus, dotando o cristianismo de uma linguagem capaz de dialogar com o mundo e com a história.
Pe. Jorge Amaro, IMC
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