15 de setembro de 2026
"Caminha na minha presença..."
Aproxima-se mais um ano a celebração dos fiéis defuntos – daqueles que nos precederam no espaço e no tempo e que agora gozam já da eternidade junto de Deus.
Já lá vai a folia do Verão, o verde vai dando lugar ao amarelo e ao vermelho, as árvores perdem as folhas e toda a Natureza se prepara para a letargia do Inverno. É como se tudo estivesse a morrer. Sabemos, contudo, que se trata de uma morte passageira, assim como também a nossa morte o será. Ainda assim, leva-nos a refletir sobre o sentido da vida.
Sempre que contemplamos a nossa existência no seu todo, não podemos deixar de nos interrogar: de onde vimos, para onde vamos e que sentido tem tudo isto? Para os ateus e agnósticos que respondem “nada” às duas primeiras perguntas, é natural que também respondam “nada” à terceira. Mas os crentes dão uma resposta diferente:
Vimos de Deus – Deus pensou em nós desde toda a eternidade. Se sempre estivemos na mente de Deus, mesmo antes do “Big Bang”, então não seremos eternos apenas depois da morte: já o éramos antes desta vida, ao menos como projecto. Existíamos em Deus, como ideia, como desejo, como amor.
Vamos para Deus – A nossa vida não é uma sucessão de primaveras, verões, outonos e invernos; não vivemos apenas de janeiro a janeiro. O nosso caminho não é um círculo vicioso, mas uma linha com direção. Caminhamos para a Terra Prometida, que é o Reino dos Céus. Deus e o seu Reino são o objetivo da nossa existência.
Por isso, buscamos em primeiro lugar o Reino e a sua justiça – ou seja, o bem comum –, pois tudo o resto, aquilo de que precisamos, nos será dado por acréscimo (cf. Mateus 6,33).
Que sentido tem a vida? – Se Deus está no princípio e no fim da nossa vida, é natural que vivamos já, aqui e agora, n’Ele e com Ele. Que O amemos acima de todas as coisas, que só n’Ele depositemos a nossa confiança e segurança. Que, como Abraão, caminhemos na sua presença, pois, como diz São Paulo nos Atos dos Apóstolos, é n’Ele que nos movemos, existimos e somos (Atos 17,28).
Deus, que nos criou sem o nosso consentimento, não nos salvará sem a nossa colaboração. A nossa vida é um processo de configuração com Cristo, Caminho, Verdade e Vida (cf. Romanos 13,14).
Há quem viva sem Deus e para outros fins, justificando a própria vida através de valores como o poder, o prazer, a riqueza ou a fama. Mas tudo isso são “bens” passageiros, que não satisfazem o coração humano.
Poder e controlo
Em inglês, chama-se “power and control freak” a quem vive obcecado com poder e controlo. É uma patologia da alma. Curiosamente, quem mais busca poder sobre os outros, normalmente, tem pouco controlo sobre si mesmo. Esquecem-se de que governar-se a si próprio é o maior dos impérios.
A verdade é que nascemos completamente impotentes, em total dependência dos outros. E, por muito poder que se alcance ao longo da vida, este nunca é absoluto, dura pouco e é frequentemente ilusório. Não controlamos nem os próprios esfíncteres – razão pela qual usamos fraldas no início da vida e, por vezes, também no fim.
Se sem poder nascemos e sem poder morremos, o pouco poder que detemos é ilusório. Melhor do que o poder é o amor – o poder do amor.
Prazer hedonista
Há quem fuja da dor como o diabo foge da cruz e busque apenas o prazer. Mas o sofrimento é parte essencial da vida. O mal é fácil, como descer uma ladeira; o bem é difícil, como subi-la. Nada de bom nasce da preguiça ou do “dolce fare niente”. Tudo o que vale a pena exige esforço, coragem, lágrimas e perseverança.
A alegria da superação e da vitória é superior a qualquer prazer físico, e nunca se alcança sem luta. O sofrimento está presente desde o nascimento até à morte – e é, muitas vezes, através dele que pagamos o preço de uma vida digna e com sentido.
No fundo, não é a morte que mais tememos, mas o sofrimento. E, por isso mesmo, o medo da morte é, muitas vezes, o medo da verdadeira vida, pois viver implica também sofrer.
Amor pela riqueza
“Que o espírito de Deus esteja contigo para que possas ver que todas as coisas são boas, mas ai de ti se amares as criaturas abandonando o Criador!” – Francisco Benzoni
Nus saímos do ventre da nossa mãe e nus voltaremos ao seio de Deus – de onde também ela veio. Não somos donos de nada, pois nada possuímos de forma definitiva – nem sequer a própria vida.
Fama e popularidade
Ao nascermos, não somos ninguém – já não há sangue azul. Durante os primeiros seis anos da nossa vida, nem sequer temos plena consciência de nós mesmos. Muitos vivem anos em coma, outros terminam a vida como a começaram – inconscientes de quem são. O grande Ronald Reagan, vítima de Alzheimer, não se recordava de ter sido presidente dos Estados Unidos. Assim é a fama: efémera e frágil. O que hoje brilha, amanhã é esquecido.
À volta da esquina
Um acidente de viação, um enfarte, um diagnóstico inesperado, e num instante estamos diante do Criador. Sem aviso, sem tempo de preparação. Por isso, diz São Lucas: “Vivamos em santidade e justiça na Sua presença, todos os dias da nossa vida” (Lucas 1,75).
E que também de nós se possa dizer, como foi dito de Jesus: “Passou pelo mundo fazendo o bem” (cf. Atos 10,34-38).
Conclusão - Como não sabemos o dia nem a hora, caminhemos todos os dias e a todas as horas na presença de Deus. Assim, estaremos sempre preparados – em todo o tempo e em todo o lugar – para O encontrar, pois vivemos já com Ele, por Ele e para Ele.
Pe. Jorge Amaro, IMC
1 de setembro de 2026
Cruz, marca resgistada ®
“Ichthus”, o primeiro símbolo do cristianismo
Durante os primeiros 9 séculos do cristianismo, os artistas não pintaram nem esculpiram a cruz de Cristo, pois era tida como um instrumento brutal de tortura. O filme “A paixão de Cristo”, de Mel Gibson, ilustra bem a realidade e a brutalidade desta forma de execução romana.
Obedeceu até a morte, e morte de cruz. (Filipenses 2, 8) Com diz São Paulo, a palavra fez-se carne, fez ser humano e aceitou todas as limitações e vicissitudes inerentes a essa condição, até a mesma morte e, entre tantas formas de morte, a pior de todas, a morte na cruz.
Por isso, o primeiro símbolo que o cristianismo adotou foi o peixe; não tanto porque os primeiros discípulos eram pescadores ou porque parte do ministério de Cristo foi realizado à beira do lago, mas porque a confissão de fé por extenso, de Jesus Cristo, Filho de Deus, salvador do mundo, nas suas iniciais em grego formava a palavra “Ichthus” que significa peixe.
De facto, o símbolo do peixe desenhado no ar ou na terra era usado como palavra-passe, senha e contra-senha por dois estranhos para se identificarem entre si como cristãos, no tempo em que o cristianismo era uma religião clandestina e portanto proibida.
Cruz de Cristo e mandamentos
Mesmo quando o evangelho os convidava a abraçar a Cruz, os primeiros cristãos fugiram dela. Ainda hoje, os nossos irmãos protestantes não gostam de representar a Cristo na Cruz, pois dizem que Ele ressuscitou e não está na cruz. Nós católicos, não somos masoquistas, sabemos que ressuscitou, mas não queremos esquecer o que Ele passou por nós.
A cruz de Cristo é a nossa bandeira, o Norte, o Sul o Este e o Oeste da nossa existência. Feita de duas hastes, uma vertical e outra horizontal, simboliza também os dois mandamentos do amor: amar a Deus sobre todas as coisas que nos convida a uma vida ascendente, a ascender sobre tudo e so
bre todos, provando só assim que somos livres, autónomos e independentes de tudo e de todos.
O amor subjuga-nos ao objeto amado; se o objeto do nosso amor é primeiramente Deus acima de todos os outros, pessoas e coisas, então somos verdadeiramente livres. E o segundo mandamento do amor, amar ao próximo como a nós mesmos, leva-nos ao princípio da igualdade: eu não sou inferior nem superior a ninguém, pelo que perante Deus somos todos iguais, sendo Ele nosso Pai, nós somos todos irmãos.
Miséria e misericórdia
Tenho sempre diante de mim as minhas culpas. (Salmo 50, 5) - Ao olhar para a cruz de Cristo devemos ver a nossa fealdade. O que levou Cristo à cruz foram os pecados dos homens do seu tempo e de todos os tempos: estupidez, raiva, desconfiança, corrupção institucional, traição de um amigo, negação de outro, fuga dos restantes, crueldade, injustiça, busca de bode expiatório, medo, inveja etc., a coleção completa da disfunção humana.
Na cruz de Cristo, a disfunção humana é revelada, exposta. São Pedro coloca esta mesma ideia claramente dizendo: Matastes o Príncipe da vida, mas Deus ressuscitou-o de entre os mortos: disso nós somos testemunhas. (Atos 3, 15). Em definitiva, o autor da vida veio e nós matámo-lo; pelo que à luz da cruz de Cristo ninguém é inocente. Foi morto pelos nossos pecados, os nossos pecados O mataram, pelos nossos pecados Ele morreu.”
Na cruz de Cristo encontramos o nosso pecado patente, a nossa miséria, mas também vemos nela a divina misericórdia. Jesus tomou sobre si o nosso pecado que acabou por matá-l´O; se permanecesse morto seria o seu fim e o nosso, mas como ressuscitou, na sua ressurreição devolveu-nos a vida que o pecado nos tirara e tiraria.
Na cruz de Cristo encontram-se a miséria humana com a misericórdia divina; na cruz de Cristo a misericórdia divina vence a miséria humana. Na árvore do paraíso venceu a miséria humana; na cruz de Cristo vence a misericórdia divina.
Salvação e saúde
Assim como Moisés ergueu a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do Homem seja erguido ao alto, a fim de que todo o que nele crê tenha a vida eterna. João 3, 14-15
Salvação e saúde têm em latim o mesmo termo, “salus”. Segundo a leitura, o símbolo da medicina é de facto também um símbolo religioso. O próprio Cristo se identificou com aquela serpente que Moisés ergueu no deserto para curar os judeus que tinham sido mordidos por serpentes venenosas.
Em Adão e Eva todo o género humano foi mordido pela serpente que espalhou o seu veneno e infetou a raça humana. Neste episódio do Livro dos Números que Jesus cita e com o qual se identifica, vemos já a ideia que levaria mais tarde os cientistas a descobrir que o antídoto contra o veneno de uma serpente é tirado desse mesmo veneno.
Injetado o veneno num corpo volumoso como o do cavalo, este reage criando anticorpos. Estes anticorpos injetados no corpo de alguém mordido por uma serpente vão neutralizar o efeito do veneno.
Há um tipo de glóbulos brancos no nosso sangue que se chamam neutrófilos e que, perante uma invasão de bactérias ou vírus, ingerem essas mesmas bactérias, germes ou vírus, causando-lhes a morte e evitando assim uma infeção generalizada; morrem para nos salvar.
“Vida por vida”, como diz o lema dos bombeiros. Cristo, como um neutrófilo, tomou sobre si o veneno da antiga serpente espalhado pela espécie humana, engoliu-o e este matou-o. Mas, do seu lado, saiu sangue e água que são os anticorpos de que precisamos para combater o pecado. A água do batismo e o sangue da eucaristia vencem o pecado.
Conclusão – Os grandes pecados que os protagonistas da morte de Cristo cometeram, são os mesmos que ainda hoje cometemos. Cristo morreu pelos nossos pecados porque foram os nossos pecados que O mataram.
Pe. Jorge Amaro, IMC
Durante os primeiros 9 séculos do cristianismo, os artistas não pintaram nem esculpiram a cruz de Cristo, pois era tida como um instrumento brutal de tortura. O filme “A paixão de Cristo”, de Mel Gibson, ilustra bem a realidade e a brutalidade desta forma de execução romana.
Obedeceu até a morte, e morte de cruz. (Filipenses 2, 8) Com diz São Paulo, a palavra fez-se carne, fez ser humano e aceitou todas as limitações e vicissitudes inerentes a essa condição, até a mesma morte e, entre tantas formas de morte, a pior de todas, a morte na cruz.
Por isso, o primeiro símbolo que o cristianismo adotou foi o peixe; não tanto porque os primeiros discípulos eram pescadores ou porque parte do ministério de Cristo foi realizado à beira do lago, mas porque a confissão de fé por extenso, de Jesus Cristo, Filho de Deus, salvador do mundo, nas suas iniciais em grego formava a palavra “Ichthus” que significa peixe.
De facto, o símbolo do peixe desenhado no ar ou na terra era usado como palavra-passe, senha e contra-senha por dois estranhos para se identificarem entre si como cristãos, no tempo em que o cristianismo era uma religião clandestina e portanto proibida.
Cruz de Cristo e mandamentos
Mesmo quando o evangelho os convidava a abraçar a Cruz, os primeiros cristãos fugiram dela. Ainda hoje, os nossos irmãos protestantes não gostam de representar a Cristo na Cruz, pois dizem que Ele ressuscitou e não está na cruz. Nós católicos, não somos masoquistas, sabemos que ressuscitou, mas não queremos esquecer o que Ele passou por nós.
A cruz de Cristo é a nossa bandeira, o Norte, o Sul o Este e o Oeste da nossa existência. Feita de duas hastes, uma vertical e outra horizontal, simboliza também os dois mandamentos do amor: amar a Deus sobre todas as coisas que nos convida a uma vida ascendente, a ascender sobre tudo e so
bre todos, provando só assim que somos livres, autónomos e independentes de tudo e de todos.
O amor subjuga-nos ao objeto amado; se o objeto do nosso amor é primeiramente Deus acima de todos os outros, pessoas e coisas, então somos verdadeiramente livres. E o segundo mandamento do amor, amar ao próximo como a nós mesmos, leva-nos ao princípio da igualdade: eu não sou inferior nem superior a ninguém, pelo que perante Deus somos todos iguais, sendo Ele nosso Pai, nós somos todos irmãos.
Miséria e misericórdia
Tenho sempre diante de mim as minhas culpas. (Salmo 50, 5) - Ao olhar para a cruz de Cristo devemos ver a nossa fealdade. O que levou Cristo à cruz foram os pecados dos homens do seu tempo e de todos os tempos: estupidez, raiva, desconfiança, corrupção institucional, traição de um amigo, negação de outro, fuga dos restantes, crueldade, injustiça, busca de bode expiatório, medo, inveja etc., a coleção completa da disfunção humana.
Na cruz de Cristo, a disfunção humana é revelada, exposta. São Pedro coloca esta mesma ideia claramente dizendo: Matastes o Príncipe da vida, mas Deus ressuscitou-o de entre os mortos: disso nós somos testemunhas. (Atos 3, 15). Em definitiva, o autor da vida veio e nós matámo-lo; pelo que à luz da cruz de Cristo ninguém é inocente. Foi morto pelos nossos pecados, os nossos pecados O mataram, pelos nossos pecados Ele morreu.”
Na cruz de Cristo encontramos o nosso pecado patente, a nossa miséria, mas também vemos nela a divina misericórdia. Jesus tomou sobre si o nosso pecado que acabou por matá-l´O; se permanecesse morto seria o seu fim e o nosso, mas como ressuscitou, na sua ressurreição devolveu-nos a vida que o pecado nos tirara e tiraria.
Na cruz de Cristo encontram-se a miséria humana com a misericórdia divina; na cruz de Cristo a misericórdia divina vence a miséria humana. Na árvore do paraíso venceu a miséria humana; na cruz de Cristo vence a misericórdia divina.
Salvação e saúde
Assim como Moisés ergueu a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do Homem seja erguido ao alto, a fim de que todo o que nele crê tenha a vida eterna. João 3, 14-15
Salvação e saúde têm em latim o mesmo termo, “salus”. Segundo a leitura, o símbolo da medicina é de facto também um símbolo religioso. O próprio Cristo se identificou com aquela serpente que Moisés ergueu no deserto para curar os judeus que tinham sido mordidos por serpentes venenosas.
Em Adão e Eva todo o género humano foi mordido pela serpente que espalhou o seu veneno e infetou a raça humana. Neste episódio do Livro dos Números que Jesus cita e com o qual se identifica, vemos já a ideia que levaria mais tarde os cientistas a descobrir que o antídoto contra o veneno de uma serpente é tirado desse mesmo veneno.
Injetado o veneno num corpo volumoso como o do cavalo, este reage criando anticorpos. Estes anticorpos injetados no corpo de alguém mordido por uma serpente vão neutralizar o efeito do veneno.
Há um tipo de glóbulos brancos no nosso sangue que se chamam neutrófilos e que, perante uma invasão de bactérias ou vírus, ingerem essas mesmas bactérias, germes ou vírus, causando-lhes a morte e evitando assim uma infeção generalizada; morrem para nos salvar.
“Vida por vida”, como diz o lema dos bombeiros. Cristo, como um neutrófilo, tomou sobre si o veneno da antiga serpente espalhado pela espécie humana, engoliu-o e este matou-o. Mas, do seu lado, saiu sangue e água que são os anticorpos de que precisamos para combater o pecado. A água do batismo e o sangue da eucaristia vencem o pecado.
Conclusão – Os grandes pecados que os protagonistas da morte de Cristo cometeram, são os mesmos que ainda hoje cometemos. Cristo morreu pelos nossos pecados porque foram os nossos pecados que O mataram.
Pe. Jorge Amaro, IMC
1 de agosto de 2026
Os Montes da Bíblia
Os homens que desafiaram o Evereste, não desistiram nem à primeira nem à segunda derrota. De facto, as expedições falhavam uma detrás da outra e não foram poucos os que perderam a vida.
Durante uma cerimónia comemorativa na qual se recordava a Mallory e os seus valorosos companheiros, o orador expressa e resume o espírito e os sentimentos daquela assembleia. Olhando para a janela dirigiu-se ao Evereste dizendo:
Evereste! Falo-te em nome de todos os homens corajosos. Tu derrotaste-nos não uma nem duas, mas muitas vezes. No entanto, um dia, seremos nós a vencer, porque tu não podes crescer mais do que és; nós podemos…
O atractivo do Monte
Desde sempre o monte exerceu uma atracção sobre o Homem pois desafia a sua coragem, o seu espírito de aventura, criatividade, força e resistência.
O monte é o ponto mais elevado da terra e, simultaneamente, o mais baixo do céu. É o lugar onde o céu e a terra se tocam; onde o Homem sobe até Deus e Deus desce até ao Homem. Isto implica, da parte de Deus, uma kenosis, um rebaixamento cujo ponto culminante foi a encarnação do seu Filho. Da parte do ser humano, implica uma ascensão, uma superação da natureza decaída pelo pecado, rumo à vida nova em Cristo, que é o Caminho, a Verdade e a Vida.
O Zigurate
Os primeiros templos da antiga Mesopotâmia, chamados zigurates, eram construídos em forma helicoidal, como escadas em espiral. Esta estrutura não era casual, mas antes um símbolo arquitectónico do caminho espiritual que todo o ser humano é chamado a percorrer se deseja unir-se a Deus.
São João da Cruz, no seu livro A Subida ao Monte Carmelo, interpreta essa
ascensão como um percurso de purificação e auto-transcendência. O autor convida-nos a abandonar tudo aquilo que é obstáculo à união com Deus — bens, afetos, desejos — a fim de alcançar o cume da vida espiritual.
Santa Teresa de Ávila, companheira de João da Cruz e reformadora do Carmelo, propõe um percurso análogo na sua obra O Castelo Interior. Utiliza a imagem de um castelo com muralhas concêntricas, onde a viagem espiritual se faz em direção ao centro mais íntimo de nós mesmos, onde habita Deus. Como dizia Santo Agostinho: “Deus intimior intimo meo” — Deus está mais íntimo a mim do que eu próprio.
Essa ideia de progresso espiritual, autossuperação e purificação também aparece na obra de Dante Alighieri. Na Divina Comédia, o Purgatório é representado precisamente como um zigurate, uma montanha que se sobe gradualmente até ao Paraíso.
Os montes da Bíblia
Monte Hermon - (ou "montanha sagrada") é a montanha mais alta da antiga Israel, picos cobertos de neve até junho, quando sobe 2.814 metros acima do nível do mar. Alguns estudiosos acreditam que o Monte Hermon foi o local da transfiguração de Jesus, um evento sobrenatural no qual Cristo apareceu em Sua verdadeira glória como o Filho de Deus, revelando Sua identidade como Messias e cumprindo a lei e os profetas (Mateus 17:1–8).
Se assim não foi, foi no sopé desta montanha, onde o rio Jordão abre o Vale do Rift, que se estende até ao Mar Vermelho, na Etiópia, até ao oceano Índico, em Moçambique, que os apóstolos descobriram a identidade de Jesus de Nazaré como o messias que estava para vir, o filho de Deus.
No Monte Moriah – A fé de Abraão é posta à prova, quando Deus lhe pede que sacrifique o seu filho Isaac. Ao superar este teste, Abraão transformar-se no nosso pai na Fé aprendendo que a Deus é preciso ama-lo sobre todas as coisas e sobre todas as pessoas.
No Monte Sinai – Moisés recebe de Deus os dez mandamentos que constituíram na altura uma pedagogia educativa para constituir os Judeus no Povo de Deus com uma idiossincrasia própria.
No Monte Carmelo – O profeta Elias desafia e expõe os que abandonaram a verdadeira fé num Deus que os fazia livres para se subjazerem a um sem número de ídolos que escravizam. Hoje os idólatras pretendem ser ateus ou agnósticos mas se olhamos para as suas vidas no dia-a-dia verificamos que têm pequenos ídolos que adoram e a volta dos quais orbitam.
No Monte Nebo – Moisés avista a terra prometida sem entrar nela. Martin Luther King disse no dia anterior ao seu assassinato, “O senhor concedeu-me ver a terra prometida, é possível que eu não entre nela convosco mas tenho a certeza de que nós como povo um dia entraremos na terra prometida. O sonho com um mundo mais justo e mais fraterno, o Reno de Deus, deve sempre inspirar a luta do nosso dia-a-dia.
No Monte das Bem-aventuranças – Neste monte, Jesus, o novo Moisés, proclama o seu Sermão da Montanha, propondo as Bem-Aventuranças como caminho único e inadiável para a verdadeira felicidade. Este monte é o novo Sinai do Novo Testamento.
No Monte da Transfiguração - Ali, Jesus revelou a sua identidade divina aos discípulos, preparando-os para a provação da sua Paixão. Este monte é, por isso, o novo Monte Nebo do Novo Testamento: uma visão antecipada da glória antes da travessia dolorosa do sofrimento.
No Monte do Calvário – Jesus encontra a sua morte pagando o preço por ter sido quem foi e vivido como viveu. Por um momento a injustiça parecia ter a ultima palavra, mas Jesus ressuscitou fazendo triunfar a justiça sobre a injustiça, a graça sobre o pecado. A ressurreição de Jesus levou a Igreja a entender o valor salvífico da Sua morte. O Calvário é o novo Monte Moriá: ali o Pai ofereceu o seu Filho amado pela salvação de todos. Ali Jesus foi testado como Abraão no monte Moriah.
No Monte da Ascensão – Cristo termina a sua missão terrena e sobe ao Céu, levando consigo a nossa humanidade. O anjo que aparece exorta os Apóstolos a descer do monte e levar o Evangelho a todos os cantos da terra. Este é o novo Monte Carmelo: depois da contemplação, segue-se a missão. Não uma missão violenta como a de Elias impondo a verdade, mas sim uma missão pacifica propondo a verdade.
Conclusão - A Bíblia é marcada por uma geografia espiritual onde cada monte nos fala de um passo na história da salvação — e na nossa própria caminhada interior. Subir o monte é aceitar o desafio da fé, da purificação e da entrega. Mas nenhum cume é fim em si mesmo: cada monte aponta para o Céu, mas também para a missão cá em baixo.
Como Abraão, Moisés, Elias e Jesus, somos chamados a subir — não para fugir do mundo, mas para ver de outra perspetiva e, depois, descer transformados, levando aos outros a luz, a esperança e a promessa que do alto recebemos.
Pe. Jorge Amaro, IMC
Durante uma cerimónia comemorativa na qual se recordava a Mallory e os seus valorosos companheiros, o orador expressa e resume o espírito e os sentimentos daquela assembleia. Olhando para a janela dirigiu-se ao Evereste dizendo:
Evereste! Falo-te em nome de todos os homens corajosos. Tu derrotaste-nos não uma nem duas, mas muitas vezes. No entanto, um dia, seremos nós a vencer, porque tu não podes crescer mais do que és; nós podemos…
O atractivo do Monte
Desde sempre o monte exerceu uma atracção sobre o Homem pois desafia a sua coragem, o seu espírito de aventura, criatividade, força e resistência.
O monte é o ponto mais elevado da terra e, simultaneamente, o mais baixo do céu. É o lugar onde o céu e a terra se tocam; onde o Homem sobe até Deus e Deus desce até ao Homem. Isto implica, da parte de Deus, uma kenosis, um rebaixamento cujo ponto culminante foi a encarnação do seu Filho. Da parte do ser humano, implica uma ascensão, uma superação da natureza decaída pelo pecado, rumo à vida nova em Cristo, que é o Caminho, a Verdade e a Vida.
O Zigurate
Os primeiros templos da antiga Mesopotâmia, chamados zigurates, eram construídos em forma helicoidal, como escadas em espiral. Esta estrutura não era casual, mas antes um símbolo arquitectónico do caminho espiritual que todo o ser humano é chamado a percorrer se deseja unir-se a Deus.
São João da Cruz, no seu livro A Subida ao Monte Carmelo, interpreta essa
ascensão como um percurso de purificação e auto-transcendência. O autor convida-nos a abandonar tudo aquilo que é obstáculo à união com Deus — bens, afetos, desejos — a fim de alcançar o cume da vida espiritual.
Santa Teresa de Ávila, companheira de João da Cruz e reformadora do Carmelo, propõe um percurso análogo na sua obra O Castelo Interior. Utiliza a imagem de um castelo com muralhas concêntricas, onde a viagem espiritual se faz em direção ao centro mais íntimo de nós mesmos, onde habita Deus. Como dizia Santo Agostinho: “Deus intimior intimo meo” — Deus está mais íntimo a mim do que eu próprio.
Essa ideia de progresso espiritual, autossuperação e purificação também aparece na obra de Dante Alighieri. Na Divina Comédia, o Purgatório é representado precisamente como um zigurate, uma montanha que se sobe gradualmente até ao Paraíso.
Os montes da Bíblia
Monte Hermon - (ou "montanha sagrada") é a montanha mais alta da antiga Israel, picos cobertos de neve até junho, quando sobe 2.814 metros acima do nível do mar. Alguns estudiosos acreditam que o Monte Hermon foi o local da transfiguração de Jesus, um evento sobrenatural no qual Cristo apareceu em Sua verdadeira glória como o Filho de Deus, revelando Sua identidade como Messias e cumprindo a lei e os profetas (Mateus 17:1–8).
Se assim não foi, foi no sopé desta montanha, onde o rio Jordão abre o Vale do Rift, que se estende até ao Mar Vermelho, na Etiópia, até ao oceano Índico, em Moçambique, que os apóstolos descobriram a identidade de Jesus de Nazaré como o messias que estava para vir, o filho de Deus.
No Monte Moriah – A fé de Abraão é posta à prova, quando Deus lhe pede que sacrifique o seu filho Isaac. Ao superar este teste, Abraão transformar-se no nosso pai na Fé aprendendo que a Deus é preciso ama-lo sobre todas as coisas e sobre todas as pessoas.
No Monte Sinai – Moisés recebe de Deus os dez mandamentos que constituíram na altura uma pedagogia educativa para constituir os Judeus no Povo de Deus com uma idiossincrasia própria.
No Monte Carmelo – O profeta Elias desafia e expõe os que abandonaram a verdadeira fé num Deus que os fazia livres para se subjazerem a um sem número de ídolos que escravizam. Hoje os idólatras pretendem ser ateus ou agnósticos mas se olhamos para as suas vidas no dia-a-dia verificamos que têm pequenos ídolos que adoram e a volta dos quais orbitam.
No Monte Nebo – Moisés avista a terra prometida sem entrar nela. Martin Luther King disse no dia anterior ao seu assassinato, “O senhor concedeu-me ver a terra prometida, é possível que eu não entre nela convosco mas tenho a certeza de que nós como povo um dia entraremos na terra prometida. O sonho com um mundo mais justo e mais fraterno, o Reno de Deus, deve sempre inspirar a luta do nosso dia-a-dia.
No Monte das Bem-aventuranças – Neste monte, Jesus, o novo Moisés, proclama o seu Sermão da Montanha, propondo as Bem-Aventuranças como caminho único e inadiável para a verdadeira felicidade. Este monte é o novo Sinai do Novo Testamento.
No Monte da Transfiguração - Ali, Jesus revelou a sua identidade divina aos discípulos, preparando-os para a provação da sua Paixão. Este monte é, por isso, o novo Monte Nebo do Novo Testamento: uma visão antecipada da glória antes da travessia dolorosa do sofrimento.
No Monte do Calvário – Jesus encontra a sua morte pagando o preço por ter sido quem foi e vivido como viveu. Por um momento a injustiça parecia ter a ultima palavra, mas Jesus ressuscitou fazendo triunfar a justiça sobre a injustiça, a graça sobre o pecado. A ressurreição de Jesus levou a Igreja a entender o valor salvífico da Sua morte. O Calvário é o novo Monte Moriá: ali o Pai ofereceu o seu Filho amado pela salvação de todos. Ali Jesus foi testado como Abraão no monte Moriah.
No Monte da Ascensão – Cristo termina a sua missão terrena e sobe ao Céu, levando consigo a nossa humanidade. O anjo que aparece exorta os Apóstolos a descer do monte e levar o Evangelho a todos os cantos da terra. Este é o novo Monte Carmelo: depois da contemplação, segue-se a missão. Não uma missão violenta como a de Elias impondo a verdade, mas sim uma missão pacifica propondo a verdade.
Conclusão - A Bíblia é marcada por uma geografia espiritual onde cada monte nos fala de um passo na história da salvação — e na nossa própria caminhada interior. Subir o monte é aceitar o desafio da fé, da purificação e da entrega. Mas nenhum cume é fim em si mesmo: cada monte aponta para o Céu, mas também para a missão cá em baixo.
Como Abraão, Moisés, Elias e Jesus, somos chamados a subir — não para fugir do mundo, mas para ver de outra perspetiva e, depois, descer transformados, levando aos outros a luz, a esperança e a promessa que do alto recebemos.
Pe. Jorge Amaro, IMC
1 de julho de 2026
A primazia ou primado de Pedro
(…) tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus: o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus. Mateus 16, 18-19
Marcos em 8,27-30, e Lucas em 9,18-21 referem-se a este episódio, da ida de Jesus à Cesareia de Filipe às nascentes do rio Jordão, no sopé do monte Hérmon, onde começa o vale de Rift o mais longo e o mais profundo do planeta no qual nasceu a raça humana.
Os três evangelistas sinóticos coincidem na confissão de Pedro. Não sabemos se a sua confissão de fé em Jesus como mais que um profeta, como o Messias, teria sido uma convicção individual ou se atuou como porta-voz do grupo. Em ambos casos mostra a sua liderança no grupo.
O episódio das chaves, porém só Mateus o revela assim como a palavra Igreja que não aparece em nenhum outro evangelho, e em Mateus só aqui aparece. Sendo isto um facto o poder das chaves é questionável e, no entanto, ao longo da história na Igreja católica foi lhe dado exagerada importância.
Quem tem as chaves de um templo tem o poder de abri e fechar, de abrir para quem quer e fechar para quem não quer. É o poder de excomungar e entender que essa excomunhão essa condenação tem igual valor no Céu como o tem na terra. Foi o poder das chaves que justificou tantas excomunhões injustas e todos os crimes da Inquisição.
Podemos, portanto, concordar com os protestantes e os ortodoxos, pois os outros evangelhos não o mencionam. Porém, o facto de que Simão filho de João o leader eleito por Jesus, que exe
rce já essa liderança em tempos do mesmo Mestre e depois no livro dos Atos dos Apóstolos é inegável só cegos protestantes e ortodoxos cegados pela sua ideologia o não veem.
Prova desta liderança durante o tempo de Jesus é o facto de que os filhos de Zebedeu companheiros de Pedro no círculo íntimo dos discípulos de Jesus, querem provocar um golpe de estado e usurpar o poder que ostentava pedro quando sem vergonha nenhuma lhe pediram ao Senho de sentar-se um à direita e outro à esquerda no reino. Se Pedro não tivesse e exercesse uma liderança não era preciso este claro golpe de estado por parte de Tiago e João (Marcos 10, 35-45).
Ao nomear a lista dos apóstolos os três sinópticos (Marcos 3, 13-19, Mateus 10,1-4; Lucas 6,12-16), concordam ao colocar o nome de Sião a quem o mestre apelidou de Pedro, em primeiro lugar. Neste caso até o evangelho de João se une ao coro dos sinópticos quando em João 1, 42, André leva o seu irmão a Jesus, também neste caso Jesus chama Pedro a Simão.
Depois de Jesus, quem dá o pontapé de saída da Igreja com um grande discurso publico segundo o livro dos atos dos apóstolos é Pedro, ais tarde é Pedro que fala pelo grupo no Sinédrio, é Pedro que vai para a prisão e é Pedro que sai milagrosamente da prisão. É Pedro que alerta os demais apóstolos que falta uma para completar o número de 12 e ocupar o lugar de Judas iscariotes, e por fim é Pedro que no concilio de Jerusalém concilia as duas fações a do cristianismo, uma com a outra a de Paulo, com a de Tago o irmão do Senhor.
A escritura fala muitas vezes dos apóstolos em geral. De entre os doze, alguns não são nomeados mais que quando se enumera a lista dos apóstolos; outros são nomeados um par de vezes. Sem dúvida, a figura mais emblemática dos doze é Pedro. Além de fazer parte dos doze faz também parte do círculo íntimo de Jesus, composto, além dele mesmo, por Tiago e João. É o porta-voz do grupo e o líder consagrado pelo próprio Cristo.
Sondagem à opinião pública
Jesus não precisava de saber o que os outros pensavam d’Ele por questões de autoestima ou para ver se tinha que imprimir outra direção ao seu ministério. A pergunta é mais bem retórica e preparatória da mais importante que era “E vós quem dizeis que Eu sou?”
Perante esta pergunta pessoal que Jesus dirige a cada um de nós, não podemos responder como Pilatos, por ouvir dizer; devemos buscar a resposta dentro de nós, esta resposta deve ser nossa; não podemos viver toda a vida com a fé que os nossos pais nos emprestaram no batismo.
Experiência – pregação – fé – experiência: este é o processo da fé que nos permite dar uma resposta pessoal à pergunta acima referida. Tal como a mezinha que a nossa vizinha toma e acaba curada, tudo começa na experiência; a experiência não é segredo que se possa levar para a sepultura, pois produz uma alegria tamanha que só nos sentimos bem pregando-a, divulgando-a, como se nos tivesse saído a lotaria: leva à pregação, ao anúncio.
Na verdade, o conteúdo da pregação cristã não é outro senão dizer “O Senhor fez em mim maravilhas”, ou seja, relatar como o Senhor nos salvou, tal como a vizinha testemunha sobre a mezinha que a curou. Este anúncio tão convincente gera fé em quem O ouve e testemunha, e esta fé leva a que tomemos a mezinha, ou seja, leva-nos a provar, a experimentar a Cristo.
A pergunta não era bem “quem dizeis vós que Eu sou”, mas sim “que experiência tendes de Mim, que concluís depois de comer e beber, viver, ver e ouvir”. Ninguém fica bêbado por pronunciar a palavra vinho, mesmo que o faça milhares de vezes, mas sim por bebê-lo.
Petrus simul justus ed peccator
“Homo simul Justus ed peccator” como dizia Santo Agostinho, também se aplica a Pedro; Jesus não o escolheu por ser santo. Bem vemos que não o era e os apóstolos não lavam a roupa suja em casa, mas optam por expô-la e assim nos mostram a personalidade dos apóstolos, sobretudo de Pedro, com as suas luzes e as suas sombras.
O próprio Pedro recorda a Jesus que é pecador ao dizer “afasta-Te de mim que sou pecador”. Jesus escolhe-o não pelo que ele era, mas por aquilo que podia ser com a ajuda da graça de Deus. De facto, proclamar Jesus como o Messias não foi uma dedução resultante de um pensamento sistemático, ou reflexão ou estudo, mas sim de uma intuição do Espírito Santo, pois não foi a carne que o revelou.
Era um homem impulsivo, entusiasta, mas também medricas e até covarde. Tanto agarra na espada e corta a orelha do servo do sumo sacerdote como, por covardia, nega conhecer o Senhor. Diz que nunca O deixaria e aconselha Jesus a não ir a Jerusalém: É um dos que foge e até mais tarde da perseguição de Roma, como diz a tradição “quo vadis”. Mostra-se forte na tempestade – manda-me ir ter contigo” – e depois tem medo e afunda-se, não por causa da tempestade, mas pelo medo.
Rock & Roll Pedro e Paulo
Os evangelhos – Todos os quatro evangelhos referem o lugar proeminente de que goza Pedro entre os membros do grupo. A cidade de Pedro, Cafarnaum e mais propriamente a sua própria casa, é a base de onde Jesus vai e vem no seu ministério. Era tão chegado a Pedro e à sua família que até cura a sogra deste de uma febre, o único milagre que quase não se justificava.
Porta-voz do grupo: nós deixamos tudo, que recompensa teremos? Façamos aqui três tendas…. Tu és o Messias…. A quem iremos? Só. Tu tens palavras de vida eterna…
As cartas de Paulo – os evangelhos foram escritos depois da morte de Pedro e, por este motivo, poder-se-ia dizer que representam a ideologia da Igreja, não a vontade de Cristo. As cartas de Paulo foram escritas durante a vida de Pedro e relatam o mesmo. São Paulo relata na carta aos gálatas quando a sua conversão, diz que foi a Jerusalém e esteve com Pedro 15 dias e que não viu nenhum outro apóstolo.
Paulo opõe-se a Pedro por este entrar nas casas dos gentios e comer com eles; com a vinda a Jerusalém deixa de o fazer. Critica abertamente Pedro por este comportamento incongruente, mas nem por isso nega ou deixa de acatar a sua autoridade. De facto, trata de o conquistar para o seu grupo contra os de Santiago. Assim tivesse feito Lutero como São Paulo que, apesar das divergências respeitou a autoridade de Pedro e a Igreja não estaria hoje dividida.
Como a roda de uma bicicleta
Sem uma figura que desempenhe o ministério petrino (ou ministério de Pedro) não há união. A igreja é como uma roda de bicicleta. Todos os raios apontam e estão ligados ao centro e é dali que contribuem para que a roda se mantenha resistente. Se um dos raios se partir, a roda começa a ficar empenada e anda aos ziguezagues.
De facto, fora da igreja católica, tanto as igrejas protestantes como as ortodoxas são muitas, pequenas e divididas porque não há uma figura aglutinadora como era Pedro para os doze na primeira igreja e como é o sucessor de Pedro para a Igreja ao longo do tempo e do espaço.
Conclusão – Uma, grande, universal, e livre é a Igreja Católica fundada por Cristo sobre a rocha de Pedro. Muitas, pequenas, divididas e nacionais são as igrejas ortodoxas e protestantes fundadas por seres humanos.
Pe. Jorge Amaro, IMC
Marcos em 8,27-30, e Lucas em 9,18-21 referem-se a este episódio, da ida de Jesus à Cesareia de Filipe às nascentes do rio Jordão, no sopé do monte Hérmon, onde começa o vale de Rift o mais longo e o mais profundo do planeta no qual nasceu a raça humana.
Os três evangelistas sinóticos coincidem na confissão de Pedro. Não sabemos se a sua confissão de fé em Jesus como mais que um profeta, como o Messias, teria sido uma convicção individual ou se atuou como porta-voz do grupo. Em ambos casos mostra a sua liderança no grupo.
O episódio das chaves, porém só Mateus o revela assim como a palavra Igreja que não aparece em nenhum outro evangelho, e em Mateus só aqui aparece. Sendo isto um facto o poder das chaves é questionável e, no entanto, ao longo da história na Igreja católica foi lhe dado exagerada importância.
Quem tem as chaves de um templo tem o poder de abri e fechar, de abrir para quem quer e fechar para quem não quer. É o poder de excomungar e entender que essa excomunhão essa condenação tem igual valor no Céu como o tem na terra. Foi o poder das chaves que justificou tantas excomunhões injustas e todos os crimes da Inquisição.
Podemos, portanto, concordar com os protestantes e os ortodoxos, pois os outros evangelhos não o mencionam. Porém, o facto de que Simão filho de João o leader eleito por Jesus, que exe
rce já essa liderança em tempos do mesmo Mestre e depois no livro dos Atos dos Apóstolos é inegável só cegos protestantes e ortodoxos cegados pela sua ideologia o não veem.
Prova desta liderança durante o tempo de Jesus é o facto de que os filhos de Zebedeu companheiros de Pedro no círculo íntimo dos discípulos de Jesus, querem provocar um golpe de estado e usurpar o poder que ostentava pedro quando sem vergonha nenhuma lhe pediram ao Senho de sentar-se um à direita e outro à esquerda no reino. Se Pedro não tivesse e exercesse uma liderança não era preciso este claro golpe de estado por parte de Tiago e João (Marcos 10, 35-45).
Ao nomear a lista dos apóstolos os três sinópticos (Marcos 3, 13-19, Mateus 10,1-4; Lucas 6,12-16), concordam ao colocar o nome de Sião a quem o mestre apelidou de Pedro, em primeiro lugar. Neste caso até o evangelho de João se une ao coro dos sinópticos quando em João 1, 42, André leva o seu irmão a Jesus, também neste caso Jesus chama Pedro a Simão.
Depois de Jesus, quem dá o pontapé de saída da Igreja com um grande discurso publico segundo o livro dos atos dos apóstolos é Pedro, ais tarde é Pedro que fala pelo grupo no Sinédrio, é Pedro que vai para a prisão e é Pedro que sai milagrosamente da prisão. É Pedro que alerta os demais apóstolos que falta uma para completar o número de 12 e ocupar o lugar de Judas iscariotes, e por fim é Pedro que no concilio de Jerusalém concilia as duas fações a do cristianismo, uma com a outra a de Paulo, com a de Tago o irmão do Senhor.
A escritura fala muitas vezes dos apóstolos em geral. De entre os doze, alguns não são nomeados mais que quando se enumera a lista dos apóstolos; outros são nomeados um par de vezes. Sem dúvida, a figura mais emblemática dos doze é Pedro. Além de fazer parte dos doze faz também parte do círculo íntimo de Jesus, composto, além dele mesmo, por Tiago e João. É o porta-voz do grupo e o líder consagrado pelo próprio Cristo.
Sondagem à opinião pública
Jesus não precisava de saber o que os outros pensavam d’Ele por questões de autoestima ou para ver se tinha que imprimir outra direção ao seu ministério. A pergunta é mais bem retórica e preparatória da mais importante que era “E vós quem dizeis que Eu sou?”
Perante esta pergunta pessoal que Jesus dirige a cada um de nós, não podemos responder como Pilatos, por ouvir dizer; devemos buscar a resposta dentro de nós, esta resposta deve ser nossa; não podemos viver toda a vida com a fé que os nossos pais nos emprestaram no batismo.
Experiência – pregação – fé – experiência: este é o processo da fé que nos permite dar uma resposta pessoal à pergunta acima referida. Tal como a mezinha que a nossa vizinha toma e acaba curada, tudo começa na experiência; a experiência não é segredo que se possa levar para a sepultura, pois produz uma alegria tamanha que só nos sentimos bem pregando-a, divulgando-a, como se nos tivesse saído a lotaria: leva à pregação, ao anúncio.
Na verdade, o conteúdo da pregação cristã não é outro senão dizer “O Senhor fez em mim maravilhas”, ou seja, relatar como o Senhor nos salvou, tal como a vizinha testemunha sobre a mezinha que a curou. Este anúncio tão convincente gera fé em quem O ouve e testemunha, e esta fé leva a que tomemos a mezinha, ou seja, leva-nos a provar, a experimentar a Cristo.
A pergunta não era bem “quem dizeis vós que Eu sou”, mas sim “que experiência tendes de Mim, que concluís depois de comer e beber, viver, ver e ouvir”. Ninguém fica bêbado por pronunciar a palavra vinho, mesmo que o faça milhares de vezes, mas sim por bebê-lo.
Petrus simul justus ed peccator
“Homo simul Justus ed peccator” como dizia Santo Agostinho, também se aplica a Pedro; Jesus não o escolheu por ser santo. Bem vemos que não o era e os apóstolos não lavam a roupa suja em casa, mas optam por expô-la e assim nos mostram a personalidade dos apóstolos, sobretudo de Pedro, com as suas luzes e as suas sombras.
O próprio Pedro recorda a Jesus que é pecador ao dizer “afasta-Te de mim que sou pecador”. Jesus escolhe-o não pelo que ele era, mas por aquilo que podia ser com a ajuda da graça de Deus. De facto, proclamar Jesus como o Messias não foi uma dedução resultante de um pensamento sistemático, ou reflexão ou estudo, mas sim de uma intuição do Espírito Santo, pois não foi a carne que o revelou.
Era um homem impulsivo, entusiasta, mas também medricas e até covarde. Tanto agarra na espada e corta a orelha do servo do sumo sacerdote como, por covardia, nega conhecer o Senhor. Diz que nunca O deixaria e aconselha Jesus a não ir a Jerusalém: É um dos que foge e até mais tarde da perseguição de Roma, como diz a tradição “quo vadis”. Mostra-se forte na tempestade – manda-me ir ter contigo” – e depois tem medo e afunda-se, não por causa da tempestade, mas pelo medo.
Rock & Roll Pedro e Paulo
Os evangelhos – Todos os quatro evangelhos referem o lugar proeminente de que goza Pedro entre os membros do grupo. A cidade de Pedro, Cafarnaum e mais propriamente a sua própria casa, é a base de onde Jesus vai e vem no seu ministério. Era tão chegado a Pedro e à sua família que até cura a sogra deste de uma febre, o único milagre que quase não se justificava.
Porta-voz do grupo: nós deixamos tudo, que recompensa teremos? Façamos aqui três tendas…. Tu és o Messias…. A quem iremos? Só. Tu tens palavras de vida eterna…
As cartas de Paulo – os evangelhos foram escritos depois da morte de Pedro e, por este motivo, poder-se-ia dizer que representam a ideologia da Igreja, não a vontade de Cristo. As cartas de Paulo foram escritas durante a vida de Pedro e relatam o mesmo. São Paulo relata na carta aos gálatas quando a sua conversão, diz que foi a Jerusalém e esteve com Pedro 15 dias e que não viu nenhum outro apóstolo.
Paulo opõe-se a Pedro por este entrar nas casas dos gentios e comer com eles; com a vinda a Jerusalém deixa de o fazer. Critica abertamente Pedro por este comportamento incongruente, mas nem por isso nega ou deixa de acatar a sua autoridade. De facto, trata de o conquistar para o seu grupo contra os de Santiago. Assim tivesse feito Lutero como São Paulo que, apesar das divergências respeitou a autoridade de Pedro e a Igreja não estaria hoje dividida.
Como a roda de uma bicicleta
Sem uma figura que desempenhe o ministério petrino (ou ministério de Pedro) não há união. A igreja é como uma roda de bicicleta. Todos os raios apontam e estão ligados ao centro e é dali que contribuem para que a roda se mantenha resistente. Se um dos raios se partir, a roda começa a ficar empenada e anda aos ziguezagues.
De facto, fora da igreja católica, tanto as igrejas protestantes como as ortodoxas são muitas, pequenas e divididas porque não há uma figura aglutinadora como era Pedro para os doze na primeira igreja e como é o sucessor de Pedro para a Igreja ao longo do tempo e do espaço.
Conclusão – Uma, grande, universal, e livre é a Igreja Católica fundada por Cristo sobre a rocha de Pedro. Muitas, pequenas, divididas e nacionais são as igrejas ortodoxas e protestantes fundadas por seres humanos.
Pe. Jorge Amaro, IMC
15 de junho de 2026
A Vida: Dom - Empréstimo - Aluguer?
- Quero passar esta noite neste refúgio de caravanas - disse um romeiro.
- Como te atreves a chamar refúgio de caravanas ao meu sumptuoso palácio?
- E de quem era o palácio antes de ser teu? perguntou o romeiro.
- Era do meu pai - respondeu o nobre senhor.
- E onde está o teu pai agora?
- Morreu.
- E de quem era o palácio antes do teu Pai?
- Era do meu avô…
- E onde está o teu avô agora?
- Morreu…
- De quem será este palácio depois da tua morte?
- Do meu filho…
- Então, - concluiu o romeiro, - um edifício no qual habitam diferentes pessoas durante um tempo determinado dizes tu que não é um refúgio de caravanas?”
Da “nossa” vida somos administradores não proprietários
Nus saímos do seio da nossa mãe e nus voltamos ao seio de Deus, de onde também a nossa mãe saiu. Não somos proprietários de coisa nenhuma, pois não podemos possuir nada indefinidamente, nem sequer a nossa própria vida podemos possuir indefinidamente.
O cristão deveria substituir o uso dos pronomes possessivos por pronomes administrativos. Na sua vida, em vez de conjugar o verbo ter e possuir, deveria usar o verbo usar e administrar. As coisas foram feitas para serem usadas, não possuídas nem amadas; da mesma forma, as pessoas foram feitas para serem amadas, não possuídas nem usadas.
Não somos proprietários de coisa nenhuma. De todos os recursos que dizemos possuir, e como diz o poeta, tal como não fomos ouvidos no ato de nascer, ou seja, ninguém nos perguntou se queríamos viver ou não, podemos concluir que nem a nossa vida é nossa.
“Ao feito, peito”, dizia uma mulher dando de mamar ao seu filho. Somos postos nesta vida tal como um boneco que toca tambor, seja de corda ou elétrico, e dão-nos corda ou colocam-nos uma pilha e a nossa vida dura enquanto durar a corda ou a pilha. Não temos nenhum controlo sobre o tempo da nossa vida, pois não somos senhores do tempo nem da vida.
Somos administradores, não só dos recursos materiais ou espirituais (talentos) que usamos na vida, mas também da própria vida: do tempo, das energias e da opção fundamental, ou seja, da nossa vocação ou missão e do lugar que ocupamos no mundo e na sociedade.
De tudo quanto existe, incluindo nós mesmos, o proprietário é Deus. Apesar de, ao contrário das outras criaturas, termos sido criados à Sua imagem e semelhança, somos apenas meros administradores das nossas vidas e algum dia teremos de prestar contas desta administração.
“Deus contou os anos de teu reinado e nele põe um fim; foste pesado na balança e considerado leve demais; teu reino vai ser dividido e entregue aos medos e persas”. Daniel 5, 26-28
O profeta Daniel interpretou o sonho do rei da Babilónia. Na conclusão da sua interpretação, disse ao rei que colocando num dos pratos da balança o que ele podia ter sido e no outro o que realmente foi, o que estava chamado a ser e o que foi, pesando as suas conquistas e as suas derrotas, as suas boas obras e as suas más obras, a parte positiva não tinha peso suficiente.
As coisas foram feitas para ser usadas, não possuídas, porque não são um fim em si mesmas, mas somente um meio de vida; estão ao serviço da vida. As pessoas foram feitas para serem amadas, não para serem possuídas ou usadas porque são um fim em si mesmas e nunca um meio.
Perverso é o que ama as coisas e usa as pessoas para ter mais coisas. Quem se relaciona assim com as coisas vê a vida como poder e possuir. Para ele, amar é possuir coisas e pessoas; nunca poderá ser feliz, pois ninguém gosta de ser usado ou possuído.
A vida como dom
Um dia bateu à porta do mosteiro um camponês; o irmão porteiro abriu a porta e o camponês deu-lhe um cacho de uvas. “São para si”, disse o camponês “por me ter socorrido em tempos de escassez.” O porteiro recebeu as uvas com muita alegria, agradeceu. Mais tarde quando ia comê-las, pensou, “é melhor dá-las ao abade, acho que as merece pela forma como governa o convento.”
O abade recebeu-as com a mesma alegria do irmão porteiro e quando se dispunha a comê-las na sua cela, lembrou-se que elas fariam a delícia de um dos irmãos que estava doente. O irmão doente recebeu-as com alegria e logo pensou no irmão cozinheiro que tão amavelmente tinha cuidado dele. Assim que este apareceu com o almoço, deu-lhas. Este admirou a beleza, o perfume e a perfeição das uvas e pensou em dá-las ao irmão sacristão, já que lembravam aquelas que eram oferecidas nos ofertórios da missa.
O irmão sacristão recebeu-as e entendeu o símbolo, mas não quis comê-las, pensou logo no irmão noviço que andava em crise vocacional e com muito agrado lhas deu. Por fim, o irmão noviço lembrou-se da primeira pessoa que lhe tinha aberto a porta do mosteiro e deu-as ao irmão porteiro. Desta forma, o irmão porteiro entendeu que as uvas eram para si e para mais ninguém, pelo que as saboreou uma por uma. (Resumida e adaptada de Paulo Coelho O círculo da alegria)
Esta história ilustra perfeitamente que a vida é um dom, sim, mas um dom que não se destina a ser possuído, mas sim dado. Em teologia e em livros de espiritualidade frequentemente encontramos a expressão “dom da vida”, expressando que a vida é um dom, uma dádiva de Deus. Se nos foi dada, então somos os seus proprietários, o que, como dissemos, não corresponde à verdade, pois não temos forma de reter indefinidamente esta dádiva.
Pois aquele que quiser salvar a sua vida há de perdê-la, mas aquele que perder a sua vida por causa de mim há de encontrá-la. Mateus 16, 25
A vida do outro é para mim um valor absoluto, a minha vida para mim é um valor relativo. A vida é para ser dada, consumida ao serviço dos outros ou de uma causa humana. A nossa vida não gira à nossa volta, não é nem deve ser acerca de nós, mas de algo fora de nós porque não se justifica por si mesma. Não é nem nunca deve ser autorreferencial.
Usamos a nossa vida, tempo e energias no cultivo de valores humanos que valem mais que a vida. Esses valores sim, são absolutos, pois são a razão da vida. São os valores pelos quais vivemos, os valores aos quais dedicamos todos os minutos da vida e pelos quais estaríamos dispostos a dá-la num minuto.
Cada um dos valores, talentos ou dons que dão forma à nossa vida, temo-los na medida em que os usamos pelo nosso bem e pelo bem dos outros. Se deixamos de os usar, deixamos de os ter. Neste sentido, se é verdade que só damos o que temos, também é verdade que só temos o que damos.
Por outro lado, viver é amar e amar é dar-se ao outro. Ora quando nos damos já não nos possuímos. De facto, ninguém é tão vulnerável como quando, por amor, se dá ao outro. O outro fica com um imenso poder sobre nós e pode abusar desse poder se o amor dele por nós não for recíproco. Ou seja, se ele ou ela não se nos der.
No matrimonio cristão ´amor é sempre trinitário, ou seja, os dois dão-se mutuamente um ao outro sem que ninguém possua ninguém pois quem possui os dois é Deus. Eu dou-me a Deus por intermedio de ti, tu dás-te a Deus por intermedio de mim. Os dois nos damos um ao outro sem que nenhum de nós possua o outro.
A vida como empréstimo
Um homem, ao partir em viagem, chamou os seus servos e entregou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois, a outro um, a cada um segundo a sua capacidade, e partiu em viagem. Imediatamente, o que recebera cinco talentos foi negociar com eles e ganhou outros cinco. Do mesmo modo, o que recebera dois ganhou outros dois. Mas o que recebera um, afastando-se, fez uma cova na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor. Mateus 25, 14-18
Quaisquer que sejam as circunstâncias do seu nascimento, seja um filho sumamente projetado pelos pais, que escolhem até o sexo do bebé, filho de um casal, mas não querido nem projetado, que vem ao mundo por acidente, filho de uma noite de prazer, filho ilegítimo que nasce fora do vínculo matrimonial, filho de uma prostituta e até mesmo o filho de uma violação, todos são igualmente filhos de Deus.
Se Deus permitiu que viessem ao mundo, quaisquer que sejam as circunstâncias do seu nascimento, todos, absolutamente todos são filhos de Deus e a sua vida é viável. Deus dotou cada um destes seus filhos de um projeto, um lugar no mundo e na sociedade, e dos talentos suficientes para realizar o projeto que Ele pensou para cada um dos seres humanos.
Deus é, portanto, o arquiteto da nossa vida, é Ele que tem os desenhos, os planos os cálculos referentes à construção da nossa vida, construção que termina com a nossa morte e passagem para o seio de Deus.
Tanto o plano como os talentos e limitações para o executar vão-nos sendo revelados pouco a pouco, à medida que vão sendo necessários. Não recebemos as telhas para o telhado enquanto os alicerces não forem escavados e estiverem firmes.
A parábola dos talentos ilustra que a vida é um empréstimo, um crédito que Deus nos deu para que o administremos. Tal como na parábola, ao fim temos de prestar contas, ou seja, o empréstimo tem que render lucros.
Todos nós recebemos determinados talentos e não outros. Todos recebem talentos suficientes para viabilizar a sua vida, mas ninguém recebe todos os talentos. O importante é desenvolver, fazer frutificar os talentos que se recebeu e não os esconder para depois admirar ou invejar os talentos que os outros receberam, procurando viver a vida deles, coisa que nunca se consegue.
O ato ou atitude de invejar os talentos dos outros equivale a esconder os nossos talentos, pois quando a nossa vista se foca ao longe não pode focar-se ao perto ao mesmo tempo. Ao olharmos para os talentos dos outros não vemos os nossos, pelo que é como se tentássemos viver uma vida que não é nossa e, claro, nunca viveremos felizes, com sentido e realizados. Ao tentar ser quem não somos, qualquer um pode ganhar-nos e ser superior a nós; ao ser quem somos, ninguém consegue vencer-nos.
A todo aquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e a quem muito se confiou, mais lhe será pedido. Lucas 12, 48
A falta de frutos das cidades de Corazim, Betsaida e Cafarnaum, apesar de Jesus ter ali feito uma grande sementeira, é também fortemente criticada. Se calhar, se essa sementeira tivesse sido feita fora de Israel, nas cidades fenícias de Tiro e Sidónia, o resultado teria sido outro. Por isso, o Juízo Final será mais clemente para com Sodoma do que para com estas cidades. Na verdade, delas apenas restam atualmente ruínas. (Lucas 10, 13-16)
A vida como aluguer
Havia um homem, o senhor da casa, que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar, edificou uma torre, arrendou-a a uns agricultores e partiu de viagem. Quando se aproximou o tempo dos frutos, enviou os seus servos aos agricultores para receber os seus frutos. Mateus 21, 33-34
O salmo diz que a vinha do Senhor é a casa de Israel, porém, ao ouvir este evangelho, devemos personalizá-lo. A vinha do Senhor somos cada um de nós. Ou melhor é a nossa vida e nós somos os que a alugamos, somos os caseiros. Devemos dar frutos, fazer render a vinha, esta deve ser a nossa preocupação, que a nossa vida dê frutos, que esteja cheia de boas obras. Porém a espiritualidade que nos inculcaram diz que devemos manter-nos limpos, evitar o mal e o pecado, mas não refere que temos de praticar o bem.
Espiritualidade positiva
A mania da limpeza é uma doença psíquica. Há pessoas que passam a vida a lavar as mãos e, se calhar, podem apresentar-se diante de Deus com as mãos limpas, mas Deus vai dizer-lhes que estão vazias… A nossa vida espiritual concentra-se em evitar o mal, não em fazer o bem. Isso era o que o jovem rico sempre tinha feito, cumprir os mandamentos que só nos dizem o que não devemos fazer.
Os mandamentos de Cristo são positivos: amar a Deus sobre todas as coisas e pessoas, ao próximo como a nós mesmos, a nós mesmos como Deus nos ama. Estes são mandamentos que implicam uma ação positiva, ao contrário dos 10 mandamentos que só nos exortam a evitar o mal, não a fazer o bem.
No fim das nossas vidas não seremos julgados pelo mal que fizemos, mas pelo bem que não fizemos e tínhamos a possibilidade de ter feito. Seremos julgados por ter sido maus samaritanos, por termos presenciado irmãos em necessidade e, podendo fazer alguma coisa, não fizemos nada, assobiámos para o lado e dissemos que não era connosco, que não era problema nosso.
A natureza tem horror ao vazio
Quando o espírito impuro sai do homem, anda por lugares áridos em busca de repouso e não o encontra. Então diz: "À minha casa voltarei, de onde saí". Ao chegar, encontra-a vazia, varrida e em ordem. Então vai, toma consigo sete outros espíritos piores que ele e, entrando, estabelecem ali morada. A situação final desse homem torna-se pior que a primeira. Assim acontecerá a esta geração má. Mateus 12, 43-45
Tudo o que buscamos fazer na nossa alma é vazio, esquecendo que a natureza tem horror ao vazio, como aprendemos nas aulas de Física. É uma lei da Física cuja aplicação no campo espiritual está provada no evangelho acima citado.
O vazio na natureza não existe, só pode ser criado artificialmente. Uma garrafa vazia não existe, pois ela pode estar vazia de vinho ou de água, mas nunca de ar. Se quisermos retirar o ar de um copo podemos extraí-lo artificialmente com uma máquina, criando o vácuo ou podemos naturalmente enchê-lo de vinho.
No Juízo Final, os que se salvam são os que socorreram o Senhor no pobre e desvalido e lhe deram de comer, de beber, acolheram-no quando era estrangeiro ou peregrino, vestiram-no quando estava nu e visitaram-no quando estava na prisão ou no hospital. Os condenados não foram os maus, mas os que voltaram as costas a todas as oportunidades que a vida lhes deu para fazerem o bem, pois a sua preocupação era evitar o mal. (Mateus 25, 31-46)
Novo exame de consciência e nova confissão
Com base ao texto de Mateus sobre o juízo final, deixa de ocupar o teu psiquismo com o mal e ocupa-o com o bem; usa o teu tempo e as tuas energias para fazer o bem onde quer que seja a quem quer que seja, oportunidades não vão faltar. Em vez de usar as tuas energias em lutar contra o mal dentro de ti procurando erradicá-lo e ficar com a alma limpa e vazia.
“Quem não tem dinheiro não tem vícios” enquanto andas ocupado a fazer o bem, não podes fazer o mal, pois não tens tempo nem energias para isso; como o bem ocupa na tua mente e no teu coração o lugar que antes era ocupado pelo mal, cria lugar para o bem, da mesma forma que o vinho, ao entrar no copo, expulsa naturalmente o ar.
Com base nesta mesma filosofia, há um fármaco que combate o cancro sem o atacar com quimioterapia ou radioterapia; o que este fármaco faz é destruir os vasos sanguíneos que alimentam as células cancerígenas; sem alimento, estas morrem.
Quando enchemos a nossa vida de boas obras, quando ocupamos o nosso tempo a fazer o bem, o mal desaparece por si mesmo. Não podemos ao mesmo tempo fazer o bem e o mal; ao ocupar o nosso tempo com o bem, o mal desaparece por falta de tempo para o fazer.
Numa espiritualidade positiva só existem os pecados de omissão. O meu exame de consciência vai constar em rever o meu dia-a-dia e identificar as situações que requeriam a minha atuação solidária; os meus pecados a confessar serão as oportunidades em que podia ter feito o bem e não o fiz.
Conclusão – A vida é um dom para ser dado, não para ser possuído. É um empréstimo que um dia devolveremos com juros, e um arrendamento pelo qual devemos pagar renda.
Pe. Jorge Amaro, IMC
1 de junho de 2026
A tua vida não é acerca de ti
Um homem, ao partir para fora, chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual conforme a sua capacidade; e depois partiu. Aquele que recebeu cinco talentos negociou com eles e ganhou outros cinco. Da mesma forma, aquele que recebeu dois ganhou outros dois.
Mas aquele que apenas recebeu um foi fazer um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor. (…) O senhor respondeu-lhe: “Servo mau e preguiçoso! (…) Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos. Porque ao que tem, será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. A esse servo inútil, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.” Mateus 25, 14.26.28-30
Ninguém veio a este mundo por acaso.
O filho da prostituta que nasceu de uma relação por dinheiro, o filho de uma violência sexual, o filho de uma noite de prazer ocasional, o filho de um “acidente” ou de um deslize, todos eles foram chamados à vida e vieram ao mundo porque Deus, na sua infinita e misteriosa providência, assim o quis.
O filho de uma noite de amor entre dois seres que se prometeram para toda a vida e vivem em fidelidade mútua, não é superior em dignidade a nenhum dos acima mencionados. Deus ama-os a todos por igual. Para Deus, não há filhos ilegítimos — todos são filhos legítimos do Pai de tudo e de todos. Podem não ter o amor dos seus pais, mas nunca lhes faltará o amor do Pai dos pais, Deus.
Ganhar a vida ou perder a vida
“Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la. Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida?” Mateus 16, 25-26
É comum dizer-se daquele que trabalha incansavelmente que “anda a ganhar a vida”. Neste sentido, ganhar a vida é sinónimo de garantir o sustento; mas buscar meios de vida e viver plenamente não são a mesma coisa. Tal como estar vivo e viver com sentido não são sinónimos.
Os que gastam a sua vida — tempo e energia — apenas a buscar meios de sobrevivência, não diferem muito dos restantes seres vivos deste planeta. Gazelas e leões, tigres e leopardos — todos os animais passam os seus dias a procurar sustento. Sobrevivem, não vivem.
O ser humano, porém, possui um dom singular: tem poder e controlo sobre a sua própria vida. Pode moldá-la, transformá-la num céu ou num inferno, conforme administra o tempo e os dons que lhe foram concedidos.
“Olhai, guardai-vos de toda a ganância, porque mesmo que um homem viva na abundância, a sua vida não depende dos seus bens.” (…) “Havia um homem rico, a quem as terras deram uma grande colheita. E pôs-se a discorrer, dizendo consigo: ‘(…) Tens muitos bens armazenados para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te’. Deus, porém, disse-lhe: ‘Insensato! Nesta mesma noite será reclamada a tua vida; e o que acumulaste, para quem será?’ Assim acontecerá ao que acumula para si, e não é rico em relação a Deus.” Lucas 12, 16-17.20-21
Há quem acumule em vida bens que dariam para sustentar duas ou três vidas humanas. Mas acaso terá essas vidas? Acaso prolongará os seus dias por ter acumulado mais do que o necessário? Não. A vida não se resume a ganhar meios de vida.
A vida não é acumular, mas esvaziar-se. Não é centrar tudo em si, mas irradiar-se em amor. A vida não é força centrípeta — puxar tudo para dentro —, mas sim centrífuga: é partilha, é entrega, é doação. Por isso, paradoxalmente, a vida perde-se quando se retém e ganha-se quando se dá.
A tua vida não é acerca de ti — nasceste para uma missão
“Pois também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos.” Marcos 10, 45
“Pois, quem é maior: o que está sentado à mesa, ou o que serve? Não é o que está sentado à mesa? Ora, Eu estou no meio de vós como aquele que serve.” Lucas 22, 27
Ninguém perguntou a Jesus qual era o objetivo da sua vida, mas se o tivessem feito, esta última teria sido a sua resposta.
A minha vida é um valor absoluto para os outros, mas relativo para mim; absoluto, para mim, é o propósito pelo qual vivo. A minha vida não gira em torno de mim. Se eu fosse o centro da minha própria existência, viver seria apenas sobreviver — manter as funções vitais. Mas viver é muito mais do que isso: é consagrar tempo e energia a uma causa maior.
A vida de Beethoven girou em torno da música; a de Picasso, da pintura; a de Einstein, da física; a de Mandela, da justiça e da igualdade. A vida de Jesus, Filho de Deus, girou em torno da salvação da Humanidade.
Ninguém é mais feliz do que aquele que se torna útil. E ninguém é mais útil do que aquele que ama — e amar, como dizia São Tomás de Aquino, é querer e buscar o bem do outro.
Os talentos, como os dons do Espírito Santo, servem tanto para a realização pessoal como para o bem da comunidade. E é precisamente ao ser útil aos outros que te descobres pleno em ti próprio. Quem é inútil para os outros, acaba por sê-lo também para si mesmo.
Talentos, as alfaias da vida
“A pior desgraça que vos pode acontecer, jovens, é não serdes úteis a ninguém e que as vossas vidas não sirvam para nada.” Raoul Follereau
Deus, arquiteto da nossa existência, traçou um projeto para cada um de nós. Ninguém vem ao mundo sem um propósito. Em diálogo com Deus na oração, atentos aos sinais dos tempos, devemos discernir o projeto divino que nos foi confiado — e para o qual recebemos talentos suficientes.
Em vez de invejarmos os talentos dos outros, como adolescentes que preenchem os seus quartos com ídolos e cartazes, voltemo-nos para nós próprios e descubramos os nossos dons. Há sempre algo escondido que talvez nunca tenhamos explorado…
Ter inveja dos talentos alheios é o mesmo que esconder os nossos e acusar Deus de parcialidade. Mas Deus não é injusto: a cada um dá o necessário para tornar a sua vida significativa e fecunda.
Quando olhamos por uma janela, podemos fixar o olhar na própria janela ou na paisagem que está para além dela — não nos é possível focar os dois ao mesmo tempo. Assim, quem se concentra nos talentos dos outros, desfoca os seus próprios, como se não existissem.
Nunca serás melhor do que aquele que tentas imitar. Mas em seres tu mesmo, ninguém te poderá superar. Por isso, não finjamos ser quem não somos nem jamais seremos.
Assim como “a ocasião faz o ladrão”, também os grandes desafios criam grandes homens — homens que se lançam, que arriscam, que ousam. Só experimentando o novo, e correndo riscos, podemos descobrir se estamos à altura da missão.
A Segunda Guerra Mundial criou Churchill, e o mesmo se aplica a todos os grandes da história.
“Quem não arrisca, não petisca”. Talento não usado é talento irremediavelmente perdido. Dons não descobertos nem cultivados afastam-nos do objetivo que Deus nos confiou — e, sem atingir esse objetivo, a vida torna-se fútil.
Aquilo que não tem utilidade é lixo. E o lixo é queimado. Eis o verdadeiro significado do inferno.
Conclusão - O objetivo da vida não é ser feliz, mas ser útil. Quem não encontra realização pessoal no serviço ao próximo é inútil — para a sociedade e para si mesmo. E, naturalmente, será infeliz.
Pe. Jorge Amaro, IMC
15 de maio de 2026
Santa Maria
A Santa Igreja de Deus acrescentou ao louvor da primeira parte da Ave Maria uma petição e uma invocação à Santíssima Mãe de Deus. Tal inclusão implica que devemos, com piedade e humildade, recorrer a ela, a fim de que, por sua intercessão, sejamos reconciliados com Deus, nós que somos pecadores, e alcancemos as bênçãos de que tanto necessitamos no presente e no futuro da nossa vida.
Assim se pronuncia o Catecismo do Concílio de Trento sobre a segunda parte da Ave Maria. Não se conhece o seu autor concreto; trata-se do fruto de muitos anos de reflexão, prática litúrgica e oração. Começou por ser integrada em alguns breviários das antigas ordens religiosas, até passar ao uso regular do povo de Deus por volta do século XV. Como toda a Tradição, não foi simplesmente copiada da Bíblia, mas está profundamente enraizada nela.
Santa Maria – Ao contrário de Eva, que, com orgulho diante de Deus, desejou usurpar o poder divino, submetendo-se à serpente, símbolo do Mal, Maria, humilde diante de Deus e totalmente submissa à Sua vontade, esmaga a cabeça da serpente. Ao tornar-se Mãe de Deus, Maria alcançou, pelo caminho da humildade, aquilo que Eva pretendia alcançar pelo orgulho: “ser como Deus” (Génesis 3,5). Eva, a pretensiosa, queria ser como Deus em omnipotência; Maria, a humilde serva de Sião, aspira ser como Deus em santidade.
Se Abraão é o nosso pai na fé, Maria é a nossa mãe na fé; nela se cumprem, em plenitude, a fé e a esperança transmitidas ao longo dos séculos.
Mãe de Deus – Um entusiasta pregador protestante, ao entrar num autocarro, afirmou: “Esta é a carta e este é o envelope que a continha; ficamos com a carta e deitamos o envelope ao lixo. Cristo é a carta; Maria, o envelope.” Alguém respondeu: “A tua mãe também é um envelope que atiras para o lixo?”
Na verdade, não se deita fora o envelope. Os amantes que guardam cartas de amor conservam-nas com os respectivos envelopes. Cristo é a carta de amor de Deus à humanidade. Maria é esse envelope florido e precioso que transporta essa carta. Quem é mãe, é sempre mãe. Por outro lado, o envelope traz o remetente — a direção de quem envia a mensagem. Precisamos dessa indicação para poder responder, assim como precisamos da mediação de Maria para nos dirigirmos plenamente a Cristo.
Mãe é aquela que leva um filho no seio e contribui geneticamente para a sua formação. Maria é mãe em ambos os sentidos. Se Maria é mãe de Jesus, e Jesus é Deus, então Maria é Mãe de Deus. É um silogismo incontornável.
Ela não é Mãe de Deus no sentido de ser a origem de Deus ou anterior a Ele, nem é a fonte da divindade de Jesus. É Mãe de Deus porque concebeu e deu à luz Aquele que é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e porque contribuiu com o seu ser para a natureza humana da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.
Rogai por nós, pecadores – Nova Eva, novo Abraão, novo Jacob, Maria é também novo Moisés. Abraão intercedeu por Sodoma e Gomorra; Moisés, continuamente, intercedia pelo povo, mesmo quando já não conseguia manter os braços erguidos. Na Nova e Eterna Aliança, instituída por Cristo, o papel de intercessora pertence a Maria, pois não há criatura humana mais próxima de Deus do que ela.
Já durante a peregrinação terrena do seu Filho, Maria exerceu esse papel de intercessora e mediadora de todas as graças. O primeiro milagre de Jesus, nas bodas de Caná, foi realizado a pedido de Maria (João 2,1-11). Ela não impõe, mas aponta; não exige, mas confia; e o Filho atende à súplica da Mãe.
Agora – “Águas passadas não movem moinhos.” A vida acontece no presente. No entanto, há pessoas que permanecem prisioneiras do passado, de acontecimentos traumáticos ou culpabilizantes, que funcionam como maldições e lhes impedem a liberdade interior e a responsabilidade plena pelo seu comportamento atual.
O pecado é cometido no passado e perdoado no presente. O perdão de Jesus liberta-nos e desfaz os grilhões do passado, que passa a ser integrado no conjunto da vida com um novo significado. Com Cristo, podemos entoar o nosso “Felix Culpa” — “Ó culpa feliz!” — pois “não há males que por bem não venham” e “Deus escreve direito por linhas tortas”.
As três virtudes teologais moldam a nossa existência nos três tempos. Vive-se apenas no presente, mas é a fé que nos chega do passado que ilumina esse presente, e é a esperança no futuro que o anima. A caridade, no entanto, é a única ação própria do presente: viver é amar — a Deus e ao próximo.
E na hora da nossa morte – “Quero morrer”, disse a minha mãe em agonia, quando percebeu que a morte a vinha buscar para Deus. Jesus declarou: “Ninguém Me tira a vida; Eu dou-a livremente” (João 10,18). Se vivermos amando a Deus sobre todas as coisas, a morte não nos priva de nada nem de ninguém. Largar o pouco para nos entregarmos ao Tudo que é Deus não deve ser motivo de temor. Vivamos com a esperança firme de que o melhor ainda está para vir.
Ámen – “Assim seja”, “eu creio” — é o nosso selo, a nossa assinatura no final da oração. Com esta palavra, subscrevemos tudo quanto acabámos de dizer, com fé e confiança.
Conclusão – A primeira parte da Ave Maria refere-se ao passado e ao papel de Maria na história da salvação da humanidade. A segunda parte trata do presente e do futuro, e do papel de Maria na salvação de cada um de nós.
Rezar a Ave Maria é, pois, entrar na eternidade de Deus, acolhendo o dom da Sua Mãe como intercessora e companheira de caminho, desde agora até à hora da nossa morte.
Pe. Jorge Amaro, IMC
1 de maio de 2026
Ave Maria
A Ave Maria é, sem dúvida, a oração mais popular e mais repetida pelos católicos. Só no Rosário — tão querido por sábios e simples — ela é recitada cinquenta vezes, mas também se repete em inúmeras outras situações e circunstâncias.
Tal como a oração do Pai-Nosso, a Ave Maria divide-se em duas partes; contudo, ao contrário daquela, não é inteiramente bíblica. Num movimento ascendente, a primeira parte — retirada diretamente da Sagrada Escritura — compõe-se de cinco degraus que se elevam até Jesus. Num movimento descendente, a segunda parte, nascida da Tradição, é igualmente formada por cinco degraus que nos conduzem até à nossa realidade humana, culminando na hora da morte.
Esta oração não pode ser plenamente compreendida pelos defensores do princípio protestante “sola fide, sola scriptura, solus Christus”, pois nela se unem, de forma harmoniosa, a Escritura — Palavra de Deus, presente na primeira parte — com a Tradição da Igreja, ou seja, a fé viva da comunidade cristã ao longo dos séculos, expressa na segunda parte. Jesus, Alfa e Ómega, centro da história da salvação, é o elo que une ambas as partes.
A Ave Maria é, por isso, um compêndio da história da salvação: nela se encontram o Céu, representado pelo anjo Gabriel, e a Terra, representada por Isabel, prima de Maria. Une o passado — a Anunciação e a Visitação — com o presente, quando pedimos a intercessão de Maria “agora”, e com o futuro, ao invocá-la para “a hora da nossa morte”.
“Avé” - Significa “alegra-te”; ecoa o anúncio profético: Alegra-te, filha de Sião, o Senhor está no meio de ti. É assim que o anjo Gabriel saúda Maria. Poucos versículos antes, apresenta-se a Zacarias com estas palavras: Eu sou Gabriel, que estou sempre na presença de Deus (Lucas 1,19).
Maria, sendo humana, e os humanos estando afastados de Deus por causa do pecado, é aqui exaltada pelo próprio arcanjo, que reconhece nela uma dignidade superior à sua. Esta saudação insinua já o dogma da Imaculada Conceição: Maria foi concebida sem pecado, preservada desde o primeiro instante por singular graça divina.
“Maria” - O nome “Maria” pode ser interpretado como “iluminada” e “iluminadora”. Iluminada interiormente por Cristo, o Sol nascente, é, como a lua, que reflete a luz do sol. Assim, Maria não brilha por si, mas por referência a Cristo. Ela é o espelho mais puro da luz divina, o dedo que aponta sempre para o Senhor.
“Cheia de graça” - A graça é a presença viva de Deus. O anjo reconhece que Maria está plena dessa presença. Cheia de graça porque foi concebida sem o pecado original; cheia de graça porque, ao acolher Jesus no seu seio, tornou-se medianeira da Graça por excelência. Por isso, é medianeira de todas as graças que Deus concede aos que O amam.
“O Senhor é convosco” - Maria é a morada do Altíssimo. É a nova Arca da Aliança. Se a arca antiga continha sinais e testemunhos da presença e das maravilhas de Deus, Maria contém o próprio Deus feito homem. Simultaneamente, é templo e esposa do Espírito Santo.
A antiga arca da Aliança continha:
Maná - que alimentava o povo temporariamente — mas Maria contém Cristo, o novo maná, o pão vivo descido do Céu, que sacia para a vida eterna;
As tábuas da Lei - mas Maria contém Cristo, a Nova Lei, a Lei do Amor, que não apenas proíbe o mal, mas convida ao bem sem medida;
O cajado de Moisés - símbolo da autoridade — mas Maria traz no seu seio o Bom Pastor, que dá a vida pelas suas ovelhas.
“Bendita sois vós entre as mulheres” - Terminada a Anunciação, começa a Visitação. Se, no primeiro episódio, Maria contempla a Deus e acolhe a Sua Palavra, no segundo, ela age: parte apressadamente para servir Isabel, sua prima. A oração e a ação unem-se. Maria é exemplo de quem vive a Palavra escutada.
Fazemos nossa esta saudação de Isabel, inspirada pelo Espírito Santo. É de Isabel que provém a primeira bem-aventurança do Evangelho:
Feliz de ti que acreditaste, porque se há-de cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor (Lc 1,45).
Maria é o culminar da fé de Abraão, transmitida de geração em geração. Não por Jacob, mas por Maria, tem Abraão uma descendência mais numerosa que as estrelas do céu e as areias do mar: ele é pai de todos os crentes, dentro e fora de Israel.
“Bendito é o fruto do vosso ventre”
O trigo que Deus semeou no seio de Maria tornou-se para nós o Pão vivo, que dá vida e salvação eterna. (Cântico de Fátima)
Maria é discípula porque escutou e praticou a Palavra de Deus. É Mãe porque foi, primeiro, discípula. É o terreno fértil por excelência: nela, a Palavra deu fruto abundante. É também a escada de Jacob — a ponte entre o Céu e a Terra.
Sempre que recitamos a Ave Maria, unimos o Céu e a Terra: o anjo Gabriel e Isabel, a Palavra de Deus e a resposta humana. Pela escada que é Maria, desce Deus à Terra, e por ela sobe a humanidade, em Cristo, até ao Pai.
Jesus - Por paradoxal que pareça, a Ave Maria é uma oração profundamente cristocêntrica. Jesus é o centro e o coração da oração. É n’Ele e por Ele que Maria é louvada. Jesus é o ponto de união entre a parte bíblica e a parte tradicional da oração.
Tal como uma pedra lançada ao lago cria círculos concêntricos que se expandem até aos limites da água, assim também Jesus, vindo ao mundo, tornou-Se o centro da história da humanidade. A Sua ação continua a expandir-se até que Deus seja tudo em todos (1 Coríntios 15,28).
Jesus é a pedra angular (Atos 4,11), o alicerce firme da Igreja, aquele que mantém tudo unido de forma harmoniosa e segura.
Conclusão - As palavras do Anjo, seguidas pelas de Isabel, constituem a parte bíblica da Ave Maria, que culmina em Jesus, o centro e a razão de ser desta oração. Ele é o elo que une a Escritura à Tradição da Igreja, representada na segunda parte da oração.
Assim, a Ave Maria é um eco contínuo da história da salvação. Cada vez que a rezamos, reavivamos a memória do mistério da Encarnação e abrimo-nos à intercessão daquela que, com humildade e fé, se fez morada de Deus entre nós.
Pe. Jorge Amaro, IMC
15 de abril de 2026
Jesus carismático, Paulo sistemático
«Irmãos: quanto a mim, de nada me quero gloriar, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo. Pois nem a circuncisão vale alguma coisa nem a incircuncisão, mas sim uma nova criação.
Paz e misericórdia para todos quantos seguirem esta regra, bem como para o Israel de Deus. De agora em diante ninguém mais me venha perturbar; pois eu levo no meu corpo as marcas de Jesus.» (Gálatas 6,14-17)
Os que Jesus escolheu como apóstolos, bem como os que O seguiram durante a sua vida terrena e após a sua morte, eram, na sua maioria, gente simples. Nenhum dos grandes do seu tempo — nem do mundo da política, nem da elite religiosa judaica, nem entre os intelectuais — se fez seu discípulo. José de Arimateia e Nicodemos foram meros simpatizantes, e só após a sua morte se manifestaram publicamente.
Assim como depois do carismático São Francisco de Assis foi necessário o espírito prático e organizador de Frei Elias, também após Jesus de Nazaré foi preciso alguém que sistematizasse e interpretasse, à luz do judaísmo e da mentalidade do mundo greco-romano, o significado da sua vinda para Israel e para a humanidade.
São Paulo, contemporâneo de Jesus, não O conheceu pessoalmente nem conviveu com Ele como os doze apóstolos e outros discípulos. No entanto, foi o primeiro grande teólogo da Igreja. Coube-lhe a tarefa de interpretar, com profundidade e rigor, o significado dos factos históricos vividos pelos apóstolos, preparando o cristianismo para dialogar com o pensamento do seu tempo.
Gloriar-se na cruz de Cristo
A cruz, hoje símbolo do cristianismo, presente no topo de igrejas e em sinais de ajuda e salvação como a Cruz Vermelha, não tinha esse significado há dois milénios. Para judeus, gregos e romanos, a cruz era um instrumento de tortura, vergonha e humilhação.
Após a derrota da revolta liderada pelo gladiador Espártaco, em 71 a.C., os romanos crucificaram cerca de seis mil escravos ao longo dos 200 km da Via Ápia, entre Roma e Cápua. Morrer na cruz era o pior destino, o equivalente, em termos de reputação, a morrer hoje de uma doença estigmatizada como a SIDA.
O mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo
São Paulo gloriava-se na cruz não apenas por esta ser um meio de salvação, mas sobretudo porque, na cruz de Cristo, tudo se clarificou. No julgamento de Jesus, quem verdadeiramente foi julgado foram os poderes do mundo; na sua crucifixão, foram os valores mundanos que foram expostos e condenados.
Neste sentido, afirma o Apóstolo: «O mundo está crucificado para mim e eu para o mundo.» A ressurreição do Crucificado revelou que os poderes humanos — com os seus ódios, divisões e injustiças — foram derrotados. Paulo, doravante, já não vive segundo os critérios desse mundo, mas segundo outros valores.
Nem circuncisão, nem incircuncisão
A circuncisão, sinal distintivo dos judeus, perde para Paulo qualquer valor salvífico. Nem a prática da circuncisão, nem a sua ausência são determinantes — o que conta é uma nova criação em Cristo.
Foi São Paulo quem libertou o cristianismo da pesada herança do judaísmo. Convertido da mais estrita observância farisaica, só ele tinha autoridade para romper o cordão umbilical com a antiga lei e emancipar, de uma vez por todas, a fé cristã da tutela judaica.
Para Paulo, o mundo anterior — com as suas distinções raciais, sociais e sexistas — perdeu todo o sentido à luz de Cristo:
“Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher, pois todos sois um só em Cristo Jesus.» (Gálatas 3,28)
Numa única frase, Paulo expressa de forma admirável como devem ser as relações humanas após Cristo: qualquer forma de discriminação — por raça, estatuto social, cultura ou género — é contrária à nova realidade inaugurada por Ele. Todos os seres humanos merecem igual dignidade, pois são irmãos de Jesus e filhos de um mesmo Pai.
Paz e misericórdia para o novo Israel de Deus
Com a ressurreição de Cristo, tem início uma nova criação: uma nova forma de ver e viver a vida. Esta nova vida forma também um novo povo de Israel, que é o corpo místico de Cristo — a Igreja — na qual somos chamados a participar:
“N’Ele é que vivemos, nos movemos e existimos, como disseram alguns dos vossos poetas: “Pois também nós somos da sua descendência.” (Atos 17,28)
Levo no meu corpo as marcas de Cristo
Este novo povo não se identifica pela antiga marca da circuncisão, mas pelas marcas de Cristo — as suas cinco chagas — que continuam a ser sinais eternos da sua entrega. São marcas visíveis em alguns dos santos que mais se identificaram com o Crucificado, como São Francisco de Assis, e que figuram com orgulho na bandeira nacional portuguesa desde a fundação da nossa identidade.
Essas marcas permanecem como tatuagens sagradas, recordando-nos sempre até onde foi o amor de Deus por nós: até dar a vida por cada um.
Conclusão - Jesus passou pelo mundo fazendo o bem, pregando, curando e realizando milagres. Paulo, embora não tenha feito parte do grupo dos Doze, foi quem melhor compreendeu, interpretou e transmitiu o sentido profundo da vida, morte e ressurreição de Jesus, dotando o cristianismo de uma linguagem capaz de dialogar com o mundo e com a história.
Pe. Jorge Amaro, IMC
1 de abril de 2026
O Mal é natural, o Bem é arti-ficial
“O homem natural não aceita o que vem do Espírito de Deus, pois para ele é loucura. Não o pode compreender, porque só espiritualmente se pode discernir.” (1 Cor 2,14)
Temos tendência a pressupor que o artificial é mau e o natural é bom. No supermercado, procuramos produtos naturais e biológicos, cultivados sem adubos químicos nem pesticidas; os amish vivem como se ainda estivéssemos no século XIX, rejeitando tudo o que é moderno; fugimos da poluição das cidades em busca do ar puro das aldeias. Por outro lado, a palavra artificial faz-nos lembrar o plástico, o que lhe confere uma carga semântica frequentemente negativa.
Os artificiais são naturais e os naturais são artificiais
Foi assim que o meu professor de moral sexual, o falecido jesuíta Javier Jaffo, introduziu o tema dos métodos anticonceptivos. A contagem dos dias férteis, a medição da temperatura basal e a verificação da viscosidade do muco cervical são, em teoria, métodos naturais. Contudo, a sua aplicação torna-os artificiais, pois o casal já não realiza o acto conjugal quando deseja, mas quando as circunstâncias o permitem.
A artificialidade destes métodos reside no facto de serem as condições e não os cônjuges a determinar o momento da união conjugal. Pode até suceder que, quando as condições permitem, os cônjuges não o desejem — e vice-versa.
Pelo contrário, como dizia o meu professor, os chamados métodos “artificiais” — a pílula, o preservativo, o diafragma, entre outros (excluindo o DIU e a pílula do dia seguinte por serem abortivos) — são, paradoxalmente, os verdadeiramente naturais. Eles conferem ao casal a liberdade de decidir quando unir-se, sem impedimentos externos.
A Igreja escreveu muito sobre este assunto e, como o meu professor, nunca compreendi porque motivo a pílula seria má e a aspirina boa — não são ambos produtos artificiais da inteligência humana? Uns dizem que têm efeitos secundários. Mas haverá algum medicamento químico que não os tenha?
Uma vez aceite o princípio da paternidade responsável, que reconhece o valor moral da limitação dos nascimentos, pouco importa o método utilizado: que se use o que for mais adequado ao casal. Ou será que os métodos chamados “naturais” são bons porque falham, e os “artificiais” maus porque funcionam? Estará, então, a contar com o fracasso?
Homo sapiens versus Neandertal
O homem de Neandertal, que imigrou da África muito antes do Homo sapiens, era mais propenso a adaptar-se à natureza, vivendo em simbiose com ela, tal como muitos animais. Se tivéssemos seguido por esse caminho, talvez nunca nos tivéssemos libertado da nossa animalidade, nunca nos teríamos diferenciado suficientemente para alcançar a plenitude da condição humana.
Não se sabe ao certo por que razão os Neandertais, que habitaram a Eurásia há cerca de 350.000 anos, se extinguiram. Talvez tenham sido suplantados pelo Homo sapiens, com quem chegaram a cruzar-se geneticamente.
Ao contrário dos Neandertais, o Homo sapiens — como o nome indica — não se limita a adaptar-se à natureza, mas procura adaptá-la a si. Mais inteligente, combina os elementos naturais para os colocar ao seu serviço. Desde a invenção da agricultura e a descoberta do fogo, até à fabricação de instrumentos e tecnologias, a criatividade humana tem sido o motor da emancipação da natureza, o corte do “cordão umbilical” que nos ligava à sua tutela.
Neste sentido, o que é “natural” aproxima-nos dos animais, enquanto o que é “artificial” aproxima-nos de Deus. A palavra “artificial” vem do latim ars facere, ou seja, “fazer arte”. A diferença entre nós e Deus é que Ele cria a partir do nada, enquanto nós criamos manipulando os elementos naturais, fazendo novas combinações e modificações com os nossos instrumentos.
O natural no homem não é obedecer cegamente à natureza, mas sim libertar-se dela, compreendê-la e dominá-la. O natural no Homo sapiens é, paradoxalmente, o artificial — ou seja, a capacidade de fazer arte.
A nossa natureza caída
As ciências humanas afastam-se cada vez mais da teoria do bom selvagem de Rousseau e aproximam-se da de Hobbes: homo homini lupus — “o homem é o lobo do homem”. Não nascemos como tábua rasa, aprendendo o mal pela educação. Pelo contrário, já nascemos com o mal em nós.
Podemos, sim, aprender técnicas para o praticar, mas o espírito do mal não precisa de ser ensinado — é inato. Sabemos praticá-lo espontaneamente. Tudo o que de mau a humanidade fez ao longo da história parece integrar uma base de dados universal, semelhante ao inconsciente coletivo descrito por Jung.
São Paulo: o homem natural ou homem velho
“As obras da carne são bem conhecidas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, inimizades, contendas, ciúmes, iras, ambições, discórdias, divisões, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a estas. [...] Os que praticam tais coisas não herdarão o Reino de Deus.” (Gálatas 5, 19-21)
“Não entendo o que faço. Pois não faço o bem que quero, mas o mal que aborreço.” (Romanos 7,15)
São Paulo sentia na própria carne a força da natureza humana decaída — a inclinação natural para o mal. A isso chamou “obras da carne”, características do homem velho. Esta é a herança do pecado original: Adão, nosso pai terreno, transmitiu-nos uma natureza ferida. Fazer o mal não exige esforço — é quase como uma segunda natureza.
São Paulo: o homem espiritual ou homem novo
“O fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio de si. Contra estas coisas não há lei. Os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e desejos.” (Gálatas 5, 22-24)
O dilúvio não foi solução; destruir tudo e começar de novo com Noé não resolveu o problema, porque o mal já estava entranhado na natureza humana. Deus desenhou outro plano: enviou o seu Filho, igual a nós em tudo, excepto no pecado. O pecado não faz parte da criação divina — é invenção nossa.
Cristo é o Homem Novo, não surgido após o dilúvio, mas nascido da união entre a natureza divina e a natureza humana purificada em Maria. Cristo foi enxertado no Adão original, não no que este se tornou. Como todo o enxerto, o de Cristo transforma a árvore desde dentro, tornando-a capaz de dar novos frutos.
Cristo: Caminho, Verdade e Vida
“Quem quiser ganhar a sua vida, há de perdê-la.”
“Quem quiser seguir-me, renuncie a si mesmo.”
“Amai os vossos inimigos.”
“Bem-aventurados os pobres.”
“Não convideis os vossos familiares e amigos…”
Jesus usa, frequentemente, uma linguagem paradoxal. O modelo de humanidade que Ele propõe é, à luz da lógica natural, artificial. Vai contra a corrente das nossas tendências instintivas — e, no entanto, está mais que provado que não há outro caminho para a verdadeira felicidade.
Como dizem os italianos, “Se non è vero, è ben trovato”. Mesmo que a figura histórica de Jesus de Nazaré nunca tivesse existido, a narrativa construída pelos quatro evangelistas seria, ainda assim, a melhor de todos os tempos.
O cristão é a medida do humano, e o humano é a medida do cristão. Os valores do Evangelho orientam a vida pessoal e social. A própria Carta dos Direitos Humanos das Nações Unidas é, em grande parte, inspirada nos valores evangélicos.
Indiscutivelmente, não há melhor modelo de vida humana do que Jesus de Nazaré. O seu quotidiano, os seus gestos e palavras constituem, verdadeiramente, Caminho, Verdade e Vida para todos os tempos e lugares.
Como modelo de vida, como estrela polar da humanidade, não existe alternativa igualmente válida. Como Ele próprio disse: “Quem não recolhe comigo, dispersa.” (Lc 11, 23) — não porque recolha com outro, mas porque se perde no vazio.
Conclusão - Natural é aquilo que recebemos da natureza; artificial — do latim “Ars facere” — é o que nasce da nossa mente e criatividade. A vida humana tem, afinal, mais de artificial do que de natural.
Pe. Jorge Amaro, IMC
15 de março de 2026
Morrer em Vida
Morte eterna
Ao caminharmos para o fim da Quaresma, no terceiro domingo, no episódio da Samaritana, aprendemos que o pecado é como uma sede: saciada por instantes, mas sempre pronta a reaparecer. Esta é também a dinâmica do vício – um comportamento repetitivo e obsessivo que rouba a liberdade. Jesus é a água-viva, a água da verdadeira liberdade, que, uma vez bebida, elimina para sempre essa sede.
No quarto domingo, no episódio da cura do cego de nascença, compreendemos que o pecado é como a escuridão, enquanto Jesus é a luz. Cristo é a luz do mundo, que ilumina o caminho da humanidade, a luz que conduz à vida, a luz da fé que nos permite ver a realidade como Deus a vê.
No quinto domingo, com o episódio da ressurreição de Lázaro, percebemos que o pecado é como uma morte interior, e Jesus é a ressurreição. A morte parece ter um carácter de fim absoluto, condicionando tudo o resto. Mas para Jesus, que propositadamente retardou a sua chegada a Betânia, a morte não é um fim, mas um meio para algo maior: a manifestação da glória de Deus.
Em Romanos 6, 23, São Paulo afirma: «O salário do pecado é a morte». No entanto, Deus não deseja a morte do pecador, mas que este se converta e viva (cf. Ezequiel 18, 23). De facto, como dizia Santo Ireneu: Gloria Dei homo vivens – a maior glória de Deus é o homem plenamente vivo.
Deus quer que tenhamos vida, e vida em abundância. A vida plena do ser humano é o que mais alegra o coração de Deus. O que mais O entristece é que permitamos que a morte reine em nós – seja na dimensão física, psicológica ou espiritual.
Morte temporal
Temos gravado no imaginário que a morte acontece apenas no final da vida. Mas isso não é verdade. A morte faz parte da própria vida e acontece diariamente, em múltiplos níveis: físico, psicológico e espiritual. A morte existe em função da vida – não é o seu fim, mas um meio. O fim é sempre a vida.
Nascer, crescer, reproduzir-se e morrer: esta é a regra pela qual todo o ser vivo se rege. Um organismo adulto é constituído por triliões de células, cada uma delas um ser vivo autónomo. Todas provêm de uma única célula-mãe, resultante da união do espermatozoide com o óvulo. A ameba, habitante de águas estagnadas, é um ser vivo unicelular.
Assim, cada célula do nosso corpo nasce, cresce, reproduz-se e morre. Este ciclo celular explica o crescimento físico. A cada sete anos, temos um corpo biologicamente renovado, formado por células novas – completamente diferentes das de sete anos antes. Ao longo da vida, podemos dizer que “encarnamos” entre doze corpos distintos. Tal como a serpente muda de pele para poder crescer, também nós passamos por sucessivas "mudanças de corpo" para viver e amadurecer.
O que é verdadeiro no plano físico é também verdadeiro nos planos psicológico e espiritual. Nestes níveis, crescer e viver exige morrer: abandonar hábitos, pessoas, situações, atitudes, ideias.
As únicas células que se recusam a morrer e se multiplicam desordenadamente são as cancerígenas. Também nós nos tornamos "cancerígenos" psicologicamente e espiritualmente quando nos agarramos de forma doentia a algo ou alguém que não é Deus.
Batismo = Páscoa = Morte = Passagem
«Pelo batismo fomos sepultados com Ele na morte, para que, tal como Cristo ressuscitou de entre os mortos pela glória do Pai, assim também nós caminhemos numa vida nova» (Romanos 6, 4).
O antigo ritual do batismo, ainda hoje praticado por algumas igrejas, consistia na imersão total do catecúmeno na água: descia-se por um lado e subia-se por outro. Este gesto simbólico reproduz a Páscoa de Cristo: a passagem da morte para a vida, do pecado para a graça, do homem velho para o homem novo – à imagem e semelhança de Cristo, arquétipo do homem renovado.
Esta passagem, esta morte interior, é condição essencial para seguir Jesus:
«Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga-me» (Lucas 9, 23).
Na Páscoa, há quem destaque o sofrimento da paixão e quem prefira exaltar a alegria da ressurreição. No entanto, a Páscoa é um todo indivisível, tal como uma moeda tem duas faces. Não há alegria pascal sem a mortificação quaresmal. E, como na guerra, a alegria da vitória é proporcional à dureza da batalha: quanto maior for a mortificação na Quaresma, mais intensa será a alegria da Páscoa.
As Páscoas da vida
«Revesti-vos do homem novo, criado segundo Deus, na justiça e santidade da verdade» (Efésios 4, 24).
Durante os meus anos de estudo em Teologia, tive um colega que, em cada Quaresma, deixava de fumar. No entanto, no Domingo de Páscoa retomava o vício. Pelo contrário, o meu pai deixou de fumar na Quaresma dos seus 22 anos... e nunca mais voltou a fazê-lo.
Somos chamados a morrer em vida. Se, em cada Quaresma da nossa existência, morrermos para um vício, uma atitude negativa, um pecado, então, pouco a pouco, chegaremos à santidade antes da morte final – que é apenas a passagem para a vida eterna. Tal como São Paulo, poderemos afirmar:
«Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim. E a vida que agora tenho na carne, vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e Se entregou por mim» (Gálatas 2, 20).
Morramos, pois, para o pecado, para que possamos viver já – aqui e agora – uma vida nova com Deus e para Deus.
Conclusão - Em todo o momento, no nosso corpo, há células que morrem e são substituídas por outras. A morte é “conditio sine qua non” do crescimento físico, da maturidade psicológica e da plenitude espiritual. Aprender a morrer é, afinal, o segredo de aprender a viver.
Pe. Jorge Amaro, IMC
1 de março de 2026
Um teste ao teu Cristianismo
«Examinai-vos a vós mesmos para ver se estais na fé; ponde-vos à prova.» — 2 Coríntios 13,5
Para todos nós que nascemos no seio de uma família cristã e que nos consideramos cristãos — praticantes ou não — é saudável fazermos uma revisão da nossa fé. Tal como um carro precisa de revisões periódicas para funcionar bem, também a nossa vida espiritual necessita de análises regulares. A rotina do quotidiano tende a adormecer-nos e a deixar-nos tão inconscientes que acabamos por não saber o que fazemos, nem, sobretudo, por que o fazemos.
“Maria vai com as outras” — a pressão social tende a uniformizar os comportamentos. Vivendo em países tradicionalmente cristãos, é fácil cairmos no automatismo de agir e pensar como todos os outros. Chamam-lhe “opinião pública”, que conduz a uma prática igualmente padronizada. Este comportamento de rebanho pode, na verdade, ser mais anti-cristão do que cristão.
Precisamos de parar e discernir se somos cristãos genuínos, questionando a nossa fé, as nossas ações e, principalmente, as nossas motivações. São Paulo, na segunda carta aos Coríntios, recomenda justamente essa autoavaliação. Não devemos dar o nosso cristianismo por garantido; para progredirmos na fé e na prática cristã, temos de nos examinar e confrontar. Como dizia Sócrates: "Uma vida sem exame não merece ser vivida."
Já alguma vez sofreste por Cristo?
«Se o mundo vos odeia, reparai que, antes de vós, me odiou a mim.»— João 15,18-20
O mundo — ou seja, a sociedade que nos rodeia — não é cristã. Aliás, cada vez mais se afasta dos valores do Evangelho, tornando-se pagã e materialista. Quem se esforça por viver segundo o Evangelho encontrará, mais cedo ou mais tarde, oposição.
Se nunca tiveste qualquer dissabor ou resistência por causa da tua fé, há apenas duas possibilidades: ou a sociedade é perfeitamente cristã (o que, como sabemos, não é verdade), ou tu não o és de facto e camuflas-te no mundo como um camaleão no seu habitat.
Cristo disse que devemos ser sal da Terra — o sal que impede a corrupção, mas que, colocado numa ferida, faz doer. O cristão que é verdadeiramente sal irá inevitavelmente causar desconforto e, por isso, sofrer. O cristão também é luz que denuncia as trevas e os seus esquemas ocultos; e quem vive nas trevas procura apagar qualquer luz que se acenda.
Nos primeiros cinco séculos do Cristianismo, ser cristão e ser mártir eram quase sinónimos. Hoje, quantas injustiças, mentiras e corrupções presenciamos em silêncio? Cristo não foi crucificado apenas por anunciar o Reino de Deus, mas por denunciar as hipocrisias e injustiças da sua época.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça... bem-aventurados os pacificadores... bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça...
Metade das bem-aventuranças apontam para a tensão e o sofrimento provocados pela fidelidade ao Evangelho. O cristão não é alguém que assiste passivamente às injustiças, mas quem as denuncia; não é um "paz d’alma", mas sim um pacificador, alguém que entra nos conflitos e promove a reconciliação — e isso, muitas vezes, tem um custo.
Que deixaste tu para seguir Cristo?
«Tomando a palavra, Pedro disse: “Nós deixámos tudo e seguimos-te. Que receberemos, então?” (...) “Todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos por minha causa, receberá cem vezes mais e herdará a vida eterna.”»— Mateus 19,27-29
Quando Jesus chamou os seus discípulos, eles deixaram tudo: barcos, redes e até a família. O jovem rico, apesar de todos os pré-requisitos, recusou o chamamento de Jesus porque estava demasiado apegado às suas posses.
Hoje, todos nos dizemos discípulos de Cristo. Mas só é discípulo quem, de facto, deixou algo para O seguir. Se a minha fé nunca me levou a abandonar nada — hábitos, ambições, comportamentos ou relacionamentos incompatíveis com o Evangelho — então não sou verdadeiramente discípulo. Ninguém nasce discípulo: é-se feito discípulo mediante decisões concretas e renúncias reais.
Queremos o “sol na eira e a chuva no nabal”. Tentamos conciliar o inconciliável: desejamos seguir Cristo, mas também tudo o que o mundo oferece. É o sincretismo do coração dividido.
A quem fazes a vontade?
«Mestre, trabalhámos toda a noite e nada apanhámos; mas, porque Tu o dizes, lançarei as redes.» — Lucas 5,5
«Quem recebe os meus mandamentos e os observa, esse é que me ama.» — João 14,21
«Nem todo o que me diz: “Senhor, Senhor”, entrará no Reino dos Céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai.» — Mateus 7,21
Existe uma diferença entre o que nos apetece fazer e o que devemos fazer. A nossa natureza, inclinada para o egoísmo, prefere o caminho mais fácil, mas a vontade de Deus nem sempre é cómoda — ainda que, no fim, seja sempre libertadora. Há alegria e paz em seguir a vontade divina, mesmo quando ela nos custa. A tristeza chega quando, cedendo aos nossos caprichos, nos afastamos dela.
«O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que me enviou.» — disse Jesus (João 4,34).
Também nós fomos criados para realizar um plano de Deus. A nossa missão, os nossos dons e o verdadeiro sentido da vida encontram-se nesse desígnio — e não num projeto feito à nossa medida.
“O Senhor fez em mim maravilhas”
«E vós, quem dizeis que Eu sou?» — Marcos 8,29
Cristão não é quem sabe muito sobre Cristo, mas quem O conheceu e O experimentou como Salvador. O verdadeiro cristão pode cantar, como Maria, o Magnificat, pois reconhece as maravilhas que Deus fez na sua vida. É alguém que responde com o coração à pergunta de Jesus: “E tu, quem dizes que Eu sou?”
Pilatos chamou Jesus de “Rei dos Judeus”, mas apenas porque ouviu dizer. Muitos hoje também “ouvem dizer” coisas sobre Cristo, mas nunca O conheceram de verdade. Não O experimentam, não O amam, não O seguem. Sabem alguma doutrina, mas não a vivem — e por isso abandonam facilmente a fé, a catequese, a Igreja. E, o que é mais grave, não transmitem Cristo às suas crianças.
Psicanálise ao católico praticante
«Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles.»
— Mateus 6,1
Jesus foi duro com os fariseus: rezavam, jejuavam e davam esmola — mas para serem vistos. Faziam boas obras com más intenções. Por isso, já receberam a sua recompensa: a aprovação humana. Mas não terão recompensa junto do Pai.
Hoje, este farisaísmo continua presente nas nossas paróquias: pessoas que fazem para aparecer; ministros que só querem servir onde há visibilidade; líderes que não largam cargos por apego ao poder; padres que confundem a missão com a sua vaidade pessoal.
A síndrome do “déjà vu” — Tal como os que abusam de antibióticos tornam-se resistentes aos seus efeitos, também os que frequentam demasiadamente a Igreja sem verdadeira conversão correm o risco de se tornarem imunes ao Evangelho. Já ouviram tanto que já não escutam nada. E assim, o remédio já não cura, a Palavra já não salva. Porque não há outra Palavra com poder de vida eterna.
Conclusão - Se te dizes cristão, mas nunca sofreste por causa do Evangelho, ou o mundo é cristão (o que não é verdade), ou então tu não és. Cristianismo não é um rótulo, mas um caminho que exige verdade, entrega e transformação.
Pe. Jorge Amaro, IMC
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