15 de junho de 2026

A Vida: Dom - Empréstimo - Aluguer?

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- Quero passar esta noite neste refúgio de caravanas - disse um romeiro. 
- Como te atreves a chamar refúgio de caravanas ao meu sumptuoso palácio?
- E de quem era o palácio antes de ser teu? perguntou o romeiro. 
- Era do meu pai - respondeu o nobre senhor.
- E onde está o teu pai agora?
- Morreu.
- E de quem era o palácio antes do teu Pai?
- Era do meu avô…
- E onde está o teu avô agora?
- Morreu…
- De quem será este palácio depois da tua morte?
- Do meu filho…
- Então, - concluiu o romeiro, - um edifício no qual habitam diferentes pessoas durante um tempo determinado dizes tu que não é um refúgio de caravanas?”

Da “nossa” vida somos administradores não proprietários
Nus saímos do seio da nossa mãe e nus voltamos ao seio de Deus, de onde também a nossa mãe saiu. Não somos proprietários de coisa nenhuma, pois não podemos possuir nada indefinidamente, nem sequer a nossa própria vida podemos possuir indefinidamente. 

O cristão deveria substituir o uso dos pronomes possessivos por pronomes administrativos. Na sua vida, em vez de conjugar o verbo ter e possuir, deveria usar o verbo usar e administrar. As coisas foram feitas para serem usadas, não possuídas nem amadas; da mesma forma, as pessoas foram feitas para serem amadas, não possuídas nem usadas. 

Não somos proprietários de coisa nenhuma. De todos os recursos que dizemos possuir, e como diz o poeta, tal como não fomos ouvidos no ato de nascer, ou seja, ninguém nos perguntou se queríamos viver ou não, podemos concluir que nem a nossa vida é nossa. 

“Ao feito, peito”, dizia uma mulher dando de mamar ao seu filho. Somos postos nesta vida tal como um boneco que toca tambor, seja de corda ou elétrico, e dão-nos corda ou colocam-nos uma pilha e a nossa vida dura enquanto durar a corda ou a pilha. Não temos nenhum controlo sobre o tempo da nossa vida, pois não somos senhores do tempo nem da vida. 

Somos administradores, não só dos recursos materiais ou espirituais (talentos) que usamos na vida, mas também da própria vida: do tempo, das energias e da opção fundamental, ou seja, da nossa vocação ou missão e do lugar que ocupamos no mundo e na sociedade. 

De tudo quanto existe, incluindo nós mesmos, o proprietário é Deus. Apesar de, ao contrário das outras criaturas, termos sido criados à Sua imagem e semelhança, somos apenas meros administradores das nossas vidas e algum dia teremos de prestar contas desta administração. 

“Deus contou os anos de teu reinado e nele põe um fim; foste pesado na balança e considerado leve demais; teu reino vai ser dividido e entregue aos medos e persas”. Daniel 5, 26-28 

O profeta Daniel interpretou o sonho do rei da Babilónia. Na conclusão da sua interpretação, disse ao rei que colocando num dos pratos da balança o que ele podia ter sido e no outro o que realmente foi, o que estava chamado a ser e o que foi, pesando as suas conquistas e as suas derrotas, as suas boas obras e as suas más obras, a parte positiva não tinha peso suficiente. 

As coisas foram feitas para ser usadas, não possuídas, porque não são um fim em si mesmas, mas somente um meio de vida; estão ao serviço da vida. As pessoas foram feitas para serem amadas, não para serem possuídas ou usadas porque são um fim em si mesmas e nunca um meio. 

Perverso é o que ama as coisas e usa as pessoas para ter mais coisas. Quem se relaciona assim com as coisas vê a vida como poder e possuir. Para ele, amar é possuir coisas e pessoas; nunca poderá ser feliz, pois ninguém gosta de ser usado ou possuído. 

A vida como dom
Um dia bateu à porta do mosteiro um camponês; o irmão porteiro abriu a porta e o camponês deu-lhe um cacho de uvas. “São para si”, disse o camponês “por me ter socorrido em tempos de escassez.” O porteiro recebeu as uvas com muita alegria, agradeceu. Mais tarde quando ia comê-las, pensou, “é melhor dá-las ao abade, acho que as merece pela forma como governa o convento.” 

O abade recebeu-as com a mesma alegria do irmão porteiro e quando se dispunha a comê-las na sua cela, lembrou-se que elas fariam a delícia de um dos irmãos que estava doente. O irmão doente recebeu-as com alegria e logo pensou no irmão cozinheiro que tão amavelmente tinha cuidado dele. Assim que este apareceu com o almoço, deu-lhas. Este admirou a beleza, o perfume e a perfeição das uvas e pensou em dá-las ao irmão sacristão, já que lembravam aquelas que eram oferecidas nos ofertórios da missa. 

O irmão sacristão recebeu-as e entendeu o símbolo, mas não quis comê-las, pensou logo no irmão noviço que andava em crise vocacional e com muito agrado lhas deu. Por fim, o irmão noviço lembrou-se da primeira pessoa que lhe tinha aberto a porta do mosteiro e deu-as ao irmão porteiro. Desta forma, o irmão porteiro entendeu que as uvas eram para si e para mais ninguém, pelo que as saboreou uma por uma. (Resumida e adaptada de Paulo Coelho O círculo da alegria) 

Esta história ilustra perfeitamente que a vida é um dom, sim, mas um dom que não se destina a ser possuído, mas sim dado. Em teologia e em livros de espiritualidade frequentemente encontramos a expressão “dom da vida”, expressando que a vida é um dom, uma dádiva de Deus. Se nos foi dada, então somos os seus proprietários, o que, como dissemos, não corresponde à verdade, pois não temos forma de reter indefinidamente esta dádiva. 

Pois aquele que quiser salvar a sua vida há de perdê-la, mas aquele que perder a sua vida por causa de mim há de encontrá-la. Mateus 16, 25

A vida do outro é para mim um valor absoluto, a minha vida para mim é um valor relativo. A vida é para ser dada, consumida ao serviço dos outros ou de uma causa humana. A nossa vida não gira à nossa volta, não é nem deve ser acerca de nós, mas de algo fora de nós porque não se justifica por si mesma. Não é nem nunca deve ser autorreferencial.  

Usamos a nossa vida, tempo e energias no cultivo de valores humanos que valem mais que a vida. Esses valores sim, são absolutos, pois são a razão da vida. São os valores pelos quais vivemos, os valores aos quais dedicamos todos os minutos da vida e pelos quais estaríamos dispostos a dá-la num minuto. 

Cada um dos valores, talentos ou dons que dão forma à nossa vida, temo-los na medida em que os usamos pelo nosso bem e pelo bem dos outros. Se deixamos de os usar, deixamos de os ter. Neste sentido, se é verdade que só damos o que temos, também é verdade que só temos o que damos. 

Por outro lado, viver é amar e amar é dar-se ao outro. Ora quando nos damos já não nos possuímos. De facto, ninguém é tão vulnerável como quando, por amor, se dá ao outro. O outro fica com um imenso poder sobre nós e pode abusar desse poder se o amor dele por nós não for recíproco. Ou seja, se ele ou ela não se nos der. 

No matrimonio cristão ´amor é sempre trinitário, ou seja, os dois dão-se mutuamente um ao outro sem que ninguém possua ninguém pois quem possui os dois é Deus. Eu dou-me a Deus por intermedio de ti, tu dás-te a Deus por intermedio de mim. Os dois nos damos um ao outro sem que nenhum de nós possua o outro. 

A vida como empréstimo
Um homem, ao partir em viagem, chamou os seus servos e entregou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois, a outro um, a cada um segundo a sua capacidade, e partiu em viagem. Imediatamente, o que recebera cinco talentos foi negociar com eles e ganhou outros cinco. Do mesmo modo, o que recebera dois ganhou outros dois. Mas o que recebera um, afastando-se, fez uma cova na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor. Mateus 25, 14-18

Quaisquer que sejam as circunstâncias do seu nascimento, seja um filho sumamente projetado pelos pais, que escolhem até o sexo do bebé, filho de um casal, mas não querido nem projetado, que vem ao mundo por acidente, filho de uma noite de prazer, filho ilegítimo que nasce fora do vínculo matrimonial, filho de uma prostituta e até mesmo o filho de uma violação, todos são igualmente filhos de Deus.

Se Deus permitiu que viessem ao mundo, quaisquer que sejam as circunstâncias do seu nascimento, todos, absolutamente todos são filhos de Deus e a sua vida é viável. Deus dotou cada um destes seus filhos de um projeto, um lugar no mundo e na sociedade, e dos talentos suficientes para realizar o projeto que Ele pensou para cada um dos seres humanos.

Deus é, portanto, o arquiteto da nossa vida, é Ele que tem os desenhos, os planos os cálculos referentes à construção da nossa vida, construção que termina com a nossa morte e passagem para o seio de Deus. 

Tanto o plano como os talentos e limitações para o executar vão-nos sendo revelados pouco a pouco, à medida que vão sendo necessários. Não recebemos as telhas para o telhado enquanto os alicerces não forem escavados e estiverem firmes. 

A parábola dos talentos ilustra que a vida é um empréstimo, um crédito que Deus nos deu para que o administremos. Tal como na parábola, ao fim temos de prestar contas, ou seja, o empréstimo tem que render lucros. 

Todos nós recebemos determinados talentos e não outros. Todos recebem talentos suficientes para viabilizar a sua vida, mas ninguém recebe todos os talentos. O importante é desenvolver, fazer frutificar os talentos que se recebeu e não os esconder para depois admirar ou invejar os talentos que os outros receberam, procurando viver a vida deles, coisa que nunca se consegue.

O ato ou atitude de invejar os talentos dos outros equivale a esconder os nossos talentos, pois quando a nossa vista se foca ao longe não pode focar-se ao perto ao mesmo tempo. Ao olharmos para os talentos dos outros não vemos os nossos, pelo que é como se tentássemos viver uma vida que não é nossa e, claro, nunca viveremos felizes, com sentido e realizados. Ao tentar ser quem não somos, qualquer um pode ganhar-nos e ser superior a nós; ao ser quem somos, ninguém consegue vencer-nos. 

A todo aquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e a quem muito se confiou, mais lhe será pedido. Lucas 12, 48

A falta de frutos das cidades de Corazim, Betsaida e Cafarnaum, apesar de Jesus ter ali feito uma grande sementeira, é também fortemente criticada. Se calhar, se essa sementeira tivesse sido feita fora de Israel, nas cidades fenícias de Tiro e Sidónia, o resultado teria sido outro. Por isso, o Juízo Final será mais clemente para com Sodoma do que para com estas cidades. Na verdade, delas apenas restam atualmente ruínas. (Lucas 10, 13-16)

A vida como aluguer
Havia um homem, o senhor da casa, que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar, edificou uma torre, arrendou-a a uns agricultores e partiu de viagem. Quando se aproximou o tempo dos frutos, enviou os seus servos aos agricultores para receber os seus frutos. Mateus 21, 33-34

O salmo diz que a vinha do Senhor é a casa de Israel, porém, ao ouvir este evangelho, devemos personalizá-lo. A vinha do Senhor somos cada um de nós. Ou melhor é a nossa vida e nós somos os que a alugamos, somos os caseiros. Devemos dar frutos, fazer render a vinha, esta deve ser a nossa preocupação, que a nossa vida dê frutos, que esteja cheia de boas obras. Porém a espiritualidade que nos inculcaram diz que devemos manter-nos limpos, evitar o mal e o pecado, mas não refere que temos de praticar o bem.

Espiritualidade positiva
A mania da limpeza é uma doença psíquica. Há pessoas que passam a vida a lavar as mãos e, se calhar, podem apresentar-se diante de Deus com as mãos limpas, mas Deus vai dizer-lhes que estão vazias… A nossa vida espiritual concentra-se em evitar o mal, não em fazer o bem. Isso era o que o jovem rico sempre tinha feito, cumprir os mandamentos que só nos dizem o que não devemos fazer.  

Os mandamentos de Cristo são positivos: amar a Deus sobre todas as coisas e pessoas, ao próximo como a nós mesmos, a nós mesmos como Deus nos ama. Estes são mandamentos que implicam uma ação positiva, ao contrário dos 10 mandamentos que só nos exortam a evitar o mal, não a fazer o bem.

No fim das nossas vidas não seremos julgados pelo mal que fizemos, mas pelo bem que não fizemos e tínhamos a possibilidade de ter feito. Seremos julgados por ter sido maus samaritanos, por termos presenciado irmãos em necessidade e, podendo fazer alguma coisa, não fizemos nada, assobiámos para o lado e dissemos que não era connosco, que não era problema nosso.

A natureza tem horror ao vazio
Quando o espírito impuro sai do homem, anda por lugares áridos em busca de repouso e não o encontra. Então diz: "À minha casa voltarei, de onde saí". Ao chegar, encontra-a vazia, varrida e em ordem. Então vai, toma consigo sete outros espíritos piores que ele e, entrando, estabelecem ali morada. A situação final desse homem torna-se pior que a primeira. Assim acontecerá a esta geração má. Mateus 12, 43-45

Tudo o que buscamos fazer na nossa alma é vazio, esquecendo que a natureza tem horror ao vazio, como aprendemos nas aulas de Física. É uma lei da Física cuja aplicação no campo espiritual está provada no evangelho acima citado. 

O vazio na natureza não existe, só pode ser criado artificialmente. Uma garrafa vazia não existe, pois ela pode estar vazia de vinho ou de água, mas nunca de ar. Se quisermos retirar o ar de um copo podemos extraí-lo artificialmente com uma máquina, criando o vácuo ou podemos naturalmente enchê-lo de vinho. 

No Juízo Final, os que se salvam são os que socorreram o Senhor no pobre e desvalido e lhe deram de comer, de beber, acolheram-no quando era estrangeiro ou peregrino, vestiram-no quando estava nu e visitaram-no quando estava na prisão ou no hospital. Os condenados não foram os maus, mas os que voltaram as costas a todas as oportunidades que a vida lhes deu para fazerem o bem, pois a sua preocupação era evitar o mal. (Mateus 25, 31-46)

Novo exame de consciência e nova confissão
Com base ao texto de Mateus sobre o juízo final, deixa de ocupar o teu psiquismo com o mal e ocupa-o com o bem; usa o teu tempo e as tuas energias para fazer o bem onde quer que seja a quem quer que seja, oportunidades não vão faltar. Em vez de usar as tuas energias em lutar contra o mal dentro de ti procurando erradicá-lo e ficar com a alma limpa e vazia.

“Quem não tem dinheiro não tem vícios” enquanto andas ocupado a fazer o bem, não podes fazer o mal, pois não tens tempo nem energias para isso; como o bem ocupa na tua mente e no teu coração o lugar que antes era ocupado pelo mal, cria lugar para o bem, da mesma forma que o vinho, ao entrar no copo, expulsa naturalmente o ar.

Com base nesta mesma filosofia, há um fármaco que combate o cancro sem o atacar com quimioterapia ou radioterapia; o que este fármaco faz é destruir os vasos sanguíneos que alimentam as células cancerígenas; sem alimento, estas morrem. 

Quando enchemos a nossa vida de boas obras, quando ocupamos o nosso tempo a fazer o bem, o mal desaparece por si mesmo. Não podemos ao mesmo tempo fazer o bem e o mal; ao ocupar o nosso tempo com o bem, o mal desaparece por falta de tempo para o fazer. 

Numa espiritualidade positiva só existem os pecados de omissão. O meu exame de consciência vai constar em rever o meu dia-a-dia e identificar as situações que requeriam a minha atuação solidária; os meus pecados a confessar serão as oportunidades em que podia ter feito o bem e não o fiz.

Conclusão – A vida é um dom para ser dado, não para ser possuído. É um empréstimo que um dia devolveremos com juros, e um arrendamento pelo qual devemos pagar renda. 

Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de junho de 2026

A tua vida não é acerca de ti

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Um homem, ao partir para fora, chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual conforme a sua capacidade; e depois partiu. Aquele que recebeu cinco talentos negociou com eles e ganhou outros cinco. Da mesma forma, aquele que recebeu dois ganhou outros dois.

Mas aquele que apenas recebeu um foi fazer um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor. (…) O senhor respondeu-lhe: “Servo mau e preguiçoso! (…) Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos. Porque ao que tem, será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. A esse servo inútil, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.” Mateus 25, 14.26.28-30

Ninguém veio a este mundo por acaso.
O filho da prostituta que nasceu de uma relação por dinheiro, o filho de uma violência sexual, o filho de uma noite de prazer ocasional, o filho de um “acidente” ou de um deslize, todos eles foram chamados à vida e vieram ao mundo porque Deus, na sua infinita e misteriosa providência, assim o quis.

O filho de uma noite de amor entre dois seres que se prometeram para toda a vida e vivem em fidelidade mútua, não é superior em dignidade a nenhum dos acima mencionados. Deus ama-os a todos por igual. Para Deus, não há filhos ilegítimos — todos são filhos legítimos do Pai de tudo e de todos. Podem não ter o amor dos seus pais, mas nunca lhes faltará o amor do Pai dos pais, Deus.

Ganhar a vida ou perder a vida
“Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la. Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida?”  Mateus 16, 25-26

É comum dizer-se daquele que trabalha incansavelmente que “anda a ganhar a vida”. Neste sentido, ganhar a vida é sinónimo de garantir o sustento; mas buscar meios de vida e viver plenamente não são a mesma coisa. Tal como estar vivo e viver com sentido não são sinónimos.

Os que gastam a sua vida — tempo e energia — apenas a buscar meios de sobrevivência, não diferem muito dos restantes seres vivos deste planeta. Gazelas e leões, tigres e leopardos — todos os animais passam os seus dias a procurar sustento. Sobrevivem, não vivem.

O ser humano, porém, possui um dom singular: tem poder e controlo sobre a sua própria vida. Pode moldá-la, transformá-la num céu ou num inferno, conforme administra o tempo e os dons que lhe foram concedidos.

“Olhai, guardai-vos de toda a ganância, porque mesmo que um homem viva na abundância, a sua vida não depende dos seus bens.” (…) “Havia um homem rico, a quem as terras deram uma grande colheita. E pôs-se a discorrer, dizendo consigo: ‘(…) Tens muitos bens armazenados para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te’. Deus, porém, disse-lhe: ‘Insensato! Nesta mesma noite será reclamada a tua vida; e o que acumulaste, para quem será?’ Assim acontecerá ao que acumula para si, e não é rico em relação a Deus.”  Lucas 12, 16-17.20-21

Há quem acumule em vida bens que dariam para sustentar duas ou três vidas humanas. Mas acaso terá essas vidas? Acaso prolongará os seus dias por ter acumulado mais do que o necessário? Não. A vida não se resume a ganhar meios de vida.

A vida não é acumular, mas esvaziar-se. Não é centrar tudo em si, mas irradiar-se em amor. A vida não é força centrípeta — puxar tudo para dentro —, mas sim centrífuga: é partilha, é entrega, é doação. Por isso, paradoxalmente, a vida perde-se quando se retém e ganha-se quando se dá.

A tua vida não é acerca de ti — nasceste para uma missão
 “Pois também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos.” Marcos 10, 45

“Pois, quem é maior: o que está sentado à mesa, ou o que serve? Não é o que está sentado à mesa? Ora, Eu estou no meio de vós como aquele que serve.” Lucas 22, 27

Ninguém perguntou a Jesus qual era o objetivo da sua vida, mas se o tivessem feito, esta última teria sido a sua resposta.

A minha vida é um valor absoluto para os outros, mas relativo para mim; absoluto, para mim, é o propósito pelo qual vivo. A minha vida não gira em torno de mim. Se eu fosse o centro da minha própria existência, viver seria apenas sobreviver — manter as funções vitais. Mas viver é muito mais do que isso: é consagrar tempo e energia a uma causa maior.

A vida de Beethoven girou em torno da música; a de Picasso, da pintura; a de Einstein, da física; a de Mandela, da justiça e da igualdade. A vida de Jesus, Filho de Deus, girou em torno da salvação da Humanidade.

Ninguém é mais feliz do que aquele que se torna útil. E ninguém é mais útil do que aquele que ama — e amar, como dizia São Tomás de Aquino, é querer e buscar o bem do outro.

Os talentos, como os dons do Espírito Santo, servem tanto para a realização pessoal como para o bem da comunidade. E é precisamente ao ser útil aos outros que te descobres pleno em ti próprio. Quem é inútil para os outros, acaba por sê-lo também para si mesmo.

Talentos, as alfaias da vida
“A pior desgraça que vos pode acontecer, jovens, é não serdes úteis a ninguém e que as vossas vidas não sirvam para nada.” Raoul Follereau

Deus, arquiteto da nossa existência, traçou um projeto para cada um de nós. Ninguém vem ao mundo sem um propósito. Em diálogo com Deus na oração, atentos aos sinais dos tempos, devemos discernir o projeto divino que nos foi confiado — e para o qual recebemos talentos suficientes.

Em vez de invejarmos os talentos dos outros, como adolescentes que preenchem os seus quartos com ídolos e cartazes, voltemo-nos para nós próprios e descubramos os nossos dons. Há sempre algo escondido que talvez nunca tenhamos explorado…

Ter inveja dos talentos alheios é o mesmo que esconder os nossos e acusar Deus de parcialidade. Mas Deus não é injusto: a cada um dá o necessário para tornar a sua vida significativa e fecunda.

Quando olhamos por uma janela, podemos fixar o olhar na própria janela ou na paisagem que está para além dela — não nos é possível focar os dois ao mesmo tempo. Assim, quem se concentra nos talentos dos outros, desfoca os seus próprios, como se não existissem.

Nunca serás melhor do que aquele que tentas imitar. Mas em seres tu mesmo, ninguém te poderá superar. Por isso, não finjamos ser quem não somos nem jamais seremos.

Assim como “a ocasião faz o ladrão”, também os grandes desafios criam grandes homens — homens que se lançam, que arriscam, que ousam. Só experimentando o novo, e correndo riscos, podemos descobrir se estamos à altura da missão.

A Segunda Guerra Mundial criou Churchill, e o mesmo se aplica a todos os grandes da história.

“Quem não arrisca, não petisca”. Talento não usado é talento irremediavelmente perdido. Dons não descobertos nem cultivados afastam-nos do objetivo que Deus nos confiou — e, sem atingir esse objetivo, a vida torna-se fútil.

Aquilo que não tem utilidade é lixo. E o lixo é queimado. Eis o verdadeiro significado do inferno.

Conclusão - O objetivo da vida não é ser feliz, mas ser útil. Quem não encontra realização pessoal no serviço ao próximo é inútil — para a sociedade e para si mesmo. E, naturalmente, será infeliz.

Pe. Jorge Amaro, IMC