15 de março de 2026

Morrer em Vida

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Morte eterna

Ao caminharmos para o fim da Quaresma, no terceiro domingo, no episódio da Samaritana, aprendemos que o pecado é como uma sede: saciada por instantes, mas sempre pronta a reaparecer. Esta é também a dinâmica do vício – um comportamento repetitivo e obsessivo que rouba a liberdade. Jesus é a água-viva, a água da verdadeira liberdade, que, uma vez bebida, elimina para sempre essa sede.

No quarto domingo, no episódio da cura do cego de nascença, compreendemos que o pecado é como a escuridão, enquanto Jesus é a luz. Cristo é a luz do mundo, que ilumina o caminho da humanidade, a luz que conduz à vida, a luz da fé que nos permite ver a realidade como Deus a vê.

No quinto domingo, com o episódio da ressurreição de Lázaro, percebemos que o pecado é como uma morte interior, e Jesus é a ressurreição. A morte parece ter um carácter de fim absoluto, condicionando tudo o resto. Mas para Jesus, que propositadamente retardou a sua chegada a Betânia, a morte não é um fim, mas um meio para algo maior: a manifestação da glória de Deus.

Em Romanos 6, 23, São Paulo afirma: «O salário do pecado é a morte». No entanto, Deus não deseja a morte do pecador, mas que este se converta e viva (cf. Ezequiel 18, 23). De facto, como dizia Santo Ireneu: Gloria Dei homo vivens – a maior glória de Deus é o homem plenamente vivo.

Deus quer que tenhamos vida, e vida em abundância. A vida plena do ser humano é o que mais alegra o coração de Deus. O que mais O entristece é que permitamos que a morte reine em nós – seja na dimensão física, psicológica ou espiritual.

Morte temporal
Temos gravado no imaginário que a morte acontece apenas no final da vida. Mas isso não é verdade. A morte faz parte da própria vida e acontece diariamente, em múltiplos níveis: físico, psicológico e espiritual. A morte existe em função da vida – não é o seu fim, mas um meio. O fim é sempre a vida.

Nascer, crescer, reproduzir-se e morrer: esta é a regra pela qual todo o ser vivo se rege. Um organismo adulto é constituído por triliões de células, cada uma delas um ser vivo autónomo. Todas provêm de uma única célula-mãe, resultante da união do espermatozoide com o óvulo. A ameba, habitante de águas estagnadas, é um ser vivo unicelular.

Assim, cada célula do nosso corpo nasce, cresce, reproduz-se e morre. Este ciclo celular explica o crescimento físico. A cada sete anos, temos um corpo biologicamente renovado, formado por células novas – completamente diferentes das de sete anos antes. Ao longo da vida, podemos dizer que “encarnamos” entre doze corpos distintos. Tal como a serpente muda de pele para poder crescer, também nós passamos por sucessivas "mudanças de corpo" para viver e amadurecer.

O que é verdadeiro no plano físico é também verdadeiro nos planos psicológico e espiritual. Nestes níveis, crescer e viver exige morrer: abandonar hábitos, pessoas, situações, atitudes, ideias.

As únicas células que se recusam a morrer e se multiplicam desordenadamente são as cancerígenas. Também nós nos tornamos "cancerígenos" psicologicamente e espiritualmente quando nos agarramos de forma doentia a algo ou alguém que não é Deus.

Batismo = Páscoa = Morte = Passagem
«Pelo batismo fomos sepultados com Ele na morte, para que, tal como Cristo ressuscitou de entre os mortos pela glória do Pai, assim também nós caminhemos numa vida nova» (Romanos 6, 4).

O antigo ritual do batismo, ainda hoje praticado por algumas igrejas, consistia na imersão total do catecúmeno na água: descia-se por um lado e subia-se por outro. Este gesto simbólico reproduz a Páscoa de Cristo: a passagem da morte para a vida, do pecado para a graça, do homem velho para o homem novo – à imagem e semelhança de Cristo, arquétipo do homem renovado.

Esta passagem, esta morte interior, é condição essencial para seguir Jesus:
«Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga-me» (Lucas 9, 23).

Na Páscoa, há quem destaque o sofrimento da paixão e quem prefira exaltar a alegria da ressurreição. No entanto, a Páscoa é um todo indivisível, tal como uma moeda tem duas faces. Não há alegria pascal sem a mortificação quaresmal. E, como na guerra, a alegria da vitória é proporcional à dureza da batalha: quanto maior for a mortificação na Quaresma, mais intensa será a alegria da Páscoa.

As Páscoas da vida
«Revesti-vos do homem novo, criado segundo Deus, na justiça e santidade da verdade» (Efésios 4, 24).

Durante os meus anos de estudo em Teologia, tive um colega que, em cada Quaresma, deixava de fumar. No entanto, no Domingo de Páscoa retomava o vício. Pelo contrário, o meu pai deixou de fumar na Quaresma dos seus 22 anos... e nunca mais voltou a fazê-lo.

Somos chamados a morrer em vida. Se, em cada Quaresma da nossa existência, morrermos para um vício, uma atitude negativa, um pecado, então, pouco a pouco, chegaremos à santidade antes da morte final – que é apenas a passagem para a vida eterna. Tal como São Paulo, poderemos afirmar:

«Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim. E a vida que agora tenho na carne, vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e Se entregou por mim» (Gálatas 2, 20).

Morramos, pois, para o pecado, para que possamos viver já – aqui e agora – uma vida nova com Deus e para Deus.

Conclusão - Em todo o momento, no nosso corpo, há células que morrem e são substituídas por outras. A morte é “conditio sine qua non” do crescimento físico, da maturidade psicológica e da plenitude espiritual. Aprender a morrer é, afinal, o segredo de aprender a viver.

Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de março de 2026

Um teste ao teu Cristianismo

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«Examinai-vos a vós mesmos para ver se estais na fé; ponde-vos à prova.
» — 2 Coríntios 13,5

Para todos nós que nascemos no seio de uma família cristã e que nos consideramos cristãos — praticantes ou não — é saudável fazermos uma revisão da nossa fé. Tal como um carro precisa de revisões periódicas para funcionar bem, também a nossa vida espiritual necessita de análises regulares. A rotina do quotidiano tende a adormecer-nos e a deixar-nos tão inconscientes que acabamos por não saber o que fazemos, nem, sobretudo, por que o fazemos.

“Maria vai com as outras” — a pressão social tende a uniformizar os comportamentos. Vivendo em países tradicionalmente cristãos, é fácil cairmos no automatismo de agir e pensar como todos os outros. Chamam-lhe “opinião pública”, que conduz a uma prática igualmente padronizada. Este comportamento de rebanho pode, na verdade, ser mais anti-cristão do que cristão.

Precisamos de parar e discernir se somos cristãos genuínos, questionando a nossa fé, as nossas ações e, principalmente, as nossas motivações. São Paulo, na segunda carta aos Coríntios, recomenda justamente essa autoavaliação. Não devemos dar o nosso cristianismo por garantido; para progredirmos na fé e na prática cristã, temos de nos examinar e confrontar. Como dizia Sócrates: "Uma vida sem exame não merece ser vivida."

Já alguma vez sofreste por Cristo?
«Se o mundo vos odeia, reparai que, antes de vós, me odiou a mim.»João 15,18-20

O mundo — ou seja, a sociedade que nos rodeia — não é cristã. Aliás, cada vez mais se afasta dos valores do Evangelho, tornando-se pagã e materialista. Quem se esforça por viver segundo o Evangelho encontrará, mais cedo ou mais tarde, oposição.

Se nunca tiveste qualquer dissabor ou resistência por causa da tua fé, há apenas duas possibilidades: ou a sociedade é perfeitamente cristã (o que, como sabemos, não é verdade), ou tu não o és de facto e camuflas-te no mundo como um camaleão no seu habitat.

Cristo disse que devemos ser sal da Terra — o sal que impede a corrupção, mas que, colocado numa ferida, faz doer. O cristão que é verdadeiramente sal irá inevitavelmente causar desconforto e, por isso, sofrer. O cristão também é luz que denuncia as trevas e os seus esquemas ocultos; e quem vive nas trevas procura apagar qualquer luz que se acenda.

Nos primeiros cinco séculos do Cristianismo, ser cristão e ser mártir eram quase sinónimos. Hoje, quantas injustiças, mentiras e corrupções presenciamos em silêncio? Cristo não foi crucificado apenas por anunciar o Reino de Deus, mas por denunciar as hipocrisias e injustiças da sua época.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça... bem-aventurados os pacificadores... bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça...

Metade das bem-aventuranças apontam para a tensão e o sofrimento provocados pela fidelidade ao Evangelho. O cristão não é alguém que assiste passivamente às injustiças, mas quem as denuncia; não é um "paz d’alma", mas sim um pacificador, alguém que entra nos conflitos e promove a reconciliação — e isso, muitas vezes, tem um custo.

Que deixaste tu para seguir Cristo?
«Tomando a palavra, Pedro disse: “Nós deixámos tudo e seguimos-te. Que receberemos, então?” (...) “Todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos por minha causa, receberá cem vezes mais e herdará a vida eterna.”»Mateus 19,27-29
 
Quando Jesus chamou os seus discípulos, eles deixaram tudo: barcos, redes e até a família. O jovem rico, apesar de todos os pré-requisitos, recusou o chamamento de Jesus porque estava demasiado apegado às suas posses.

Hoje, todos nos dizemos discípulos de Cristo. Mas só é discípulo quem, de facto, deixou algo para O seguir. Se a minha fé nunca me levou a abandonar nada — hábitos, ambições, comportamentos ou relacionamentos incompatíveis com o Evangelho — então não sou verdadeiramente discípulo. Ninguém nasce discípulo: é-se feito discípulo mediante decisões concretas e renúncias reais.

Queremos o “sol na eira e a chuva no nabal”. Tentamos conciliar o inconciliável: desejamos seguir Cristo, mas também tudo o que o mundo oferece. É o sincretismo do coração dividido.

A quem fazes a vontade?
«Mestre, trabalhámos toda a noite e nada apanhámos; mas, porque Tu o dizes, lançarei as redes.» — Lucas 5,5
«Quem recebe os meus mandamentos e os observa, esse é que me ama.» — João 14,21

«Nem todo o que me diz: “Senhor, Senhor”, entrará no Reino dos Céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai.»Mateus 7,21

Existe uma diferença entre o que nos apetece fazer e o que devemos fazer. A nossa natureza, inclinada para o egoísmo, prefere o caminho mais fácil, mas a vontade de Deus nem sempre é cómoda — ainda que, no fim, seja sempre libertadora. Há alegria e paz em seguir a vontade divina, mesmo quando ela nos custa. A tristeza chega quando, cedendo aos nossos caprichos, nos afastamos dela.

«O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que me enviou.» — disse Jesus (João 4,34).
Também nós fomos criados para realizar um plano de Deus. A nossa missão, os nossos dons e o verdadeiro sentido da vida encontram-se nesse desígnio — e não num projeto feito à nossa medida.

“O Senhor fez em mim maravilhas”
«E vós, quem dizeis que Eu sou?» Marcos 8,29

Cristão não é quem sabe muito sobre Cristo, mas quem O conheceu e O experimentou como Salvador. O verdadeiro cristão pode cantar, como Maria, o Magnificat, pois reconhece as maravilhas que Deus fez na sua vida. É alguém que responde com o coração à pergunta de Jesus: “E tu, quem dizes que Eu sou?”

Pilatos chamou Jesus de “Rei dos Judeus”, mas apenas porque ouviu dizer. Muitos hoje também “ouvem dizer” coisas sobre Cristo, mas nunca O conheceram de verdade. Não O experimentam, não O amam, não O seguem. Sabem alguma doutrina, mas não a vivem — e por isso abandonam facilmente a fé, a catequese, a Igreja. E, o que é mais grave, não transmitem Cristo às suas crianças.

Psicanálise ao católico praticante
«Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles.»
— Mateus 6,1

Jesus foi duro com os fariseus: rezavam, jejuavam e davam esmola — mas para serem vistos. Faziam boas obras com más intenções. Por isso, já receberam a sua recompensa: a aprovação humana. Mas não terão recompensa junto do Pai.

Hoje, este farisaísmo continua presente nas nossas paróquias: pessoas que fazem para aparecer; ministros que só querem servir onde há visibilidade; líderes que não largam cargos por apego ao poder; padres que confundem a missão com a sua vaidade pessoal.

A síndrome do “déjà vu” — Tal como os que abusam de antibióticos tornam-se resistentes aos seus efeitos, também os que frequentam demasiadamente a Igreja sem verdadeira conversão correm o risco de se tornarem imunes ao Evangelho. Já ouviram tanto que já não escutam nada. E assim, o remédio já não cura, a Palavra já não salva. Porque não há outra Palavra com poder de vida eterna.

Conclusão - Se te dizes cristão, mas nunca sofreste por causa do Evangelho, ou o mundo é cristão (o que não é verdade), ou então tu não és. Cristianismo não é um rótulo, mas um caminho que exige verdade, entrega e transformação.

Pe. Jorge Amaro, IMC