1 de julho de 2023

V Mistério: A profecia de Simeão sobre Maria e o Seu Filho - 1ª Parte

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O seu pai e a sua mãe estavam admirados pelas coisas que dele se diziam. Lucas 2, 33

Grandes surpresas aguardavam Maria na apresentação do seu filho no templo. O evangelho diz várias vezes que Maria guardava tudo no seu coração. Em relação ao seu filho, Maria não compreendia muitas coisas. Caminhou a vida inteira na fé de que tudo correria bem, mesmo quando via que tudo se voltava contra ele e contra ela. O seu filho não parou de a surpreender e causar admiração, desde a sua conceição até à sua morte e ressurreição. Maria não compreendia, mas aceitava em silêncio e seguia fielmente o seu filho, de perto ou de longe.

A apresentação do seu filho no Templo deve ter deixado na boca de Maria um sabor simultaneamente amargo e doce. A alegria de Simeão e de Ana que tão pacientemente esperaram este momento de ver o libertador com os próprios olhos, deve ter causado alegria também no coração de Maria. A ambiguidade da profecia de Simeão que se apresentou como alguém que tinha boas e más notícias, deve ter causado bastante perplexidade e dor no coração de Maria que, que segundo Simeão, seria atravessado por uma espada.

Jesus de Nazaré convulsionou Israel e o mundo
Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua mãe: “Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de surgimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal de contradição, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada trespassará a tua alma. Lucas 2, 34-35

Jesus de Nazaré entrou na história da humanidade como um meteorito, que ao esbarrar com o oceano faz círculos concêntricos que se fazem sentir primeiro onde o mesmo cai e depois até aos confins da Terra. O maior impacto foi sentido em Israel há dois mil anos, porém a sua influência alastrou-se no tempo e no espaço, de tal forma que ainda hoje se faz sentir e se fará sentir até ao fim dos tempos, pois ele mesmo disse: Eu estarei convosco até ao fim dos tempos, (Mateus 28, 20)

Tal foi o impacto de Jesus no o mundo que dividiu a História da humanidade em duas eras. Antes de Cristo (AC) Depois de Cristo (AD), ano da graça de nosso Senhor… Cristo é, portanto, o centro da história da humanidade, pois tudo o que acontece neste mundo vem referenciado como acontecendo antes de Cristo ou depois de Cristo. Incomodados, os agnósticos e ateus do mundo ocidental têm substituído o AC por “antes da era comum” e o AD por “era comum”.

Porém, se alguém no espírito de querer saber, como as crianças no tempo em que questionam tudo e bombardeiam os adultos com perguntas, os questionarem, os senhores da “era comum” vão ter de explicar o que é isso da “era comum” e por que é comum, e quando começou. Se forem honestos, o que nem sempre acontece nos dias que correm, vão ter que mencionar o nome de Cristo. A “era comum” tem como ponto de partida o nascimento de Cristo. Não é, portanto, arbitrária ou convencional, como a escala Fahrenheit para medir a temperatura ambiente.

Jesus: causa de queda ou pedra de tropeço para muitos em Israel
Ide e contai a João o que ouvistes e o que vistes: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, o Evangelho é anunciado aos pobres... Bem-aventurado aquele para quem eu não for ocasião de queda! Mateus 11, 4-6

A palavra grega “escândalo” significa pedra de tropeço. As palavras de Jesus são duras contra os escandalosos, porém Ele mesmo tem que admitir que escandalizou muita gente no bom sentido. Muitos não conseguiram digerir e aceitar muitas das suas ideias; mesmo quando estas eram provadas com atos prodigiosos. Contra factos não há argumentos, diz o povo. Porém, os judeus no tempo de Jesus encontravam argumentos até nos factos, ao dizerem que expulsava os demónios com o poder de Satanás. “Não há pior cego que aquele que não quer ver”.

Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. Mas a todos aqueles que o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus… João 1, 11-12
 
Não é Deus que julga o homem, o homem julga-se a si mesmo. O seu julgamento é a sua reação a Jesus Cristo. Se, ao ser confrontado com Jesus a sua resposta for positiva, tem fé e aceita o seu amor, é salvo e entra no reino dos Céus. Se, porém, permanecer friamente indiferente e imóvel ou mesmo ativamente hostil, é condenado, ou seja, condena-se a si mesmo.

Em relação a Jesus de Nazaré não se pode assumir uma posição neutra. Ou temos fé n’Ele e nos rendemos a Ele ou estamos em guerra com Ele. Para muitos, o orgulho vai impedi-los de optarem pela rendição que os levaria à vitória.

Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no nome do Filho Unigénito de Deus. João 3, 18

No tempo de Jesus, os fariseus, os sumos sacerdotes, os ricos, os abusadores do poder, os exploradores dos pobres tropeçaram na pedra Jesus e pensaram que, retirando a pedra do caminho, como fizeram matando a Jesus, se veriam livres d’Ele. Mas isso não aconteceu, pois o mesmo Jesus, na pessoa dos seus seguidores, tornou-se para eles uma pedra no sapato que incomoda eternamente. Uma vez vindo ao mundo, veio para ficar.

Jesus:  causa de surgimento, pedra de degrau e pedra angular para muitos em Israel
Este Jesus é pedra rejeitada por vós, os construtores, a qual se tornou pedra angular. Atos 4, 11

Cristo, verdadeiro Deus, verdadeiro homem, é o único caminho de Deus para os homens e dos homens para Deus. Na Bíblia, Jericó representa o pecado, por isso, o que caiu nas mãos dos salteadores descia de Jerusalém para Jericó, caiu da graça para o pecado. Jesus visita Jericó e cura Zaqueu ao entrar e, ao sair, cura o cego Bar Timeu que se juntou à grande multidão que com ele subia para a salvação e graça, em direção a Jerusalém celeste.

Caminho, Verdade e Vida, Cristo é o modelo, o paradigma da vida humana. Cristo, nas suas palavras, obras e comportamento pessoal é normativo, pois possui 100% de humanidade. Quem quiser ser autêntica e genuinamente humano, é em comparação com Cristo e com nenhum outro que tem que se avaliar. O que é humano é cristão, o que é cristão é humano, pois não existe uma ética humana e uma moral cristã.

Quem não está comigo, está contra mim
“Mestre, vimos um homem que expulsava demónios em teu nome, e nós lho proibimos, porque não é dos nossos”. Mas Jesus disse-lhe: “Não lho proibais; porque, o que não é contra vós é a vosso favor”. Lucas 9, 49-50

Quem não está comigo está contra mim; e quem não se junta comigo, espalha. Mateus, 12, 30

Estes dois textos parecem estar em contradição; porém, se olharmos ao contexto em que Jesus diz duas frases opostas uma à outra, conseguimos entender. Jesus diz que tem outras ovelhas que não são deste redil, por isso é possível que pessoas fora da Igreja façam também o bem, os tais cristãos anónimos. Quem, por outras vias e sem ser do nosso grupo, contribui para a construção do reino, é cristão mesmo sem o saber porque são cristãs ou humanas as suas atitudes.

A segunda afirmação é feita no contexto de que ninguém vai ao Pai se não por mim (João 14, 6-14). Ou seja, como Cristo é a medida do humano e do divino, só quem se assemelha a Ele se salva, porque, como diz a seguir, quem não junta comigo espalha, dispersa, pois não há outro com quem se juntar. Não existe alternativa igualmente válida a Cristo.

Não a paz, mas a espada
Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa. Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a mim não é digno de mim. Quem ama seu filho mais que a mim não é digno de mim. Mateus, 10, 34-37

O amor divide o que estava unido e une o que estava dividido. Tomemos como exemplo o amor clássico de Romeu e Julieta. As famílias destes dois amantes eram inimigas viscerais, em guerra uma contra a outra. Antes de se conhecerem, cada um dos amantes vivia em paz, harmonia e amor com as respetivas famílias.

Quando a chispa de amor surgiu entre os dois, também a divisão e a discórdia se instalou com as respetivas famílias por causa da união do que antes estava dividido. O mesmo acontece nas famílias onde alguns dos seus membros decidem seguir Jesus e os outros não. É neste sentido que Jesus, o príncipe da paz, sem querer, em vez de trazer a paz traz a guerra e a discórdia ao seio das mesmas famílias onde antes d’Ele reinava o amor e a harmonia.

Maldição de Deus?
Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se tivessem sido feitos em Tiro e em Sidónia os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas se teriam arrependido sob o cilício e a cinza. Por isso, vos digo: no dia do juízo, haverá menor rigor para Tiro e para Sidónia que para vós! E tu, Cafarnaum, serás elevada até ao céu? Não! Serás atirada até ao inferno! Porque, se Sodoma tivesse visto os milagres que foram feitos dentro dos teus muros, subsistiria até este dia. Por isso, te digo: no dia do juízo, haverá menor rigor para Sodoma do que para ti! Mateus, 11, 21-24

A maldição de Deus é um antropomorfismo, ou seja, uma forma de entender a Deus à maneira do homem. Deus é incapaz de amaldiçoar, Deus só sabe abençoar. A maldição é o voltar as costas à bênção de Deus. Muito milagre fez Jesus em Corazim, Betsaida e Cafarnaum, pois eram grandes cidades no tempo de Jesus. Hoje só existem restos arqueológicos destas cidades. Ao contrário, Nazaré e Belém eram pequenas e diminutas e hoje são grandes cidades.

“Quem de Deus se não lembra, todo o bem lhe falta”. No seu discurso ao povo depois da saída do Egito, Moisés colocou diante do povo a bênção e a maldição. A bênção para os que aceitam Deus e seguem os seus mandamentos, a maldição ipso facto para os que não seguem os desígnios de Deus. A bênção vem de Deus, a maldição resulta da rejeição da bênção, não de um castigo de Deus porque Deus não castiga.

Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os teus filhos, como a galinha reúne os seus pintainhos debaixo das suas asas... e tu não quiseste! Pois bem, a vossa casa vos é deixada deserta. Mateus, 23, 37-38

Jesus chora de raiva, pena e impotência pela ruína que estava para cair sobre Jerusalém. Uma ruína causada pelos próprios moradores da cidade que não souberam reconhecer em Jesus o messias esperado pelas nações. O messianismo político e militar dos judeus trouxe-lhes a ruína, a invasão das hostes romanas, a destruição da cidade e do templo e a dispersão pelo resto do mundo durante séculos, até ao surgimento do estado de Israel em 1948, por pena e misericórdia das potências cristãs que ganharam a guerra.

Conclusão: sendo Cristo a medida do que é autêntica e genuinamente humano, não se pode ser neutro e indiferente a Ele; a indiferença, é já, em si mesma, uma rejeição.

Pe. Jorge Amaro, IMC














15 de junho de 2023

IV Mistério - Maria dá à luz a Jesus, Deus connosco - 2ª parte

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Disse-lhe Filipe: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta”. Respondeu Jesus: “Há tanto tempo que estou convosco e não me conheceste, Filipe! Aquele que me viu, viu também o Pai. João 14, 8-9

Gerado não criado consubstancial ao Pai
Deus só tem um Filho que, como diz o Credo, é gerado não criado. Se o Credo falasse de nós, diria criados não gerados. (Deus) nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, Efésios 1, 5 

Todos os humanos são criaturas de Deus e por Jesus Cristo resgatados a preço de sangue, tornados filhos adotivos de Deus. Unidos pela mesma natureza humana, a dignidade é devida a todos os seres humanos, sem distinção de grupos étnicos.

E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados. Romanos 8, 17 – Segundo o direito romano que fundamentalmente é o usado em todo o mundo, o filho adotivo tem os mesmos direitos na herança que o filho gerado.

Jesus chama a Deus Pai, mas só no núcleo dos apóstolos e nunca fora dele. O que significa que a paternidade divina está disponível só para aqueles que aceitam a Jesus como filho de Deus e irmão, nosso irmão maior, pois só em Cristo filho unigénito de Deus é que nós somos filhos adotivos.

O banquete messiânico
O Natal é a festa que une os homens com Deus, é a festa que une a Terra com o Céu. A encarnação é um matrimónio entre o Filho Unigénito de Deus e a Humanidade, o Natal é um banquete de bodas que celebra esta união indivisível e para sempre. Um matrimónio é a união de dois destinos num só destino. No Natal, Deus Pai casa o seu Filho com a Humanidade, ou seja, une a natureza da segunda pessoa da Santíssima Trindade à Natureza Humana.

A união das duas naturezas numa só pessoa deu-se no seio de Maria. Ela é, com todo o direito, a Mãe da criança que vai nascer, pois não só emprestou o seu seio, como também contribuiu com o seu material genético. Deus, por obra e graça do Espírito Santo, é o Pai tanto da segunda pessoa da Santíssima Trindade como desta mesma encarnada em Jesus de Nazaré.

Jesus de Nazaré que nasce em Belém é o resultado dessa união, é a união inseparável e indivisível das duas naturezas: humana e divina. Deus fez-se filho do Homem, único título que Jesus dá a si mesmo, para que o Homem, que é criatura de Deus, se faça também filho de Deus.

O tempo de Jesus entre nós corresponde ao banquete messiânico profetizado muitos séculos antes por Isaías 25, e declarado por Jesus numa das suas parábolas em Mateus 22, 1-14. Por ser o tempo do banquete messiânico, é um facto que a vida pública de Jesus começa com um banquete de bodas em Canaã da Galileia e termina no banquete Eucarístico na Quinta-feira Santa, em Jerusalém, no qual Ele é a comida. Entres estes dois banquetes, Jesus participou em muitos com os seus discípulos e muitos dos seus ditos foram proferidos no contexto de uma refeição.

Depois, foram ter com Ele os discípulos de João, dizendo: «Porque é que nós e os fariseus jejuamos e os teus discípulos não jejuam?» Jesus respondeu-lhes: «Porventura podem os convidados para as núpcias estar tristes, enquanto o esposo está com eles? Porém, hão-de vir dias em que lhes será tirado o esposo e, então, hão-de jejuar. Mateus 9, 14-15

Por ser o tempo de Jesus entre nós, o tempo do banquete messiânico, os seus discípulos, ou seja, os amigos do esposo, não devem jejuar, mas devem celebrar. É tempo de festa, tempo de celebração, não tempo de penitência nem de tristeza.

Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, como teria dito eu que vos vou preparar um lugar? E quando eu tiver ido e vos tiver preparado lugar, virei novamente e hei de levar-vos para junto de mim, a fim de que, onde eu estou, vós estejais também. João 14, 3

Os dias de jejum virão em que o esposo voltará para a casa do Pai, levando com Ele a nossa natureza humana redimida na sua pessoa e pela sua pessoa, sentando à direita do Pai.

E o verbo se fez homem e habitou entre nós
Depois de ter deixado a família na Igreja para a Missa do Galo, um agricultor canadiano regressava a casa, fugindo da tempestade de neve que se avizinhava. De nada tinha valido a insistência da sua mulher para participar na missa. Para ele, a encarnação de Deus não fazia sentido. Enquanto dormitava ao calor da lareira, foi sobressaltado pelo embate de gansos na porta e nas janelas. Afastados pelo temporal da sua trajetória migratória para o Sul, estavam completamente desnorteados.

Movido de compaixão, abriu os portões do grande celeiro e começou a correr, a esbracejar, a assobiar, a gritar e a enxotá-los para que se abrigassem até a tormenta passar. No entanto, os gansos esvoaçavam em círculos, sem entenderem o que significariam o celeiro aberto e os gestos dramáticos do desesperado agricultor (que nem com migalhas de pão espalhadas na direção do celeiro os convencera). 

Derrotado no intento da salvação das pobres criaturas, suspirou: “Ah, se eu fosse ganso! Se eu falasse a sua linguagem!”. Ao ouvir o seu próprio lamento, recordou a pergunta que tinha feito à sua esposa: “Por que razão havia Deus de querer ser homem?”. E, sem querer, balbuciou a resposta: “Para o salvar!” … E foi Natal.

Sempre houve pessoas com uma sensibilidade especial para comunicar com Deus. Na tradição bíblica, os profetas eram os catalisadores dos desígnios de Deus para o povo e das petições do povo a Deus. A comunicação, no entanto, não se fazia sem dificuldades: tal como no campo das telecomunicações, havia muitas “interferências”. A personalidade e caráter do profeta, defeitos e preconceitos, filtravam a mensagem que não chegava ao destinatário tal como tinha saído do emissor. Por outro lado, estes profetas entendiam frequentemente que o Céu estava fechado e Deus envolto em silêncio.

Estes profetas nunca conseguiram, verdadeiramente, estabelecer uma ponte de comunicação entre o divino e o humano. Isto porque a Palavra de Deus, sendo transmitida por eles (homens com as suas características pessoais e inseridos num determinado contexto sociocultural), acabou por sofrer influência de muitas variáveis mediadoras (personalidade, preconceitos, estereótipos, padrões sociais), perdendo-se o significado da mensagem original. 

Há ouro na areia do rio, mas nem toda a areia do rio é ouro. Por isso, precisamos de peneirar a areia para identificar dentro dela algumas pepitas de ouro. Também a Palavra de Deus está na Bíblia, mas nem toda a Bíblia é palavra de Deus. Como a Bíblia é o encontro de Deus tal qual Ele é com o Homem, há na Bíblia muito de humano, muitos antropomorfismos, ou seja, exemplos de como entender a Deus à maneira do homem, apesar de na mesma Bíblia se dizer “os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, diz o Senhor” … 

No peneirar da Bíblia para encontrar a palavra de Deus, temos que identificar a personalidade do autor do livro em questão, as suas crenças, preconceitos, estereótipos, padrões sociais, etc. para encontrar a ipsissima Dei Verbum. 

Por tudo isto, era mester que Deus encarnasse para falar diretamente ao homem sem interferências e, mais que falar, para demonstrar na sua vivência e obras como deve o ser humano viver para readquirir a semelhança de Deus perdida com Adão e Eva. 

Oportunidade para readquirir a semelhança de Deus
Foi por essa razão que o Verbo de Deus se fez Homem - para que o Homem se tornasse filho de Deus.
Sto. Ireneu de Lyon

Sendo o Cristianismo a religião que tem mais seguidores e sendo o Natal a festa mais popular no mundo cristão, podemos facilmente concluir que o Natal é a festa mais celebrada de todas as festas celebradas neste planeta. É sem dúvida a que reúne mais pessoas a nível mundial, não só na sociedade ocidental.

Jesus de Nazaré é o caminho pelo qual Deus vem até nós para nos falar ao ouvido, para nos falar ao coração em pé de igualdade, não de cima para baixo, mas de irmão para irmão, de homem para homem. O criador faz-se criatura para falar de dentro da natureza humana; para falar com autoridade, como notaram os homens do tempo de Jesus, porque falava e fazia, porque falava e cumpria, porque falava e as coisas aconteciam.

Como verdadeiramente homem, Cristo é a nossa oportunidade para reaver a semelhança que tínhamos com Deus antes do pecado de Adão e Eva. Quem quiser ser autêntica e genuinamente humano mede-se em relação a Cristo, Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida, Ele é o modelo, o protótipo, o paradigma de humanidade. Ninguém em toda a história dos homens concentra em si mesmo mais humanidade que Jesus. 

João 15, 16 – Não fostes vós que me escolhestes - Como se diz em teologia, a nossa não é uma religião, pois não se trata do esforço que o homem faz para chegar até Deus, mas é antes uma revelação, porque é Deus que vem primeiro até nós, e se nos revela. Por isso, Jesus pode dizer ao apóstolo Filipe, “quem me vê, vê o Pai”.  

1 João 4:10 - Assim, nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados. Amor com amor se paga, diz o povo; o nosso amor por Deus é uma resposta ao amor divino, a única resposta, pois não cabe nenhuma outra. Portanto, porque a iniciativa é de Deus, a nossa não é uma religião, mas sim uma revelação.

Jesus: caminho pelo qual os homens vão a Deus
“Ninguém vem ao Pai senão por mim” - João 14, 6

Se Jesus de Nazaré é o Cristo, o filho de Deus, Ele é o único caminho pelo qual Deus veio até nós. Por isso mesmo, não pode haver outro caminho pelo qual o homem possa ir até Deus. Não faria sentido que um fosse o caminho pelo qual Deus veio até nós, e outro fosse o caminho pelo qual o homem vai até Deus. Todos os caminhos são de ida e volta, por isso, se Deus veio até nós por meio de Cristo, por meio do mesmo Cristo nós iremos até Deus.

O propósito da encarnação de Deus pode ser lido na entrada e saída de Jesus na cidade de Jericó. Jericó é a cidade mais antiga do mundo, 8 000 anos de existência e é também curiosamente a mais baixa da terra, 500 metros abaixo do nível do mar. Por estas duas caraterísticas, Jericó representa na Bíblia o mundo em pecado. Isto mesmo sugere a parábola do bom Samaritano; o homem que foi assaltado por ladrões e malfeitores, descia de Jerusalém para Jericó, ou seja, descia da graça para o pecado.

Jesus entra em Jericó, ou seja, entra no mundo pecaminoso e vai instalar-se em casa de Zaqueu, ou seja, de um pecador. Jesus instalou-se no mundo pecador, chamou os pecadores a si, viveu, comeu com eles e tratou-os com a dignidade de filhos de Deus (Lucas 19, 1-2). Quando saía de Jericó, seguia-o uma grande multidão, no caminho ascendente do pecado para a graça em Jerusalém (Marcos 10, 46-52). Assim se cumpria a razão da encarnação: Deus, por Cristo, veio ao mundo para que o mundo, pelo mesmo Cristo, fosse a Deus.

Conclusão: Por Cristo veio Deus aos homens, por Cristo vão os homens a Deus. Quem vive em Cristo e como Cristo é autenticamente humano, pois Ele é a única referência e paradigma de humanidade.

Pe. Jorge Amaro, IMC





1 de junho de 2023

IV Mistério: Maria dá à luz a Jesus, Deus connosco - 1ª Parte

Sem comentários:

Meu Deus, clamo por ti durante o dia e não me respondes; durante a noite, e não tenho sossego. (…) O meu coração murmura por ti, os meus olhos te procuram; é a tua face que eu procuro, Senhor. Salmo 22, 2; 27, 8.

Religião e revelação
O povo de Israel nunca se contentou com esta comunicação, tão deficitária, e vivia num contínuo desassossego. Religião, do latim “religare”, significa relação com Deus e com o próximo. Desde que a espécie humana tomou consciência de si mesma que acredita na possível existência de um ser superior, transcendente a tudo e a todos, por ser Criador de tudo e de todos. Em todo o tempo e em todo o lugar, o homem procurou comunicar-se com este ser superior, Deus, para obter o seu beneplácito.

As ondas de telemóvel, de televisão e de rádio cruzam o nosso espaço e nós não as ouvimos nem as vemos, mas sabemos que existem porque, quando temos os instrumentos adequados, as captamos. De forma análoga, Deus também procurou comunicar-se com o homem e o homem com Deus. Mas também esta comunicação não é acessível a todos, é preciso ter uma sensibilidade especial para entrar nesta comunicação.

Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por ele. Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não crê no nome do Filho único de Deus João 3, 17-18

O cristianismo não é uma religião, pois não representa apenas o esforço ou tentativas do homem para chegar a Deus. Pelo contrário, o cristianismo é uma revelação porque é Deus que busca o homem e se revela a ele. Como diz Jesus no evangelho, não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos escolhi a vós e vos destinei a ir e a dar fruto, e fruto que permaneça; e assim, tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome Ele vo-lo concederá. João 15, 16

No Natal celebramos a grande verdade, que Deus não está envolto em silêncio, mas sim em panos e depositado numa manjedoura. Com o nascimento de Jesus, Deus rompe o silêncio, elimina a distância e desfaz a inacessibilidade. Jesus é o Emanuel, Deus connosco, à nossa beira, companheiro de viagem na nossa vida, como o foi com os discípulos de Emaús.

Filho de Deus versus último profeta
Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas. Ultimamente nos falou por seu Filho, que constituiu herdeiro universal, pelo qual criou todas as coisas. Hebreus 1, 1-2

Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, resume todas as religiões que em relação à religião cristã ocupam o lugar que o Antigo Testamento ocupa na Bíblia. Todas elas são acerca de profetas enviados por Deus; o cristianismo não apresenta mais um profeta, mas sim o próprio Deus connosco, o Emanuel.

O Islão aceita como válida a tradição religiosa judaica descrita no Antigo Testamento que eles consideram também seu. Maomé é, portanto, o último dos profetas que Deus enviou ao mundo, sendo o penúltimo Jesus.

Se a humanidade viver mais 10 000 ou 20 000 anos, que sentido faz que o último tenha vindo no ano 524? Mais mudanças sofreu o mundo e a humanidade desde o ano 524 que em todos os milhões de anos anteriores; porque será que os profetas se sucediam uns aos outros com frequência e depois do ano 524 deixaram de ser precisos?

No caso do Cristianismo, mesmo que a humanidade viva até ao ano 20 000, faz sentido que a revelação tenha acontecido no ano zero. Como explica o autor da carta aos Hebreus, “O enviado” não é mais um profeta, mas sim o próprio Deus que vem viver entre nós.

Há aqui um salto qualitativo; os profetas trazem mensagens para um tempo, a palavra de Deus é eterna para todos os tempos e lugares, porque Deus não precisa de falar duas vezes. Por outro lado, Cristo não é só uma palavra proferida, é uma palavra vivida e só se vive uma vez.

Em que sentido é o último profeta? É porque o Islão tem uma doutrina mais refinada e um caminho ascendente que já chegámos ao topo? Mas o topo até parece o cristianismo com uma narrativa muito mais humana e humanizante, como por exemplo o amor aos inimigos. O Islão na sua prática e doutrina até se assemelha mais ao Antigo Testamento que ao Novo, quando pensamos que ainda hoje se apedrejam mulheres e Cristo foi contra isso já nos seus dias.

O Islão é, em si, violento por natureza, pois não se trata de amar a Deus que nos amou primeiro, não se trata de “amor com amor se paga”; Deus no Islão é o senhor do Antigo Testamento que ordena submissão, Islão significa submissão, a pessoa submete-se a Deus, não ama a Deus que já não nos chama servos, mas amigos. De facto, a forma histórica como o Islão se expandiu não foi pela missionação ou catequese, mas pela força e submissão armada ou pelo negócio.

Natal, festa do Pai
De tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. João 3, 16

Como a Igreja tem reservado o domingo depois de Pentecostes para celebrar a Santíssima Trindade, a união e comunhão das três pessoas divinas, é justo que tenha uma solenidade para cada uma das três pessoas divinas. Ao ver que Pentecostes é claramente a celebração de Deus Espírito Santo, desejei ver nas outras duas, Páscoa e Natal, as celebrações do Pai e do Filho, e deparei-me com o problema de que as duas, tanto o Natal como a Páscoa, parecem ser celebrações do Filho, ficando o Pai sem celebração individual.

Não é justo que o Filho tenha duas festas e o Pai nenhuma, por isso pensei qual das duas dar ao Pai e com que critério; podia ser a Páscoa, porque Jesus morre fazendo a vontade do Pai (Lucas 22, 42) ou o Natal, pelo que o próprio Jesus diz no seu diálogo com Nicodemos: “Porque Deus tanto amou o mundo que lhe deu o seu Filho Unigénito (João 3, 16-21).

Para dirimir a questão, recorremos à gramática e ao que esta nos diz sobre voz ativa e voz passiva. Na Páscoa, parece que é Jesus que dirige a ação quando diz, “não são eles que me tiram a vida sou eu que a dou” (João 10,18). Na Páscoa, Jesus é o ator principal, ninguém tem maior amor que o que dá a vida pelos seus amigos (João 15,13). Não há a menor dúvida então que a Páscoa é a festa do Filho, pois nela é Ele o protagonista.

O mesmo já não acontece no Natal, Jesus não é o protagonista do Natal, porque gramaticalmente é pessoa passiva, Jesus não nasce, é dado à luz. Por isto, nunca gostei da formulação do terceiro mistério gozoso que em todas as línguas diz “contemplamos o nascimento de Jesus”. Como se Jesus tivesse caído do Céu de paraquedas ou como se Ele mesmo tivesse provocado o seu nascimento. Este mistério deveria dizer: “No terceiro mistério gozoso contemplamos Maria que dá à luz a Jesus”.

O Natal tem dois grandes protagonistas um divino e outro humano. Deus Pai é o protagonista divino e Maria é a protagonista humana. A ação começa em Deus Pai que envia o seu Filho unigénito ao mundo. Se bem que entre o Pai e o Filho não haja ordem de importância, do ponto de vista gramatical e humano, é mais importante quem envia do que quem é enviado; quem envia provoca a ação, quem é enviado sofre a ação.

Maria, a protagonista humana, não é passiva, também é ativa; ela representa toda a Humanidade que diz “Sim” ao plano de Deus. Um “Sim” livre porque foi dito de uma forma ponderada e sem nenhuma coação por parte de Deus que o propôs; um “Sim” que, por ser livre, podia ter sido “Não”. Tão importante é o que envia como o que recebe. Se um Rei envia um mensageiro a um outro Rei, este último é livre de receber ou não receber o mensageiro enviado.

A figura do Pai Natal
"Jesus is the reason for the season" - "Jesus é a razão da estação" (Slogan protestante do Natal)

Jesus não é a razão da época ou quadra do Natal, o Pai é que é. Nesta festa, Jesus é dado à luz: os verbos que se referem a Jesus nesta quadra vêm em voz passiva. O Natal, como encontro entre Deus e a Humanidade, tem uma protagonista humana, uma mãe, Maria, que recebeu Jesus no seu seio e contribuiu com o seu material genético; e tem um Pai divino, Deus.  

Noutro tempo, também eu critiquei a importância que a sociedade civil dá à figura mítica do Pai Natal. Hoje entendo que é um desses casos de “voz do povo, voz de Deus”. O Pai Natal representa Deus Pai que enviou o seu Filho ao mundo. Venerável senhor idoso que não esconde a idade nem quer aparentar ser mais jovem, e que se desfaz em amabilidades dando presentes às crianças, acariciando-as e tomando-as ao colo. No imaginário de todas as pessoas, Deus Pai é sempre representado como um homem idoso de cabeleira e barba branca. O Pai Natal coincide com este imaginário coletivo.

As suas vestes são vermelhas como as de um bispo porque, historicamente, o Pai Natal está associado ao Bispo São Nicolau, razão pela qual se chama Santa Claus em inglês ou apenas Santa. Vive no Polo Norte, lugar apartado de tudo e de todos, numa região branca, num mundo puro que apela ao imaginário coletivo da forma como se conceptualiza o Céu, morada de Deus.  

Visita-nos durante a noite, pois, como dissemos, a noite é tempo de salvação. Nunca é visto, mas fala pelas suas obras traduzidas nas graças e presentes que nós, como crianças e seus filhos, lhe pedimos. Podendo entrar por janelas ou portas, entra sempre pela chaminé porque se desloca voando, vem de cima para baixo e entra pela única parte da casa que está sempre aberta e em vigia, assinalando que nós devemos estar sempre em oração, abertos ao Altíssimo, olhando para cima de onde nos vem o auxílio.

De repente, juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste, louvando a Deus e dizendo: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado. (…) os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, conforme lhes fora anunciado. Lucas 6, 13-14, 20

Conclusão: o Natal, por ser a festa de Deus Pai, foi celebrado nos Céus pelos anjos que disseram Glória a Deus nas alturas, e na Terra pelos pastores que voltaram de Belém glorificando e louvando a Deus.

Pe. Jorge Amaro, IMC



15 de maio de 2023

III Mistério - Visita de Maria à sua prima Isabel - 2ª Parte

Sem comentários:

A Anunciação evoca a escuta da Palavra de Deus – A Visitação evoca o encarnar da Palavra
Na Anunciação, Maria está atenta à escuta da palavra de Deus que lhe é transmitida por intermédio do anjo Gabriel. Esta é a atitude do verdadeiro discípulo, como Maria de Betânia aos pés do Senhor, escolhendo, segundo o Mestre, a melhor parte. Na Anunciação, Maria tem a mesma experiência que o profeta Jeremias, para quem a palavra de Deus é doce ao paladar, tão doce como o mel.

A Visitação é o tratar de encarnar a Palavra, de a colocar em prática para assim sermos não só discípulos do Mestre, mas também familiares íntimos d’Ele a de sua mãe, que passou pelo mesmo processo, bem como os seus irmãos e irmãs. Quem ouve a Palavra e não a faz comportamento do dia a dia, não a encarna, não a coloca em prática, é como o que construiu a sua casa na areia. (Mateus 7, 24-27)

A Palavra revela-nos a vontade de Deus a nosso respeito; colocá-la em prática é fazer a vontade de Deus que era já para Jesus o seu próprio alimento, pelo que assim deve ser também para nós. A Palavra, como diz a Bíblia, é viva e eficaz, é na sua prática que ela se transforma em vida e em eficácia.

Nem todo aquele que me diz: "Senhor, Senhor", entrará no reino dos céus, mas o que faz a vontade do meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: "Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizámos? Não foi em teu nome que expulsámos demónios? Não foi em teu nome que fizemos numerosas ações poderosas?". Confessar-lhes-ei então: "Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade! Mateus 7, 21-23

Senhor, abre-nos", então, respondendo, ele vos dirá: "Não sei de onde vós sois". Começareis, então, a dizer: "Comemos e bebemos na tua presença, e ensinaste nas nossas praças". E ele dir-vos-á: "Não sei de onde vós sois. Afastai-vos de mim, todos os que praticais a injustiça"
. Lucas 13, 25-27

Comentando e parafraseando os textos acima, "Senhor, Senhor" é o equivalente a ouvir a Palavra de Deus. Se o Senhor nos conhece ou não, depende da prática da Palavra de Deus. Deus não nos conhece da nossa prática religiosa na igreja, mas pela forma como nos comportamos na rua. O texto de Mateus acima citado é seguido pela metáfora de construir sobre a arei ou sobre a rocha. Aquele que põe a palavra em prática constrói sobre a rocha, não sobre a areia como aquele que não pratica aquilo em que diz acreditar.

Jesus não nos conhece quando lhe dizemos “Senhor, Senhor,” mas quando o visitamos no próximo, nos necessitados, nos mais pequenos, onde Ele está escondido. Parafraseando S. João, na escuta da Palavra amamos a Deus que não vemos, na visitação do próximo vemos a Deus a quem amamos.

Se a Anunciação evoca a semente e a sementeira da Palavra – A Visitação evoca o terreno onde a Palavra cai e frutifica
Na parábola do semeador, a Palavra de Deus é comparada a uma semente de qualidade que tem em si mesma a potencialidade de dar fruto; uma semente que pode até ser tão pequena como um grão de mostarda, mas que se transforma numa árvore suficientemente grande para as aves do céu fazerem ninho e procriarem, gerando assim mais vida.

A semente é a palavra de Deus e o semeador é Cristo; depende do terreno se esta semente vai dar fruto ou não. Não é culpa da semente nem do semeador, mas sim do terreno em que a semente cai. O trigo que Deus semeou no seio de Maria tornou-se para nós pão de vida eterna.

Se a Anunciação evoca a fé e a esperança – A Visitação evoca a caridade
"De que aproveitará, irmãos, a alguém dizer que tem fé, se não tiver obras? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se a um irmão ou a uma irmã faltarem roupas e o alimento quotidiano, e algum de vós lhes disser: “Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos”, mas não lhes der o necessário para o corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se não tiver obras, é morta em si mesma.

Queres ver, ó homem vão, como a fé sem obras é estéril? Abraão, nosso pai, não foi justificado pelas obras, oferecendo o seu filho Isaac sobre o altar? Vês como a fé cooperava com as suas obras e era completada por elas. Assim se cumpriu a Escritura, que diz: Abraão creu em Deus e isto lhe foi tido em conta de justiça, e foi chamado amigo de Deus (Gn 15,6). 24. Vedes como o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé?"
Tiago 2, 14- 24

Esta é uma questão que divide protestantes e católicos e que eu entendo que é um grande equívoco. S. Paulo, nos seus escritos, não tem em conta muitas partes do evangelho, sobretudo o juízo final de Mateus 25 que é sobre as obras e não sobre a fé. Todas as perguntas que nesse juízo se fazem são referentes ao amor ao próximo não ao amor a Deus.

No meu entender, quando S. Paulo fala das obras que por si sós não nos salvam, refere-se às obras inspiradas ou feitas pela obediência formal à lei de Moisés, essa mesma lei que o concílio de Jerusalém decidiu não impor aos cristãos vindos do paganismo. Os fariseus pensavam que se salvavam pela obediência formal à lei de Moisés; enquanto que para o cristão o que o salva é o ser como Jesus, praticando obras de misericórdia, mesmo que não acredite n’Ele.

Baseados nesse passo da escritura, se tivéssemos que escolher entre o amor ao próximo e o amor a Deus, devíamos escolher o amor ao próximo, pois amando ao próximo estamos a amar a Deus indiretamente; amando só a Deus estamos certamente muito enganados, pois o Deus que pensamos que amamos é Pai do nosso próximo a quem nós ignoramos. O caminho mais seguro para a salvação não é portanto amar a Deus diretamente mas sim indiretamente através do amor pelo nosso próximo.

O amor a Deus sem amor ao próximo é uma religião ópio do povo, é uma fé sem verificação nem confirmação, pois o próximo vê-se e Deus não se vê. Deste modo, é uma imagem falsa de Deus aquela que não te leva a amar o próximo. Se a fé é a conta, a caridade, o amor ao próximo é a prova dos nove dessa conta, a confirmação de que está exata; por isso, só pelas obras se pode verificar se a fé é autêntica.

"A caridade jamais acabará. As profecias desaparecerão, o dom das línguas cessará, o dom da ciência findará. (…) Por ora subsistem a fé, a esperança e a caridade – as três. Porém, a maior delas é a caridade." I Coríntios 13, 8, 13

Se a Anunciação evoca a liberdade – A Visitação evoca a fraternidade e igualdade
Na Anunciação, Maria estava rezando, em contacto com Deus e exercendo o amor a Deus sobre todas as coisas. Estava, portanto, exercendo o valor humano da liberdade onde assenta a vida individual de cada ser humano.

Só somos verdadeiramente livres quando amamos a Deus sobre todas as coisas e sobre todas as pessoas. Quando O adoramos, ou seja, quando nos submetemos só a Ele, quando só Ele é o Senhor a quem prestamos homenagem e vassalagem, quando isto acontece somos verdadeiramente livres de tudo e de todos.

A ideia que aflora à nossa mente quando se fala de liberdade é a de viver de forma independente e autónoma, sem constrangimentos. A liberdade, no sentido de autonomia, é inerente a todo o tipo de vida ou matéria orgânica; é fazer coisas por si mesmo, é ser autónomo e independente como a célula, ou como a árvore que produz o seu próprio alimento pleo processo da fotossíntese.

Muito mais que para os animais, a liberdade é “condictio sine qua non” da vida humana. Os animais ou plantas fazem o que a natureza tem predestinado para eles, não saem fora desses moldes, pelo que não têm poder sobre a própria vida, não têm poder de opção.

O ser humano, pelo contrário, não está predestinado pela Natureza nem esta exerce poder sobre ele. O ser humano não tem propriamente um “habitat”, um ambiente propício à vida humana, ou seja, um único lugar onde a vida humana é possível. Em vez de se adaptar à Natureza, o ser humano tem a capacidade de adaptar a Natureza às suas necessidades.

Hoje a palavra “artificial” tem má fama, soa a plástico, nocivo para a saúde… Porém, a palavra na sua origem é boa pois significa “ars facere” do latim, fazer arte. Para o ser humano, o artificial é natural, o natural é artificial. O que é natural no ser humano é a criatividade de usar a Natureza a seu favor.

Os animais estão vivos; o ser humano não só está vivo, como vive, porque pode fazer da sua vida e com a sua vida o que quiser, orientá-la como quiser e até acabar com ela se assim o decidir. O ser humano tem a sua vida nas próprias mãos, não porque a possui, mas porque tem a capacidade de a administrar como quer, de a dirigir, de a gastar toda num projeto, uma opção fundamental para a qual tem talento e se sente chamado. Assim fez Beethoven ao dedicar a sua vida à música, Picasso à pintura, Ghandi à independência da Índia sem violência.

Na Visitação, Maria está em contacto com o próximo, exercendo o seu amor pelo próximo na pessoa da sua prima Isabel. Estava a ser uma boa samaritana pois estava a socorrer a sua prima mesmo sem esta lho pedir, como aliás fez nas bodas de Caná mais tarde. Sem que ninguém lho pedisse, ela solucionou o problema do vinho: provavelmente deu-se conta antes do noivo da existência de tal problema e, num ato de profunda empatia para com o noivo e a sua família, resolveu o problema, envolvendo o seu Filho e o seu poder de fazer novas todas as cosias.

Como primeiro valor da Revolução Francesa, a liberdade dizia respeito à relação entre indivíduo e sociedade; como segundo, dizia respeito à relação entre os indivíduos no interior da sociedade. O ser humano é um ser pessoal, individual, mas não é uma ilha: sempre faz parte de uma família, de um clã, de uma tribo, de uma nação.

Como já refletimos num texto anterior, o ser humano é uno e trino, tal como Deus e a sua criação. São precisos dois seres humanos para dar origem a um, pelo que um não existe, mas coexiste com outros dois. Se o valor base de um ser humano como ser pessoal e individual é a liberdade, o valor onde assenta o ser humano como ser social é a igualdade.

Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor. Levítico 19, 18

Não há em todo o mundo uma definição melhor de igualdade. O outro é um alter ego, ou seja, é um outro eu; não um tu, uma entidade externa, estranha, estrangeira, distante, mas sim o meu próximo, tão próximo que é um outro eu, um alter-ego, de onde provém a palavra altruísmo.

O que me é devido a mim, é-lhe devido a ele, pois é um ser humano como eu e todos viemos do mesmo tronco comum, nascido no Vale do Rift há 5 milhões de anos. A igualdade e a convivência na sociedade assentam no princípio de que os meus direitos são os deveres do meu próximo e os meus deveres são os direitos do meu próximo.

Não julgueis, para não serdes julgados; pois, conforme o juízo com que julgardes, assim sereis julgados; e, com a medida com que medirdes, assim sereis medidos. Mateus 7, 1

– É uma exortação divina à igualdade não nos colocarmos acima dos outros, julgando-os, pois somos todos iguais. Ninguém nos constituiu juízes, e só o seríamos, só poderíamos atirar uma pedra, se não tivéssemos pecado. Mas pecámos e frequentemente julgamos os outros pelos mesmos pecados e defeitos que nós temos, pelo que o nosso julgamento é hipócrita.

Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus. Gálatas 3, 28

– Jesus curou estrangeiros e frequentemente exaltou a sua fé. Tratava o homem e a mulher de igual para igual, foi o único Rabino que teve discípulas. Nas parábolas que contava procurava um equilíbrio entre os homens e as mulheres como protagonistas. Combateu o cliché de que a mulher devia dedicar-se exclusivamente ao trabalho doméstico, tendo como única vocação ser mãe. Desta forma, 2000 anos antes, já Jesus era a favor da integração da mulher no mundo do trabalho, ao lado do homem. (Cf.  Lucas 10, 38-42, Lucas 11, 17)

As visitas de Maria
Explicamos e justificamos que Maria é medianeira e nossa intercessora no Céu com o episódio das bodas de Caná (João 2, 1-11), no qual ela apresenta as necessidades dos convivas ao seu Filho, ao mesmo tempo que os exorta a fazer tudo o que Ele disser. Por que não explicar e justificar as visitas de Maria com o episódio da visita à sua prima Isabel? (Lucas 1, 39-45)

Nas suas visitas, Maria não traz um evangelho novo, uma mensagem nova, mas tal como o Espírito Santo de quem ela é Esposa, recorda partes esquecidas da mensagem (Cf. João 14, 26) do seu Filho e reinterpreta-as no “aqui e agora” da história dos homens. De facto, um dos fatores importantes da genuinidade destas mensagens é a sua concordância com o evangelho.

Maria continua a visitar aqueles de quem ela é mãe em momentos fulcrais da História dos seus filhos, para ajudar a encarnar nesses momentos e lugares a Palavra eterna do seu filho.

Guadalupe – Apoio à evangelização
Como iam os indígenas, em 1531, aceitar de bom grado a religião dos conquistadores, exploradores e assassinos espanhóis, se Maria não tivesse aparecido a um indígena. De facto, os indígenas até àquele tempo reticentes ao cristianismo, converteram-se em massa depois das aparições.

Lourdes – O Céu confirmou
Parte importante da mensagem de Lourdes é a confirmação do Céu, no ano de 1858, do dogma da Imaculada Conceição instituído pelo papa Pio IX quatro anos antes em 1854.

Fátima – “Penitência e Oração” são a solução
Entre duas guerras mundiais, Maria propôs em Fátima, entre outras coisas, a “Penitência e a Oração” como meios para fazer frente ao ateísmo militante, naquele tempo e ainda hoje.

Conclusão: depois da doação total de si mesma a Deus na Anunciação, Maria doa-se em igual medida ao próximo, ao visitar a sua prima Isabel.

Pe. Jorge Amaro, IMC









1 de maio de 2023

III Mistério - Visita de Maria à sua prima Isabel - 1ª Parte

Sem comentários:

"Naqueles dias, Maria levantou-se e foi às pressas às montanhas, a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Ora, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. E exclamou em alta voz:

“Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor? Pois assim que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu seio. Bem-aventurada és tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas!
”. Lucas, 1:39-45

A notícia de que a prima Isabel ia já no sexto mês de gravidez foi dada pelo anjo como prova de que a Deus nada é impossível. Maria, porém, sem comentar a notícia com o anjo, guardou-a e quando terminou o encontro com o mensageiro de Deus imediatamente partiu para Ein Karen, a 145 km de Nazaré. A viagem foi feita em caravana, na companhia de outros viandantes e deve ter demorado entre 7 e 10 dias.

Com o encontro e as palavras de Isabel a Maria completa-se a primeira metade de uma oração muito querida e repetida pelos católicos – Ave Maria – que na sua primeira parte é composta pelas palavras do anjo, seguidas das palavras de Isabel e terminando em Jesus que é o centro da oração, como sempre foi o centro da vida de Maria.

A segunda parte desta oração reflete o que Maria é para nós e o seu papel na História da Salvação do género humano e de cada um de nós individualmente. Por isso lhe pedimos que peça, que ore a Deus por nós “agora” em todos os “agora(s)” da nossa vida e, sobretudo, naquele “agora” derradeiro da nossa passagem deste mundo para o Pai. Como ela esteve aos pés da cruz do seu filho na sua agonia, assim nos acompanhe a nós na nossa.

Anunciação/Visitação
Há uma dialética entre a anunciação do anjo à Nossa Senhora e a visitação da Nossa Senhora à sua prima Santa Isabel, que faz com que estes dois mistérios tanto gozosos como marianos sejam inseparáveis um do outro, ou seja não possam nem devam ser entendidos individualmente, mas sempre em relação um com o outro.

Nestes dois mistérios e no que eles podem significar e evocar, vai toda a vida do cristão, ou seja, sintetizam em si a vida do cristão. Por isso, Maria é para nós modelo de vida cristã; ela de facto não foi só Mãe do Senhor, foi também sua discípula. Mãe porque discípula, discípula porque mãe. (Lucas 8, 21). Assim, pois, se:

Se a Anunciação evoca o “Ora”, a oração, a Visitação evoca o “Labora”, a prática de boas obras
Um dia, um grande rei visitou o seu mestre espiritual e perguntou-lhe, “Como posso alcançar a União com Deus? Quero que me respondas com uma só frase, pois sou um homem muito ocupado”. “O mestre disse-lhe: Até lho posso dizer numa só palavra”. “Qual é a palavra?” perguntou o rei”. “É o silêncio”, respondeu o mestre espiritual. “E como posso alcançar o silêncio”? “Através da oração”. “E o que é a oração?” “É silêncio”, respondeu o mestre.

No silêncio encontro-me a mim próprio e encontro a Deus no fundo do meu ser. No ruído perco-me a mim próprio e perco a Deus. O filho pródigo fez o que fez porque andava divorciado de si mesmo; quando caiu em si, voltou a Deus; então estar com Deus e connosco próprios implicam-se mutuamente. Quem está fora de si mesmo, está fora de Deus. Porque, como dizia Sto. Agostinho, “Deus intimior intimo meo”. Deus está mais fundo que o meu íntimo, está para além do meu íntimo, ou seja, não posso chegar a Deus sem passar por mim mesmo.

O “conhece-te a ti mesmo” do filósofo Sócrates, não é possível sem a oração. Sem um tempo dedicado à oração, como fazia Maria e o seu filho, não chegamos a conhecer os nossos talentos, as nossas virtudes e os nossos defeitos e limitações. Uma vida não autorreflexiva, dizia também Sócrates não vale e pena ser vivida. Pois é na autoconsciência que podemos exercer controlo sobre os nossos impulsos e maus instintos. Sem autoconsciência, não há autocontrolo.

Os Evangelhos apresentam frequentemente, sobretudo nas escolhas decisivas, Jesus que se retira sozinho para um lugar longe das multidões e dos próprios discípulos, para rezar no silêncio e viver o seu relacionamento filial com Deus. O silêncio é capaz de escavar um espaço interior em nós mesmos, dizia o Papa Bento XVI, para fazer habitar Deus esse espaço, para que a sua Palavra permaneça em nós, para que o amor por Ele se enraíze na nossa mente e no nosso coração, e anime a nossa vida.

Portanto, a primeira direção: reaprender o silêncio, a abertura para a escuta, que nos abre para o alto, para a Palavra de Deus. Como dizia Karl Rhaner, o grande teólogo jesuíta do século XX, os cristãos do futuro ou são místicos ou não são cristãos.

Alguém dizia que a vida do cristão decorre entre a Igreja como templo e a praça ou o mercado. No templo, o cristão está em oração e contemplação de Deus e de si mesmo; no mercado, o cristão está vivendo a sua fé na caridade e no amor ao próximo. Mesmo os monges contemplativos que dedicam muito tempo à oração “Orat”, também têm atividade, “laborat”.

"Intimamo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, a que eviteis a convivência de todo o irmão que leve vida ociosa e contrária à tradição que de nós tendes recebido. Sabeis perfeitamente o que deveis fazer para nos imitar. Não temos vivido entre vós desregradamente, nem temos comido de graça o pão de ninguém. Mas, com trabalho e fadiga, labutamos noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós.

Não porque não tivéssemos direito a isso, mas foi para vos oferecer em nós mesmos um exemplo a imitar. Aliás, quando estávamos convosco, nós vos dizíamos formalmente: quem não quiser trabalhar não tem o direito de comer. Entretanto, soubemos que entre vós há alguns desordeiros, vadios, que só se preocupam em intrometer-se em assuntos alheios. A esses indivíduos ordenamos e exortamos a que se dediquem tranquilamente ao trabalho para merecerem ganhar o que comer. Vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem.
" II Tessalonicenses, 3, 6-13

Para S. Paulo, não há profissionais nem da oração nem do anúncio do Evangelho. Isto deve ser tarefa de todos. Ele mesmo, como refere o texto, trabalhava, fazia tendas para ganhar o próprio sustento, não vivia nem à custa da oração nem da evangelização. Era, pois, contrário àquela divisão tradicional das classes sociais na Idade Média, em que o clero, rezava, os nobres protegiam o povo e o povo trabalhava para o sustento do clero e da nobreza. Mesmo já nesta Idade Média, os que muito se dedicavam à oração, os monges Beneditinos e Cistercienses, trabalhavam não só para o próprio sustento, mas também para o sustento das povoações vizinhas, às quais ensinavam práticas agrícolas.

Se a Anunciação evoca o “amar a Deus sobre todas as coisas” – A Visitação evoca o “amar ao próximo como a ti mesmo”.
Escuta, Israel! O Senhor é nosso Deus; o Senhor é único! Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Estes mandamentos que hoje te imponho estarão no teu coração. Repeti-los-ás aos teus filhos e refletirás sobre eles, tanto sentado em tua casa, como ao caminhar, ao deitar ou ao levantar. Atá-los-ás, como símbolo, no teu braço e usá-los-ás como filactérias entre os teus olhos. Escrevê-los-ás sobre as ombreiras da tua casa e nas tuas portas.» Deuteronómio 6, 4-8

Jesus disse à samaritana que não era nem no monte Gerasim, onde Jacob tinha construído um santuário Bétel, nem em Jerusalém, onde Salomão tinha construído o templo. Adora-se a Deus em espírito e em verdade. E noutro sítio da escritura, Jesus até diz que quem quiser rezar, entre no seu quarto. Na oração exercemos o nosso amor a Deus. É certo que em todo momento o amamos, porém, a oração é a manifestação desse amor que em todo o tempo sentimos.

Para todos os efeitos, o Criador sabe sempre mais da criatura que a criatura sabe de si mesma. O Criador ama mais a criatura que a criatura se ama a si mesma. O Criador sabe tudo da criatura, passado, presente e futuro, por isso, mais que a criatura, está capacitado para defender os seus interesses.

Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim. Mateus 10, 37

Tudo o que a criatura pode e deve fazer é entregar-se nas mãos do Criador, tal como um bebé sem hesitação se lança nos braços do pai. Assim, podemos entender o texto clássico do amor a Deus que é o credo, que todo o judeu recita quando se levanta de manhã. O amor a Deus é sobre todas as coisas, sobre todas as pessoas, completa e absolutamente exclusivo, acima do amor que temos por nós mesmos.

Deus só ama os que o amam
Ao entrardes numa casa, saudai-a. Se a casa for digna, venha sobre ela a vossa paz, mas se não for digna, volte para vós a vossa paz. Mateus 10, 12-13

Frequentemente em sermões, para obter a atenção dos que estão meio adormecidos, lanço uma granada no meio da audiência dizendo “Deus só ama a quem O ama”. Em seguida, os que se consideram teólogos objetam e dizem que não, que Deus ama a todos por igual, e até me citam a Bíblia, que faz chover sobre o justo e sobre o injusto.

E é verdade, em teoria Deus amou tanto a Hitler como a Francisco de Assis. No entanto, a vida dos dois não foi a mesma; se os dois tiveram a mesma quantidade e qualidade de amor de Deus, por que foram tão distintos? Francisco aceitou o amor de Deus, fez-se eco dele amando a Deus; Hitler não. O sol, antes de chegar ao nosso planeta e de o aquecer e iluminar, passa pelo espaço onde a temperatura é de 300 graus negativos. Porquê? Porque está vazio, nada há nele que faça eco e acolha essa luz e esse calor. A única forma de fazer-se eco do amor de Deus é amá-l’O também.

“Amor com amor se paga” – Como diz a escritura, Deus amou-nos primeiro e sempre nos ama, mas se eu não faço eco do Seu amor em mim, é como se Ele não me amasse. Só com o amor podemos fazer eco do amor de Deus em nós. Ao amor, ou se responde com amor ou somos ingratos. Por isso, se bem que em teoria Deus ama a todos por igual, só o que aceita esse amor, só o que está aberto ao amor de Deus, sente os efeitos desse amor. O ato de aceitar o amor de Deus, o estar aberto ao amor de Deus, é amar a Deus.

Como o texto bíblico acima citado (Mateus 10: 12-13) sugere, a bênção volta para quem bendiz quando não é bem recebida. Assim, é com o amor de Deus que não encontra um coração aberto para receber o amor que Deus tem para dar.

Amar e ser amado
Amar e ser amado é a primeira necessidade humana, depois das necessidades físicas. Não há vida humana sem amor; viver é amar. Durante toda a nossa vida teremos esta necessidade. Por isso, por ser uma necessidade humana e por não haver vida humana autêntica sem amor, amar é, ao mesmo tempo, um dever e um direito.

Como necessidade inerente à natureza humana e à dignidade da pessoa humana, todos os seres humanos têm o direito de ser amados e o dever de amar. Como crianças, a prioridade é sermos amados, pois é sendo amados incondicionalmente que aprendemos a amar incondicionalmente. Como adultos, a prioridade é amar; se um adulto tem como prioridade ser amado mais que amar, não é um adulto maduro. É um desses tipos de adultos que vemos nas telenovelas, que usam mil e um estratagemas para obter a estima de alguém e pouco ou nada fazem para amar alguém.

A nível educacional, o amor é um dever dos adultos para com as crianças, um direito inerente e inato das crianças em relação aos adultos. Fora do âmbito educacional, a necessidade de amar e ser amado permanece para o resto da vida, pelo que é sempre, simultaneamente, um direito, ainda que não o reivindiquemos, e um dever, ainda que não o exercitemos.

Porém, Deus continuamente nos perguntará “onde está o teu irmão?” (Génesis 4, 9). Responder que não somos o guardião do nosso irmão não é uma resposta que satisfaça a Deus nem à nossa consciência. Convém também lembrar que a matéria do Juízo Final é a mesma matéria da vida: o amor. Se amaste, viveste; se não amaste, não viveste, eras um morto vivo, ou seja, o corpo estava vivo, mas a alma já estava morta. Com a morte do corpo, regressas ao nada a partir do qual Deus te tinha criado para fazer de ti alguma coisa; mas tu não colaboraste com a Sua graça.

Conclusão: Se na Anunciação Maria manifesta o seu amor a Deus, na Visitação à sua prima manifesta o seu amor ao próximo. Nestes dois mistérios gozosos e marianos se resume a vida do cristão.

Pe. Jorge Amaro, IMC




15 de abril de 2023

II Mistério: Anunciação do anjo à Virgem Maria

Sem comentários:

"No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de David e o nome da virgem era Maria. Entrando, o anjo disse-lhe: “Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo”. Perturbou-se ela com essas palavras e pôs-se a pensar no que significaria semelhante saudação.

O anjo disse-lhe: “Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai David; e reinará eternamente na casa de Jacob, e o seu reino não terá fim”.

Maria perguntou ao anjo: “Como se fará isso, pois não conheço homem?” Respondeu-lhe o anjo: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso, o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, até ela concebeu um filho na sua velhice; e já está no sexto mês aquela que é tida por estéril, porque a Deus nenhuma coisa é impossível”.  Então disse Maria: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra”. E o anjo afastou-se dela.
" Lucas 1,26-38

Este segundo mistério é conhecido como o primeiro mistério gozoso. Porém, estamos no contexto da pré-história de Jesus de Nazaré, pelo que é um mistério profundamente mariano. O Anjo Gabriel é o arauto da Nova Era que está para começar. Deus vai visitar outra vez o seu povo como o fez no Egito, mas desta vez a libertação é mais espiritual que física e mais abrangente, ou seja, não só para o seu povo, mas para todos os povos. Faz-se realidade o sonho e a profecia de Isaías (25, 6), do banquete para todos os povos em Jerusalém.

Gabriel e a natureza dos anjos
No princípio, Hashem criou três tipos de criaturas, os anjos, as bestas e os seres humanos. Os anjos, criou-os a partir da Sua palavra pura. Os anjos não têm qualquer vontade de fazer o mal. Não podem desviar-se por um só momento dos Seus desígnios. As bestas apenas têm os seus instintos a guiá-las. Também elas seguem o comando do seu criador. A Torah declara que Hashem gastou quase seis dias completos de criação a dar forma a estas criaturas.

Em seguida, imediatamente antes do ocaso, tomou uma pequena quantidade de terra e com ela moldou o homem e a mulher. Uma ideia tardia? Ou o coroar da Sua obra? Então, o que é esta coisa? Homem? Mulher? É um ser com o poder de desobedecer. Só nós entre todas as criaturas temos livre arbítrio. Estamos suspensos entre a clarividência dos anjos e os desejos das bestas. Hashem deu-nos a escolha, que é simultaneamente um privilégio e um fardo. Temos então de nos resignar à vida enredada que vivemos. Anton Lesser: Rav Krushka no filme: Desobediência (2017)

As palavras acima citadas são colocadas na boca de um velho rabino. A teologia hebraica não concede aos anjos liberdade, livre arbítrio, não são livres de escolher o bem nem o mal. Vivem como os animais, para além do bem e do mal. A diferença destes é que não têm desejos porque não têm corpo físico como os animais. Sendo seres puramente espirituais, apenas possuem uma forma de pensamento ao qual foi retirado o livre arbítrio, a diferença do bem e do mal. São uma pura extensão do pensamento de Deus e não podem desviar-se destes pensamentos.

Possuem alguns atributos de Deus, são a companhia de Deus no Céu, relacionam-se com Deus e Deus com eles como o amo com o seu estimado cão ou gato, ou qualquer outro animal de estimação, não sendo, como já dissemos, seres de corpo físico, mas seres de corpo espiritual.

Ao não terem livre arbítrio, os anjos, a história extra-bíblica da génese do demónio ou diabo não faz qualquer sentido. Nunca houve um anjo que desobedecesse aos planos de Deus, porque os anjos, extensão do pensamento de Deus, vivem subjugados de forma feliz ao seu criador, como um animal de estimação ao seu dono, sem capacidade para divergir, discernir, escolher ou dizer que não. Portanto, Gabriel, mensageiro de Deus, apresenta-se com uma mensagem que ele não pode mudar dirigida a Maria, ser humano, que tem poder para de dizer que sim ou não aos planos de Deus.

Uma virgem dará à Luz…
“Pede ao Senhor, teu Deus, um sinal, seja do fundo da habitação dos mortos, seja lá do alto”. Acaz respondeu: “De maneira alguma! Não quero pôr o Senhor à prova”. Isaías respondeu: “Ouvi, casa de David: Não vos basta fatigar a paciência dos homens? Pretendeis cansar também o meu Deus?" O próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará ‘Deus Emanuel Deus connosco. Isaías 7, 11-14

Contexto original da profecia
No século VIII A.C, o Reino de Judá estava prestes a ser invadido pelo reino do Norte (Israel) e pela Síria, para forçarem Acaz, rei de Judá, a entrar em aliança com estes dois reinos contra a poderosa Assíria.  

Em Isaías 7:10-12, Deus, por intermédio do profeta, exorta o rei Acaz a pedir a Deus um sinal. Este, temendo que a vontade de Deus fosse diferente da sua, pois já tinha pensado forjar uma aliança com a poderosa Assíria, recusa pedir um sinal a Deus, citando Deuteronómio 6:16 como desculpa.

Deus, por sua livre iniciativa, dá o sinal na mesma, mas o destinatário já não é a pessoa individual do rei Acaz, mas a dinastia à qual ele pertence, a casa de David. Prova disso é que esta dinastia é mencionada no versículo 13, o que significa que o “vos” do versículo seguinte, o 14, não se refere ao rei como pessoa, mas à dinastia à qual ele pertence, a casa de David. O termo hebraico, "lakem", traduzido "para ti" está na forma plural e designa, portanto, sinal que é "dado a ti, mas não se refere a ti, ou seja, não será cumprido no teu reinado, mas muito mais tarde".

Tentando interpretar “Vos” como referindo-se à pessoa do rei Acaz, alguns rabinos afirmaram que este personagem, o Emanuel, era Ezequias, filho do próprio rei Acaz. Porém, feitas bem as contas usando os reinados dos reinos vizinhos contemporâneos, quando a profecia foi anunciada já Ezequias tinha entre 12 a 14 anos de idade.

As profecias não têm data de realização e também não têm um rótulo onde esteja estipulada a data de caducidade. Trata-se da Palavra de Deus que é eterna e que pode ser anunciada muito longe da sua realização. Isto mesmo se subentende no carácter enigmático e insólito da profecia, assim como na ambiguidade do termo “virgem”.

O termo “Virgem”
A língua grega traduziu “almah” que em hebreu significa donzela (uma moça jovem) por “párthenos” que significa “Virgem”. Na cultura hebraica, a virgindade não é um valor e, se o é, está ao serviço da maternidade. Porém, é correto usar o termo “virgem” como sendo o que melhor se adequa à mensagem que o profeta quer transmitir.

Ou seja, se é um sinal divino, deve ser necessariamente extraordinário; ora que uma donzela dê à luz, não tem nada de extraordinário; é, sempre foi e será normal e rotineiro. Por outro lado, o que vai nascer não é uma pessoa humana qualquer, mas sim o Emanuel, ou seja, uma pessoa por intermédio da qual Deus está connosco. Por fim, o texto fala e só menciona a mãe do Emanuel, não o Pai, pelo que se assume que seja o próprio Deus.

Conclusão: O anjo do Senhor anunciou a Maria que ela era a depositária e o cumprimento da promessa que Deus fez a Acaz oito séculos antes, pela boca do profeta Isaías (7:14) Uma virgem conceberá e dará à luz um filho que terá por nome Emmanuel, Deus connosco.

Pe. Jorge Amaro, IMC






















1 de abril de 2023

I Mistério: Imaculada Conceição e nascimento da Virgem Maria - 2ª Parte

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Na Inglaterra e na Normandia, no século XI, aconteceu uma festa da conceição de Maria e nessa festa foi celebrado o facto milagroso de que Ana era estéril e deu à luz. Sto. Anselmo tinha dito que foi preservada do pecado. Em 1439, no Concílio de Basileia, este mistério foi considerado uma verdade da fé e Pio IX proclamou o dogma em 1854.

Origem do pecado e pecado original

Deus criou o homem à sua imagem e semelhança; com o pecado perdemos a semelhança com Deus, mas mantivemos ainda a sua imagem. Já não somos como Deus nos criou; o pecado dos nossos pais alastrou-se no espaço e no tempo, alterando profundamente a natureza humana. O homem construiu o seu próprio inferno, tipificado nas cidades de Sodoma e Gomorra. O dilúvio – destruir tudo e começar de novo – com a família de Noé, foi o primeiro plano para salvar a espécie humana. Mas a descendência de Noé depressa voltou ao pecado dos seus antepassados.

Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que ficaram embotados. (Jeremias 31, 29) Sem conhecer as leis da hereditariedade de Mendel, os hebreus tinham consciência de que certos males passavam de pais para filhos. De facto, o pecado de Adão e Eva corrompeu-os, não só a nível existencial como pessoas, mas também a nível genético, pelo que as consequências seriam sofridas por toda a espécie humana.

Quando Adão pecou, o pecado transmitiu-se a toda a raça humana e trouxe, como consequência, a morte a todos; e todos foram contados como pecadores. Romanos 5, 12

O pecado original causou uma mutação genética nos nossos genes e transformou-se num cancro, numa doença hereditária determinística, ou seja, é impossível que quem tenha nascido de homem e mulher não a tenha. O mal transformou-se assim numa segunda natureza que está já presente desde o momento da nossa conceção.

Os pais não ensinam as crianças a mentir nem a roubar, no entanto, passados uns anos de boa e excelente educação, tanto no exemplo como nas palavras, os pais apanham os seus queridos meninos a roubar uns tostões das suas carteiras ou a mentir descaradamente. O mal não necessita ser aprendido, estamos naturalmente inclinados para o mal. O próprio Cristo reconheceu esta natureza caída do ser humano quando disse:

Não há nada exterior ao homem que ao entrar nele o torne impuro; antes o que sai dele é que o torna impuro. (…) O que sai do homem é que o torna impuro. Porque do seu íntimo, do seu coração, vêm os maus pensamentos, imoralidades sexuais, roubos, homicídios, adultérios, cobiça, maldades, engano, indecências, inveja, calúnia, orgulho e coisas insensatas. Todas essas coisas más procedem do íntimo da pessoa; são elas que tornam o homem impuro. Marcos 7:15, 20-23

Usurpação do critério do bem e do mal
A pseudo-emancipação do homem, o querer ser como Deus, o ter usurpado a Deus a prerrogativa do bem e do mal, foi a origem do pecado ou pecado original que foi passando de geração em geração, pois modificou o ADN da espécie humana. O mal instalou-se dentro da espécie humana de tal forma que, como dizia Jesus em Mateus 15, 11, “Não é aquilo que entra pela boca que torna o homem impuro; o que sai da boca é que torna o homem impuro”. Não é, portanto, a má educação que leva o homem a ser mau; a maldade já está no seu interior.

Enquanto o critério do bem e do mal estava no centro do jardim do Éden, e pertencia exclusivamente a Deus, a terra era o Reino de Deus; havia paz, união, consenso, pois todos se submetiam a um critério único. Quando o Homem, querendo ser como Deus, se colocou no centro, roubando a prerrogativa do bem e do mal, instalou-se a divisão, a guerra, a subjetividade, a arbitrariedade, o relativismo, a divisão, a discórdia. Todos os indivíduos querem o centro. Não pode haver dois centros, se eu tenho o critério do bem e do mal, tu não o tens ou eu não to reconheço.

Ninguém faz o mal pensando que está a fazer o mal; ao matar 5 milhões de judeus, Hitler pensava que estava a fazer um favor à humanidade; os bombistas suicidas que se matam e que matam pessoas inocentes, dizem que estão a sacrificar-se por um bem maior; os extremistas muçulmanos matam em nome de Deus….

Somos maçãs com bicho
Os pais que se esmeram na educação dos seus filhos ficam admirados quando estes começam a mentir, a roubar e a fazer outras travessuras que eles nunca lhes ensinaram. O mal está dentro de nós e não precisa de ser aprendido. Como diria o psicólogo Jung, o mal pertence ao inconsciente coletivo da humanidade. Cada ato malvado que um indivíduo leva a cabo, instala-se nesse coeficiente coletivo, de tal forma que os indivíduos que nascem depois, nascem com a capacidade de voltar a realizá-lo sem precisarem de nenhuma aprendizagem.

Muita gente ao ver uma maçã com um buraquinho pensa que o buraquinho foi feito pelo bicho, ao entrar na maçã, mas o que acontece é o contrário: foi feito pelo bicho ao sair da maçã. O bicho nasceu de um ovo que um inseto depositou na maçã durante a floração. Todos nós somos maçãs com bicho: o mal está dentro de nós e só precisa de uma determinada circunstância para se revelar.

Não é, portanto, como diz o provérbio “A situação faz o ladrão”. Todos, tarde ou cedo, são confrontados com situações em que podem roubar; à partida, todos somos capazes de roubar. Roubar ou não roubar vai depender do grau de educação, em valores humanos, que temos no momento da tentação. Só esse grau de educação em valores humanos pode contrariar a tendência inata em todos.

De Eva a Avé
Duas são as razões pelas quais Deus veio até nós em forma humana: a primeira para nos dizer, de uma forma definitiva, como é Deus, a segunda para nos dizer como é o ser humano e como deve ser. Cristo é de facto a medida do ser humano, o padrão de referência da humanidade, aquele em relação ao qual todos os indivíduos devem medir-se, pois Ele é a norma, Ele é o modelo, o paradigma. Cristo é o homem que Deus criou em Adão, antes de este ter desobedecido. De facto, Jesus mostra, pelas palavras e pelas obras, que se mantém, toda a sua vida, obediente a Deus.

Como Cristo é o segundo Adão, Maria é a segunda Eva. Avé é, de facto, Eva ao contrário. Cristo, o filho de Deus altíssimo, não podia ter como mãe Eva, depois do pecado; por isso, no momento da sua conceição, no momento em que meia célula de Joaquim se uniu à meia célula de Ana, sua esposa, Deus atuou, evitando que os genes que, desde o pecado de Adão e Eva tinham passado de geração em geração, passassem também para Maria. Maria foi concebida sem pecado original, por ter sido destinada a ser a mãe do filho de Deus. Não faz sentido que Deus encarnasse na natureza humana que Adão e Eva modificaram com o pecado. Por isso, Maria que ia a ser a mãe do Senhor foi preservada desta herança negativa, comum a todos os mortais.

Na Etiópia, não existe a figura negativa da madrasta. Muitas vezes, uma é a mãe biológica e outra é a mãe que cria e educa. Chama-se a “Ingera enat” ou seja, mãe do pão. Quando estudava teologia, tinha um colega que à sua tia biológica chamava mãe e à sua mãe biológica chamava tia. O meu colega tinha sido rejeitado pela sua mãe biológica e acolhido pela irmã desta que o criou. Era tanto o amor que tinham um pelo outro que, estando ela já doente, em fase terminal de cancro, não faleceu enquanto não viu o seu filho (biologicamente sobrinho) ordenado sacerdote.

Eva é a mãe biológica de todos os viventes; Maria é a nossa mãe de pão, desse pão eucarístico que é o seu filho nascido numa cidade chamada Belém, que literalmente significa casa de pão e que ela depositou numa manjedoura, recipiente onde se come, para que nós nos alimentássemos dele.

Eva é a nossa progenitora, mas abandonou-nos à nossa sorte; Maria é aquela que provê às nossas necessidades quando em Caná diz “Não têm vinho” João 2, 2.

Eva é a que nos ensinou a fazer o mal; Ave ou Maria é a que nos educa e ensina a fazer o bem ao apontar para o seu filho e dizer “fazei o que ele vos disser” João 2, 5.

Natividade de Maria
Não podemos reconhecer as bênçãos que nos trouxe Jesus, sem reconhecer ao mesmo tempo quão imensamente Deus honrou e enriqueceu Maria, ao escolhê-la para Mãe de Deus. (João Calvino," Comm. Sur l‟Harm. Evang.",20)

Nove meses depois da Imaculada Conceição da Virgem Maria, a Igreja celebra a natividade de Nossa Senhora, no dia 8 de setembro. Num contexto bíblico de tantos nascimentos nas mesmas circunstâncias, desde Isaac, Samuel, Sansão etc., segundo reza a tradição, Maria nasceu de pais de avançada idade e estéreis, de nome Joaquim e Ana. Como resposta à sua perseverança e constância na oração, estes pais foram agraciados por Deus com o dom de terem uma menina.

Há quem os coloque residentes em Nazaré, porém a tradição mais fidedigna coloca-os em Jerusalém, ao lado da piscina de Betesda, onde os peregrinos se purificavam antes de entrar no templo e onde hoje se ergue a Basílica de Santa Ana, muito perto de uma das entradas principais do Templo e da atual Porta dos Leões na muralha da cidade velha, no quarteirão muçulmano da cidade de Jerusalém.

A menina recebeu o nome de Miriam que significa vidente, senhora soberana. Era muito provavelmente um nome egípcio pois, como sabemos, Miriam era o nome da irmã de Moisés. Há quem pense que deriva do nome sânscrito Maryá e que literalmente significa pureza, virtude, virgindade; a tradução latina é Maria. Tal como Samuel, foi também ela oferecida ao Templo de Jerusalém aos três anos, tendo lá permanecido até aos doze anos, data em que foi dada em casamento a José.

Como sabemos, os evangelhos canónicos nada nos dizem sobre o nascimento de Maria. A base da tradição, porém, é bastante antiga, pois provém de um escrito apócrifo do século II, o Protoevangelho de Tiago, escrito por volta do ano 150.

Conclusão
Eva é a nossa progenitora, porque foi ela que nos deu à luz; Maria é a nossa mãe, pois é ela que provê as nossas necessidades como nas bodas de Caná, e é ela que nos educa quando nessas mesmas bodas nos diz, “fazei tudo o que Ele vos disser”. Por fim, é ela que roga por nós em todos os momentos da nossa vida e na hora da nossa morte. Ámen.

Pe. Jorge Amaro, IMC













15 de março de 2023

I Mistério: Imaculada Conceição e nascimento da Virgem Maria (1ª Parte)

1 comentário:

Maria é a nova Eva, como Cristo é o novo Adão, ou seja, o homem e a mulher como Deus os concebeu antes do pecado. O pecado não faz parte da natureza originária do ser humano. Por isso, quando Deus Pai pensou em enviar o Seu Filho ao mundo, não podia nascer da natureza pecaminosamente modificada do homem, mas da natureza original em que Ele o criou. A Imaculada Conceição da Virgem Maria é também o princípio da redenção de Maria, como o é para nós.

"Solus Christus sola fede sola scritura"
Esta é uma das frases lapidares de Lutero, cujo intuito é negar o valor da tradição, valorizando só a fé do individuo abstraído da comunidade cristã, e a Bíblia como palavra de Deus. Esta afirmação é uma falácia e é totalmente falsa: primeiro, é hipócrita, porque o mesmo Lutero, nos seus escritos, aceitou todos os dogmas que a tradição definiu, a identidade de Cristo como verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus, a Trindade em que Deus é uno e Trino, assim como todos os dogmas marianos. Os dogmas ou definições de fé são o resultado de séculos de reflexão da Igreja, ou seja, têm origem na tradição.

Mas até a Bíblia é filha da tradição. Primeiro, existiu a Igreja e só depois a Bíblia, no que se refere ao Novo Testamento. Cristo não escreveu nada a não ser na areia quando lhe trouxeram a mulher apanhada em ato de adultério; sobre Ele durante a sua vida, só Pilatos escreveu a causa da sua condenação, colocada no cimo da sua cruz. Os apóstolos, os 12, nenhum deles escreveu coisa alguma, apenas se dedicaram a pregar depois da Ressurreição de Cristo. Foi a Igreja, quando já estava bem constituída, na segunda geração depois da geração apostólica, que deu à luz as escrituras.

Primeiro, surgiram as cartas de Paulo que eram mesmo cartas, pois no envelope, digamos assim, tinham a Paulo como remetente e, de facto, ele começava as mesmas apresentando-se. No lugar do endereço estava a comunidade cristã de alguma cidade, a de Roma na carta aos romanos, a de Filipo na carta aos Filipenses, a de Tessalónica na carta aos Tessalonicenses, a de Éfeso nas cartas aos Efésios, ou pessoas concretas como Tito e Timóteo; ou mesmo outras comunidades, como a carta anónima aos Hebreus, etc.

Os evangelhos surgiram mais tarde, cada um deles escrito por um autor diferente com o objetivo de apresentar os factos de Jesus de Nazaré a um povo diferente. Marcos, o primeiro, escreveu o seu evangelho em Roma para os Romanos; para o efeito, inspirou-se na pregação de Pedro. Mateus, um judeu que usou o nome do apóstolo Mateus, talvez porque se inspirou na sua pregação, escreveu para os judeus. Lucas, um grego doutor em medicina, discípulo de Paulo, inspirou-se na sua pregação para escrever para os gregos. João é mais uma reflexão histórica que um narrar dos factos, e não tem em vista nenhum povo em particular.

Até a expressão “Solus Christus” é uma falácia porque não temos um Cristo puro sem a tradição. Temos um Cristo de João, outro de Marcos, outro de Lucas e outro de Mateus. O verdadeiro Cristo é uma soma de todos eles, mas nem sobre a figura de Cristo podemos colocar de lado a tradição da Igreja. Tradição e Bíblia na Igreja católica entrecruzam-se como as duas espirais do ADN. A tradição dá à luz a Bíblia, mas esta depois inspira a tradição subsequente ao longo da História, pois a tradição é modificável, a Bíblia não.

A Bíblia, uma vez fechado o cânone, é a essência; a tradição são os acidentes. A Bíblia é fixa, a tradição mutável. A tradição é uma atualização da Bíblia ao longo dos tempos.

Semelhança com as emendas à Constituição dos Estados Unidos – Muitos países, verificando que a sua Constituição ficou desatualizada, fazem uma revisão da mesma ou escrevem uma nova. Isso não acontece nos Estados Unidos, país com uma Constituição imutável como se fosse o Evangelho e que não pode ser redigida de novo ou modificada, o que causa grave problemas, como por exemplo a autorização para o porte de armas de fogo.

Mas, como também nos Estados Unidos a realidade vai mudando, vão surgindo emendas ou “amendments” à Constituição que, para serem válidas têm de ser redigidas à luz daquela, mas são uma interpretação ou atualização da mesma ou ainda uma adaptação desta aos tempos modernos.

Semelhança com o dinossauro – Nunca ninguém viu um dinossauro ao vivo, pois enquanto eles por aqui andaram a raça humana ainda não existia. Porém, sabemos da sua existência porque aqui e ali foram encontrados ossos deste enorme réptil. Começámos a juntar estes ossos e a colocá-los hipoteticamente naquele que devia ser o seu lugar no corpo deste animal e, tal como num puzzle, chegámos ao resultado final; depois, foi uma questão de revestir os ossos com carne e pele, para obter uma reconstrução exacta de como eles eram.

Nunca foram encontrados num só local todos os ossos que constituem o corpo deste animal. Nos espaços vazios, foram colocados ossos artificiais. É certo que os ossos adicionados não são reais, como a tradição não é a escritura; mas estão na sequência das escrituras e concordam e harmonizam-se com elas. Os dogmas da identidade de Cristo, de Maria, de Deus uno e Trino são como os ossos que faltam no corpo do dinossauro, mas que podem deduzir-se logicamente dos outros ossos presentes.

Imaculada Conceição de Maria
É uma doce e piedosa crença esta que diz que a alma de Maria não possuía pecado original; esta de que, quando ela recebeu a sua alma, ela também foi purificada do pecado original e adornada com os dons de Deus, recebendo de Deus uma alma pura. Assim, desde o primeiro momento de sua vida, ela estava livre de todo o pecado.  (Martinho Lutero, Sermão sobre o Dia da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, 1527)

Os grandes reformadores protestantes, Lutero, Calvino e Zuínglio, aceitam todos os dogmas marianos. A indiferença, o desprezo e o quase ódio por Maria que certos protestantes manifestam nos dias de hoje, não provêm dos reformadores, mas de fanáticos posteriores a eles.

A Imaculada Conceição da Virgem Maria, solenidade que a Igreja celebra no dia 8 de dezembro, já perto do Natal do Senhor, é uma outra forma de começar de novo. É a substituição do dilúvio que destruía o antigo, o pecado, para começar de novo. Em Maria, Deus desistiu da destruição do mundo. Por isso, Maria é um “dilúvio não destruidor” porque, pouco a pouco, com o Reino do seu filho, vai inundar o mundo da Graça divina que mata o pecado. Maria é, portanto, a nova arca de Noé que salva a humanidade do pecado, porque contém este Salvador que é Cristo, seu filho.

Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho… Hebreus 1, 1-2

Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher… Gálatas 4,4

Maria não é o começo da história da Salvação: esta começou com Abraão e foi continuada de geração em geração por profetas, juízes, reis e outros líderes do povo escolhido. Maria é o culminar desta história, é, como refere acima o autor da carta aos Hebreus, os últimos dias ou, como diz S. Paulo, a plenitude do tempo.

A história da Salvação trata de pessoas que vão passando de geração em geração o germe do Bem, no meio de um mundo que vive a história do Mal. Porém, este germe do bem convive na mesma pessoa com o mal. Os que eram portadores do germe do Bem ou do testemunho do Bem nesta corrida de estafetas, não eram pessoas perfeitas, como sabemos pela Bíblia, onde os seus defeitos e pecados estão bem documentados, desde Abraão, Moisés, David a tantos outros que eram, como diria mais tarde Sto. Agostinho ao definir o Homem, “simul justus et peccator”, ao mesmo tempo justos e pecadores.

Maria é o último elo desta cadeia do Bem. Através de Maria, Deus fez os últimos retoques para eliminar todo o vestígio do mal na preparação da Encarnação do Seu Filho. É lógico que se Deus ia assumir a natureza humana para falar aos homens, não ia assumir a natureza humana caída em pecado, não ia assumir a natureza humana decadente de pecado dos nossos pais, mas sim a natureza humana que Ele tinha criado no princípio. Ou seja, ia assumir a natureza de Adão e Eva antes do pecado. Por isso se diz que Maria é a nova Eva e Cristo o novo Adão.

No momento em que o material genético da meia célula de Joaquim se uniu ao material genético da meia célula de Ana para formar um novo código genético, o ADN de Maria, Deus interveio na engenharia genética e substituiu os genes estragados ou corrompidos pelo pecado que vinham de geração em geração desde Adão e Eva, pelos novos genes, aqueles que o próprio Adão e Eva possuíam antes de arruinarem a natureza humana pelo pecado. Por outras palavras, substituiu as peças estragadas pelas peças originais.

Quando o Anjo Gabriel visita Maria, reconhece nela a nova Eva, ao pronunciar este mesmo nome ao contrário como saudação (Eva/Ave), Maria é obra da engenharia genética de Deus, Maria é a recriação de Deus em virtude da sua direta e intencional intervenção na História da humanidade. Porque Maria, em comunhão com o mesmo Deus, vai gerar, produzir a vacina contra o pecado que é Cristo Seu Filho. Maria não é apenas o início da Salvação para o mundo; na sua Imaculada Conceição, como preparação para a vinda de Jesus, ela é a primeira a ser salva.

Assim como Moisés ergueu a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do Homem seja erguido ao alto, a fim de que todo o que nele crê tenha a vida eterna. João 3, 14-15

O filho de Maria é o que vai substituir a serpente erguida no deserto por Moisés, o salvador do povo judeu, para curar a todos da mordida da antiga serpente que envenenou Eva, Adão e os seus descendentes de geração em geração.

Conclusão
Se Cristo é em tudo igual a nós exceto no pecado, tem de ser filho de uma mulher que foi, por especial privilégio, também ela em tudo igual a nós exceto no pecado, ou seja, foi criada à imagem e semelhança de Deus. Maria é a segunda Eva, a Eva que não pecou e que nunca perdeu a semelhança com Deus.

Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de março de 2023

Mistérios Marianos do Rosário

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Porquê mistérios marianos? Porque os mistérios marianos fazem parte da vida de Jesus tanto como os gozosos, os luminosos, os dolorosos e os gloriosos. A vida de Maria está ligada à vida de Jesus, não se pode explicar ou escrever uma história biográfica de Jesus sem mencionar Maria, como os protestantes pretenderiam. Ela esteve na origem de Jesus, na sua vida pública, na sua morte e ressurreição, na vinda do Espírito Santo, no início da Igreja. Ela existiu antes e depois do verbo incarnado.

Os mistérios marianos são acerca de Maria na sua relação com Jesus. Seguem de perto a Jesus, são acerca do papel de Maria na história da salvação do seu filho. São acerca de Jesus pela ótica ou perspetiva de Maria. Tenho uma irmã que durante anos manteve um diário acerca das vivências com o seu filho, desde a sua conceção até à idade adulta. Os mistérios marianos são o diário de Maria, são aquilo que silenciosa e secretamente Maria guardava no seu coração.  (Lucas 2,16-21)

Não pretendo com isto dizer indiretamente que Maria seja corredentora, dogma que papa João Paulo II contemplou instituir, mas não o fez. Maria está ao serviço da história de salvação apesar de o seu papel ser o mais importante que o de qualquer um dos 12, pois ela foi e é mediadora de todas as graças e, portanto, da graça principal que é a vinda de Cristo ao mundo. Isto, porém, não faz dela corredentora ao lado do seu Filho. Ela própria foi redimida só que a sua redenção começou antes, na sua Imaculada Conceição. Se foi redimida não pode ser redentora.  

Apesar do seu papel importantíssimo na história da salvação, Maria não foi imprescindível nem o é agora. Se ela tivesse dito não ao anjo, Deus teria pensado noutra pessoa ou noutra forma de encarnar na humanidade, pois a Ele nada é impossível, como o mesmo anjo disse a Maria. Imprescindível na história da humanidade foi e é só uma pessoa: Jesus de Nazaré.

Aos que se riem de mim ou me questionam sobre quem sou para criar estes mistérios, “não és o papa nem nenhum bispo”, eu respondo que o Espírito Santo é democrático, não respeita as hierarquias eclesiásticas, sopra onde quer e sobre quem quer (João 3, 8). Os direitos de autor do Espírito Santo não pertencem a ninguém. Muito bem tem vindo à Igreja por intermédio de leigos e muito mal tem vindo à Igreja por meio de papas e clérigos.

Os 12 Mistérios Marianos
Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar à luz. Depois apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão vermelho, com sete cabeças e dez chifres, e nas cabeças sete coroas.

Varria com sua cauda uma terça parte das estrelas do céu, e as atirou à terra. Esse Dragão deteve-se diante da Mulher que estava para dar à luz, a fim de que, quando ela desse à luz, lhe devorasse o filho. Ela deu à luz um Filho, um menino, aquele que deve reger todas as nações pagãs com cetro de ferro. Mas seu Filho foi arrebatado para junto de Deus e do seu trono
. Apocalipse, 12, 1-5

Já temos mistérios no santo Rosário que são pura e tecnicamente marianos, os primeiros três gozosos e os últimos dois gloriosos. De facto, a primeira vez que me vieram à ideia os mistérios marianos, eram precisamente estes cinco, para serem usados em dia de sábado, dia especialmente consagrado à nossa Mãe celestial. Mais tarde pensei ainda em sete por ser um número perfeito na Bíblia e, por fim, em 12 inspirado na mulher do livro do Apocalipse.

As dozes estrelas na coroa de Maria representam as 12 tribos de Israel, os 12 apóstolos, o novo Israel, a Igreja, os 12 contributos para a história da redenção de Jesus Cristo, seu filho segundo a carne. Maria está coroada com estas dozes estrelas, doze atributos, doze joias da redenção da humanidade.

Quais são estes doze mistérios:

1. Contemplamos a Imaculada Conceição e o Nascimento da Virgem Maria.
Maria é a nova Eva, como Cristo é o novo Adão, ou seja, o homem e a mulher como Deus os concebeu antes do pecado. O pecado não faz parte da natureza originária do ser humano. Por isso, quando Deus Pai pensou em enviar o seu Filho ao mundo, Ele não podia nascer da natureza pecaminosamente modificada do homem, mas da natureza original em que Ele o criou. A Imaculada Conceição da Virgem Maria é também o princípio da redenção de Maria, como o é para nós.

2. Contemplamos a Anunciação do Anjo à Santíssima Virgem Maria.
Comum com o primeiro gozoso, mas que, como dissemos, é puramente mariano. O Anjo Gabriel é o arauto da Nova Era que está para começar. Deus vai visitar outra vez o seu povo, como o fez no Egito, mas desta vez a libertação é mais espiritual que física e mais abrangente, ou seja, não só para o seu povo, mas para todos os povos. Faz-se realidade o sonho e profecia de Isaías.

3. Contemplamos a Visita da Virgem Maria.
De estar com Deus e consigo mesmo, a estar com o próximo, esta é a vida do cristão que Maria exemplifica muito bem na sua vida. Mal ouviu que a sua prima necessitava da sua ajuda, levantou-se e deixou a sua agradável contemplação do divino, a sua paz e quietude, para se ocupar das necessidades dos outros. Desde que Maria visitou a sua prima ainda não parou de nos visitar sempre que estamos em necessidade: Guadalupe, Lourdes, Fátima e tantas outras, são a prova de que Maria sabe das nossas vidas e do que necessitamos em tempo oportuno.

4. Contemplamos Maria dando à Luz Jesus.
O Mistério Gozoso fala do nascimento de Jesus, esquecendo-se de quem o deu à luz. Contemplar o nascimento de Jesus sem contemplar aquela que O deu à luz é, para mim, uma formulação um tanto ou quanto protestante deste mistério. Até porque a protagonista do Natal é Maria, não Jesus, do ponto de vista gramatical: Jesus é dado à luz, Maria dá à luz.

5. Contemplamos a Profecia de Simeão sobre Maria.
À exceção de “Uma virgem conceberá e dará à luz um filho” (Isaías 7,14), todas as profecias são sobre Jesus. O profeta Simeão profetiza sobre Jesus, mas também sobre a sua mãe. A vinda de Jesus ao mundo teve um preço e parte desse preço foi pago pela sua mãe que sofreu por Ele, desde a conceção do seu filho até à sua morte.

6. Contemplamos a vida da Sagrada Família.
A segunda pessoa da Santíssima Trindade fazia já parte de uma família no Céu; na Terra também é parte de uma família: Maria, o próprio Jesus e o seu pai adotivo José. O ser humano é um ser social porque é um ser familiar; fora da família, não há vida humana. A família divina da Santíssima Trindade é certamente modelo para a humanidade, mas fica muito longe de nós. Em Jesus, a Santíssima Trindade estabelece no mundo uma família para ser modelo de amor e harmonia para as nossas famílias.

7. Contemplamos a Mediação de Maria no casamento de Caná da Galileia.
Maria lança o Seu filho para a vida, não o retém para si, como muitas mães fazem. Lança-O para a sua vida pública quando Jesus pensava começar mais tarde. Jesus cede ao pedido da sua mãe como sempre cede a qualquer pedido. Neste mistério, Maria converte-se na mediadora de todas as graças concedidas pelo seu filho, ela que era já a mediadora da salvação, pois por ela nos veio o salvador.

8. Contemplamos a Maternidade e o discipulado de Maria.
Maria é mãe por que é discípula, ela ouviu a palavra e colocou-a em prática. Também nós, segundo o evangelho, podemos ser família íntima de Jesus, irmãos, se como ela ouvirmos a palavra e a colocarmos em prática.

9. Contemplamos Maria que se torna nossa mãe aos pés da cruz do seu filho.
Jesus sempre se preocupou pela sua mãe e, no término da sua vida, assegurou-se de que ela não fosse como a viúva de Naim, pois nem a viúva de Naim ficou só, sem o seu filho. Por outro lado, Cristo que já nos tinha dado tudo, deu-nos também a sua mãe, para que fosse também nossa para sempre na Terra e no Céu.

10. Contemplamos Maria que se torna na mãe da Igreja em Pentecostes.
Já sendo nossa mãe, Maria como perita em coisas do Espírito Santo, pois por seu intermédio concebeu, transforma-se em mãe da Igreja, mãe dos discípulos de Jesus, formadora em coisas do Espírito Santo, catequista do Espírito Santo, prepara a Igreja para Pentecostes e os discípulos para o seu Crisma.

11. Contemplamos a Dormição e Assunção de Maria.
Este é o penúltimo mistério glorioso que já de si é mariano, pois é exclusivamente de Maria, ainda que seja por Jesus que ela ascende ao Céu em corpo e alma, não por méritos próprios, de alguma maneira.

12. Contemplamos a Coroação de Maria como Rainha do Céu e da Terra.
A rainha-mãe é uma figura querida em todas as monarquias; Santa Helena foi uma rainha-mãe que muito influenciou o seu filho. Se Jesus é Rei do Universo, Maria é também Rainha do Céu e da Terra.

Conclusão
Como os Mistério, Gozosos, Luminosos, Dolorosos e Gloriosos não são só acerca de Jesus, também os Mistérios Marianos não são só acerca de Maria. As vidas de Jesus e de Maria estão entrelaçadas uma na outra como as duas espirais do ADN. Os Mistérios Marianos relatam como a vida de Jesus se repercute na vida de Maria.

Pe. Jorge Amaro, IMC