1 de julho de 2013

Da Fé à Experiência de Deus

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Porque acreditou que bastava tocar no seu manto, ficou curada
À procura da sua identidade, um boneco de sal fez milhares de quilómetros até que se deparou com o mar. Fascinado com algo que nunca tinha visto perguntou:
-    Quem és tu?
-    Sou o mar, respondeu.
-    Não entendo como posso conhecer-te?
-    Aproxima-te toca-me. Assim que o boneco de sal pôs um pé na água logo ficou sem ele.
-    Que fizeste mar cortaste-me o pé!
-    Para me conheceres tens que te implicar, dar algo de ti. E quanto mais te deres mais me conheces e te conheces.
O boneco de sal foi adentrando-se no mar até que uma onda o absorveu e ele apenas teve tempo de dizer o mar sou eu…

 (…) o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram relativamente ao Verbo da Vida, de facto, a Vida manifestou-se; nós vimo-la, dela damos testemunho (…) o que nós vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, 1ª João 1, 1-3. O testemunho pode ser mais ou menos plausível ou credível mas é sempre um testemunho e não uma prova científica; os destinatários, ou seja os que o presenciam, nunca ficarão totalmente convencidos pelo que aceitar, acreditar, ter fé será sempre uma opção, un passo em frente na escuridão.

Depois, e só depois de se ter dado um passo no escuro é que se faz luz, se abre a porta e se começa a ver, a tocar e a sentir, a ter experiencia. Não é portanto “Ver para crer” como popularmente se diz, mas sim “Crer para ver”. Os que vêm já não precisam de acreditar; mas quem acredita, quem se arrisca a ter fé depois de alguma forma tem a experiencia a confirmação de que valeu a pena não foi defraudado.

“Fides Quaerens Intellectum” dizia Sto Anselmo ou “Credo ut intelligam”. A fé precede, motiva e busca o conhecimento e não o contraio. Acredito para poder entender; é fé é a porta de entrada para novos conhecimentos e para uma forma nova de conhecer, quem por opção não dá esse passo está-lhe vetado esse conhecimento. Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos. (Lucas 10,21)

As coisas conhecem-se e depois gosta-se ou não se gosta delas; com as pessoas e com Deus é o oposto, o amor precede o conhecimento: primeiro ama-se só depois se conhece, porque amar é implicar-se com o outro; a mais amor mais conhecimento a mais e vice-versa. Quem quer conhecer sem se dar a conhecer está mal-intencionado. É contra isto que a quadra popular diz: Ninguém descubra o seu peito/ por maior que seja a dor/ porque quem o seu peito descobre/ de si mesmo é traidor.

Quando era pequeno depois de vibrar com as liturgias da semana santa sobretudo com o tríduo pascal, ficava aborrecido com Jesus ressuscitado; achava que ele se deveria manifestar como vivo a Anás e Caifás, a Pilatos e a Herodes e a todos os que gritaram crucifica-o para desmascarar o seu erro. Só mais tarde me dei conta que Jesus só apareceu, só se revelou aos que o amavam a começar pelos que mais o amavam Maria Madalena e os seus discípulos.

A fé é a porta, é o caminho, é o processo que leva a ter uma experiência de Deus e também a ter uma experiencia com os humanos; uma vez chegados a ter essa experiencia não precisamos mais dela. A fé é o foguetão que vencendo a potente força da gravidade, ou seja a razão, nos coloca na orbita de Deus; uma vez em orbita é a força gravitacional Dele que nos move e não precisamos de mais nenhum foguetão.

Naquele dia o mestre limitou-se a dizer: Não faço outra coisa que estar sentado na margem a vender-vos água do rio; vós comprais porque não vedes o rio mas o dia que o virdes já não precisareis de comprar.

A pregação do missionário suscita a fé. Esta coloca-nos no comboio que naturalmente, se não o descarrilarmos, nos leva a um conhecimento de Deus, na pessoa de Cristo, e a manter com Ele uma relação íntima de amor. Uma vez chegados aqui sobram a pregação e a fé. É desta experiência de ter visto e convivido com Cristo morto e ressuscitado que os apóstolos falam, não da sua fé. (1 João 1, 1-4).

Por sua vez Karl Rahner diz que o cristão do futuro ou é um místico ou não é cristão. Não se é cristão por ter ouvido a palavra de Cristo nem sequer por praticar a sua doutrina; é-se cristão quando se vive em íntima união simbiótica com Cristo ao ponto de poder dizer como São Paulo: Já não sou eu que vivo é Cristo que vive em mim. Gálatas 2,20
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de junho de 2013

Fé & Razão

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Se a Razão é a capacidade de ver, compreender e aceitar a verdade material evidente, que é fisicamente observável e que muitas vezes pode ser expressa ou quantificada matematicamente, a fé é a capacidade para ver, compreender e aceitar verdades não materiais, mas não menos evidentes, para além do fisicamente observável, não matematicamente expressável ou quantificável.

A fé e a razão não são dois conceitos opostos e irreconciliáveis, como o sim e o não, o branco e o preto, a mentira e a verdade. Anthony Kenny define a razão como a média entre o cepticismo e a credulidade, ou seja, o equilíbrio ideal entre a crença inadequada e a dúvida inadequada.

Tal como a fé, que para ser humana deve fugir da irracionalidade e ser razoável; a razão deve fugir da pretensão de ser "pau para toda a colher", ou seja, de ser a única via para o conhecimento. Parafraseando Pascal, a fé tem razões que a razão não conhece. Se a fé, sem a razão, é cega, a razão, sem a fé, não é menos cega; as duas são importantes para o conhecimento.

Historicamente ao longo do tempo a razão constitui-se e institui-se em ciência, que é o processo de determinar o comportamento da matéria ou do universo usando a observação, a experimentação e a razão. Historicamente a fé constitui-se e institui-se em religião, que é um sistema organizado de crenças, ideias ou respostas sobre a causa, natureza e finalidade do universo que não são nem podem ser objecto de ciência.

O ateísmo também é uma crença e menos científica
A Religião contém, em si, a fé de que Deus eterno criou a matéria (o universo) — uma crença sobrenatural, não baseada na observação directa, que antecedeu o Big Bang. O Ateísmo contém, em si, a fé de que a matéria (o universo) é eterno e não criado; uma crença sobrenatural que, da mesma forma, não pode ser baseada na observação directa pois o observador, o homem, não existia nessa altura.

A ciência não consegue provar como errada a crença de que Deus antecedeu o Big Bang e está na origem do Universo. Ao contrário a crença ateia, de que o universo sempre existiu e se criou a si mesmo, viola a lei de Einstein da conservação de Matéria/Energia (EMC2), a primeira lei da termodinâmica, segundo a qual a matéria pode ser convertida em energia e vice-versa, mas nem a matéria nem a energia podem criar-se a si mesmas. A crença ateia de que o universo é eterno e sempre existirá viola a segunda lei da termodinâmica, a chamada lei da degradação, segundo a qual a transformação de matéria em energia não é possível sem a deterioração ou desgaste irreversível da primeira; pelo que podemos concluir, cientificamente, que o universo acabará quando tiver gasto toda a sua energia.

Deixando de parte o facto de que um dia não precisaremos de fé pois veremos a Deus face a face; ainda neste mundo, o conhecimento científico pode aumentar e ficar a um passo de provar de uma forma irrefutável a existência de Deus. Ao passo que a fé ateia, num universo não criado e eterno, permanecerá sempre uma crença pois nunca teremos conhecimento científico da origem de um universo eterno não criado, já que nenhuma pessoa existia ou poderia estar presente para observar o início de um universo sem começo.

A fé a e a razão no dia-a-dia
Nem só de religião vive a fé nem só de ciência vive a razão. Fé e razão fazem parte e precisamos delas no nosso dia-a-dia. Praticamente todos os actos contêm um pouco de razão e um pouco de fé. Na nossa vida, a razão analisa, a fé decide; sem a razão decidiríamos prematuramente e faríamos mais erros do que os que já fazemos; sem a fé nunca chegaríamos a decidir, a arriscar uma solução aos nossos problemas, pois sempre pensaríamos que algo pode ter escapado à nossa análise e cairíamos num imobilismo.

Quando aceito um cheque por um serviço prestado acredito que tem cobertura, seria indelicado e poderia perder um amigo se o recusasse. Quando subo a um avião, acredito que os polícias fizeram um bom trabalho no sentido de evitar que alguém colocasse uma bomba na bagagem e acredito que os pilotos estejam bem preparados e intencionados. Quando me sento para comer, num restaurante, confio que a comida esteja em boas condições e não exijo que seja analisada em laboratório antes de a consumir; é a falta de fé e o medo ao envenenamento que faz como que na Etiópia a cozinheira sempre prove a comida à frente dos convidados.

Quando me uno a uma mulher em casamento, acredito que vai dar certo, que será para toda a vida. Quando solicito um empréstimo bancário por mais que o banco analise a minha situação financeira, se eventualmente me concede o crédito pedido é porque tem fé que um dia o devolverei com juros. O cartão de crédito é, ao fim e ao cabo, um cartão de fé, e funciona na base desta; fala-se da fé nos mercados como se fala na fé em Deus. Em suma, a fé não é só a moeda de troca entre nós e Deus mas, é também, a moeda de troca entre nós próprios e os outros.

Como o Homem não é objecto da ciência, na vida do dia-a-dia não há certezas só há probabilidades. Tal como a razão, a fé é essencial nas relações humanas para o entendimento entre as pessoas. É com base na confiança, que as pessoas têm umas pelas outras, que as promessas e os compromissos são feitos e aceites.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de junho de 2013

A Fé como Opção

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Escolhei hoje aquele a quem quereis servir: os deuses a quem vossos pais serviram, do outro lado do rio, ou os deuses dos Amorreus cuja terra ocupastes, porque eu e a minha casa serviremos o Senhor. Josué 24, 15

Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no Filho Unigénito de Deus. E a condenação está nisto: a Luz veio ao mundo, e os homens preferiram as trevas à Luz, porque as suas obras eram más. João 3, 17-19

Dom versus opção
Há dois anos em Loriga, depois da romaria ao cemitério no dia 1 de Novembro e ainda no cemitério, estive à conversa com um conterrâneo que dizia: “…vocês os que acreditam sentem-se consolados pela fé, nós os não crentes não temos esse consolo…”. Mais tarde outra pessoa amiga também me dizia: “…que queres que te faça não consigo acreditar…”.

É frequente referirmo-nos à fé como um dom de Deus. São Paulo diz, é o Espirito que dentro de nós clama Abbá, ó Pai (Rom. 8,15). Jesus diz que foi Ele que nos escolheu e não nós a Ele (João 15, 16). Se a fé é um dom de Deus porque é que uns a têm e outros não? É acaso Deus injusto, que a uns dá a fé e a outros não? Então é a fé um dom ou uma opção, ou é as duas coisas?

Tudo parte de Deus, a iniciativa é dele por isso a fé é dom; mas o dom não tem efeito sem a nossa resposta sem o nosso assentimento, por isso a fé também é opção. Somos salvos gratuitamente pela graça de Deus, por intermédio da fé. A fé é a nossa resposta à graça salvífica de Deus.

Neste sentido a fé é um bilhete de ida e volta; é como uma carta, que Deus nos envia, registada e com aviso de recepção, o qual requer que eu aceite a carta e assine o documento que a acompanha. A fé é como um cheque em branco que Deus assina e me envia; para que este cheque tenha valor, ou me sirva de algo, eu tenho que escrever nele uma quantia de dinheiro.

A salvação é um dom gratuito de Deus, a fé nessa salvação é uma escolha livre do homem. Alguém disse que Deus alimenta as aves do céu, mas não lhes vai colocar a comida no ninho, elas têm de sair para a ir buscar.

Na manhã do Domingo os dois viram o sepulcro vazio, Maria Madalena e o apóstolo João; a primeira viu e pensou que tinham roubado o corpo do Senhor, o segundo viu e acreditou que Jesus tinha ressuscitado dos mortos.

Jesus censura e acusa a falta de fé das pessoas da sua geração (Mateus 17,17, Marcos 6,6, Lucas 24,25) assim como a dos seus discípulos (Marcos 16, 14). Se a fé não fosse uma opção, e fosse só um dom de Deus, não haveria razão para tal censura.

Jesus, amargurado porque os fariseus não quiseram acreditar, nem em João Baptista, nem nele próprio, chora sobre Jerusalém e condena as cidades, onde mais milagres foram feitos e nem assim acreditaram; por fim louva os pequenos e os humildes, porque ao contraio dos sábios, acreditaram e aceitaram a sua mensagem. Mateus 11, 16, 27.

A fé é um Obséquio razoável
Razoável não racional. Se Deus existe é o Criador de tudo e de todos; como criaturas que somos não é lógico que a nossa mente possa abarcar a mente de Deus; que a parte possa compreender o todo. Deus não pode ser nunca objecto da ciência aliás nem o Homem o é. Por outro lado o mistério não envolve só Deus e o Homem é comum a todas as áreas do saber. Nenhuma ciência ou área do saber, pode vangloriar-se de já ter descoberto tudo o que há para conhecer no seu campo; quanto mais se sabe mais se pode saber; por isso o verdadeiro sábio se considera ignorante; Nicolau de Cusa chamava-lhe a douta ignorância: de frente à imensidade do que há para ser conhecido, só sei que nada sei.

Como a define o concílio Vaticano I, a fé é um obséquio razoável; razoável porque, enquanto a vida dos outros seres vivos que connosco habitam este planeta é regulada pelo instinto, nós, descendentes do Homo Sapiens regulamos a nossa pela razão; hoje apesar, ou precisamente por causa, dos avanços da ciência é mais lógico, mais plausível, mais humanamente credível a existência de Deus que a sua não existência.

Para além de ser razoável a fé é também um obséquio porque nunca poderá ser provada, nunca será uma conclusão científica, será sempre um passo no escuro e no vazio, uma decisão. Depois de minimamente satisfeitas as exigências da razão, a fé é uma opção; uns dão o passo para além do que pode ser conhecido; outros não arriscam, excessivamente cautos, esperam que a razão lhes encha as medidas e responda a todas as suas questões o que nunca acontece nem vai acontecer.

(…) O rico insistiu: 'Peço-te, pai Abraão, que envies Lázaro à casa do meu pai, pois tenho cinco irmãos; que os previna, a fim de que não venham também para este lugar de tormento.' Disse-lhe Abraão: 'Têm Moisés e os Profetas; que os oiçam!' Replicou-lhe ele: 'Não, pai Abraão; se algum dos mortos for ter com eles, hão-de arrepender-se.' Abraão respondeu-lhe: 'Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão-pouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos.'» Lucas 16, 27-31

Ninguém pode culpar a Deus por não lhe ter dado o dom da fé. Só não acredita quem é orgulhoso e idolatriza a razão; só não acredita quem não quer dar o passo no desconhecido para além da razão; só não petisca quem não arrisca; só não acredita quem não quer.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de maio de 2013

Do Testemundo à Fé - "Vós sois a Luz do Mundo"

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Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do candelabro, e assim alumia a todos os que estão em casa. Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu. Mateus 5, 14-16

A luz serve para ver – A luz revela a verdade das coisas pois mostra-as tal qual elas são; a sua verdadeira cor, textura e forma. Sem luz, na escuridão, nada se vê, nada tem cor, nada tem forma. O cristão que segue o seu mestre, que é caminho verdade e vida, também se transforma em verdade andante, caminho e vida. O cristão que o é verdadeiramente vive com sentido, é ponto de referência modelo a seguir, dedo apontado para a verdade porque a encarna e vive.

A luz serve para ser visto – Um cego foi convidado para jantar na casa de um amigo; depois do jantar, como era já noite, deu-lhe uma candeia para voltar para sua casa, o cego riu-se em tom de troça: não vês que sou cego para que me serve a candeia? Leva-a, insistiu o amigo. E ele assim fez. Quando, indo pelo caminho, já estava longe da casa alguém foi contra o cego e este, entendendo a razão da candeia, gritou; não viste a minha candeia? Não, não te vi, por isso choquei contigo, mas vejo agora que de facto tens uma candeia, porem está apagada.

Quando há falta de visibilidade, por causa da chuva ou por ser o princípio ou o fim do dia muitos automobilistas não ligam as luzes, porque, dizem eles, ainda conseguem ver; esquecem-se que as luzes também servem para serem vistos. 

Não se acende uma candeia e se a coloca debaixo do alqueire, mas no candelabro, pois assim brilha para todos os que estão na casa. 16Deste modo brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus». Mateus 5, 15-16

Quando, dizendo-nos cristãos, não encarnamos a palavra de Deus, somos uma luz apagada que não além de não mostrar o caminho constitui-se em “pedra de tropeço” que é o significado da palavra escândalo em grego.

A luz expõe o mal – (…) a Luz veio ao mundo, e os homens preferiram as trevas à Luz, porque as suas obras eram más (João 3, 19). Neste sentido, a luz tem a mesma capacidade de denúncia e de anti corrupção que o sal. É no escuro, na calada da noite, em segredo que se fazem os piores males deste mundo. Expor estas injustiças é tarefa do cristão, ainda que difícil e arriscada; se ninguém o faz as trevas infestam toda a sociedade que se transforma numa máfia; “onde não entra o sol entra o medico” diz o povo.

A luz deve brilhar- No diálogo de Jesus com a Samaritana, esta pergunta a Jesus onde se deve adorar a Deus, no templo de Jerusalém ou no monte da Samaria. Jesus responde que Deus se adora em todo lugar, e porque é Espirito, em espirito e verdade se há-de adorar. Sem deixar de frequentar a Sinagoga e o Templo a maior parte do seu ministério desenvolveu-se na rua, na vida. O mesmo aconteceu nos primeiros 5 séculos da Igreja; a Palavra era pregada nas praças públicas ou passada de pessoa a pessoa pelo seu testemunho; a eucaristia era celebrada nas casas das pessoas. O culto estava na vida e a vida estava no culto.

Com a construção de templos, depois do emperador Constantino, o culto e a vida separaram-se. Hoje temos vida sem culto, os que se dizem católicos não praticantes, e culto sem vida, os que praticam a religião mas só na Igreja, cá fora são iguais ou piores que os outros. Hoje a única luz que brilha é a lâmpada do santíssimo, só na Igreja claro.

Brilhe a vossa luz diante dos homens… Estamos chamados a ser a luz do mundo, não a luz do templo; não uma luz que se coloca debaixo do alqueire, mas sim uma luz que está no cimo do monte onde se avista mais mundo. Como alguém dizia: “A Fé ou se apega ou se apaga”; a fé ou se dá ou se perde; a fé só se tem quando se dá.

Cristo é o Sol, nós somos a Lua - Toda a luz vem do Sol. Cristo é o sol das nossas vidas que nos guia, nos ilumina e nos aquece. Nós como discípulos, ou planetas, giramos à sua volta, captando a sua luz que logo, como a lua, reflectimos para iluminar o mundo que anda nas trevas. O cristão é de facto como a lua nas suas diferentes fases:

Quarto Minguante - o que pouco a pouco abandona a oração, a prática dos sacramentos, sobretudo a Eucaristia, vê a sua luz ir perdendo intensidade, arriscando apagar-se por completo.

Lua Nova - O que já colocou de parte a oração, a leitura, a escuta da Palavra de Deus e a prática dos sacramentos, já não é iluminado por Cristo nem ilumina; é um buraco negro, o chamado católico não praticante. Sem a orientação da palavra de Deus o católico facilmente se deixa levar pelas filosofias deste mundo.

Quarto crescente - O que se esforça por encarnar a Palavra de Deus e faz corpo com os outros cristãos, sendo célula do corpo místico de Cristo; cresce como pessoa na fé e na maturidade humana.

Lua Cheia – O que apesar de ter ainda zonas sombrias na sua vida (em referencia às grandes crateras da lua) fundamentalmente vive por Cristo, e como disse São Paulo de si mesmo, “já não sou eu que vivo é Cristo que vive em mim”. A sua vida é um farol para os outros; é um Cristo vivente.

“O amor é como a lua, quando não cresce mingua”. A fé é exactamente a mesma coisa ou aumenta ou diminui, nunca permanece estática porque neste mundo não há nada estático. Sempre se disse que "o que não se usa se atrofia" a fé aumenta quando se usa na vida quando é motor da nossa vida; diminui chegando a atrofiar-se quando na vida do ia a dia não se faz uso dela quando não inspira e motiva actos e gera atitudes.

Quando assim vivemos a nossa fé, damos verdadeiramente testemunho de Cristo, somos sal da terra e luz do mundo e assim fazemos uma evangelização silenciosa pois leva à fé muitos dos que nos vêm e convivem connosco.

Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de maio de 2013

Do Testemunho à Fé: "Vós sois o Sal da terra"

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Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se corromper, com que se há-de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens. Mateus 5, 13

Pertencemos a uma Igreja que padece de verborreia, quando o seu fundador era uma Palavra encarnada. É sintomático que Jesus tenha comparado os seus discípulos com o sal e com a luz, cuja acção se desenvolve no silêncio. Quem entendeu isto foi Francisco de Assis ao afirmar: “Em todo o tempo e lugar prega o evangelho e quando for necessário usa palavras”. O evangelho encarnado faz melhor serviço à evangelização que o evangelho proclamado, porque as obras substituem as palavras; as palavras não só não substituem as obras como são desautorizadas pela ausência destas, ou por obras contrárias às palavras; as obras podem não precisar das palavras, mas as palavras sempre precisam das obras.

Poderíamos descarregar toneladas de bíblias, no centro de um continente bem povoado, que só por elas nem uma só pessoa se converteria ao cristianismo. Também poderíamos pregar aos quatro ventos a Palavra de Deus que pouco mais conseguiríamos, pois, “as palavras leva-as o vento”. A própria Palavra de Deus, depois de ser proferida por tantos profetas, teve de encarnar para se fazer credível.

O cristianismo propaga-se pelo contacto humano, pelo testemunho de vida. “Vede como se amam”, diziam os romanos observando o talento individual e social dos primeiros cristãos. Diz-se que a educação das crianças é aérea; o que é educativo não são tanto os conselhos ou mesmo as obras que os pais fazem ante as crianças, mas o seu comportamento diário e o ambiente que criam no lar; a forma de reagir ante as situações. O mesmo se passa com a evangelização, o que suscita a fé é o testemunho silencioso da nossa vida do dia-a-dia, por essa razão Jesus exortou os seus discípulos a ser sal e luz.

O sal derrete a neve – Nas cidades, em que a neve é uma constante no Inverno, é o sal que permite que as ruas permaneçam abertas ao tráfico. O cristão que é sal ajuda a reestabelecer a comunicação entre pessoas de relações cortadas; é pacifista nos conflitos. Lembremos o embate do Titanic contra um Iceberg, as avalanches de neve que sepultam pessoas vivas; a água em estado sólido está mais ao serviço do mal e da morte que da vida. Só em estado liquido a água é fonte de vida, pois só nesse estado pode ser absorvida pelos seres vivos e fazer parte integrante deles. O sal derrete o gelo, que faz escorregar as pessoas, e mantém a água em estado liquido; o cristão que é sal, desfaz as ratoeiras, as armadilhas, as intrigas e os planos que os malvados tecem para fazer cair os seus semelhantes.

O sal fixa a água no organismo – A água e o sal estão juntos; o mar é o grande reservatório dos dois. Sem sal no nosso organismo depressa nos desidrataríamos; de facto, os saquinhos de sais de reidratação eram a primeira coisa que dávamos em África a pessoas que facilmente se desidratavam, com as altas febres que a malaria ocasiona. Tal como a água é o princípio da vida física, a água do Baptismo é o princípio da vida cristã; o cristão que é sal permanece fiel às promessas do Baptismo. No antigo ritual do baptismo o sal era usado; com o baptismo formamos parte dos redimidos, dos que possuem a água que jorra até à vida eterna. Sem o sal foge-nos esta água.

O sal conserva e preserva – O sal conserva a carne e o peixe; nos tempos em que não havia refrigeração esta era a forma de evitar a corrupção. O cristão, que é sal, evita a corrupção no tecido social das famílias, instituições, empresas, organizações, governos, clubs etc. Nas instituições onde há cristãos autênticos não há degradação nem corrupção.

No âmbito da biologia quando se abre uma ferida o corpo pode ser invadido por vírus, germes e bactérias prejudiciais à saúde; o sal tem o poder de matar muitos desses agentes nocivos. Analogamente no tecido social, no âmbito das instituições, empresas e clubes, há situações que podem dar aso a que alguém prevarique. Os ladrões não nascem como tal, como diz o povo “A situação faz o ladrão”. A presença de cristãos numa instituição tem o mesmo efeito dissuasor que as penas no sistema judicial.

O sal dá sabor – Tal como o sal dá sabor à comida; assim o cristão dá sentido à vida humana. Só Cristo responde com logica às três perguntas que todo ser humano, que vem a este mundo, se faz. De onde vimos, para onde vamos e que sentido tem a vida: sem Cristo a vida humana não tem sentido, não tem sabor não te objectivo.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de abril de 2013

O Realismo da Ressurreição

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Nós acreditamos e por isso falamos, sabendo que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus, também nos há-de ressuscitar com Jesus, e nos fará comparecer diante dele junto de vós. (…) Por isso, não desfalecemos, e mesmo se, em nós, o homem exterior vai caminhando para a ruína, o homem interior renova-se, dia após dia. (…) Não olhamos para as coisas visíveis, mas para as invisíveis, porque as visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas. 2 Coríntios 4: 14, 16, 18

Antropologia hebraica e antropologia grega
A ideia de que a alma é imortal e está destinada à eternidade e de que o corpo, que esta encarna durante um tempo, é mortal e como tal está destinado a desaparecer, tem que ver com a antropologia dualista grega e nada que ver com o pensamento bíblico.

Na antropologia hebraica e bíblica nem a alma é imortal nem o corpo é mortal. No nosso ser, a dimensão corporal e espiritual formam um todo indivisível. Se durante a nossa vida terrena o corpo tem uma alma que o anima; na nossa vida depois da morte, a alma tem um corpo que lhe dá forma; um corpo que não é físico mas sim espiritual; com a mesma forma, mas não a mesma natureza.

A matéria visível é feita de coisas invisíveis
Sempre demos por suposto que a matéria é visível e o espírito invisível; na realidade não é assim. A Física quântica dos nossos tempos, que destronou para sempre a física mecanicista e materialista de Newton, diz-nos que a realidade visível é constituída por realidades invisíveis. O átomo, considerado como o "tijolo" de construção da matéria, é invisível e é constituído por um electrão sempre em movimento, dentro de uma nebulosa, cujo centro é composto por neutrões e protões; estes por sua vez são constituídos por quarks, que por sua vez são ainda constituídos pela partícula mais elementar descoberta recentemente e apelidada "a partícula de Deus". Com isto podemos concluir que definições simplistas como: a matéria é visível e o espírito é invisível não têm nada que ver com a física dos nossos dias.

A metáfora da água
A água, sem em nenhum momento deixar de ser o que é, existe na natureza em três estados diferentes: sólido, líquido e gasoso. No estado gasoso a água, não perdendo nada do que a caracteriza na sua essência, existe de uma forma intangível e invisível.

Como a água, que sem deixar de ser o que é na sua essência pode existir de uma forma intocável e não visível, assim nós, como pessoas, podemos existir também de uma forma invisível e intangível no nosso corpo espiritual, que substitui o nosso corpo físico depois da morte. O nosso corpo físico é a nossa forma de ser e de estar no tempo e no espaço; o nosso corpo espiritual será a nossa forma de ser e existir para além do tempo e do espaço.

Voltando à nossa analogia, a água em estado sólido e gasoso é como se estivesse no limbo pois está em estado puro. Mas ela só é princípio de vida quando existe em estado líquido, não pura mas, potável. Quando o vapor de água se condensa, em forma de chuva ou de orvalho, penetra na mãe terra, e depois de adquirir um “corpo físico” formado pelos sais minerais que a compõem nasce da terra, por isso se chama "nascente de água".

Os sais minerais são o corpo físico da água, pois a transformam de pura em potável e a fixam no interior de todo organismo vivo. A água pura, sem os sais minerais, não é princípio de vida porque, não conseguindo retê-la em estado puro, com ela, os seres vivos se desidratariam e morreriam.

Quando a água se evapora, larga os sais minerais que eram a sua forma de ser e estar neste mundo e, volta a existir em estado puro. A evaporação da água é como a nossa morte; tal como a água, que não precisa dos sais minerais para ser água, nós não precisamos do nosso corpo físico para ser o que somos, filhos de Deus; não é portanto, o nosso corpo físico que nos identifica ante Deus mas sim o nosso corpo espiritual.
Pe. Jorge Amaro, IMC

31 de março de 2013

Ressureição ou Reencarnação?

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Assim também acontece com a ressurreição dos mortos: semeado corruptível, o corpo é ressuscitado incorruptível; semeado na desonra, é ressuscitado na glória; semeado na fraqueza, é ressuscitado cheio de força; semeado corpo terreno, é ressuscitado corpo espiritual. Se há um corpo terreno, também há um corpo espiritual. 1 Cor 15, 42-44

A reincarnação é um conceito, hinduísta e budista, que a New Age se encarregou de difundir no mundo ocidental cristão. O pensamento frágil, e tantas vezes incongruente, do homem de hoje fascinado com a possibilidade de ter sete vidas, como o gato, assimilou este conceito acriticamente. É frequente encontrar cristãos, que tanto acreditam na ressurreição como na reincarnação, sem se darem conta que os dois conceitos se auto-excluem.

Como tudo, o que é autenticamente humano, a fé sempre escapará à lupa do método científico de conhecimento; o homem não é objecto de ciência. No entanto, para não degradar em pura superstição, a fé tem de estar casada com a razão. A superstição é irracional, a fé, não sendo racional, é pelo menos razoável, plausível, deve fazer sentido. Façamos o teste da razão a ambos os conceitos:

Reencarnação – Como na filosofia grega para os orientais a alma é eterna, existe antes e é independente do corpo que encarna. Num processo ascendente rumo à perfeição, cada vida, cada corpo, que a alma encarna, é uma oportunidade para progredir rumo à perfeição, encarnando sucessivamente em formas de vida superiores e cada vez mais perfeitas. Ao contrário, quando a alma se porta mal regride, ou seja reincarna, na vida seguinte, numa forma inferior de existência que pode até ser um animal, uma vaca por exemplo.

Astronomia – A reincarnação, parece supor que o mundo sempre existiu e sempre existirá; mas a astronomia actual diz que o mundo começou a existir com um Big Bang e deixará um dia de existir, quando o universo tiver gasto toda a sua energia

Demografia – A reincarnação para ser possível supõe um planeta com a mesma população ao longo dos tempos. A demografia diz-nos que o homem começou a habitar neste planeta há 5 milhões de anos; calcula-se que a população mundial no tempo de Jesus fosse de 300 milhões de pessoas, agora somos 7 mil milhões.

Evolução das Espécies – A vida começou com um ser unicelular que se foi diversificando e progredindo, para espécies sempre superiores e mais inteligentes até chegar ao ser humano. A ciência da evolução das espécies não conhece nenhuma regressão. Entre nós e os animais há milhões de anos de evolução que não são reversíveis.

Genética – A combinação dos genes, no código genético de cada ser vivo, é única e irrepetível na história da vida deste planeta; parte da dignidade humana deve-se a este facto. Não faz sentido que uma alma possua um código genético, por cada vida que vive, nem faz sentido que vários corpos da mesma alma possuam um mesmo código genético.

Regressão – Como explicar então certas terapias, que levam a pessoa a regredir e a conhecer o que foi noutra vida e que tipo de pessoa era? Se há alguma verdade neste fenómeno, poderia ser explicado pela noção de “inconsciente colectivo”, proposto por Carl Jung, discípulo de Freud. As pessoas não regrediriam então a outras vidas que tiveram mas sim, pela meditação e técnica de regressão, se conectariam a materiais psíquicos, que não provêm da experiência pessoal, e que se encontram no que Jung chama “inconsciente colectivo”; este é a uma espécie de base de dados, de herança e património de toda a humanidade, que contem tudo o que o ser humano é e fez ao longo da sua Historia.

Ressurreição – Este conceito não deve satisfações ou explicações a nenhuma das ciências descritas, anteriormente, pois não está em conflito com nenhuma delas. No pensamento judeo-cristão a alma não é eterna e está intrinsecamente unida, e para sempre, a um corpo; não existem corpos sem alma, nem almas sem corpos.

Pela Graça de Deus cada ser humano é naturalmente candidato à vida eterna, sendo todo o seu ser, corpo e alma transformado numa forma imortal de existência, o corpo espiritual ou glorioso (1 Cor 15, 42-44). Os que respondem negativamente à graça de Deus, negando-a nas suas vidas e vivendo de costas para Ele, estão, provavelmente, a auto candidatar-se à morte eterna, ou seja, ao regresso ao nada, de onde Deus criou tudo.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de março de 2013

A Morte não existe

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Senhor padre há uma coisa que não entendo; quando eu morrer, o meu corpo vai par a terra, a minha alma vai para o céu e eu? Para onde vou eu?

A morte não deveria preocupar-nos pois nunca coincidiremos; enquanto nós existirmos ela não existirá; quando ela existir não existiremos nós. Karl Marx

Com diz a lei de Lavoisier, na natureza nada se perde tudo se transforma. Em contínuo devir, nada permanece igual. Morte e vida são parte de um mesmo processo, não há vida sem morte nem morte sem vida. A morte não é um estado, em que se possa encontrar um ser vivo, mas sim a passagem de uma forma de vida para outra forma de vida. A morte é o meio, pelo qual a vida se diversifica e progride na evolução das espécies.

Cresce a erva verde dos campos até ao dia em que a gazela a come; a erva não morreu, progrediu e mudou de forma, transformou-se em gazela. A gazela pula e salta pelas ravinas, bebe água nos ribeiros e passeia pelos bosques até ao dia em que é comida pelo leão; ela não morreu, foi absorvida e assumida pelo corpo do leão. O leão como não tem predadores, morre de velho ou nalguma luta de supremacia de machos, os seus restos mortais são comidos pelas hienas e os abutres e o que resta, é comido pelas formigas e vermes que, por sua vez, ao morrer fecundam a terra onde volta a crescer a erva.

Aparentemente, tanto vale a vida como a morte pois nenhuma permanece, ambas se sucedem sucessivamente sem cessar. No entanto, se observarmos mais detalhadamente, damo-nos conta que não é assim. Apesar de serem duas partes ou etapas de um mesmo processo, a vida e a morte não estão em pé de igualdade; pelo contrário a vida está num plano superior porque não existe em função da morte mas a morte sim existe em função da vida. Não é portanto verdade o que diz o filósofo Heidegger: “Somos um ser para a morte”. A erva viveu durante meses antes de morrer; assim mesmo a gazela e o leão viveram durante anos antes de morrer; a morte foi um momento a vida foi anos; a morte foi uma passagem a vida é uma constante, somos portanto um ser para a vida.

O mesmo processo de vida-morte-vida, que acontece entre os seres vivos na cadeia alimentar, acontece no interior de cada ser vivo. O nossos corpo é formado por 100 trilhões de células; cada uma delas comporta-se como se fosse um ser vivo seguindo as regras que regem a vida neste planeta, ou seja, nascem crescem reproduzem-se e morrem (curiosamente só as células cancerígenas se recusam morrer); é desta forma que se explica o crescimento a transformação e envelhecimento do nosso corpo; cada 5 anos possuímos um corpo biologicamente novo.

A maturidade psicológica, que segundo Freud se dá na passagem do princípio do prazer para o princípio da realidade, também implica e supõe a morte. O mesmo, se pode dizer, para a maturidade espiritual: “Quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa há-de salvá-la”. Lucas 9, 24   

Como o leão que não tem predadores, está no topo da sua cadeia alimentar e é o rei da selva, o Homem é o rei da criação. Páscoa significa passagem; a nossa morte ou a nossa Páscoa é semelhante à de Cristo. A passagem de uma forma de vida, espácio-temporal, para uma vida na eternidade de Deus, na qual não seremos apenas uma alma mas, como Cristo, possuiremos um corpo espiritual, um corpo glorioso. Por isso não desfalecemos, pois “Bem sabemos que, quando esta tenda, que é a nossa morada terrestre, for desfeita, recebemos nos Céus uma habitação eterna, construída por Deus e não pelos homens“ (2ª Coríntios 5, 1).
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de março de 2013

O Jejum é para a vida o que o zero é para a matemática

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Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita, (…) Quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo (…) Quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto… Mateus 6, 3, 6, 18

Se orar é a nossa atitude para com Deus, é  dizer-lhe que O amamos sobre todas as coisas, sendo também a mais alta manifestação da nossa liberdade; se Dar esmola é a nossa atitude para com os outros, amando-os como nos amamos a nós mesmos, sendo esta a única garantia de igualdade e de justiça social, para que serve o Jejum?

Tal como o Orar e o Dar esmola, o Jejum também é algo mais que privar-se de alimentos, refere-se à atitude que temos para connosco próprios. Já descrevemos os dois valores sobre os quais assenta a vida humana; a liberdade, na sua dimensão individual e a igualdade, na sua dimensão social.

O jejum é como o zero ao serviço da matemática; foi a invenção do zero que fez possível a matemática, com a numeração romana, onde este não existe, a matemática não seria possível. Analogicamente é o Jejum que faz possível a igualdade e o amor ao próximo, assim como a liberdade e o amor a Deus.

Jejum em sentido lato - Como posso afirmar na minha vida o outro, seja ele Deus ou o meu semelhante, se não me nego a mim mesmo? (Marcos 8, 34) Se não jejuo ao meu egocentrismo e renuncio ao engrandecer e inchar do meu ego privando-me de ter mais? Que vassalagem posso prestar a Deus se me considero senhor de mim mesmo?

Como posso servir a Deus e ser livre se sirvo o dinheiro, (Mateus 6, 24) dei o meu coração às riquezas, ao poder, ao prazer? Se não me possuo, como posso dar-me ao Outro Deus ou ao outro meu semelhante? Como posso amar o próximo, e sentir-me igual a ele, se em vez de o servir, me sirvo dele? E como posso partilhar o que é meu, coisas, tempo e energias, se antes não renuncio a elas? Usando uma expressão muito actual no nosso país em crise, jejuar é cortar na despesa; é cortar na despesa que tenho comigo próprio, tempo, energias e recursos para poder dar e dar-me aos outros.

Jejum em sentido restrito, ou seja privar-se de alimento – O jejum, ou dieta em linguagem médica, está para a saúde da alma como o desporto está para a saúde do corpo. Não fazemos vida do jejum pois não somos monges, nem fazemos vida do desporto pois não somos desportistas; mas a pratica moderada do jejum, potencia tanto a saúde da alma como a prática moderada de desporto potencia a saúde do corpo.

O jejum e o desporto, assim entendidos, estão ao serviço da vida pois nos treinam para ela, concedendo-nos muitos benefícios. O desporto treina o corpo e a mente dando-lhe mais energia e saúde; o jejum, como privar-se de comer ou a abstinência como privar-se de certos alimentos, treinam a alma na arte e capacidade de negar-se a si mesmo, abnegação, autocontrole e força de vontade.

Como, depois do respirar, o alimento é a necessidade mais indispensável que temos, privar-se dele custa muito; por isso mesmo constitui o melhor treino para conseguir jejuar em sentido lato, ou seja, fazer cortes ao EU para afirmar o TU, que é o que verdadeiramente importa.

O jejum faz a pessoa animicamente mais forte e prepara-a para maiores sacrifícios e abnegações, o contrário também se verifica; aquele que não tem autocontrolo no consumo de alimentos e é guloso, dificilmente será uma pessoa que partilha, e é bem provável que também seja volúvel e ganancioso.

Esaú perdeu a progenitura por um prato de lentilhas (Genesis 25, 29-34); que a gula, pecado que já ninguém confessa nesta sociedade de consumo, não nos leve a perder o corpo e a alma. Como diz o povo “o guloso escava a sepultura com os dentes” e “a avareza rompe o saco”
Pe. Jorge Amaro, IMC


13 de fevereiro de 2013

Liberdade e Igualdade

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Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita, (…) Quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo (…) Quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto… Mateus 6, 3, 6, 18

No dia de quarta-feira de cinzas, que marca o começo da Quaresma, a Igreja recorda-nos três actos que, mais que práticas de piedade, têm que ver com a natureza humana e como os valores ou atitudes que todo ser humano deve cultivar.

O dar esmola – é algo mais que dar uns trocos a um pedinte da rua. Refere-se à nossa atitude para com os outros, engloba tudo o que fazemos por eles, a nossa caridade, a nossa solidariedade, o nosso serviço.

Tem que ver também com o segundo mandamento: amar o próximo como a ti mesmo. São Basílio dizia a este respeito ”o pão que te sobra e guardas na tua gaveta não é teu, é do que tem fome; a roupa que não vestes e guardas no teu armário não é tua, é do que vai nu”.

Devo amar o próximo como a mim mesmo porque somos irmãos, filhos do mesmo Pai que está nos céus, e porque somos irmãos somos iguais. A Igualdade e fraternidade, proclamadas pela revolução francesa, são, em realidade, um só valor pois como diz o proverbio: “O amor ou nasce entre iguais ou faz as pessoas iguais”. Lembremos o princípio dos vasos comunicantes: se duas tinas contendo desigual volume de água se comunicarem, o nível de água fica igual nas duas.

A Oração – também é algo mais que recitar orações, refere-se à nossa atitude para com Deus. Significa caminhar na sua presença (Génesis 17, 1). Manifesta o nosso agradecimento por tudo o que Dele recebemos; é também uma manifestação inequívoca da nossa indigência e dependência no sentido de que sem Ele, nada somos, nada podemos fazer (João 15, 5).

A oração é comunicar-se com Deus; comunicamo-nos com Deus por que o amamos; se a oração é um acto de amor a Deus também tem que ver com o primeiro mandamento o qual nos diz que Deus deve ser amado com todo o nosso coração, com toda a nossa mente e com todas as nossas forças (Deuteronómio 6,5). Ou seja, na nossa mente e no nosso coração não deve haver rival; Deus deve ser amado por cima de todas as coisas, nada nem ninguém se lhe pode equiparar.

Voltando à revolução francesa esta atitude corresponde ao valor da Liberdade. Só somos verdadeiramente livres quando amamos a Deus sobre todas as coisas e sobre todas as pessoas; quando não idolatramos realidades nem pessoas nem criamos dependência com respeito a coisas ou substancias. Ao manifestar a nossa única e exclusiva dependência de Deus, ao reconhece-lo como o único Senhor e ao ama-lo por cima de tudo e de todos, ascendemos acima de toda a criação, não prestamos vassalagem a ninguém nem a nada, somos verdadeiramente livres.

Concluímos então que Orar e Dar esmola, como nos propõe o evangelho, são mais importantes do que o que parecem à primeira vista. Orar é amar a Deus sobre todas as coisas, o primeiro mandamento da lei de Deus, e a manifestação mais inequívoca de que somos livres pois ao cortar amarras, com tudo e com todos, servimos um só Senhor. Dar esmola, partilhar, é amar ao próximo como a nós mesmos, o segundo mandamento da lei de Deus e a manifestação mais inequívoca de igualdade e justiça social: o outro é igual a mim e eu sou igual ao outro.

Liberdade e Igualdade são os dois princípios sobres os quais assenta a vida humana nas vertentes individual e social. A liberdade é o valor sobre o qual assenta a vida do indivíduo como um ser único autónomo, independente, válido em si mesmo; a Igualdade o valor sobre o qual assenta a vida do indivíduo como parte de uma comunidade.

A difícil harmonia entre estes dois valores só se consegue quando se exercem ou praticam no contexto do amor. Somos livres quando amamos sobre todas as coisas a Deus, que é Pai, e somos iguais quando amamos, como a nós mesmos, os outros filhos do mesmo Deus Pai, e portanto nossos irmãos.

Mas o evangelho de quarta-feira de cinzas propõe-nos para toda a Quaresma um terceiro acto, o Jejum. Para que serve o Jejum e que tem ele que ver com o Orar e o Dar esmola?
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de janeiro de 2013

Fé, Missão e Martírio

2 comentários:
Eu vim lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que ele já se tivesse ateado! Lucas 12.49
Em sintonia com o ano da fé, proclamado pelo Papa Bento XVI, Fé Missão e Martírio é o tema anual, de reflexão, para toda a família Consolata. Este tema percorre transversalmente e inspira as nossas actividades, encontros e retiros para este ano.

A fé verdadeira é mais que uma cosmovisão - uma forma de ver e interpretar o mundo e a vida; mais que um assentimento intelectual à crença na existência de um Deus, Criador do Céu e da Terra e Salvador em Cristo seu único filho; mais que um sentimento de amor por Deus e pelo próximo; mais que uma opção fundamental, pois transversalmente penetra tudo o que somos, sentimos e fazemos. A fé é tudo isto, mas é também, e sobretudo, um dom de Deus. Tal fé encontra na Missão a sua expressão natural. Parafraseando o apóstolo, Tiago 2,17, a fé sem Missão é uma fé morta.

Missão e martírio são uma e a mesma coisa. Missão não é fundamentalmente pregar a palavra de Deus, nem fazer obras de caridade, Missão é dar testemunho da nossa relação íntima de amor com Cristo, e oferece-la aos outros. Ninguém pode dar o que não tem, se não possuímos uma relação intima, pessoal e amorosa com Cristo não podemos, nem devemos ser missionários.

Testemunho em Grego é “martirete”; o missionário é o que dá testemunho de Cristo, quaisquer que sejam as circunstâncias, a tempo e a destempo, a propósito e a desproposito, como diz São Paulo. Esse dar testemunho pode significar uma vida curta, como a de Cristo, dar a vida num minuto; ou pode significar uma vida longa, sendo fiel minuto a minuto, todos os minutos da nossa vida.

Há portanto duas formas de martírio, como há duas formas de combustão: combustão viva, “poner toda la carne en el assador”, ou combustão lenta, como quando se faz carvão vegetal, lentamente a madeira transforma-se em carvão, que por sua vez lentamente vai ardendo e aquecendo quem tem frio.

Na verdade, quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, há-de salvá-la. Marcos 8, 35

Missão apela à vida, martírio apela à morte. Em Cristo, vida e morte encontram-se harmonizadas: “What is not worth dying for is not worth living for”. Não ocupes a tua vida com coisas pelas quais não estás disposto a morrer; que a razão da tua vida seja a razão da tua morte e vice-versa.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de janeiro de 2013

Dimensão Cristã do Tempo

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Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e pelos séculos. Hebreus 13,8

Eu sou o Alfa e o Ómega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim. Apocalipse 22, 13

O tempo cósmico, o Circulo, – Partindo do objectivamente observável, na Antiga Grécia e no Extremo Oriente prevaleceu sempre uma compreensão circular do tempo: do ponto de vista cósmico, os 365 dias que a terra leva a dar uma volta ao sol; do ponto de vista da Natureza, mais propriamente das mudanças climatéricas, as quatro estações do ano, Primavera, Verão, Outono e Inverno. A partir destes factos, nasceu para a Filosofia o mito do “eterno retorno”, para a Ciência a ideia de que “Não há nada de novo de baixo do sol” e para a Religião a crença na “reencarnação”.

O tempo humano, a Recta – Do ponto de vista existencial e humano, cada dia que passa é um dia mais que vamos viver e um dia menos do que nos resta de vida. Conceber o tempo como uma recta, que vem do passado, passa pelo presente e se dirige ao futuro, não é nada que se possa observar na natureza. O tempo em linha recta é o tempo da história individual e comunitária, o tempo que integra a ideia de progresso: hoje foi melhor que ontem, amanhã será melhor que hoje. Na Filosofia, a máxima “não nos banhamos duas vezes nas águas do mesmo rio” de Heraclito partilha desta compreensão do tempo, verificando-se o mesmo na Cosmologia e na Religião que veiculam as noções do princípio e do fim do mundo.

Esta é também a concepção judaica do tempo: a saída do Egipto (terra de escravidão), a passagem pelo deserto (lugar do sofrimento, penitência, purificação e esforço) e a entrada na Terra prometida, onde corre leite e mel (terra da liberdade, do esforço recompensado e da obra acabada). Este é o arquétipo do progresso e da vida humana preconizado, até, pelo teoria de Karl Marx, na qual: o Egipto seria o capitalismo, o deserto seria a ditadura do proletariado e a terra prometida seria o socialismo e a sociedade sem classes.

O tempo Cristão, a Espiral – É a síntese entre a recta e o círculo, dado que é um círculo em contínuo movimento para a frente. O dicionário da língua Portuguesa define espiral como sendo “uma linha curva, ilimitada, descrita por um ponto que dá voltas em torno de um polo e do qual se afasta progressivamente” como uma hélice, uma mola ou uma escada em caracol. Este é o tempo cristão e, inclusive, o humano (é de notar que é sob a forma espiral que o ADN do nosso código genético é representado). Como indica a figura, cada ano constitui-se por 365 dias à volta do Sol – Sol que é Cristo, que ilumina e dá sentido à nossa vida, que é o princípio e é o fim, quer do Universo como das nossas vidas individuais.

O tempo cristão, portanto, nem é um círculo nem é uma recta, ou seja, cada Natal e cada Páscoa são diferentes, dado que o ano em que estamos e as condições situacionais em que vivemos são diferentes. No entanto, Cristo é a constante durante toda a nossa vida, Ele é o eixo à volta do qual gravitamos, “É nele, realmente, que vivemos, nos movemos e existimos” (Actos dos Apóstolos 17,28). Cada ano que passa meditamos em torno do mistério de Cristo, desde a sua Encarnação até à sua Morte, Ressureição e Ascensão aos céus. Em última análise, para irmos saindo do nosso “Egipto” pessoal, configurando a nossa vida cada vez mais à Dele, no sentido um dia chegarmos à Terra Prometida e podermos dizer como São Paulo: “Já não sou eu que vivo é Cristo que vive em mim”. (Gálatas 2,20). Feliz Ano Novo amigos!
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de dezembro de 2012

"Ah se eu fosse homem!..."

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Depois de ter deixado a família na Igreja para a Missa do Galo, um agricultor Canadiano regressava a casa fugindo da tempestade de neve que se avizinhava. De nada tinha valido a insistência da sua mulher para participar na missa. Para ele a encarnação de Deus não fazia sentido. Enquanto dormitava ao calor da lareira, foi sobressaltado pelo embate de Gansos na porta e nas janelas. Afastados pelo temporal da sua trajetória migratória para o Sul, estavam completamente desnorteados.

Movido de compaixão, abriu os portões do grande celeiro e começou a correr, a esbracejar, a assobiar, a gritar e a enxotá-los para que se abrigassem até a tormenta passar. No entanto, os gansos esvoaçavam em círculos, sem entenderem o que significariam o celeiro aberto e os gestos dramáticos do desesperado agricultor (que nem com migalhas de pão espalhadas na direcção do celeiro os tinha convencido). Derrotado no intento da salvação das pobres criaturas, suspirou: “Ah, se eu fosse ganso! Se eu falasse a sua linguagem!”. Ao ouvir o seu próprio lamento, recordou a pergunta que tinha feito à sua esposa: “Por que razão havia Deus de querer ser homem?”. E, sem querer, balbuciou a resposta: “Para o salvar!”... E foi Natal.

“Religião” vem do latim “religare”, que significa relacionar-se, estabelecer uma relação. Desde a sua natureza, o homem sempre foi religioso e perspectivo que sempre o será. Sabendo-se precário e necessitado, o ser humano procurou sempre os favores da “divindade”. Assim, em todas as culturas, surgiram indivíduos que, considerados como tendo uma especial sensibilidade para se relacionar com o divino, se sentiram enviados por Deus – os profetas, na tradição hebraica.

Estes profetas nunca conseguiram, verdadeiramente, estabelecer uma ponte de comunicação entre o divino e o humano. Isto porque a Palavra de Deus, sendo transmitida por eles (homens com as suas características pessoais e inseridos num determinado contexto sociocultural), acabou por sofrer influência de muitas variáveis mediadoras (personalidade, preconceitos, estereótipos, padrões sociais), perdendo-se o significado da mensagem original.

Isto continua a acontecer mesmo depois de Cristo. Por exemplo, quando São João menciona o número de vezes que Jesus apareceu depois da sua morte, não considerou a primeira aparição que foi feita a Maria Madalena; concomitantemente, São Paulo também não menciona esta aparição e, além disto, refere uma outra à qual nenhum evangelista faz menção - a que foi feita a Pedro.

Ao longo da história da humanidade, Deus, apesar da sua omnipotência, encontrou-se na mesma situação de impotência do homem que não conseguia estabelecer comunicação com os gansos para os salvar; por isso, chegada a plenitude dos tempos exclamou ah se eu fosse homem!... “E Deus fez-se Homem e habitou entre nós….

Cristo, sendo simultaneamente Deus e Homem, é a verdadeira ponte que une a humanidade e a divindade, é o ponto de encontro, é a comunicação plena, sem viés ou influências. Na Sua palavra, no Seu comportamento, nas Suas obras e na Sua vida como homem, Deus disse-nos tudo o que precisamos de saber sobre Ele próprio e sobre o ser (e o dever ser) do homem. FELIZ NATAL!

Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de dezembro de 2012

O sentido da Vida

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O ser e o nada
Todo o homem e mulher que vem a este mundo pergunta-se: de onde venho? Para onde vou? Que sentido tem a vida? O ateu diz que vem do nada e volta ao nada. Que sentido pode ter algo que começa no nada e termina no nada?

A ciência e a técnica melhoraram a nossa vida nos últimos anos, mas não nos dizem, nem podem dizer-nos, qual é o sentido da vida. Contudo, a necessidade de dar um significado à nossa existência é comum a todos os mortais. De uma forma consciente ou inconsciente, todos tratamos de encontrar um propósito para a nossa existência e, de alguma forma, justificá-la.

Os que perdem ou nunca encontram o sentido da vida acabam por deprimir-se, sentindo a náusea do vazio, e frequentemente buscam pôr termo à vida. Depressa se apercebem de que uma vida sem sentido não vale a pena ser vivida.

Caminhante sem caminho
"Caminante, son tus huellas el camino y nada más;
Caminante, no hay camino se hace camino al andar.
" – António Machado

Por um lado, cada homem e cada mulher, que vem a este mundo nasce com um código genético único, que nunca existiu antes ao longo dos cinco milhões de anos de existência da espécie humana, nem existirá depois, até ao fim da história da humanidade.

Neste sentido, cada ser humano que vem a este mundo inicia um caminho novo, uma vida nova, que é sua e só sua. É nisto que consiste a dignidade da pessoa humana e a sua liberdade: pode viver a vida como quiser, encontrar e seguir o seu próprio caminho, que não existe previamente, como se estivesse predestinado, mas que vai sendo feito ao caminhar.

Como é ele quem faz o caminho, como intuiu o poeta espanhol, o único caminho que existe são as suas pegadas, ou seja, o percurso que vai traçando. Tal como os caminhos que surgem formados pelo facto de muitas pessoas passarem pelo mesmo lugar, feitos sem máquinas e sem intenção de os criar.

Por outro lado, ninguém chega aqui completamente isolado do que o precedeu. Tal como o nosso ADN é composto por material genético do nosso pai e da nossa mãe, também somos herdeiros de tudo o que a humanidade já fez ao longo da sua história. Cada indivíduo da espécie humana, consciente ou inconscientemente, acede ao que Jung chamava de inconsciente coletivo, que funciona como uma espécie de base de dados que contém a idiossincrasia da raça humana.

Neste sentido, cada ser humano que chega a este mundo dá continuidade ao que veio antes. Tal como numa corrida de estafetas, recebemos um testemunho, uma herança, uns talentos e, com a nossa vida, damos continuidade aos projetos que já existiam, imprimindo-lhes o nosso cunho pessoal e elevando-os a um nível mais alto.

É nesta continuidade que se acrescenta o nosso toque pessoal. Einstein recebeu a física mecanicista de Newton e, com a teoria da relatividade, elevou-a a um novo patamar. Mozart dedicou a sua vida à música e levou-a a um nível elevado; no fim da sua vida, passou o testemunho a Beethoven, que a elevou ainda mais. Cada atleta, em cada modalidade, estabelece novos recordes com base nos anteriores.

Caminho, verdade e vida
Todo o ser humano que vem a este mundo tem em Cristo o caminho, a verdade e a vida (João 14:6); ou seja, somos chamados a viver em Cristo, por Cristo e com Cristo. Humanismo e cristianismo são uma e a mesma coisa; o cristão é a medida do humano, e o humano é a medida do cristão.

"Quem não está comigo está contra mim, e quem não junta comigo, dispersa." (Lucas 11:23). Não existem dois humanismos, duas formas de viver a vida humana. Não há alternativa igualmente válida a Cristo; não existe outra forma de autorrealização, de viver a vida humana em plenitude e alcançar a felicidade. Portanto, quem não está com Ele, não está com outro, pois esse outro modelo alternativo não existe; assim, quem não está com Ele, está contra Ele.

No entanto, isso não significa que, sendo Cristo o modelo para todos os que querem ser autenticamente humanos, nos transforme em clones que se comportam como marionetas ou autómatos, com o mesmo tipo de personalidade, que pensam, atuam e vivem a vida da mesma maneira.

Quando afirmamos que Cristo é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus, estamos a dizer que, até agora, na humanidade, só Deus em Cristo conseguiu ser autenticamente, plenamente, 100% humano. Só Jesus de Nazaré conseguiu realizar plenamente o projeto de humanidade que Deus tinha para o homem quando o criou. Só Jesus de Nazaré conseguiu realizar plenamente o sonho de Deus e torná-lo realidade.

“Deus fez-se homem para que o homem se tornasse Deus” (Sto. Ireneu); eis a razão da Encarnação. Sem Deus, o homem nunca seria plenamente humano.

Diferentes na igualdade, ou iguais na diferença
Sendo 100% homem, Cristo representa a totalidade do ser humano; é o padrão pelo qual todos nos medimos, o horizonte, a meta, o objetivo simultaneamente alcançável e inalcançável da vida humana. Alcançável, porque está ao alcance de todos; inalcançável, porque ninguém jamais o igualará completamente.

Mesmo São Francisco de Assis, chamado por alguns teólogos de "alter Christus", não chegou a ser 100% como Cristo. Cada santo, ou seja, cada cristão que atinge o sucesso espiritual, vive uma parte da humanidade de Cristo, tanto em quantidade como em qualidade.

"Aqueles que recebem a semente em boa terra são os que ouvem a palavra, a acolhem, dão fruto e produzem a trinta, a sessenta e a cem por um." (Marcos 4:20). Em quantidade, porque, como sugere a parábola da semente que cai em boa terra, uns produzem sessenta, outros trinta por cento. Dependendo de um número ilimitado de variantes, vicissitudes e circunstâncias, alguns imitam Cristo em 60%, enquanto outros apenas em 30%. Não importa a quantidade, como parece sugerir a parábola, mas sim ter Cristo sempre como o único referencial da nossa vida.

"(…) Com medo, fui esconder o teu talento na terra. Aqui está o que te pertence." (Mateus 25:25). Em qualidade, porque Cristo possui a totalidade dos talentos; nós recebemos alguns talentos e não outros. Todos recebem talentos suficientes para tornar a sua vida viável, mas ninguém recebe todos os talentos. O importante é desenvolver e fazer frutificar os talentos recebidos, em vez de os esconder, admirar ou invejar os talentos dos outros, tentando viver a vida deles, o que nunca é possível.

Francisco de Assis e Francisco Xavier são ambos santos e até têm o mesmo nome, mas são bastante diferentes no caminho de santidade que seguiram. Francisco de Assis imitou Cristo na sua humildade, enquanto Francisco Xavier o imitou na sua impulsividade.

Existe uma teoria psicológica chamada Eneagrama, que defende que há nove tipos de personalidade diferentes e que cada ser humano pertence a um desses nove tipos. Cada um destes tipos desenvolve uma qualidade humana em detrimento de outras. Esta teoria sugere que Cristo, sendo 100% homem, incorpora a realização completa de todas essas qualidades.

Como Jesus é o modelo a seguir, o padrão da humanidade, a sua personalidade é formada pelo conjunto dos nove tipos. Na encarnação, Ele aceitou e viveu plenamente todas as formas da personalidade humana, por isso pode ser modelo e paradigma para todos os tipos de personalidade; caminho, verdade e vida para todos seguirem, cada um à sua maneira.

Conclusão - O sentido da vida reside em encontrar o nosso caminho único, inspirado por Cristo como modelo de plena humanidade, desenvolvendo os talentos recebidos e vivendo de forma autêntica e consciente.

Pe. Jorge Amaro, IMC


16 de novembro de 2012

Celebrar e viver a fé

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Se fores, portanto, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem algo contra ti, deixa a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois volta para apresentar a tua oferta. Mateus 5:23-24

Alguém dizia que a vida do cristão decorre entre a Igreja e o mercado. "Ite missa est", dizia o sacerdote em latim ao despedir os cristãos após a celebração eucarística dominical. Esta expressão não só significa que a missa terminou, mas também que estamos em missão. O cristão ou está em missa, celebrando a sua fé, ou em missão, vivendo a sua fé. A celebração e a vida são inseparáveis. Celebramos o que vivemos e vivemos o que celebramos.

Não é possível ser cristão sem ter uma relação pessoal com Cristo, que se expressa na oração, e sem celebrar esse mesmo Cristo na Eucaristia, em comunhão com os outros que partilham a mesma fé. Se a oração e a penitência são a celebração individual de Cristo, a Eucaristia é a celebração comunitária de Cristo com a comunidade à qual pertencemos, pois não se pode ser cristão sozinho.

Celebra-se o que se vive, vive-se o que se celebra
Iludimo-nos ao pensar que, mesmo sem qualquer manifestação pública ou privada da nossa fé, continuamos a ser católicos. Mas isso não é verdade. Quem não consegue viver conforme aquilo em que acredita, tarde ou cedo começa a acreditar conforme vive.

Tudo o que é valioso na vida só se alcança com esforço; a passividade, o “dolce fare niente”, não nos leva a lado nenhum, pois na vida o que é bom ou custa dinheiro, ou custa esforço, ou ambas as coisas.

Os motores de um avião não só o impulsionam para a frente, como também o mantêm no ar. De facto, quando o piloto quer fazer o avião descer, o primeiro que faz é reduzir a potência dos motores, e assim o avião vai descendo gradualmente. Porém, se reduzir a potência para menos de 200 km/h, o avião cai. Neste mundo, pela lei da gravidade, o que não tem força para subir, desce.

A nossa natureza caída e os nossos instintos já exercem sobre nós uma força gravitacional para o mal; para vencermos o mal e crescermos como pessoas, temos de nos esforçar e contrariar essa força. A oração, o confronto com a Palavra de Deus e todas as práticas religiosas são uma ajuda essencial. Sem elas, estamos à mercê dos nossos instintos e dos valores que a sociedade promove. “Vigiai e orai para não cairdes em tentação.”

“O espírito está pronto, mas a carne é débil.” (Mateus 26:41). O próprio Jesus experimentou que a fraqueza da natureza humana requer a ajuda da oração como exercício de autoconsciência, para nos mantermos em estado constante de alerta, e como solicitação da assistência divina, pois, como disse Jesus: “Sem mim, nada podeis fazer” (João 15:5).

Dizer que alguém é "católico não praticante" é um contrassenso, uma falácia. Não há pianistas, cantores ou futebolistas "não praticantes". Os dons, talentos ou aptidões que temos, se não os utilizarmos, perdemo-los. A fé é um desses dons que só se mantêm na medida em que são vividos e exercitados. “O que não se usa, atrofia-se”, diz o provérbio.

“O amor é como a lua: quando não cresce, mingua.” A fé também é assim: ou está a crescer e a fortificar-se, ou está a minguar e a enfraquecer. A liturgia da fé são os sacramentos, sobretudo a Eucaristia, a oração e a escuta da Palavra de Deus.

O amor também tem as suas liturgias: se não se expressa em palavras, poesia, canções, carícias e intimidade, começa a decrescer. A fé leva à prática das boas obras, e estas fazem a fé crescer. O amor é a mesma coisa; amar é querer o bem do outro e colocar-se ao serviço desse bem.

Eucaristia e Caridade
O pão eucarístico repartido é uma imagem ou um ato simbólico que nos recorda que, para sermos cristãos, outros Cristos, devemos repartir o nosso pão com os necessitados. Neste sentido, a Eucaristia, além de ser a celebração da paixão, morte e ressurreição do Senhor, é também um sacramento da memória.

Não apenas dos factos históricos, mas um ato simbólico que nos lembra outros gestos de Cristo (como montar num jumento em Jerusalém, lavar os pés aos discípulos ou expulsar os vendilhões do templo). Tudo isso nos mostra que a celebração da Eucaristia ritual só tem valor para quem celebra também a Eucaristia existencial, ou seja, quem reparte o pão com os pobres.

O cristão autêntico, o cristão a 100%, é aquele que celebra a memória do Senhor com a comunidade na Igreja, mas também individualmente na sua vida, dando esmola, ajudando e pondo em prática as palavras de Mateus 25: "Tive fome e deste-me de comer…". Quem reparte o pão apenas na Igreja, mas não o faz na vida, é meio cristão, assim como quem reparte o pão na vida, mas não o faz na Igreja.

Cristo está no pão que se dá em alimento; assim também nós devemos transformar-nos em pão para os outros. Devemos repartir o nosso tempo, energias e recursos, até nos darmos a nós mesmos. Cristo é pão, o pão é Cristo, e o pão que repartimos é Cristo dado aos outros. Deste modo, a prática cristã une-se à praxis cristã. A Eucaristia estende-se pela vida. "Ite missa est": termina o ritual e começa o existencial. Quando repartimos o pão físico, após o espiritual, reconhecemos Cristo nos outros.

Conclusão – A fé é uma atitude ante a vida que se celebra nos sacramentos especialmente na eucaristia, e se vive na caridade para com os outros. Não se pode divorciar a vida da celebração nem a celebração da vida. Quem não celebra o que vive não vive o que celebra.

Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de novembro de 2012

Fé: A Moeda das relações humanas

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Pois andamos pela fé, e não pela vista
. 2 Coríntios 5:7

O ser humano não é apenas um ser autónomo, livre e independente, mas também um ser profundamente relacional. Nascemos de uma relação de amor, crescemos como seres humanos se formos amados incondicionalmente. Podemos ter tudo na vida, mas sem amor, nada temos. Podemos alcançar o topo da sociedade mas, se não amamos e não somos amados, não seremos felizes. Mais importante do que saber por que vivemos é compreender para quem vivemos.

A vida humana nasce e desenvolve-se no seio das relações com os outros. Estas relações podem ser analisadas pelas ciências, especialmente pelas ciências humanas, mas possuem algo que ultrapassa o âmbito científico. A ciência serve para conhecer as coisas, mas não é suficiente para conhecer as pessoas. A fé e o amor são os alicerces das relações humanas, e nenhum dos dois pode ser objeto de estudo científico.

Conhecer e amar
Conhecer algo implica domínio e controlo. Se sei o princípio que regula a chuva, posso manipulá-la, como fizeram os chineses antes da abertura dos Jogos Olímpicos para garantir que não chovesse durante a cerimónia. No entanto, Deus não se conhece dessa maneira. Conhece-se a Deus como se conhecem as pessoas: através da intimidade e da relação.

Uma pessoa só se revela e se dá a conhecer quando é amada. Pelo contrário, quando um inimigo nos conhece, tornamo-nos vulneráveis. Tal como uma pessoa, Deus só se revela àqueles que O amam. Não podemos conhecer a Deus ou a outra pessoa sem nos envolvermos pessoalmente. Deus e as pessoas humanas não podem ser reduzidos a objetos de laboratório. Amar implica um compromisso; o conhecimento sem amor torna-se manipulação.

A fé: a base da confiança nas relações humanas
A fé é um salto razoável, sustentado pela razão. É como quem caminha por um caminho e, ao chegar a um precipício, precisa saltar para o outro lado. Fé é avançar rumo ao futuro ou ver o presente a partir de uma realidade ainda não concretizada. É como navegar sem uma rota visível ou, como uma criança que se lança para os braços do seu pai ou mãe, confiando que será apanhada.

No âmbito do conhecimento, a fé não se encaixa na análise lógica dedutiva. Relaciona-se mais com a síntese e o conhecimento intuitivo. Ter fé é intuir que algo é correto, mesmo sem garantias absolutas; é como passar um cheque em branco, emprestar dinheiro ou um livro, confiando que será devolvido. Fé é arriscar e apostar no incerto.

A teoria da relatividade geral de Einstein foi, durante muito tempo, um ato de fé, nascido de uma intuição do próprio Einstein e só recentemente conseguimos obter provas da sua veracidade.

Quando aceito um cheque por um serviço prestado, acredito que ele tem cobertura. Seria ofensivo e poderia perder um amigo se o recusasse. Ao entrar num avião, confio que as autoridades fizeram o seu trabalho para evitar qualquer perigo e que os pilotos estão preparados e bem-intencionados. Ao comer num restaurante, confio na qualidade da comida, sem exigir que seja analisada previamente. Em algumas culturas, como na Etiópia, a cozinheira prova a comida à frente dos convidados para garantir segurança, mostrando como a confiança está no centro de todas as interações humanas.

No casamento, acredito que a união será para toda a vida. Mesmo num empréstimo bancário, o banco, após a devida análise, concede crédito baseado na confiança de que o cliente devolverá o montante. Até o cartão de crédito funciona com base na fé. Fala-se em "fé nos mercados" como se fala em "fé em Deus".

Até a autoestima se relaciona com fé em nós mesmos. Podemos acreditar ou não nas nossas capacidades e essa crença influencia como nos lançamos na vida. Muitas vezes, arriscamos sem ter certezas, esperando que o sucesso confirme os nossos talentos.

Se Deus não existe, a vida humana carece de sentido
(...) Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé (...) aqueles que morreram em Cristo perderam-se. E, se esperamos em Cristo apenas para esta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens.
1 Coríntios 15:17-19

O enigma da existência humana está profundamente ligado à existência de Deus. Se Deus não existe, o ser humano, de certa forma, também deixa de existir como pessoa, e a sua vida perde o sentido. Filósofos que seguiram a ideia da "morte de Deus" — Jean-Paul Sartre, Albert Camus e Søren Kierkegaard — afirmaram que, sem a existência de um ser superior, a vida se torna absurda. Para que a vida tenha sentido, é necessário que existam critérios que guiem a nossa existência e que não sejam fruto da criação humana — princípios que transcendam a nossa origem e que possuam autoridade sobre nós.

Sartre afirmou: "O inferno são os outros". Assim como os soldados do sumo sacerdote prenderam Cristo, Deus foi aprisionado por Feuerbach, julgado por Marx e Freud — que, ironicamente, tal como Anás e Caifás, também eram judeus — e, por fim, condenado à morte e executado pelo "Pilatos" de Nietzsche.

Ironia do destino, com a morte de Deus, morreu também o ser humano, pois a vida perdeu o seu sentido. Após Nietzsche, os filósofos tornaram-se pensadores do absurdo e da náusea, como Sartre, não tanto em resposta ao "cadáver de Deus", que não possui corpo, mas ao do Homem.

Contudo, após reconhecermos que a existência do ser humano está intrinsecamente ligada à existência de Deus, e embora Deus preexista e exista independentemente do homem, o ser humano é a criatura para a qual Deus existe. Apenas uma criatura consciente de si própria pode atingir a consciência da existência de Deus.

Tal como mencionámos ao falar do animismo, foi a constatação da morte do nosso corpo físico que originou o nosso "eu" espiritual; foi o reconhecimento da morte como um fim que moldou a nossa compreensão da existência como um "ser". A existência é temporal, mas o "ser" é eterno. O desejo de eternidade, em contraste com a realidade da nossa temporalidade, fez-nos acreditar na existência de Deus, criador de tudo e de todos, e alimentou a nossa sede de O conhecer.

Outra ironia do destino: agora, o outro, o meu semelhante, com quem vivia em harmonia na sociedade, como afirma Sartre, transformou-se num inferno para mim. E, segundo ele, a única forma de sair deste inferno seria eliminá-lo.

No auge do absurdo, estes pensadores chegam a negar a natureza trinitária do ser humano. Um ser humano não existe isoladamente, mas em coexistência com outros dois — o pai e a mãe. Ou existem três, ou não existe nenhum. Como podem os outros ser o inferno? É o amor ao próximo, como a nós mesmos, que garante a igualdade, um princípio fundamental para a sociedade e para o ser humano como ser social e integrante dela.

Sem o amor ao próximo, a vida em sociedade seria impossível e, sem esta, a própria vida individual cessaria de existir. Se todos pensassem como Sartre, este mundo seria verdadeiramente um inferno.

Por outro lado, é o amor a Deus acima de todas as coisas e pessoas que nos garante a verdadeira liberdade, um princípio essencial para a dignidade da pessoa humana. Sem liberdade, não há vida humana plena, não há indivíduo. Só nos libertamos das coisas e das pessoas quando entregamos o nosso coração a Deus e aceitamos o Seu senhorio.

Se não rendemos vassalagem a Deus, que nos faz livres, acabamos por nos submeter a outras realidades humanas e mundanas — o poder, o prazer, a riqueza, a popularidade, a beleza física — tornando-nos escravos dessas realidades e, consequentemente, idólatras, ou seja, adoradores de ídolos.

Conclusão – Sem Fé, a vida humana não é possível. Para viver como indivíduo livre, autónomo e independente, o ser humano precisa de confiar em si mesmo. Para viver em sociedade, na família, na comunidade, na sociedade em geral, é essencial confiar nos outros.

Pe.Jorge Amaro, IMC

16 de outubro de 2012

Física quântica e Fé

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Se a mecânica quântica não te chocou profundamente, é porque ainda não a compreendeste. Tudo o que chamamos de real é formado por coisas que verdadeiramente não podem ser entendidas como reais. 
Niels Bohr

A física é a mãe da ciência
A física é, por si só, uma cosmovisão, ou seja, a matriz do nosso pensamento. Não é o mesmo observar o mundo pela perspetiva mecanicista e materialista de Newton, do que vê-lo sob o prisma da física quântica.

O pensamento contemporâneo já não explica a realidade com base na física mecanicista de Newton, mas sim na teoria da relatividade e na física quântica. No entanto, a maior parte dos pensadores, cientistas e até teólogos ainda têm as suas mentes formatadas pela física newtoniana.

O mundo da política, das universidades, dos meios de comunicação e da economia é um mundo de causa e efeito, onde uma causa gera sempre o mesmo efeito; por isso, é um mundo ateu, materialista e mecanicista. A física quântica, sendo uma novidade, demorará ainda a estabelecer-se como a nova cosmovisão e, quando o fizer, será muito mais fácil acreditar.

As universidades, a política e os intelectuais estão, assim, desfasados, atrasados e fora de sintonia com a nova realidade. Vivem numa cosmovisão obsoleta. Para se atualizarem, devem divorciar-se de Newton e casar-se com Heisenberg. O mundo não é nem funciona da forma que eles acreditam.

Falar dos milagres de Jesus à luz da física mecanicista de Newton, onde a realidade funciona como uma máquina perfeita na rotina inalterável de um relógio, é mais difícil do que abordar os mesmos temas sob a ótica da teoria da relatividade e da física quântica, onde já não existem leis fixas e absolutas da natureza, mas sim probabilidades estatísticas.

O princípio de Heisenberg vai ainda mais longe ao sugerir que a realidade, longe de ser fixa e previsível, tem um elevado grau de incerteza e imprevisibilidade. A física quântica desafia até o senso comum.

Para Einstein, a matéria é uma forma de energia e a energia é uma forma de matéria; 95% do universo é constituído por matéria negra, que é invisível. Quão mais fácil se torna falar da ressurreição do corpo glorioso de Cristo e do corpo espiritual que teremos após a morte!

A mecânica quântica
A mecânica quântica altera profundamente os nossos paradigmas, desafiando a lógica que tem governado a ciência e a nossa vida, destruindo fronteiras que antes nos pareciam intransponíveis e acabando com dualismos que opunham realidades que julgávamos opostas, como:

•    Matéria e energia;
•    Estático e móvel;
•    Visível e invisível;
•    Tangível e intangível;
•    Previsível e imprevisível;
•    Material e espiritual;
•    Científico e filosófico.

Vejamos algumas destas oposições mais detalhadamente:
Matéria/Energia – O coração da matéria é tão intangível quanto a energia. O mundo dos átomos e partículas subatómicas é essencialmente energia. Embora possamos medir e pesar os átomos, as partículas que os compõem são constituídas por cargas elétricas e estão em movimento, exibindo assim as propriedades da energia. Em essência, a matéria é descritível e quantificável, mas, em existência, é energia, pois reage, cria ondas e manifesta uma potência voltaica.

A matéria visível e sólida é composta por elementos invisíveis e, quanto mais penetramos no centro da matéria, menos encontramos massa e mais espaço vazio. As partículas subatómicas são, de facto, manifestações de energia. Portanto, o que antes parecia sólido e visível, agora reduz-se a ondas eletromagnéticas. Assim, o nosso corpo e tudo o que existe materialmente não são mais do que energia vibratória condensada.

Matéria/Espírito – O materialismo perde a razão de ser, já que a matéria é constituída por elementos invisíveis, quase espirituais. O átomo, que é a "alma" da matéria, é tão invisível quanto a alma humana no corpo. Portanto, não são apenas os seres humanos que têm alma; a matéria também a possui.

Inerte/Vivo – Não é mais evidente que apenas a matéria orgânica tem vida. As partículas subatómicas mostram-nos que a vida pode existir também ao nível dos quarks, embora de forma distinta da vida que conhecemos.

Visível/Invisível – A fronteira entre o visível e o invisível também se esbate. A massa de um átomo corresponde a menos de 1% do seu volume total; o resto é vazio, o espaço entre o núcleo e o eletrão.

Estático/Móvel – A matéria que compõe os objetos parece estática, mas isso é uma ilusão. Na realidade, tudo está em movimento. O eletrão orbita o núcleo de um átomo a 2 200 quilómetros por segundo.

Em mecânica quântica, a matéria visível é composta por elementos invisíveis, é aparentemente estática quando, de facto, está em movimento e, embora pareça diferente da energia, é apenas uma forma desta.

A dignidade da pessoa humana
"Fizeste-nos, Senhor, para Ti, e o nosso coração andará inquieto enquanto não descansar em Ti."
Santo Agostinho

O ateísmo são conjeturas intelectuais, enquanto o agnosticismo é uma preguiça intelectual, típica de uma pequena minoria que vive acomodada no consumismo de uma sociedade de abundância. A maior parte da população mundial é crente, e assim tem sido ao longo da História e em todas as culturas.

A evolução das espécies resultou num ser humano pensante, que se opõe ou sobrepõe ao resto da Criação, tal como o polegar se opõe aos outros dedos da mão. Este fato indica que o ser humano tem um destino diferente do resto dos seres vivos.

Só o homem anseia pela eternidade e tem sede de Deus. Se existe sede, deve existir água para a saciar. Logo, o desejo de Deus, presente em todo o ser humano, é prova da sua existência.

Acreditar é uma escolha livre
Apesar de todos os esforços dos cientistas para compreender os mistérios do universo e reduzir o campo da religião, nunca encontraram uma prova inequívoca que obrigue as pessoas a acreditar ou não acreditar. A ciência estuda o "como", mas não o "porquê". As respostas a essas questões pertencem à fé e à religião.

Conclusão
Enquanto os intelectuais estiverem presos à física mecanicista e materialista de Newton, o ateísmo parecerá uma escolha fácil. No entanto, à luz da física quântica, essa visão torna-se desatualizada. A realidade é muito mais fluida e imprevisível, onde as fronteiras entre o material e o espiritual, o visível e o invisível, se esbatem. A física quântica oferece uma nova perspetiva que desafia o pensamento ateísta e abre caminho para uma compreensão mais profunda da fé.

Enquanto a física newtoniana, com o seu materialismo mecanicista, pavimenta o caminho para o ateísmo, a física quântica desmantela essa visão limitada da realidade, dissolvendo as barreiras entre o visível e o invisível. Ao desafiar o materialismo, torna a fé na existência de Deus não apenas mais plausível, mas uma hipótese racionalmente mais coerente do que a crença na sua inexistência.

Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de outubro de 2012

Acreditar depois de Nietzsche

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"É pelas nossas virtudes que somos mais severamente punidos." - Nietzsche

Nietzsche aborda a sua crítica à religião partindo da moral ou ética, compreendendo que a moral não deriva da verdadeira natureza humana, mas sim de uma religião que impede o Homem de ser feliz. São as nossas próprias virtudes, ou o esforço que fazemos para as incarnar, que nos punem e nos tornam infelizes.

Biografia de Friedrich Nietzsche (1844-1900)

Nietzsche fez da moral e da religião o alvo dos seus combates, considerando que a sua guerra pessoal contra ambos foi a sua maior vitória. "Além do Bem e do Mal" é o centro dessa guerra, sendo o primeiro livro entre os seus escritos negativos e críticos, conforme ele próprio declara em Ecce Homo (1888), publicado postumamente.

Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em Röcken, Alemanha, a 15 de outubro de 1844. Era filho, neto e bisneto de pastores protestantes. Aos cinco anos, perdeu o pai e ficou aos cuidados da mãe, da avó e da irmã mais velha. Em 1869, com 25 anos, foi contratado pela Universidade da Basileia como catedrático de Filologia Clássica.

A Moral dos Senhores vs. a Moral dos Escravos
Nos seus livros Genealogia da Moral e Para Além do Bem e do Mal, Friedrich Nietzsche demonstra que a moral não é inata, imutável, nem derivada da natureza humana, mas sim um produto da História. Na pré-história, quando a linha entre o humano e o animal ainda não estava bem definida, alguns homens subjugavam outros pela lei do mais forte e mais capaz, uma regra que vigorava entre os animais. Os vitoriosos tornavam-se senhores, enquanto os derrotados se tornavam escravos.

Os senhores, ao triunfarem, julgavam a realidade com base em si mesmos e nos seus atos, devido à posição privilegiada que conquistavam após a vitória. Para eles, o "bom" era tudo aquilo que representava a sua forma de ser e agir: a violência, a guerra, a aventura, o risco, o poder, o prazer, a crueldade, a força física, a ação, a liberdade e a autonomia. Estes valores é que os colocavam numa posição de superioridade em relação aos outros.

Os senhores, aqueles que podem, querem e mandam, exteriorizam todos os seus instintos, agindo sem limitações. Podem matar, roubar, violar, banquetear-se e embebedar-se, pois ninguém os questiona — são eles que ditam a lei. Um exemplo disso, ainda nos dias de hoje, é o patrão, que tem mais liberdade para expressar os seus instintos em comparação com o empregado.

Os sacerdotes, ressentidos pela derrota e desejosos de vingança, ao não conseguirem vencer fisicamente os nobres, elaboram um plano para os superar mentalmente. Como a raposa que, não conseguindo alcançar as uvas, as declara verdes, assim fazem os sacerdotes à moral dos senhores.

Desta forma, nasce a moral dos escravos, que, não conseguindo impor-se no mundo real, inventam um mundo ideal, ascético, espiritual — Deus. Refugiam-se em mosteiros e negam a vida real, afirmando ser esta um "vale de lágrimas", para se concentrarem na vida do Além, onde serão felizes novamente. Negam a terra para afirmarem o céu, transferindo o valor da vida para fora da própria existência.

Em nome de Deus e da vida futura, abdicam desta vida, dos seus instintos sexuais, do poder, do prazer, e de tudo o que antes possuíam quando eram senhores. Os valores passam a ser o pacifismo, a humildade, a obediência, a pobreza, a prudência, o jejum, a abstinência, a igualdade e a fraternidade.

Nietzsche identifica os judeus como um "povo sacerdotal", e a moral dos escravos é, de facto, a moral do judaico-cristianismo, que gradualmente se impôs. Tanto o judaísmo quanto o cristianismo nasceram da escravidão: os judeus foram escravos no Egito, e os cristãos, durante séculos, foram a classe mais pobre, perseguida pelo Império Romano, até prevalecer sobre ele.

A moral dos senhores é autónoma, com valores definidos a partir da experiência individual; já a moral dos escravos é heterónoma, com valores impostos externamente, surgindo de normas como "Deus disse" ou "a Bíblia manda". A moral dos senhores é vital, baseada no corpo e nas suas necessidades e apetites; enquanto a moral dos escravos é abstrata, negando e sacrificando a vida real.

Critica à génese da ética de Nietzsche
A dicotomia de Nietzsche entre a moralidade de senhores e escravos é inegavelmente original e provocadora, lançando luz sobre as dinâmicas históricas da ética humana. Contudo, também corre o risco de simplificar em demasia a complexidade e riqueza dos sistemas morais. A sua associação da moralidade de escravos a valores como humildade, altruísmo e submissão — que ele afirma derivarem do ressentimento, uma postura reativa e vingativa contra os poderosos — pode diminuir injustamente as motivações genuínas e proativas por detrás dessas virtudes. Estes valores estão muitas vezes enraizados não na fraqueza ou no ressentimento, mas num profundo reconhecimento da interconexão e vulnerabilidade humanas.

As origens destes chamados valores de "moralidade de escravos" poderiam ser mais bem explicadas pela própria natureza humana, em vez de um quadro moral reacionário. Empatia, cooperação e o desejo de justiça são características profundamente enraizadas na evolução humana, essenciais para a sobrevivência e o florescimento das comunidades. A crítica de Nietzsche ignora estes aspetos naturais e construtivos do desenvolvimento moral.

Por outro lado, a moralidade de senhores que Nietzsche celebra, com a sua ênfase na dominância, força e autoafirmação, parece imitar a "lei da selva" ou a sobrevivência do mais apto. Esta perspetiva é problemática, pois pode ser usada para justificar sistemas ou comportamentos opressivos, priorizando os poderosos em detrimento dos vulneráveis. Essa valorização corre o risco de promover uma visão do mundo que desumaniza os considerados fracos e legitima a exploração, minando o progresso moral que visa garantir dignidade, igualdade e justiça para todos.

Além disso, a ênfase de Nietzsche no individualismo da moralidade de senhores em detrimento dos valores comunitários revela um ponto cego na sua filosofia. A sua famosa proclamação da "morte de Deus" e a celebração do Übermensch (Super-Homem) refletem a sua rejeição da moralidade tradicional e das obrigações comunitárias. No entanto, essa rejeição parece alheia às realidades da interdependência humana, onde as sociedades prosperam com o apoio mútuo e a responsabilidade coletiva.

Não obstante, a crítica de Nietzsche mantém o seu valor pela originalidade e pelo desafio que coloca às suposições morais inquestionadas. Ele identifica corretamente os perigos dos sistemas morais que retratam o mundo natural como um "vale de lágrimas" e desencorajam a agência humana. Contudo, uma abordagem mais equilibrada poderia procurar harmonizar os pontos fortes das moralidades de senhores e de escravos, enfatizando o florescimento individual juntamente com o bem-estar coletivo. Tal integração honraria os insights de Nietzsche, ao mesmo tempo que abordaria as dimensões mais amplas e ricas da ética humana.

Teísmo e Ateísmo
No que diz respeito à existência de Deus, Nietzsche segue os passos dos seus predecessores ateus. Para ele, a fé em Deus provém de um sentimento de impotência que o Homem experimenta em relação às realidades que o cercam.

Feuerbach, Marx e Freud, por exemplo, tiveram ligações ao cristianismo, seja pela sua formação teológica ou pela conversão dos seus pais. Parece que o ateísmo nasce do teísmo, ou é uma espécie de teísmo invertido, uma dialética semelhante à relação entre matéria e antimatéria no universo.

O ateu vive insatisfeito, sempre assombrado pela dúvida, à procura de mais provas para se convencer de que Deus não existe. O teísta também duvida, mas essa dúvida culmina num cogito ergo sum. O teísta opta por acreditar, encontrando na fé um sentido para o universo, o mundo e a sua própria vida, enquanto o ateu se instala no vazio, o que pode causar tormento e sofrimento.

Nietzsche, por exemplo, acabou os seus dias louco. Outros ateus preenchem esse vazio com a busca de poder, prazer, beleza ou dinheiro, dedicando-se quase religiosamente a essas causas. Muitos ateus, na verdade, podem ser considerados mais politeístas do que propriamente ateus.

Conclusão – Contrariamente à proposta de Nietzsche, a moralidade de senhores — enraizada na exaltação dos instintos e no individualismo descontrolado — não traz verdadeira felicidade, podendo antes fomentar injustiça social e conflito. Em contraste, a moralidade cristã, longe de ser submissão, assenta no amor e em valores que elevam a dignidade humana. O amor, como pedra angular da ética cristã, oferece um caminho para a transcendência, guiando os indivíduos além da mera sobrevivência para uma vida de significado e propósito autênticos.

Pe. Jorge Amaro, IMC