15 de março de 2022

Cristianismo, Islão e violência

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Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram: «Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?» Mas Ele, voltando-se, repreendeu-os. E foram para outra povoação. Lucas 9, 54-56

(…) Há de chegar mesmo a hora em que quem vos matar julgará que presta um serviço a Deus! E farão isto por não terem conhecido o Pai nem a mim. João 16, 2-3

Vamos misturar essência com existência, ou seja, o que são em si mesmas estas duas religiões, com a História que ambas têm escrito ao longo dos séculos desde que nasceram. É claro que escrevo a partir da minha fé em Cristo, único Salvador, Caminho, Verdade e Vida para todo o ser humano, incluindo os muçulmanos; mas não uso a fé como argumento; espero argumentar exclusivamente a partir da razão.

Fanatismo e violência
Há dois conceitos que foram talvez mal interpretados, ou interpretados de forma a satisfazer, justificar e abençoar a sede de poder de alguns. O certo é que foi esta “má interpretação” dos conceitos que escreveu História e fez correr muito sangue. Refiro-me ao conceito de JIHAD, que significa esforço, luta, guerra santa, e o conceito de ISLÃO que significa submeter-se à vontade de Deus.

Como dizem os estudiosos, a JIHAD refere-se à luta que todo o ser humano deve travar dentro de si mesmo contra o mal. O caso é que, historicamente, a luta interior que devia permanecer interior, tornou-se numa luta exterior; na prática, essa luta traduziu-se, e ainda atualmente se traduz, na luta contra aqueles que o Islão considera infiéis, declarando-lhes uma guerra que se justifica a si mesma por ser santa, por ser por uma boa causa. Nesta época, não tinham ainda entendido que “Os fins não justificam os meios”.

O Cristianismo tem também a sua versão de guerra santa, as cruzadas. A primeira cruzada nasceu como resposta ao pedido do Imperador cristão do Oriente, Aléxis I para que o ajudassem a reconquistar a cidade santa de Jerusalém e a libertar os cristãos orientais do domínio muçulmano. No entanto, rapidamente se transformou numa forma de travar o avanço dos muçulmanos que ameaçavam acabar com o mundo cristão. Começou por ser um direito à autodefesa que rapidamente se transformou em agressão, conquista e massacre em nome de Cristo.

Islão significa submeter-se a Deus; a base da religião muçulmana reside nesta submissão simbolicamente representada pela postura física que os muçulmanos adotam quando rezam. Era este o propósito da Jihad, o esforço, a luta para submeter toda a personalidade de cada um a Deus; aliás, é mesmo isso que significa adorar a Deus: submeter-se à sua vontade.

Enquanto este princípio não passou da esfera pessoal, enquanto se manteve reflexivo e intransitivo, foi bom e não causou problemas; mas não é desta submissão que reza a História. Submeter-se a Deus rapidamente se transformou em submeter os outros a Deus. Por isso, tal como o judaísmo chama gentio a todo o que não é judeu, o Islão chama infiel a todo aquele que não é muçulmano.

Ao contrário do Cristianismo que nasceu num mundo adverso dominado pelos romanos e durante 5 séculos foi uma religião clandestina que se propagava pelo exemplo de vida e pela pregação, o Islão nasceu numa conquista bélica de Meca e na submissão à nova fé de cristãos e politeístas que lá viviam.

Rapidamente se confundiu com poder e continuou a propagar-se não pela pregação como o cristianismo, mas sim pela conquista bélica e pelo comércio. Os muçulmanos submeteram de facto à sua fé o mundo antes cristão: a zona sul e norte do Mar Mediterrâneo, invadindo a Europa pelo Ocidente até França e pelo Oriente até à Áustria. Durante toda a Idade Média, assolaram a Europa que se fechou sobre si mesma num regime feudal.

Depois do Imperador romano Constantino, o Cristianismo transformou-se na religião do Estado e, como tal, também usou a técnica de submissão não só pela via da tortura da Inquisição, mas também como forma de evangelização.

De facto, os latino-americanos ainda hoje nos acusam de termos evangelizado a América Latina mais pela espada que pelo crucifixo; como a espada no Ocidente sempre foi em forma de cruz, talvez venha daí a confusão. O Cristianismo abandonou há muito estas práticas de violência que ficaram na Idade Média; o Islão ainda as usa hoje. Porquê?

Ressentimento contra o mundo ocidental cristão
Com a vitória na batalha de Lepanto em 1571, entre cristãos e muçulmanos, a cultura e civilização cristã acabou de uma vez por todas com a constante ameaça do Islão e cresceu até ser hoje o que é, ao passo que a civilização muçulmana, cujo auge tinha sido atingido com Averróis e Avicena, estagnou numa mentalidade medieval.

O mundo muçulmano ainda não se recuperou do ressentimento e ódio que essa derrota causou. Este ódio motiva as ações da Al Qaeda, em especial contra os Estados Unidos que representam o mundo ocidental.

Atualmente não há nenhum país tradicionalmente cristão que persiga muçulmanos só pelo facto de o serem, enquanto nos países tradicionalmente muçulmanos os cristãos são sistematicamente perseguidos: Egipto, Paquistão, Irão, Iraque, etc.

Os muçulmanos no Ocidente estão amparados pela democracia e pelo direito à liberdade religiosa; os cristãos no mundo árabe não têm direitos, estão à mercê do fanatismo. Os muçulmanos no Ocidente podem construir as suas mesquitas; os cristãos no mundo árabe não têm direito a construir igrejas nem a reparar as que estão construídas e, na Arábia Saudita, nem podem usar um crucifixo ao pescoço.

Quem não deve não teme
Nunca somos tão violentos como quando lutamos pela nossa sobrevivência. Enquanto a religião cristã, posta em causa pela Revolução Francesa, pela idade da razão, pelo iluminismo e ultimamente pelas filosofias ateias, sobreviveu, a religião muçulmana opõe-se a todo o pensamento crítico vindo de dentro e de fora e ameaça quem o faça.

Quem não deve não teme: esta agressividade mais não é que uma forma de esconder as graves deficiências do ponto de vista filosófico, histórico e teológico. Alimentada pelo petróleo e pelo ódio contra o Ocidente, a expansão muçulmana é como um gigante com pés de barro – um dia que as deficiências venham à luz da razão, talvez não fique pedra sobre pedra.

Segundo Carl Jung, o fanatismo é uma forma de sufocar uma dúvida interior. Assim explicava Jung o fanatismo de S. Paulo contra os cristãos, antes da sua conversão. A dúvida de S. Paulo era entre a segurança que dá a lei, uma falsa segurança, e a liberdade da graça que Santo Estêvão oferecia.

S. Paulo encontrava-se dividido entre estas duas formas de viver a vida. Por um lado, atraído pela liberdade, ao dar-se conta de que nunca conseguia satisfazer as exigências da lei e que, mesmo que o fizesse, não tinha nenhuma segurança ou garantia de salvação que tornasse a vinda de Cristo prescindível se o homem pudesse salvar-se a si mesmo.

É evidente, até pela forma como tratam as mulheres, como seres humanos de segunda categoria, que a religião muçulmana estava bem para a Idade Média, mas não para o mundo de hoje. Como a forma de pensar de hoje se infiltra de muitas formas, mesmo nos países muçulmanos, pela TV, pela Internet, eles sentem-se intimidados e temem perder fiéis, temem que a sua religião não aguente o embate da razão, como o cristianismo teve que aguentar, reformulando-se.

Então tornam-se agressivos contra o Ocidente, que se governa pela razão e se infiltra por todo o lado porque a razão ~e a única via para o desenvolvimento e progresso. Como o Ocidente é de raiz cristã, voltam-se contra os cristãos nos seus países, chamando-os traidores e americanos, quando estes existiam antes da religião muçulmana. Chamam o Cristianismo de religião estrangeira, quando ele esteve implantado muitos séculos antes de a religião muçulmana chegar ao seu país.

Os animais mostram o seu máximo de agressividade quando sentem ameaçada a sua existência. Sob este ponto de vista, os humanos não são diferentes. Os gatos são animais pacíficos e nunca se voltam contra os seus donos a menos que estes os ameacem e não tenham forma de fugir. Assim se sente a religião muçulmana encurralada face ao mundo ocidental de tradição cristã.

Não há razões para matar
Como acima se citou, a tentação de impor a nossa crença ou idiossincrasia aos outros já era visível nos apóstolos. Jesus rejeita a violência como meio para chegar a algum fim. Rejeita também matar em nome de Deus, dizendo que quem o faz nunca o conheceu a Ele nem a Deus. Deus é Amor e Vida, não ódio e morte. Para Jesus não há razões para matar, só há razões para morrer.

A diferença entre o Islão e o cristianismo é simples: os cristãos seguem o seu Mestre que os ensinou a morrer por uma causa e que morreu Ele mesmo pela causa da justiça; os muçulmanos seguem o seu profeta que os exortou a matar por uma causa e que matou ele mesmo por uma causa.

Numa reunião de indianos contra o Império Britânico, antes da independência da Índia um Muçulmano incitava à violência, incitando os presentes à matança dos britânicos. Ao que Mahatma Gandhi respondeu “Por esta causa [independência da Índia], eu estou disposto a morrer; não há nenhuma causa, porém, pela qual eu esteja disposto a matar.”

Conclusão: Ao longo da sua História, o Cristianismo já conheceu momentos de violência, fanatismo e intolerância; o Islão, porém, ainda não descobriu a tolerância, o diálogo e a coexistência pacífica com a sociedade civil e as outras religiões.

Pe. Jorge Amaro, IMC

 

1 de março de 2022

Islão, razão e Jesus

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Deus criou-nos como seres racionais e, como tal, não pode pretender que nos relacionemos com Ele sem o uso da razão. Temos de ter um mínimo de garantia. A razão está para a fé como o sal para a comida. O sal dá gosto, dá sentido à comida; assim a razão dá sentido à fé.

Maomé, o último profeta, Jesus, o filho de Deus
O Islão aceita como válida a tradição religiosa judaica descrita no Antigo Testamento que eles consideram também seu. Maomé é, portanto, o último dos profetas que Deus enviou ao mundo, sendo o penúltimo Jesus.

Se a humanidade viver mais 10 000 ou 20 000 anos, que sentido faz que o último profeta tenha vindo no ano 524? Mais mudanças sofreu o mundo e a humanidade desde o ano 524 que em todos os milhões de anos anteriores. Por que motivo então antes desta data os profetas se sucediam uns aos outros com frequência e depois do ano 524 já não são precisos?

Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por meio de quem fez o mundo. Hebreus 1, 1-2

No caso do cristianismo, mesmo que a humanidade viva até ao ano 20 000, faz sentido que a revelação tenha acontecido no ano zero. Como explica o autor da carta aos Hebreus, o enviado não é mais um profeta, mas sim o próprio Deus que vem viver entre nós.

Há aqui um salto qualitativo; os profetas trazem mensagens para um tempo, a Palavra de Deus é eterna para todos os tempos e lugares, porque Deus não precisa de falar duas vezes. Por outro lado, Cristo não é só uma palavra proferida, é uma palavra vivida e só se vive uma vez.

Em que sentido é o último profeta? É porque o Islão tem uma doutrina mais refinada e em caminho ascendente, segundo a qual já chegamos ao topo? Mas o topo até parece pertencer ao cristianismo, que tem o amor como único mandamento; um amor que inclui até os nossos próprios inimigos.

O Islão, na sua prática e doutrina, até se assemelha mais ao Antigo Testamento que ao Novo. Prova disso o facto de que enquanto que Jesus, há dois mil anos, tratou as mulheres de igual para igual, e não deixou que uma mulher adultera fosse apedrejada, no mundo muçulmano as mulheres são tratadas como cidadãos de segunda categoria, e as adulteras ainda hoje são apedrejadas.

Se um observador imparcial comparasse a narrativa cristã, ou seja, o Novo Testamento com a narrativa muçulmana, ou seja, o Alcorão escrito quase 600 anos depois, teria necessariamente que concluir que há de longe muito mais humanismo no Novo testamento que no Alcorão.

O Islão é em si violento por natureza pois não se trata de amar a Deus que nos amou primeiro; não se trata de amor com amor se paga. Deus no Islão é o senhor do Antigo Testamento que ordena submissão. A palavra, Islão significa de facto submissão. Em termos humanos, ninguém ama aquele que nos exige submissão; onde há submissão não há liberdade nem amor. Em contraste com isto, Jesus diz aos seus discípulos: "Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai." João, 15, 15

Historicamente, Mohamed, o fundador do Islão era um guerreiro; a própria religião começou com a conquista violenta de Meca, espalhada e expandida por meios de guerra conquistas e submissões das populações conquistadas e não pregando como o cristianismo.

O sentido da Encarnação de Deus
Desde a perspetiva da religião muçulmana e demais religiões, eu posso queixar-me e dizer a Deus. “Ouve, porque não paras de mandar mensageiros e profetas e vens cá tu viver a nossa condição humana? É fácil dar conselhos; por que não nos mostras como se vive a vida humana sendo exemplo para nós? Vem cá a baixo e fala-nos com conhecimento de causa, isto é, a partir da nossa condição humana, depois de teres sentido na carne o frio, a fome, a dor, a tentação, o prazer, a injustiça, a traição?”

Da perspetiva do cristianismo, não posso defender este argumento na frente de Deus. porque Cristo, apesar da sua condição divina, tornou-se um de nós, em tudo igual a nós exceto no pecado, para nos mostrar na sua própria vida que é possível viver a vida humana tal como Deus a idealizou antes da queda de Adão.

Cristo não mostra o caminho, a verdade e a vida; é Ele mesmo o Caminho, a Verdade e a Vida. Na sua pessoa e vida, vemos o que Deus é e o que o homem está chamado a ser. Cristo é o peso e a medida do ser humano, a referência de humanidade, porque só Ele que era 100% Deus foi também 100% homem. Por isso, todo o indivíduo que queira chegar à felicidade e autorrealização como pessoa, é com Cristo que tem de se comparar.

Qualquer pessoa que queira avaliar o seu próprio nível de humanidade, e o quão genuíno ele ou ela é como pessoa humana, deve medir-se com Jesus, o único modelo para os seres humanos. Ao contrário, A vida do profeta Maomé está longe de ser exemplar. Na verdade, os próprios muçulmanos não o têm como santo nem como modelo a imitar. Como guerreiro e chefe militar exerceu violência e cometeu crimes de guerra quando mandou matar 600 judeus e escravizou as suas mulheres e crianças.

Permitia aos seus fiéis que se casassem até 5 vezes, mas ele mesmo casou-se 8 vezes e tinha concubinas, algumas das quais menores de idade; mandava cortar as mãos aos ladrões e flagelar as adúlteras. De alguma forma, mesmo para os muçulmanos, mais importante é Jesus o filho de Maria porque é Ele, e não Maomé, que vai voltar para julgar os vivos e os mortos, tal como nós acreditamos.

“Deus é amor” 1ª João 4,8
Nenhuma religião define tão bem a essência de Deus como a cristã. Mas ainda que a religião tivesse uma formulação próxima ou parecida com esta, sabemos que o amor é como uma moeda na qual uma das faces é alegria e prazer e a outra é tristeza e dor. “Quem se obriga a amar obriga-se a padecer”.

Como não há amor sem sofrimento, da perspetiva muçulmana, ou seja, da forma de conceptualizar o divino no Islão, como pode Deus provar que nos ama se nunca sofreu por nós? Em Cristo, Deus sofreu a tortura e a traição, o abandono dos amigos e até o abandono do seu Pai; sofreu por nós e no nosso lugar o que nenhum homem sofreu nem sofrerá: sentir-se condenado à morte eterna sob o peso dos nossos pecados.

Ao contrário de Maomé, Buda e os demais fundadores de religiões que morreram velhos depois de uma vida longa, Cristo viveu uma vida curta, foi condenado à morte, torturado e executado. Encarnou o homem novo na sua vida, sendo modelo de humanidade e pagou com a própria vida o ter enfrentado os poderosos exploradores do povo, dos mais pobres e humildes.

Deus é uno e trino, é comunidade
O Islão herdou o monoteísmo simples dos hebreus. Por isso, tanto judeus como muçulmanos, não têm forma de fundamentar teologicamente que o homem é feito à imagem e semelhança de Deus. Se Deus é amor e o amor que não sai fora de si mesmo é egocentrismo, Deus é mais que um; Deus é uma família: Pai, Filho e Espírito Santo e, através Dele, encontramos o modelo da família humana: pai, mãe e filho.

Deus é uno e trino, tal como uma família humana está chamada a ser uma unidade de três pessoas, onde a existência de uma só não é possível sem a existência das outras duas – um homem não é pai sem ter uma mulher e um filho; uma mulher não é mãe sem ter um filho e um marido; e um filho não existe por si mesmo sem ter um pai e uma mãe.

Como Cristo é o modelo para a vida humana individual, a Santíssima Trindade é o modelo para a vida humana social; um modelo de paz, harmonia e amor. O judaísmo e o Islão carecem de modelos, de pontos de referência teológicos para a vida em família e em sociedade, concebendo a Deus como um grande solitário.

Conclusão: Quem não deve, não teme… Se o Islão acha que não tem incoerências e inconsistências que ameaçam a sua própria existência que se submeta, já que é a religião da submissão, à crítica da razão, como o fez e faz o cristianismo. Uma fé que não se deixa confrontar pela razão não é fé, é superstição.

Pe. Jorge Amaro, IMC



1 de fevereiro de 2022

Islão, razão e Maria

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O  concílio Vaticano I define a fé como sendo um “Obséquio razoável”. Razoável porque é plausível, contém um mínimo de razão, faz sentido sem chegar nunca a ser racional como as ciências positivas. A fé totalmente desprovida de razão é irracionalidade e superstição que facilmente conduzem ao fanatismo.

Por outro lado, a parte não pode conter o todo, é ilógico que a criatura com a sua razão possa compreender totalmente o seu Criador. A fé não pode ser completamente racional, sendo, por isso, um obséquio de nós próprios a Deus: é confiar e render-se incondicionalmente ao outro.

Juntamente com a Grécia e Roma, o cristianismo é um dos vértices do triângulo onde assenta a cultura e civilização da Europa e do mundo ocidental para onde Europa se alargou. A Igreja foi mãe e mestra da cultura ocidental e, precisamente por isso, no processo de emancipação foi e continua a ser agredida por todas as instâncias da cultura e vida social.

Se há uma religião que está sempre sob o severo escrutínio da razão e da crítica social é o cristianismo. A meu ver, o Islão não tem passado nem passou ainda por este crisol purificador, por isso contém muitas inconsistências e deficiências do ponto de vista da razão.

Génese histórica e literária do Alcorão
O Alcorão foi escrito no antigo dialeto árabe e os muçulmanos acreditam que se trata de uma compilação de revelações feitas por Alá ao Profeta Maomé (Mohammad) ao longo de vinte e três anos. As revelações foram feitas em árabe e, segundo as crenças muçulmanas, através do Arcanjo Gabriel (Yibrail).

A Bíblia é um grupo de livros, cada um com o seu autor inspirado por Deus. No entanto, é o autor que escreve, pelo que devemos retirar desses escritos o seu caráter e personalidade individuais, usos, costumes e crenças da época se quisermos chegar à “ipssismima Dei verbum” ou seja, à Palavra de Deus. Por isso, a ideia de que o Arcanjo Gabriel ditou o Corão ao profeta soa a conto de fadas e não é plausível nem humanamente credível.

“Libris ex libris fijnt fiunt”, do nada só Deus cria. É de supor que Maomé teria extraído as suas ideias após uma leitura direta das revelações anteriores, judias, cristãs e outras. Nas suas viagens, o profeta conheceu judeus e cristãos e estava familiarizado com a Bíblia, tanto com o Velho Testamento como com o Novo Testamento.

Do Corão, pode deduzir-se que Maomé era um cristão nestoriano (oriental), que viveu unido em matrimónio cristão com a sua única esposa Khadija. Maomé foi um dos líderes numa luta de poder em Meca entre cristãos que queriam erradicar o politeísmo e introduzir o cristianismo, e os governantes da cidade que veneravam os deuses tradicionais do Kaaba.

A estratégia de Maomé era unir todo o povo da Bíblia cristã, isto é, tanto os cristãos judeus como os cristãos orientais, contra os politeístas idólatras. Em 615, quando a luta religiosa em Meca entre cristãos e politeístas se tornou mais intensa, partes do grupo de Maomé fugiram para os seus irmãos na fé na cidade cristã de Axum, no norte da Etiópia.

Em 622, o grupo de monoteístas de Maomé mudou-se para Yatrib (Medina). Aqui começou a unir cristãos judeus e cristãos orientais, como nestorianos monofisistas, contra os politeístas de Meca. Em 630, as tropas de Maomé conquistaram finalmente Meca e tomaram o templo Kaaba, convertendo-o num santuário monoteísta.

O que o profeta pretendia era, portanto, uma síntese do judaísmo e cristianismo adaptado à realidade árabe. Provavelmente, nunca pensou numa nova religião, pelo que se voltasse à Terra hoje não se reconheceria na religião muçulmana atual. O mesmo aconteceria com Lutero e a sua Reforma, que nunca pretendeu criar um cisma na Igreja – se voltasse à Terra hoje, provavelmente não se reconheceria como protestante. De facto morreu como católico.

Jesus e Maria no Alcorão
Com um capítulo inteiro (sutra) dedicado só a ela, a Virgem Maria é a única mulher referida pelo seu próprio nome no livro do Alcorão. Todas as outras são mencionadas em relação a um varão; por exemplo, não há referências a Sara, mas sim à mulher de Abraão. Sobre a virgindade de Maria, o Alcorão afirma claramente que está em pecado aquele que não acredita nela ou a põe em causa.

Segundo as duas tradições, tanto a cristã como a muçulmana, ambos, Maria e o profeta Maomé, recebem a visita do Arcanjo Gabriel que a ambos sopra a Palavra. Esta Palavra em Mohammed tornou-se num livro – o Alcorão – em Maria, tornou-se num homem – Jesus de Nazaré. Pelo que, dizem alguns estudiosos do Islão, Jesus ou o profeta Isa, como é chamado no Islão, é o Alcorão em forma de homem e o Alcorão é Jesus em forma de livro.

Muitos muçulmanos podem convenientemente querer esquecer que, quando Maomé voltou para Meca, deu ordens para que todas as estátuas de ídolos fossem destruídas, mas ele mesmo correu para abraçar e proteger com o próprio corpo a estátua da Virgem Maria com o seu filho Jesus ao colo.

O Islão atual, para marcar as diferenças com o cristianismo, ignora estes factos, mas o certo é que até para a fé muçulmana é o profeta Isa, Jesus, o filho da Virgem Maria, que há de voltar no último dia para julgar os vivos e os mortos.

O cristianismo e o Islão não são irreconciliáveis e Maria podia ser a base comum sobre a qual se estabeleceria a paz e o entendimento, não só entre o cristianismo e o Islão, mas também com o judaísmo.

A virgindade de Maria no Alcorão
Face a estes factos, vejamos a primeira contradição e inconsistência na religião muçulmana – se para a fé Muçulmana, como para nós, Maria a mãe de Jesus é Virgem, quem é o pai de Jesus? É óbvio que não pode ser José, o carpinteiro, pois se é ele Maria não pode ter permanecido virgem.

E se José não é o pai de Jesus e Maria permanece virgem depois de conceber, então a conceção não pode ter sido natural e o pai não pode ter sido humano. Se não é obra humana, só pode ser obra de Deus, e se é obra de Deus então Deus tem um filho e não é como o Judaísmo e o islão o concebe, um Deus solitário, mas sim como o concebe o cristianismo e como nos foi revelado por Jesus Cristo, um Deus amor, expressado e vivido em família ou comunidade, a Santíssima Trindade.

Conclusão: Maria, a mulher judia mais popular de todos os tempos, respeitada e amada pelos muçulmanos como mãe do profeta Isa, venerada e amada pelos cristãos como a mãe do filho de Deus, pode um dia trazer a paz, a harmonia e o entendimento entres as três religiões abraâmicas. Sendo Fátima, o nome da filha preferida de Maomé, este poderia ser o quarto segredo escondido no nome da localidade portuguesa onde a Nossa Senhora apareceu

Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de janeiro de 2022

Deus só abençoa, a Natureza pode amaldiçoar

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Tomo hoje por testemunhas contra vós o céu e a terra; ponho diante de vós a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe a vida para viveres, tu e a tua descendência. Deuteronómio 30,19

Autonomia da criação
Influenciados por um sentimento religioso ancestral, quando uma calamidade se abate sobre nós ou sobre os outros, podemos não o afirmar por palavras, mas sempre temos o pressentimento de que foi castigo de Deus, e chegamos a dizer: “Que mal fiz eu a Deus?” “Porque me acontece isto a mim?” Ao que eu respondo às vezes sarcasticamente “E porque não a ti?” A todos nós pode acontecer tudo.

Foi esta ideia que os amigos de Job tentaram inculcar-lhe, “Se toda esta tragédia te sucedeu, perderes a riqueza, a saúde e os teus filhos, é porque fizeste alguma coisa contra Deus que agora te castiga.” Job confessa a sua inocência e, indiretamente, afirma que ninguém está livre de tragédias, desastres, mesmo não tendo infringido nenhuma lei, nem de Deus nem da Natureza.

A criação é autónoma. Deus criou-a e deu-lhe independência e autonomia, como no la deu a nós. Deus que cria a Natureza com as suas leis, não vai ser Ele o primeiro a infringi-las ao intervir caprichosamente contra estas mesmas leis. É certo que já não entendemos a Natureza à maneira da Física de Newton, funcionando mecanicamente como um relógio suíço.

Mesmo entendendo a realidade como hoje a entende a Física Quântica, onde as leis da Natureza não se verificam sempre em todo o momento e em todo o espaço da mesma forma, mas sim segundo uma probabilidade estatística, mesmo entendendo uma Natureza onde há lugar para o acaso, a incerteza e a indeterminação, nada acontece que Deus não saiba e tenha previsto. A criação tem um elevado grau de autonomia, mas não está fora dos desígnios de Deus nem Deus fora dela, pois é imanente, ou seja, está presente no coração de cada coisa que ele criou.

Os castigos de Deus são antropomorfismos humanos
A Bíblia no Antigo Testamento, está cheia de episódios onde Deus aparece como vingativo e castigador: o dilúvio (Génesis 6:9–8:22), a Torre de Babel (Génesis 11:1–9), Sodoma e Gomorra (Génesis 18:20–21, 19:23–28), as dez pragas do Egito, (Êxodo, capítulos 7–12), entre outros.

A verdade é que Deus não castiga ninguém, Deus não sabe castigar, não sabe amaldiçoar, só sabe abençoar, só quer o nosso bem. A imagem que devemos ter de Deus é a que nos transmite Jesus de Nazaré. A do Antigo Testamento é um antropomorfismo, ou seja, uma forma de imaginar a Deus de maneira humana. Uma projeção humana sobre a identidade de Deus. Como eu sou castigador e vingativo, projeto sobre Deus a imagem que eu tenho de mim mesmo.

Os meus planos não são os vossos planos, os vossos caminhos não são os meus caminhos - Oráculo do Senhor. Tanto quanto os céus estão acima da terra, assim os meus caminhos são mais altos que os vossos, e os meus planos, mais altos que os vossos planos. Isaías 55, 8-9

O mal que nos acontece, seja em forma de acidente, calamidade ou doença, nunca é da responsabilidade de Deus nem querido por Ele. Deus que faz chover sobre justos e injustos, (Mateus 5, 45) ama-nos incondicionalmente e não ama os bons mais do que ama os maus, os justos mais que os injustos.

A Natureza castiga
Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos é que ficaram embotados. Ezequiel 18, 2

O facto de Deus não castigar, não significa que não haja castigos. Toda a boa ação tem um prémio e toda a má ação tem um castigo. Os prémios são dados por Deus em forma de graças concedidas; os castigos são aplicados pela Natureza.

Deus perdoa sempre, os homens perdoam às vezes, a Natureza não perdoa nem esquece. O que fazemos contra a Natureza, seja a nossa natureza humana, individual e social ou a natureza física, será pago por nós ou por alguém.

“What goes around comes around”, como se diz em inglês; tanto o mal como o bem que fazemos têm um efeito boomerang. Como diz o nosso povo “o mal fica com quem o pratica” ou ainda “cá se fazem cá se pagam”.

Tomemos por exemplo o consumo de álcool; o nosso fígado tem capacidade para sintetizar uma certa percentagem de álcool, tudo o que for para além dessa percentagem danifica o fígado e as consequências são sempre nefastas, como sabemos. O pecado é o e-mail, a penitência ou o castigo é o anexo.

O universo astronómico, seja o da natureza física, o da natureza animal ou o da natureza humana, rege-se pelas mesmas regras; ninguém infringe essas regras sem pagar o preço.

A nível individual, portanto, o que fazemos contra a nossa natureza será pago por nós próprios ou por algum descendente nosso; o que é certo é que alguém o pagará. Nada se faz contra a Natureza que não tenha consequências. O castigo ou a penitência segue o pecado, como o anexo de um e-mail.

A temperatura do planeta está a aumentar devida à excessiva concentração de gases carbónicos na atmosfera que evitam que o calor do nosso planeta se disperse. Algumas consequências já são visíveis, mas vão piorar muito se não começarmos a reduzir drasticamente a emissão desses gases.  

Deus adapta-se a nós
Deus escreve sempre direito por linhas tortas.
Não há mal que por bem não venha


Nós partimos o prato, Deus recolhe os cacos e trata de o reparar. Adão e Eva pecaram e Deus não ficou ali impávido e sereno, saboreando a vingança da Natureza que se revoltou contra aqueles que quebraram as suas leis, castigando-os, mas divisou um plano para os salvar.

O filho pródigo abandonou o Pai em busca de uma falsa liberdade, e o Pai deixou-o ir respeitando a sua escolha errada, sabendo muito bem que certas lições só se aprendem experiencialmente, errando antes de acertar.

Por outro lado, não podemos obrigar um adulto a fazer o bem; uma criança que não sabe a diferença entre o bem e o mal, sim, podemos obrigá-la a fazer o bem; para um adulto, no entanto, o bem tem de ser uma escolha sua, não uma obrigação imposta.

Deus que, por respeito à nossa liberdade, nos permite fazer o mal, não tem desejos de vingança como por antropomorfismo nos diz o Antigo Testamento. Pelo contrário, o Deus Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo é um Deus compassivo, nem sequer lento para a ira, mas completamente desprovido dela. Como filhos pródigos longe d’Ele, nunca nos esquece ou perde de vista, está sempre de atalaia a ver se um dia voltamos e, no dia em que voltamos, faz uma festa.

A ovelha deixa de ser ordeira e quer ser ovelha negra. Sai do rebanho, quer ver o que há mais além, descobrir pastos novos, experimentar e perder-se. Mas o pastor não a abandona ante o perigo e, quando supõe que esta está perdida nas suas buscas e quer regressar ao rebanho, o pastor busca-a por vales e valados até a encontrar. Quando a encontra, põe-na aos ombros e alegra-se; ele e os seus amigos fazem uma festa.

Nós homens matamos o Salvador da Humanidade, fomos livres de o fazer, mas Deus que escreve direito por linhas tortas e que tira bem do nosso mal, que se adapta sempre aos nossos erros, buscando a melhor solução para eles, Ressuscitou de entre os mortos para o fazer primicia dos que se salvam.

Deus não quer a morte do pecador. Perante o nosso mal, mesmo o merecido, busca sempre formas de nos salvar das situações em que nos colocamos ou nos colocam os outros ou a natureza. Isto acontece porque Deus é a regra suprema e tudo Lhe está submetido por muito tortos que sejam os nossos caminhos.

Deus, que por nos amar respeita a nossa liberdade e as nossas más escolhas, deixa-nos entrar no túnel do erro e espera ansiosamente por nós à saída. E se vê que não saímos e estamos em apuros, sempre que O invocamos, aparece-nos na hora H com o sétimo de cavalaria para nos salvar dos palpos de aranha onde nos colocámos.

Conclusão: Deus sempre perdoa e esquece, abençoa e não castiga; pelo contrário, a Natureza não perdoa nem esquece e sempre castiga.

Pe. Jorge Amaro, IMC



1 de janeiro de 2022

O Mar de Deus e o Rio da vida

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Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, como teria dito Eu que vos vou preparar um lugar? E quando eu tiver ido e vos tiver preparado lugar, virei novamente e hei-de levar-vos para junto de mim, a fim de que, onde eu estou, vós estejais também. E, para onde eu vou, vós sabeis o caminho.» Disse-lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos nós saber o caminho?» Jesus respondeu-lhe: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim.» João 14,2-6

Os bebés e as crianças pequenas não têm consciência de que existem e frequentemente falam de si mesmos na terceira pessoa. Quando à idade de 6 ou 7 anos ganhamos autoconsciência, ou seja, temos consciência de que existimos como pessoas humanas, livres e independentes, damo-nos conta de que somos finitos, de que somos, como dizia Heidegger, um ser para a morte.

É por essa mesma altura que buscamos o sentido da nossa vida e nos colocamos as três clássicas perguntas: de onde vimos? Para onde vamos? Que sentido tem a vida? Os agnósticos dizem que não sabem, que não têm informação suficiente para responder às perguntas; os ateus sim, sabem e dizem que vêm do nada, que vão para o nada e por muito que busquem o sentido da vida, algo que começa no nada e termina no nada não pode, pela lógica do raciocínio, ser mais do que nada. Em matemática, zero mais zero é igual a zero.  

Os crentes dizem que vêm de Deus, vão para Deus e vivem para dar glória a Deus, pondo os talentos Dele recebidos ao serviço da humanidade, chegando assim à plena realização de si mesmos e à felicidade que nunca será completa nesta vida. Daí que Sto. Agostinho tenha dito: “Fizeste-nos Senhor para vós e o nosso coração anda inquieto enquanto não repousa em vós”.

Deus e a água: princípios de vida
A vida é como água a correr…

Todos os rios vão parar ao mar e o mar nunca se enche porque é no mar que os rios nascem. O ciclo da água é uma metáfora da vida humana: a vida vem de Deus que é o criador de tudo e de todos e volta a Deus.

É nele, realmente, que vivemos, nos movemos e existimos Atos 17, 28.

Tal como Deus é ao mesmo tempo imanente e transcendente a toda a criação, a água contida no oceano é transcendente a toda a forma de vida, pois existe por si mesma, independente e fora dos seres vivos. Ao mesmo tempo, permeia-os a todos, pois não há vida sem água. Parafraseando o livro dos Actos dos Apóstolos, é nela realmente que vivemos, nos movemos e existimos do ponto de vista físico; do ponto de vista espiritual é Nele, Deus, que vivemos, nos movemos e existimos. A água é o princípio da vida física, Deus é o princípio da vida espiritual.

Constituídos por 70% de água, aprendamos com ela.
No seu peregrinar por este mundo, a água não discute nem enfrenta os seus obstáculos, contorna-os por cima ou por baixo ou por um dos lados; encontra sempre uma saída. Assim deve ser a nossa vida: não há problemas sem solução e, como diz o povo, o que não tem solução solucionado está, não é sequer um problema, pois todo o problema tem solução.

Podemos viver sem uma perna, sem um braço, sem o pai, sem a mãe, em cadeira de rodas, como paraplégicos, tetraplégicos. Como a água contorna e volta a correr, assim nós, perante um infortúnio, devemos contornar e não rebelar-nos contra a situação, voltando a reencontrar o sentido da vida. Não deve haver lugar para o desespero, o suicídio ou a eutanásia. Aquele que no seu tempo foi considerado como a pessoa mais inteligente do mundo, Stephen Hawking, vivia numa cadeira de rodas, apenas falava com a ajuda de um computador e tinha uma mobilidade muito reduzida nos braços e nas mãos.

“Águas passadas não movem moinhos”. Tal como a água, uma vez passada, já não move o moinho que ficou para trás, deixemos o passado no passado, não permitamos que influencie negativamente ou hipoteque o nosso presente.

O ciclo da água e o ciclo da vida
A água está contida no mar; este é o grande reservatório onde toda a água vai parar e de onde toda a água procede. Com a ajuda dos ventos e das marés, a água do mar evapora-se e, em forma de vapor de água, é transportada pelo mesmo vento para a atmosfera a cima da terra. Aí condensa-se em gotas de água pura que caem sobre a terra em forma de chuva, neve, geada, orvalho e penetram a terra, formando rios e lençóis de água subterrânea.

Posteriormente, esta água emana da terra em forma de surgentes, também chamadas nascentes de água, das quais as maiores dão origem a um rio. Tal como a água, antes de nascer nós já existíamos na mente de Deus; e como a água que era pura encarna num “corpo” constituído pelos sais minerais da terra que a alberga, assim nós, puros na mente de Deus, adquirimos um corpo físico geneticamente em conformidade com o dos nossos pais que nos conceberam.

Como um rio que nasce pequenino e vai engrossando com a ajuda de afluentes, regatos, ribeiros, ribeiras e outros rios, assim nós vamos crescendo em estatura e caráter com a ajuda dos nossos pais, dos nossos irmãos, tios, professores, catequistas, médicos, etc. Há rios que tristemente não chegam ao mar, perdem-se no calor das areias do deserto; assim como há vidas que se perdem, que fracassam nos seus objetivos e se perdem.

Um rio pode já ter um grande caudal, mas pode sempre receber mais água, até de pequenos regatos. Do mesmo modo, nós aprendemos até morrer; não há ninguém tão pobre que não tenha nada que dar nem tão rico que não tenha nada que receber.

Como um rio, não podemos instalar-nos por mais bonita que seja a paisagem, pois não temos aqui cidade permanente. Podemos até formar um lago como o rio Jordão forma o mar da Galileia, mas a água transborda e o Jordão continua até ao Mar Morto que é morto não porque não recebe, mas porque não dá. O rio Jordão morre no Mar Morto porque, ao contrário do mar da Galileia, não transborda e continua até ao Mar Vermelho, ficando ali.

No caudal de grandes rios constroem-se grandes barragens, enormes paredes côncavas para reter a força das águas. Esta força é encaminhada ou sublimada em forma de canais para irrigar os campos e dar vida ao mundo rural e também como energia eléctrica que dá energia e torna possível a vida urbana. Na nossa vida precisamos também de grandes contenções dos nossos instintos básicos, grandes sacrifícios e penitências para que essa energia seja canalizada e atinja altos objetivos e benefícios pessoais, culturais e sociais. Nada na vida se consegue sem esforço, suor e lágrimas.

Em delta ou em estuário, os rios chegam finalmente ao mar, depois de um percurso de milhares de km como acontece com o rio Nilo. Mais curtas ou mais longas, também as nossas vidas chegarão um dia ao seu termo; como a água se deixa ir para o mar, morrer é deixar-se ir para o seio de Deus onde já tínhamos estado.

Assim como a chuva e a neve descem do céu, e não voltam mais para lá, senão depois de empapar a terra, de a fecundar e fazer germinar, para que dê semente ao semeador e pão para comer, (Isaías 55, 10), assim nós também não regressamos ao céu de mãos vazias, mas sim com os frutos das sementes que eram os talentos que Deus nos deu. Morrer é, portanto, regressar a casa; um regresso cantando de alegria, carregando os feixes de espigas. (Salmo 126, 6)

Viver é deixar (to live is to leave)
Desde o princípio da criação, Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher, e serão os dois um só. Marcos 10, 6-7

Para quem o inglês é uma segunda língua, existe a tendência de pronunciar “to live” (viver) e “to leave” (deixar) da mesma maneira. Inspirado neste facto cheguei à conclusão de que viver é deixar, e exige de nós um largar contínuo. A vida começa quando um homem e uma mulher deixam os respetivos lares para formarem um lar novo.

No ato conjugal, um espermatozoide X ou Y parte correndo para se unir ao óvulo e os dois formam uma só carne, como diz a escritura sobre o matrimónio. Concebida esta célula primigénia nas trompas de Falópio, a vida requer que esta deixe este espaço e emigre para o útero onde se instalará e crescerá por nove meses.

Passados os nove meses e quando o bebé está plenamente constituído, a vida requer que saia, não pode continuar no útero pois matar-se-ia e mataria a mãe. Saído deste a duras penas, é acolhido num útero maior. A família onde o bebé sente o amor incondicional de pais e irmãos; porém, para continuar a crescer, para viver, tem de deixar este ambiente de amor incondicional para frequentar a escola primária onde o amor já não é incondicional. Não há criança que não chore no primeiro dia da escola.

Quando a criança já se familiarizou com a sua escola e quando esta já se tornou numa segunda família, tem de a deixar e voltar a ser o mais pequeno numa escola secundária. Depois deixa esta para a universidade, o que requer deixar também a sua terra natal pois ali não há universidade. Muitos emigram para outro país para ter uma vida melhor.

E todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá por herança a vida eterna. Mateus 19, 29

O povo hebreu constituiu-se como tal ao deixar a escravidão do Egito, atravessando o deserto, rumo à terra Prometida; este é o arquétipo de todo o tipo de progresso, do científico ao espiritual. Para ser discípulo de Cristo também é preciso deixar. Não há crescimento de nenhuma espécie sem morrer no anterior. A cobra, para crescer, tem de abandonar a pele que tinha antes. Crescer significa morrer; assim se explica o crescimento físico do nosso corpo; umas células morrem para dar lugar a outras. Do ponto de vista biológico, a cada cinco anos temos um corpo diferente, pois nenhum das células que o constituía há cinco anos existe agora.

Deixar a vida pelo mundo em pedaços repartida
Tem sido o meu lema desde que me fiz missionário. Desde os 10 anos, nunca estive mais de 5 anos no mesmo lugar. Vivi em vários sítios em Portugal, depois em Espanha, Inglaterra, Etiópia, Canadá, Israel, Estados Unidos. Em vez de viver a minha vida toda sempre no mesmo lugar e com as mesmas pessoas, vou caminhando como peregrino, deixando pedaços de mim aqui e ali para os recolher todos ao chegar à Terra Prometida do Céu.

Conclusão: Não há vida sem água. O ciclo da água que começa e termina no Mar, espelha o ciclo da vida que começa e termina em Deus. Pela água, vivemos, nos movemos e existimos fisicamente. Em Deus, vivemos, nos movemos e existimos espiritualmente.

Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de dezembro de 2021

3 Festas cristãs: Natal - Páscoa - Pentecostes

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Nos 365 dias do ano litúrgico a Igreja tem mais de um santo para cada dia; para além disto há outras festas ainda mais importantes relativas às verdades da nossa fé. Para além destas há solenidades relativas a Jesus e a sua Santíssima mãe; de entre estas solenidades há que destacar o Natal, a Páscoa e o Pentecostes.

São as solenidades mais importantes do ano litúrgico. Por serem tão importantes, cada uma delas tem um tempo de preparação: o Advento para o Natal, a Quaresma para a Páscoa e o Tempo Pascal para o Pentecostes.

A importância da festa
“Panem et circenses”, pão e diversão, no entender dos romanos, a diversão era para o ser humano tão importante como o pão. Por isso, as festas populares ou religiosas são manifestações culturais e aparecem em todas as sociedades, sejam elas primitivas, modernas ou pós-modernas, rurais ou urbanas, atrasadas ou economicamente desenvolvidas.

Festejar, celebrar sempre esteve presente desde a antiguidade mais remota, e continuará a ser assim na medida em que se trata de uma expressão humana que envolve uma variedade de elementos: lúdico, emocional, psicológico, social, estético, económico, simbólico, ritual e religioso. Para além dos elementos que envolvem, as festas têm várias funções tanto a nível individual como social:

Coesão social - As festas desempenham numa determinada sociedade uma função de coesão. As festas, os feriados, os dias de descanso são um momento adequado para expandir as relações sociais, para integrar socialmente indivíduos e grupos e reforçar os laços sociais.

Identidade e pertença – A nível individual, as festas são um momento de identificação e pertença a um determinado grupo social e cultural. Nas festas celebra-se a cultura e a idiossincrasia particular de cada grupo. É nas festas que um grupo se autorreconhece como tal, com as suas particularidades, sobretudo com o que o distingue dos outros grupos que não celebram essa festa. Na festa, tanto um grupo como qualquer indivíduo no interior desse grupo, tomam consciência da sua identidade e crescem e configuram-se ainda mais nela.   

As pessoas que participam numa determinada festa identificam-se com o santo padroeiro, com uma ermida, com um lugar, com uma bandeira, com um prato típico, com um bairro, etc. Em suma, o festivo traz personalidade a uma comunidade de indivíduos.

A festa, com o banquete que a integra, é o único momento na vida humana onde a alegria e prazer estão de mãos dadas. A alegria de estar com quem mais amamos, amigos e familiares, une-se ao prazer de uma boa refeição constituída pelos pratos tradicionais da nossa infância e regada com os melhores vinhos. É um “Non plus ultra” na vida humana. Por isso, também na Bíblia, o Reino dos Céus é muitas vezes comparado a um banquete de manjares deliciosos e suculentos, regados com vinhos generosos, para todos os povos. (Isaías 25, 6ss)

Alternância cíclica – Tal como um marcador dentro de um livro, as festas distribuem-se ao longo do calendário anual e cíclico, marcando solstícios e equinócios. São momentos-chave que servem para sinalizar mudanças de um período para outro, de uma estação para outra, de um ciclo para outro.

Catarse libertadora - As festas são uma catarse libertadora, têm a função de desafogar o grupo e o indivíduo, porque rompem com a monotonia e rotina diária. São uma trégua na luta diária, como os jogos olímpicos eram na Antiguidade, um tubo de escape para repressões sociais e individuais. Desencadeiam-se os instintos, por um momento vem ao de cima o que verdadeiramente somos e que se esconde durante a rotina diária.

Rompem-se e violam-se deliberadamente normas, regras, padrões sociais e até a própria decência. Durante o tempo festivo, é como se tudo mudasse por momentos, de modo a que a pessoa aguente a monotonia do resto do ano.

Comunicação com o divino – para além da comunicação entre indivíduos e do estreitamento de laços sociais, a festa é também um momento de comunicação com o divino e um estreitamento de laços com esse ser superior em quem acredita a maior parte dos habitantes deste planeta. Certos festivais desempenham, portanto, uma função religiosa.

São uma expressão de devoção popular e piedade para com Cristo, a Virgem Maria ou os santos. Os festivais populares de conteúdo religioso são momentos propícios ao cumprimento de uma promessa, à realização de um sacrifício ou penitência ou ao pedido de uma graça. Nestes casos e nestes momentos, fazem-se presentes uma série de rituais, símbolos, valores, crenças e virtudes relacionados com a espiritualidade e religiosidade de um grupo de indivíduos pertencentes a determinada crença ou religião.

Iniciação – Em certos casos, as festividades cumprem uma função de iniciação. Para certos grupos sociais, as festividades representam a passagem de uma fase da vida para outra, ou seja, da infância à adolescência, da adolescência à juventude, etc. É tempo de adotar novos papéis sociais, novas atitudes e novos comportamentos. Assim, por exemplo, os adolescentes aproveitam as festas para começar a beber álcool ou a fumar, prometem amor, chegam mais tarde a casa, etc.

Função económica - Finalmente, as festividades desempenham uma função económica. Muitas das festividades atuais estão associadas a antigas feiras de origem medieval. Mas, sem dúvida, hoje em dia todos eles são um meio de motivar o consumo de bens e serviços em diferentes sociedades.  

O sentido do ano litúrgico
Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e pelos séculos. Hebreus 13,8

“Primavera vai e volta sempre, mocidade não volta mais”. Neste pequeno provérbio ou frase popular se resumem duas conceções diametralmente opostas do tempo. A circular, pela qual a Primavera vai e volta sempre; todas as festas pressupõem esta dimensão pois se celebram uma e outra vez, todos os anos. A mocidade não volta mais, alude à dimensão retilínea do tempo; será por isso que alguns de nós não gostamos de celebrar o dia de anos quando deixamos de ser jovens?

O tempo cósmico: o Círculo – Partindo do objetivamente observável, na Antiga Grécia e no Extremo Oriente prevaleceu sempre uma compreensão circular do tempo: do ponto de vista cósmico, os 365 dias que a Terra leva a dar uma volta ao sol; do ponto de vista da Natureza, mais propriamente das mudanças climatéricas, as quatro estações do ano, Primavera, Verão, Outono e Inverno. A partir destes factos, nasceu para a Filosofia o mito do “eterno retorno”, para a Ciência a ideia de que “Não há nada de novo debaixo do sol” e para a Religião a crença na “reencarnação”.

O tempo humano: a Reta – Do ponto de vista existencial e humano, cada dia que passa é um dia mais que vamos viver e um dia menos que nos resta de vida. Conceber o tempo como uma reta, que vem do passado, passa pelo presente e se dirige ao futuro, não é nada que possa observar-se na natureza. O tempo em linha reta é o tempo da história individual e comunitária, o tempo que integra a ideia de progresso: hoje foi melhor que ontem, amanhã será melhor que hoje. Na Filosofia, a máxima “não nos banhamos duas vezes nas águas do mesmo rio”, de Heráclito, partilha desta compreensão do tempo, verificando-se o mesmo na Cosmologia e na Religião que veiculam as noções do princípio e do fim do mundo.

Esta é também a conceção judaica do tempo: a saída do Egito (terra de escravidão), a passagem pelo deserto (lugar de sofrimento, penitência, purificação e esforço) e a entrada na Terra prometida, onde corre leite e mel (terra da liberdade, do esforço recompensado e da obra acabada). Este é o arquétipo do progresso e da vida humana preconizado até pela teoria de Karl Marx, segundo a qual: o Egito seria o capitalismo, o deserto seria a ditadura sobre o proletariado e a terra prometida seria o socialismo e a sociedade sem classes.

O tempo cristão: a Espiral – É a síntese entre a reta e o círculo, dado que é um círculo em contínuo movimento para a frente. O dicionário da língua Portuguesa define espiral como sendo “uma linha curva, ilimitada, descrita por um ponto que dá voltas em torno de um polo, do qual se afasta progressivamente” como uma hélice, uma mola ou uma escada em caracol.

Este é o tempo cristão e, inclusive, o humano (é de notar que é sob a forma espiral que o ADN do nosso código genético é representado). Como indica a figura, cada ano é constituído por 365 dias à volta do Sol – Sol que é Cristo, que ilumina e dá sentido à nossa vida, que é o princípio e é o fim, quer do Universo quer das nossas vidas individuais. Um movimento helicoidal é também o que descreve o nosso planeta arrastado pelo sol que orbita à volta do centro da Galáxia.

O tempo cristão, portanto, nem é um círculo nem é uma reta, ou seja, cada Natal e cada Páscoa são diferentes, dado que o ano em que estamos e as condições situacionais em que vivemos são diferentes. No entanto, Cristo é a constante durante toda a nossa vida, Ele é o eixo à volta do qual gravitamos, “É nele, realmente, que vivemos, nos movemos e existimos” (Atos dos Apóstolos 17,28).

Cada ano que passa, meditamos em torno do mistério de Cristo, desde a sua Encarnação até à sua Morte, Ressurreição e Ascensão aos céus. Em última análise, para irmos saindo do nosso “Egito” pessoal, configurando a nossa vida cada vez mais com a d’Ele, no sentido de um dia chegarmos à Terra Prometida e podermos dizer como S. Paulo: “Já não sou eu que vivo é Cristo que vive em mim”. (Gálatas 2,20).

Uma festa para cada uma das 3 pessoas divinas
Ao fim de três anos de discorrer sobre a dimensão Trinitária ou tridimensional da Criação que espelha a realidade e identidade do seu Criador, também Ele uma unidade de três pessoas distintas, neste último texto, o número 63, queremos celebrar a Criação e o seu Criador nestas três mais importantes solenidades que a Igreja celebra em cada ano: Natal – Páscoa – Pentecostes.

Como a Igreja tem reservado o domingo depois de Pentecostes para celebrar a Santíssima Trindade, a união e comunhão das três pessoas divinas, é justo que tenha uma solenidade para cada uma das três pessoas divinas. Ao ver que Pentecostes é claramente a celebração de Deus Espírito Santo, desejei ver nas outras duas, Páscoa e Natal, as celebrações do Pai e do Filho, e deparei-me com o problema de que as duas, tanto o Natal como a Páscoa, parecem ser celebrações do Filho, ficando o Pai sem celebração individual.

Não é justo que o Filho tenha duas festas e o Pai nenhuma, por isso pensei qual das duas dar ao Pai e com que critério; podia ser a Páscoa, porque Jesus morre fazendo a vontade do Pai (Lucas 22, 42) ou o Natal, pelo que o próprio Jesus diz no seu diálogo com Nicodemos: “Porque Deus tanto amou o mundo que lhe deu o seu Filho Unigénito (João 3, 16-21).

Para dirimir a questão, recorremos à gramática e ao que esta nos diz sobre voz ativa e voz passiva. Na Páscoa, parece que é Jesus que dirige a ação quando diz, “não são eles que me tiram a vida sou eu que a dou” (João 10,18). Na Páscoa, Jesus é o ator principal, ninguém tem maior amor que o que dá a vida pelos seus amigos (João 15,13). Não cabe a menor dúvida então que a Páscoa é a festa do Filho, pois nela é Ele o protagonista.

O mesmo já não acontece no Natal, Jesus não é o protagonista do Natal, porque gramaticalmente é pessoa passiva, Jesus não nasce, é dado à luz. Por isto nunca gostei da formulação do terceiro mistério gozoso que em todas as línguas diz, contemplamos o nascimento de Jesus. Como se Jesus tivesse caído do Céu de paraquedas ou como se Ele mesmo tivesse provocado o seu nascimento. Este mistério deveria dizer: “No terceiro mistério gozoso contemplamos Maria que dá à luz a Jesus”.

O Natal tem dois grandes protagonistas um divino e outro humano. Deus Pai é o protagonista divino e Maria é a protagonista humana. A ação começa em Deus Pai que envia o seu Filho unigénito ao mundo. Se bem que entre o Pai e o Filho não haja ordem de importância, do ponto de vista gramatical e humano, é mais importante quem envia do que quem é enviado; quem envia provoca a ação, quem é enviado sofre a ação.

Maria, a protagonista humana, não é passiva também é ativa; ela representa toda Humanidade que diz Sim ao plano de Deus. Um Sim livre porque foi dito de uma forma ponderada e sem nenhuma coação por parte de Deus que o propôs; um Sim que, por ser livre, podia ter sido Não. Tão importante é o que envia como o que recebe. Se um Rei envia um mensageiro a um outro Rei, este último é livre de receber ou não receber o mensageiro enviado.

Falemos então das solenidades mais importantes do ano litúrgico, sendo o Natal uma celebração do Pai por nos ter enviado o seu Filho, a Páscoa uma celebração do Filho que restaurou a humanidade na dignidade com que Deus a tinha criado, e Pentecostes a celebração do Espírito Santo que veio para ficar connosco até ao fim dos tempos como companheiro de caminho para Deus.

Três solenidades, três noites - Na azáfama do dia muitas coisas nos escapam e perdemos a perspetiva real de tudo. Olhamos para o céu e o que vemos é irreal; há um gaz nas altas camadas da atmosfera que em contacto com a luz pinta o céu de azul que deixa de ser o espaço.

À noite cessam as atividades olhamos para o céu e reconhecemos a nossa pequenez na imensidão do universo. A noite é tempo de realismo, a noite é tempo de meditação; a noite é tempo de salvação. De noite nasceu Cristo, de noite ressuscitou e de noite veio a nós para ficar connosco, o Espírito Santo.

NATAL
Foi por essa razão que o Verbo de Deus se fez Homem - para que o Homem se tornasse filho de Deus.
Sto. Ireneu de Lyon

Sendo o Cristianismo a religião que tem mais seguidores e sendo o Natal a festa mais popular no mundo cristão, podemos facilmente concluir que o Natal é a festa mais celebrada de todas as festas celebradas neste planeta. É sem dúvida a que reúne mais pessoas a nível mundial, não só na sociedade ocidental.

Religião e revelação
Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos Profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho. Hebreus 1,1-2

Esta frase, da carta aos Hebreus, pode resumir todas as religiões para além da cristã. Religião, do latim “religare”, significa relação com Deus e com o próximo. Desde que a espécie humana tomou consciência de si mesma que acredita na possível existência de um ser superior, transcendente a tudo e a todos, por ser Criador de tudo e de todos.

Em todo o tempo e em todo o lugar, o homem procurou comunicar-se com este ser superior, Deus, para obter o seu beneplácito. Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, resume todas as religiões que em relação à religião cristã ocupam o lugar que o Antigo Testamento ocupa na Bíblia. Todas elas são acerca de profetas enviados por Deus; o cristianismo não apresenta mais um profeta, mas sim o próprio Deus connosco, o Emanuel.

As ondas de telemóvel, de televisão e de rádio cruzam o nosso espaço e nós não as ouvimos nem as vemos, mas sabemos que existem porque, quando temos os instrumentos adequados, captámo-las. Analogicamente, Deus também procurou comunicar-se com o homem e o homem com Deus. Mas também esta comunicação não é acessível a todos, é preciso ter uma sensibilidade especial para entrar nesta comunicação.

Sempre houve pessoas com uma sensibilidade especial para comunicar com Deus. Na tradição bíblica, os profetas eram os catalisadores dos desígnios de Deus para o povo e das petições do povo a Deus. A comunicação, no entanto, não se fazia sem dificuldades; tal como no campo das telecomunicações, havia muitas “interferências”; a personalidade e caráter do profeta, defeitos e preconceitos, filtravam a mensagem que não chegava ao destinatário tal como tinha saído do emissor. Por outro lado, estes profetas entendiam frequentemente que o Céu estava fechado e Deus envolto em silêncio.

Meu Deus, clamo por ti durante o dia e não me respondes; durante a noite, e não tenho sossego. Salmo 22, 2. O povo de Israel nunca se contentou com esta comunicação, tão deficitária, e vivia num contínuo desassossego.

O meu coração murmura por ti, os meus olhos te procuram; é a tua face que eu procuro, Senhor. Salmo 27, 8. O verdadeiro amor nunca se acostuma à ausência.

O cristianismo não é uma religião, pois não representa apenas o esforço ou tentativas do homem em chegar a Deus, pelo contrário, o cristianismo é uma revelação porque é Deus que busca o homem e se revela a ele. Como diz Jesus no evangelho, não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos escolhi a vós e vos destinei a ir e a dar fruto, e fruto que permaneça; e assim, tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome Ele vo-lo concederá. João 15, 16

No Natal celebramos a grande verdade, que Deus não está envolto em silêncio, mas sim em panos e depositado numa manjedoura. Com o nascimento de Jesus, Deus rompe o silêncio, elimina a distância e desfaz a inacessibilidade. Jesus é o Emanuel, Deus connosco, à nossa beira, companheiro de viagem na nossa vida como o foi com os discípulos de Emaús.

À volta da fogueira
O povo que jazia nas trevas viu uma grande luz; e aos que jaziam na sombria região da morte surgiu uma luz.  Mateus 4,16

O culto do sol era muito importante em Roma. No século III o Rei sol era o padroeiro principal do império. É o sol que ilumina, que aquece; na ausência deste no inverno faziam-se fogueiras e recordava-se o sol pela sua ausência.

A invenção do fogo não só tornou possível a fusão de vários ingredientes numa comida ou de vários minerais numa liga metálica. A invenção do fogo e a necessidade de aquecer-se fez com que se fundissem várias vontades numa só; para ter um lugar à volta da fogueira e aquecer-se muitos abdicavam dos pontos de vista individuais e adotavam os pontos de vista comunitários, para serem aceites no circulo à volta da foguiera.

O calor do fogo do lar fez nascer o amor entre as pessoas. Quantos fogos tem uma aldeia significa quantas famílias tem. Ainda hoje se contam as famílias de uma aldeia por fogos. O fogo cozinhav a comida dava luz e aquecia. À noite, quando nada se podia fazer, à volta da fogueira a cultura passava de pais para filhos pela tradição oral.

Os romanos celebravam uma grande festa no solstício de Inverno, o dia mais curto do ano, o dia em que o sol começa a voltar ao hemisfério Norte e os dias começam a crescer. A Igreja, consciente da importância da vinda de Cristo ao mundo, batizou esta festa com o nascimento de Jesus.

Na verdade, se o sol ilumina o nosso caminho, Cristo ilumina a nossa vida; se o sol aquece e dá vida ao nosso corpo, Cristo aquece e dá vida à nossa alma. Cristo veio e a história ficou dividida em duas os anos antes de Cristo e os anos depois de Cristo. Cristo marca o início de uma nova era, os anos contam-se a partir do seu nascimento.

Solstício de inverno e solstício de verão
Vós mesmos sois testemunhas de que eu disse: 'Eu não sou o Messias, mas apenas o enviado à sua frente. O esposo é aquele a quem pertence a esposa; mas o amigo do esposo, que está ao seu lado e o escuta, sente muita alegria com a voz do esposo. Pois esta é a minha alegria! E tornou-se completa! Ele é que deve crescer, e eu diminuir. João 3, 28-30

Parecida com a noite de Natal, o dia 24 de dezembro, é a noite de S. João no dia 24 de junho. Ambas as noites são uma festa de luzes e ambas marcam dois solstícios; a noite de S. João acontece quando os dias já estão a minguar, depois do solstício de verão que assinala o dia maior do ano. João veio preparar o caminho, mas deve decrescer; o mesmo devem fazer os pais e professores: devem viver em função dos filhos/alunos, mas sem buscar o protagonismo. A noite de Natal acontece quando os dias já estão a crescer, após o solstício de Inverno que assinala o dia mais pequeno do ano; Cristo deve crescer até ser tudo em todos.

A Festa do Pai
Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna. João 3, 16

Jesus não é a razão da estação ou quadra do Natal, o Pai é que é. Nesta festa, Jesus é dado à luz: os verbos que se referem a Jesus nesta quadra vêm em voz passiva. O Natal, como encontro entre Deus e a Humanidade, tem uma protagonista humana, uma mãe, Maria que recebeu Jesus no seu seio e contribuiu com o seu material genético; e tem um Pai divino, Deus.  

Noutro tempo, também eu critiquei a importância que a sociedade civil dá à figura mítica do Pai Natal. Hoje entendo que é um desses casos de “voz do povo, voz de Deus”. O Pai Natal representa Deus Pai que enviou o seu Filho ao mundo. Venerável senhor idoso que não esconde a idade nem quer aparentar ser mais jovem, e que se desfaz em amabilidades dando presentes às crianças, acariciando-as e tomando-as ao colo. No imaginativo de todas as pessoas Deus Pai é sempre representado como um homem idoso de cabeleira e barba branca. O Pai Natal coincide com este imaginário coletivo.

As suas vestes vermelhas de um bispo porque, historicamente, o Pai Natal está associado ao Bispo São Nicolau, razão pela qual se chama Santa Claus em inglês ou apenas Santa. Vive no Polo Norte, lugar apartado de tudo e de todos numa região branca, num mundo puro que apela ao imaginário coletivo da forma como se conceptualiza o Céu, morada de Deus.  

Visita-nos durante a noite, pois, como dissemos, a noite é tempo de salvação. Nunca é visto, mas fala pelas suas obras traduzidas nas graças e presentes que nós, como crianças e seus filhos, lhe pedimos. Podendo entrar por janelas ou portas, entra sempre pela chaminé porque se desloca voando, vem de cima para baixo e entra pela única parte da casa que está sempre aberta e em vigia, assinalando que nós devemos estar sempre em oração abertos ao Altíssimo, olhando para cima de onde nos vem o auxílio.

De repente, juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste, louvando a Deus e dizendo: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado. (…) os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, conforme lhes fora anunciado. Lucas 6, 13-14, 20

O Natal como festa do Pai foi celebrado no Céus pelos anjos que disseram Glória a Deus nas alturas, e na Terra pelos pastores que voltaram de Belém glorificando e louvando a Deus.

O banquete messiânico
O Natal é a festa que une os homens com Deus, é a festa que une a Terra com o Céu. A encarnação é um matrimónio entre o Filho Unigénito de Deus e a Humanidade, o Natal é um banquete de bodas que celebra esta união indivisível e para sempre. Um matrimónio é a união de dois destinos num só destino. No Natal, Deus Pai casa o seu Filho com a Humanidade, ou seja, une a natureza da segunda pessoa da Santíssima Trindade à Natureza Humana.

A união das duas naturezas numa só pessoa deu-se no seio de Maria. Ela é, com todo o direito, a Mãe da criança que vai nascer pois não só emprestou o seu seio, como também contribuiu com o seu material genético. Deus, por obra e graça do Espírito Santo, é o Pai tanto da segunda pessoa da Santíssima Trindade como desta mesma encarnada em Jesus de Nazaré.

Jesus de Nazaré que nasce em Belém é o resultado dessa união, é a união inseparável e indivisível das duas naturezas: humana e divina. Deus fez-se filho do Homem, único título que Jesus dá a si mesmo, para que o Homem, que é criatura de Deus, se faça também filho de Deus.

O tempo de Jesus entre nós corresponde ao banquete messiânico profetizado muitos séculos antes por Isaías 25, e declarado por Jesus numa das suas parábolas em Mateus 22, 1-14. Por ser o tempo do banquete messiânico, é um facto que a vida pública de Jesus começa com um banquete de bodas em Caná da Galileia e termina no banquete Eucarístico na Quinta-feira Santa em Jerusalém, no qual Ele é a comida. Entres estes dois banquetes, Jesus participou em muitos com os seus discípulos e muito dos seus ditos foram proferidos no contexto de uma refeição.

Depois, foram ter com Ele os discípulos de João, dizendo: «Porque é que nós e os fariseus jejuamos e os teus discípulos não jejuam?» Jesus respondeu-lhes: «Porventura podem os convidados para as núpcias estar tristes, enquanto o esposo está com eles? Porém, hão-de vir dias em que lhes será tirado o esposo e, então, hão-de jejuar. Mateus 9, 14-15

Por ser o tempo de Jesus entre nós, o tempo do banquete messiânico, os seus discípulos, ou seja, os amigos do esposo não devem jejuar, mas devem celebrar. É tempo de festa, tempo de celebração, não tempo de penitência nem de tristeza.

Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, como teria dito eu que vos vou preparar um lugar? E quando eu tiver ido e vos tiver preparado lugar, virei novamente e hei de levar-vos para junto de mim, a fim de que, onde eu estou, vós estejais também. João 14, 3

Os dias de jejum virão em que o esposo voltará para a casa do Pai levando com Ele a nossa natureza humana redimida na sua pessoa e pela sua pessoa, sentando-a à direita do Pai.

PÁSCOA
Purificai-vos do velho fermento, para serdes uma nova massa, já que, sois pães ázimos. Pois Cristo, nossa Páscoa, foi imolado. Celebremos, pois, a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os ázimos da pureza e da verdade. 1 Coríntios 7, 7-8

A morte de Cristo pode ser vista como o pagamento do resgate da morte eterna à qual a humanidade estava destinada. Mas também pode ser vista como a morte de um profeta, ou seja, como o pagamento do preço da ousadia de trazer o Reino de Deus a uma Terra que há muito havia renegado Deus.

Tanto é salvadora por ser o pagamento de uma dívida como por ser a morte daquele que morre pela justiça e pela verdade. A Páscoa só é verdadeiramente salvadora porque é passagem da morte à vida. É a Ressurreição de Cristo que confere valor salvífico à Sua morte, quer a vejamos como pagamento da dívida da humanidade pecadora, quer a vejamos como a morte do profeta que prova, com a Sua Ressurreição, que o mal não tem a última palavra.

Páscoa judia, arquétipo da vida
Como já dissemos noutro texto sobre o arquétipo do progresso ou até mesmo do sucesso: Egito – Deserto – Terra Prometida; a Páscoa é a celebração deste arquétipo. O termo em si mesmo significa passagem e celebra tanto a passagem do deserto entre o Egito e a Terra Prometida, como a passagem do rio Jordão e entrada na Terra Prometida, como a passagem do Mar Vermelho, e ainda a passagem do anjo exterminador de todos os primogénitos dos egípcios.

Na Páscoa é imolado um cordeiro, para recordar aquele cordeiro cujo sangue pintado na ombreira da porta faz passar ao longe o anjo exterminador dos primogénitos dos egípcios. Assim se inicia o sistema sacrificial. Segundo o autor da carta aos Hebreus, o objetivo da religião é o de aceder à amizade com Deus. Este objetivo era conseguido pela obediência à lei que Deus deu a Moisés.

Como era muito difícil conseguir obedecer sempre à lei sem nunca prevaricar, foi instituído o sistema sacrificial para que os fiéis, por intermédio de um sacrifício oferecido a Deus, obtivessem o perdão das suas culpas e assim reatassem a relação de amizade com Deus. Como ninguém é perfeito, sem o sistema sacrificial a Lei seria completamente inútil.

Jesus morre pelos pecados da humanidade segundo a carta aos Hebreus
Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! João 1, 29

Foi precisamente João Batista, o que pertencia a um movimento que acedia ao perdão de Deus por intermédio de uma purificação ritual de água e não pelo oferecimento de um sacrifício, que apresentou a Jesus como o cordeiro de Deus, talvez por entender que era o último dos cordeiros, como Maomé é para os muçulmanos o último dos profetas.

É o dia de salvação para a Humanidade. O sacrifício de Cristo, por ser perfeito (se é perfeito só pode haver um, e Cristo só pode morrer uma vez) substitui de uma vez por todas os sacrifícios da antiga lei. Por que é perfeito? Este sacrifício é perfeito porque confluem nele aspetos que se deram uma vez na história da humanidade.

Cristo é o perfeito Templo e altar: “Destruí este Templo e Eu o levantarei em três dias”. O tempo é o lugar da presença de Deus. Cristo era Deus.

Cristo é o sacerdote perfeito: Sendo Deus e homem, era a perfeita ponte (intermediário pontifex) entre Deus e os homens. Não precisava de oferecer um sacrifício por si próprio para se purificar como faziam os sacerdotes de Jerusalém antes de oferecer um sacrifício pelo povo. No sacrifício de Cristo Ele mesmo é o sacerdote porque Ele mesmo oferece o sacrifício a Deus. “Não são eles que me tiram a vida”, diz Jesus “sou Eu que a dou” (João 10, 18).

Cristo é o cordeiro perfeito: “Tudo o que abre o ventre é meu”. Cristo é o primogénito, o único Filho de Deus e, como não cometeu pecado, é a vítima perfeita sem mancha requerida pela Lei. Ele pagou o nosso resgate.

Jesus como cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo
(…) Perdoou-nos todas as nossas faltas, anulou o documento que, com os seus decretos, era contra nós; aboliu-o inteiramente, e cravou-o na cruz. Colossenses 2,13-14

Em Romanos 6, 23, S. Paulo diz que o salário do pecado é a morte. Nós pecamos pelo que merecemos morrer ou devemos pagar com a morte eterna o nosso pecado. Deus perdoa-nos a nossa falta, mas alguém tem de morrer no nosso lugar e de preferência um inocente. Esta ideia tem muito de antropológico, mas pouco de teológico.

Um Deus que perdoa, mas não esquece e que requer que a pena seja um Deus, que exige retribuição, pagamento, é um Deus semelhante à justiça humana que é uma forma de retaliação, mas pouco tem a ver com o Deus de que nos fala Jesus, que perdoa, esquece, vira página.

Jesus como bode expiatório – “paga o inocente pelo pecador
Quando os judeus buscavam reconciliação e perdão dos seus pecados, um macho caprino era trazido e todo o povo projetava sobre ele os seus pecados. Este era depois libertado no deserto para que lá morresse como bode expiatório dos pecados do povo.

Na corte de Inglaterra, o “weeping boy” era um rapaz que era punido no lugar do príncipe quando este fazia algo de condenável.

A ideia de pagar pelo pecado de outrem tem mais a ver com uma justiça retributiva que com um Deus que é amor e pura gratuidade, que coloca como única condição para nos perdoar que nós perdoemos também gratuitamente e de coração sem nada exigir aos que nos ofenderam.

Morreu no lugar de alguém
Entendemos a ideia de dar a vida pelo outro, de morrer por alguém, porque o que dá sentido à nossa vida deve também dar sentido à nossa morte, ou seja, a razão pela qual vivemos minuto a minuto, pode requerer que demos toda a nossa vida num minuto. Uma mãe vive pelo seu filho e estaria disposta a morrer por ele… Num campo de concentração Nazi o sacerdote polaco Maximiliano Kolbe ofereceu-se para morrer no lugar de um condenado à morte.

Morrer para salvar
Também entendemos, como aliás vemos muitas vezes nos filmes, que alguém se meta entre o assassino e a vítima e acabe por morrer no lugar desta. A nível físico, quando se abre uma ferida no nosso corpo e estamos sob uma ameaça de bactérias, germes, e vírus, há um tipo de glóbulos brancos, os neutrófilos, que ingerem as bactérias, germes ou vírus, e acabam por lhes causar a morte, evitando assim uma infeção generalizada; morrem para nos salvar.

No filme Dia da Independência, o nosso planeta está sob ataque de extraterrestres e a única maneira de nos livrarmos deles é bombardear a sua nave com uma bomba atómica. Um piloto oferece-se para pilotar o avião que transporta a bomba atómica, mas, no momento de a disparar, ela fica encravada. Decide então imolar-se pela humanidade, conduzindo o seu avião contra a nave espacial. Morreu para salvar a humanidade.

Estas razões e outras têm sido usadas para explicar a ideia de que Jesus morreu para nos salvar; mas não vemos como possam aplicar-se a Jesus e à sua morte.

Jesus morre como profeta segundo o evangelho de Lucas
Para Lucas, a morte de Jesus não tem poder salvífico por si só. Não fornece expiação para os pecados. Ao contrário, Jesus morre como consequência do seu compromisso de abençoar todas as pessoas, especialmente os pobres e pecadores, o que faz até mesmo quando já está pregado na cruz. A sua ressurreição vinga-O como o Salvador do mundo, como Aquele que traz a humanidade à presença de Deus.

A interpretação da morte de Jesus como a morte de um profeta não é só a forma como Lucas encara a morte do Senhor, por ser alheio à cultura sacrificial dos judeus. Não faz sentido que Jesus tenha visto a sua morte como pagamento exigido por Deus para salvar a humanidade, pois Ele mesmo era contra o sistema sacrificial de Jerusalém, contra o Templo e os seus sacerdotes.

Como já referimos noutros textos, Jesus associou-se a um movimento que já vinha de trás que preconizava a obtenção do perdão dos pecados através de uma limpeza ritual de água. Isto faziam os monges de Qumram. João Batista trouxe este ritual para fora dos mosteiros, oferecendo-o a todos nas águas do rio Jordão; Jesus levou-o ainda mais longe, para o meio do povo nas aldeias e cidades onde ia, reduzindo-o apenas a uma declaração “Os teus pecados são perdoados”. (Lucas 7, 48)

(…) hoje, amanhã e depois devo seguir o meu caminho, porque não se admite que um profeta morra fora de Jerusalém. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados! Quantas vezes Eu quis juntar os teus filhos, como a galinha junta a sua ninhada debaixo das asas, e não quiseste! Lucas 13, 33-34

Por este texto, pelo facto de a figura de Jesus chegar a ser confundida com a de João Batista que tinha regressado à vida (Mateus 14, 1-2); pelo facto de os discípulos de Emaús assim interpretarem a morte de Jesus, profeta poderoso em obras e palavras (Lucas 24, 13 35), entendemos que o próprio Jesus viu a Sua morte como a morte de um profeta.

Não há nenhum texto no qual Jesus se apresente a si mesmo como o cordeiro de Deus que, com o seu sacrifício, limpa a humanidade de toda a culpa. A única metáfora que Jesus usa para explicar a sua morte é a do grão de trigo que, se não morre, não dá fruto (João 12, 24). O que parece aludir indiretamente à salvação não pela morte, mas pela Ressurreição que indica que o bem venceu o mal.

Jesus viveu pelo Reino e morreu pelo Reino
Com sugere a citação bíblica que abre esta reflexão, Jesus morreu não para pagar o preço dos nossos pecados, mas sim para pagar o preço da Sua vida. Morreu pelos valores que deram forma e sentido à Sua vida. Veio ao mundo para instaurar e inaugurar um Mundo Novo, o Reino de Deus. E como um mundo novo se faz com homens novos, Ele foi a primeira pedra, o primeiro Homem Novo, o primeiro cidadão-modelo do Reino de Deus.

Quando uma estrutura nova substitui uma velha, esta última deve ser destruída. Assim, ao mesmo tempo que anunciava um mundo novo e se apresentava como modelo Caminho, Verdade e Vida, Jesus denunciava as estruturas antigas.

Não o fez impunemente pois os poderes que mantinham o status quo depressa o calaram. O fogo já tinha alastrado e continua a devorar os corações dos seguidores de Jesus. “Se me perseguiram a mim, também vos hão-de perseguir a vós.” João 15, 20. Como já Jesus tinha dito, tiveram também de pagar o preço pela sua ousadia.

A morte de Cristo pelo Reino salva-nos porque morreu pelo modelo de sociedade que verdadeiramente é salvação para todos e não só para alguns; salva-nos individualmente porque morreu pelos únicos valores que dão sentido, forma e conteúdo ao nosso viver, que nos permitem transpor o umbral da morte e viver eternamente com Deus.

Os que diretamente intervieram na morte de Jesus fizeram-no por atitudes que ainda hoje motivam muitos dos nossos atos, pelo que não foram só eles os culpados, mas toda a humanidade. Cristo, portanto, não morreu pelos nossos pecados, mas foram os nossos pecados que O mataram.

Jesus morre como profeta pela salvação do mundo
Não havendo nenhum texto que prove que Jesus tenha entendido a sua morte como o sacrifício do cordeiro para redimir a humanidade, podemos concluir de forma perentória que Jesus entendeu a sua morte como a morte de um profeta. Porém, não podemos fazê-lo.

Os profetas de Israel são famosos não só pelas suas palavras, mas também pelos seus atos, sobretudo pelos seus gestos dramáticos e teatrais. Por exemplo, Isaías andou nu no meio do povo para mostrar o que estava para acontecer aos que iam ser exilados. O profeta Oseias casou com uma prostituta para que a sua vida fosse um audiovisual da infidelidade do povo a Deus.

Jesus, como profeta também teve estes gestos teatrais e dramáticos. A expulsão dos vendilhões do templo, (João 2, 13-25) o provar que tinha o poder de perdoar os pecados ao curar um paralítico e dizer aos fariseus que, para Ele, era o mesmo dizer “os teus pecados são perdoados” ou “levanta-te e anda” (Mateus 9,5). e, finalmente o lavar os pés aos seus discípulos (João 13, 1-17).

Em linha com os gestos dramáticos e teatrais que os profetas e Jesus usaram para passar uma mensagem de uma forma audiovisual, mais difícil de esquecer, entendemos que Jesus usou a sua própria morte como um gesto dramático e teatral. O facto de Jesus ter escolhido Jerusalém, o único lugar onde se ofereciam sacrifícios, e o facto de ter escolhido a festa mais importante do calendário litúrgico hebreu, a Páscoa, e não outra como a dos Tabernáculos, não pode ter sido senão para passar uma mensagem.

É certo que Jesus morreu como profeta e como tal entendeu a sua morte, mas o ter escolhido morrer em Jerusalém e na Páscoa não pode passar-nos despercebido. Jesus quis destruir o Templo com a destruição do seu corpo (João 2, 19); Jesus de alguma maneira quis dizer aos judeus que Ele era o último cordeiro a ser sacrificado em Jerusalém antes de ela ser destruída como tinha vaticinado. De facto, ao expirar, o véu do templo rasgou-se (Mateus 27, 51).

De uma forma simples ou simplistica podemos concluir que Jesus morreu uma more sacificial para os judeus e uma morte de profeta para o resto da humanidade que como São Lucas, para quem o sistema sacroificial não fazia parte da sua cuktura ou religião.

Jesus ressuscitou como a luz que vence a sombra

Como el grano de trigo que al morir da mil frutos,
RESUCITÓ EL SEÑOR.
 
Como el ramo de olivo que venció a la inclemencia, 

RESUCITÓ EL SEÑOR.
 
Como el sol que se esconde y revive en el alba,
RESUCITÓ EL SEÑOR.
 
Como pena que muere y se vuelve alegría,
RESUCITÓ EL SEÑOR.
 
El amor vence al odio, y el sencillo al soberbio,
RESUCITO EL SEÑOR.
 
La luz vence a la sombra y la paz a la guerra,
RESUCITO EL SEÑOR.

José António Olivar    

Como o grão de trigo que quando morre dá mil frutos, 

O SENHOR RESSUSCITOU.
 
Como o ramo de oliveira que superou o tempo inclemente, 

O SENHOR RESSUSCITOU.
 
Como o sol que se esconde e renasce ao amanhecer, 

O SENHOR RESSUSCITOU.
 
Como uma pena que morre e se torna alegria,
O SENHOR RESSUSCITOU.
 
O amor vence o ódio, o simples o soberbo,
O SENHOR RESSUSCITOU.
 
A luz vence a sombra e a paz a guerra,
O SENHOR RESSUSCITOU.

Como muito bem diz esta canção que tantas vezes cantei durante o meu estudo de teologia em Espanha, é na realidade a Ressurreição de Jesus que confere valor salvífico à sua morte, tanto como morte de profeta como morte sacrificial, assim como tudo o que o mestre disse durante a sua vida, tudo o que fez e a forma como se comportou em vida. É a sua Ressurreição que confere valor normativo a toda a sua vida, nascimento, vida e morte e que faz da pessoa de Jesus de Nazaré o único modelo de humanidade, o único Caminho, Verdade e Vida. (João 14, 16)

PENTECOSTES
Se me tendes amor, cumprireis os meus mandamentos, e Eu apelarei ao Pai e Ele vos dará outro Paráclito para que esteja sempre convosco, o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; vós é que o conheceis, porque permanece junto de vós, e está em vós.(…) Fui-vos revelando estas coisas enquanto tenho permanecido convosco; mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, esse é que vos ensinará tudo, e há-de recordar-vos tudo o que Eu vos disse. João 14, 15-17, 25-26

Invisível, talvez, mas real. O Espírito Santo é provavelmente a pessoa menos compreendida da Trindade. Confunde-se com as próprias manifestações e tem sido apresentado como uma figura acidental que aparece momentaneamente. No entanto, é vital para a Igreja e para cada um de nós. Por isso devemos conhecê-Lo melhor, aprender a relacionar-nos com Ele e compreender como se manifesta.

Já não vivemos no tempo do Pai, que foi o Antigo Testamento, nem no tempo do Filho, que foi o Novo Testamento, vivemos no tempo do Espírito, pois Ele é a alma da Igreja da qual somos parte. Deus Pai é Deus Criador, Deus acima de nós; Deus Filho é Deus Salvador Deus connosco o Emanuel; Deus Espírito Santo é Deus santificador, Deus dentro de nós.

O maior teólogo católico do século XX, um dos líderes do Concílio Vaticano II disse “a Santíssima Trindade tem sido tão negligenciada ao longo da história cristã que a maioria dos cristãos são, na sua vida prática, monoteístas absolutos”. Em relação ao Espírito Santo, chamou ateus aos cristãos, e eu diria especialmente aos católicos. Não porque não acreditem na existência do Espírito Santo, mas porque pensam e atuam como se não existisse.

Com a exceção do povo português das Ilhas dos Açores, onde o Espírito Santo tem muitos adoradores e festas populares celebradas em seu nome, acredito que o que diz Karl Rahner é verdade. Se quiser fazer uma pesquisa teológica sobre o Espírito Santo encontro muito mais material na teologia protestante que na católica. Não é por acaso que o movimento carismático que tenta evangelizar a Igreja católica sobre o Espírito Santo tenha nascido na Igreja Pentecostal e não na Igreja Católica.

Uma das razões desta situação creio ser o facto de que é fácil conceptualizar a Deus como Pai e a Deus como Filho que se fez homem como nós, pois são categorias humanas com as quais nos identificamos. Quando se trata do Espírito Santo, por não termos tal categoria na família humana, torna-se difícil conceptualizar, o que dificulta a relação com Ele.

Quer queiramos quer não, sempre seremos antropomórficos na nossa relação com Deus, ou seja, sempre conceptualizaremos Deus à maneira humana, pois é o que conhecemos. Quanto ao Espírito Santo não sabemos bem onde o encaixar.

Quem é para nós o Espírito Santo?
Como pessoa que é, o Espírito Santo tem sentimentos; pode ficar triste ou zangado, e outros podem insultá-Lo e blasfemar contra Ele (Isaías 63, Mateus 12:31; Atos 7:51; Efésios 4:30; Hebreus 10:29). Como pessoa tem intenções e objetivos, manifesta ter força de vontade e ponderação, ama, comunica, testemunha, ensina e reza. Estas são algumas das qualidades que O distinguem como pessoa.

Ninguém pode dizer: «Jesus é Senhor», senão pelo Espírito Santo. Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; há diversidade de serviços, mas o Senhor é o mesmo; há diversos modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito, para proveito comum. A um é dada, pela ação do Espírito, uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de ciência, segundo o mesmo Espírito; a outro, a fé, no mesmo Espírito; a outro, o dom das curas, no único Espírito; a outro, o poder de fazer milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, a variedade de línguas; a outro, por fim, a interpretação das línguas. Tudo isto, porém, o realiza o único e o mesmo Espírito, distribuindo a cada um, conforme lhe apraz. 1 Coríntios 12, 3-11

O Espírito Santo habita em nós porque somos o seu Templo, é Deus em nós. Neste sentido, o Espírito Santo é a fonte e fornecedor de tudo o que precisamos, (os seus dons) para que a nossa vida seja santa e feliz para um serviço eficaz no seio da comunidade.

Símbolos que o representam
Ao faltar-nos uma categoria humana para conceptualizar na nossa mente a pessoa do Espírito Santo, a Bíblia oferece-nos símbolos que O representam na sua ação. O positivo destes símbolos é que atuam como metáforas para nos ilustrar a ação e a personalidade do Espírito Santo. O problema destes símbolos é que nos ficamos pelas metáforas que em pouco nos ajudam a conceptualizá-lo como pessoa, pois nos deixam mais a imagem de que é uma força, uma energia, uma eletricidade, uma cola que une.

Pomba, (Mateus 3, 16; Marcos 1, 10; Lucas 3, 22; João 1, 32) - A pomba como símbolo do Espírito Santo comunica beleza, gentileza e paz. A pomba também vem de cima, de alguma forma sugerindo vir do Céu.

Fogo - O fogo pode ser símbolo da presença de Deus, (Êxodo 3, 2) meio de purificação (1 Pedro 1, 7) ou julgamento (Levítico 10, 2 Hebreus 12, 29;) dependendo do contexto em que aparece na Bíblia. Atos 2,1-4 é o texto em que mais explicitamente o Espírito aparece como línguas de fogo no dia de Pentecostes. Desobedecer ao Espírito é como deitar água sobre o fogo, apagando-o, refere S. Paulo (1 Tessalonicenses 5, 19).

Vento - A palavra grega para Espírito (pneuma) tanto pode ser traduzida como respiração ou como vento. Talvez então não seja surpreendente que o Espírito Santo seja visto e comparado com o vento. Dois versos no Novo Testamento comunicam isto mesmo. Em Atos 2, 4 Lucas escreve: "De repente um som como um vento violento soprando, veio do Céu e encheu toda a casa onde estavam sentados."

E em João 3, 8, João descreve: "O vento sopra onde quer que ele vai, e ouve-se o som que faz, mas não sabemos de onde vem e para onde vai. Assim é com todos os que nascem do Espírito." A imagem do vento comunica que o Espírito Santo é poderoso, invisível, imaterial e soberanamente sopra onde pretende e quer porque é livre.

Água – A água é também uma metáfora ou símbolo do Espírito Santo: No último dia, o mais solene da festa, Jesus, de pé, bradou: «Se alguém tem sede, venha a mim; e quem crê em mim que sacie a sua sede! Como diz a Escritura, hão-de correr do seu coração rios de água viva. Ora Ele disse isto, referindo-se ao Espírito que iam receber os que nele acreditassem; com efeito, ainda não tinham o Espírito, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado. João 7, 37-39

Esta mesma água que jorra de dentro e dá vida, é a que Jesus oferece também à Samaritana (João 4, 5-43). Como a água física é necessária para a vida física, assim a Água viva do Espírito Santo é necessária para a vida espiritual.

O Espírito Santo no Antigo Testamento
No princípio, quando Deus criou os céus e a terra, a terra era informe e vazia, as trevas cobriam o abismo e o espírito de Deus movia-se sobre a superfície das águas. Génesis 1, 1

No princípio o termo “Espírito Santo” não era usado, mas sim o termo “Espírito de Deus”. Este não aparece como entidade diferente e inseparável de Deus; de facto, os termos Espírito de Deus ou Deus eram usadas com o mesmo sentido. Diz-se que o Espírito de Deus atuava por intermédio dos antigos profetas e do Rei David. Em Juízes 14, 61 o Espírito de Deus é invocado para dar força a Sansão.

A primeira vez que na Bíblia aparece o termo “Espírito Santo”, é no Salmo 51, 13 onde se diz: “Não me afastes da tua presença, nem me prives do teu santo espírito!” A outra é em Isaías 63, 10, “Mas eles revoltaram-se e ofenderam o seu santo espírito”.

O Espírito Santo no Novo Testamento
Cheio do Espírito Santo, Jesus retirou-se do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto… Lucas 4,1
Impelido pelo Espírito, Jesus voltou para a Galileia Lucas 4, 14

Nesse mesmo instante, Jesus estremeceu de alegria sob a ação do Espírito Santo e disse: «Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Lucas 10, 21

O Espírito Santo esteve presente em todos os momentos da vida de Jesus desde a sua conceição (Lucas 1.35), no dia do seu Batismo (Mateus 3, 16) e, como revelam os textos acima citados, sempre o acompanhou no seu ministério.

É claro que desde Pentecostes, desde que como língua de fogo entrou em cada um dos apóstolos, nunca deixou de ser a alma da Igreja, o elemento de coesão que dá os seus dons necessários a cada membro para ao mesmo tempo se autorrealizar como pessoa e se colocar com esses mesmos dons ao serviço da comunidade para a edificar.

Estando eles a celebrar o culto em honra do Senhor e a jejuar, disse-lhes o Espírito Santo: «Separai Barnabé e Saulo para o trabalho a que Eu os chamei. Atos 13, 2

Com este texto fica claro que é o Espírito Santo que comanda a Igreja que a inspira e a guia, assim como cada um dos seus membros, pois estes são templo do Espírito Santo (1 Coríntios 6, 19- 20).

Eucaristia e Igreja
A sala do andar de cima onde Jesus celebrou a Ceia Pascal e onde instituiu a Eucaristia, foi também a incubadora ou o seio onde nasceu a Igreja no dia de Pentecostes. A Igreja e a Eucaristia têm a mesma morada, partilham o mesmo ventre, são como dois gémeos verdadeiros e por isso inseparáveis. Ao instituir a Eucaristia, Jesus criou o corpo da Igreja que é o seu corpo místico; ao enviar o Espírito Santo, este corpo adquire uma alma. O Espírito Santo é a alma do corpo místico de Cristo que é a Igreja.

“Fazei isto em minha memória” - Inseparáveis como são, não vivem um sem o outro. Se um dia a Eucaristia deixar de ser celebrada, não morre só a Eucaristia, mas também a Igreja. A Eucaristia é a reunião dos cristãos para celebrar a memória do seu Salvador. Se os cristãos não se reúnem, a Eucaristia não é celebrada e, se não é celebrada a Eucaristia, os cristãos não se reúnem pelo que ao desaparecer uma desaparece a outra. Um grupo de pessoas, clube, associação que não se reúne deixa de existir.

Os católicos que deixam de participar na Eucaristia dominical deixam de fazer parte do corpo místico de Cristo. Como não há pianistas não praticantes nem futebolistas não praticantes, mas ex-pianistas ou ex-futebolistas, também não há católicos não praticantes, mas sim ex-católicos. Quem não celebra a memória de Cristo rompe a comunhão com o corpo mistico de Cristo que é a Igreja. Porque não faz corpo com os outros cristãos o catolico não praticante excomunica-se a si mesmo da Igreja.

Conclusão - No Natal celebramos o amor do Pai, na Páscoa a entrega do Filho, no Pentecostes a inspiração e orientação do Espírito Santo.  

Pe. Jorge Amaro, IMC