15 de novembro de 2018

CNV - Gestão da ira & Resolução de conflitos

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A ira é uma expressão suicida de uma necessidade  insatisfeita M. Rosenberg 

Se vos irardes, não pequeis; que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento, (…) Toda a espécie de azedume, raiva, ira, gritaria e injúria desapareça de vós, juntamente com toda a maldade. Sede, antes, bondosos uns para com os outros, compassivos; perdoai-vos mutuamente, como também Deus vos perdoou em Cristo. Efésios 4, 26, 31-32

São Paulo reconhece, no versículo 26, que a ira faz parte da nossa natureza, que há muitas situações existenciais no nosso dia a dia que a podem desencadear; mas aconselha-nos logo a seguir no mesmo versículo a não lhe dar espaço, ou seja, a não fazer nada motivados por ela. Não devemos atuar exteriormente com base na nossa ira porque a ira é um sentimento e, como todos os sentimentos ou emoções, aponta para uma necessidade insatisfeita.

A ira não é então mais que um alarme que dispara no nosso sistema e que nos pede um “intervalo” para parar, respirar fundo e fazer um exercício de introspeção que tem como objetivo descobrir a sua causa em nós e não nos outros. Desta forma, evitamos o ressentimento que naturalmente leva ao azedume nas relações, à raiva, gritaria e injúria, tal como adverte S. Paulo.

Quando a ira é desencadeada em nós, são várias as respostas possíveis. Responder agressivamente no âmbito do “olho por olho dente por dente”; ser passivo / passivo, ou seja, voltar a agressividade contra nós próprios reprimindo assim a ira; ser passivo / agressivo, procurar a vingança de uma forma sorrateira do tipo “dar uma bofetada e esconder a mão”; ser assertivo defendendo-nos, mas sem atacar o outro.

Distinguir entre o que desencadeia a ira e o que a causa
A linguagem não violenta tem uma nova abordagem à ira: não se reprime, por, ser má, nem se descarrega, dando murros em almofadas, pois isso só  faz com que aumente e, eventualmente, um ou outro murro pode acertar naquela que julgamos ser a causa da nossa ira.

O primeiro passo é ilibar o outro de toda e qualquer responsabilidade pela minha ira; ou seja, não dizer “irritas-me” porque nunca ficamos irritados pelo que o outro faz ou diz; o outro pode desencadear a nossa ira, mas não a causa. Num mundo violento, onde a culpa é uma tática de controlo, manipulação e coação, interessa confundir o estímulo dos sentimentos com a causa dos mesmos: “fazes-nos sofrer, ao teu pai e a mim, quando tiras más notas”. A mesma tática é usada entre namorados: “desiludiste-me ao não te lembrares do meu aniversário”.

Enganamo-nos a nós mesmos quando pensamos que os nossos sentimentos resultam do que os outros dizem ou fazem. Em vez de buscar em nós mesmos a causa da nossa ira ou de quaisquer outros sentimentos ou emoções, culpamos os outros, procuramos um bode expiatório e frequentemente descarregamos sobre ele a nossa ira em forma de vingança ou punição. A ira está para a sua causa como o fumo está para o fogo - onde há fumo, há fogo, onde há ira há uma necessidade nossa que não está a ser satisfeita. É esta necessidade que causa a ira e não o que o outro disse ou fez.

Rosenberg dá como exemplo o caso de um prisioneiro numa prisão sueca, a quem perguntam o que é que as autoridades da prisão tinham feito para provocar a sua ira; ele responde, “há já três semanas que fiz uma petição e eles ainda não responderam”. O prisioneiro fez uma pura observação sem misturar nenhuma avaliação, ou seja, sem qualificar o comportamento das autoridades prisionais; porém, o estímulo parece coincidir com a causa, ou seja, ele culpa as autoridades pela sua ira.

Identificar a causa da nossa ira na forma como julgamos o comportamento do outro
Ao voltar-se para si mesmo para encontrar a razão ou causa da ira, o prisioneiro descobriu que, de facto, o que sentia era medo de sair da prisão sem ter um curso, uma profissão para se poder sustentar. O que causa a nossa ira não é o que os outros dizem ou fazem, mas a nossa interpretação e avaliação negativa do que dizem e fazem, assim como o que nós dizemos a nós mesmos.

O prisioneiro descobriu que estava zangado por achar que não era justa a forma como estava a ser tratado, não era assim que se tratavam seres humanos. Sentimos ira porque interpretamos e julgamos como, mau, injusto, inumano, o comportamento do que desencadeia a nossa ira. O comportamento desencadeia a ira, mas o que a causa é a minha interpretação desse mesmo comportamento e o veredito que atribuo às pessoas, julgando-as egoístas, injustas, cruéis, etc….

A raiva resulta de concentrarmos a nossa atenção no que a outra pessoa "deve" ou "não deve" fazer e julgá-la como "errada" ou "ruim", “egoísta”, etc. A ira mantém-nos focados sobre o que não gostamos, em vez de nos ajudar a ligarmo-nos às nossas necessidades. Mudando o foco da nossa atenção, perguntando-nos pelas necessidades que ficam insatisfeitas enquanto acusamos os outros, o sentimento da raiva desaparece ou é substituído por sentimentos que servem a vida, como o medo, a desilusão a tristeza ou a dor.

Substituir o julgamento pela necessidade insatisfeita que lhe subjaz
As sentenças que pronunciamos ao julgar aquele cujo comportamento desencadeou a nossa ira são expressões alienadas e trágicas de necessidades nossas que se encontram insatisfeitas. Em vez de olhar para dentro de nós para nos ligarmos ao que necessitamos, saímos para fora de nós e acusamos e culpamos os outros pela insatisfação das nossas necessidades.

“Não é com vinagre que se caçam moscas” e esta não é certamente a melhor forma de as satisfazer. As acusações não provocam a cooperação dos outros para a satisfação das nossas necessidades, pelo contrário provocam defesa e retaliação. Mesmo que provocassem e conseguíssemos a sua cooperação por medo, vergonha ou culpa, mais tarde ou mais cedo pagaríamos esta forma de cooperação forçada.

Voltando ao prisioneiro sueco, Rosenberg perguntou-lhe que necessidades insatisfeitas estavam por detrás das acusações feitas às autoridades da prisão? Não foi fácil a resposta, pois estamos mais habituados a reagir e julgar os outros que a fazer exercícios de introspeção e ligação com o que verdadeiramente necessitamos; por fim, o prisioneiro disse “Bom, a minha necessidade é ser capaz de sobreviver conseguindo um emprego depois de sair da prisão; o pedido que eu fiz às autoridades era aprender um ofício durante o tempo de reclusão.

Perguntou Rosenberg, “Como te sentes agora?”; “com medo”, respondeu o prisioneiro. Ao ligar-se com a necessidade que provocava a raiva contra as autoridades, esta dissolveu-se por si mesma e deixou de se fazer sentir. 

Reunindo-se com as autoridades da prisão depois deste trabalho de introspeção, depois de descobrir as suas necessidades, já não necessitou de os acusar, pelo que ao referir as suas necessidades e o seu medo, provavelmente encontrou a satisfação do seu pedido.

Se hipoteticamente, enquanto esperava a resposta das autoridades, o prisioneiro tivesse acesso à Internet e conseguisse inscrever-se num curso, ao ter encontrado, por outra via, a satisfação da sua necessidade, deixaria eventualmente de sentir raiva contra as autoridades prisionais. Isto prova uma vez mais que o que provoca a ira não é o que os outros dizem ou fazem, mas a nossa interpretação do que eles dizem ou fazem; a génese, raiz ou causa da ira porém está numa necessidade insatisfeita.

Ligarmo-nos com as nossas necessidades é muito difícil na nossa cultura porque fomos educados para não as ter, ou para não estarmos cientes de que as temos, e assim poder colocar-nos dócil e subservientemente ao serviço da pátria, do rei, da bandeira, do patrão, dos filhos, dos alunos, da instituição, da empresa…. Reconhecer e expressar necessidades é associado com egoísmo.

Fazer o ponto da situação na partilha do processo
Por fim partilhamos com a outra pessoa o processo que seguimos no nosso íntimo:

1. Começamos por revelar o que desencadeou a nossa ira, o que a pessoa fez ou disse que estimulou a minha ira. Às vezes é bom escrever para vermos tudo com maior clareza.

2. Expressamos a ira, tomando consciência de que estamos irados e que esta ira resulta não do que o outro faz ou diz, mas sim do que nós dizemos a nós mesmos como interpretação do que o outro faz ou diz. Perguntamo-nos o que é que dissemos a nós mesmos que causou a nossa ira?

É o julgamento que fazemos do que o outro disse ou fez, qualificando-o como errado, cruel, insensível, preguiçoso, injusto, etc. que provoca a nossa ira. Nós e só nós somos os criadores da nossa ira quando julgamos o comportamento dos outros como errado.

3. Procuramos a necessidade que não estava a ser satisfeita e que estava escondida atrás da forma como julgámos a pessoa que desencadeou a nossa ira. Assim sendo, traduzimos ou substituímos a apreciação que fizemos da outra pessoa pela nossa necessidade não satisfeita.

Evitamos dizer “estou zangado porque tu…” (fizeste… ou disseste… ou és…) e dizemos, “estou zangado, porque eu necessito… (revelo a necessidade insatisfeita).

No exato momento em que nos ligamos a essa necessidade, reconhecendo que é ela a causa da nossa ira, deixamos de sentir a ira, esta é substituída por um outro sentimento mais positivo e fácil de lidar. No caso do prisioneiro foi substituída pelo medo de não ter um trabalho depois de sair da prisão. Também é importante ligarmo-nos aos sentimentos e necessidades da pessoa que desencadeou a nossa ira.

4. Agora estamos prontos e capacitados para fazer um pedido à pessoa que me pode ajudar na satisfação da minha necessidade.

No caso do prisioneiro, seria assim: “há três semanas, fiz um pedido para o qual ainda não obtive resposta; estou com medo, pois tenho necessidade de ganhar a vida quando sair desta prisão; sinto que sem tirar um curso ou aprender um ofício, vai ser difícil sobreviver lá fora”.

A tristeza facilita a introspeção que nos impulsiona a encontrar a satisfação das nossas necessidades. Ao contrário, a ira atira-nos para fora de nós e, num primeiro momento, leva-nos a culpar os outros pela insatisfação das nossas necessidades. A ira, que resulta da forma punitiva como julgamos os outros, distrai-nos de tal forma que ignoramos por completo a necessidade ou necessidades que são a causa dessa ira. - Neste sentido, pode servir como chamada de atenção de que estamos completamente desligados das nossas necessidades - só aplacaremos a ira se encontrarmos dentro de nós a sua causa e não nos outros.

RESOLUÇÃO DE CONFLITOS
Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. Mateus 5, 9

Todos conhecemos os efeitos nocivos dos conflitos mal resolvidos: violência destrutiva, ódio, vingança, ressentimento, ansiedade, insónia, depressão, medo. Por isso, temos uma tendência inata a evitar os conflitos e a fugir deles como o diabo da cruz. Porém, a arte de viver conjuntamente não é a arte de evitar os conflitos, mas sim a arte de os experimentar e vivenciar positivamente para todos os envolvidos. Tal como a ira que não deve ser reprimida, o conflito deve ser vivenciado porque é natural, normal e neutro.

O conflito é natural
Deus não nos criou iguais, mas diferentes: somos diferentes em género, dentro do mesmo género em preferência sexual, idade, fisionomia, personalidade e carácter, gostos, escolhas, valores. A convergência destas divergências, não é fácil nem naturalmente harmoniosa.

Muitas arestas devem ser limadas para que a divergência natural resulte em convergência harmoniosa e, eventualmente, em complementaridade. A unidade de facto acontece quando olhamos para as nossas diferenças como uma mais valia e não como um defeito, quando descobrimos que nos complementamos e que essa complementaridade só é possível na aceitação das diferenças entre nós.

O conflito é normal
O conflito é inerente ao ser humano, tanto no plano individual com os conflitos internos, como no plano social como conflitos externos; por isso, é também transversal a toda a atividade humana -onde quer que a pessoa esteja há conflitos, no lar, na fábrica, na empresa, na escola, no hospital, na Igreja, em todas as instituições.

Como a nossa cultura nos ensina que o conflito é mau, não nos capacita para o resolver de forma a procurarmos a satisfação das necessidades de todos. Pelo contrário, só nos oferece as três formas clássicas de reação do cérebro reptílico: luta, submete-te ou foge e evita o conflito. O confronto é normal. O mau, funcionamento da sociedade ou de qualquer instituição vem da incapacidade de gerir os confrontos.

O conflito é neutro
Em si mesmo, o conflito não é bom nem é mau, não é adequado nem inadequado, não é certo nem errado. Tudo depende da forma como lidamos com ele. Tal como no caso da ira, no início, o conflito faz soar um alarme, é um sintoma de divergência, de uma crise que, como todas as crises bem geridas, levam a um maior crescimento.

Quando o conflito é mal gerido ou evitado, por medo, serve para manter o “status quo” e ainda lhe acrescenta um clima de insatisfação e uma violência contínua que envenena e corrói as relações, levando eventualmente a uma perda maior para todos os envolvidos se, por uma razão ou por outra, o conflito deflagrar efetivamente.

Quando a gestão acontece depois de muito tempo de guerra fria, o problema assumiu proporções dificilmente difíceis de gerir até porque, nessa altura a guerra fria já vai demasiado longa e já não há vontade de resolver o conflito.

O teu inimigo esconde-se de ti porque te odeia, tu escondes-te dele porque o conheces – diz um provérbio africano. Numa comunidade religiosa, empresa ou instituição, cujos membros vivem em clima de guerra fria, vemos como estes se movem à volta uns dos outros, como peixes num aquário e, quando acidentalmente se tocam, fazem faísca e repelem-se mutuamente.

Algumas causas de conflitos
•    Não ouvir a opinião do outro porque não gostamos dele
•    Querer que todos sejam iguais
•    Não aceitar o outro como ele é
•    Inferir motivos por trás de comportamentos
•    Bloqueio de pessoas em papéis atribuídos
•    Preconceitos, encaixar o outro em papéis atribuídos, impedindo-o de crescer e mudar
•    Racismo, sexismo, chauvinismo
•    Rivalidade, inveja, autocracia
•    Crenças religiosas
•    Narcisismo e exagero das pequenas diferenças, ignorando o que temos em comum
•    Fixação nos pequenos detalhes, ignorando as grandes questões
•    Crítica destrutiva constante
•    Imposição de decisões a pessoas que não participaram na sua tomada
•    Medo de enfrentar e confrontar alguém
•    Negação e fuga de situações conflituosas
•    Usar o silêncio como arma para controlar os outros
•    Manipulação, insensibilidade
•    Falta de reconciliação ou reconciliação prematura sem resolver a questão
•    Ser tratado ou tratar os outros como crianças

Utilização das quatro etapas da CNV para resolver conflitos
Expressar a nossa vulnerabilidade, partilhando os nossos sentimentos, pode ajudar a resolver um conflito Marshall Rosenberg

Também na resolução de conflitos, como acontece na ira e noutros assuntos individuais e sociais, a CNV é como a varinha de condão que transforma os instrumentos de guerra em instrumentos de paz, a pedra filosofal que transforma em ouro tudo o que toca, a melhor matriz, o melhor paradigma ou modelo para resolver satisfatoriamente os conflitos que resultam e surgem da nossa vida em comum.

Ante um conflito ou sempre que nos encontramos no meio de um conflito nas nossas vidas, ou que presenciamos um, dos quatro passos da comunicação não violenta contribuem com uma clarividência que nos ajudará a comunicar com os outros compassivamente.

Observar e descrever objetivamente o que está a acontecer ou aconteceu; descrever os factos que compõem a situação que nos perturba, sem julgar, avaliar ou comparar com conflitos similares ou passados.

Ter consciência dos sentimentos e emoções que afloram em mim, tanto no meu corpo como no meu espírito; identificá-los e dar-lhes um nome, evitando palavras que contêm uma crítica velada aos outros e que me atiram para fora de mim e do meu sentir, como vítima, abandonado, rejeitado, incompreendido; estes não são sentimentos, mas sim palavras que avaliam a ação do outro. Ao nos responsabilizarmos pelos nossos sentimentos, evitamos lidar com a situação conflituosa como vítimas.

Ter consciência das minhas necessidades insatisfeitas e não dar por certo que os outros sabem do que precisamos, quando nem nós o sabemos. Esta forma de pensar provém da nossa infância, quando os nossos pais e educadores adivinhavam o que nos fazia falta sem que nós lho disséssemos ou mesmo sem que nós próprios tivéssemos consciência das nossas necessidades. Como adultos, é importante sermos capazes de identificar as nossas necessidades e fazer pedidos claros e diretos para as satisfazer. Assim, evitam-se os mal-entendidos e aumentam as possibilidades de que as nossas necessidades sejam verdadeiramente satisfeitas.

Quais são os nossos pedidos? Depois de identificar as nossas necessidades, o passo seguinte é fazer um pedido específico, viável, concreto e realista. Para estes pedidos, todas as respostas são “sim” e são positivas, mesmo quando há um “não” que só aparentemente é negativo.

Não devemos estar agarrados às nossas expectativas: a melhor resposta não é a que espero receber, mas a que o outro me dá. Todos precisam de se sentir livres para pedir o que precisam, assim como para dizer sim ou não às solicitações sem serem julgados, culpados ou criticados. Ao expressarmos as nossas necessidades, permanecendo abertos aos resultados, as relações tornam-se mais autênticas e satisfatórias. Como já sabemos, o “não” do outro corresponde a um “sim” às suas necessidades imediatas (que em CNV são também nossas) e a um adiamento das nossas.

Exemplo
Rosenberg fala de uma conferência que deu num campo de refugiados palestinianos; no exato momento em que foi apresentado como sendo americano ouviu-se uma voz estridente, “assassino”. Eis uma situação conflituosa que poderia resultar no insucesso da conferência e dificultar a sua segurança pessoal. Aplicando a CNV, eis o diálogo que se seguiu:

- O senhor está zangado porque gostaria que o meu governo usasse os seus recursos de forma diferente? (Não sabia se meu palpite estava certo, mas o que foi fundamental foi o meu esforço sincero para me ligar ao sentimento do meu interlocutor).
- É claro que estou zangado! O senhor acha que precisamos de gás lacrimogéneo? O que precisamos é de esgotos, casas, escolas, hospitais e uma pátria.
- Ou seja, está furioso porque em vez de gás lacrimogéneo, o senhor gostaria de ter do meu país um apoio para a melhoria das vossas condições de vida e para a independência política?

O diálogo continuou por mais tempo e Rosenberg pôs de lado os insultos e a linguagem dura para perscrutar os sentimentos e necessidades do palestiniano, ligando-se a elas empaticamente, sem concordar, discordar ou defender-se das suas afirmações. Rosenberg refere que, quando o homem se sentiu compreendido, conseguiu continuar a sua conferência, que terminou uma hora mais tarde com um convite para um jantar de Ramadão por parte do homem que lhe tinha chamado assassino.

Concluindo, para além de serem uma expressão dramática de necessidades insatisfeitas, tanto a ira como o conflito não resultam tanto daquilo que os outros dizem ou fazem, mas mais da forma como eu os julgo pelo que dizem ou fazem.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de novembro de 2018

CNV - Educar sem prémios nem castigos

Sem comentários:
Qual de vós, tendo um servo a lavrar ou a apascentar gado, lhe dirá, quando ele regressar do campo: “Vem cá depressa e senta-te à mesa” Não lhe dirá antes: “Prepara-me o jantar e cinge-te para me servires, enquanto eu como e bebo; depois, comerás e beberás tu”? Deve estar grato ao servo por ter feito o que lhe mandou? Assim, também vós, quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: “Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer.Lucas 17, 7-10

Prémios e castigos fazem parte da linguagem violenta, que precisa de estímulos externos para que as coisas sejam feitas. O homem novo, o homem não violento, é autónomo, a motivação para o seu agir é intrínseca, não faz o que faz por medo ao castigo, nem na ânsia de ganhar um prémio. Faz o que faz porque gosta, porque dessa forma satisfaz as suas necessidades e as necessidades dos outros no meio em que vive, contribuindo positivamente para a sua família, instituição, empresa ou sociedade em geral.

O texto bíblico acima citado confere esta ideia: Deus não fica em dívida connosco por termos feito o que era nosso dever fazer. Rosenberg repete muitas vezes, não faças nada que não seja por puro gosto de o fazer; aparentemente esta ideia parece ir contra o princípio cristão de fazer algo por alguém, de se colocar ao serviço dos outros, mas não é assim.

Tudo o que fazemos, devemos fazê-lo por gosto, porque livremente escolhemos fazê-lo. Desta forma, ninguém fica devedor do que fazemos, não somos escravos de nada nem de ninguém, nem sequer do dever, não escravizamos ninguém, ou seja, não endividamos as pessoas com o que fazemos por elas, pois não é por elas que o fazemos é por nós, porque temos gosto em contribuir para o bem-estar dos outros.

Marshall Rosenberg, o fundador da CNV, não desenvolveu muitos dos temas do âmbito da filosofia que estão na base da sua técnica linguística. Mas o tema da educação, esse sim, desenvolveu-o em dois pequenos livros, “Teaching Children Compassionately” e “Raising Children Compassionately”. Estes mesmos vamos seguir para expor a sua forma de educar as crianças em casa e na escola.

Convencido de que a CNV tinha o potencial de criar um homem novo e um mundo novo, Rosenberg não descurou o tema da educação. Fez questão de que esta nova linguagem não só fosse ensinada aos mais novos, como também constituísse a filosofia da educação, tanto em casa como na escola. Ele próprio ajudou a criar muitas escolas chamadas escolas-girafa, onde o sistema de ensino, assim como as relações entre os alunos, entre os alunos e os professores, e entre os professores e os pais, seguissem a matriz da CNV.

As limitações à coação e ao castigo
Desde criança, o ser humano sente uma necessidade inconfundível de proteger a sua autonomia e liberdade. Resiste naturalmente a fazer aquilo que os outros desejam que ele faça, mesmo que seja algo bom, pelo simples facto de que não se trata de uma escolha pessoal e livre. É certo que sempre podemos pedir às crianças que façam isto ou aquilo, mas devemos estar claramente cientes da diferença entre pedir e dar uma ordem.

As ordens são coercivas, pois fazem-se acompanhar do medo, do castigo, da culpa e da vergonha e não dão possibilidade de escolha. Pelo contrário, os pedidos concedem essa possibilidade de escolha, de tal modo que se a resposta é “Não”, o que ouvimos é um “Sim” às suas necessidades, ou seja, só aparentemente respondeu “Não” ao nosso pedido.

Rosenberg é perentório em afirmar que basta fazer duas perguntas para chegar à conclusão de que os castigos ou os prémios não funcionam e são contraproducentes como meios para motivar o comportamento de uma criança.

O que é que queres que o teu filho faça?
Em resposta a esta questão, pode concluir-se que a coação e as recompensas parecem ser um atalho para levar uma pessoa a comportar-se como queremos. Esta estratégia pode funcionar a curto prazo; porém, quando a pessoa se dá conta de que os prémios são viciantes e manipuladores e de que a coação é um atentado à sua liberdade, a estratégia deixa de funcionar.

Quais são as razões que queres que motivem o comportamento do teu filho?
Rosenberg garante que ao fazer esta pergunta damo-nos imediatamente conta de que as recompensas e punições não funcionam. Um comportamento que é imposto, motivado pelo medo, culpa, vergonha, obrigação ou o desejo de uma recompensa é uma ameaça à necessidade de autonomia, liberdade e independência da criança. As motivações extrínsecas implicam o pagamento de um preço alto, tanto por quem cumpre como por quem impõe.

Certamente preferimos que as motivações de conduta do nosso filho ou de qualquer outra pessoa sejam intrínsecas e não extrínsecas, por imposição com castigo se não cumprir ou sedução com recompensa se cumprir. Para que assim seja, precisamos de nos ligar empaticamente ao outro, de forma que ele saiba que seus sentimentos e necessidades são para nós tão importantes quanto os nossos.

Através de um diálogo empático, ambas as necessidades - as nossas e as do outro - podem ser identificadas e conhecidas. Quando isto acontece, a natureza encontra estratégias para que as necessidades de ambos sejam satisfeitas de uma forma vantajosa para ambos. Empatia leva a gratuitidade, a fazer as coisas e a dar de coração, sem necessidade de recompensas.

É também o diálogo empático que transforma uma ordem num pedido. As ordens talvez sejam úteis no exército, mas não na educação, pois não têm em consideração as necessidades do outro, a sua autonomia e liberdade de escolha.

Castigo físico
Em quase todos os países do mundo ocidental já é ilegal bater nos próprios filhos e, no entanto, a grande maioria dos pais ainda acredita no valor da punição física - abdicar dela seria abdicar da implementação dos valores que pretendem ver encarnados nos filhos.

Ou seja, para muitos pais, abdicar da punição é abdicar de educar e deixar os filhos fazer o que querem. Por isto mesmo, porque a lei os obriga a abdicar da punição e eles não entendem a educação sem punição, acabam por abdicar das duas coisas: da punição e da educação, tornando-se permissivos e condescendentes. Isto é negativo não só para as crianças, mas também para os pais e para a sociedade em geral.

Castigado com prémios
O que é válido para a punição e coação é igualmente válido para os prémios; estes são tão coercivos como os castigos, com o intuito de obter uma determinada conduta das crianças. Em ambos os casos, estamos a usar o nosso poder sobre as crianças, forçando-as a comportarem-se como nós queremos. O prémio também rouba a liberdade aos outros, pois faz com que atuem por motivos exteriores a si mesmos, o que é também um atentado contra a sua autonomia.

Alfie Kohn, no seu livro Punished by rewards, diz que educamos as crianças em casa e na escola, e que gerimos os trabalhadores de uma empresa, da mesma forma que treinamos um cão - subornando-os com incentivos: “faz isto e obterás aquilo.” Motivações extrínsecas, em forma de louvores, dinheiro, prémios são ineficazes e contraproducentes porque quem as recebe depressa se dá conta de que a razão última é a manipulação e o controlo do comportamento do outro.

É notável como muitas vezes os educadores usam e abusam da palavra motivação quando o que querem verdadeiramente dizer é obediência e submissão. Com efeito, um dos mitos fundamentais nesta área é que é possível motivar alguém. Kohn aconselha os educadores a ignorarem os artigos, os seminários ou workshops com o título, "Como motivar os seus alunos": enquadrar a questão desta forma significa expor-se a um dispositivo e mecanismos de controlo. Por outro lado, se falarmos de uma motivação intrínseca, ela é desnecessária, pois ninguém consegue motivar ninguém.

Motivados pela culpa
A nossa ação ou a nossa dádiva, deve surgir do nosso coração, deve ser motivada a partir do nosso interior, deve ser auto motivada. Para além dos prémios e castigos, como motivação, coação ou incentivo que induz as crianças a fazer isto ou aquilo, muitos pais, especialmente os que deixaram de punir e castigar os seus filhos, encontraram uma técnica alternativa, no seu entender não violenta: a de instigar culpa nos seus filhos. Afinal não saíram do “triângulo das bermudas” de Karpman, apenas deixaram de ser perseguidores para serem vítimas.

Quando uma mãe diz ao seu filho “Magoas-me a mim e ao teu pai quando não limpas o teu quarto, quando não tiras boas notas, etc…” Como não há vítimas sem perseguidores, ao fazer-se de vítima, a mãe está a acusar e culpabilizar o filho de a perseguir com o seu comportamento, na esperança que o filho se sinta suficientemente culpado e que esta culpa o leve a compensar a mãe, completando assim o triangulo, ou seja, tornando-se no salvador da mãe e alterando o comportamento que supostamente a oprime.

É claro que as ações da criança não motivam o sentimento dos pais, mas sim o que eles dizem a si mesmos como resultado das ações do filho. A criança que muda o seu comportamento, para comprazer os pais, fá-lo por se sentir culpada e não porque positivamente quer contribuir para a sua vida e para a vida dos seus pais e da sociedade em geral. Se os pais, ao expressarem os seus sentimentos, referissem a seguir as suas necessidades, então o ato já não seria coercivo, nem violento, nem instigador de culpa na criança; pelo contrário, seria a CNV em ação: -  “A mãe sente-se frustrada quando não comes tudo o que tens no prato, porque quero (ou tenho necessidade de) que cresças forte e saudável”.

Criar laços
A solução entre a preservação da autonomia das crianças e o nosso desejo de que elas assimilem os valores que queremos transmitir-lhes por via da educação, é uma mudança de paradigma e objetivo. O que queremos é criar laços que permitam que todos satisfaçam as suas necessidades. Laços de respeito mútuo, onde as necessidades de ambos, tanto educadores como educandos, sejam igualmente importantes e interdependentes.

Neste novo paradigma de educação, aplicamos às crianças os mesmos princípios que usamos com os adultos: abdicamos de toda e qualquer avaliação em termos de certo ou errado, bom ou mau, substituindo estas avaliações por descobrir se vai ou não ao encontro das minhas necessidades, se está ou não em harmonia com elas. Na prática, isto deve ser feito de forma a não estimular ou provocar culpa ou vergonha nas crianças.

“Tenho medo quando te vejo bater no teu irmão mais pequeno, porque sinto necessidade de que a família seja um lugar seguro”, em vez de “Bater no teu irmão mais pequeno é mau, é covarde”. “Não limpaste o teu quarto, és um preguiçoso”. “Sinto-me frustrado quando me dou conta de que não fizeste a cama, tenho necessidade de que todos contribuam para manter a casa limpa e ordenada”.

Amor incondicional
Não vos deixeis tratar por “mestres”, pois um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos. E, na terra, a ninguém chameis “Pai”, porque um só é o vosso “Pai”: aquele que está no Céu. Nem permitais que vos tratem por “doutores”, porque um só é o vosso “Doutor”: Cristo. Mateus, 23-8-10

A autoridade autocrática não tem lugar em CNV nem no mundo novo que Jesus veio inaugurar; somos todos irmãos de facto e o que conta é a autoridade moral com a qual desempenhamos um serviço na comunidade. Todos os serviços são importantes para a vida comunitária, o desempenho de uma função, de um serviço, não nos dá nenhum poder sobre os outros; a única autoridade é a de Deus que é pai de todos. Portanto, o pai não tem autoridade sobre os filhos nem os mestres sobre os discípulos.

Este diálogo só funciona quando ganhamos autoridade moral sobre as crianças, no sentido de que estamos com elas quando elas mais precisam; muitos pais, pelo contrário, só se fazem visíveis ou presentes quando é ocasião de punir.

Uma criança pode um dia chegar a casa e desabafar “ninguém gosta de mim”; a tentação é negar que seja verdade ou dar conselhos. Nestes momentos, o mais importante é o silêncio empático que na prática se pode traduzir num olhar ou num gesto de apoio. Só depois se fazem perguntas que ajudem a criança a encontrar-se a si mesma.

O amor é incondicional e é certo que teoricamente, todos os pais amam incondicionalmente os filhos, mas na vida do dia a dia o que realmente comunicam em comportamentos e em linguagem corporal é precisamente o contrário, pois expressam tristeza e raiva quando as crianças não se comportam como eles desejariam e alegria quando estas fazem o que eles querem. Desta forma, o que as crianças gravam é a condicionalidade do amor dos seus pais, de tal forma que até podem fazer coisas elas mesmas não porque o desejam, mas para obter esse amor em forma de aprovação.

O uso da linguagem não violenta reduz os conflitos no seio da família assim como a rivalidade entre irmãos, pois substitui a luta pelo poder, pela cooperação e confiança. Para isso, os pais devem promover o crescimento emocional dos seus filhos e a autoestima, assim como proteger e alimentar a sua autonomia. Expressar frustração quando estes não fazem o que é para o bem de todos em vez de os julgar o culpabilizar. Fazer pedidos claros, concretos e viáveis e descobrir e escutar as necessidades por detrás da resposta “não.”

Quando uma criança diz ou faz algo que não é do nosso agrado
Não é raro, que uma criança diga ou faça algo menos positivo. É neste momento que devemos respirar fundo e gerir a situação dentro dos parâmetros da CNV, o que, a princípio, pode ser muito difícil e requerer algum tempo. Nestes momentos de crise, o mais certo é que o nosso cérebro reptílico tome conta de nós. Por isso, para nos ligarmos ao neocórtex, devemos dar tempo para que o cérebro reptílico se desligue e observar sem julgar, mesmo dentro da nossa mente. São quatro as nossas opções:
  1. Culpabilizarmo-nos – “Sou um mau pai ou mãe, o meu filho ou filha é assim por minha causa…"
  2. Culpabiblizamos a criança – “És egoísta. Mal-educado, não serves para nada, etc…”
  3. Conectamo-nos com os nossos sentimentos e necessidades – “Sinto-me desiludido, necessito que o meu esforço seja reconhecido.”
  4. Descobrimos os sentimentos e necessidades da criança – “Sentes-te relutante porque queres ter liberdade para fazer as tuas próprias escolhas?”
Quando conseguimos ligar-nos aos nossos sentimentos e necessidades, indiretamente estamos a ajudar o outro a fazer o mesmo e, desta forma, ambos encontram certamente uma saída airosa e satisfatória das necessidades de ambos, mesmo na pior das situações.

O objetivo é que o que quer que as crianças façam, seja porque elas mesmas o escolhem fazer e o fazem por gosto, cientes de que estão a contribuir para que a sua e a nossa vida sejam mais maravilhosas, já que o que fazem vai ao encontro da satisfação das nossas e das suas necessidades. Assim sendo, um pedido pode soar mais ou menos assim: “Gostaria que fizesses isto, satisfaria a minha necessidade, mas se por acaso as tuas necessidades estão em conflito com isso, diz-me, para descobrirmos os dois a melhor forma de satisfazer as necessidades de ambos.”

Escola chacal
Para a sociedade violenta se manter como tal, precisa de ter escolas onde a violência é aprendida e faz parte do currículo. Não se trata apenas de a direção da escola fazer vista gorda em relação ao bullying e só atuar quando as consequências são catastróficas ou quando é demasiado tarde e a vítima se suicidou. A violência institucional é exercida sobre as crianças nos seguintes moldes:
  • Ensina as crianças a obedecer incondicional e acriticamente à autoridade, de forma a que, quando são contratados para um emprego, elas fazem o que lhes é mandado sem levantar questionar.
  • Treina as crianças a trabalhar por uma recompensa externa. A escola não está interessada em que a criança aprenda a enriquecer a sua vida e a vida dos outros, mas que se esforce por obter notas altas, goste ou não goste do tema de estudo, uma vez que estas notas vão traduzir-se no futuro num emprego com salário elevado.
  • Mantém as desigualdades sociais e um sistema de classes ou castas, fazendo-o parecer uma democracia.
Escola-girafa
As escolas em que pais e professores se relacionam como parceiros — onde a comunicação não violenta faz parte de cada interação — são comunidades de aprendizagem e não fábricas impessoais de cima para baixo. " Riane Eisler em As Crianças de Amanhã

Nas suas muitas viagens, por 50 países, Rosenberg ajudou a criar este tipo de escola, onde as relações entre professores, alunos e o resto do pessoal da ação educativa se faz nos moldes da comunicação não violenta.

As crianças têm um papel ativo no processo educativo – Neste sentido, Rosenberg inspira-se no antigo processo socrático da maiêutica, da psicoterapia não diretiva de Carl Rogers e das experiências do brasileiro Paulo Freire. O outro, seja criança ou adulto, não é um saco vazio que eu vou encher de conhecimentos. Os estudantes, os professores, os pais e o resto do pessoal da ação educativa aprendem juntos, uns com os outros, pois todos têm algo a aprender e todos têm algo a ensinar.

A motivação é interna, autónoma, não coerciva – A motivação para o que quer seja que as crianças façam, sai delas mesmas, não é imposta de fora por meios coercivos negativos, como castigos e punições, nem positivos, como prémios e galardões.  A autonomia das crianças é um valor respeitado em escolas-girafa, porém não se afirma a autonomia desligada da interdependência. A verdade é que somos tão autónomos quanto interdependentes uns dos outros; um valor não pode ser afirmado em detrimento do outro. Os alunos são motivados por valores, necessidades e desejos intrínsecos a si mesmos, e não impostos ou sugeridos a partir de fora.

A autodisciplina substitui a disciplina assente na obediência motivada pelo medo ao castigo – Nesta escola as crianças não são disciplinadas, mas autodisciplinadas; isto porque estão convencidas do valor da disciplina pelo que esta não é imposta a partir de fora, mas querida e adotada a partir de dentro. As regras de funcionamento da escola são discutidas e acordadas por todos os que são afetados por elas.

As crianças respeitam a autoridade em vez de a temer – A autoridade não é autocrática nem sequer democrática, mas é sobretudo uma autoridade moral que conquista o coração das crianças por intermédio da empatia e da compaixão; assim sendo, existe um respeito e compreensão mútuo entre professores e alunos e colaboração a todos os níveis.

As crianças numa escola-girafa aprendem a expressar-se com os colegas e professores de forma positiva, evitando qualificativos, preconceitos, comparações e críticas. Expressam os seus sentimentos quando algo não corre bem e procuram descrever esses sentimentos. Seguidamente, perguntam aos outros, sejam eles pais, colegas ou professores como gostariam que eles atuassem, fazem esses pedidos de uma forma positiva e clara. Por fim, fazem-se responsáveis pelas próprias ações e decisões.

Para Rosenberg, nem só a aprendizagem do currículo, as boas notas, e o sucesso académico em geral são importantes para o futuro das crianças; a relação que a criança estabelece com o professor e com os colegas faz parte da aprendizagem e é igualmente importante para uma vida bem-sucedida no futuro. As escolas devem preparar em geral para a vida e não só para o exercício de uma - profissão. Se uma criança aprende a resolver conflitos nos moldes da comunicação não violenta está a ser preparada não só para a vida profissional, mas também para a vida em geral.

O importante não é apenas o destino da viagem, o dia da formatura, mas também o processo que levou até lá - as relações vividas e a forma como foram vividas, os conflitos experimentados e resolvidos, a forma como se aprendeu - tudo isso faz parte da bagagem que a criança leva para a sua vida e não só um papel, um diploma.

As crianças resolvem os próprios conflitos – Algumas escolas têm na sala de aula um lugar chamado o canto da mediação; quando surge um conflito entre dois alunos, um terceiro faz de mediador entre os dois, usando com eles a técnica não violenta de resolução de conflitos.
Pe. Jorge Amaro, IMC







15 de outubro de 2018

CNV - Justiça retributiva VS justiça reparadora

Sem comentários:
Quando alguns homens brigarem e ferirem uma mulher grávida, e ela abortar, (…) se houver acidente fatal, darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, contusão por contusão. Êxodo 21, 22-25 - Deuteronómio 19, 16-21

Génese da justiça retributiva
Decalcada neste aspeto do código babilónico Hamurabi, a Bíblia reconhece que os atos humanos têm consequências inevitáveis. Há como que uma lei de recompensa embutida no universo que significa que as pessoas colhem o que semearam (Gálatas 6, 7). Os conceitos retributivos básicos da culpa, expiação e proporcionalidade da pena estão amplamente atestados tanto no Antigo como no Novo Testamento.

De facto, a Bíblia até termina com uma afirmação do princípio retributivo da justiça: “Eis que Eu venho em breve e trarei a recompensa para retribuir a cada um conforme as suas obras” (Apocalipse 22, 12). Portanto, a justiça bíblica é retributiva na medida em que gira à volta dos conceitos de culpabilidade moral, recompensa e o respeito pela Lei.

Seria, no entanto, um erro concluir que o conceito de justiça retributiva esgota ou engloba toda a ideia de justiça na Bíblia. Justiça no antigo Israel envolvia tudo o que fosse necessário para criar, manter e restaurar relacionamentos saudáveis no seio da comunidade.

Um ato criminoso era considerado errado, em primeiro lugar, porque violava os compromissos relacionais que mantinham a sociedade; em segundo lugar, porque os atos criminosos em si podiam conduzir a uma reação em cadeia de ruína e desastre se não fossem cerceados. Já no Antigo Testamento, mas sobretudo no Novo, os crentes são exortados a abdicar da retribuição ou retaliação, relegando-a para Deus e, no seu lugar, abraçar os princípios de perdão e reconciliação. (Mateus 5, 38-48, Romanos 12, 17-21, 1 Pedro 2, 21-23)

A justiça retributiva, tal como funciona nos nossos dias, nasceu no século XIII. Com o contrato social, dá-se a confiscação dos conflitos pelo Rei, Estado ou Lei. A partir deste momento as ofensas não são feitas a pessoas concretas de carne e osso, mas sim ao Estado por via da transgressão das suas leis. Portanto, as vítimas reais desaparecem e, no seu lugar, aparece como lesado o Estado. A vítima real poderia até perdoar, o sistema penal não perdoa porque o crime foi cometido contra um coletivo: a sociedade, o Estado.

Nos países onde existe ainda a pena de morte ou mesmo a prisão perpétua, o crime que a justiça comete é bem pior que o crime do criminoso; este, porventura, atuou sob a influência de alguma emoção forte num momento reativo, movido pelo seu cérebro reptílico mais do que pelo seu neocórtex. Pelo contrário, o crime do sistema penal é totalmente premeditado e não só por uma pessoa, mas por um elevado número de pessoas; e o que é ainda mais cruel, nefasto e bárbaro, são os anos que decorrem entre o pronunciamento da sentença de morte e a sua execução.

Com a aplicação de castigos, pretensamente proporcionais às penas, o sistema penal existe para defender a sociedade do crime, mas o que esconde verdadeiramente é que está articulado como instrumento de dominação de umas classes sobre outras; basta olhar para as nossas prisões e ver que estão cheias de pessoas que pertencem às classes mais baixas por crimes de pouca importância, quando comparáveis a gente das classes altas que cometeram crimes bem graves e vivem em liberdade.

Funcionamento da justiça retributiva
O tipo de justiça penal que se pratica em todo o planeta é a justiça retributiva que consiste em retribuir, a um delinquente ou infrator, mediante um castigo ou pena, o mal cometido a outra pessoa (vítima). Esse castigo é imposto por um legislador para compensar o dano infligido à vítima e, na maior parte dos casos, a pena é a privação da liberdade.

Para a justiça retributiva, delito é um ato individual de infração das leis do Estado; a responsabilidade deve ser assumida pelo infrator. O delito é uma questão entre o Estado e o delinquente, não se levando em conta a vítima, que verdadeiramente foi a pessoa lesada, nem as pessoas indiretamente envolvidas, nem mesmo a comunidade que, de algum modo, também foi lesada.

Na justiça retributiva só existem duas instâncias: o Estado que se apresenta e assume como sendo ao mesmo tempo vítima do crime, poder legislativo, executivo e coercivo, e o infrator que sofre as consequências da sua infração à lei.

A função do Estado é capturar o réu, acusá-lo, provar a sua culpa e aplicar-lhe uma pena adequada ao seu delito.

A função do infrator é acatar e sofrer passivamente a pena que lhe foi imposta, sem voz ativa no processo. Sem voz ativa neste processo está também a vítima, aquela que verdadeiramente sofreu o delito, assim como a sua família e também a família do infrator e a comunidade local; nenhuma destas pessoas existe no sistema penal da justiça retributiva.

O objetivo da justiça retributiva é que o infrator sofra na sua pele o dano que causou ao Estado, que seja punido conforme a gravidade do seu ato, que a sociedade seja defendida dele, privando-o da capacidade de cometer novos delitos e, por fim, que todos em geral em virtude desta punição sejam dissuadidos de cometer aquele ou iguais crimes. Esta dissuasão era a função das crucificações romanas à beira dos caminhos.

Justiça reparadora na Bíblia
Porventura me hei de comprazer com a morte do pecador - oráculo do Senhor Deus - e não com o facto de ele se converter e viver? Ezequiel 18, 23

O caráter restaurativo da justiça bíblica é já evidente ao nível macro teológico da Bíblia, desde o princípio até ao fim. Para a Bíblia, o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus; com o delito dos nossos pais Adão e Eva, perdemos a semelhança, embora retendo a imagem. O assunto único da Bíblia é a história da salvação ou redenção ou, melhor dizendo, da restauração da dignidade que o género humano possuía antes, da sua semelhança com Deus.

Como vimos na justiça retributiva, a vítima, a sua família assim como a família do infrator e a comunidade local desaparecem, ao passo que na justiça reparadora ganham protagonismo. Na história da salvação Deus é a vítima que se compromete a fazer tudo o que for necessário para restaurar a dignidade anterior da humanidade, como sugere a parábola do filho pródigo - e reparar o dano feito.

Para além da macro-história da salvação, já no Antigo Testamento encontramos elementos de justiça reparadora: em Números 5,6-7 Levítico 6, 1-7 os que ofendem devem reconhecer o erro, sentir remorso, confessar o pecado, restituir à vítima agregando uma compensação.

Antes, porém, de chegar a fé, estávamos prisioneiros da Lei, estávamos fechados, até à fé que havia de revelar-se. Deste modo, a Lei tornou-se nosso pedagogo até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. Uma vez, porém, chegado o tempo da fé, já não estamos sob o domínio do pedagogo.  Gálatas 3, 23-25

Se Caim foi vingado sete vezes, Lamec sê-lo-á setenta vezes sete (Genesis 4, 24) – O objetivo da lei é evitar a escalada descontrolada da violência. Mas não era a intenção de Deus que a lei fosse uma solução permanente; por isso mesmo, Jesus em Mateus 5, 38-48 revoga e substitui a lei de olho por olho substituindo-a por um sistema superior de perdão incondicional e amor ao inimigo, substituindo também a declaração de extrema violência de Lamec, pelo perdoar 70 vezes sete. (Mateus 18, 22)

 Estará então a Lei contra as promessas de Deus? De maneira nenhuma! Pois, se tivesse sido dada uma lei que fosse capaz de dar a vida, a justiça viria realmente pela Lei. Gálatas 3, 21

Para Paulo é Jesus que dá a vida; a retribuição e o castigo não são transmissores de vida pois só oferecem consequências negativas aos atos ofensivos, mas não têm nenhum poder para mudar os corações, para curar. A justiça reparadora, sana e cura, pois, a união com Cristo transforma-nos. A justiça retributiva não tem capacidade para nos fazer santos por isso não é, nem pode ser, o último plano de Deus. De facto, depois da vinda de Cristo continuar a guiar-se pela lei é contraproducente e só faz mal.

Eu, sem a lei, estava vivo outrora. Mas, ao chegar o mandamento, ganhou vida o pecado e eu morri. E deparei-me com isto: o mandamento que me devia levar à vida, esse mesmo levou-me à morte. É que o pecado, aproveitando-se da ocasião dada pelo mandamento, seduziu-me e deu-me a morte, por meio dele. Romanos 7, 9-11

Qualquer coisa boa pode tornar-se má; a família é supostamente um lugar onde nos sentimos seguros e amados, mas também pode ser profundamente abusiva e deixar cicatrizes devastadoras. A Religião e a Lei de, por si só, também são boas, mas, tal como a família, também podem tornar-se abusivas. Vemos esse abuso nos fariseus que Jesus confronta continuamente. Paulo era também ele um fariseu até se converter e tomar o caminho de Cristo.

Concluindo: a justiça retributiva sempre existiu; a Lei apareceu para evitar a escalada da violência. No entanto, como Paulo nos diz, a Lei era só um pedagogo; o plano definitivo de Deus é a justiça reparadora em Cristo. Jesus não acusa nem condena, restaura a saúde espiritual, moral e física das pessoas que vai encontrando no caminho; assim faz com Zaqueu, a pecadora apanhada em adultério, o paralítico, os leprosos, etc.

Como funciona a justiça restaurativa
O livro de Howard Zehr, intitulado “A new focus for crime and justice” de 1990, é considerado como sendo o primeiro a articular de uma forma sistemática esta teoria. É certo que o conceito vem de trás e, como Zehr reconhece, devido crédito deve ser dado à prática da justiça nas tribos indígenas do Canadá, Estados Unidos e Nova Zelândia.

O sistema penal não resolve nenhum problema e cria outros, enche as prisões de pessoas, cria marginais e “personas non gratas” na sociedade que tarde ou cedo voltam a transgredir. O sistema penal é um sistema que produz muito mais dor e sofrimento que a violência que pretende combater. A vingança não é justiça e a punição do infrator, por mais dura que seja, não traz nenhuma satisfação à vítima; impor a dor a outra pessoa não faz desaparecer a nossa dor, nem a diminui.

Para a justiça reparadora, delito é toda a ação que causa dano a uma pessoa. É um conflito interpessoal e, mais que uma transgressão às leis, é um malefício causado à vítima e à comunidade em geral. Se o delito tiver sido cometido contra a comunidade e uma pessoa concreta no seio dessa comunidade e não contra uma entidade abstrata como é o Estado, é na comunidade que o problema deve ser resolvido. Como diz o povo, “A roupa suja lava-se em casa, não fora”.

O lugar onde se aplica a justiça retributiva é o tribunal e a prisão; para a justiça reparadora, o lugar é o centro comunitário onde o infrator, a sua família e amigos se encontram com a vítima, com a família e amigos desta e com outras pessoas relevantes da comunidade à qual ambos pertencem. Curiosamente, nos lugares de aplicação da pena de morte estes encontros também se dão, quando os familiares da vítima vão assistir à macabra liturgia da execução do criminoso, mas são bem diferentes e bem tristes…

Os encontros da justiça reparadora são voluntários, devem decorrer no respeito mútuo, em clima de honestidade e humildade. O mediador ou facilitador deve encontrar-se com as partes em separado para preparar o encontro.

A justiça reparadora visa ajudar na recuperação da vítima e reintegrar o infrator na sociedade, tendo em conta a participação e mediação da comunidade. Como ferramenta, usa-se o diálogo e o encontro entre as partes direta ou indiretamente envolvidas. Para a justiça retributiva só havia duas instâncias: o Estado e o infrator. Para a justiça reparadora as instâncias são três: a vítima, o infrator e a comunidade.

A vítima – O Estado deixa de usurpar o papel da vítima; esta volta a ter protagonismo, expressa as dores que lhe ocasionaram o delito, procura que o dano seja reparado e que não volte a acontecer. Tem a palavra a vítima, a pessoa que verdadeiramente sofreu, foi lesada e está ainda em sofrimento. O Estado não foi ofendido e não sofreu realmente, pois a dor não se pode delegar. A vítima explica, face a face, como o crime afetou a sua vida e mostra o dano que causou.

A finalidade é reparar o mal feito, dando voz à vítima que expressa os seus sentimentos e as suas necessidades, levando o infrator a reconhecer o mal e a fazer algo pela vítima, de forma a não voltar a ofender. O objetivo é conseguir a reconciliação e especificar o que o transgressor deve fazer para recompensar a vítima.

Vejamos como funciona o papel da vítima no contexto da justiça reparadora no exemplo que se segue.
Uma criança cheira mal na escola e por isso é vítima de “bullying” por parte dos seus colegas. No âmbito da justiça retributiva, estes colegas vão ser punidos, o que provavelmente nada vai resolver e, passado algum tempo, estes voltam a reincidir ou outros fazem-no no seu lugar.

Ao contrário, no âmbito da justiça reparadora, o “bully” e a sua vítima, além de outras pessoas das respetivas famílias e da escola, assim como líderes da comunidade, vão ser convocados para uma reunião. O transgressor fica a saber a razão pela qual a sua vítima cheira mal; é um menino pobre, de um bairro de lata, não tem eletricidade nem água corrente em casa.

O infrator e a sua família vão ter uma compreensão mais profunda do problema que está por trás daquela situação de conflito, e desta reunião pode sair a possibilidade de mobilizar as forças sociais para procurar uma solução, na raiz do problema. No âmbito da justiça retributiva não chegaríamos tão longe: ela não resolve nada e pode criar mais problemas, como fazer aumentar a violência se tiver havido exagero, na aplicação da punição.

O infrator - Entende a vítima, reconcilia-se com esta e repara o dano. O réu fica a saber o impacto real da sua ação, coisa que não acontece na justiça retributiva. Assim, mais facilmente é responsabilizado, coisa que raramente acontece no sistema retributivo, onde procura provar a sua inocência ou fugir à justiça.

A justiça reparadora deposita grande esperança no encontro entre a vítima e o infrator. Um crime é sempre um encontro desumano e desumanizante entre duas pessoas, uma vez que estas se encontram superficialmente descontextualizadas. O encontro procura colocar as pessoas no seu ambiente vital com as suas relações. Vejamos no seguinte exemplo como o infrator pode mudar ante um conhecimento mais profundo da sua vítima e de como o seu crime tocou negativamente a vida de muitas pessoas.

Um jovem que mata um taxista e é julgado no contexto da justiça retributiva, nunca chega a conhecer a vítima e o seu ambiente, apenas vai ser punido e mais nada. Pelo contrário, na justiça reparadora ele conhece melhor a dimensão do seu crime: na verdade, ele matou um taxista que era casado e que deixa uma viúva sozinha a criar 8 filhos. A perceção clara do sofrimento que o criminoso causou tem um efeito interno de transformação, já que apela obrigatoriamente à sua compaixão, à humanidade que decerto deve possuir.

Ao contrário da justiça retributiva, pela qual ele nem sabia a magnitude do sofrimento causado nem lhe era pedido que reparasse os danos, na justiça reparadora, pode participar ativamente ajudando a resolver o problema que o seu ato criou e até mesmo mudar a sua vida neste processo. No âmbito da justiça retributiva, ficaria na prisão matutando no que correu mal, no âmbito da execução do crime que ele tinha idealizado como perfeito, como se deixou apanhar ou o que podia ter feito para fugir à justiça.

A comunidade – Acompanha, facilita o processo e vela pelo cumprimento das condições pactuadas entre o réu e a vítima. Na justiça retributiva, o Estado usurpa o papel da vítima e da comunidade, só ele atua, só ele tem papel ativo na solução do problema. Na justiça reparadora, o problema é resolvido onde surgiu e pelos que o criaram e junto dos que o sofreram. No diálogo entre as partes, a comunidade é mediadora na reconciliação e facilita o processo.

Em conclusão, na justiça retributiva o Estado assume o papel de vítima abstrata e pune o infrator. Na justiça reparadora interagem a vítima, que expõe a sua dor e os danos causados, o infrator, que se apercebe da magnitude do seu ato e se compromete a repará-lo, e a comunidade, que arbitra, medeia e facilita esta relação que é reparadora tanto para a vítima como para o infrator.

Um filme chamado Conversas
O facilitador mediante duas reuniões prévias, com cada uma das partes, consegue acordar que a família da vítima e a família do criminoso se encontrem numa reunião. Baseado numa história real, o filme relata que um individuo viola e mata uma rapariga enquanto se encontrava em liberdade condicional. O criminoso está na prisão a cumprir pena, mas envia à reunião um vídeo no qual pede perdão pelo crime e diz que não tinha intenção de matar a vítima, garantindo que a tinha deixado viva; só que se excedeu na violência sexual e ela acabou por morrer.

- Nos diálogos, o mais importante é como a culpa se vai diluindo e repartindo tanto pela família do criminoso como pela da vítima. A mãe do criminoso sente-se culpada por ter sido muito condescendente na educação do filho que era o preferido dela; o irmão confessa que podia tê-lo ajudado e que tentou falar com a vítima para a avisar; mas esta, pensando que ele queria conquistá-la, lançou-lhe um olhar de desdém; o irmão, sentindo-se ferido pelo olhar, desistiu de a avisar do perigo.

O pai da vítima confessou que a filha tinha herdado o snobismo dele e que; não lhe tinha dado a tempo um dispositivo de segurança que há muito havia prometido à filha que já tinha passado por outros episódios de perigo de violação. O tio materno do criminoso despedira-o do emprego e tinha dado a entender que a violência às vezes faz parte do sexo; a psicoterapeuta do criminoso, acreditou ingenuamente nele e admitiu até alguma atração por ele. As duas famílias acabaram reconciliadas, pois ambas sofreram com o crime e todos aceitaram uma parte da culpa.

Na sua vida de psicoterapeuta, Rosenberg dá conta do sucesso da utilização da filosofia da CNV no âmbito da justiça reparadora, num caso semelhante ao do filme Conversas, que colocou frente a frente um pai e a sua filha por ele violada.

1ª etapa - Rosenberg inicia a sua mediação pedindo à filha para dizer ao pai como a sua vida foi afetada pelo facto. Esta, sem formação em CNV, acusa o pai pelo que ele fez:
- Como foste capaz de o fazer, tu, o meu próprio pai, destruíste-me a minha vida! Devias apodrecer na cadeia.

Neste momento o processo requer que o pai sinta empatia pela filha. O normal é que ele peça desculpa, mas em CNV não há pedidos de desculpa e sim, um processo de luto. Quando, com a ajuda do facilitador ou mediador, o pai consegue sentir empatia pela filha e pela sua dor, sente uma grande tristeza.

2ª etapa – O pai entra agora num processo de luto que é muito mais importante que o pedido formal de desculpas.

3ª etapa – É a vez do pai expor à filha o que se passava com ele a nível de necessidades e sentimentos, e como aquele ato foi uma forma inadequada e cruel de procurar a satisfação das suas necessidades - uma satisfação egoísta que só teve em conta as suas necessidades e não as do outro.

O objetivo desta etapa é levar a vítima a chegar a sentir empatia com o autor do crime. Não é fácil, neste caso, a filha sentir empatia pelo pai, mas quando acontece dá-se a cura sem necessidade de pedir perdão nem conceder perdão. A empatia, por si mesma, tem o poder de sarar tanto o autor do crime com a sua vítima.

Sempre que o agressor consegue sentir empatia pela vítima e a vítima consegue sentir empatia pelo agressor, o perdão é automático. Pelo contrário, se não há nenhuma empatia entre as partes, o infrator pode até mesmo pedir perdão e a vítima concedê-lo, mas será uma mera formalidade, não um perdão real pois não surge do coração. Não haverá cura sem perdão real e vice-versa; os dois só podem acontecer por meio da empatia.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de outubro de 2018

CNV - Uma nova relação com Deus

2 comentários:
Aquele que não ama não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor. 1 João 4, 8

Escuta, Israel! O Senhor é nosso Deus; o Senhor é único! Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Estes mandamentos que hoje te imponho estarão no teu coração.

Repeti-los-ás aos teus filhos e refletirás sobre eles, tanto sentado em tua casa, como ao caminhar, ao deitar ou ao levantar. Atá-los-ás, como símbolo, no teu braço e usá-los-ás como filactérias entre os teus olhos. Escrevê-los-ás sobre as ombreiras da tua casa e nas tuas portas.» Deuteronómio 6, 4-8

A matriz da não violência
Quando abrimos um computador, vemos que todos os seus componentes assentam numa placa que é chamada placa-mãe (mother board). A memória física ou disco duro, a memória operativa ou RAM, o processador, as placas de som e de vídeo desempenham a sua função e a função no conjunto dos outros componentes na medida em que estão ligados à placa-mãe. Uma mudança da placa-mãe inutiliza todos os outros componentes, por não se adaptarem à nova placa. A placa-mãe de um PC é diferente da placa-mãe de um Macintosh.

Acreditamos que a Comunicação não violenta é uma nova placa-mãe para o mundo e sociedade em geral, uma nova ordem social. Sobre esta nova matriz assenta um novo direito, uma nova ética, uma nova forma de educar, uma nova forma de relacionamento connosco mesmos, com os outros e com o nosso planeta. Estamos em crer que nesta mesma matriz também assenta uma nova religião ou seja uma nova forma de relacionamento com Deus.

À semelhança da teoria dos cristãos anónimos, de Karl Rhaner, temos vindo a descobrir que muitos saberes, mesmo sem conhecer esta nova matriz, se deram conta por si mesmos que operavam inadequadamente sob o princípio da violência. Dentro do Direito há quem questione a justiça retributiva e queira substituí-la pela justiça restaurativa; em filosofia, já Sócrates via a doutrinação como uma forma violenta de educar pelo que a substituiu pela maiêutica - arte de ajudar a dar à luz. Tanto no serviço social como em psicoterapia, o assistente social ou o psicoterapeuta não trata de ensinar, mas sim de ajudar o outro a descobrir em si mesmo e / ou por si mesmo a sabedoria necessária para a resolução dos seus problemas. O que descobrimos por nós próprios é mais eficaz para a nossa vida que o que os outros descobrem por nós.

De uma forma semelhante, Carl Rogers, antepõe a sua psicoterapia não diretiva à diretiva e portanto violenta, entendendo que a solução dos problemas de cada um está em cada um; a ética questiona o princípio da guerra justa e acredita que pode haver um mundo para além do bem e do mal; por outro lado, já não se fala de uma moral heterónoma, baseada em princípios e regras morais estabelecidos por alguém para todos, mas sim de uma moral autónoma, baseada no primado da consciência moral, bem formada e informada, por cima de qualquer outra instância. Paulo Freire acredita num método semelhante à maiêutica para alfabetizar os camponeses, enquanto que Teilhard de Chardin e Walter Wink acreditam numa nova forma de relacionamento com Deus, numa nova religião.

Religião ou revelação
Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna. João 3, 16

É nisto que está o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele mesmo que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados. 1 João 4, 10

O cristianismo não é uma religião porque religião, da palavra “religare”, refere-se ao esforço, às obras e liturgias que o ser humano realiza para se relacionar com esse ser superior e omnipotente para obter a seu favor e para que Ele tome o seu partido contra os seus inimigos. O cristianismo é uma revelação na medida em que o pontapé de saída é dado pelo mesmo Deus que, por ser amor, nos amou primeiro; a iniciativa foi, portanto, de Deus que nos amou ao ponto de nos enviar o Seu Filho. Seguindo a mesma filosofia, Jesus escolhe os seus discípulos, não é escolhido por eles (João 15, 16).

Ao contrário do judaísmo que é negativo, com mandamentos que só nos dizem o que não devemos fazer, o cristianismo é positivo pois baseia-se no mandamento do amor. O judaísmo é evitar o mal, o cristianismo é fazer o bem. Ninguém é bom só porque evita o mal, de facto a iniciativa humana no judaísmo, e em todas as religiões, baseia-se na famosa regra de ouro da qual todas as crenças neste planeta têm uma versão: “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti”.

A regra de ouro cristã, porém, é positiva: «Portanto, o que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles, porque, isto é, a Lei e os Profetas.» Mateus 7, 12. O cristianismo é a “religião” da iniciativa; não esperamos que o outro venha até nós, vamos nós ao outro, movidos pela única intenção de o amar.

“Amor com amor se paga” – Ou dito no contexto da filosofia da CNV a compaixão que usamos connosco mesmos e com os outros produz no outro a compaixão que ele, por sua vez, usará consigo mesmo e connosco; desta forma se constitui um círculo progressivamente mais abrangente, como os círculos concêntricos formados pela água quando uma pedra cai no meio de um lago. Se, como dizem, o riso é contagiante, o amor é ainda muito mais contagiante.

Cristianismo – Não - Violento
As iniciais CNV tanto podem significar Comunicação Não Violenta como Cristianismo Não Violento. O cristianismo é, de facto, não violento, na sua essência e na sua origem histórica. Ninguém pode negar que o conceito de não-violência ativa tem a sua origem na doutrina e na praxis de Jesus de Nazaré. É certo que nem sempre o cristianismo foi não violento ao longo dos seus dois milénios de história; não podemos esconder realidades como as Cruzadas e o seu conceito de guerra justa, nem como a Inquisição ou a forma violenta de impor e proteger a verdadeira doutrina.

Historicamente, o cristianismo não seguiu as passadas do seu Mestre e Fundador, Jesus de Nazaré, nem na sua vertente humana nem no seu evangelho; sobretudo depois do imperador Constantino, a Igreja, aliada ao poder, seguiu o mito do poder, o mito babilónico. Em muitas ocasiões era este o seu evangelho e se de alguma forma seguia o outro, o de Cristo, lia-o à luz do mito babilónico.

Mas não foi assim no princípio, com Jesus de Nazaré, e até ao século V. Jesus, de facto, foi o primeiro ser humano a enfrentar o mito babilónico da violência redentora e provou com a sua própria morte que a violência não é querida por Deus; a violência não só não redime, mas transforma-se em círculo vicioso, que se move como um furacão, criando mais violência, crescendo em espiral e exponencialmente com cada ato de violência praticado.

Com a sua morte, Jesus provou que só a não violência é redentora. Por isso, Jesus, fundador do cristianismo, é também fundador da não violência. Já tivemos ocasião de expor as ideias da não violência ativa de Jesus, um termo que muitos pensariam criado por Gandhi, aquele que conseguiu a independência da Índia por meios não violentos; segundo Martin Luther King, Gandhi, não criou o conceito da não violência, mas foi a primeira pessoa na História a elevar e levar o amor ético de Jesus para além da interação entre indivíduos, constituindo-o como uma poderosa e efetiva força social em larga escala.

Gandhi até dizia, “Toda a gente sabe que Jesus era não violento, só os cristãos é que não”. Não se trata de uma crítica sarcástica aos cristãos, é bem verdade; os cristãos, de facto, nunca deram importância à não violência de Jesus e eles mesmos se riram do dar a outra face, interpretando esse dito como idealismo utópico inocente e ingénuo. - O próprio Gandhi decerto se referia a Jesus, quando falando da causa da independência da Índia dizia: “Nesta causa, também estou preparado para morrer, mas não há nenhum motivo pelo qual esteja preparado para matar”.

Jesus e o templo de Jerusalém
(…) fazendo um chicote de cordas, expulsou-os a todos do templo com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas dos cambistas pelo chão e derrubou-lhes as mesas; e aos que vendiam pombas, disse-lhes: «Tirai isso daqui. Não façais da Casa de meu Pai um covil de ladrões.» João 2 15-16

Jesus entrou em Jerusalém “ridiculamente”, poderíamos dizer, montado num burro (Lucas 19, 28-40) animal da paz e dos pobres, pois serve para a carga de coisas para ir ao mercado. Ainda hoje, na Etiópia, o cavalo é o animal da guerra e dos ricos, pois só serve para ostentação e guerra. - Se calhar as pessoas riram-se porque alguém que pretendia ser rei montava num jumento e não num cavalo… mas com isto Jesus riu-se da violência e dos sistemas de governo, não teve medo nem vergonha de ser aclamado rei montado num burro.

Muito se tem escrito sobre a expulsão dos vendilhões do Templo, pela qual, alguns se atrevem a dizer que afinal Jesus também era violento. Primeiro, é preciso notar que o evangelho menos histórico de todos é precisamente o de S. João; neste caso, os evangelistas sinóticos Marcos, Mateus e Lucas não mencionam nenhum chicote.

Quanto ao evangelho de João acima citado, o problema começou pela tradução errada que S. Jerónimo fez do original grego. “Todos” refere-se segundo o original grego aos bois e ovelhas que Jesus expulsou com o chicote e não aos vendedores. Assim sendo, o texto deveria dizer “Fez um chicote de cordas e expulsou todos os bois e ovelhas do templo”; de facto, quando chegou junto dos vendedores de pombas, não as expulsou da mesma forma usando o chicote, mas dizendo aos seus donos “tirem isto daqui”. De nada teria valido a lição dada ao entrar em Jerusalém montado num jumento em vez de um cavalo, se Jesus tivesse usado o chicote nas pessoas em vez de o ter usado nos animais.

É certo que Jesus estava zangado, mas não atuou violentamente. A sua ira, nesta ocasião como em outras, era justa e justificada; neste caso, para defender a verdadeira religião, noutros casos, para defender os pobres, as viúvas, os doentes e os indigentes em geral, contra os que se aproveitavam deles. Ao contrário da nossa ira, que exibimos quando os nossos interesses estão em causa, Jesus nunca se zangou, nem fez nada em proveito próprio.

O seu gesto foi profético, ao estilo dos profetas do antigo testamento que nunca se cansaram de repetir que o que Deus quer é amor, misericórdia e compaixão e não sacrifícios (Oseias 6, 6). Como muitos profetas antes dele, Jesus questionou e opôs-se a todo o sistema sacrificial violento. A religião, ou relação, que Jesus vem estabelecer é aquela relação de amor que havia entre o povo e Deus durante a travessia do deserto.

Jesus diz à Samaritana (João 4, 1-42) que a Deus não se adora, nem em Jerusalém, nem no monte Gerazim, mas em toda a parte pois Deus é espírito e a única condição é estar na verdade. Jesus no templo realizou um ato simbólico para convidar os crentes a cessar de cooperar com o sistema sacrificial, pois este absolvia ou isentava os fiéis de se converterem nas suas mentes e corações.

Por outro lado, de facto os sacrifícios tinham sido transformados num negócio vergonhoso e corrupto nos templos dos sumos sacerdotes Anás e Caifás; estes, como possuíam extensos rebanhos, instruíam os guardas do templo a inspecionar e rejeitar os animais para o sacrifício que não fossem comprados no próprio tempo. Deste modo, o povo não podia oferecer os seus animais pois os inspetores sempre encontravam neles defeitos e os declaravam impróprios para um sacrifício a Deus.

O nomadismo antigo, do povo de Israel, era propício a uma espiritualidade nómada, ou seja, em não arranjar falsas seguranças e em depender sempre de Deus. Foi este tipo de espiritualidade que inspirou o povo durante os anos da travessia do deserto rumo à Terra Prometida. Jesus no seu “modus vivendi” voltou a esses tempos: - de facto foi um nómada, nunca se estabeleceu, não tinha onde reclinar a cabeça (Lucas 9, 58).

O sedentarismo leva a criar estruturas de poder e a usar a religião como justificadora ou mentora espiritual dessas mesmas estruturas. Deus, que antes era espírito, foi encerrado num Templo e a Ele só acediam os sacerdotes, só eles tinham a chave, estabeleciam-se como intermediários entre Deus e os homens, vendendo bem cara a salvação ao povo.

Desta patranha já se tinham dado conta os Essénios que romperam com o judaísmo porque o consideravam corrupto e constituíram uma comunidade nas margens do Mar Morto; nesta comunidade, a salvação obtinha-se através da conversão de vida pela purificação física e ritual, por meio de água, símbolo de uma purificação espiritual.

O movimento Essénio era elitista, a salvação era para uns poucos; o que João Batista fez foi democratizar a salvação, trazendo-a para fora da comunidade de Qumram e colocando-a ao alcance de todos, por intermédio de um batismo nas águas do rio Jordão, para simbolizar uma purificação e conversão da mente e do coração. Sendo ele filho de um sacerdote e, portanto, também sacerdote, rebelou-se contra o Templo ao oferecer num batismo de água gratuito o mesmo perdão dos pecados que em Jerusalém ficava bem caro, com a compra de animais para os sacrifícios.

Por fim Jesus, que num princípio segue as passadas de João Batista - de facto até o vemos a jusante do rio a batizar ao mesmo tempo que João, (João 3, 22-26) - ao contrário deste e sobretudo depois da morte deste, Jesus leva a salvação pelas vilas e aldeias, pela imposição das mãos. A religião de Jesus é uma religião de rua e não de templos, nem de sinagogas, nem de igrejas, nem de lugares específicos como João no rio Jordão, pois estes rapidamente se estabelecem como estruturas de poder. A salvação é oferecida onde quer que os homens vivem e dela precisam.

No momento em que Jesus estava a morrer no alto da cruz, mais de três mil cordeiros e cabritos estavam a ser imolados no templo; depois do sacrifício de Jesus acabaram os sacrifícios do templo, pois o véu deste foi rasgado à mesma hora da morte do Senhor e o templo, que no tempo de Jesus tinha apenas sido reconstruído por Herodes e estava no seu apogeu de beleza e esplendor, (Marcos 15, 38) foi arrasado pelos romanos e até hoje nunca foi reconstruído.

A palavra “Guadalupe” significa “aquela que esmaga a serpente”, uma referência ao deus Quetzalcoatl ou serpente de pedra, ao qual as astecas costumavam oferecer sacrifícios humanos. Em 1487, devido à dedicação de um novo templo em Tenochtilan, cerca de 80.000 cativos foram imolados em sacrifícios numa só cerimónia que durou quatro dias. Curiosamente, com a chegada do cristianismo também ali se acabaram os sacrifícios humanos.

Uma religião sem sacrifícios
A CNV opõe-se à teologia, filosofia e psicologia do sacrificar-se e sacrificar as próprias necessidades pelos outros. Entende que faz parte da ideologia dos poderes instituídos da redenção pela violência; neste caso, a violência contra si mesmo. O supremo sacrifício de um homem pelo seu país, pela sua pátria, pela sua bandeira, ou pelo seu rei, o autossacrifício de uma mulher como esposa para satisfazer as necessidades do marido, ou como mãe para satisfazer as dos filhos, perpetua o mito da violência redentora que diz que a violência é necessitaria para atingir o bem.

Toda a ação realizada por motivos de dever, obrigação, vergonha, culpa, para comprar amor ou popularidade, por nos sentirmos responsáveis pela felicidade do outro, vai contra a filosofia da CNV. Tudo o que façamos por alguma destas razões tem um preço muito alto a pagar, tanto pelo autor da ação como pelo recetor da mesma.

Por favor, faz o que te peço somente se o podes fazer com a mesma alegria com que uma criança deita migalhas de pão aos patos esfomeados do lago. Marshall Rosenberg

Nunca dês nada a ninguém a não ser do fundo do coração. Marshall Rosenberg

Em CNV, o que quer que façamos, fazemo-lo gratuitamente, não fazemos devedores quando damos nem ficamos em dívida quando recebemos; o que quer que façamos, fazemo-lo por amor e pela alegria que sentimos ao contribuir para a nossa e para a felicidade dos outros; o que fazemos fazemo-lo para tornar a nossa e a vida dos outros mais maravilhosa; o que fazemos fazemo-lo por puro gosto, porque satisfaz as nossas necessidade s e as necessidades dos outros que também são nossas. Em CNV, não há nenhum motivo extrínseco em tudo o que fazemos.

Ninguém me tira a vida, sou eu que a dou de livre vontade. João 10, 18
Ninguém tem maior amor que aquele que dá a vida pelos seus amigos João 15, 13

Como para Jesus, o que é verdadeiramente redentor é a não violência, e como era contra o Templo e os seus sacrifícios, acreditamos que fosse também contrário à ideia do autossacrifício. A ideia de sacrificar-se por algo, vai ao encontro da “Violência Redentora”, ideologia dos poderes instituídos, e faz do cristianismo uma religião tão violenta como o Judaísmo que o precedeu. Esta pode ser a forma como os poderes instituídos conceptualizam o cristianismo e muitos cristãos entendem a sua fé e interpretam a morte de Jesus, mas não é certamente a religião que Jesus criou nem a forma como ele mesmo interpretou a sua morte.

Primeiro, como diz o evangelho acima citado, Jesus morreu de livre vontade, não porque estivesse destinado por Deus Pai nem porque as circunstâncias da vida que viveu o levaram à morte. Segundo, em plena concordância com os princípios da CNV, ele morreu por nós não porque fosse o seu destino e necessário que o fizesse, mas porque nos amava. Terceiro, para a CNV, necessidades, valores e ideais, são uma e a mesma coisa; por isso, morrendo por nós, Jesus estava a satisfazer a sua necessidade de amor por cada um de nós e pela humanidade como um todo.

Ama o próximo como a ti mesmo. Levítico 19,18
Aparentemente, este mandamento é só acerca do amor pelo nosso próximo. Porém, quando nos detemos a analisá-lo e nos damos conta de que a medida com que devo amar o meu próximo, é a minha autoestima, ou seja o amor que tenho a mim mesmo, tenho de concluir que este mandamento não só implica que devo amar-me a mim mesmo, mas também que primeiro devo amar-me a mim mesmo e só depois o próximo, da mesma forma como me amo a mim.

Para a CNV, o nosso mundo é abundante, e há nele suficientes recursos para que todos possam satisfazer as suas necessidades, pelo que nunca temos que abdicar das nossas necessidades para que outros possam satisfazer as suas. No caso de alguma vez as minhas necessidades estarem em conflito com as necessidades de outrém, a natureza inspirará estratégias para que as necessidades de ambos sejam satisfeitas.

Religião baseada no amor, não em prémios nem em castigos
No me mueve, mi Dios, para quererte
el cielo que me tienes prometido,
ni me mueve el infierno tan temido
para dejar por eso de ofenderte.

Tú me mueves, Señor, muéveme el verte
clavado en una cruz y escarnecido,
muéveme el ver tu cuerpo tan herido,
muéveme tus afrentas y tu muerte.

Muéveme, en fin, tu amor, y en tal manera
que, aunque no hubiera cielo yo te amara
y aunque no hubiera infierno, te temiera.

No me tienes que dar porque te quiera,
pues, aunque lo que espero no esperara,
lo mismo que te quiero te quisiera.

Não me move meu Deus para querer-te
O Céu que me tens prometido,
Nem me move o inferno tão temido
Para deixar por isso de ofender-te.

Tu me moves, Senhor, move-me o ver-te
Cravado numa cruz escarnecido,
Move-me o ver o teu corpo tão ferido
Movem-me as tuas afrontas e a tua morte

Move-me, enfim, o teu amor, de tal maneira
Que, ainda que não houvesse Céu eu te amaria
E ainda que não houvesse Inferno eu te temeria

Nada me tens que dar para que te queira
pois, ainda que o que espero não esperasse
o mesmo que te quero te quereria
Soneto ao Cristo crucificado por um poeta anónimo espanhol do século XVI

Como aprendemos em CNV, tudo o que fazemos motivado pelo medo de um castigo ou na esperança de um prémio é violento.

Este soneto, de um autor anónimo espanhol do século XVI, revela que já nesse século havia gente que pensava que a verdadeira religião, ou seja, a relação com Deus, não devia ser motivada pela ânsia de ganhar o Céu, nem pelo medo de ir para o Inferno.

A salvação acontece pela fé e não pelas obras. Uma vez que somos salvos pela fé, o Céu já está “ipso facto” garantido, não temos que o ganhar; por isso o que quer que façamos de boas obras é responder com amor e por amor a quem nos amou primeiro. S. Paulo já tinha intuído que o cristianismo é graça pura e incondicional, mas, nos séculos que se seguiram, a Igreja Católica enterrou esta teologia e instaurou a teologia violenta da salvação pelas obras e pela compra de indulgências plenárias.

Tal como para a não violência, foi preciso vir um Gandhi, para nos fazer olhar para as nossas raízes não violentas; também neste caso foi preciso um Martinho Lutero e um cisma na Igreja para nos reconciliar com a teologia paulina da salvação gratuita pela fé e não pelas obras.

Para este poeta cristão do século XVI, o que o comove, o móbil do seu amor por Jesus não é um amor interesseiro, do tipo “dou-te um chouriço para tu me dares um porco”, é um amor livre, é a resposta ao que me amou primeiro e se entregou por mim; não é o medo do inferno, nem a ânsia do Céu, porque ainda que estes não existissem o seu amor subsistiria, porque é um amor movido pela compaixão e pela empatia, conceitos tão caros à CNV.

O soneto, mais famoso de toda a literatura espanhola, tido também como o “ex libris” da Contra- Reforma, ironicamente aceitando o postulado da salvação pela fé, é tido e é de facto um encontro do amor de Deus manifestado na paixão, pois ninguém tem maior amor que aquele que dá a vida pelos seus amigos (João 15, 13). É um amor incondicional, pois Jesus deu a vida por todos nós enquanto ainda éramos pecadores (Romanos 5, 8). É a resposta do amor humano, também incondicional, sem a “contaminação” do Céu ou do Inferno.

Sem dúvida todo o amor pressupõe uma esperança, ou melhor, um propósito. O amor, mesmo entendido como sentimento, como acontece no banquete de Platão, é também ali um meio (na voz de Sócrates) para alcançar o bem absoluto e superar o estado de orfandade, pelo facto de o ser humano ser, em si mesmo, incompleto.

O amor de Deus, no entanto, não tem começo nem tem fim, é completamente gratuito. O soneto anónimo faz tábua rasa de toda a expectativa. Diz a Cristo que o seu amor não é guiado por qualquer interesse de recompensa ou medo de punição do inferno. O amor humano é inspirado pelo sofrimento de Cristo. Portanto, o amor absoluto de Deus tem a capacidade de gerar um amor semelhante em nós.

É certo que o poeta acredita e não nega a sua fé na vida depois da morte, mas insiste mais de uma vez no poema, em manifestar o seu amor livre de qualquer expectativa ou retribuição, eximindo Deus de toda a obrigação e até de bênçãos ou prosperidade que lhe possa conceder na sua vida terrena. O poeta vive de amor e por amor, nada tem a pedir nem para esta vida nem para a outra.

A salvação pela fé não pelas obras
Amor com amor se paga
Deus é amor por isso tudo o que Ele faz é amar; criou-nos por amor e quando andávamos perdidos por amor nos salvou, enviando-nos o seu filho único (João 13, 16). O amor que Deus nos tem não pode ser retribuído por boas obras ou bom comportamento. - Deus criou-nos e salvou-nos gratuita e incondicionalmente, sem querer nada em troca. Por isso, nada temos de fazer para ser salvos, porque nada que pudéssemos fazer nos conseguiria a salvação; pelos nossos próprios esforços a salvação não seria possível e, por ser impossível, Deus veio até nós para nos dar uma mão. Só podemos ir a Deus pelo filho (João 14, 6) e sem Ele nada podemos fazer. (João 15, 5)

Ama e faz o que queres – disse Stº Agostinho; só poderemos pagar o amor de Deus com amor, não com boas obras ou bom comportamento. Boas obras e bom comportamento são certamente o resultado natural do nosso amor por Deus. Mas não são impostas, motivadas por uma vontade de ferro repressiva das nossas necessidades, para obedecer aos mandamentos de Deus e entrar no Céu ou evitar o Inferno.

Frequentemente em sermões gosto de provocar as pessoas para as fazer pensar, dizendo que Deus só ama os que o amam. Imediatamente ouço uma reação de protestos que dizem que Deus ama a todos incondicionalmente, tanto o santo como o pecador. Faz o sol nascer sobre o bom e sobre o mau e envia a chuva para o justo e para o injusto (Mateus 5, 45)

Após a esperada reação eu digo que em teoria é assim, Deus ama a todos incondicionalmente, mas na prática, na realidade, só ama os que O amam. Só quando nos fazemos eco do amor de Deus é que sentimos os efeitos do Seu amor. Fazer-se eco do amor de Deus é amá-lo. Pelo contrário, se voltamos as costas a Deus, ou seja, se não O amarmos, Deus não pode impor-nos o seu amor; por isso, não amar a Deus significa não acolher nem aceitar o seu amor, pelo que não sentimos o seu efeito nas nossas vidas. Amar a Deus é aceitar o Seu amor; não amar a Deus é rejeitar o Seu amor.

A luz e o calor do Sol antes de chegarem até nós, cruzam o espaço sem o iluminar nem aquecer; de facto o espaço é negro e a temperatura são 300 graus negativos. Isto acontece porque o espaço é vazio, nada há nele nada que absorva ou reflita a luz e o calor do Sol. O nosso satélite, a lua, é um astro, um corpo celeste que no vazio do espaço absorve e reflete a luz e o calor do Sol, por isso tem uma temperatura de 300 graus positivos. A da Terra não é tão alta porque está protegida pela atmosfera. O mesmo acontece com o amor de Deus só quem o recebe e reflete o pode absorver. Amor com amor se paga.

 Isto mesmo é gratuitidade, o coração da filosofia da CNV. Recordemos a respeito as máximas de Rosenberg: “Não faças nem dês nada a ninguém a não ser que o dês e faças do fundo do coração”, “faz o que te peço somente se o consegues fazer como a mesma alegria com que uma criança deita migalhas de pão aos patos”.  - Não faças nada movido por motivações extrínsecas, como o dever, a obrigação, o medo, a culpa, a vergonha, a raiva; para comprar o amor dos outros ou o Céu; por medo do Inferno ou de ser castigado; ou porque te sentes responsável pela felicidade do outro.

Recebeste de graça, dai de graça, Mateus 10, 8 - Deus não nos deu, para nos fazer devedores; recebemos Dele gratuitamente e gratuitamente Lhe damos o nosso amor.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de setembro de 2018

CNV - Ecologia, uma nova relação com a Terra

Sem comentários:
Abençoando-os, Deus disse-lhes: «Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se movem na terra.» Deus disse: «Também vos dou todas as ervas com semente que existem à superfície da terra, assim como todas as árvores de fruto com semente, para que vos sirvam de alimento. Génesis 1, 28-29

O criador e o administrador da criação
Muitos ecologistas como Lynn White, (em “A raiz histórica da nossa crise ecológica”), culpam a Bíblia e, através dela, a religião por terem sido as mentoras e as madrinhas do domínio e exploração desenfreada da Terra. Para nós, estudantes da CNV, esta acusação é inaceitável pois, no mito bíblico da criação, a violência aparece à posteriori como um problema, não foi querida nem criada por Deus.

A justificação da violência à direita e à esquerda com tudo e com todos vem do mito babilónico da criação, que é anterior ao bíblico e é a raiz daquela a que o teólogo Walter Wink chama a religião “civil” que desde sempre e ainda hoje tem mais fiéis. Como já vimos, antes no mito babilónico a mesma criação é um ato de violência. Para o mito babilónico, a violência não é um problema, mas uma faceta intrínseca da criação, da natureza e do próprio Homem.

Dominar vem do termo hebreu “Radah”, uma palavra da realeza que significa reinar - trata-se, portanto do ofício de um rei. Que nos diz a bíblia sobre a forma como deve governar um rei? Vejamos como a mesma palavra é usada no contexto da coroação do rei Salomão que, para Israel, é o símbolo da sabedoria:

Dominará de um ao outro mar, do grande rio até aos confins da terra. (…) Ele socorrerá o pobre que o invoca e o indigente que não tem quem o ajude. Terá compaixão do humilde e do pobre e salvará a vida dos oprimidos. Há-de livrá-los da opressão e da violência, porque o seu sangue é precioso a seus olhos.  Salmo 72, 8, 12-14

E qual é o tipo de reinado que Deus não quer: Ai dos pastores de Israel, que se apascentam a si mesmos! Não devem os pastores apascentar o rebanho? Vós, porém, bebestes o leite, vestistes-vos com a sua lã, matastes as rezes mais gordas e não apascentastes as ovelhas. Não tratastes das que eram fracas, não cuidastes da que estava doente, não curastes a que estava ferida; não reconduzistes a transviada; não procurastes a que se tinha perdido; mas a todas tratastes com violência e dureza. Ezequiel, 34, 3-4

À luz do mito bíblico da Criação do Mundo, da parábola dos talentos (Mateus 25, 14-30) e suas congéneres, Deus não dá ao homem o direito de propriedade nem nenhum outro direito sobre a Criação, mas sim a responsabilidade de cuidar dela de uma forma consistente com a Sua vontade.

Primeiro, temos de entender que o homem, e só ele, foi feito responsável pela Criação, pois de todas as criaturas só ele foi criado à imagem e semelhança do Criador Deus. Segundo, o domínio como sinónimo de exploração desenfreada só pode provir de uma leitura do mito bíblico da criação, à luz do mito babilónico, por ser este mito o que tem prevalecido ao longo da história da humanidade.
A exploração desenfreada e violenta do planeta só pode ter vindo da leitura do mito bíblico da criação com as lentes do mito babilónico, pois a mente humana está formatada por este mito e não pelo bíblico. Nos dias de hoje, se perguntarmos se os seres humanos são ou não naturalmente violentos, a maioria das pessoas vai dizer que sim, que a violência faz parte da natureza humana.

Portanto, originalmente, ou seja, interpretando a bíblia à luz da própria bíblia, usando outros textos da mesma, a palavra “domínio” não significa despotismo totalitário, mas adequada administração sob a alçada de Deus; pois Deus é o único proprietário, dono e Senhor da Criação e de tudo o que ela contém, incluindo nós próprios:

Ao Senhor pertence a terra e o que nela existe, o mundo inteiro e os que nele habitam.  (Salmo 24:1).

Pois Deus não entregou a criação ao homem e se desinteressou dela; ao contrário, o homem não deve esquecer-se de que ele é só o administrador da criação:

Quem mediu as águas do mar com a sua mão e quem mediu o céu a palmo, ou o pó da terra com o alqueire? Quem pesou as montanhas na báscula e as colinas na balança? (…). De quem recebeu ele conselho para julgar, para lhe indicar o caminho certo? (…) - Quem lhe ensinou a ciência (…). As nações são como uma gota de água num balde, como um grão de poeira no prato de uma balança;
Isaías 40 12, 14, 15

Quem gera as gotas de orvalho? Job 38, 28

Ele dá de comer aos animais e aos filhotes dos corvos, quando gritam. Salmo 147, 9

Subjugar a terra, portanto, não significa dominá-la e explorá-la, mas sim aprender a compreender todos os seus processos, as leis da natureza e todas as suas criaturas, em benefício da humanidade e da glória de Deus. Este mandato está em vigor ainda hoje para todos os descendentes de Adão e Eva, mas é ainda mais importante para os cristãos, porque tivemos conhecimento do Senhor não somente no seu trabalho como Criador do mundo, mas também como seu Redentor. A redenção que obtivemos de Cristo é extensiva ao planeta; o planeta precisa de ser salvo também.

Neste mesmo espírito de vida, em harmonia com a natureza, a Igreja tem um santo para propor aos ecologistas do nosso tempo: S. Francisco de Assis. Para ele não havia animais antagónicos, não havia inimigos, por isso chamava o lobo de irmão lobo; não só se irmanou com os animais da terra, as aves do céu e os peixes do mar, como com os próprios elementos, chamando à água sua irmã e ao sol seu irmão.

O “Novo Testamento” do mito babilónico
Assim, da guerra da natureza, da fome e da morte, tem origem direta o objeto mais exaltado que somos capazes de conceber, a produção dos animais superiores." A luta pela existência, com a eliminação dos fracos e incapazes, leva à sobrevivência dos mais aptos, pelo que esta guerra da natureza deve, eventualmente, levar a animais superiores, raças superiores e finalmente civilizações superiores. Charles Darwin Ultimo parágrafo do livro Origem das espécies

Pelo uso e abuso de palavras e conceitos violentos, o último parágrafo do livro de Darwin parece decalcado do violento mito babilónico da Criação. Portanto, já nos tempos modernos vemos em Darwin e nos seus seguidores mais fanáticos, um “Novo Testamento” do mito babilónico, essa religião que domina o planeta. E tal como o cristianismo depressa se fez sentir no mundo, assim os efeitos da aplicação desta filosofia, nos últimos dois séculos - XIX e XX - e fazem sentir agora no século XXI.

Entre outros, um dos resultados nocivos desta filosofia tem sido a exploração descuidada dos nossos recursos naturais – animal, mineral e humano, tudo em nome da evolução socioeconómica. Grandes recursos minerais e vegetais, sobretudo a madeira, têm sido mal-usados e desperdiçados; quebrou-se o equilíbrio de regeneração da natureza, pelo que muitas espécies de vegetais e animais se extinguiram. O ritmo desta extinção é de 1000 por ano ou 100 por dia, segundo Norman Myers.

Volta-se o feitiço contra o feiticeiro – O efeito da exploração desordenada, egoísta e arbitrária o nosso planeta resultou numa contaminação sem precedentes dos ecossistemas:

O solo está depauperado de elementos essenciais à nossa saúde, por causa do mono cultivo; está também contaminado por pesticidas e fertilizantes químicos que alteraram a sua composição química e envenenam os lençóis freáticos de onde provém a água que bebemos;

Os oceanos estão cheios de microfibras de plástico que saem das nossas máquinas de lavar roupa, desde que o plástico substituiu as fibras naturais, como a lã, algodão, linho e seda, juntamente com metais pesados, como o mercúrio e que são absorvidos pelos peixes que consumimos;

O ar está contaminado por dióxido de carbono que produz o efeito de estufa, responsável pelo aumento global da temperatura que derrete os glaciares e as calotas polares, faz subir o nível do mar, altera o curso dos ventos, modifica o ritmo das estações do ano provocando furacões, inundações e secas de uma intensidade sem precedentes;

O ambiente social também está empestado pelo facto de que hoje 1% da humanidade possui mais riqueza (54%) que os restantes 99% (46%). A brecha entre ricos e pobres não para de aumentar. Uns morrem de fome, outros morrem de fartura; se houvesse partilha, nem morriam uns nem outros. Esta situação deve-se à ideologia do senhor Adam Smith, pai do capitalismo moderno, que acreditava que se todos fossem egoístas, ou seja, se todos buscassem o seu interesse individual, uma mão invisível se encarregaria do interesse comum; tal mão invisível a fazer de Pai Natal nunca se materializou, pelo que a situação vai de mal a pior.

Não temos nada contra os fundamentos da ciência da evolução das espécies; de facto, desde o Papa Pio XII, com a sua encíclica “Humani Generis” de 1950, que a Igreja Católica aceita os postulados fundamentais da teoria da evolução das espécies, ou seja, é mais que evidente que a vida vem toda de um tronco comum, que se foi diversificando em várias espécies ao longo de milhões de anos até aos nossos dias. O que não podemos aceitar é a interpretação violenta que o mesmo Darwin e os seus discípulos apresentam da teoria acima descrita no último parágrafo do seu famoso livro.

Com base no mito bíblico da criação e na CNV, acreditamos que a violência não faz parte da natureza, nem foi e nem é ela o motor da evolução, ao contrário do que pensava Darwin e os seus seguidores; esta foi introduzida pelo homem, pela forma com que se tem relacionado com a Natureza, sobretudo nos últimos dois séculos.

O efeito borboleta e o efeito dominó
Uma borboleta move as suas asas em Hong Kong e causa uma tormenta em Nova Iorque. Por pequeno que seja o que fazemos, afeta a ecologia global do planeta. Antigamente, porque a população humana do planeta era reduzida, o mundo parecia demasiado grande, demasiado poderoso e atemporal para que pudesse ser afetado pela ação do homem. Hoje, porém, para além da população ter aumentado de uma forma catastrófica e vertiginosa, sabemos que a ação do homem sobre o planeta é acumulativa, ou seja, os erros e os crimes contra o planeta vão-se acumulando porque, como dizia alguém, Deus perdoa sempre, o homem às vezes, a natureza nem perdoa nem esquece.

Embora o conceito já venha do 1890, o efeito borboleta ganhou aceitação popular em 1961, devido ao modelo de previsão do tempo usado pelo meteorologista Edward Lorenz. Este deu-se conta de que pequenas mudanças, que deveriam ter sido estatisticamente insignificantes, levaram a cenários exponencialmente diferentes.

A analogia de borboleta começou em 1972, quando Lorenz fez um discurso intitulado “Previsibilidade: pode o bater das asas de uma borboleta no Brasil desencadear um tornado no Texas?” Bem, tendo em conta as alterações que nós seres humanos já introduzimos no ecossistema complexo, conhecido como planeta Terra, é acertado dizer que fizemos o trabalho de milhares de milhões de borboletas.

Uma área de capital importância é a biodiversidade. Além do facto de a biodiversidade proteger os humanos contra os efeitos das catástrofes agrícolas, como a fome da batata irlandesa, a perda de uma espécie resulta em alterações significativas nos habitats naturais que podem prejudicar-nos gravemente a curto, médio ou longo prazo.

Tomando as mesmas borboletas como exemplo, se elas desaparecerem não só as crianças vão sofrer por não poderem brincar com elas, muitas plantas que estão intimamente ligadas às borboletas (e vice-versa) também estarão destinadas ao desaparecimento, pois umas não podem sobreviver sem as outras.

Quando pensamos na interdependência natural dos seres vivos entre si e dos ecossistemas entre si, é assustador pensar que tudo isto pode colapsar pela extinção de uma só espécie. As abelhas estão ameaçadas e são o maior polinizador do planeta; os esquilos estão ameaçados e plantam mais árvores que os seres humanos ao se esquecerem dos frutos secos que escondem no solo para sobreviverem no inverno.

O efeito dominó é uma realidade em ecologia; a mudança climática pode levar à extinção de animais e plantas deles dependentes e provocar uma reação em cadeia de consequências imprevisíveis, dada a interdependência dos seres vivos entre si e de serem todos eles dependentes das condições climáticas dos meios em que habitam.

Enquanto escrevia estas linhas recebi a triste notícia da morte do último rinoceronte branco macho; antes da sua morte, uma porção do seu esperma foi congelado na esperança de continuar a sua espécie, mas das duas últimas fêmeas existentes, uma é estéril. Isto faz com que o prognóstico da salvação do rinoceronte-branco seja muito reservado. Sabe-se que esta espécie foi impiedosamente caçada por causa da crença chinesa nas propriedades afrodisíacas do seu chifre.

Génese da violência no mito bíblico da criação
Segundo a religião violenta do sistema de domínio, que tem como Sagrada Escritura o mito babilónico, a violência é o mandamento principal, a matriz sobre a qual assentam todas as relações - a relação do homem com o seu semelhante, a relação do homem consigo mesmo, com Deus ao qual se oferecem sacrifícios violentos para aplacar a ira ou conquistar o favor, e com a natureza por esta não ser para nós uma mãe prodigiosa, mas sim uma madrasta.

A Natureza, aos animais deu-lhes tudo, até os vestiu, a nós não nos deu nada nascemos nus, e se queremos comer temos de trabalhar. Ao contrário do Neandertal, que se adaptava à natureza, já o Homo Sapiens procurou dominar a Natureza com a sua mente e adaptá-la às suas necessidades. Entendendo-se a si mesmo, em relação aos outros animais, como o patinho feio da Criação, a relação do homem com a Natureza parece ser uma relação de vingança.

«Porque atendeste à voz da tua mulher e comeste o fruto da árvore, a respeito da qual Eu te tinha ordenado: ´Não comas dela´ maldita seja a terra por tua causa. E dela só arrancarás alimento à custa de penoso trabalho, todos os dias da tua vida. Produzir-te-á espinhos e abrolhos, e comerás a erva dos campos. Comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de onde foste tirado; porque tu és pó e ao pó voltarás.» Génesis 3, 17-19

Natural para o mito babilónico, a violência não o era para o rito bíblico. O que Deus criou era bom e houve um tempo em que o homem era como Deus o tinha criado, assim como a Natureza original, ou seja, o Jardim do Éden, Homem e Natureza viviam em simbiose e harmonia, a mesma harmonia reinava entre Deus e o homem que passeavam ao entardecer no jardim do Éden (Génesis, 3,8). Com o pecado, esta harmonia entre Deus e homem, entre este e a Natureza rompeu-se.

A filosofia “win win” e a ecologia
Cristo veio trazer a salvação não só para o homem, mas também para o ambiente em que o homem vive; esta Terra pode voltar a ser o paraíso que já foi um dia. Para isso temos de denunciar o Darwinismo exacerbado que se relaciona violentamente com a natureza; como já denunciamos a falácia do mito da violência redentora agora denunciamos o mito do domínio e da sobrevivência do mais forte sobre o mais fraco e menos capacitado, declarando que se trata de uma ideologia falsa, que trata de explicar as relações dos animais ao longos dos milhões de anos de evolução.

Não há violência entre os animais, só há satisfação das suas necessidades. Os animais não se matam porque sentem ódio uns pelos outros, mas para satisfazerem as suas necessidades dentro da cadeia alimentar. Se alimentarmos um gato com ração, ele acabará por brincar com ratos e pássaros, sem lhes fazer mal.

O objetivo da CNV é que todos satisfaçam harmoniosamente as suas necessidades. É possível voltar ao mundo que tínhamos antes da era industrial, encontrar uma forma de harmonia, de progresso que seja sustentável e amiga do meio ambiente. Em CNV, as necessidades do outro são também as minhas necessidades, não há antagonismo entre mim e o outro, mesmo quando ele diz um “não” eu ouço um “sim”.

A CNV é uma filosofia “win win” “em que todos ganham” pois estamos convencidos de que todos podem ganhar; como não existe vida humana fora deste planeta, o que é bom para o planeta é bom para o homem e vice-versa, o que é mau para o planeta a longo prazo também o é para o homem a longo prazo. As consequências dos males passados já começaram a sentir-se. Deixemos de ser inimigos do meio ambiente pois é nele que vivemos.

Se a mãe Terra sustém a vida, a nossa vida, então também ela está viva, é um organismo vivo. Relacionemo-nos com ela usando os quatro componentes da comunicação não violenta e observemos objetivamente a situação em que se encontra, peçamos aos xamãs índios da América do Norte que nos ajudem a perscrutar os seus sentimentos e as suas necessidades e, por fim, a intuir o que ela nos pede para se manter viva e para nos manter vivos.
Pe. Jorge Amaro, IMC