15 de janeiro de 2020

3 Pilares da civilização ocidental - Atenas - Roma - Jerusalém

Sem comentários:
A cultura da Europa nasceu do encontro entre Jerusalém, Atenas e Roma, do encontro entre a fé no Deus de Israel, a razão filosófica dos gregos e o pensamento jurídico de Roma. Este tríplice encontro forma a identidade íntima da Europa. BENTO XVI, em discurso no Parlamento Alemão (2011).

No seu sábio discurso no parlamento alemão, depois de agradecer o convite, o papa Bento XVI começou por dizer que apesar de ser alemão e acompanhar de perto e com grande interesse os assuntos do seu país natal, não tinha sido convidado como cidadão alemão, mas sim como Papa e Bispo de Roma. E acrescentou que o convite levava implícito o reconhecimento do papel da Santa Sé como parceira dentro da comunidade de povos e Estados.

O ocidente renega as suas raízes cristãs
Inspirando-se no património cultural, religioso e humanista da Europa, de que emanaram os valores universais que são os direitos invioláveis e inalienáveis da pessoa humana, bem como a liberdade, a democracia, a igualdade e o Estado de DireitoPreâmbulo da Constituição da Europa 2005

Este mesmo reconhecimento esteve ausente anos antes, quando o ex-presidente de França, Valéry Giscard d'Estaing apresentou a malfadada Constituição da Comunidade Europeia para ser referendada pelo povo francês. Se tivesse sido aprovada, teria sido votada nos restantes parlamentos nacionais da UE. No seu preâmbulo acima citado não há uma menção explícita a Deus nem ao cristianismo.

O cristianismo foi, ao longo da história, a alma da Europa e, ainda que esta agora seja laica, não pode deixar de reconhecer o papel desta religião como Mater ed Magistra - mãe, mestra e pedagoga - do continente e das suas gentes. Pode ser politicamente correto não mencionar o papel do cristianismo na vida dos europeus ao longo dos séculos, mas não deixa de ser tendencioso, preconceituoso e politicamente orientado não mencionar um inegável facto histórico que escreveu grande parte da história da Europa nos últimos dois mil anos. Para crescerem acima do solo, as árvores têm de crescer para baixo, aprofundando as suas raízes; um povo que ignora e nega as suas raízes é um povo sem identidade, uma cana agitada pelo vento.

O que o preâmbulo fez foi um misto de desprezo e plágio: desprezo porque ignorou categoricamente o contributo do cristianismo; plágio porque se apropriou de um “património religioso” sem o mencionar e citar devidamente. Um outro erro muito comum entre os políticos e também presente no preâmbulo é a separação entre religioso e humanista, como se religioso fosse uma superestrutura da qual se pode prescindir.

Cristo não veio fundar uma nova religião, Cristo veio ensinar os homens a ser homens. Por isso o cristianismo é em si o humanismo; por isso também é incorreto dizer humanismo cristão - porque o cristianismo ou é humanismo ou não serve de nada. Cristo não é um dos caminhos, uma das verdades, uma das vidas, mas o único caminho, verdade e vida (Cf. João 14,6). Não há uma alternativa igualmente viável a Cristo, como Ele próprio disse, “Quem não recolhe comigo, dispersa” (Lucas 11, 23). Para além de Cristo, não há outro modelo de humanidade; por isso, humanismo e cristianismo são uma e a mesma coisa.

É neste sentido que políticos, filósofos e humanistas que se proclamam agnósticos ou ateus se apropriam de partes do evangelho sem o citar ou pretendem reinventar a roda, afirmando como novas e originalmente suas, ideias que são decalcadas do evangelho escrito há dois mil anos.

O monge beneditino chileno Mauro Matthei (2004) faz uma reflexão intitulada “Jerusalém, Atenas e Roma, cidades símbolo da cultura cristã” na qual faz referência à altercação entre Pilatos e os sumos sacerdotes sobre o letreiro que tinha mandado colocar no alto da cruz de Cristo, referindo o motivo da condenação de Jesus.

O dito letreiro, que diz “Jesus Nazareno rei dos judeus” (João 19, 19-22), - foi escrito por Pilatos para troçar e se vingar dos sumo sacerdotes que o tinham obrigado a condenar um inocente; ao fazê-lo, porém, e sem querer, afirma profeticamente uma verdade contundente e objetiva, contrária à que eles queriam que figurasse no letreiro como tendo sido dita por Jesus , o que contaria como mera opinião subjetiva.

Com o seu solene “Quod scripsi, scripsi”, Pilatos confere ao seu escrito um valor absoluto que os sumo sacerdotes queriam relativizar, e ao escrevê-lo em hebreu, latim e grego, as línguas das três cidades pilares da cultura europeia, confere-lhe uma validade universal. Os políticos, afirma o autor, relativizam o absoluto e absolutizam o relativo. Relativizam, troçam e desprezam tudo o que se refere a Cristo e às suas palavras de vida eterna, para absolutizar as suas politiquices do momento que às vezes caducam antes de serem implementadas.

O crescente fértil como “pré-história” da civilização ocidental
A civilização ocidental tem como berço as culturas e civilizações do Crescente Fértil, dependentes do trigo e outros cereais que ali se cultivavam. Suméria, Creta, Mesopotâmia, Egito, Israel, Síria, Fenícia, Babilónia e o Império Persa estão na base da cultura grega e da cosmovisão religiosa de Jerusalém.

No Crescente Fértil, sucederam-se culturas, civilizações, hegemonias de povos sobre outros povos e assim o centro do poder e da cultura foi passando de mão em mão e de geração em geração, como o testemunho numa corrida de estafetas. Cada nova cultura e civilização herdava e assimilava os avanços da cultura anterior como património, propondo as suas próprias inovações, como diz o provérbio, “Libris ex libris fiunt” - os livros fazem-se a partir de outros livros.

De Leste para Oeste, do Sul para Norte
Nesta sucessão de impérios e deslocações de centros do poder, notamos um ligeiro movimento geográfico de sul para o norte e um movimento bastante mais apreciável de leste para oeste. A Grécia assimilou todas as culturas anteriores a ela, ao derrotar o Império Persa. Roma assimilou a Grécia, expandindo-se mais para norte e aproximando-se a oeste do fim do mundo conhecido - “Onde a terra acaba e o mar começa” citando os Lusíadas, de Camões.

Quando o poder e a cultura já se tinham deslocado para Roma e para os confins do mundo conhecido e parecia que o Oriente já não tinha mais para dar, nasceu Jesus de Nazaré e, com ele, a cidade de Jerusalém transformou-se no terceiro pilar da cultura europeia. A destruição de Jerusalém pelo Imperador Tito no ano 70 DC obrigou os Judeus a dispersarem-se por toda a Europa. No entanto, como viviam em ghettos, em pouco ou nada influenciaram a cultura ocidental.

Foi o cristianismo, que começou por ser uma seita do judaísmo, que influenciou a cultura e civilização ocidentais a partir do momento em que se transformou na religião do império romano, com Constantino, no século IV. Com a queda do império no século V, causada pela invasão de povos bárbaros, sobretudo pelos godos e pelas tribos germânicas, o poder político passou para norte, mas a Igreja herdou toda a cultura ocidental, uma vez que os povos nórdicos eram primitivos. Estes povos reconheceram e respeitaram o papel da Igreja e assim a Europa mergulhou na Idade Média.

Para o fim desta, portugueses e espanhóis, seguidos pelos inglese e franceses, globalizaram a civilização ocidental, conquistando dois grandes territórios: o continente americano e a Austrália. Hoje, inquestionavelmente, fazem parte da civilização ocidental a Europa, a América, a Austrália e a Nova Zelândia.

A diferença entre a América do Norte e a do Sul é que no Norte os colonos (ditos peregrinos) pensaram que haviam chegado à sua Terra Prometida e, tal como os Judeus do tempo de Josué, fizeram uma limpeza étnica, exterminando quase por completo os indígenas por os considerarem mais primitivos. No Sul, os indígenas tinham formado civilizações, eram em maior número e eram mais fortes; por outro lado, os colonizadores eram de outra índole e não estavam interessados em exterminá-los, mas sim em escravizá-los.

A Rússia, tanto do ponto de vista cultural como do ponto de vista histórico, não tem uma identidade definida apesar de que a maior parte dos seus habitantes vive a oesta dos montes Urais ou seja em Europa; Gorbatchov era europeu na sua forma de pensar e atuar e falava da Europa como casa comum; Putin é totalmente asiático pela forma despótica como governa e pela oposição à Europa e aos valores da cultura europeia.

Os países muçulmanos, apesar de terem muito em comum com a civilização ocidental, não pertencem a esta porque não comungam dos mesmos valores e porque ainda não abdicaram do sonho tantas vezes fracassado de a conquistar. Hoje, como não conseguem defrontar o mundo ocidental em campo aberto, antagonizam-no com o terrorismo. A fraca narrativa do Alcorão comparada com a narrativa dos evangelhos, assim como o défice de humanidade de Maomé quando o comparamos com Jesus, fá-los sentir-se inferiores e com medo de desaparecer do mapa, o que os torna mais agressivos.

A civilização ocidental é a mais bem sucedida até à data, o que nos faz crer que só há um modelo de desenvolvimento; assim como Jesus de Nazaré é a medida do humano, a medida padrão de humanidade, a civilização ocidental parece representar o único modelo de desenvolvimento, ou seja, não há um outro modelo de desenvolvimento alternativo que não passe pelo moinho, movido a água ou pela maré, ou vento, o cavalo, a agricultura, a máquina a vapor, o comboio, a eletricidade, a rádio, a televisão, o petróleo, o carro, o avião, o telefone fixo, o telemóvel, o computador, a Internet, etc. A globalização globalizou sobretudo a civilização ocidental, pois foi a primeira a pôr o mundo em comunicação. Hoje, as culturas diferenciam-se entre si por pequenas e insignificantes nuances; tudo o resto é comum.

Europa, o berço da civilização ocidental
África, Ásia, América, Austrália, Antartida - os continentes que constituem o nosso planeta têm todos nomes femininos que começam e acabam com a letra A; feminino é o nome do planeta em si. A Europa não começa por A mas termina em A e é nome de mulher.

Na mitologia grega, chamava-se Europa a princesa fenícia por quem Zeus, o rei dos deuses, se apaixonou quando esta passeava com as suas amigas junto ao mar. Quando lhe perguntaram o que era a Europa, o poeta francês Paul Valéry respondeu com três palavras: Atenas – Roma – Jerusalém. De Atenas nos veio o amor pela liberdade política, a democracia, a filosofia que busca educar o Homem no uso da razão; a busca da verdade, do bom e do belo.

De Roma nos veio o direito, a organização do Estado, o primado da lei a cima de tudo e de todos, ricos, pobres, escravos e governantes. O Estado não está ao serviço do governante, mas ao serviço da “Res publica”, literalmente coisa pública, ou seja, o que é de todos; daqui deriva o sistema de governo República.

De Jerusalém nos veio o judaísmo por intermédio do Cristianismo, o monoteísmo que veio substituir o politeísmo que reinava tanto em Atenas como em Roma. O monoteísmo veio servir de suporte aos valores ocidentais, ao primado da lei por exemplo; todos são iguais perante a lei porque todos são filhos do mesmo Deus, criador do Céu e da Terra, um ser pessoal amoroso e bondoso e não caprichoso como os deuses das mitologias grega e romana

Vejamos mais em pormenor o que devemos a cada uma destas cidades, pilares da cultura e dos valores ocidentais que são os que o mundo ocidental procura inculcar no resto do mundo e que estão consagrados na carta dos direitos humanos das Nações Unidas.

O contributo de Atenas
A cultura helénica influenciou a civilização ocidental em inúmeras vertentes; certamente em muitas mais vertentes que as outras duas cidades pilares da mesma.

Filosofia – Filo-sofia (amor pela sabedoria). Era a arte de pensar sem nenhum objetivo prático ou pragmático para além de divisar o sentido do cosmos, das coisas e da vida em geral. É um pensamento crítico racional e reflexivo. Acima de tudo, a filosofia grega contestava a visão mítica do mundo. Os mitos são a primeira tentativa de explicação das coisas e dos fenómenos para lhes dar sentido e significado. São narrativas simbólicas cujos personagens são deuses. Segundo esta explicação, cada realidade era comandada por um deus, havendo assim um deus do tempo, Cronos, um deus da guerra, Marte, uma deusa do amor, Vénus, etc.

A filosofia olha para o mundo de uma forma racional e busca explicações racionais ou razoáveis para os fenómenos naturais, sem recorrer a mitos ou a lendas fantasmagóricas. Destacam-se os filósofos Sócrates, Platão e Aristóteles e um grande número de filósofos pré-socráticos como Heráclito, Parménides, Zenão, Demócrito, Anaxágoras e muitos outros.

Só sei que nada sei – É a máxima socrática que leva a não nos contentarmos nunca com o que sabemos e a mantermos sempre a humildade, tão importante para aprendermos mais e mais. Para além do seu método de conhecimento, Sócrates imortalizou-se pela sua maiêutica, a arte de ajudar a dar à luz, baseada no princípio de que a sabedoria já está dentro de nós, só precisamos de alguém que nos ajude a iluminá-la. Ainda hoje este princípio é válido e é aplicado em psicoterapia, na psicologia não diretiva de Carl Rogers, e também em sociologia, pelo pedagogo brasileiro Paulo Freire.

Democracia - A cidade de Atenas é considerada o berço da democracia. Os cidadãos atenienses (homens, nascidos na cidade, adultos e livres) eram aqueles que podiam participar das votações que ocorriam na Ágora (praça pública). Decidiam, de forma direta, os rumos da cidade-estado.

Ciência – O abandono das crenças e mitos é importante para o surgimento do pensamento empírico e científico. Neste sentido, a filosofia é a mãe das ciências, pois foi com ela que surgiu o pensamento racional, livre de lendas, mitos e crenças, para analisar a realidade e os fenómenos naturais.

Por outro lado, a atitude socrática de que “só sei que nada sei” é também importante para ir divisando o mistério que envolve qualquer ciência: quanto mais se sabe, mais há para saber. Ainda hoje, os termos técnicos e científicos derivam do grego e os novos conceitos formam-se a partir do grego.

Medicina – Hipócrates, considerado o pai da Medicina, foi o primeiro a entender que as doenças não eram causadas pelos deuses, mas tinham como génese um desequilíbrio. Hipócrates deixou-nos o seu juramento que é ainda hoje utilizado pelos médicos no início da sua carreira.

Matemática – Tales de Mileto e Pitágoras deixaram-nos os seus teoremas, curiosamente à volta do triângulo, a figura geométrica mais simples, sendo todas as outras constituídas por sérias de triângulos.

Arquitetura – Certamente herdeira de patrimónios anteriores, como o do Egito e da Mesopotâmia, a arquitetura grega imortalizou-se com a introdução das colunas que tornaram os edifícios mais elegantes e menos monolíticos que os anteriores do Egito e da Mesopotâmia. As colunas gregas diferenciavam-se pela forma que assumiam no seu topo, com três estilos diferentes: o dórico, o jónico e o coríntio

Arte – O conceito de beleza e harmonia retratado na escultura e na pintura. Os escultores buscavam retratar no máximo detalhe o corpo humano, característica que mais tarde voltou a observar-se no Renascentismo europeu, que nos deu obras tão famosas como a Pietá e Moisés.

História – Os gregos foram os primeiros a tratar a história com caráter científico, separando os factos das lendas, dos mitos e das crenças religiosas, distinguindo entre ação humana e interferência ou intervenção divina. A própria palavra História vem de um termo grego que significa pesquisa, investigação. Destacam-se os autores Heródoto, considerado também o pai da História, Xenofonte e Tucídides.

Literatura – Destaca-se Homero com os seus poemas épicos: Ilíada que descreve a guerra de Tróia, e Odisseia que descreve as viagens e peripécias de Ulisses. Diz a lenda que este herói fundou a cidade de Lisboa, Olissipona, a cidade de Ulisses, quando deixou Tróia depois da guerra.

Teatro – O teatro, nas diferentes modalidades de tragédia e comédia, representava não só uma diversão para os gregos, bem diferente da diversão violenta dos romanos com os gladiadores na arena, como era também uma forma de educação da juventude. Os autores mais famosos: Ésquilo, Sófocles, Aristófanes e Eurípedes. Como as encenações eram ao ar livre, a Grécia construiu inúmeros teatros, tanto a norte como a sul do Mediterrâneo, e as suas ruínas ainda hoje podem ser observadas.

Jogos Olímpicos – Tinham um carácter sagrado, eram como o próprio nome indica uma homenagem aos deuses do Olimpo. Foram os gregos que inventaram, o desporto, a preparação física; eram jogos pan-helénicos, ou seja, entre as cidades-estado gregas. Celebravam-se de quatro em quatro anos e duravam cinco dias.

O contributo de Roma
Senatus Populus Que Romanus (SPQR) – O Senado e o povo de Roma. Estas são as iniciais que os romanos levavam nos seus estandartes, na sua bandeira, nas expedições militares, e que colocavam nos edifícios públicos. Se algo demonstram estas insígnias e símbolo do poder de Roma, é que a ideia de democracia do povo grego foi assimilada pelo povo romano. Democracia em romano chama-se república; a república é governada por senadores, representantes do povo.

Os romanos são um povo mais prático e pragmático, assimilaram o legado da Grécia e não tentaram impor a sua cultura. Pelo contrário, eram muito tolerantes com os povos que dominavam, nem sequer impunham a sua língua - desde que pagassem tributo a Roma podiam até manter os seus usos e costumes, a sua religião e os seus reis.

Os romanos tinham consciência da grandeza e superioridade da cultura helénica e, de facto, em muitas matérias, não avançaram muito. Há, porém, vários pontos em que os romanos superaram os gregos e são esses que mencionamos. Como dissemos, esta evolução está ligada ao seu caráter mais prático que teórico.

O direito e a organização do Estado
Este é sem dúvida o mais importante legado romano para o mundo moderno. Na base do Direito de todas as nações do nosso planeta está o Direito romano.

A divisão e separação dos poderes que devem funcionar livre e autonomamente sem influências mútuas, vem de Roma. Curiosamente, estes poderes são três: o poder executivo, o poder judicial e o poder legislativo. Foi instituído o princípio de controlo entre eles, para que nenhum excedesse as suas competências.

Os romanos distinguiam três classes de direito: o Direito Político, que regulava os relacionamentos entre o Estado e os cidadãos; o Direito Privado, que regulava os relacionamentos entre cidadãos; e o Direito Internacional ou o direito das gentes, que regulava as relações entre os diferentes povos.

Ideias legais como o julgamento por júri, os direitos civis, os contratos, a propriedade pessoal, os testamentos legais, as leis que regem as empresas, foram influenciadas pelo direito romano e pela maneira romana de ver as coisas.

Vejamos algumas máximas latinas ainda hoje usadas, tanto no contexto do Direito e dos tribunais como vulgarmente pelo povo.

Dura lex sed lex – A lei é dura e difícil de cumprir, mas é a lei; está estipulada e concede segurança. Mais duro seria a arbitrariedade e imprevisibilidade de um ditador. Esta máxima estabelece o primado da lei e de que ninguém está a cima da lei.

Sumum ius summa injuria - Excesso de direito, excesso de injustiça. Axioma jurídico que nos adverte contra a aplicação demasiado rigorosa da lei, que pode dar margem a grandes injustiças. Para evitar isso se requer jurisprudência ou epiqueia. Uma coisa é ser justo, outra é ser justiceiro.

Excusatio non petita accusatio manifesta – É mais um princípio psicológico que do direito. Quando alguém se desculpa sem que ninguém lhe tivesse pedido que se justificasse, está a acusar-se a si mesmo implícitamente e inconscientemente.

In dubio pro reo – No caso de dúvida, pelo réu; expressão baseada na presunção de inocência; também se refere como o benefício da dúvida. A incerteza sobre a prática de um delito ou sobre alguma circunstância relativa ao mesmo, deve favorecer o réu.

Conditio sine qua non - Condição sem a qual não pode ser; utilizada para dizer que uma condição é indispensável para a validade de algo, como uma teoria de equivalência das causas. Um exemplo clássico de conditio sine qua non é a vontade dos noivos como pressuposto para que um casamento seja válido.

Patria potestas – O poder do pai, poder que o chefe de família exercia sobre seus filhos e seus descendentes mais remotos na linha masculina, fosse qual fosse a sua idade, bem como sobre aqueles trazidos para a família por adoção.

Habeas corpus - Que tenhas o corpo; é a ação judicial que protege o direito de liberdade ameaçado por ato abusivo de autoridade, ou seja, uma ação para impedir que alguém seja preso ou que permaneça preso injustamente.

Arquitetura e engenharia
Os gregos foram largamente superiores; mas com a invenção do arco romano, os romanos construíram grandes templos, palácios, estádios, aquedutos e pontes, anfiteatros e edifícios públicos que integravam arcos e abóbadas com tal eficiência que muitas destas obras ainda hoje estão em pé. O Coliseu de Roma, o Panteão de Roma, o aqueduto de Segóvia e inúmeras pontes romanas ainda hoje são usadas.

Os romanos distinguem-se pelas estradas. No mundo antigo, foram eles que abriram estradas. As principais vias, da Europa que existem atualmente foram construídas sobre calçadas romanas. Os romanos inventaram as pontes para passarem os rios e inventaram o aqueduto para levar água às suas cidades. O aqueduto marítimo de Cesareia, que ainda se pode ver na praia desta cidade, tinha 6 km de comprimento.

Uma das razões pelas quais o Império Romano durou mais que todos os outros, quase um milênio, é porque ele estava bem ligado pelas estradas e pontes que construiu em toda a Europa. A construção de estradas e pontes eram tão importantes para os romanos que até o título do Imperador refletia esse esforço, ao ser chamado Pontifex Maximus, o que significa o Supremo engenheiro da pontes. Ironicamente, este é agora o título do Romano Pontífice, o Papa, o que significa que ele como o representante de Cristo é a ponte entre a humanidade e Deus.

Alfabeto romano
É o alfabeto que utilizam as línguas neolatinas, o castelhano, o português, o francês, o italiano e o romeno, o catalão, o galego e o provençal. O inglês que se transformou na primeira língua franca do mundo provém em 60% do latim e do grego; os restantes 40% são de origem saxónica.

É, ainda hoje, o alfabeto mais utilizado no mundo, mesmo nas línguas que não são neolatinas como o alemão e o inglês e todas as línguas da Europa ocidental, assim como o turco, vietnamita malaio, somali, suaíli e outras línguas africanas, assim como o tagalog.

Dissemos que o grego é ainda usado para termos científicos, embora haja uma exceção; para os nomes científicos de plantas e animais é o latim, e não o grego, a língua universalmente usada. Os romanos possuíam também uma numeração que ainda usamos para designar os séculos e pouco mais. Porém, como não tem zero, não serve para a matemática. A numeração que se usa a nível mundial é a árabe.

O calendário de 365 dias, com 12 meses que hoje usamos foi inventado pelo imperador romano Júlio César. A Igreja mais tarde mudou o calendário juliano, que ainda hoje é usado pela Igreja Ortodoxa, para o gregoriano, introduzido pelo Papa Gregório e hoje usado universalmente. O nome dos meses também é de origem latina.

O contributo de Jerusalém
A filosofia busca o sentido do mundo, a ciência diz-nos como funciona, a técnica facilita a nossa vida, o direito regula as relações entre as pessoas mas só a religião pode responder às questões que todo o ser humano se faz quando chega à autoconsciência, por volta dos sete anos: de onde venho, para onde vou  e que sentido tem a vida?

Alguns, como Gregor Mendel, monge e pai da genética, Georges Lamaître, sacerdote e pai da teoria do Big Bang, Luther King, pastor e profeta da igualdade étnica nos EUA, conciliaram a sua atividade religiosa com a atividade científica e envolvimento social. Outros grandes personagens da civilização ocidental encontraram na fé o motor da sua vida e da sua ação política ou social; por exemplo, os três fundadores da União Europeia, o italiano Alcide De Gasperi, o alemão Konrad Adenauer e o francês Robert Schuman. Todos eles eram católicos praticantes. A União Europeia é de facto um projeto católico porque, desde o berço, o católico está ciente de que pertence a um país e certamente também a uma outra entidade ou instituição que é supranacional. Deste modo, só o católico é verdadeiramente universalista.

Monoteísmo
A ideia de que há um só Deus Pai, criador do céu e da terra, é talvez o maior contributo de Jerusalém para a civilização ocidental. Tanto os gregos como os romanos eram politeístas; o politeísmo não leva à união nem à harmonia entre os povos, nem à unificação de conceitos como a verdade e a justiça. A ideia de que há um só Deus leva à coesão dos povos à união na diversidade. O mesmo primado da lei, o facto de que todos são iguais perante a lei, seria mais difícil de manter no politeísmo: todos são iguais perante a lei porque todos são iguais perante Deus, porque há um só Deus que é criador e pai de tudo e de todos.

O conceito de igualdade explica-se melhor do ponto de vista religioso pelo facto de termos todos o mesmo Pai Deus e pelo mandamento de amar o próximo como a nós mesmos, do que pela revolução francesa. O valor da individualidade e da dignidade da pessoa humana é uma consequência direta do cristianismo.

A universalidade do descanso
Trabalharás durante seis dias, mas descansarás no sétimo, embora decorra o tempo da lavra e da ceifa. Êxodo 34, 21

Trabalharás durante seis dias e farás todo o teu trabalho. Mas o sétimo dia é o sábado consagrado ao Senhor, teu Deus. Não farás trabalho algum, tu, o teu filho e a tua filha, o teu servo e a tua serva, os teus animais, o estrangeiro que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias o Senhor fez os céus e a terra, o mar e tudo o que está neles, mas descansou no sétimo dia. Por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado e santificou-o. Êxodo 20, 9-11

Não sabemos quem inventou o trabalho, provavelmente não tem inventor ou fundador. Porém, o descanso sim, tem inventor, é invenção do povo judeu. A ideia de um dia consagrado a Deus, o sábado, origem do descanso sabático e também do ano sabático (um ano em que não se trabalha, mas estuda-se ou faz-se qualquer outra atividade), pertence ao povo judeu.

É claro que para a justificar perante o povo se utiliza o antropomorfismo de que Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo. Não é que os povos anteriores ao povo judeu não descansassem, certamente o faziam, mas só descansavam os senhores, os escravos trabalhavam sempre. O descanso não era democrático ou universal; o que é excecional no povo judeu, é que o descanso é para todos, senhores, escravos, estrangeiros e até os animais de trabalho, como o burro e o boi.

O evangelho, a melhor narrativa de todos os tempos
O cristianismo no Novo Testamento, em especial nos evangelhos que relatam a vida, o talante e os ditos de Jesus de Nazaré, possui a narrativa mais fascinante de todos os tempos. A cosmovisão, a ética, a filosofia de vida, os direitos humanos, o que é verdadeiramente humano, está exposto no evangelho.

O evangelho é a magna carta da vida humana, a medida padrão, o critério máximo de humanidade que serve de genuína e autêntica referência a cada indivíduo. Não há no mundo qualquer narrativa que supere os evangelhos em humanidade. Os evangelhos têm sido o texto inspirado da civilização ocidental, o farol que a ilumina.

Eclesia mater ed magistra
Nos séculos IV e V, com uma pregação intensa e geral, em pouco tempo a Igreja converteu os povos conquistados do império romano ao cristianismo. Numa época de guerras, desagregação e fragmentação do poder, como era o feudalismo, a religião era o único fator de união entre os povos. Era também a única instituição do mundo antigo capaz de fazer frente à hegemonia dos novos dominadores bárbaros.

Era a Igreja que garantia a paz e defendia os povos dos excessos dos invasores bárbaros, opondo-se às injustiças não pela força das armas que não as tinha, mas pela força da razão, da decência e da ética. Os bárbaros respeitavam a Igreja pelo ascendente que esta tinha perante o povo e por ser a herdeira do grande império romano que de facto ainda existia no oriente. Com a subjugação das populações nas zonas mais rurais, o único poder era do bispo; por outro lado, a nível de Roma, o Papa era o único representante do ocidente romano. Desta forma, a Igreja tornou-se num poder político e, como tal, também cometeu alguns erros.

Monaquismo
Na Europa da alta Idade Média, dividida em tantos reinos instáveis, a Igreja era a única instituição forte e eficiente, instruída, rica e presente em todo o lado. Nas cidades, o bispo era frequentemente a única autoridade existente. No mundo rural, afirma-se a presença dos mosteiros com a regra de Orat ed labora: o monge não deve apenas rezar, mas também trabalhar para se sustentar a si mesmo e a quem necessita. Em toda Europa, nasceram mosteiros beneditinos e cistercienses que se transformaram em centros económicos e que, através da agricultura e da criação de animais, produziam alimento para as populações.

Estes mosteiros foram oásis de cultura e celeiros da mesma, pois era aqui que se copiavam os antigos textos latinos e gregos. Sem estas cópias, estes textos ter-se-iam perdido. A invasão bárbara do império romano parece ter feito a cultura andar para trás, mas a Igreja preservou essa cultura, pois era a única herdeira da última civilização ilustrada: a da Grécia e a de Roma.

Os americanos chamam a esta idade a Idade das Trevas. No entanto, custa a acreditar que precisamente nesta época se tenham construído os edifícios mais belos que o mundo já construiu: as catedrais góticas. Cada pedra foi talhada para ocupar um lugar exato, sem cimento e sem ferro, arcos, colunas, ogivas, abóbadas, um conjunto harmonioso e elegante, iluminado pelos vitrais multicolores, um céu na terra.

Libertação das mulheres
O direito das minorias em relação às maiorias, o respeito pela orientação sexual de cada um, a libertação das mulheres, os valores próprios da civilização ocidental que a colocam na vanguarda dos direitos humanos, não se explicam sem o evangelho.

Jesus foi a pessoa mais feminista que o mundo conheceu; o único fundador de religião que nunca fez uma afirmação contra as mulheres, que as tratou como iguais aos varões, que teve discípulas - coisa nunca vista antes ou depois dele (ainda hoje os rabinos não têm discípulas). É certo que os seus discípulos seguiam a mentalidade patriarcal do mundo circundante mais que o comportamento do mestre. Porém, não podemos negar a importância do evangelho na conversão das mentes e dos corações para a igualdade de género, que começou na civilização ocidental e, pouco a pouco, vai sendo assumida pelas outras civilizações, sendo a muçulmana a mais reticente na matéria.

É certo que nem no Ocidente a mulher goza ainda de plena igualdade, mas é certamente no Ocidente cristão que a mulher goza de mais direitos. O que faz variar o grau de igualdade de género não é a riqueza ou pobreza; ou seja, não é necessariamente nos países mais ricos que a mulher é tratada de igual para igual. A Arábia Saudita é rica e, no entanto, as mulheres ali são tratadas como cidadãs de segunda classe. O fator determinante é a cultura, não a riqueza.

O Japão e as Filipinas são dois países asiáticos não muito distantes um do outro; o primeiro é bem mais rico que o segundo e, no entanto, há muito mais igualdade de género nas Filipinas que no Japão. Como países asiáticos que são, há elementos culturais que são comuns. A grande diferença é que as Filipinas são um país cristão desde há 500 anos, enquanto que no Japão o cristianismo nunca conseguiu penetrar de forma a influenciar a cultura. Os restaurantes onde a comida é servida no corpo nu de um adolescente não existem nas Filipinas e é de todo impensável que alguma vez possam existir. 

Três são as culturas que contribuíram para a civilização ocidental: de Roma obtivemos a razão de Estado, de Atenas o estado da razão, de Jerusalém a razão da razão.
Pe. Jorge Amaro, IMC













1 de janeiro de 2020

3 Civilizações baseadas em 3 cereais: Trigo - Arroz - Milho

Sem comentários:
O cereal é uma planta da família da erva que produz grãos que, depois de moídos, resultam em farinha que se consome de muitas formas, sendo o pão a mais comum. Desde que foram descobertos, os cereais têm sido não só a base da nossa alimentação como também o sustento de culturas ou civilizações ao longo da História.

As grandes civilizações nasceram nas zonas mais férteis do planeta, onde se cultivavam cereais. Podemos identificar uma cultura pelo tipo de cereal que esse povo produzia e consumia. A cultura depende da agricultura.

Os cereais mais conhecidos a nível mundial são o trigo, o arroz, o milho, a cevada, a aveia, o centeio e o milho painço. Destes, os mais antigos e usados, a ponto de configurarem culturas e civilizações, são os primeiros três.

O trigo, cujo nome científico é Triticum, provém do sudeste da Turquia e foi o primeiro cereal a ser descoberto; o seu cultivo no Crescente Fértil, zona do Médio Oriente que abarca atualmente o Iraque, Israel, o Egito, a Jordânia, a Síria, o Líbano, o sudoeste da Turquia, o Oeste do Irão e a ilha de Chipre, fez nascer nesta zona a mais antiga civilização humana, o berço dos primeiros grandes impérios e da civilização ocidental.

O arroz, cujo nome científico é Oryza Sativa, provém da China e da Índia e estendeu-se rapidamente por toda a Ásia Meridional como alimento básico, sendo responsável pelas grandes civilizações asiáticas: Índia, China e Japão.

O milho, cujo nome científico é Zea Mays, provém da América Central, mais propriamente do sul do México e é responsável pelas únicas civilizações do novo continente: maias, astecas e incas.

Agricultura, pastorícia e emancipação do Homem
Abençoando-os, Deus disse-lhes: «Crescei, multiplicai--vos, enchei e submetei a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se movem na terra.» Deus disse: «Também vos dou todas as ervas com semente que existem à superfície da terra, assim como todas as árvores de fruto com semente, para que vos sirvam de alimento. Génesis 1, 28-29

Enquanto o Homem caçava, pescava e colhia frutos, vivia em simbiose com a natureza e à sua mercê. Não era, portanto, diferente dos outros animais: os ursos, por exemplo, são omnívoros como nós e por isso caçam, pescam e colhem frutos. A vida humana, como a vida animal, não era mais que uma luta pela sobrevivência - as 24 horas do dia eram gastas a buscar alimento para sobreviver e viver era sinónimo de manter-se vivo.

Como os varões tinham mais destreza física, eram eles que se dedicavam à caça, à pesca e à recoleção de frutos, o que os mantinha fora de casa e sempre em movimento. As mulheres fixavam-se mais na residência e dedicavam-se à preparação dos alimentos, sobretudo depois da descoberta do fogo. Além disso, asseguravam o futuro do clã ou da tribo, através do nascimento, criação e educação da prole.

A caça e a pesca eram atividades duras que envolviam um certo risco, pelo que os varões usavam muito mais o seu cérebro reptiliano, comum a todos os animais vertebrados. Como sabemos, este cérebro aciona apenas três funções: atacar, fugir ou esconder-se. A preparação dos utensílios, armas e armadilhas e o constante movimento de um lado para o outro preenchiam o tempo dos homens.

Ao contrário dos homens, as mulheres preocupavam-se menos com a segurança e dedicavam-se mais ao trabalho doméstico e à criação e educação da prole. Por isso, usavam menos o cérebro reptiliano e mais o cérebro mamífero e o neocórtex, motivo pelo qual o seu pensamento era mais reflexivo. Por esta razão, por serem mais sedentárias e por possuírem mais tempo livre, pensa-se que tenham sido elas a descobrir a agricultura ao experimentarem usar as sementes nos terrenos circundantes da casa.

Rei da agricultura: o cereal
Enquanto a agricultura se limitou ao cultivo de vegetais e frutos, a vida do Homem pouco se alterou continuou a ser caçador e coletor, só que agora colhia os produtos que ele próprio semeava e plantava. Como estes vegetais que agora produzia eram os mesmos que antes coletava, não se verificou qualquer alteração significativa na sua cultura ou modus vivendi, por não haver uma alteração substancial na sua dieta.

A grande revolução da agricultura veio com a descoberta dos cereais. A partir desse momento, as suas características e propriedades rapidamente fizeram com que a agricultura fosse quase exclusivamente cerealífera. Ainda hoje, os cereais são o produto agrícola mais cultivado em todo o mundo; de facto, a deusa da agricultura e das colheitas na mitologia romana chamava-se Ceres, de onde provém a palavra cereal. A revolução agrícola dos anos 60, apelidada de “verde”, foi exclusivamente uma revolução cerealífera, pois visava aumentar a produção de cereais pelo uso de novas sementes e novas técnicas, sobretudo fertilizantes.

Dentro da espécie dos mamíferos, o Homem não é herbívoro nem carnívoro, mas sim omnívoro, ou seja, deve ter uma alimentação variada. Por isso, de alguma forma, quando o Homem descobriu o cereal, descobriu parte da sua identidade; todas as pirâmides alimentares da dieta ideal para o ser humano colocam os cereis na base. Em proporção, uma dieta equilibrada deve ser constituída por 30% de cereais, 25% de vegetais e frutas, 20% de peixe, marisco e laticínios, 15% de carne e 10% de lípidos.

O cereal é a base da alimentação e da cultura
Havia um homem rico, a quem as terras deram uma grande colheita. E pôs-se a discorrer, dizendo consigo: “Que hei-de fazer, uma vez que não tenho onde guardar a minha colheita?” Depois continuou: “Já sei o que vou fazer: deito abaixo os meus celeiros, construo uns maiores e guardarei lá o meu trigo e todos os meus bens. Depois, direi a mim mesmo: Tens muitos bens em depósito para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te.” Lucas 12, 16-19

São fundamentalmente três as razões pelas quais o cereal, desde que foi descoberto, se transformou no rei da agricultura, base da alimentação humana e, por afinidade, também na base das grandes civilizações que ao longo da História da humanidade se desenvolveram no nosso planeta.

Os cereais são um alimento de longa duração
Como sugere o texto bíblico acima citado, ao contrário das raízes, tubérculos e outros vegetais e frutos, os cereais têm um prazo de validade muito grande e armazenam-se facilmente. Foram encontrados grãos de trigo no túmulo de Tutankhamon, faraó do Egito, que ainda estavam em bom estado de conservação apesar de terem 5000 anos. Na verdade, foram semeados e germinaram.

Antigamente, quando não existiam frigoríficos, outros tipos de alimentos como os ovos conservavam-se no meio do cereal que os mantinha a uma temperatura baixa. A conservação do próprio cereal não requer uma temperatura baixa; este conserva-se em qualquer temperatura. O único requisito para a conservação do cereal é a humidade que tem de ser baixa; quanto mais reduzida for, mais tempo o produto se conserva.

Esta característica é a que verdadeiramente emancipa o homem da Natureza, pois ao ter alimentos armazenados, não tem de ocupar todos os dias com a busca de alimento. O tempo livre que lhe resta pode dedicá-lo ao pensamento reflexivo, criador e científico. O cereal funciona com uma apólice de seguro que confere estabilidade a uma sociedade. Podemos afirmar que onde não houve cereais não houve civilização, cultura, desenvolvimento; as povoações permaneceram primitivas numa luta constante pela sobrevivência.

José disse ao faraó: «(…) vão chegar sete anos de grande abundância a todo o território do Egito. Mas sete anos de fome surgirão a seguir, de modo que toda a abundância desaparecerá do Egito e a fome devastará o país. (…) que se armazene trigo sob a autoridade do faraó, nas cidades, como reserva de víveres. Essas provisões serão um recurso para o país durante os sete anos de fome que vão chegar ao Egito, a fim de que o país não pereça pela fome.» Génesis 41, 25, 29-30, 35-36

José do Egito interpreta o famoso sonho do faraó das sete vacas gordas e das sete vacas magras como representando sete anos de fartura, seguidos por sete anos de carência, e aconselha-o a armazenar cereal durante os anos de abundância para evitar que o povo pereça nos anos seguintes de carência. A longevidade do cereal faz dele o único salvador da humanidade em tempos de fome.

O mesmo já não se pode dizer de outros alimentos, como por exemplo a batata, que só dura um ano. Se uma colheita falhar, toda uma população pode morrer de fome, como aconteceu na Irlanda entre os anos 1845 e 1852; morreram um milhão de irlandeses e outro milhão foi obrigado a emigrar.

Os cereais são absorvidos lentamente e dão energia por mais tempo
A durabilidade ou longevidade do cereal armazenado também se observa, de alguma forma, no interior do nosso corpo, em relação à sua absorção como hidrato de carbono. Os hidratos de carbono provenientes da fruta e dos demais vegetais são rapidamente absorvidos e aumentam exponencialmente os níveis de açúcar no corpo; a sua longevidade é curta, pois rapidamente se queimam. Pelo contrário, os hidratos de carbono provenientes dos cereais integrais, têm uma absorção lenta, o que faz com que os níveis de açúcar não aumentem nem diminuam drasticamente; deste modo, o nível de energia no corpo mantém-se constante, estável, seguro e saudável por mais tempo.

Os cereais mantêm o corpo saciado durante mais tempo e evitam desequilíbrios súbitos nos níveis de glicose, diminuindo a ânsia de comer mais frequentemente. Ou seja, a longevidade do cereal que se verifica no celeiro, também se verifica no nosso organismo.

Os cereais ingeridos funcionam como um depósito de combustível que vai fornecendo paulatinamente energia por muito tempo, sem grande variação dos níveis de glicose. A liberdade, autonomia e tempo livre que o cereal proporcionou à humanidade para poder dedicar-se a outras atividades para além da luta pela sobrevivência, também a proporciona a nível individual a cada pessoa que o ingere.

Os cereais são o alimento simples mais completo
Se tivéssemos que escolher um único alimento, muito completo do ponto de vista nutritivo, para subsistir durante algum tempo, na eventualidade de ficarmos temporariamente privados de alimento, é certo que esse alimento só poderia ser o cereal.

Os cereais têm de tudo um pouco. Os outros alimentos estão mais especializados num nutriente ou outro, em detrimento dos restantes nutrientes. Os vegetais e frutas têm vitaminas, mas não têm proteínas e, como vimos, são de absorção rápida, não sendo por isso uma boa escolha em caso de emergência. As carnes e peixes são ricos em proteínas, mas falta-lhes tudo o resto.

Curiosamente, quando tratamos de dissecar e analisar um grão de cereal, damo-nos conta de que, tal como o universo, o átomo e a célula, também são trinitários ou tridimensionais, ou seja, são compostos por três diferentes elementos. Além disso, dentro destas três partes, encontramos diferentes nutrientes.
  • Farelo ou casca – fibras, vitaminas do grupo B, minerais (sódio, potássio, cloro, fósforo, cálcio, magnésio, enxofre e ferro), proteínas (gliadina e glutenina contidas no glúten) e fito-nutrientes (carotenoides, flavonoides e fito-esteróis, químicos conhecidos pelas suas propriedades antioxidantes).
  • Endosperma – hidratos de carbono ou amido que correspondem a 78 - 83% do grão, proteínas, vitaminas do grupo B, gorduras constituídas principalmente por trigliceróis. 
  • Gérmen - minerais, vitaminas do grupo B em especial B1 e B2, vitamina E, e fito-nutrientes.
Escusado será dizer que quando os cereais são moídos e sobretudo refinados, muitos destes nutrientes se perdem com a remoção do farelo, e acabamos por consumir apenas o endosperma, ou o amido. Por isso para uma alimentação saudável é preferível consumir cereais integrais pois contêm todos os nutrientes acima assinalados.

Cronologia das civilizações antigas

Mesopotâmia
Período: 3500 BC–500 BC
Local: Tigris and Euphrates rivers, Iraq, Syria, and Turkey

Vale do Indo
Período: 3300 BC–1900 BC
Local: Rio Indo Nordeste do Afeganistão to Paquistão e noroeste da India

Egipto
Período: 3150 BC–30 BC
Local: Rio Nilo, Egipto

Maias
Período: 2600 BC–900 AD
Local: Península do Iucatão

China
Período: 1600 BC–1046 BC
Local: Rios amarelo e azul

Império Grego
Período: 2700 BC–146 BC
Local: Desde a Grécia ate à França e o Norte de Africa

Império Persa
Período: 550 BC–331 BC
Local: Egipto, Turquia, Mesopotâmia e vale do Indo

Império Romano
Período: 550 BC–465 AD
Local: Todos os países da ribeira norte e sul do mar mediterrâneo

Astecas
Período: 1345 AD–1521 AD
Local: centro e sul do México

Incas
Período: 1438 AD–1532 AD
Local: Equador, Peru e Chile

O trigo e as civilizações do Crescente Fértil
O Crescente Fértil não está muito longe do berço da humanidade e possui um clima ameno e quase primaveril durante todo o ano. Como já dissemos, aqui nasceu o rei dos cereais, o trigo que é o cereal mais antigo e continua ainda a ser o cereal mais usado por ser o mais versátil. Quando se fala em pão, normalmente referimo-nos a farinha de trigo amassada com fermento e cozida num forno.

Com o descobrimento da agricultura, o Homem tornou-se cada vez mais sedentário, estabelecendo-se nas margens dos grandes rios, não só por causa da água para beber e para a agricultura, mas também porque os terrenos mais férteis do mundo são sempre as bacias dos rios. As inundações periódicas das terras ribeirinhas fecundam o solo pelo fenómeno conhecido como sedimentação das matérias orgânicas que o rio transporta. As primeiras cidades formaram-se na margem dos grandes rios.

Trigo – Jordão – Jericó - Eucaristia
No caso do Crescente Fértil, estamos a falar do rio Jordão, do Tigre, do Eufrates e do Nilo. Curiosamente, a cidade mais antiga do mundo é Jericó (9 600 A.C.) nas margens do rio Jordão que faz parte do vale de Rift, onde também nasceu a humanidade. Também é curioso que o cultivo do trigo tenha começado mais ou menos por esta época, há 9 000 anos.

Não é de admirar que tenha sido este o cereal que Jesus escolheu para instituir a eucaristia memorial da sua presença no meio dos homens: Enquanto comiam, Jesus tomou um pão e, abençoando-o, o partiu e deu-lho, dizendo: «Tomai: isto é o meu corpo.» (Marcos 14, 22). 

Para além de ser a matéria da eucaristia, memorial da sua morte, Jesus utilizou o trigo como metáfora para explicar e dar sentido à sua morte: «se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto.» (João 12, 24)

Outros cereais
Para além do trigo, que era mais usado para o consumo humano, as civilizações do Crescente Fértil contavam com outros cereais que continuam ainda hoje a fazer parte da lista dos mais usados em todo o planeta: o centeio, a aveia e a cevada. À exceção da cevada que também era usada como pão dos pobres, tal como testemunha o evangelho de São João (6, 9), estes cereais eram mais usados para a criação de animais e para a produção de bebidas fermentadas, como a cerveja de cevada.

Suméria, Assíria, Egito, Babilónia, império persa, império grego, império romano, civilizações, culturas, desenvolvimento filosófico, científico - o Crescente Fértil é não só o berço das primeiras civilizações, como também o berço da civilização ocidental.

O arroz e as civilizações da Ásia
As civilizações baseadas no cultivo do arroz são quase tão antigas como as baseadas no cultivo do trigo, no Crescente Fértil, com alguns séculos de diferença relativamente a alguns avanços tecnológicos, como o conhecimento dos metais. Porém, podemos dizer que estas civilizações acompanharam em grande medida o Crescente Fértil a par e passo e, em certos avanços tecnológicos, até o superaram, como aconteceu com a invenção do papel e da pólvora.

Enquanto que no Crescente Fértil e devido à facilidade de comunicação, as culturas, civilizações e povos se foram sobrepondo uns aos outros ao longo do tempo, na Ásia houve dois focos diferentes de cultura e civilização – a Índia e a China - separados e isolados pelos Himalaias e por muitos quilómetros de distância. 

O cultivo do arroz surge do aproveitamento das inundações periódicas dos rios e dos pequenos lagos e pântanos que estas criavam. Esta água acumulada nos campos mantinha-os bem adubados, removia o sal, impedia o crescimento de ervas daninhas e mantinha a temperatura constante pela retenção do calor; sobretudo, impedia a geada causada pelo arrefecimento noturno.

Mais que o trigo, o arroz necessita da presença constante de água. Por isso, podemos falar de duas culturas asiáticas distintas: a que nasceu na bacia do rio Indo, no Noroeste da Índia, e a que nasceu na China oriental, nas margens dos rios Yang-Tsé (Rio Azul) e Huang-Ho (Rio Amarelo).

A civilização do vale do rio Indo
Também conhecida como civilização de Harappan, começou há 5 300 anos, com o aparecimento de aldeias neolíticas. Floresceu em áreas que atualmente se estendem do Afeganistão ao Paquistão e Índia e teve o seu apogeu por volta do ano 3 000 A.C. Esta civilização é a terceira civilização mais antiga do mundo depois da Mesopotâmia e da civilização egípcia, e a primeira da Ásia. Tal como as civilizações do Crescente Fértil, é também uma civilização fluvial que nasceu na bacia do rio Indo. Era sobretudo uma civilização urbana muito avançada tecnologicamente; as cidades não nasceram e cresceram naturalmente, mas foram previamente e planeadas e projetadas arquitetonicamente.

A civilização chinesa
A civilização chinesa é, como dissemos, uma das mais antigas que se conhecem, quase tão antiga como as que existiram no Egito e na Mesopotâmia. Pensa-se que em 6 500 A.C. já se cultivava o arroz no rio Yangtze. Enquanto que no Crescente Fértil os impérios se sucediam, no leste asiático o desenvolvimento histórico parece ter sido mais linear. Mas, não podemos esquecer que não existe um só povo chinês, existem várias etnias que se influenciaram e guerrearam e que se sucederam nas rédeas do poder, criando várias dinastias.

Assim como a cultura grega serviu de modelo e inspiração para diversos povos do Ocidente, a cultura chinesa influenciou o desenvolvimento cultural de diversos países vizinhos, de entre os quais, o Japão e a Coreia. A China, como as civilizações mesopotâmicas e egípcia, também se formou nas margens de grandes rios: Huang-Ho (Rio Amarelo) e Yang-Tsé (Rio Azul). Por causa disso, a economia chinesa baseava-se na agricultura de irrigação e no trabalho dos camponeses em regime de servidão coletiva.

O milho e as civilizações da América Central e Sul
Originário do México, o milho (Zea Mayz) que significa o “grão da vida”, foi de facto o alimento vital dos maias, astecas e incas, povos que habitaram o sul do México, a América central e a América do Sul. A existência do milho e destas civilizações a ele associadas é a prova mais evidente e contundente da nossa tese: onde não houve um cereal não houve cultura.

Pelo cultivo dos cereais, o Homem emancipou-se da Natureza, colocando-a ao seu serviço. Os povos indígenas que não cultivaram qualquer cereal não desenvolveram uma cultura nem criaram uma civilização porque a sua vida não passou de uma luta constante pela sobrevivência.

Tantos os indígenas da América do Norte (Canadá e Estados Unidos) como os restantes da América do Sul (Brasil, Colômbia e Argentina) não desenvolveram uma civilização porque não conheceram nem cultivaram qualquer cereal.

A civilização maia
É a primeira civilização das Américas. O povo maia viveu desde 1 200 até 250 A.C., tendo sido contemporâneo da dinastia chinesa Shang. O povo maia vivia da agricultura em aldeias na Península do Iucatão, no atual México e nas áreas agora ocupadas pela Guatemala, Salvador, Belize e Honduras. 

No seu auge, chegaram a ser uma civilização muito complexa, com uma população de cerca de 19 milhões de pessoas. Os maias desenvolveram o seu próprio método de escrita por volta de 700 A.C. Eram dotados astrónomos, especializados na análise do movimento celeste e no cálculo de datas; ficaram mundialmente conhecidos pela criação de um misterioso calendário solar em pedra malaquita que ainda hoje desperta a curiosidade de muitos.

O desaparecimento desta cultura é ainda hoje um mistério por desvendar: não foram conquistados por nenhum outro povo, muito menos pelos espanhóis. Quando estes chegaram à América, os maias já tinham abandonado as suas pirâmides, templos, fortalezas e lugares de culto. Como testemunho da sua cultura, estes templos, fortalezas e pirâmides estão ainda bem conservados, sobretudo a pirâmide de Chichen Itza.

O império asteca
Os astecas são praticamente contemporâneos aos incas. Este povo habitou o sul do México e chegou a estender-se até à América Central. Bastante mais agressivos e menos cultos que os maias, ficaram conhecidos pelos sacrifícios humanos que ofereciam aos seus deuses. A sua ascensão coincidiu com o declínio dos maias; por volta de 1 500, os astecas estavam no seu auge e, precisamente por isso, foram brutalmente conquistados e dominados pelos conquistadores espanhóis (Hernan Cortés 1485-1547).

O império inca
O império inca cresceu e tornou-se no maior império da América do Sul durante a época pré-colombiana. A civilização floresceu entre 1438 AD e 1532 D.C. em torno do atual Peru, Equador e Chile. A capital administrativa situava-se em Cusco, atualmente Peru. Os incas eram dedicados ao Deus Sol e tinha um rei chamado "Sapa Inca" (filho do sol).

Os incas, tal como os maias e os astecas, foram também grandes construtores de fortalezas e locais como Machu Picchu e Cusco que permanecem até hoje. Tal como os astecas, os incas foram dominados pelos conquistadores espanhóis, (Francisco Pizarro 1532-1541).
Pe. Jorge Amaro, IMC














15 de dezembro de 2019

3 Grupos étnicos - Negroide - Caucasoide - Mongoloide

1 comentário:
Estamos cientes de que os adjetivos, negroide, caucasoide e mongoloide têm hoje más conotações. A palavra negroide tem fortes conotações racistas de depreciação do povo africano; a palavra caucasoide tem conotações racistas de sobrevalorização dos europeus, usada pela néscia dita supremacia da raça branca; por fim, o termo mongoloide, mesmo aludindo ao povo de um país, também é usado para referir os humanos nascidos com a síndrome de Down.

A antropologia moderna já não divide os seres humanos em 4 raças, tal como estudámos na escola: raça preta, branca, amarela e vermelha. O termo “raça” deixou de usar-se para diferenciar grupos humanos e só se usa para diferenciar a raça humana do resto dos seres vivos que habitam este planeta. Hoje, a maior parte dos antropólogos usa o termo “grupo étnico” em vez de “raça” e divide a raça humana em três grandes grupos étnicos: negroide, caucasoide, mongoloide. Há também quem junte australoide para os habitantes da Oceânia, mas nós achamos que estes são já um subgrupo.

Mesmo correndo o risco de sermos mal interpretados, usaremos estes termos no sentido original, sem nenhuma conotação racista, pois este texto quer provar precisamente que a raça humana teve um berço comum em África e que as diferenças fisiológicas que hoje exibimos advêm da longa adaptação aos diferentes meios ambientes para onde a única raça humana imigrou.

O Vale de Rift, berço da humanidade e do seu Salvador
Um vale é uma depressão da terra rodeada por montanhas ou colinas. Há vales formados pelo curso dos rios, que escavaram a terra ao longo de milhares ou milhões de anos, como é o caso do Grande Canyon, nos E.U.A.

As primeiras grandes civilizações que o mundo conheceu, formaram-se nas margens de grandes rios: - o Egito, nas margens do rio Nilo; a Mesopotâmia, terra entre os rios Tigre e Eufrates; a civilização hindu ou védica, nas margens do rio Ganges e a chinesa, nas margens do rio Amarelo (Huang He); Maias, Astecas e Incas na América central. Estes rios forneciam não só uma constante e inesgotável fonte de água para beber, como também alimento sob a forma de peixe, água para a agricultura e enriqueciam com os seus sedimentos as terras por onde passavam - as terras mais férteis do nosso planeta são de facto as dos vales atravessados por grandes rios. Os rios também eram vias de comunicação entre povos e facilitavam o comércio.

Outros formam-se pelo lento movimento dos glaciares que rasgam a terra em forma de U, e ainda outros que se formam quando duas placas tectónicas adjacentes se separam criando uma fenda entre elas; a terra que fica por cima dessa fenda colapsa e afunda-se. Quando a placa arábica se separou da placa africana, formou-se o Vale de Rift, o mais extenso e profundo do planeta. De facto, em cada lado do Vale de Rift não se encontram montanhas, como acontece nos vales formados por rios e glaciares, mas sim planaltos.

Começa na nascente do rio Jordão, em Israel, entre o Líbano e a Síria, forma o vale do rio Jordão até ao mar da Galileia, continua no vale do Jordão até ao Mar Morto, depois deste até ao golfo de Aqaba no Mar Vermelho, prossegue a sul até entrar em África pela Eritreia, Etiópia, Quénia, Tanzânia, e acaba ao meio de Moçambique no oceano Índico, depois de percorrer mais de 3 000 quilómetros e descer até 500 metros a baixo do nível do mar.

O vale de Rift é uma cadeia de grandes lagos como o lago Vitória onde nasce o Rio Nilo, Tanganica, Turkana, Niassa e tantos outros lagos e rios mais pequenos; é conhecido pelo clima primaveril durante todo o ano e pela terra fértil. A biodiversidade no Vale de Rift é muito superior ao resto da África sendo uma das zonas de mais biodiversidade do mundo.

Aqui também nasceu e se desenvolveu a humanidade, no período Paleolítico. Aqui também nasceu o Salvador da humanidade e, precisamente nas nascentes do Rio Jordão, em Cesareia de Filipo, o apóstolo Pedro reconheceu em Jesus algo mais que um profeta - o messias, o filho de Deus. (Marcos 8, 27-30). Quando nasce a panela nasce o testo para ela: a panela é a humanidade, o testo é Jesus, Caminho, Verdade e Vida para essa humanidade.

De primata a ser humano
Sede férteis e multiplicai-vos! Povoai e dominai toda a terra; Génesis 1, 28
Há 66 milhões de anos, um meteorito de 10 Km de diâmetro chocou contra o nosso planeta e provocou uma noite invernal de vários anos, na qual morreram 75% dos seres vivos da Terra, entre eles os dinossauros. Salvaram-se os pequenos roedores porque viviam debaixo do solo e conseguiam hibernar durante muito tempo.

Passados muitos anos, quando as condições de vida se tornaram outra vez favoráveis, estes roedores evoluíram até aos orangotangos que viviam nas árvores para se protegerem e terem comida, e destes até aos macacos, chimpanzés, gorilas e primatas. Os chimpanzés, os bonobos (ou chimpanzés-pigmeus) e os seres humanos descendem de um primata que viveu há 6 milhões de anos. Deste primata originou-se um ramo que são os humanos e outro que são os chimpanzés; deste último saíram ainda os chimpanzés de hoje e os bonobos.

Por isso o magistério da Igreja não proíbe que nas investigações e disputas entre homens doutos de ambos os campos se trate da doutrina do evolucionismo, que busca a origem do corpo humano em matéria viva preexistente pois a fé nos obriga a reter que as almas são diretamente criadas por Deus.
Pio XII Humane Generis, 36

Como diz a Humane Generis, o livro do Génesis não contradiz a teoria da evolução. O Génesis diz a verdade da fé, não a verdade da ciência. Que os seres humanos evoluíram a partir de outros seres vivos e que a vida no planeta vem de um tronco comum não é problema para a nossa fé, desde que se reconheça que Deus Criador de tudo e de todos deu o pontapé de saída ao criar a vida que já sabia que desembocaria no ser humano. A ciência não sabe explicar de facto em termos científicos como passámos de macaco a ser humano.

Como o elo entre nós e os macacos ainda não foi encontrado, ninguém sabe como ou porquê os humanos evoluíram e os nossos irmãos chimpanzés não…. Foi Deus que assim quis, mutações genéticas, mudança de clima, de alimento, ou tudo isso? Pode ter sido uma sucessão de eventos em cadeia, tipo efeito dominó: uma coisa leva à outra e assim sucessivamente. Alguns desses fatores são o bipedismo que libertou as mãos, o aumento da capacidade craniana que criativamente arranja tarefas para as mãos executarem, utensílios, o polegar oponível, mudanças genéticas, mudanças climatéricas e geológicas que obrigaram o ser humano a adaptar-se às novas condições, etc.

A partir deste cenário altamente variável e com muitas variáveis, surgiu um macaco suficientemente esperto para questionar a sua própria existência. A título de cronologia evolutiva das espécies humanas bípedes que foram surgindo e desaparecendo no vale de Rift desde há seis milhões de anos, a antropologia estabelece as seguintes espécies:
•    Ardipithecus Ramidus – 4,4 milhões de anos
•    Australopithecus Afarensis – 3,5 milhões de anos
•    Homo Habilis – de 2 milhões a 1,4 milhões de anos
•    Homo Ergaster – de 1,8 a 1,2 milhões de anos
•    Homo Erectus – de 1,6 milhões a 150 mil anos
•    Homo Neanderthalensis – de 150 mil a 30 mil
•    Homo Sapiens - de 130 mil anos até hoje

À exceção desta última, que é a nossa espécie, todas as outras estão extintas.

Migração e miscigenação
O Homo Hhabilis, que é considerado o primeiro membro do género Homo, deu origem ao Homo Ergaster. Alguns H. Ergaster migraram para a Ásia, onde são chamados Homo Erectus, e para a Europa com o Homo Georgicus. O H. Ergaster na África e o H. Erectus na Eurásia evoluíram separadamente durante quase dois milhões de anos e, presumivelmente, separaram-se em duas espécies diferentes.

O Homo Rhodesiensis, que era descendente do H. Ergaster, migrou da África para a Europa e tornou-se o Homo Heidelbergensis e, mais tarde (há cerca de 250 000 anos), no Homo Neanderthalensis e no hominídeo de Denisova na Ásia. O primeiro Homo Sapiens, descendente do H. Rhodesiensis, surgiu em África há cerca de 250 000 anos. Há cerca de 100 000 anos, alguns H. Ssapiens Sapiens migraram de África para o Levante e reuniram-se aos neandertais aí residentes, com alguma miscigenação genética.

Mais tarde, há cerca de 70 000 anos, talvez depois da catástrofe de Toba, um pequeno grupo deixou o Levante para preencher a Eurásia, Austrália e, mais tarde, as Américas. Um subgrupo entre eles encontrou os Denisovanos e, depois de alguma miscigenação, migraram para preencher a Melanésia.

Neste cenário, a maior parte das pessoas não-africanas de hoje têm origem africana ("hipótese da origem única"). Contudo, também houve alguma mistura entre os neandertais e os Denisovanos, que evoluíram localmente (a "evolução multirregional"). Resultados genómicos recentes do grupo de Svante Pääbo também mostram que há 30 000 anos, pelo menos, três subespécies principais coexistiram: os Denisovanos, Neandertais e os Cro-magnons. Hoje, apenas o Homo Sapiens Sapiens sobreviveu, sem outras espécies ou subespécies existentes.

Os três reis magos e os três grupos humanos
Sobre este monte, o Senhor do Universo há-de preparar para todos os povos um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos deliciosos: comida de boa gordura, vinhos puríssimos. Isaías 25, 6

Os três grandes grupos étnicos subdividem-se em vários outros grupos que podem também subdividir-se até uns 5 000 grupos étnicos. Porém, todos descendem do Homo Sapiens pois, como vimos, todas as outras estirpes humanas se fundiram com o Homo Sapiens ou desapareceram e se extinguiram. Não há assim nenhuma razão científica que fundamente o racismo, ou seja, a rivalidade entre diferentes grupos humanos, uma vez que somos todos exclusivamente Homo Sapiens que emigraram de África.
  • Caucasoide – arianos, hamitas, semitas
  • Mongoloide - mongóis, chineses, indo-Chineses, japoneses e coreanos, tibetanos, malásios, polinésios, maori, micronésios, esquimós ou Inuit, índios americanos
  • Negroide - africanos, hotentotes, melanésios/Papua, “Negrito”, aborígenes australianos.
No museu de Addis Abeba, onde se conserva 40% do esqueleto de Lucy um Australopithecus afarensis datado cerca de 3.2 milhões de anos, um grande cartaz diz “Bem-vindos a casa”. Sim, de facto o Vale de Rift é a nossa casa comum.

A partir daqui o homo sapiens começou sua viagem que o levou a todos os cantos da terra. À medida que se iam fixando em diferentes longitudes e latitudes, para sobreviver os seus corpos a sua fisiologia teve de se adaptar aos diferentes lugares que iam colonizando daí a ramificação em três principais grupos étnicos, negroides, caucasoides e mongoloides, uma vez mais, tal como Deus é um e três, os seres humanos são ao mesmo tempo um e três; três em um, um  em três.

Representando cada um três grupos étnicos em que a humanidade se ramificou, os três reis magos voltaram ao vale do Rift de onde tinha partido o seu comum ancestral, o homo sapiens, para prestar homenagem ÀQUELE que é o modelo da humanidade, também nascido nas encostas de  daquele vale, Jesus Cristo. Jesus é aquele que veio trazer plena saúde física, moral, espiritual e psicológica e sobretudo ser o grande modelo de humanidade para todos seguirem como caminho, verdade e vida. (João 14, 6)

Cereais e civilização
A agricultura e a domesticação dos animais foram importantes já no Paleolítico para a sobrevivência da espécie humana e sobretudo para vencer a simbiose e dependência em que o homem vivia em relação à Natureza. Antes da invenção da agricultura e domesticação dos animais, o ser humano, tal como os animais selvagens, passava a maior parte do dia à procura de alimento.

De entre todos os produtos agrícolas, os mais responsáveis por estabelecer uma total independência em relação à Natureza são os cereais. O ser humano é considerado um omnívoro, mas, do ponto de vista da civilização, é sobretudo cerealífero; os cereais são, ainda hoje, a base da alimentação da humanidade, são a base da conhecida pirâmide alimentar: cereais, vegetais e frutas, carne e peixe e por fim as gorduras vegetais ou animais.

Porquê os cereais? Do ponto de vista da nossa alimentação, os cereais, compostos por hidratos de carbono, são um alimento energético e fornecem uma energia constante por muito tempo. As verduras e frutas fornecem uma energia rápida, mas de pouca duração. Por outro lado, de todos os alimentos que se conhecem, os cereais são os que levam mais tempo a degradar-se: em humidade zero podem sobreviver durante milénios. De facto, foram encontrados no túmulo de Tutankamon, faraó do Egito, grãos de trigo com 5 000 anos que germinaram depois de semeados.

Onde não houve cereais não houve civilização porque os cereais, como bem indica a história de José do Egito descrita no livro do Genesis 37 e a parábola do rico insensato de Lucas 12, 16-20, ao contrário de outros alimentos podiam ser armazenados e conservados durante muito tempo, libertando os seres humanos da busca constante de comida e permitindo que se dedicassem a outras tarefas, formando cultura e civilização. Tomemos como exemplo os índios de todo o continente americano; tanto os índios da América do Norte, como os da América do Sul, não constituíram civilização porque não tinham nenhum cereal. Enquanto que os índios da América central, os Maias, os Astecas e os Incas constituíram uma civilização bastante desenvolvida. São três as grandes civilizações do mundo antigo e todas elas têm como base um ou mais cereais:

Civilização do trigo – Norte de África e Europa - O Egito floresceu graças à fartura de grãos cultivados nas margens do rio Nilo. Trigo, cevada, sorgo, aveia foram os primeiros grãos com o maior domínio de técnicas de cultivo. Os faraós usavam o trigo como moeda. Os camponeses ganhavam três pães e dois jarros de cerveja como pagamento por um dia de trabalho. Nos túmulos egípcios dos faraós, foram encontradas massas, mel, frutas, carnes, pães e cerveja.

Civilização do arroz– Ásia e Oceânia – O arroz é a base da alimentação de aproximadamente dois terços da população mundial, sendo o cultivo mais importante de vários países, principalmente na Ásia e Oceânia. O cultivo do arroz é tão antigo quanto a civilização. Os historiadores acreditam que este cereal é originário da China, Índia e Oceânia. Descobertas arqueológicas na China e na Índia indicam que o arroz existe há 7 000 anos. A sua utilização em cerimónias, onde o Imperador semeava o arroz, remonta a 2 822 a.C. e representa a referência mais concreta que existe.

Civilização do milho – Américas - O milho era conhecido pela civilização pré-colombiana como o alimento dos homens e deuses. É o terceiro cereal mais importante do mundo, depois do trigo e do arroz, e garantiu a sobrevivência de grandes populações pelo seu valor nutricional. Os homens que cultivavam o milho necessitavam de apenas 50 dias de trabalho ao ano, o que permitiu que esses povos pudessem trabalhar na construção de grandes obras arquitetónicas.

Os Maias, Astecas e Incas usavam o milho em forma de farinha na sua alimentação em papas, pães, bolos, tamales. Esses povos tinham uma relação mística e intensa com esse cereal. Mesmo nas luxuosas refeições dos líderes, o milho era presença obrigatória. A preparação do milho incluía a utilização de           sal e pimenta, bem como as bebidas fermentadas produzidas a partir do milho, que ainda hoje são feitas pelos povos andinos. A durabilidade e a fácil conservação para o transporte do milho contribuíram para que Colombo levasse o milho da América para a Europa.

Perfil africano (negroide)
As características físicas dos africanos são as seguintes: crânio arredondado, pigmentação da pele muito escura, cabelo de cor preta encarapinhado ou crespo; olhos redondos de cor preta, nariz largo e achatado, boca grande de lábios proeminentes e grossos, tórax curto e largo, escassa pilosidade corporal e barba rala.

O núcleo principal deste grupo, situa-se no continente africano. No entanto, há um ramo oriental deste grupo que é constituído pelos austroloides, também chamados oceânicos. Os das Ilhas Salomão assemelham-se tanto aos negros africanos que os antropólogos não distinguem uns dos outros. Em geral, têm a pele escura, cabelo preto ondulado, sistema piloso corporal desenvolvido cara estreita e baixa, olhos de cor castanha escura, nariz grande, lábios grossos, cabeça alongada, estatura superior à média e, mesmo, alta.

Perfil europeu (caucasiano)
As características físicas dos europeus são as seguintes: crânio largo e redondo, pigmentação da pele clara, cabelos claros que variam de lisos a ondulados, olhos rasgados e retos, lábios delgados, tórax largo, abundante pilosidade corporal, barba cerrada. Constituem 50% da humanidade. O núcleo principal dos brancos encontra-se no Velho Mundo: Europa, Ásia e no norte de África. Subdivide-se em meridional ou indo-mediterrânico e setentrional ou Atlântico-báltico. A raça meridional é de pele, cabelos e olhos escuros, enquanto a raça setentrional apresenta a pele, cabelos e olhos mais claros.

Os que representam a raça meridional ou indo-mediterrânica são: hindus, tajiques, arménios, gregos, árabes, italianos e espanhóis, que se caracterizam por cabelo negro ondulado, olhos castanhos, nariz de dorso encurvado, rosto estreito e cabeça de forma dolicocéfala ou mesocéfala.

A raça setentrional ou atlântico-báltica é representada pelos russos, bielor russos, polacos, noruegueses, alemães, ingleses e povos que vivem mais para o norte; as suas características são: pele clara, cabelos loiros ou ruivos, olhos cinzentos ou azuis, nariz comprido e estatura elevada.

Perfil asiático (mongoloide)
As caraterísticas físicas dos asiáticos são as seguintes: crânio largo, pigmentação clara da pele entre branca e amarelada, cabelos lisos e negros, olhos rasgados e oblíquos, pómulos salientes, nariz reto, lábios delgados, tórax curto e largo, escassa pilosidade corporal.

A etnia mongoloide compreende cerca de 40% da população terrestre e metade são chineses. Habitam na Ásia, nas regiões setentrionais, orientais, centrais e sul-orientais, e estendem-se pela Oceânia e continente americano. Muitos elementos deste grupo fazem parte da população das regiões asiáticas que pertenciam à antiga União Soviética: iacutos, buriatos, tunguses, tchuquetches, tuvinos, altaios, ilacos, aleutas, esquimós asiáticos.

A raça mongoloide divide-se em três raças: Setentrional ou asiático-continental - também chamada de centro-asiática e à qual pertencem os buriatos e os mongóis. São conhecidos por terem a cor da pele, cabelos e dos olhos mais clara, os cabelos menos duros, lábios delgados e rosto grande e chato.

Meridional ou asiático-pacífica - são seus representantes os malaios, javaneses e habitantes das Ilhas de Sonda. As características são: pele bronzeada, rosto estreito e baixo, lábios grossos, nariz largo, cabelo por vezes ondulado, estatura inferior à dos setentrionais e dos chineses.

Índios americanos – as suas características são: cabelo reto e rígido, cor negra, sistema piloso corporal pouco desenvolvido, pele com coloração amarela-parda, olhos de cor castanha escura e rosto largo.

Variáveis fisiológicas
As variáveis fisiológicas mais notáveis entre os três grupos humanos, são a cor da pele, a forma e a cor do cabelo, a forma e a dimensão do nariz, a forma e a cor dos olhos e, em menor medida, a saliência das maçãs do rosto.

Pele – Do branco de um escandinavo ao preto de um congolês a única diferença é a latitude em que estas duas pessoas habitam. Quando mais a norte do Equador, mais branco; quando mais perto do Equador, mais preto. O nosso organismo precisa de vitamina D que sintetiza a partir da exposição da pele nua ao sol. Onde o sol é abundante, a pele, como se fosse uma cortina, fecha-se para deixar entrar só a quantidade de que precisa; onde o sol é escasso, a pele abre-se por completo para deixar entrar a maior quantidade possível.

Nariz – Para além de filtrar o ar de poeiras e fumos, e impedir que cheguem aos brônquios, o nariz também regula a temperatura do ar; o nariz longo de narinas apertadas corresponde aos climas frios, o nariz pequeno e achatado de narinas amplas corresponde aos climas quentes.

Olhos - A maior ou menor concentração de melanina na pele é responsável pela sua cor, e também pela cor dos olhos - quanto mais pretos, mais melanina; quanto mais claros, menos melanina.
Dizem estudos atuais que as pessoas com olhos azuis descendem todas de um mesmo indivíduo que viveu há 6 000 anos na Escandinávia.  Ali, 89% das pessoas têm olhos azuis e essa percentagem vai descendo à medida que caminhamos para sul e desaparece de azul para verde, de verde para castanho e depois preto, à medida que avançamos mais para sul. Tal como a pele e o cabelo, a diferença de melanina é responsável por isso.

Quanto ao formato dos olhos, ressalta a diferença entre os olhos chineses ou asiáticos e o resto do mundo. Os estudos dizem que este formato é uma adaptação ao meio ambiente e ao clima; nas estepes asiáticas, os ventos constantes, a poeira por eles levantada, o frio, assim como a necessidade de divisar ao longe, levaram ao longo dos séculos os olhos a serem como são hoje.

Cabelo – A mesma melanina que é responsável pela cor das íris dos olhos e da pele é também responsável pela cor do cabelo. A textura do cabelo tem a ver com a temperatura: os cabelos lisos são próprios dos climas frios, os cabelos encaracolados e encarapinhados como os dos africanos, são próprios dos climas quentes - ao dar mil e uma voltas, um cabelo encarapinhado permite que se forme uma almofada ou câmara de ar entre o couro cabeludo e o ar, protegendo assim a cabeça de insolações; os africanos têm como que um ar condicionado na cabeça.

A essência do racismo
Não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. Gálatas 3:28

A afirmação e a defesa da tese da desigualdade biológica das raças humanas constituem a essência do racismo. Os racistas consideram a raça branca como superior e as outras raças, como a negra e a amarela, como inferiores. Os racistas confundem os conceitos de raça e nação. No entanto, a raça é um conceito biológico enquanto que a nação é um conceito sociológico.

O nível cultural não depende das características sociais, mas é determinado pelos fatores económicos e sociais. O pensamento racista não tem qualquer base científica, apresentando erros grosseiros de lógica e de informação. Assim, confunde raça com nação, povo, cultura ou grupo linguístico, atribuindo a fatores sociais, e, portanto, hereditários, comportamentos que nada têm a ver com raça, mas que são condicionados pela cultura, pelo meio social e pelas condições económicas.

Padrões de beleza
“Quem o feio ama, bonito lhe parece” O padrão de beleza é convencional; em África há tribos que gostam de mulheres com o pescoço comprido; no sul da Etiópia, as mulheres abrem uma fenda nos lábios para colocar dentro desse espaço um pequeno prato de argila que, segundo eles, torna a mulher mais bela; na China e no Japão, gostam das mulheres com os pés pequenos.

Porém, a civilização ocidental espalhou os seus padrões de beleza pelos quatro cantos do globo de tal modo que parece que toda a gente pensa e sente como a Europa ou a América do Norte pensam e sentem. Constatei isto mesmo nos meus anos de Etiópia, quando testei um grupo de jovens sobre a beleza. Havia na missão uma freira local, jovem e bela, e outra italiana não tão jovem nem bela para não dizer feia; abismado fiquei quando ao perguntar aos jovens qual das duas era a mais bela, me disseram que era a italiana. Suponho ser esta a razão pela qual o cantor Michael Jackson nunca aceitou a sua cor e buscou por meio de várias operações plásticas ficar branco.

Levou tempo a que nas salas onde se expõe a moda aparecessem modelos não caucasianos. Naomi Campbell foi a primeira modelo africana e chocou de alguma maneira certos padrões e costumes do mundo da moda. A questão é que o padrão de beleza não tem nada de científico, é puramente convencional, arbitrário e circunstancial. Se a África fosse tão bem-sucedida como a Europa e a América, o conceito de beleza padrão seria africano.

A irracionalidade do racismo
Não existe o homem asiático nem o africano nem o americano, pois todos os homens provêm do continente africano. Apesar de ter havido outras estirpes de Homo como o Neandertal que saiu de África, a estirpe de Homo que vingou foi o Homo Sapiens. As outras extinguiram-se ou fundiram-se com o Homo Sapiens, pelo que só há um Homo.

As diferenças fisiológicas dos três principais grupos étnicos são o resultado de uma adaptação ao meio ambiente e são todas reversíveis no sentido de que se levássemos uma tribo do Congo para a Noruega, em menos de 25 000 anos os seus elementos ficariam louros, de cabelo liso, olhos azuis e pele branca. Por isso tem cada vez mais validade o que disse Martin Luther King no dia anterior ao seu assassinato: “Sonho com o dia em que os homens serão julgados não pela cor da sua pele, mas pelo conteúdo do seu caráter.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de dezembro de 2019

3 Períodos da Idade dos Metais - Cobre - Bronze - Ferro

Sem comentários:
A Idade dos Metais é a última etapa da Pré-história, bastante mais curta que a anterior. Começa aproximadamente no ano 6 500 a.C. e vai até ao ano 1 500 a.C. Em busca de materiais mais adequados para as suas ferramentas, o homem passou da pedra, madeira e osso para materiais mais duros e mais fáceis de moldar. Assim, passou da Idade do Cobre, o primeiro metal a ser descoberto, à Idade do Bronze que resulta de uma liga entre o cobre e o estanho. Por fim, descobriu o ferro.

Apesar de ser o metal mais abundante no nosso planeta, foi o último a ser descoberto. Podemos dizer que, desde que este foi descoberto, nunca mais saímos da Idade do Ferro, pois é ainda hoje o metal mais usado em todo o planeta. Conforme as características mais procuradas - maleabilidade, durabilidade ou dureza - assim foram surgindo várias ligas, como o aço, o aço inoxidável, etc. que têm as mais variadas aplicações, sendo as mais importantes na indústria automóvel, na construção naval e na construção civil.

Estes desenvolvimentos tiveram lugar em diferentes zonas do planeta, mas principalmente no Médio Oriente, onde nasceu a cultura ocidental: falamos da Mesopotâmia, de Israel, Assíria e Egito. Com os metais, não só surge uma atividade nova - a metalurgia - como todas as tarefas humanas se tornam mais fáceis e produtivas - a agricultura, a pastorícia, a caça e a pesca – criando assim excedentes e dando origem a uma outra atividade nova: o comércio. O comércio levou o ser humano a criar meios de transporte de mercadorias e assim surgiu a roda, o cavalo como força motriz e a vela para os barcos.

Infelizmente, nem tudo foi positivo; os metais possibilitaram também o fabrico de armas que foram utilizadas pela primeira vez para outros fins que não a caça de animais, isto é, foram utilizadas contra outros seres humanos. É na Idade dos Metais que surgem os primeiros reis, as primeiras nações e os primeiros impérios que se formam com guerras entre povos; assim surge mais um ofício, o de guerreiro. Mesopotâmia e Egito foram as primeiras civilizações a aparecer.

Idade do Cobre – 6 500 a.C. – 2 500 a.C.
Também chamada a Idade do Calcolítico, quando vista como uma transição entre o Neolítico e a Idade do Bronze. Descoberto provavelmente por casualidade, o bronze rapidamente substituiu a pedra, o osso e a madeira no fabrico de ferramentas. O Calcolítico representa um salto qualitativo em relação à Idade da Pedra, porque a madeira e os ossos eram disponibilizados pela natureza, enquanto que os metais eram minerais que tiveram de ser fundidos para serem utilizados.

Uma vez descoberto o cobre, a passagem para a Idade do Bronze e desta para a Idade do Ferro representaram saltos quantitativos. O homem deu-se conta de que o futuro estava nos metais e a busca por metais mais duros e resistentes foi o que originou a passagem do cobre para o bronze e do bronze para o ferro.
A princípio, os metais eram trabalhados com um martelo para lhes dar forma. Mais tarde, deram-se conta de que era melhor fundi-lo para ter formas mais específicas e perfeitas. Assim se descobriu a fundição como processo para a elaboração de objetos e ferramentas de metal.

O cobre é um metal muito macio e maleável. Os objetos com ele feitos não eram muito resistentes. Foi também nesta época que se descobriram outros metais tão ou ainda mais macios que o cobre; o ouro e a prata. Quando o cobre foi descoberto, o homem substituiu todas as suas ferramentas por este metal, mas rapidamente se deu conta de que, para certas ferramentas, a pedra sílex era mais dura e bem menos maleável que o cobre. Por isso, mais que para ferramentas ou armas, o cobre serviu para vasilhas e adornos e para os rituais fúnebres.

Idade do Bronze 2 500 a.C. – 1 500 a.C.
Em busca de um metal mais duro, o homem foi misturando minerais, até que inventou o bronze resultante de dois metais macios: o cobre e o estanho. O bronze é uma liga de 90% de cobre e 10% de estanho. Dois metais macios produzem um metal duro.

Ao ser descoberto, este metal rapidamente se expandiu por todo o mundo conhecido; criaram-se as primeiras rotas dos metais que conduziam às minas. Assim se desenvolveu a roda para o transporte terrestre, o barco e a vela para o transporte marítimo. A expansão do comércio levou a Idade do Bronze a toda a Europa e Ásia e a partes do Norte de África. O cobre passou a ser mais procurado para fazer bronze do que para ser usado como cobre. Como o bronze não tinha par em dureza e resistência, todas as ferramentas passaram a ser feitas em bronze.

A substituição das ferramentas e instrumentos de pedra e cobre pelos de bronze fez aumentar a produção (principalmente na agricultura) e a durabilidade destas mesmas ferramentas porque, como dissemos, o bronze é mais resistente e desgasta-se menos que o cobre.

As armas de combate passaram a ser de bronze, dando ao povo que dominava este processo mais poder de conquista, dominação e superioridade bélica. O bronze também foi usado no fabrico de artefactos domésticos (facas, machados, etc.), e de armas de caça, melhorando a qualidade de execução de determinados serviços. Por fim, também teve um uso artístico (máscaras, estatuetas, etc.) e de adorno (colares, pulseiras, anéis, etc.).

 Idade do Ferro 1 500 a.C.
Começou no sudoeste da Ásia Menor, no que hoje é a Turquia e rapidamente se alastrou ao Médio Oriente e resto da Europa. Os hititas foram o primeiro povo a trabalhar o ferro e a usá-lo sobretudo nas armas com as quais rapidamente subjugavam os outros povos. O combatente com espada de ferro partia a espada do combatente com a espada de bronze, logo aos primeiros embates. 

O ferro, mais abundante na natureza que os dois metais anteriores, requeria mais conhecimentos metalúrgicos, devido à temperatura de fundição mais elevada. Por isso foi necessário aperfeiçoar primeiro a fabricação de fornos para posteriormente alcançar temperaturas mais altas.

A introdução do ferro no fabrico dos mais diversos equipamentos, ferramentas e armas trouxe grandes modificações à vida das pessoas daquela época. O ferro passou a ser usado na produção de ferramentas mais fortes e resistentes, o que acabou por ajudar ao desenvolvimento da agricultura e facilitar o trabalho de plantio.

Em relação às armas, o ferro ajudou a construir espadas e outros tipos de armas mais fortes. Com a introdução desse tipo de material, os exércitos que possuíam o armamento mais forte acabavam por dominar os outros povos com maior facilidade. Assim surgiram os grandes impérios e o aparecimento de reis e governantes cada vez mais poderosos.

Segundo os historiadores, a descoberta da escrita assinala o fim da Idade do Ferro e da Pré-história. No entanto, sob outro ponto de vista, continuámos na Idade do Ferro, pois este continuou a ser o material mais usado até ao século XIX. Tal como a combinação do cobre com o estanho deu início à Idade do Bronze, também a combinação do ferro com o carbono neste século deu início à atual Idade do Aço, já que este é o metal mais utilizado em todo o planeta.

Invenções da idade dos metais
O forno – Invenção que deu origem à metalurgia na idade dos metais. O aperfeiçoamento do forno fez com que fosse possível alcançar-se temperaturas mais altas para fundir o ferro e criar outras ligas. É certo que também se usou depois para cozinhar alimentos como o pão e a carne, e elaborar utensílios de cerâmica.

A roda – Permitiu o progresso do comércio dos excedentes, possibilitando o transporte de cargas em menos tempo e com menos esforço.

Os canais – Permitiam conduzir a água dos rios para terras afastadas destes e assim obter mais excedentes agrícolas; também serviam para abastecer povoações de água e, com a utilização de barcos, servia também como via de transporte de mercadorias.

O barco – Os primeiros barcos eram pequenos botes ou jangadas; a vela fez com que passasse a ser possível a construção de barcos de maior calado para transportar mais pessoas e mais mercadorias.

A vela – Serviu para impulsionar o comércio dos excedentes criados por uma sociedade cada vez mais técnica e diversificada. A vela era usada nos barcos, mas também nos moinhos de vento; a princípio era fabricada com cabedal, depois com tecido mais maleável, de modo a aproveitar melhor a força motriz do vento.

O arado – Usando os animais de carga em combinação com o arado, era possível cultivar mais terra; escusado será dizer que este foi primeiro fabricado com cobre, depois com bronze e finalmente com ferro, como ainda hoje é. Com o arado, a superfície cultivada quadruplicou e os excedentes agrícolas provocaram um desenvolvimento se precedentes do comércio.

O moinho – De água, de vento e de maré, fez aumentar a produção de farinha para a produção de pão. Antes do moinho, era necessário usar a força do homem e de duas pedras; depois do moinho, passou a utilizar-se a força motriz da natureza para criar um movimento contínuo que permitia moer grandes quantidades de cereal em pouco tempo.

Tecelagem – Ainda não com a máxima força, mas começou-se a tecer ou a entrelaçar plantas para formar cestas. Depois, descobriu-se o linho, o algodão e a lã e surgiram os fios que, entrelaçados nos teares, deram origem aos primeiros tecidos, que vieram substituir as peles de animais no vestuário.

Construção em pedra – Foi na Idade dos Metais que começaram a construir-se muralhas à volta das cidades, templos e fortalezas. Foi nesta época que se construiu o edifício mais alto do mundo, cuja altitude só foi superada 3 000 anos mais tarde pela catedral de Lincoln, em Inglaterra. Trata-se da Grande Pirâmide ou pirâmide de Gizé ou Quéops, construída por volta do ano 2 560 a.C., com 146 metros de altura, superada em 1 311 pela catedral de Lincoln, em Inglaterra.

Profissões da Idade dos Metais
Chefes ou reis – Que se distinguiam pela capacidade de liderança e pela força física.

Sacerdotes – Encarregados dos ritos e das relações com a divindade, intercediam pelo povo e aplacavam os deuses com sacrifícios.

Agricultores - Profissão que nasceu ainda na Idade da Pedra e que substituiu a caça e a pesca como meio de obtenção de alimentos, e a armazenagem dos mesmos, permitindo ao homem uma certa independência da terra e da natureza.

Pastores – Foi a atividade que substituiu a caça; com a domesticação dos animais, aprendeu-se a reproduzir os mesmos e a obter assim alimento acumulado. Para os povos primitivos, era como ter dinheiro no banco, pois, ao vender um animal, recebiam os juros de um capital investido na compra do animal quando era pequeno.

Ferreiros ou metalúrgicos – Foram os que se especializaram nesta nova arte e ofício da era dos metais; passaram a ser responsáveis pelo fabrico de todos os utensílios que o homem utilizava.

Oleiros – Utilizaram também o forno, embora a temperaturas mais baixas, para cozer a argila. É uma profissão muito antiga, pois aparte as cestas, a argila foi o material utilizado para todo o tipo de vasilhas, tanto para armazenar líquidos como a água, o vinho e o azeite como os cereais.

Fiadores, tecelões, padeiros – Foram outras profissões menores que apareceram à medida que a sociedade se estruturava e organizava e se diversificavam as funções e profissões.

Comerciantes – Nasceram das relações entre os povos, dos excedentes agrícolas ou outros, e da crescente especialização. Foram eles que levaram os produtos de um local onde abundavam para outro onde escasseavam, possibilitando os intercâmbios.

Matriarcado e o conceito de Deus
“A tua esposa será como videira fecunda na intimidade do teu lar; os teus filhos serão como rebentos de oliveira ao redor da tua mesa.Salmo 128, 3

Os antropólogos estão seguros de que a primeira divindade a ser adorada, foi uma deusa e não um deus. Esta divindade era adorada como a mãe de tudo o que vive; esta divindade identificava-se com a Terra, com o solo. Por isso, em todas as línguas onde não existe o género neutro e tudo se define com os géneros masculino ou feminino, a Terra como planeta e a terra como solo são palavras femininas: a mãe Terra em maiúscula e em minúscula, a mãe natureza.

Os homens primitivos viviam, como ainda hoje fazem os animais, em simbiose com a natureza, como um bebé ligado à sua mãe pelo cordão umbilical, e não em oposição ou contraposição com ela por meio da sua mente. Na Terra viviam, da terra viviam, dela nascia e brotava a vida e o sustento das suas vidas.

O mesmo acontecia com eles próprios: da mulher, qual terra fecunda, vinha a vida nova que povoava a terra. É claro que a conexão entre o ato sexual e o nascimento do bebé ainda não tinha sido estabelecida. E porquê? A inteligência do ser humano ainda não era suficientemente desenvolvida para estabelecer a relação entre uma causa e um efeito, tanto tempo depois (nove meses).

Gosto de dar como exemplo a inteligência de outros mamíferos, por exemplo, dos ratos. Se eu colocar um pó amarelo como veneno, alguns ratos vão comer esse pó e pouco depois morrem. Os outros ratos estabelecem imediatamente uma sequência de causa e efeito e, passado pouco tempo, por mais pó amarelo que eu coloque, nenhum rato morrerá porque a causa e o efeito estão muito próximos no tempo. Houve um tempo em que a nossa inteligência era tão diminuta quanto a do rato.

Mas suponhamos que colocamos como veneno para os ratos um anticoagulante do sangue; os ratos comem à vontade o veneno e nada lhes acontece, até que um dia acontece uma luta entre ratos ou algum deles se fere e sangra até morrer. Atualmente, este veneno é o mais usado para combater os ratos, porque não lhes permite estabelecer uma relação de causa e efeito.

O mesmo acontecia com os seres humanos primitivos que não estabeleciam um nexo entre a causa - o ato sexual - e o nascimento do bebé. Por esta razão, a mulher era vista como o correspondente à mãe natureza, à terra mãe: tal como do ventre da terra surgia a vida das plantas das quais dependiam os animais, também do ventre da mulher nascia a nova vida.

É certo que os homens primitivos se davam conta de que eram fisicamente mais fortes que as mulheres; mas, não ousavam levantar a mão contra elas, tal como nenhum homem ainda hoje ousa levantar a mão contra a própria mãe - este é um tabu. Observamos o mesmo nos mamíferos mais próximos de nós. Na evolução das espécies, as fêmeas que amamentam são muito agressivas contra os machos e não os deixam aproximar-se. Teoricamente esses machos venceriam a luta contra as fêmeas, mas não reagem e retiram-se por um respeito instintivo.

Uma vez que a conexão entre o nascimento das crianças e o ato sexual ainda não tinha sido estabelecida, as mulheres eram quem detinha o poder; a sua fertilidade dava vida ao indivíduo e imortalidade à tribo. Porque a mulher era a origem e fonte da vida, Deus era concebido como mulher, como mãe.

Para além do dom da reprodução e fonte de vida, como acontece ainda hoje com os mamíferos, o homem era atraído pela mulher que detinha o poder sobre o ato sexual que o homem tanto buscava, pelo prazer que lhe concedia e pela libertação da libido.

Autoconsciência e patriarcalismo
Abençoando-os, Deus disse-lhes: «Crescei, multiplicai-vos, enchei e submetei a terra. Genesis 1, 28

(…) depois, disse à mulher: «Aumentarei os sofrimentos da tua gravidez, entre dores darás à luz os filhos. Procurarás apaixonadamente o teu marido, mas ele te dominará.» A seguir, disse ao homem: «Porque atendeste à voz da tua mulher e comeste o fruto da árvore, a respeito da qual Eu te tinha ordenado: ‘Não comas dela’, maldita seja a terra por tua causa. E dela só arrancarás alimento à custa de penoso trabalho, todos os dias da tua vida. Genesis 3, 16-17

Quando o nexo entre o ato sexual e o nascimento de uma nova vida foi estabelecido, o estatuto do homem começou a ascender. O ser humano sempre formou o seu conceito de Deus com base no que valoriza e considera importante: as suas necessidades e o conceito de si mesmo. Durante algum tempo, a mulher ainda gozou um pouco do seu estatuto anterior; na verdade, deus era agora representado como um matrimónio.

A deusa/ -mãe/ -terra original passou a ser complementada por um consorte, um pai do céu. A chuva cai do céu, é o sémen divino enviado por deus-pai para engravidar a mãe terra, de modo a que a vida possa surgir.

O machismo ou patriarcalismo surgiu com a eclosão da autoconsciência: quando se quebrou o cordão umbilical entre o homem e a natureza e este deixou de viver em simbiose com aquela, passando a ver-se como distinto dela, separado dela. Assim se estabeleceu uma diferença entre o homem e o seu ambiente, a natureza, o instinto e o pensamento autorreflexivo.

Quando o ser humano nasceu como pessoa, a sobrevivência passou a ser menos uma função das capacidades reprodutivas da mulher e mais uma função da capacidade e habilidade do homem para obrigar a natureza a satisfazer as suas necessidades. A subjugação da terra correspondeu à subjugação da mulher, pois passou a ser o homem a deter o poder da reprodução. Enquanto o óvulo não foi descoberto em 1928, pensou-se que a mulher era só o recetáculo onde o homem, com o seu sémen, colocava o novo ser no ventre da mulher, o homúnculo, como lhe chamava S. Tomás de Aquino.

A história de Abraão pode ser reinterpretada neste âmbito. Abraão, um homem, deixou a sua terra, cortando os laços que o ligavam a Ur dos caldeus, por volta de 1 800 a.C. Num ato de autoafirmação e superando a necessidade de segurança, respondeu assim ao chamamento de uma divindade que também não estava a vinculada a nenhum lugar, e pôs-se a caminho do desconhecido, como que em busca de si mesmo e dessa divindade. Desde a história de Caim e Abel que se sabe como (Javé) Yahweh favorecia os pastores contra os agricultores, mais dados aos valores femininos da fertilidade.

Em toda a História da humanidade, só Jesus tratou as mulheres de igual para igual. Não temos espaço para desenvolver aqui este tema, mas os seus discípulos não entenderam nem aceitaram este talante do Mestre e depressa voltaram ao machismo do seu ambiente cultural.

S. Tomás de Aquino chegou à conclusão de que a mulher era de natureza inferior ao homem, pelo que decretou que o inferior devia servir o superior. Esta atitude ainda não mudou, não só em alguns lugares do nosso planeta, mas também em algumas mentes da civilização ocidental atual. Por isso, quando o Papa João Paulo I disse que Deus era também mãe, não deixou de escandalizar muitos católicos. O papa que lhe sucedeu levou anos a assimilar o conceito, até um dia o declarar também em público.
Pe. Jorge Amaro, IMC