15 de outubro de 2018

CNV - Justiça retributiva VS justiça reparadora

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Quando alguns homens brigarem e ferirem uma mulher grávida, e ela abortar, (…) se houver acidente fatal, darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, contusão por contusão. Êxodo 21, 22-25 - Deuteronómio 19, 16-21

Génese da justiça retributiva
Decalcada neste aspeto do código babilónico Hamurabi, a Bíblia reconhece que os atos humanos têm consequências inevitáveis. Há como que uma lei de recompensa embutida no universo que significa que as pessoas colhem o que semearam (Gálatas 6, 7). Os conceitos retributivos básicos da culpa, expiação e proporcionalidade da pena estão amplamente atestados tanto no Antigo como no Novo Testamento.

De facto, a Bíblia até termina com uma afirmação do princípio retributivo da justiça: “Eis que Eu venho em breve e trarei a recompensa para retribuir a cada um conforme as suas obras” (Apocalipse 22, 12). Portanto, a justiça bíblica é retributiva na medida em que gira à volta dos conceitos de culpabilidade moral, recompensa e o respeito pela Lei.

Seria, no entanto, um erro concluir que o conceito de justiça retributiva esgota ou engloba toda a ideia de justiça na Bíblia. Justiça no antigo Israel envolvia tudo o que fosse necessário para criar, manter e restaurar relacionamentos saudáveis no seio da comunidade.

Um ato criminoso era considerado errado, em primeiro lugar, porque violava os compromissos relacionais que mantinham a sociedade; em segundo lugar, porque os atos criminosos em si podiam conduzir a uma reação em cadeia de ruína e desastre se não fossem cerceados. Já no Antigo Testamento, mas sobretudo no Novo, os crentes são exortados a abdicar da retribuição ou retaliação, relegando-a para Deus e, no seu lugar, abraçar os princípios de perdão e reconciliação. (Mateus 5, 38-48, Romanos 12, 17-21, 1 Pedro 2, 21-23)

A justiça retributiva, tal como funciona nos nossos dias, nasceu no século XIII. Com o contrato social, dá-se a confiscação dos conflitos pelo Rei, Estado ou Lei. A partir deste momento as ofensas não são feitas a pessoas concretas de carne e osso, mas sim ao Estado por via da transgressão das suas leis. Portanto, as vítimas reais desaparecem e, no seu lugar, aparece como lesado o Estado. A vítima real poderia até perdoar, o sistema penal não perdoa porque o crime foi cometido contra um coletivo: a sociedade, o Estado.

Nos países onde existe ainda a pena de morte ou mesmo a prisão perpétua, o crime que a justiça comete é bem pior que o crime do criminoso; este, porventura, atuou sob a influência de alguma emoção forte num momento reativo, movido pelo seu cérebro reptílico mais do que pelo seu neocórtex. Pelo contrário, o crime do sistema penal é totalmente premeditado e não só por uma pessoa, mas por um elevado número de pessoas; e o que é ainda mais cruel, nefasto e bárbaro, são os anos que decorrem entre o pronunciamento da sentença de morte e a sua execução.

Com a aplicação de castigos, pretensamente proporcionais às penas, o sistema penal existe para defender a sociedade do crime, mas o que esconde verdadeiramente é que está articulado como instrumento de dominação de umas classes sobre outras; basta olhar para as nossas prisões e ver que estão cheias de pessoas que pertencem às classes mais baixas por crimes de pouca importância, quando comparáveis a gente das classes altas que cometeram crimes bem graves e vivem em liberdade.

Funcionamento da justiça retributiva
O tipo de justiça penal que se pratica em todo o planeta é a justiça retributiva que consiste em retribuir, a um delinquente ou infrator, mediante um castigo ou pena, o mal cometido a outra pessoa (vítima). Esse castigo é imposto por um legislador para compensar o dano infligido à vítima e, na maior parte dos casos, a pena é a privação da liberdade.

Para a justiça retributiva, delito é um ato individual de infração das leis do Estado; a responsabilidade deve ser assumida pelo infrator. O delito é uma questão entre o Estado e o delinquente, não se levando em conta a vítima, que verdadeiramente foi a pessoa lesada, nem as pessoas indiretamente envolvidas, nem mesmo a comunidade que, de algum modo, também foi lesada.

Na justiça retributiva só existem duas instâncias: o Estado que se apresenta e assume como sendo ao mesmo tempo vítima do crime, poder legislativo, executivo e coercivo, e o infrator que sofre as consequências da sua infração à lei.

A função do Estado é capturar o réu, acusá-lo, provar a sua culpa e aplicar-lhe uma pena adequada ao seu delito.

A função do infrator é acatar e sofrer passivamente a pena que lhe foi imposta, sem voz ativa no processo. Sem voz ativa neste processo está também a vítima, aquela que verdadeiramente sofreu o delito, assim como a sua família e também a família do infrator e a comunidade local; nenhuma destas pessoas existe no sistema penal da justiça retributiva.

O objetivo da justiça retributiva é que o infrator sofra na sua pele o dano que causou ao Estado, que seja punido conforme a gravidade do seu ato, que a sociedade seja defendida dele, privando-o da capacidade de cometer novos delitos e, por fim, que todos em geral em virtude desta punição sejam dissuadidos de cometer aquele ou iguais crimes. Esta dissuasão era a função das crucificações romanas à beira dos caminhos.

Justiça reparadora na Bíblia
Porventura me hei de comprazer com a morte do pecador - oráculo do Senhor Deus - e não com o facto de ele se converter e viver? Ezequiel 18, 23

O caráter restaurativo da justiça bíblica é já evidente ao nível macro teológico da Bíblia, desde o princípio até ao fim. Para a Bíblia, o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus; com o delito dos nossos pais Adão e Eva, perdemos a semelhança, embora retendo a imagem. O assunto único da Bíblia é a história da salvação ou redenção ou, melhor dizendo, da restauração da dignidade que o género humano possuía antes, da sua semelhança com Deus.

Como vimos na justiça retributiva, a vítima, a sua família assim como a família do infrator e a comunidade local desaparecem, ao passo que na justiça reparadora ganham protagonismo. Na história da salvação Deus é a vítima que se compromete a fazer tudo o que for necessário para restaurar a dignidade anterior da humanidade, como sugere a parábola do filho pródigo - e reparar o dano feito.

Para além da macro-história da salvação, já no Antigo Testamento encontramos elementos de justiça reparadora: em Números 5,6-7 Levítico 6, 1-7 os que ofendem devem reconhecer o erro, sentir remorso, confessar o pecado, restituir à vítima agregando uma compensação.

Antes, porém, de chegar a fé, estávamos prisioneiros da Lei, estávamos fechados, até à fé que havia de revelar-se. Deste modo, a Lei tornou-se nosso pedagogo até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. Uma vez, porém, chegado o tempo da fé, já não estamos sob o domínio do pedagogo.  Gálatas 3, 23-25

Se Caim foi vingado sete vezes, Lamec sê-lo-á setenta vezes sete (Genesis 4, 24) – O objetivo da lei é evitar a escalada descontrolada da violência. Mas não era a intenção de Deus que a lei fosse uma solução permanente; por isso mesmo, Jesus em Mateus 5, 38-48 revoga e substitui a lei de olho por olho substituindo-a por um sistema superior de perdão incondicional e amor ao inimigo, substituindo também a declaração de extrema violência de Lamec, pelo perdoar 70 vezes sete. (Mateus 18, 22)

 Estará então a Lei contra as promessas de Deus? De maneira nenhuma! Pois, se tivesse sido dada uma lei que fosse capaz de dar a vida, a justiça viria realmente pela Lei. Gálatas 3, 21

Para Paulo é Jesus que dá a vida; a retribuição e o castigo não são transmissores de vida pois só oferecem consequências negativas aos atos ofensivos, mas não têm nenhum poder para mudar os corações, para curar. A justiça reparadora, sana e cura, pois, a união com Cristo transforma-nos. A justiça retributiva não tem capacidade para nos fazer santos por isso não é, nem pode ser, o último plano de Deus. De facto, depois da vinda de Cristo continuar a guiar-se pela lei é contraproducente e só faz mal.

Eu, sem a lei, estava vivo outrora. Mas, ao chegar o mandamento, ganhou vida o pecado e eu morri. E deparei-me com isto: o mandamento que me devia levar à vida, esse mesmo levou-me à morte. É que o pecado, aproveitando-se da ocasião dada pelo mandamento, seduziu-me e deu-me a morte, por meio dele. Romanos 7, 9-11

Qualquer coisa boa pode tornar-se má; a família é supostamente um lugar onde nos sentimos seguros e amados, mas também pode ser profundamente abusiva e deixar cicatrizes devastadoras. A Religião e a Lei de, por si só, também são boas, mas, tal como a família, também podem tornar-se abusivas. Vemos esse abuso nos fariseus que Jesus confronta continuamente. Paulo era também ele um fariseu até se converter e tomar o caminho de Cristo.

Concluindo: a justiça retributiva sempre existiu; a Lei apareceu para evitar a escalada da violência. No entanto, como Paulo nos diz, a Lei era só um pedagogo; o plano definitivo de Deus é a justiça reparadora em Cristo. Jesus não acusa nem condena, restaura a saúde espiritual, moral e física das pessoas que vai encontrando no caminho; assim faz com Zaqueu, a pecadora apanhada em adultério, o paralítico, os leprosos, etc.

Como funciona a justiça restaurativa
O livro de Howard Zehr, intitulado “A new focus for crime and justice” de 1990, é considerado como sendo o primeiro a articular de uma forma sistemática esta teoria. É certo que o conceito vem de trás e, como Zehr reconhece, devido crédito deve ser dado à prática da justiça nas tribos indígenas do Canadá, Estados Unidos e Nova Zelândia.

O sistema penal não resolve nenhum problema e cria outros, enche as prisões de pessoas, cria marginais e “personas non gratas” na sociedade que tarde ou cedo voltam a transgredir. O sistema penal é um sistema que produz muito mais dor e sofrimento que a violência que pretende combater. A vingança não é justiça e a punição do infrator, por mais dura que seja, não traz nenhuma satisfação à vítima; impor a dor a outra pessoa não faz desaparecer a nossa dor, nem a diminui.

Para a justiça reparadora, delito é toda a ação que causa dano a uma pessoa. É um conflito interpessoal e, mais que uma transgressão às leis, é um malefício causado à vítima e à comunidade em geral. Se o delito tiver sido cometido contra a comunidade e uma pessoa concreta no seio dessa comunidade e não contra uma entidade abstrata como é o Estado, é na comunidade que o problema deve ser resolvido. Como diz o povo, “A roupa suja lava-se em casa, não fora”.

O lugar onde se aplica a justiça retributiva é o tribunal e a prisão; para a justiça reparadora, o lugar é o centro comunitário onde o infrator, a sua família e amigos se encontram com a vítima, com a família e amigos desta e com outras pessoas relevantes da comunidade à qual ambos pertencem. Curiosamente, nos lugares de aplicação da pena de morte estes encontros também se dão, quando os familiares da vítima vão assistir à macabra liturgia da execução do criminoso, mas são bem diferentes e bem tristes…

Os encontros da justiça reparadora são voluntários, devem decorrer no respeito mútuo, em clima de honestidade e humildade. O mediador ou facilitador deve encontrar-se com as partes em separado para preparar o encontro.

A justiça reparadora visa ajudar na recuperação da vítima e reintegrar o infrator na sociedade, tendo em conta a participação e mediação da comunidade. Como ferramenta, usa-se o diálogo e o encontro entre as partes direta ou indiretamente envolvidas. Para a justiça retributiva só havia duas instâncias: o Estado e o infrator. Para a justiça reparadora as instâncias são três: a vítima, o infrator e a comunidade.

A vítima – O Estado deixa de usurpar o papel da vítima; esta volta a ter protagonismo, expressa as dores que lhe ocasionaram o delito, procura que o dano seja reparado e que não volte a acontecer. Tem a palavra a vítima, a pessoa que verdadeiramente sofreu, foi lesada e está ainda em sofrimento. O Estado não foi ofendido e não sofreu realmente, pois a dor não se pode delegar. A vítima explica, face a face, como o crime afetou a sua vida e mostra o dano que causou.

A finalidade é reparar o mal feito, dando voz à vítima que expressa os seus sentimentos e as suas necessidades, levando o infrator a reconhecer o mal e a fazer algo pela vítima, de forma a não voltar a ofender. O objetivo é conseguir a reconciliação e especificar o que o transgressor deve fazer para recompensar a vítima.

Vejamos como funciona o papel da vítima no contexto da justiça reparadora no exemplo que se segue.
Uma criança cheira mal na escola e por isso é vítima de “bullying” por parte dos seus colegas. No âmbito da justiça retributiva, estes colegas vão ser punidos, o que provavelmente nada vai resolver e, passado algum tempo, estes voltam a reincidir ou outros fazem-no no seu lugar.

Ao contrário, no âmbito da justiça reparadora, o “bully” e a sua vítima, além de outras pessoas das respetivas famílias e da escola, assim como líderes da comunidade, vão ser convocados para uma reunião. O transgressor fica a saber a razão pela qual a sua vítima cheira mal; é um menino pobre, de um bairro de lata, não tem eletricidade nem água corrente em casa.

O infrator e a sua família vão ter uma compreensão mais profunda do problema que está por trás daquela situação de conflito, e desta reunião pode sair a possibilidade de mobilizar as forças sociais para procurar uma solução, na raiz do problema. No âmbito da justiça retributiva não chegaríamos tão longe: ela não resolve nada e pode criar mais problemas, como fazer aumentar a violência se tiver havido exagero, na aplicação da punição.

O infrator - Entende a vítima, reconcilia-se com esta e repara o dano. O réu fica a saber o impacto real da sua ação, coisa que não acontece na justiça retributiva. Assim, mais facilmente é responsabilizado, coisa que raramente acontece no sistema retributivo, onde procura provar a sua inocência ou fugir à justiça.

A justiça reparadora deposita grande esperança no encontro entre a vítima e o infrator. Um crime é sempre um encontro desumano e desumanizante entre duas pessoas, uma vez que estas se encontram superficialmente descontextualizadas. O encontro procura colocar as pessoas no seu ambiente vital com as suas relações. Vejamos no seguinte exemplo como o infrator pode mudar ante um conhecimento mais profundo da sua vítima e de como o seu crime tocou negativamente a vida de muitas pessoas.

Um jovem que mata um taxista e é julgado no contexto da justiça retributiva, nunca chega a conhecer a vítima e o seu ambiente, apenas vai ser punido e mais nada. Pelo contrário, na justiça reparadora ele conhece melhor a dimensão do seu crime: na verdade, ele matou um taxista que era casado e que deixa uma viúva sozinha a criar 8 filhos. A perceção clara do sofrimento que o criminoso causou tem um efeito interno de transformação, já que apela obrigatoriamente à sua compaixão, à humanidade que decerto deve possuir.

Ao contrário da justiça retributiva, pela qual ele nem sabia a magnitude do sofrimento causado nem lhe era pedido que reparasse os danos, na justiça reparadora, pode participar ativamente ajudando a resolver o problema que o seu ato criou e até mesmo mudar a sua vida neste processo. No âmbito da justiça retributiva, ficaria na prisão matutando no que correu mal, no âmbito da execução do crime que ele tinha idealizado como perfeito, como se deixou apanhar ou o que podia ter feito para fugir à justiça.

A comunidade – Acompanha, facilita o processo e vela pelo cumprimento das condições pactuadas entre o réu e a vítima. Na justiça retributiva, o Estado usurpa o papel da vítima e da comunidade, só ele atua, só ele tem papel ativo na solução do problema. Na justiça reparadora, o problema é resolvido onde surgiu e pelos que o criaram e junto dos que o sofreram. No diálogo entre as partes, a comunidade é mediadora na reconciliação e facilita o processo.

Em conclusão, na justiça retributiva o Estado assume o papel de vítima abstrata e pune o infrator. Na justiça reparadora interagem a vítima, que expõe a sua dor e os danos causados, o infrator, que se apercebe da magnitude do seu ato e se compromete a repará-lo, e a comunidade, que arbitra, medeia e facilita esta relação que é reparadora tanto para a vítima como para o infrator.

Um filme chamado Conversas
O facilitador mediante duas reuniões prévias, com cada uma das partes, consegue acordar que a família da vítima e a família do criminoso se encontrem numa reunião. Baseado numa história real, o filme relata que um individuo viola e mata uma rapariga enquanto se encontrava em liberdade condicional. O criminoso está na prisão a cumprir pena, mas envia à reunião um vídeo no qual pede perdão pelo crime e diz que não tinha intenção de matar a vítima, garantindo que a tinha deixado viva; só que se excedeu na violência sexual e ela acabou por morrer.

- Nos diálogos, o mais importante é como a culpa se vai diluindo e repartindo tanto pela família do criminoso como pela da vítima. A mãe do criminoso sente-se culpada por ter sido muito condescendente na educação do filho que era o preferido dela; o irmão confessa que podia tê-lo ajudado e que tentou falar com a vítima para a avisar; mas esta, pensando que ele queria conquistá-la, lançou-lhe um olhar de desdém; o irmão, sentindo-se ferido pelo olhar, desistiu de a avisar do perigo.

O pai da vítima confessou que a filha tinha herdado o snobismo dele e que; não lhe tinha dado a tempo um dispositivo de segurança que há muito havia prometido à filha que já tinha passado por outros episódios de perigo de violação. O tio materno do criminoso despedira-o do emprego e tinha dado a entender que a violência às vezes faz parte do sexo; a psicoterapeuta do criminoso, acreditou ingenuamente nele e admitiu até alguma atração por ele. As duas famílias acabaram reconciliadas, pois ambas sofreram com o crime e todos aceitaram uma parte da culpa.

Na sua vida de psicoterapeuta, Rosenberg dá conta do sucesso da utilização da filosofia da CNV no âmbito da justiça reparadora, num caso semelhante ao do filme Conversas, que colocou frente a frente um pai e a sua filha por ele violada.

1ª etapa - Rosenberg inicia a sua mediação pedindo à filha para dizer ao pai como a sua vida foi afetada pelo facto. Esta, sem formação em CNV, acusa o pai pelo que ele fez:
- Como foste capaz de o fazer, tu, o meu próprio pai, destruíste-me a minha vida! Devias apodrecer na cadeia.

Neste momento o processo requer que o pai sinta empatia pela filha. O normal é que ele peça desculpa, mas em CNV não há pedidos de desculpa e sim, um processo de luto. Quando, com a ajuda do facilitador ou mediador, o pai consegue sentir empatia pela filha e pela sua dor, sente uma grande tristeza.

2ª etapa – O pai entra agora num processo de luto que é muito mais importante que o pedido formal de desculpas.

3ª etapa – É a vez do pai expor à filha o que se passava com ele a nível de necessidades e sentimentos, e como aquele ato foi uma forma inadequada e cruel de procurar a satisfação das suas necessidades - uma satisfação egoísta que só teve em conta as suas necessidades e não as do outro.

O objetivo desta etapa é levar a vítima a chegar a sentir empatia com o autor do crime. Não é fácil, neste caso, a filha sentir empatia pelo pai, mas quando acontece dá-se a cura sem necessidade de pedir perdão nem conceder perdão. A empatia, por si mesma, tem o poder de sarar tanto o autor do crime com a sua vítima.

Sempre que o agressor consegue sentir empatia pela vítima e a vítima consegue sentir empatia pelo agressor, o perdão é automático. Pelo contrário, se não há nenhuma empatia entre as partes, o infrator pode até mesmo pedir perdão e a vítima concedê-lo, mas será uma mera formalidade, não um perdão real pois não surge do coração. Não haverá cura sem perdão real e vice-versa; os dois só podem acontecer por meio da empatia.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de outubro de 2018

CNV - Uma nova relação com Deus

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Aquele que não ama não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor. 1 João 4, 8

Escuta, Israel! O Senhor é nosso Deus; o Senhor é único! Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Estes mandamentos que hoje te imponho estarão no teu coração.

Repeti-los-ás aos teus filhos e refletirás sobre eles, tanto sentado em tua casa, como ao caminhar, ao deitar ou ao levantar. Atá-los-ás, como símbolo, no teu braço e usá-los-ás como filactérias entre os teus olhos. Escrevê-los-ás sobre as ombreiras da tua casa e nas tuas portas.» Deuteronómio 6, 4-8

A matriz da não violência
Quando abrimos um computador, vemos que todos os seus componentes assentam numa placa que é chamada placa-mãe (mother board). A memória física ou disco duro, a memória operativa ou RAM, o processador, as placas de som e de vídeo desempenham a sua função e a função no conjunto dos outros componentes na medida em que estão ligados à placa-mãe. Uma mudança da placa-mãe inutiliza todos os outros componentes, por não se adaptarem à nova placa. A placa-mãe de um PC é diferente da placa-mãe de um Macintosh.

Acreditamos que a Comunicação não violenta é uma nova placa-mãe para o mundo e sociedade em geral, uma nova ordem social. Sobre esta nova matriz assenta um novo direito, uma nova ética, uma nova forma de educar, uma nova forma de relacionamento connosco mesmos, com os outros e com o nosso planeta. Estamos em crer que nesta mesma matriz também assenta uma nova religião ou seja uma nova forma de relacionamento com Deus.

À semelhança da teoria dos cristãos anónimos, de Karl Rhaner, temos vindo a descobrir que muitos saberes, mesmo sem conhecer esta nova matriz, se deram conta por si mesmos que operavam inadequadamente sob o princípio da violência. Dentro do Direito há quem questione a justiça retributiva e queira substituí-la pela justiça restaurativa; em filosofia, já Sócrates via a doutrinação como uma forma violenta de educar pelo que a substituiu pela maiêutica - arte de ajudar a dar à luz. Tanto no serviço social como em psicoterapia, o assistente social ou o psicoterapeuta não trata de ensinar, mas sim de ajudar o outro a descobrir em si mesmo e / ou por si mesmo a sabedoria necessária para a resolução dos seus problemas. O que descobrimos por nós próprios é mais eficaz para a nossa vida que o que os outros descobrem por nós.

De uma forma semelhante, Carl Rogers, antepõe a sua psicoterapia não diretiva à diretiva e portanto violenta, entendendo que a solução dos problemas de cada um está em cada um; a ética questiona o princípio da guerra justa e acredita que pode haver um mundo para além do bem e do mal; por outro lado, já não se fala de uma moral heterónoma, baseada em princípios e regras morais estabelecidos por alguém para todos, mas sim de uma moral autónoma, baseada no primado da consciência moral, bem formada e informada, por cima de qualquer outra instância. Paulo Freire acredita num método semelhante à maiêutica para alfabetizar os camponeses, enquanto que Teilhard de Chardin e Walter Wink acreditam numa nova forma de relacionamento com Deus, numa nova religião.

Religião ou revelação
Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna. João 3, 16

É nisto que está o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele mesmo que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados. 1 João 4, 10

O cristianismo não é uma religião porque religião, da palavra “religare”, refere-se ao esforço, às obras e liturgias que o ser humano realiza para se relacionar com esse ser superior e omnipotente para obter a seu favor e para que Ele tome o seu partido contra os seus inimigos. O cristianismo é uma revelação na medida em que o pontapé de saída é dado pelo mesmo Deus que, por ser amor, nos amou primeiro; a iniciativa foi, portanto, de Deus que nos amou ao ponto de nos enviar o Seu Filho. Seguindo a mesma filosofia, Jesus escolhe os seus discípulos, não é escolhido por eles (João 15, 16).

Ao contrário do judaísmo que é negativo, com mandamentos que só nos dizem o que não devemos fazer, o cristianismo é positivo pois baseia-se no mandamento do amor. O judaísmo é evitar o mal, o cristianismo é fazer o bem. Ninguém é bom só porque evita o mal, de facto a iniciativa humana no judaísmo, e em todas as religiões, baseia-se na famosa regra de ouro da qual todas as crenças neste planeta têm uma versão: “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti”.

A regra de ouro cristã, porém, é positiva: «Portanto, o que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles, porque, isto é, a Lei e os Profetas.» Mateus 7, 12. O cristianismo é a “religião” da iniciativa; não esperamos que o outro venha até nós, vamos nós ao outro, movidos pela única intenção de o amar.

“Amor com amor se paga” – Ou dito no contexto da filosofia da CNV a compaixão que usamos connosco mesmos e com os outros produz no outro a compaixão que ele, por sua vez, usará consigo mesmo e connosco; desta forma se constitui um círculo progressivamente mais abrangente, como os círculos concêntricos formados pela água quando uma pedra cai no meio de um lago. Se, como dizem, o riso é contagiante, o amor é ainda muito mais contagiante.

Cristianismo – Não - Violento
As iniciais CNV tanto podem significar Comunicação Não Violenta como Cristianismo Não Violento. O cristianismo é, de facto, não violento, na sua essência e na sua origem histórica. Ninguém pode negar que o conceito de não-violência ativa tem a sua origem na doutrina e na praxis de Jesus de Nazaré. É certo que nem sempre o cristianismo foi não violento ao longo dos seus dois milénios de história; não podemos esconder realidades como as Cruzadas e o seu conceito de guerra justa, nem como a Inquisição ou a forma violenta de impor e proteger a verdadeira doutrina.

Historicamente, o cristianismo não seguiu as passadas do seu Mestre e Fundador, Jesus de Nazaré, nem na sua vertente humana nem no seu evangelho; sobretudo depois do imperador Constantino, a Igreja, aliada ao poder, seguiu o mito do poder, o mito babilónico. Em muitas ocasiões era este o seu evangelho e se de alguma forma seguia o outro, o de Cristo, lia-o à luz do mito babilónico.

Mas não foi assim no princípio, com Jesus de Nazaré, e até ao século V. Jesus, de facto, foi o primeiro ser humano a enfrentar o mito babilónico da violência redentora e provou com a sua própria morte que a violência não é querida por Deus; a violência não só não redime, mas transforma-se em círculo vicioso, que se move como um furacão, criando mais violência, crescendo em espiral e exponencialmente com cada ato de violência praticado.

Com a sua morte, Jesus provou que só a não violência é redentora. Por isso, Jesus, fundador do cristianismo, é também fundador da não violência. Já tivemos ocasião de expor as ideias da não violência ativa de Jesus, um termo que muitos pensariam criado por Gandhi, aquele que conseguiu a independência da Índia por meios não violentos; segundo Martin Luther King, Gandhi, não criou o conceito da não violência, mas foi a primeira pessoa na História a elevar e levar o amor ético de Jesus para além da interação entre indivíduos, constituindo-o como uma poderosa e efetiva força social em larga escala.

Gandhi até dizia, “Toda a gente sabe que Jesus era não violento, só os cristãos é que não”. Não se trata de uma crítica sarcástica aos cristãos, é bem verdade; os cristãos, de facto, nunca deram importância à não violência de Jesus e eles mesmos se riram do dar a outra face, interpretando esse dito como idealismo utópico inocente e ingénuo. - O próprio Gandhi decerto se referia a Jesus, quando falando da causa da independência da Índia dizia: “Nesta causa, também estou preparado para morrer, mas não há nenhum motivo pelo qual esteja preparado para matar”.

Jesus e o templo de Jerusalém
(…) fazendo um chicote de cordas, expulsou-os a todos do templo com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas dos cambistas pelo chão e derrubou-lhes as mesas; e aos que vendiam pombas, disse-lhes: «Tirai isso daqui. Não façais da Casa de meu Pai um covil de ladrões.» João 2 15-16

Jesus entrou em Jerusalém “ridiculamente”, poderíamos dizer, montado num burro (Lucas 19, 28-40) animal da paz e dos pobres, pois serve para a carga de coisas para ir ao mercado. Ainda hoje, na Etiópia, o cavalo é o animal da guerra e dos ricos, pois só serve para ostentação e guerra. - Se calhar as pessoas riram-se porque alguém que pretendia ser rei montava num jumento e não num cavalo… mas com isto Jesus riu-se da violência e dos sistemas de governo, não teve medo nem vergonha de ser aclamado rei montado num burro.

Muito se tem escrito sobre a expulsão dos vendilhões do Templo, pela qual, alguns se atrevem a dizer que afinal Jesus também era violento. Primeiro, é preciso notar que o evangelho menos histórico de todos é precisamente o de S. João; neste caso, os evangelistas sinóticos Marcos, Mateus e Lucas não mencionam nenhum chicote.

Quanto ao evangelho de João acima citado, o problema começou pela tradução errada que S. Jerónimo fez do original grego. “Todos” refere-se segundo o original grego aos bois e ovelhas que Jesus expulsou com o chicote e não aos vendedores. Assim sendo, o texto deveria dizer “Fez um chicote de cordas e expulsou todos os bois e ovelhas do templo”; de facto, quando chegou junto dos vendedores de pombas, não as expulsou da mesma forma usando o chicote, mas dizendo aos seus donos “tirem isto daqui”. De nada teria valido a lição dada ao entrar em Jerusalém montado num jumento em vez de um cavalo, se Jesus tivesse usado o chicote nas pessoas em vez de o ter usado nos animais.

É certo que Jesus estava zangado, mas não atuou violentamente. A sua ira, nesta ocasião como em outras, era justa e justificada; neste caso, para defender a verdadeira religião, noutros casos, para defender os pobres, as viúvas, os doentes e os indigentes em geral, contra os que se aproveitavam deles. Ao contrário da nossa ira, que exibimos quando os nossos interesses estão em causa, Jesus nunca se zangou, nem fez nada em proveito próprio.

O seu gesto foi profético, ao estilo dos profetas do antigo testamento que nunca se cansaram de repetir que o que Deus quer é amor, misericórdia e compaixão e não sacrifícios (Oseias 6, 6). Como muitos profetas antes dele, Jesus questionou e opôs-se a todo o sistema sacrificial violento. A religião, ou relação, que Jesus vem estabelecer é aquela relação de amor que havia entre o povo e Deus durante a travessia do deserto.

Jesus diz à Samaritana (João 4, 1-42) que a Deus não se adora, nem em Jerusalém, nem no monte Gerazim, mas em toda a parte pois Deus é espírito e a única condição é estar na verdade. Jesus no templo realizou um ato simbólico para convidar os crentes a cessar de cooperar com o sistema sacrificial, pois este absolvia ou isentava os fiéis de se converterem nas suas mentes e corações.

Por outro lado, de facto os sacrifícios tinham sido transformados num negócio vergonhoso e corrupto nos templos dos sumos sacerdotes Anás e Caifás; estes, como possuíam extensos rebanhos, instruíam os guardas do templo a inspecionar e rejeitar os animais para o sacrifício que não fossem comprados no próprio tempo. Deste modo, o povo não podia oferecer os seus animais pois os inspetores sempre encontravam neles defeitos e os declaravam impróprios para um sacrifício a Deus.

O nomadismo antigo, do povo de Israel, era propício a uma espiritualidade nómada, ou seja, em não arranjar falsas seguranças e em depender sempre de Deus. Foi este tipo de espiritualidade que inspirou o povo durante os anos da travessia do deserto rumo à Terra Prometida. Jesus no seu “modus vivendi” voltou a esses tempos: - de facto foi um nómada, nunca se estabeleceu, não tinha onde reclinar a cabeça (Lucas 9, 58).

O sedentarismo leva a criar estruturas de poder e a usar a religião como justificadora ou mentora espiritual dessas mesmas estruturas. Deus, que antes era espírito, foi encerrado num Templo e a Ele só acediam os sacerdotes, só eles tinham a chave, estabeleciam-se como intermediários entre Deus e os homens, vendendo bem cara a salvação ao povo.

Desta patranha já se tinham dado conta os Essénios que romperam com o judaísmo porque o consideravam corrupto e constituíram uma comunidade nas margens do Mar Morto; nesta comunidade, a salvação obtinha-se através da conversão de vida pela purificação física e ritual, por meio de água, símbolo de uma purificação espiritual.

O movimento Essénio era elitista, a salvação era para uns poucos; o que João Batista fez foi democratizar a salvação, trazendo-a para fora da comunidade de Qumram e colocando-a ao alcance de todos, por intermédio de um batismo nas águas do rio Jordão, para simbolizar uma purificação e conversão da mente e do coração. Sendo ele filho de um sacerdote e, portanto, também sacerdote, rebelou-se contra o Templo ao oferecer num batismo de água gratuito o mesmo perdão dos pecados que em Jerusalém ficava bem caro, com a compra de animais para os sacrifícios.

Por fim Jesus, que num princípio segue as passadas de João Batista - de facto até o vemos a jusante do rio a batizar ao mesmo tempo que João, (João 3, 22-26) - ao contrário deste e sobretudo depois da morte deste, Jesus leva a salvação pelas vilas e aldeias, pela imposição das mãos. A religião de Jesus é uma religião de rua e não de templos, nem de sinagogas, nem de igrejas, nem de lugares específicos como João no rio Jordão, pois estes rapidamente se estabelecem como estruturas de poder. A salvação é oferecida onde quer que os homens vivem e dela precisam.

No momento em que Jesus estava a morrer no alto da cruz, mais de três mil cordeiros e cabritos estavam a ser imolados no templo; depois do sacrifício de Jesus acabaram os sacrifícios do templo, pois o véu deste foi rasgado à mesma hora da morte do Senhor e o templo, que no tempo de Jesus tinha apenas sido reconstruído por Herodes e estava no seu apogeu de beleza e esplendor, (Marcos 15, 38) foi arrasado pelos romanos e até hoje nunca foi reconstruído.

A palavra “Guadalupe” significa “aquela que esmaga a serpente”, uma referência ao deus Quetzalcoatl ou serpente de pedra, ao qual as astecas costumavam oferecer sacrifícios humanos. Em 1487, devido à dedicação de um novo templo em Tenochtilan, cerca de 80.000 cativos foram imolados em sacrifícios numa só cerimónia que durou quatro dias. Curiosamente, com a chegada do cristianismo também ali se acabaram os sacrifícios humanos.

Uma religião sem sacrifícios
A CNV opõe-se à teologia, filosofia e psicologia do sacrificar-se e sacrificar as próprias necessidades pelos outros. Entende que faz parte da ideologia dos poderes instituídos da redenção pela violência; neste caso, a violência contra si mesmo. O supremo sacrifício de um homem pelo seu país, pela sua pátria, pela sua bandeira, ou pelo seu rei, o autossacrifício de uma mulher como esposa para satisfazer as necessidades do marido, ou como mãe para satisfazer as dos filhos, perpetua o mito da violência redentora que diz que a violência é necessitaria para atingir o bem.

Toda a ação realizada por motivos de dever, obrigação, vergonha, culpa, para comprar amor ou popularidade, por nos sentirmos responsáveis pela felicidade do outro, vai contra a filosofia da CNV. Tudo o que façamos por alguma destas razões tem um preço muito alto a pagar, tanto pelo autor da ação como pelo recetor da mesma.

Por favor, faz o que te peço somente se o podes fazer com a mesma alegria com que uma criança deita migalhas de pão aos patos esfomeados do lago. Marshall Rosenberg

Nunca dês nada a ninguém a não ser do fundo do coração. Marshall Rosenberg

Em CNV, o que quer que façamos, fazemo-lo gratuitamente, não fazemos devedores quando damos nem ficamos em dívida quando recebemos; o que quer que façamos, fazemo-lo por amor e pela alegria que sentimos ao contribuir para a nossa e para a felicidade dos outros; o que fazemos fazemo-lo para tornar a nossa e a vida dos outros mais maravilhosa; o que fazemos fazemo-lo por puro gosto, porque satisfaz as nossas necessidade s e as necessidades dos outros que também são nossas. Em CNV, não há nenhum motivo extrínseco em tudo o que fazemos.

Ninguém me tira a vida, sou eu que a dou de livre vontade. João 10, 18
Ninguém tem maior amor que aquele que dá a vida pelos seus amigos João 15, 13

Como para Jesus, o que é verdadeiramente redentor é a não violência, e como era contra o Templo e os seus sacrifícios, acreditamos que fosse também contrário à ideia do autossacrifício. A ideia de sacrificar-se por algo, vai ao encontro da “Violência Redentora”, ideologia dos poderes instituídos, e faz do cristianismo uma religião tão violenta como o Judaísmo que o precedeu. Esta pode ser a forma como os poderes instituídos conceptualizam o cristianismo e muitos cristãos entendem a sua fé e interpretam a morte de Jesus, mas não é certamente a religião que Jesus criou nem a forma como ele mesmo interpretou a sua morte.

Primeiro, como diz o evangelho acima citado, Jesus morreu de livre vontade, não porque estivesse destinado por Deus Pai nem porque as circunstâncias da vida que viveu o levaram à morte. Segundo, em plena concordância com os princípios da CNV, ele morreu por nós não porque fosse o seu destino e necessário que o fizesse, mas porque nos amava. Terceiro, para a CNV, necessidades, valores e ideais, são uma e a mesma coisa; por isso, morrendo por nós, Jesus estava a satisfazer a sua necessidade de amor por cada um de nós e pela humanidade como um todo.

Ama o próximo como a ti mesmo. Levítico 19,18
Aparentemente, este mandamento é só acerca do amor pelo nosso próximo. Porém, quando nos detemos a analisá-lo e nos damos conta de que a medida com que devo amar o meu próximo, é a minha autoestima, ou seja o amor que tenho a mim mesmo, tenho de concluir que este mandamento não só implica que devo amar-me a mim mesmo, mas também que primeiro devo amar-me a mim mesmo e só depois o próximo, da mesma forma como me amo a mim.

Para a CNV, o nosso mundo é abundante, e há nele suficientes recursos para que todos possam satisfazer as suas necessidades, pelo que nunca temos que abdicar das nossas necessidades para que outros possam satisfazer as suas. No caso de alguma vez as minhas necessidades estarem em conflito com as necessidades de outrém, a natureza inspirará estratégias para que as necessidades de ambos sejam satisfeitas.

Religião baseada no amor, não em prémios nem em castigos
No me mueve, mi Dios, para quererte
el cielo que me tienes prometido,
ni me mueve el infierno tan temido
para dejar por eso de ofenderte.

Tú me mueves, Señor, muéveme el verte
clavado en una cruz y escarnecido,
muéveme el ver tu cuerpo tan herido,
muéveme tus afrentas y tu muerte.

Muéveme, en fin, tu amor, y en tal manera
que, aunque no hubiera cielo yo te amara
y aunque no hubiera infierno, te temiera.

No me tienes que dar porque te quiera,
pues, aunque lo que espero no esperara,
lo mismo que te quiero te quisiera.

Não me move meu Deus para querer-te
O Céu que me tens prometido,
Nem me move o inferno tão temido
Para deixar por isso de ofender-te.

Tu me moves, Senhor, move-me o ver-te
Cravado numa cruz escarnecido,
Move-me o ver o teu corpo tão ferido
Movem-me as tuas afrontas e a tua morte

Move-me, enfim, o teu amor, de tal maneira
Que, ainda que não houvesse Céu eu te amaria
E ainda que não houvesse Inferno eu te temeria

Nada me tens que dar para que te queira
pois, ainda que o que espero não esperasse
o mesmo que te quero te quereria
Soneto ao Cristo crucificado por um poeta anónimo espanhol do século XVI

Como aprendemos em CNV, tudo o que fazemos motivado pelo medo de um castigo ou na esperança de um prémio é violento.

Este soneto, de um autor anónimo espanhol do século XVI, revela que já nesse século havia gente que pensava que a verdadeira religião, ou seja, a relação com Deus, não devia ser motivada pela ânsia de ganhar o Céu, nem pelo medo de ir para o Inferno.

A salvação acontece pela fé e não pelas obras. Uma vez que somos salvos pela fé, o Céu já está “ipso facto” garantido, não temos que o ganhar; por isso o que quer que façamos de boas obras é responder com amor e por amor a quem nos amou primeiro. S. Paulo já tinha intuído que o cristianismo é graça pura e incondicional, mas, nos séculos que se seguiram, a Igreja Católica enterrou esta teologia e instaurou a teologia violenta da salvação pelas obras e pela compra de indulgências plenárias.

Tal como para a não violência, foi preciso vir um Gandhi, para nos fazer olhar para as nossas raízes não violentas; também neste caso foi preciso um Martinho Lutero e um cisma na Igreja para nos reconciliar com a teologia paulina da salvação gratuita pela fé e não pelas obras.

Para este poeta cristão do século XVI, o que o comove, o móbil do seu amor por Jesus não é um amor interesseiro, do tipo “dou-te um chouriço para tu me dares um porco”, é um amor livre, é a resposta ao que me amou primeiro e se entregou por mim; não é o medo do inferno, nem a ânsia do Céu, porque ainda que estes não existissem o seu amor subsistiria, porque é um amor movido pela compaixão e pela empatia, conceitos tão caros à CNV.

O soneto, mais famoso de toda a literatura espanhola, tido também como o “ex libris” da Contra- Reforma, ironicamente aceitando o postulado da salvação pela fé, é tido e é de facto um encontro do amor de Deus manifestado na paixão, pois ninguém tem maior amor que aquele que dá a vida pelos seus amigos (João 15, 13). É um amor incondicional, pois Jesus deu a vida por todos nós enquanto ainda éramos pecadores (Romanos 5, 8). É a resposta do amor humano, também incondicional, sem a “contaminação” do Céu ou do Inferno.

Sem dúvida todo o amor pressupõe uma esperança, ou melhor, um propósito. O amor, mesmo entendido como sentimento, como acontece no banquete de Platão, é também ali um meio (na voz de Sócrates) para alcançar o bem absoluto e superar o estado de orfandade, pelo facto de o ser humano ser, em si mesmo, incompleto.

O amor de Deus, no entanto, não tem começo nem tem fim, é completamente gratuito. O soneto anónimo faz tábua rasa de toda a expectativa. Diz a Cristo que o seu amor não é guiado por qualquer interesse de recompensa ou medo de punição do inferno. O amor humano é inspirado pelo sofrimento de Cristo. Portanto, o amor absoluto de Deus tem a capacidade de gerar um amor semelhante em nós.

É certo que o poeta acredita e não nega a sua fé na vida depois da morte, mas insiste mais de uma vez no poema, em manifestar o seu amor livre de qualquer expectativa ou retribuição, eximindo Deus de toda a obrigação e até de bênçãos ou prosperidade que lhe possa conceder na sua vida terrena. O poeta vive de amor e por amor, nada tem a pedir nem para esta vida nem para a outra.

A salvação pela fé não pelas obras
Amor com amor se paga
Deus é amor por isso tudo o que Ele faz é amar; criou-nos por amor e quando andávamos perdidos por amor nos salvou, enviando-nos o seu filho único (João 13, 16). O amor que Deus nos tem não pode ser retribuído por boas obras ou bom comportamento. - Deus criou-nos e salvou-nos gratuita e incondicionalmente, sem querer nada em troca. Por isso, nada temos de fazer para ser salvos, porque nada que pudéssemos fazer nos conseguiria a salvação; pelos nossos próprios esforços a salvação não seria possível e, por ser impossível, Deus veio até nós para nos dar uma mão. Só podemos ir a Deus pelo filho (João 14, 6) e sem Ele nada podemos fazer. (João 15, 5)

Ama e faz o que queres – disse Stº Agostinho; só poderemos pagar o amor de Deus com amor, não com boas obras ou bom comportamento. Boas obras e bom comportamento são certamente o resultado natural do nosso amor por Deus. Mas não são impostas, motivadas por uma vontade de ferro repressiva das nossas necessidades, para obedecer aos mandamentos de Deus e entrar no Céu ou evitar o Inferno.

Frequentemente em sermões gosto de provocar as pessoas para as fazer pensar, dizendo que Deus só ama os que o amam. Imediatamente ouço uma reação de protestos que dizem que Deus ama a todos incondicionalmente, tanto o santo como o pecador. Faz o sol nascer sobre o bom e sobre o mau e envia a chuva para o justo e para o injusto (Mateus 5, 45)

Após a esperada reação eu digo que em teoria é assim, Deus ama a todos incondicionalmente, mas na prática, na realidade, só ama os que O amam. Só quando nos fazemos eco do amor de Deus é que sentimos os efeitos do Seu amor. Fazer-se eco do amor de Deus é amá-lo. Pelo contrário, se voltamos as costas a Deus, ou seja, se não O amarmos, Deus não pode impor-nos o seu amor; por isso, não amar a Deus significa não acolher nem aceitar o seu amor, pelo que não sentimos o seu efeito nas nossas vidas. Amar a Deus é aceitar o Seu amor; não amar a Deus é rejeitar o Seu amor.

A luz e o calor do Sol antes de chegarem até nós, cruzam o espaço sem o iluminar nem aquecer; de facto o espaço é negro e a temperatura são 300 graus negativos. Isto acontece porque o espaço é vazio, nada há nele nada que absorva ou reflita a luz e o calor do Sol. O nosso satélite, a lua, é um astro, um corpo celeste que no vazio do espaço absorve e reflete a luz e o calor do Sol, por isso tem uma temperatura de 300 graus positivos. A da Terra não é tão alta porque está protegida pela atmosfera. O mesmo acontece com o amor de Deus só quem o recebe e reflete o pode absorver. Amor com amor se paga.

 Isto mesmo é gratuitidade, o coração da filosofia da CNV. Recordemos a respeito as máximas de Rosenberg: “Não faças nem dês nada a ninguém a não ser que o dês e faças do fundo do coração”, “faz o que te peço somente se o consegues fazer como a mesma alegria com que uma criança deita migalhas de pão aos patos”.  - Não faças nada movido por motivações extrínsecas, como o dever, a obrigação, o medo, a culpa, a vergonha, a raiva; para comprar o amor dos outros ou o Céu; por medo do Inferno ou de ser castigado; ou porque te sentes responsável pela felicidade do outro.

Recebeste de graça, dai de graça, Mateus 10, 8 - Deus não nos deu, para nos fazer devedores; recebemos Dele gratuitamente e gratuitamente Lhe damos o nosso amor.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de setembro de 2018

CNV - Ecologia, uma nova relação com a Terra

Sem comentários:
Abençoando-os, Deus disse-lhes: «Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se movem na terra.» Deus disse: «Também vos dou todas as ervas com semente que existem à superfície da terra, assim como todas as árvores de fruto com semente, para que vos sirvam de alimento. Génesis 1, 28-29

O criador e o administrador da criação
Muitos ecologistas como Lynn White, (em “A raiz histórica da nossa crise ecológica”), culpam a Bíblia e, através dela, a religião por terem sido as mentoras e as madrinhas do domínio e exploração desenfreada da Terra. Para nós, estudantes da CNV, esta acusação é inaceitável pois, no mito bíblico da criação, a violência aparece à posteriori como um problema, não foi querida nem criada por Deus.

A justificação da violência à direita e à esquerda com tudo e com todos vem do mito babilónico da criação, que é anterior ao bíblico e é a raiz daquela a que o teólogo Walter Wink chama a religião “civil” que desde sempre e ainda hoje tem mais fiéis. Como já vimos, antes no mito babilónico a mesma criação é um ato de violência. Para o mito babilónico, a violência não é um problema, mas uma faceta intrínseca da criação, da natureza e do próprio Homem.

Dominar vem do termo hebreu “Radah”, uma palavra da realeza que significa reinar - trata-se, portanto do ofício de um rei. Que nos diz a bíblia sobre a forma como deve governar um rei? Vejamos como a mesma palavra é usada no contexto da coroação do rei Salomão que, para Israel, é o símbolo da sabedoria:

Dominará de um ao outro mar, do grande rio até aos confins da terra. (…) Ele socorrerá o pobre que o invoca e o indigente que não tem quem o ajude. Terá compaixão do humilde e do pobre e salvará a vida dos oprimidos. Há-de livrá-los da opressão e da violência, porque o seu sangue é precioso a seus olhos.  Salmo 72, 8, 12-14

E qual é o tipo de reinado que Deus não quer: Ai dos pastores de Israel, que se apascentam a si mesmos! Não devem os pastores apascentar o rebanho? Vós, porém, bebestes o leite, vestistes-vos com a sua lã, matastes as rezes mais gordas e não apascentastes as ovelhas. Não tratastes das que eram fracas, não cuidastes da que estava doente, não curastes a que estava ferida; não reconduzistes a transviada; não procurastes a que se tinha perdido; mas a todas tratastes com violência e dureza. Ezequiel, 34, 3-4

À luz do mito bíblico da Criação do Mundo, da parábola dos talentos (Mateus 25, 14-30) e suas congéneres, Deus não dá ao homem o direito de propriedade nem nenhum outro direito sobre a Criação, mas sim a responsabilidade de cuidar dela de uma forma consistente com a Sua vontade.

Primeiro, temos de entender que o homem, e só ele, foi feito responsável pela Criação, pois de todas as criaturas só ele foi criado à imagem e semelhança do Criador Deus. Segundo, o domínio como sinónimo de exploração desenfreada só pode provir de uma leitura do mito bíblico da criação, à luz do mito babilónico, por ser este mito o que tem prevalecido ao longo da história da humanidade.
A exploração desenfreada e violenta do planeta só pode ter vindo da leitura do mito bíblico da criação com as lentes do mito babilónico, pois a mente humana está formatada por este mito e não pelo bíblico. Nos dias de hoje, se perguntarmos se os seres humanos são ou não naturalmente violentos, a maioria das pessoas vai dizer que sim, que a violência faz parte da natureza humana.

Portanto, originalmente, ou seja, interpretando a bíblia à luz da própria bíblia, usando outros textos da mesma, a palavra “domínio” não significa despotismo totalitário, mas adequada administração sob a alçada de Deus; pois Deus é o único proprietário, dono e Senhor da Criação e de tudo o que ela contém, incluindo nós próprios:

Ao Senhor pertence a terra e o que nela existe, o mundo inteiro e os que nele habitam.  (Salmo 24:1).

Pois Deus não entregou a criação ao homem e se desinteressou dela; ao contrário, o homem não deve esquecer-se de que ele é só o administrador da criação:

Quem mediu as águas do mar com a sua mão e quem mediu o céu a palmo, ou o pó da terra com o alqueire? Quem pesou as montanhas na báscula e as colinas na balança? (…). De quem recebeu ele conselho para julgar, para lhe indicar o caminho certo? (…) - Quem lhe ensinou a ciência (…). As nações são como uma gota de água num balde, como um grão de poeira no prato de uma balança;
Isaías 40 12, 14, 15

Quem gera as gotas de orvalho? Job 38, 28

Ele dá de comer aos animais e aos filhotes dos corvos, quando gritam. Salmo 147, 9

Subjugar a terra, portanto, não significa dominá-la e explorá-la, mas sim aprender a compreender todos os seus processos, as leis da natureza e todas as suas criaturas, em benefício da humanidade e da glória de Deus. Este mandato está em vigor ainda hoje para todos os descendentes de Adão e Eva, mas é ainda mais importante para os cristãos, porque tivemos conhecimento do Senhor não somente no seu trabalho como Criador do mundo, mas também como seu Redentor. A redenção que obtivemos de Cristo é extensiva ao planeta; o planeta precisa de ser salvo também.

Neste mesmo espírito de vida, em harmonia com a natureza, a Igreja tem um santo para propor aos ecologistas do nosso tempo: S. Francisco de Assis. Para ele não havia animais antagónicos, não havia inimigos, por isso chamava o lobo de irmão lobo; não só se irmanou com os animais da terra, as aves do céu e os peixes do mar, como com os próprios elementos, chamando à água sua irmã e ao sol seu irmão.

O “Novo Testamento” do mito babilónico
Assim, da guerra da natureza, da fome e da morte, tem origem direta o objeto mais exaltado que somos capazes de conceber, a produção dos animais superiores." A luta pela existência, com a eliminação dos fracos e incapazes, leva à sobrevivência dos mais aptos, pelo que esta guerra da natureza deve, eventualmente, levar a animais superiores, raças superiores e finalmente civilizações superiores. Charles Darwin Ultimo parágrafo do livro Origem das espécies

Pelo uso e abuso de palavras e conceitos violentos, o último parágrafo do livro de Darwin parece decalcado do violento mito babilónico da Criação. Portanto, já nos tempos modernos vemos em Darwin e nos seus seguidores mais fanáticos, um “Novo Testamento” do mito babilónico, essa religião que domina o planeta. E tal como o cristianismo depressa se fez sentir no mundo, assim os efeitos da aplicação desta filosofia, nos últimos dois séculos - XIX e XX - e fazem sentir agora no século XXI.

Entre outros, um dos resultados nocivos desta filosofia tem sido a exploração descuidada dos nossos recursos naturais – animal, mineral e humano, tudo em nome da evolução socioeconómica. Grandes recursos minerais e vegetais, sobretudo a madeira, têm sido mal-usados e desperdiçados; quebrou-se o equilíbrio de regeneração da natureza, pelo que muitas espécies de vegetais e animais se extinguiram. O ritmo desta extinção é de 1000 por ano ou 100 por dia, segundo Norman Myers.

Volta-se o feitiço contra o feiticeiro – O efeito da exploração desordenada, egoísta e arbitrária o nosso planeta resultou numa contaminação sem precedentes dos ecossistemas:

O solo está depauperado de elementos essenciais à nossa saúde, por causa do mono cultivo; está também contaminado por pesticidas e fertilizantes químicos que alteraram a sua composição química e envenenam os lençóis freáticos de onde provém a água que bebemos;

Os oceanos estão cheios de microfibras de plástico que saem das nossas máquinas de lavar roupa, desde que o plástico substituiu as fibras naturais, como a lã, algodão, linho e seda, juntamente com metais pesados, como o mercúrio e que são absorvidos pelos peixes que consumimos;

O ar está contaminado por dióxido de carbono que produz o efeito de estufa, responsável pelo aumento global da temperatura que derrete os glaciares e as calotas polares, faz subir o nível do mar, altera o curso dos ventos, modifica o ritmo das estações do ano provocando furacões, inundações e secas de uma intensidade sem precedentes;

O ambiente social também está empestado pelo facto de que hoje 1% da humanidade possui mais riqueza (54%) que os restantes 99% (46%). A brecha entre ricos e pobres não para de aumentar. Uns morrem de fome, outros morrem de fartura; se houvesse partilha, nem morriam uns nem outros. Esta situação deve-se à ideologia do senhor Adam Smith, pai do capitalismo moderno, que acreditava que se todos fossem egoístas, ou seja, se todos buscassem o seu interesse individual, uma mão invisível se encarregaria do interesse comum; tal mão invisível a fazer de Pai Natal nunca se materializou, pelo que a situação vai de mal a pior.

Não temos nada contra os fundamentos da ciência da evolução das espécies; de facto, desde o Papa Pio XII, com a sua encíclica “Humani Generis” de 1950, que a Igreja Católica aceita os postulados fundamentais da teoria da evolução das espécies, ou seja, é mais que evidente que a vida vem toda de um tronco comum, que se foi diversificando em várias espécies ao longo de milhões de anos até aos nossos dias. O que não podemos aceitar é a interpretação violenta que o mesmo Darwin e os seus discípulos apresentam da teoria acima descrita no último parágrafo do seu famoso livro.

Com base no mito bíblico da criação e na CNV, acreditamos que a violência não faz parte da natureza, nem foi e nem é ela o motor da evolução, ao contrário do que pensava Darwin e os seus seguidores; esta foi introduzida pelo homem, pela forma com que se tem relacionado com a Natureza, sobretudo nos últimos dois séculos.

O efeito borboleta e o efeito dominó
Uma borboleta move as suas asas em Hong Kong e causa uma tormenta em Nova Iorque. Por pequeno que seja o que fazemos, afeta a ecologia global do planeta. Antigamente, porque a população humana do planeta era reduzida, o mundo parecia demasiado grande, demasiado poderoso e atemporal para que pudesse ser afetado pela ação do homem. Hoje, porém, para além da população ter aumentado de uma forma catastrófica e vertiginosa, sabemos que a ação do homem sobre o planeta é acumulativa, ou seja, os erros e os crimes contra o planeta vão-se acumulando porque, como dizia alguém, Deus perdoa sempre, o homem às vezes, a natureza nem perdoa nem esquece.

Embora o conceito já venha do 1890, o efeito borboleta ganhou aceitação popular em 1961, devido ao modelo de previsão do tempo usado pelo meteorologista Edward Lorenz. Este deu-se conta de que pequenas mudanças, que deveriam ter sido estatisticamente insignificantes, levaram a cenários exponencialmente diferentes.

A analogia de borboleta começou em 1972, quando Lorenz fez um discurso intitulado “Previsibilidade: pode o bater das asas de uma borboleta no Brasil desencadear um tornado no Texas?” Bem, tendo em conta as alterações que nós seres humanos já introduzimos no ecossistema complexo, conhecido como planeta Terra, é acertado dizer que fizemos o trabalho de milhares de milhões de borboletas.

Uma área de capital importância é a biodiversidade. Além do facto de a biodiversidade proteger os humanos contra os efeitos das catástrofes agrícolas, como a fome da batata irlandesa, a perda de uma espécie resulta em alterações significativas nos habitats naturais que podem prejudicar-nos gravemente a curto, médio ou longo prazo.

Tomando as mesmas borboletas como exemplo, se elas desaparecerem não só as crianças vão sofrer por não poderem brincar com elas, muitas plantas que estão intimamente ligadas às borboletas (e vice-versa) também estarão destinadas ao desaparecimento, pois umas não podem sobreviver sem as outras.

Quando pensamos na interdependência natural dos seres vivos entre si e dos ecossistemas entre si, é assustador pensar que tudo isto pode colapsar pela extinção de uma só espécie. As abelhas estão ameaçadas e são o maior polinizador do planeta; os esquilos estão ameaçados e plantam mais árvores que os seres humanos ao se esquecerem dos frutos secos que escondem no solo para sobreviverem no inverno.

O efeito dominó é uma realidade em ecologia; a mudança climática pode levar à extinção de animais e plantas deles dependentes e provocar uma reação em cadeia de consequências imprevisíveis, dada a interdependência dos seres vivos entre si e de serem todos eles dependentes das condições climáticas dos meios em que habitam.

Enquanto escrevia estas linhas recebi a triste notícia da morte do último rinoceronte branco macho; antes da sua morte, uma porção do seu esperma foi congelado na esperança de continuar a sua espécie, mas das duas últimas fêmeas existentes, uma é estéril. Isto faz com que o prognóstico da salvação do rinoceronte-branco seja muito reservado. Sabe-se que esta espécie foi impiedosamente caçada por causa da crença chinesa nas propriedades afrodisíacas do seu chifre.

Génese da violência no mito bíblico da criação
Segundo a religião violenta do sistema de domínio, que tem como Sagrada Escritura o mito babilónico, a violência é o mandamento principal, a matriz sobre a qual assentam todas as relações - a relação do homem com o seu semelhante, a relação do homem consigo mesmo, com Deus ao qual se oferecem sacrifícios violentos para aplacar a ira ou conquistar o favor, e com a natureza por esta não ser para nós uma mãe prodigiosa, mas sim uma madrasta.

A Natureza, aos animais deu-lhes tudo, até os vestiu, a nós não nos deu nada nascemos nus, e se queremos comer temos de trabalhar. Ao contrário do Neandertal, que se adaptava à natureza, já o Homo Sapiens procurou dominar a Natureza com a sua mente e adaptá-la às suas necessidades. Entendendo-se a si mesmo, em relação aos outros animais, como o patinho feio da Criação, a relação do homem com a Natureza parece ser uma relação de vingança.

«Porque atendeste à voz da tua mulher e comeste o fruto da árvore, a respeito da qual Eu te tinha ordenado: ´Não comas dela´ maldita seja a terra por tua causa. E dela só arrancarás alimento à custa de penoso trabalho, todos os dias da tua vida. Produzir-te-á espinhos e abrolhos, e comerás a erva dos campos. Comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de onde foste tirado; porque tu és pó e ao pó voltarás.» Génesis 3, 17-19

Natural para o mito babilónico, a violência não o era para o rito bíblico. O que Deus criou era bom e houve um tempo em que o homem era como Deus o tinha criado, assim como a Natureza original, ou seja, o Jardim do Éden, Homem e Natureza viviam em simbiose e harmonia, a mesma harmonia reinava entre Deus e o homem que passeavam ao entardecer no jardim do Éden (Génesis, 3,8). Com o pecado, esta harmonia entre Deus e homem, entre este e a Natureza rompeu-se.

A filosofia “win win” e a ecologia
Cristo veio trazer a salvação não só para o homem, mas também para o ambiente em que o homem vive; esta Terra pode voltar a ser o paraíso que já foi um dia. Para isso temos de denunciar o Darwinismo exacerbado que se relaciona violentamente com a natureza; como já denunciamos a falácia do mito da violência redentora agora denunciamos o mito do domínio e da sobrevivência do mais forte sobre o mais fraco e menos capacitado, declarando que se trata de uma ideologia falsa, que trata de explicar as relações dos animais ao longos dos milhões de anos de evolução.

Não há violência entre os animais, só há satisfação das suas necessidades. Os animais não se matam porque sentem ódio uns pelos outros, mas para satisfazerem as suas necessidades dentro da cadeia alimentar. Se alimentarmos um gato com ração, ele acabará por brincar com ratos e pássaros, sem lhes fazer mal.

O objetivo da CNV é que todos satisfaçam harmoniosamente as suas necessidades. É possível voltar ao mundo que tínhamos antes da era industrial, encontrar uma forma de harmonia, de progresso que seja sustentável e amiga do meio ambiente. Em CNV, as necessidades do outro são também as minhas necessidades, não há antagonismo entre mim e o outro, mesmo quando ele diz um “não” eu ouço um “sim”.

A CNV é uma filosofia “win win” “em que todos ganham” pois estamos convencidos de que todos podem ganhar; como não existe vida humana fora deste planeta, o que é bom para o planeta é bom para o homem e vice-versa, o que é mau para o planeta a longo prazo também o é para o homem a longo prazo. As consequências dos males passados já começaram a sentir-se. Deixemos de ser inimigos do meio ambiente pois é nele que vivemos.

Se a mãe Terra sustém a vida, a nossa vida, então também ela está viva, é um organismo vivo. Relacionemo-nos com ela usando os quatro componentes da comunicação não violenta e observemos objetivamente a situação em que se encontra, peçamos aos xamãs índios da América do Norte que nos ajudem a perscrutar os seus sentimentos e as suas necessidades e, por fim, a intuir o que ela nos pede para se manter viva e para nos manter vivos.
Pe. Jorge Amaro, IMC


1 de setembro de 2018

CNV - Uma nova relação com os outros

Sem comentários:
Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Marcos 12, 31

Auto empatia e empatia pelos outros
Tanto a expressão dos nossos próprios sentimentos e necessidades, como o palpitar empático dos sentimentos e necessidades dos outros estão alicerçados num estado de consciência particular que é o coração da comunicação não violenta. Este estado de consciência nutre-se de empatia pelos outros e de empatia por nós próprios.

Tanto no Novo Testamento, acima citado, como no Antigo Testamento (Levítico 19,18), a Bíblia já se tinha dado conta de que não é possível amar o próximo sem se amar a si mesmo e vice-versa, não é possível amar-se a si mesmo (com um amor saudável, não narcisista) sem amar o próximo.

A autoestima e a estima pelo outro estão intimamente ligadas; a medida que aplicamos aos outros é a que aplicamos a nós mesmos. Empatia é estender aos outros a mesma compaixão que temos por nós mesmos ao usar os quatro componentes da CNV. Isto significa perscrutar os sentimentos e as necessidades do outro, disfarçadas e subjacentes nas interpretações, análises e julgamentos que ele faz em relação a nós, a ele mesmo ou à sociedade em geral.

A prática da CNV implica a intenção de nos ligarmos compassivamente a nós mesmos e aos outros, e uma capacidade de manter a nossa atenção no momento presente – que inclui estar ciente de que, às vezes, neste momento presente, estamos a recordar o passado ou a imaginar uma possibilidade futura, ligarmo-nos compassivamente ao que em nós e nos outros está vivo, ao que está a acontecer em nós e nos outros a nível de sentimentos e necessidades no aqui e agora.

Digo-vos, porém, a vós que me escutais: amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam,
Lucas 6, 27

Nem a empatia nem a auto empatia são fáceis de pôr em prática. As estruturas do poder ensinaram-nos a odiarmo-nos a nós mesmos como odiamos os outros. Em tempos de calma, esta prática pode ser relativamente fácil, mas em tempos de stress, conflitos internos ou externos, o ódio reptílico pode fazer-nos relutantes e dificultar-nos o acesso à empatia e à compaixão, tanto por nós como pelos outros. Só uma grande quantidade de prática - com a consciência de que algumas vezes não vamos conseguir nos pode trazer algum sucesso, que será total se nos mantivermos no caminho.

Os inimigos não existem. Os outros, os nossos rivais não são verdadeiramente nossos inimigos. Tal como nós, eles só procuram satisfazer as suas necessidades, pelo que, quando não temos medo de expressar genuína e honestamente os nossos sentimentos e necessidades, apresentando-nos diante dos outros como vulneráveis e indigentes, apelamos à sua empatia e compaixão, porque os sentimentos e as necessidades são universais. Desta forma, quando eventualmente fizermos os nossos pedidos, de uma forma não agressiva ou arrogante nem submissa, mas sim assertiva, eles vão responder positivamente. Será a compaixão e empatia que despertamos neles que irão ajudá-los a ligar-se ao seu neocórtex e assim vencer por si mesmos e sobrepor-se ao seu egoísmo reptílico.

Receber empaticamente
A CNV é uma estrada com dois sentidos; anteriormente descrevemos os quatro componentes da CNV a partir de nós próprios, ou seja, do que observamos, sentimos e necessitamos, e do que desejamos solicitar dos outros para enriquecer as nossas vidas. Agora trata-se de aplicar esses mesmos quatro componentes aos outros, para ouvir as suas observações, sentimentos, necessidades e apelos ou pedidos; a isto se chama receber empaticamente.

Na comunicação não violenta metade do processo é aprender a expressar-se usando os quatro componentes; a outra metade do processo é como ouvir e responder aos outros no molde dos quatro componentes, de forma a estabelecer uma ligação com o que no outro está a acontecer neste preciso momento a nível de sentimentos e necessidades.

A ligação empática permite-nos ultrapassar as aparências para contemplarmos e nos ligarmos à beleza intrínseca do outro, à energia divina que nele opera, vida nele presente. O objetivo da ligação empática não é compreender intelectualmente a outra pessoa. Tal como para ver e analisar a floresta necessitamos de sair dela, de nos abstrair dela, compreender intelectualmente o outro é deixar de estar empaticamente com ele. Enquanto analisamos mentalmente o outro não estamos com ele.

Empatia é estar com sentir com ser com, é a compreensão respeitosa do que os outros estão a experienciar no momento presente. É neste sentido que funciona a psicoterapia não diretiva de Carl Rogers, professor de Rosenberg. A presença silenciosamente ativa e o escutar empaticamente compassivo do psicoterapeuta, ante o desabafo do cliente, consola (do latim cum solis – estar com) e conforta (do latim cum fortis – fazer forte), fortifica e energiza o cliente, de forma a que ele mesmo encontre a solução para os seus problemas.

Frequentemente, em vez de empatia, de nos colocarmos ao lado do outro, assumimos uma posição de autoridade, como se fossemos o seu pai ou professor e damos conselhos ou manifestamos o que pensamos ou sentimos. A crença de que temos que consertar ou resolver os problemas dos outros, ou de fazê-los sentir melhor, impede-nos de estar com eles. Com o sentido de humor e ironia que lhe era característico, Rosenberg dizia que, quando se tratar de dar conselhos, nunca devemos fazê-lo, a menos que quem os requer nos faça chegar uma petição por escrito assinada por um advogado. Vejamos no seguinte exemplo o que a empatia é e não é:

- Sou mais feia que um burro - diz a filha em frente do espelho.
- Não, tu és a criatura mais bonita que Deus alguma vez criou – responde o pai com a solução rápida.
- Sentes-te desiludida com o teu aspeto hoje? – seria a resposta ou reação empática.

Normas da psicoterapia não diretiva
As normas da psicoterapia não diretiva aplicam-se perfeitamente:
Sentar-se à frente do cliente sem mesa entre os dois; manter uma postura aberta que implica não cruzar as pernas; relaxada, mas não muito, pois poderia transmitir ao cliente desinteresse; sentar-se nem muito longe nem muito perto do cliente, por virtude do instinto territorial; observar todos os movimentos corporais do cliente não só os seus olhos e dar-lhe feedback, perguntando, por exemplo, “vejo que tens o punho fechado, que significa para ti um punho fechado?”

Não deixar o cliente demasiado tempo no passado, trazê-lo de volta ao momento presente, perguntando: “como é que isso está a afetar-te agora, como te sentes agora?” Fazer perguntas abertas, explorativas, para as quais a resposta nunca possa ser um simples sim ou não; para uma maior compreensão do seu discurso, parafrasear o que o cliente diz: “tenho-te escutado dizer que…” - “dou-me conta que, de acordo contigo…” - “sentes-te irritado e desiludido porque…”.  As perguntas são feitas de forma a que o cliente se esclareça a si mesmo e não para satisfazer a curiosidade do terapeuta.

Barreiras à empatia
Há afirmações impróprias que acabam por colocar uma barreira entre quem ouve e quem fala, dificultando a comunicação. Este tipo de reações ou afirmações da nossa parte demonstram frequentemente desrespeito pelos pensamentos e sentimentos da outra pessoa. Para melhorar a capacidade de nos relacionarmos bem é importante reconhecer estas barreiras, de modo a que seja mais fácil evitá-las.
  • Aconselhar ou ensinar – “Acho que devias…” “Porque é que não fizeste…” Não façamos diagnósticos nem passemos receitas; simplesmente ajudemos a que o outro chegue às suas conclusões, ensinamentos, a tirar do processo as possíveis soluções.
  • Expressar intolerância e desaprovação – O outro vai sentir-se rejeitado.
  • Moralismos – Afirmações que julgam os atos do outro como bons ou maus, ou o que ele diz como adequado ou inadequado.
  • Descontar e rejeitar os sentimentos dos outros – “Isso não é nada, eu já passei por pior…” “Não devias sentir-te assim…” O outro pode até sentir-se aliviado por um momento, mas o sentimento volta.
  • Educar – “Olha isto até se poderia transformar numa experiência muito positiva se tu…”
  • Pseudo consolo - “Não foi culpa tua, tu fizeste o melhor que podias…”
  • Contar histórias – “Isto faz-me lembrar do tempo em que eu…”
  • Negação – “Alegra-te, não te sintas triste…”
  • Fazer demasiadas perguntas que satisfazem a nossa curiosidade – “Quando é que isto te aconteceu?”
  • Corrigir – “Não foi assim que aconteceu…”
  • Para quê falar se tu nunca escutas? - Quando o outro pede uma opinião.
  • Sentes-te infeliz comigo? – Denota um sentimento de culpa.
  • Sentes-te infeliz porque achas que eu não te compreendo? – O foco é no que ele pensa e não no que ele necessita, além do sentimento de culpa em “não te compreendo”.
  • Sentes-te infeliz porque precisas ser ouvido? – Correta do ponto de vista da CNV pois o foco é na sua necessidade e não em mim, na possibilidade de eu ter feito algo errado.

Todas estas reações não empáticas têm uma coisa em comum: retiram a atenção do outro para a centrar sobre nós mesmos, na melhor das hipóteses distraem o outro do seu problema ou anestesiam a sua dor, mas não o ajudam a resolver nada, muito pelo contrário.

Em CNV, não nos deve preocupar o que as pessoas dizem, nem a forma como o dizem, pois sabemos de antemão que tudo o que digam pode ser traduzido em observações, sentimentos, necessidades e apelos. Nos seus workshops, Rosenberg não se cansava de repetir que ao longo de milhares de anos de história, desde que o ser humano aprendeu a falar, tudo o que disse e continua ainda hoje a dizer resume-se a duas palavras:

Por favor…” ao expressar observações, sentimentos e necessidades que acabam num pedido, e, portanto, numa oportunidade ou meio para enriquecer a vida, fazê-la mais maravilhosa…

Obrigado” ao reconhecer com gratidão, e ao mesmo tempo celebrando a vida, porque as suas necessidades foram satisfeitas.

A empatia de Jesus
A empatia de Jesus e a sua capacidade para escutar ativamente, revê-se em muitos passos da Sagrada Escritura. Aqui apresentamos alguns:

Jesus não julgou Zaqueu (Lucas 19, 1-10) pelo contrário teve para com ele um olhar positivo e acolhedor, não o julgou e deixou que fosse ele mesmo a acusar-se e a encontrar a solução para o seu problema. - Também não julgou a mulher apanhada em flagrante adultério (João 8, 1-11): quando uma pessoa está magoada a última coisa que quer é ser julgada! Jesus foi compassivo, defendeu-a e desceu para ela subir. Jesus chorou lágrimas de compaixão pelo seu amigo Lázaro, mostrando empatia para com o sofrimento das irmãs dele.

O encontro de Jesus com a mulher samaritana no poço destaca-se como um relato detalhado de ação interpessoal. No relato é revelado o suficiente sobre os pensamentos e sentimentos dos dois participantes para reconstruir o encontro como um estudo de caso em psicoterapia. Do superficial e trivial ao mais profundo, este encontro revela as habilidades de Jesus como psicoterapeuta.

Jesus levou a mulher através de uma série de passos em direção à integridade psicológica e espiritual.
Primeiro, Jesus aceitou a mulher como pessoa. Além de violar todos os tabus que se interpunham entre ele e a mulher, Jesus respeitou a sua individualidade, não se deixou intimidar, nem reagiu ao velado sarcasmo dela. Jesus deixou a mulher estabelecer o nível inicial em que a conversa decorre; desta forma, dá-lhe a entender que a aceita como uma pessoa única e com o potencial de crescer como pessoa.

Em segundo lugar, Jesus deixa - a confessar (esclarece) a sua necessidade pessoal. Uma condenação logo de início, através de um olhar ou palavra, teria sido a resposta esperada de um Rabino, por uma mulher de “brandos costumes” como parece que ela era.

De facto, a primeira pergunta da mulher a Jesus deu a entender que ela duvidou do seu real motivo para pedir uma bebida. Jesus, no entanto, deixa-a escolher o seu próprio tempo para revelar a profundidade da sua necessidade. Quando eventualmente a mulher o fez, ela abriu-se por completo dando a conhecer que queria mudar de vida.

Em terceiro lugar, Jesus forneceu dicas sobre a vida íntima da mulher ao sondar o seu passado sórdido. Se ela não estivesse preparada para enfrentar a verdade, a pergunta de Jesus teria sido prematura e até prejudicial. Mas não foi assim, Jesus usou o trauma de expor a sua vida íntima, a fim de quebrar o ciclo vicioso casamento – divórcio – casamento, expondo o seu sentimento de culpa. Em quarto lugar, Jesus libertou a mulher do sentimento de culpa, coisa que já lhe tinha prometido antes: satisfazer a sua sede compulsiva de amor.

Uso de empatia para neutralizar o perigo
Rosenberg conta de como uma rapariga conseguiu neutralizar o seu potencial violador usando a CNV:
Agressor – Despe-te!
Rapariga – (Notando que o rapaz tremia) Parece-me que estás nervoso…
Agressor – Estás surda? Volto a repetir, despe-te!
Rapariga – Sinto que estás verdadeiramente irritado e queres que eu faça o que me mandas.
Agressor – Acertaste e vais-te magoar se não fazes o que te digo.
Rapariga – Gostaria que me dissesses se haverá uma forma de satisfazer as tuas necessidades sem eu ficar magoada.
Agressor – Já te disse que te despisses.
Rapariga – Entendo o que tu necessitas, mas quero que saibas o quão apavorada e horrorizada estou perante esta situação e como ficaria agradecida se te fosses embora sem me magoar.
Agressor – Passa para cá a tua carteira.

A rapariga deu-lhe a carteira aliviada por o agressor não a ter violado. Posteriormente, a rapariga reconheceu que quanto mais estabelecia empatia com o seu agressor, a intenção de a violar ia perdendo terreno. Esta é uma dessas situações na qual é muito difícil sentir empatia pelo outro. Mas é um facto que quando conseguimos descobrir e sentir empatia pelos sentimentos e necessidades do outro, já não vemos nele o monstro, mas a pessoa. 
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de agosto de 2018

CNV - Uma nova relação comigo mesmo

Sem comentários:
Não vos conformeis a este mundo. Pelo contrário, deixai-vos transformar, adquirindo uma nova mentalidade, para poderdes discernir qual é a vontade de Deus: o que é bom, o que lhe é agradável, o que é perfeito. - Romanos 12, 2

Compassivos connosco mesmos
Depois de ter descrito o funcionamento desta nova língua vamos verificar na prática de que é muito mais que uma simples língua, é uma nova filosofia de vida, uma nova forma de nos relacionarmos connosco mesmo, com os outros, com o mundo que nos rodeia e até com Deus.

“A caridade começa em casa” – Quando somos violentos connosco próprios é difícil sermos compassivos com os outros; quando não exercemos empatia connosco mesmos é difícil exercê-la com os outros. O verdadeiro amor é incondicional, é este tipo de auto - empatia, livre de condicionalismos, que devemos ter connosco mesmos. Ao contrário, as estruturas do poder, para nos dominarem, ensinam-nos a odiar-nos a nós mesmos, quando a nossa prestação não está de acordo com o que se espera de nós, e a amar-nos a nós mesmos só quando a nossa prestação social é aceitável pelos parâmetros das estruturas do poder.

Amarás o teu próximo como a ti mesmo (Levítico 19:18) - O amor próprio incondicional não é egoísmo: ao contrário, é a medida do amor aos outros. Primeiro sou chamado a amar-me a mim mesmo; segundo, sou chamado a amar os outros com a mesma medida com que me amo a mim mesmo. O amor próprio, a auto - estima ou auto - empatia, longe de serem conotadas com egoísmo, são a base sobre a qual assentam todo o tipo de relações que estabeleço comigo mesmo, com os outros e até com Deus. Não há, portanto, verdadeiro altruísmo sem auto - empatia.

De forma inteligentemente, o sistema de domínio procurou limitar a violência entre as pessoas, inserindo-a no interior da consciência moral de cada um. Dentro de nós, o superego freudiano funciona como o “Cavalo de Tróia” do sistema de domínio. A coação do sistema de domínio é agora exercida pela própria pessoa sobre si mesma.

Como o Cavalo de Tróia, do sistema do domínio, o superego no interior da nossa consciência imita as instâncias penais da sociedade; faz de polícia que nos apanha a fazer um delito, faz de tribunal que nos julga, declara-nos culpados e aplica a pena em forma de autopunição. Esta pena pode ser prisão, sob a forma de depressão, ou seja, retirando-nos da vida ou privando-nos disto ou daquilo, por exemplo, de amor: não me amo nem deixo que me amem; ou até mesmo ser a pena máxima, a pena de morte, ou seja o suicídio – quando alguém chega a ser o pior inimigo de si mesmo e se mata em legítima defesa.

Usamos a CNV para nos avaliarmos a nós mesmos com vista a gerar crescimento, em vez de ódio, por nós próprios. Nada de positivo pode vir de uma motivação negativa; a motivação para mudar não pode vir de energias destrutivas, como a culpa e a vergonha, pois estas são uma forma de ódio a nós mesmos. O que quer que façamos que seja motivado ou reaja ao sentimento de culpa e ou de vergonha, nunca será um ato positivo que nos proporcione alegria e felicidade. Só o que é motivado pelo desejo de enriquecer a nossa vida e a dos outros pode trazer-nos alegria e felicidade.

Contra o sacrificar-se pelos outros
É por isto que meu Pai me tem amor: por Eu oferecer a minha vida, (…). Ninguém ma tira, mas sou Eu que a ofereço livremente. João 10, 17-18

Durante a sua vida de operário, quando o meu pai fazia o turno da noite, sempre desabafava connosco dizendo, “lá vou eu para o degredo”. A minha mãe ao fim da sua vida dizia “nunca tive um alívio na vida”. Os meus pais foram uns sacrificados pelos seus filhos; não duvido que o tenham feito por amor e não por dever, mas às vezes davam a entender que satisfaziam as necessidades dos filhos deixando para trás ou pondo de lado a satisfação das suas próprias; isto não é verdadeiro cristianismo pois não tem em conta que o amor ao próximo deve refletir o amor a si mesmo.

Em CNV não há escravos do dever; não há coisas que tenhamos que fazer por obrigação, por dever; não há coisas que tenhamos que fazer quer queiramos quer não. As coisas que fazemos por obrigação, têm um alto custo a pagar no nosso psiquismo e no psiquismo dos destinatários das nossas obras, porque são motivadas por uma energia negativa. Esta é uma linguagem violenta pois nega que temos escolha; Rosenberg repete sempre que só devemos fazer o que gostamos de fazer e que, como pessoas livres que somos, sempre temos escolha e capacidade de decidir.

Num workshop de Rosenberg, uma mulher opôs-se a esta forma de pensar afirmando que havia coisas na vida que uma pessoa tinha de fazer quer quisesse quer não; como exemplo, disse depois deste workshop “tenho de ir para casa e tenho de cozinhar; odeio com toda a minha alma cozinhar e, no entanto, há 30 anos que o faço mesmo nos dias em que estive doente como um cão.” 

Nessa mesma noite, a mulher chegou a casa e disse que tinha decidido não cozinhar mais. A família, ao contrário do que seria de esperar, agradeceu, porque agora iriam comer sem ter de ouvir as lamúrias da mãe que tinha preparado a refeição por obrigação e que tinha sal a mais ou a menos ou não tinha sabor. Isto não quer dizer que muito do que fazemos por opção não seja difícil e nos custe suor e lágrimas, mas como o que fazemos é por opção e por amor, e não por dever ou obrigação, faz uma grande diferença e torna tudo mais fácil; como diz o provérbio, “Quem corre por gosto, não cansa”.

Rosenberg recorda da sua infância o sorriso e a doçura com que o seu tio materno, todas as tardes, fazia a higiene à sua própria mãe paralítica na cama; não era uma tarefa fácil, pelo cheiro e outras sensações envolvidas, mas o amor com que o fazia, superava o incómodo de ambos: do filho e da mãe.

Pessoalmente, recordo, no meu noviciado, quando fui voluntário num hospital psiquiátrico; todos os dias fazíamos a higiene a um senhor que tinha sido catedrático de literatura, na universidade de Valladolid, e que agora jazia paralítico numa cama com as faculdades mentais bastantes reduzidas. Um dia quando eu e um colega estávamos a assisti-lo, a modo de desabafo, disse “Vocês são muito bons porque a merda é sempre merda…”.

Jesus, como citámos acima, apesar de dizer aqui e além que segue a vontade do Pai, mesmo no Jardim das Oliveiras quando a vontade do Pai e a sua parecem opostas, Jesus nunca perde o poder de livre decisão. No momento em que decidiu pela vontade do Pai, esta já não é mais a vontade do Pai mas a sua, pois é fruto de uma escolha livre. É ele que escolhe o curso da sua vida, este não lhe vem imposto desde cima e a partir de fora de si mesmo. A Jesus, ninguém lhe tira a vida pois é Ele que a dá livremente. Com Ele todos os que morreram por martírio, morreram por opção: salvar a vida temporal perdendo a eterna, ou salvaguardar a eterna abrindo mão da temporal.

A depressão em CNV
Para Rosenberg, a depressão resulta do que as pessoas pensam acerca delas mesmas e do que a elas mesmas se dizem. Não existe uma doença chamada depressão - é a forma como a sociedade educa as pessoas a pensarem sobre si mesmas que a cria. Se perguntamos a um deprimido, quais são as suas necessidades neste momento o mais certo é que ele responda com um diagnóstico a si mesmo, “sou um falhado, vejo os meus irmãos bem-sucedidos na vida e eu não”.

No seu livro “Revolução na psiquiatria”, Ernst Becker atribui a depressão a "alternativas cognitivamente paralisadas." (“cognitively arrested alternatives”) - a pessoa encontra-se, num beco sem saída cognitiva a nível do seu pensamento. Quando alimentamos um diálogo interior, hipercrítico, acerca do que somos e das nossas prestações, por exemplo, se estou com fome, em vez de reconhecer a minha fome e considerar as estratégias que a natureza coloca à minha disposição e começar a procurar comida como qualquer ser vivo faz, digo a mim mesmo "Estás sempre com fome" e fico preso a este auto - diagnóstico que me diz que há algo errado comigo. Este estado de espírito não só me alheia das minhas necessidades reais como também me impede de as satisfazer.

Se eu sou um pai e não sei como agir como pai ou se acho difícil ligar-me com as necessidades dos meus filhos, em vez de buscar essa ligação, fecho-me na minha mente dizendo a mim mesmo que sou um mau pai. Acreditar na existência de um pai perfeito e ideal é como acreditar na existência do Pai Natal - o resultado certo é depressão.

Esta forma de pensar aliena-nos das nossas necessidades pelo que, não as reconhecendo, nada podemos fazer para as satisfazer. Entramos num círculo vicioso, num beco sem saída, no qual a depressão vai sendo cada vez mais profunda, escavando um fosso escuro na nossa psique no qual podemos cair perdendo-nos totalmente.

“How to make yourself miserable” é um livro escrito por Dan Greenburg. Num tom humorístico, o autor apresenta personagens famosas e o que elas conseguiram na vida e depois pede que nos comparemos com elas; aparecem, por exemplo, fotos de corpos perfeitos e belos com as medidas ideais e depois o autor pede que tiremos as nossas medidas - o que Mozart e Beethoven conseguiram quando ainda eram crianças e o que conseguimos nós… O autor garante que, em pouco tempo, nos sentiremos miseráveis. É a forma como nos julgamos a nós mesmos, às vezes em comparação com outros, que nos deixa miseráveis e deprimidos; as auto - apreciações que supõem maldade, anormalidade, disfuncionalidade ou inferioridade são caminho seguro para a depressão.

Como diz Rosenberg, quando, possuídos pela raiva, deixamo-nos invadir por pensamentos negativos, hipercríticos, em que nos culpabilizamos a nós mesmos e aos outros, é difícil estabelecer para nós mesmos um ambiente interno saudável. A CNV ajuda-nos a criar um estado de paz de espírito, e encoraja-nos a focar a nossa atenção no que realmente necessitamos – traduzindo as mensagens internas negativas em sentimentos e necessidades, em vez de analisar hipercriticamente e de forma negativa o que se passa connosco e com os outros.

Os deprimidos têm uma fraca autoestima e estão entorpecidos por um falso conceito negativo deles mesmos. A verdade é que por detrás destes autojulgamentos que produzem a depressão, estão necessidades insatisfeitas. O problema é que nós não fomos educados no sentido de pensar no que necessitamos, no que sentimos, mas sim no que somos.

A solução é, portanto, reconhecer estes pensamentos e autojulgamentos quando afloram à nossa consciência e traduzi-los por necessidades insatisfeitas. Uma vez reconhecida a necessidade, a depressão desaparece e é substituída pelo sentimento de tristeza ou frustração; estes sentimentos são positivos pois já não são um beco sem saída como é a depressão: pelo contrário, espevitam o nosso psiquismo a buscar soluções para que essas necessidades sejam satisfeitas.

Confrontar as estruturas do poder ou os poderes instituídos
O que produz a ira, a culpa, a depressão e a vergonha não é nunca o que eu ou o outro diz ou faz, mas a forma como interpretamos, avaliamos e julgamos o que o outro ou nós dizemos ou fazemos. Ao entender estas afirmações como formas alienantes trágicas e suicidas de expressar necessidades insatisfeitas, procuro então identificar quais são essas necessidades. A ira, a culpa, a depressão e a vergonha dissolvem-se, quando para além dos meus julgamentos encontro e me ligo com a necessidade insatisfeita.

Estarmos ligados aos nossos sentimentos e necessidades, é estarmos ligados a um sistema que serve a vida, como Rosenberg lhe chama. Esta ligação não faz de nós bons escravos.

Quando estamos ligados aos nossos sentimentos e necessidades, as estruturas do poder tudo fazem para nos divorciar dos nossos sentimentos e necessidades, a fim de prestar vassalagem à ideologia que têm implantada nas nossas mentes como um cavalo de Tróia, para nos subjugar. Para tal efeito, em vez de nos educarem numa linguagem processual que seria a que corresponde a uma realidade em constante mudança, educam-nos numa linguagem estática que nos aprisiona em clichés e nos diz o que invariavelmente somos para nós mesmos e para os outros.

Quando vivemos dentro da filosofia da CNV, nunca temos que nos preocupar sobre o que as outras pessoas nos dizem; o que temos que nos preocupar é com a forma como conceptualizamos e reagimos às afirmações dos outros acerca de nós. Não temos que nos preocupar quando uma pessoa nos diagnosticar, por exemplo, como sendo muito sentimentais. Não é o que a outra pessoa nos diz que cria a nossa dor, mas como eu reajo e lido com o que o outro me diz.

Quando o que o outro diz me afeta, eu dou-lhe o poder de me definir para determinar o que eu sou ou não sou. Dar ouvidos ao que a outra pessoa diz acerca de mim é reconhecer a sua influência sobre mim e deixá-lo determinar como devo ou não devo sentir-me sobre mim mesmo; é desistir da minha autonomia, admitindo a derrota e que a minha segurança e autoestima estão nas mãos de outra pessoa, não nas minhas.

É difícil evitar que isto não nos afete pois fomos ensinados desde a infância, que a nossa vida depende de como os outros nos julgam, especialmente aqueles com títulos.

A CNV é uma linguagem dinâmica que nos treina a descortinar necessidades e sentimentos por trás do que a pessoa me diz. Assim descubro a necessidade por trás de um "não" e por trás da crítica e, sem me deixar ludibriar, faço o mesmo com os elogios e os parabéns que me dirigem, expressados em linguagem estática e não referentes a comportamentos ou ações minhas.

Criar um sistema ao serviço da vida
I have taken my chances more than once / and I have got my fingers burned /and done somethings I wouldn’t have done /If I knew then what I’ve since have learned. (Arrisquei mais que uma vez / e queimei os meus dedos / e fiz coisas que não teria feito / se soubesse na altura o que, entretanto, aprendi). Marshal Rosenberg

Como nunca possuímos nem possuiremos uma informação completa acerca de uma determinada situação, nunca fizemos nem nunca faremos algo errado. Tudo o que fazemos e sempre faremos, assim como tudo o que os seres humanos alguma vez fizeram, é feito para satisfazer necessidades, para servir a vida e a tornar mais prazenteira.

Por exemplo, suponhamos que ontem à noite tive necessidade de relaxar um pouco e coloquei a música muito alto; no dia seguinte, o meu vizinho olha-me com ar de desagrado. Quando decidi colocar a música não tive em conta o meu vizinho. Ele não fez parte da minha equação. Às vezes fazemos coisas sem saber ao certo o impacto que as nossas ações vão ter.

Isto não significa à priori que fizemos algo errado - o que eu fiz satisfez de facto a minha necessidade de relaxamento, mas não satisfez a minha necessidade de ser atencioso com o meu vizinho. Para explicar isto melhor, Rosenberg divide o nosso psiquismo em dois: o que escolhe e o que educa; o que escolhe satisfez a necessidade de relaxamento, porém esta foi satisfeita à custa da minha necessidade de ser atencioso com o vizinho. O meu educador, o que tem necessidade de ser atencioso com o meu vizinho, sente empatia com o que escolheu e os dois procuram que ambas as necessidades sejam abrangidas.

Nunca ninguém fez nada deliberadamente por mal. Tudo o que fazemos é para servir a vida, satisfazer as nossas necessidades, de forma a tornar a nossa vida e a dos outros mais prazenteira. Isto inclui o próprio Hitler; as estratégias seguidas podem estar erradas, mas no momento da escolha não o sabemos e, muitas vezes, não há de facto forma de o saber.

Às vezes podemos até saber de antemão o impacto que a nossa ação vai ter sobre os outros. Um pai pode ter pensado no impacto negativo que ia ter sobre o seu filho o que lhe ia dizer e, no entanto, naquele momento, a necessidade de o dizer foi mais forte que a necessidade de se conter. Ou não sabia no momento como satisfazer as duas necessidades - a de respeitar o seu filho e a de o admoestar.

Aprendemos mais com os nossos erros que com os nossos êxitos. Nunca ninguém aprendeu a andar de bicicleta sem cair uma e outra vez. O processo de aprendizagem inclui erros; somos chamados a aprender com eles, sem perder o respeito por nós mesmos. Que fazemos com os nossos erros depois de retirar deles a lição que nos ensinaram? Fazemos o luto.

Amar-se incondicionalmente
Amai os vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; porque Ele faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos. Mateus 5:44,45

Dificilmente alguém aceitaria morrer por uma pessoa que obedece às leis. Pode ser que alguém tenha coragem para morrer por uma pessoa boa. Mas Deus mostrou-nos o quanto nos ama: Cristo morreu por nós quando ainda vivíamos no pecado. Romanos 5, 7-8

Porque estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, 39 nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor! Romanos 8 38-39

Em CNV o amor não é um sentimento, mas sim uma necessidade. Como tal, é universal, pertence à natureza humana: todos os seres humanos que existiram até agora e os que vão existir, têm necessidade de amar e ser amados. Esta é, aliás, a primeira e a mais importante necessidade depois das necessidades físicas comuns aos demais seres vivos; esta é a necessidade que mais caracteriza a espécie humana no confronto dos demais seres vivos. Sem amor, não há vida humana porque viver é amar.

Como necessidade universal impregnada na natureza humana, o amor é por definição incondicional; não está sujeito a nenhum condicionamento; é devido, não merecido. Se amarmos, amemos incondicionalmente; o amor com condições não é amor.

Deus e pelo geral os nossos pais amam-nos incondicionalmente, ou seja, não precisamos de ser moralmente bons, ser bem-sucedidos na nossa vida para obter o seu amor. Estou em crer que há poucas pessoas que se amem incondicionalmente; podemos até amar os outros incondicionalmente, mas não a nós mesmos. Suponho ser esta uma das causas da depressão. Não nos perdoamos quando erramos e somos menos que perfeitos; parece que ligamos o nosso amor ao nosso desempenho na vida: amamo-nos quando somos bem-sucedidos e odiamo-nos quando não o somos.

Mas se Deus nos ama incondicionalmente, como acima fica biblicamente provado, porque não nos amamos também nós incondicionalmente? Se Deus, o nosso Criador, faz chover sobre justos e injustos, na parábola do semeador, não quer saber se produzimos 30, 60 ou 100%, desde que produzamos. Somos mais duros que Deus connosco mesmos; talvez seja pelo facto de não O conhecermos realmente. Parafraseando 1 João 4, 8, “Quem não “SE” ama não conhece a Deus porque Deus é amor.”

Traduzir autocrítica em necessidades
Como sabemos já, para Rosenberg, todas as críticas e autojulgamentos são expressões trágicas de necessidades insatisfeitas. Em vez de dizermos que alguém ou eu próprio estou errado ou sou mau, o que devo dizer é que o outro ou eu mesmo, não está a atuar em harmonia e conformidade com as suas necessidades. - Quando ouvimos uma autocrítica ou um autojulgamento no nosso íntimo devemos perguntar-nos “como me sinto, de que necessito?”

Estou viciado em Televisão!
Observação – Identifica o que estás a fazer, quantas horas por dia dedicas à televisão.
Sentimento – Como te sentes? - “Sinto-me stressado e ansioso, pois deixo para trás coisas importantes.”
Necessidade – Liga o sentimento a uma necessidade que não está a ser satisfeita com aquele comportamento. - “Tenho necessidade de parte do tempo que dedico à televisão para as minhas tarefas.”
Pedido – Depois de sentir esta necessidade, que pedido podes a fazer a ti mesmo? – “Vou estabelecer um determinado tempo para ver televisão, de modo a ter tempo para realizar as minhas tarefas.”

Os erros como etapas do progresso
"Os erros são as dores de crescimento da sabedoria. Sem elas não haveria nenhum crescimento individual, nem progresso, nem conquista." William Jordan

Em CNV olhamos para os erros de uma forma positiva, sem lhes dar qualquer valor ético que nos leve ao sentimento de culpa. Se um erro fica colado à nossa consciência, de forma a que pensamos nele uma e outra vez, é porque estamos a culpabilizar-nos pelo sucedido. Neste caso, devemos parar de pensar assim. 

“Errare humanum est” - na aprendizagem do que quer que seja - piano, andar de bicicleta, uma nova língua etc. - errar faz parte do processo. São oportunidades para aprender uma lição: se não houvesse erros não saberíamos quando acertamos. Na vida aprendemos mais com os nossos erros que com os nossos êxitos; os erros ensinam, os êxitos não. São os erros que nos dizem o que já aprendemos e o que nos falta ainda aprender.

Na tradição religiosa judaico cristã, o mau ato chama-se pecado. O conceito de pecado, hoje tão moralizador, moralizante e tão ligado ao sentimento de culpa e a uma consciência moral escrupulosa, por ser uma grave ofensa a Deus e ao próximo, originalmente não tinha este sentido, nem esta conotação moral.

Em amárico, a língua semítica nacional e oficial da Etiópia, pecado diz-se “Hatiat” que vem da raiz de hatá e que significa perdeu, não encontrou ou “errou o alvo”. Ou seja, imaginamos uma pessoa com o seu arco de flechas apontando, para a diana ou alvo, e errando. É isto que significa pecado: errar o alvo. Por isso, em si, não é uma má ação, mas um erro de cálculo ou de visão que simplesmente nos diz que temos de praticar mais.

Num dos seus workshops, uma mulher informou Rosenberg da gritaria que tinha acontecido entre ela e o seu filho antes de vir para a sessão:
Marshall: Que disseste a ti mesma depois da gritaria?
Mãe: “Disse que sou uma péssima mãe. Não deveria ter falado assim com o meu filho. Onde estava eu com a cabeça?”

Como não devemos tomar pessoalmente os insultos e críticas dos outros, também, de alguma maneira, não devíamos tomar a peito os nossos próprios julgamentos. Os sentimentos que acompanham o autojulgamento são a culpa, a vergonha, que nos mergulham na depressão.

No caso da educação, estes sentimentos podem levar a mãe, de alguma forma, a compensar o seu filho, sendo condescendente ou demasiado complacente, fazendo com que a emenda seja pior que o soneto. Precisamos aprender, mas sem nos odiarmos a nós mesmos, sem nos insultarmos. A aprendizagem que ocorre através de culpa ou vergonha sai-nos cara a nós e aos que estão em estreita relação connosco.

Marshall - Que necessidade tua ficou insatisfeita pela forma como trataste o teu filho?
Mãe - "Para mim é um valor e uma necessidade respeitar as pessoas, ao faltar ao respeito ao meu próprio filho fui contra a minha necessidade e valor de respeitar os outros.”
Marshall - Agora que a tua atenção está focada nas tuas necessidades e valores e não na culpa, como te sentes?
Mãe – “Sinto-me triste.”
Marshall - "Como sentes essa tristeza em comparação com o que pensavas antes ao dizer-te a ti mesma que eras uma má mãe e que não sabias onde estavas com a cabeça?
Mãe – “Sinto-me triste, mas aliviada e esperançada.”

Com o uso da CNV a gritaria daquela mãe, que a levou a auto qualificar-se como má mãe, o que a poderia ter levado à depressão e, consequentemente, a uma condescendência motivada pelo sentido de culpa, foi somente uma ocasião de aprendizagem. Ao ver-se livre do sentimento de culpa, esta mãe sentiu-se aliviada e esperançada de que para a próxima faria melhor. Em CNV não somos maus nem culpáveis, apenas nem sempre estamos à altura de satisfazer as nossas necessidades e valores.

“Quero” em vez de “tenho que”
(Don’t do anything that isn’t play) Não faças nada que não seja por gosto – Marshall Rosenberg

Em CNV não há deveres, coisas que temos que fazer quer queiramos e gostemos quer não. Não fazemos nada por dever nem fazemos nada pelos outros; tudo o que fazemos vai colmatar uma necessidade nossa, pelo que o fazemos por gosto e não por dever.

Quando o que fazemos é motivado pelo gosto de o fazer nunca nos cansamos de o fazer; a motivação é intrínseca. Pelo contrário, quando o que fazemos é motivado pelo dever, a motivação é extrínseca, não parte de nós, fazemo-lo triste e pobremente e, quando podemos escapar a esse dever, rapidamente o fazemos.

Uma das palavras mais violentas que os seres humanos inventaram é “dever”. "Eu não devia ter feito aquilo”, “eu deveria ter sido mais compreensivo." O “dever” coloca-nos em situação de dívida constante, que nunca conseguimos saldar, pelo que o que quer que façamos, por mais que seja, nunca é suficiente. Nunca vivemos satisfeitos quando o que fazemos é por dever, porque estamos em dívida. O que fazemos por dever não é fonte de felicidade e de alegria pois não foi feito nem por gosto, nem com gosto, foi feito porque tinha de ser feito; desta maneira, aquele que faz as coisas por dever, sempre vive insatisfeito. O “dever” é o chip que o sistema de dominação nos colocou na consciência moral para que eternamente vivamos como escravos, escravos do dever.

Tradução de dever em opção
1ºetapa – Traz à mente as coisas que habitualmente dizes a ti mesmo que tens de fazer; algo que não gostas e temes, mas fazes na mesma, porque achas que não tens opção.

2ªetapa – Reconhece que, fundamental e verdadeiramente, estás a fazer essas coisas porque optas-te por fazê-las. Assim à frente de cada item substitui “Eu tenho que…” por “Eu escolho…” e sente como a frase soa diferente aos teus ouvidos e ao teu coração.

3ªetapa – Toma consciência da necessidade que está inerente a cada coisa que escolhes fazer e completa a frase como essa necessidade, “eu opto por fazer… porque tenho necessidade de…”. Na eventualidade de não encontrares nenhuma necessidade, é melhor abandonares o que estás a fazer.

Em cada escolha ou opção, toma consciência da necessidade ou valor que vai satisfazer ou colmatar. Ao ganharmos clarividência das necessidades que são satisfeitas pelos nossos atos, experienciamo-los e vivemo-los como divertimento, mesmo quando são desafiantes, envolvem esforço, sofrimento e frustração. Não há grandes vitórias sem grandes batalhas; “tristeza bem ordenhada é nata de alegria” diz o provérbio.

Encaixar positivamente o passado
“Águas passadas não movem moinhos” Provérbio português

Frequentemente, a natureza humana parece funcionar ao contrário da natureza física. A água que já passou pelo moinho já não o pode mover; porém, em nós há muitas coisas passadas que nos movem, promovem e comovem ainda no presente, como a psicanálise veio demonstrar.

Ao contrário da psicanálise, que analisa o passado para encontrar nele a razão dos nossos males presentes, a CNV só se importa com o presente. Falar do passado em excesso pode não ajudar e perpetua a mágoa e a dor. Como “recordar é viver”, recordar as mágoas e os traumas passados é revivê-los, dando-nos a sensação de que ainda lá estamos.

A CNV não é contra o revisitar do passado, devemos dedicar-lhe um olhar positivo. Tal como no cristianismo lemos o Antigo Testamento à luz do Novo Testamento, é também no espírito do nosso presente que devemos ler o passado. E encaixar positivamente as experiências negativas, entoando o nosso “Felix culpa”, ou seja, ver que se o nosso presente é bom, o mal do passado, misteriosamente, também contribuiu para isso: “não há males que por bem não venham”. O acento, o foco da nossa atenção é sempre o presente. É nele que vivemos, por isso, a eterna pergunta que devemos fazer é: “o que é que em nós está vivo aqui e agora?”, ou seja, como nos sentimos aqui e agora, que necessidades temos e o que é que podemos fazer para tornar a vida mais maravilhosa?

“Os novos amores fazem esquecer os velhos”. – As experiências positivas do presente vão sanar os traumas do passado, vão ser os novos inquilinos do nosso inconsciente, vão desalojar os traumas que lá se encontram e ocupar o seu lugar, dando-nos uma sensação de felicidade e bem-estar. Portanto, ao contrário da psicanálise, que vai de trás para a frente, a CNV vai da frente para trás: a compaixão e a empatia para connosco mesmos e para com os outros, encarnada e vivida no presente, encarrega-se de sanar o passado como por artes de magia.

A comunicação não-violenta mostra-nos uma grande diferença entre o luto e o pedido de desculpa:

Pedido de desculpa – Em CNV não há pedidos de desculpa, pois fazem parte do jogo da violência. Quem pede desculpa sente-se culpado e sente-se culpado porque fez algo mau e, por isso, deve pagar o preço, deve fazer penitência, como a contrição no sacramento da confissão – admites que és uma pessoa má pelo que fizeste: confissão; – confessas o mal que fizeste e por fim estás obrigado a fazer uma reparação, – ou seja, a cumprir penitência para contrabalançar o mal que fizeste. Quando te odeias o suficiente, és perdoado. Só que isto pode transformar-se num círculo vicioso: odeiam-se e não se perdoam, não se perdoam porque se odeiam.

Fazer o luto – O violento pedido de desculpa, a mesma culpa, é substituída pelo luto, não violento. Num exercício de introspeção, a pessoa pergunta-se qual é a necessidade não satisfeita no dito comportamento. Quando nos damos conta da necessidade que não foi satisfeita, deixamos de sentir a culpa e a vergonha e sentimos um tipo diferente de sofrimento natural, não moral; um sofrimento que não nos leva a ficar ali a lamber a ferida, mas que nos dá esperança, porque conduz à aprendizagem, à sanação e não ao ódio a nós mesmos, à culpa, à auto-humilhação e ao buraco e prisão da depressão. Desta forma, aprendemos com os nossos erros, sem perder a autoestima e o respeito por nós mesmos. Culpar-se ou culpar os outros é sempre uma trágica expressão de uma necessidade não satisfeita, diz Rosenberg.

Apreço em vez de elogios
«Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para vos tornardes notados por eles; de outro modo, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está no Céu. Mateus 6, 1

“Fizeste um bom trabalho”, “és uma pessoa simpática” “és tão inteligente” - os elogios, ainda que positivos, também são os juízos de outras pessoas, implicam julgamento, ainda que positivo. Para Rosenberg, tão alienantes são os juízos negativos como os positivos, pois não dizem nada nem de quem os dá, nem de quem os recebe.

Não aprendemos nada sobre nós mesmos nem sobre os outros com linguagem estática que pretende avaliar todo o meu ser no contexto de uma única ação. Ao contrário, aprendo algo sobre mim e sobre os outros, quando estes me dizem não o que sou, mas como uma ação minha impactou positivamente as suas vidas, satisfazendo concretamente uma das suas necessidades.

É claro que faço o que faço por puro prazer e não para receber um agradecimento sequer; mas tenho necessidade de o receber para confirmar que a minha ação fez ou não mais prazenteira a minha vida e a dos outros.

É trágico trabalharmos tanto para comprar amor e elogios, negarmo-nos a nós mesmos, negar a nossa natureza e deixar de fazermos o que gostamos para fazer o que dá gosto aos outros. Tarde ou cedo, aqueles a quem queremos agradar ou os outros em geral, dão-se conta de que não somos nós próprios e ironicamente, com este comportamento, acaba por nos sair o tiro pela culatra.

Quando fazemos o que fazemos incondicionalmente, com o único intuito de enriquecer a vida, é quando recebemos o verdadeiro apreço dos outros. Mas como o que fizemos não o fizemos para o receber, então este apreço é uma celebração da vida.

Em CNV não se expressam juízos de valor genéricos a uma pessoa e não se usa o verbo ser; a gratidão expressada refere-se sempre ao ato que ajudou a enriquecer a nossa vida. Expressa-se ou recebe-se gratidão usando os quatro componentes: descreve-se o que a outra pessoa fez, descreve-se o que sentimos ante o que foi feito, em seguida descreve-se a necessidade ou o valor que foi satisfeito. Expressa-se gratidão para celebrar e não para manipular.

O apreço é, neste caso, apenas o feedback que confirma que os nossos esforços tiveram o efeito pretendido, o reconhecimento de que o nosso esforço valeu a pena e teve sucesso porque enriqueceu a vida, pelo que nos alegramos e celebramos de uma maneira que a aprovação dos outros nunca nos poderia proporcionar.
Pe. Jorge Amaro, IMC