31 de março de 2013

Ressureição ou Reencarnação?

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Assim também acontece com a ressurreição dos mortos: semeado corruptível, o corpo é ressuscitado incorruptível; semeado na desonra, é ressuscitado na glória; semeado na fraqueza, é ressuscitado cheio de força; semeado corpo terreno, é ressuscitado corpo espiritual. Se há um corpo terreno, também há um corpo espiritual. 1 Cor 15, 42-44

A reincarnação é um conceito, hinduísta e budista, que a New Age se encarregou de difundir no mundo ocidental cristão. O pensamento frágil, e tantas vezes incongruente, do homem de hoje fascinado com a possibilidade de ter sete vidas, como o gato, assimilou este conceito acriticamente. É frequente encontrar cristãos, que tanto acreditam na ressurreição como na reincarnação, sem se darem conta que os dois conceitos se auto-excluem.

Como tudo, o que é autenticamente humano, a fé sempre escapará à lupa do método científico de conhecimento; o homem não é objecto de ciência. No entanto, para não degradar em pura superstição, a fé tem de estar casada com a razão. A superstição é irracional, a fé, não sendo racional, é pelo menos razoável, plausível, deve fazer sentido. Façamos o teste da razão a ambos os conceitos:

Reencarnação – Como na filosofia grega para os orientais a alma é eterna, existe antes e é independente do corpo que encarna. Num processo ascendente rumo à perfeição, cada vida, cada corpo, que a alma encarna, é uma oportunidade para progredir rumo à perfeição, encarnando sucessivamente em formas de vida superiores e cada vez mais perfeitas. Ao contrário, quando a alma se porta mal regride, ou seja reincarna, na vida seguinte, numa forma inferior de existência que pode até ser um animal, uma vaca por exemplo.

Astronomia – A reincarnação, parece supor que o mundo sempre existiu e sempre existirá; mas a astronomia actual diz que o mundo começou a existir com um Big Bang e deixará um dia de existir, quando o universo tiver gasto toda a sua energia

Demografia – A reincarnação para ser possível supõe um planeta com a mesma população ao longo dos tempos. A demografia diz-nos que o homem começou a habitar neste planeta há 5 milhões de anos; calcula-se que a população mundial no tempo de Jesus fosse de 300 milhões de pessoas, agora somos 7 mil milhões.

Evolução das Espécies – A vida começou com um ser unicelular que se foi diversificando e progredindo, para espécies sempre superiores e mais inteligentes até chegar ao ser humano. A ciência da evolução das espécies não conhece nenhuma regressão. Entre nós e os animais há milhões de anos de evolução que não são reversíveis.

Genética – A combinação dos genes, no código genético de cada ser vivo, é única e irrepetível na história da vida deste planeta; parte da dignidade humana deve-se a este facto. Não faz sentido que uma alma possua um código genético, por cada vida que vive, nem faz sentido que vários corpos da mesma alma possuam um mesmo código genético.

Regressão – Como explicar então certas terapias, que levam a pessoa a regredir e a conhecer o que foi noutra vida e que tipo de pessoa era? Se há alguma verdade neste fenómeno, poderia ser explicado pela noção de “inconsciente colectivo”, proposto por Carl Jung, discípulo de Freud. As pessoas não regrediriam então a outras vidas que tiveram mas sim, pela meditação e técnica de regressão, se conectariam a materiais psíquicos, que não provêm da experiência pessoal, e que se encontram no que Jung chama “inconsciente colectivo”; este é a uma espécie de base de dados, de herança e património de toda a humanidade, que contem tudo o que o ser humano é e fez ao longo da sua Historia.

Ressurreição – Este conceito não deve satisfações ou explicações a nenhuma das ciências descritas, anteriormente, pois não está em conflito com nenhuma delas. No pensamento judeo-cristão a alma não é eterna e está intrinsecamente unida, e para sempre, a um corpo; não existem corpos sem alma, nem almas sem corpos.

Pela Graça de Deus cada ser humano é naturalmente candidato à vida eterna, sendo todo o seu ser, corpo e alma transformado numa forma imortal de existência, o corpo espiritual ou glorioso (1 Cor 15, 42-44). Os que respondem negativamente à graça de Deus, negando-a nas suas vidas e vivendo de costas para Ele, estão, provavelmente, a auto candidatar-se à morte eterna, ou seja, ao regresso ao nada, de onde Deus criou tudo.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de março de 2013

A Morte não existe

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Senhor padre há uma coisa que não entendo; quando eu morrer, o meu corpo vai par a terra, a minha alma vai para o céu e eu? Para onde vou eu?

A morte não deveria preocupar-nos pois nunca coincidiremos; enquanto nós existirmos ela não existirá; quando ela existir não existiremos nós. Karl Marx

Com diz a lei de Lavoisier, na natureza nada se perde tudo se transforma. Em contínuo devir, nada permanece igual. Morte e vida são parte de um mesmo processo, não há vida sem morte nem morte sem vida. A morte não é um estado, em que se possa encontrar um ser vivo, mas sim a passagem de uma forma de vida para outra forma de vida. A morte é o meio, pelo qual a vida se diversifica e progride na evolução das espécies.

Cresce a erva verde dos campos até ao dia em que a gazela a come; a erva não morreu, progrediu e mudou de forma, transformou-se em gazela. A gazela pula e salta pelas ravinas, bebe água nos ribeiros e passeia pelos bosques até ao dia em que é comida pelo leão; ela não morreu, foi absorvida e assumida pelo corpo do leão. O leão como não tem predadores, morre de velho ou nalguma luta de supremacia de machos, os seus restos mortais são comidos pelas hienas e os abutres e o que resta, é comido pelas formigas e vermes que, por sua vez, ao morrer fecundam a terra onde volta a crescer a erva.

Aparentemente, tanto vale a vida como a morte pois nenhuma permanece, ambas se sucedem sucessivamente sem cessar. No entanto, se observarmos mais detalhadamente, damo-nos conta que não é assim. Apesar de serem duas partes ou etapas de um mesmo processo, a vida e a morte não estão em pé de igualdade; pelo contrário a vida está num plano superior porque não existe em função da morte mas a morte sim existe em função da vida. Não é portanto verdade o que diz o filósofo Heidegger: “Somos um ser para a morte”. A erva viveu durante meses antes de morrer; assim mesmo a gazela e o leão viveram durante anos antes de morrer; a morte foi um momento a vida foi anos; a morte foi uma passagem a vida é uma constante, somos portanto um ser para a vida.

O mesmo processo de vida-morte-vida, que acontece entre os seres vivos na cadeia alimentar, acontece no interior de cada ser vivo. O nossos corpo é formado por 100 trilhões de células; cada uma delas comporta-se como se fosse um ser vivo seguindo as regras que regem a vida neste planeta, ou seja, nascem crescem reproduzem-se e morrem (curiosamente só as células cancerígenas se recusam morrer); é desta forma que se explica o crescimento a transformação e envelhecimento do nosso corpo; cada 5 anos possuímos um corpo biologicamente novo.

A maturidade psicológica, que segundo Freud se dá na passagem do princípio do prazer para o princípio da realidade, também implica e supõe a morte. O mesmo, se pode dizer, para a maturidade espiritual: “Quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa há-de salvá-la”. Lucas 9, 24   

Como o leão que não tem predadores, está no topo da sua cadeia alimentar e é o rei da selva, o Homem é o rei da criação. Páscoa significa passagem; a nossa morte ou a nossa Páscoa é semelhante à de Cristo. A passagem de uma forma de vida, espácio-temporal, para uma vida na eternidade de Deus, na qual não seremos apenas uma alma mas, como Cristo, possuiremos um corpo espiritual, um corpo glorioso. Por isso não desfalecemos, pois “Bem sabemos que, quando esta tenda, que é a nossa morada terrestre, for desfeita, recebemos nos Céus uma habitação eterna, construída por Deus e não pelos homens“ (2ª Coríntios 5, 1).
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de março de 2013

O Jejum é para a vida o que o zero é para a matemática

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Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita, (…) Quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo (…) Quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto… Mateus 6, 3, 6, 18

Se orar é a nossa atitude para com Deus, é  dizer-lhe que O amamos sobre todas as coisas, sendo também a mais alta manifestação da nossa liberdade; se Dar esmola é a nossa atitude para com os outros, amando-os como nos amamos a nós mesmos, sendo esta a única garantia de igualdade e de justiça social, para que serve o Jejum?

Tal como o Orar e o Dar esmola, o Jejum também é algo mais que privar-se de alimentos, refere-se à atitude que temos para connosco próprios. Já descrevemos os dois valores sobre os quais assenta a vida humana; a liberdade, na sua dimensão individual e a igualdade, na sua dimensão social.

O jejum é como o zero ao serviço da matemática; foi a invenção do zero que fez possível a matemática, com a numeração romana, onde este não existe, a matemática não seria possível. Analogicamente é o Jejum que faz possível a igualdade e o amor ao próximo, assim como a liberdade e o amor a Deus.

Jejum em sentido lato - Como posso afirmar na minha vida o outro, seja ele Deus ou o meu semelhante, se não me nego a mim mesmo? (Marcos 8, 34) Se não jejuo ao meu egocentrismo e renuncio ao engrandecer e inchar do meu ego privando-me de ter mais? Que vassalagem posso prestar a Deus se me considero senhor de mim mesmo?

Como posso servir a Deus e ser livre se sirvo o dinheiro, (Mateus 6, 24) dei o meu coração às riquezas, ao poder, ao prazer? Se não me possuo, como posso dar-me ao Outro Deus ou ao outro meu semelhante? Como posso amar o próximo, e sentir-me igual a ele, se em vez de o servir, me sirvo dele? E como posso partilhar o que é meu, coisas, tempo e energias, se antes não renuncio a elas? Usando uma expressão muito actual no nosso país em crise, jejuar é cortar na despesa; é cortar na despesa que tenho comigo próprio, tempo, energias e recursos para poder dar e dar-me aos outros.

Jejum em sentido restrito, ou seja privar-se de alimento – O jejum, ou dieta em linguagem médica, está para a saúde da alma como o desporto está para a saúde do corpo. Não fazemos vida do jejum pois não somos monges, nem fazemos vida do desporto pois não somos desportistas; mas a pratica moderada do jejum, potencia tanto a saúde da alma como a prática moderada de desporto potencia a saúde do corpo.

O jejum e o desporto, assim entendidos, estão ao serviço da vida pois nos treinam para ela, concedendo-nos muitos benefícios. O desporto treina o corpo e a mente dando-lhe mais energia e saúde; o jejum, como privar-se de comer ou a abstinência como privar-se de certos alimentos, treinam a alma na arte e capacidade de negar-se a si mesmo, abnegação, autocontrole e força de vontade.

Como, depois do respirar, o alimento é a necessidade mais indispensável que temos, privar-se dele custa muito; por isso mesmo constitui o melhor treino para conseguir jejuar em sentido lato, ou seja, fazer cortes ao EU para afirmar o TU, que é o que verdadeiramente importa.

O jejum faz a pessoa animicamente mais forte e prepara-a para maiores sacrifícios e abnegações, o contrário também se verifica; aquele que não tem autocontrolo no consumo de alimentos e é guloso, dificilmente será uma pessoa que partilha, e é bem provável que também seja volúvel e ganancioso.

Esaú perdeu a progenitura por um prato de lentilhas (Genesis 25, 29-34); que a gula, pecado que já ninguém confessa nesta sociedade de consumo, não nos leve a perder o corpo e a alma. Como diz o povo “o guloso escava a sepultura com os dentes” e “a avareza rompe o saco”
Pe. Jorge Amaro, IMC


13 de fevereiro de 2013

Liberdade e Igualdade

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Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita, (…) Quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo (…) Quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto… Mateus 6, 3, 6, 18

No dia de quarta-feira de cinzas, que marca o começo da Quaresma, a Igreja recorda-nos três actos que, mais que práticas de piedade, têm que ver com a natureza humana e como os valores ou atitudes que todo ser humano deve cultivar.

O dar esmola – é algo mais que dar uns trocos a um pedinte da rua. Refere-se à nossa atitude para com os outros, engloba tudo o que fazemos por eles, a nossa caridade, a nossa solidariedade, o nosso serviço.

Tem que ver também com o segundo mandamento: amar o próximo como a ti mesmo. São Basílio dizia a este respeito ”o pão que te sobra e guardas na tua gaveta não é teu, é do que tem fome; a roupa que não vestes e guardas no teu armário não é tua, é do que vai nu”.

Devo amar o próximo como a mim mesmo porque somos irmãos, filhos do mesmo Pai que está nos céus, e porque somos irmãos somos iguais. A Igualdade e fraternidade, proclamadas pela revolução francesa, são, em realidade, um só valor pois como diz o proverbio: “O amor ou nasce entre iguais ou faz as pessoas iguais”. Lembremos o princípio dos vasos comunicantes: se duas tinas contendo desigual volume de água se comunicarem, o nível de água fica igual nas duas.

A Oração – também é algo mais que recitar orações, refere-se à nossa atitude para com Deus. Significa caminhar na sua presença (Génesis 17, 1). Manifesta o nosso agradecimento por tudo o que Dele recebemos; é também uma manifestação inequívoca da nossa indigência e dependência no sentido de que sem Ele, nada somos, nada podemos fazer (João 15, 5).

A oração é comunicar-se com Deus; comunicamo-nos com Deus por que o amamos; se a oração é um acto de amor a Deus também tem que ver com o primeiro mandamento o qual nos diz que Deus deve ser amado com todo o nosso coração, com toda a nossa mente e com todas as nossas forças (Deuteronómio 6,5). Ou seja, na nossa mente e no nosso coração não deve haver rival; Deus deve ser amado por cima de todas as coisas, nada nem ninguém se lhe pode equiparar.

Voltando à revolução francesa esta atitude corresponde ao valor da Liberdade. Só somos verdadeiramente livres quando amamos a Deus sobre todas as coisas e sobre todas as pessoas; quando não idolatramos realidades nem pessoas nem criamos dependência com respeito a coisas ou substancias. Ao manifestar a nossa única e exclusiva dependência de Deus, ao reconhece-lo como o único Senhor e ao ama-lo por cima de tudo e de todos, ascendemos acima de toda a criação, não prestamos vassalagem a ninguém nem a nada, somos verdadeiramente livres.

Concluímos então que Orar e Dar esmola, como nos propõe o evangelho, são mais importantes do que o que parecem à primeira vista. Orar é amar a Deus sobre todas as coisas, o primeiro mandamento da lei de Deus, e a manifestação mais inequívoca de que somos livres pois ao cortar amarras, com tudo e com todos, servimos um só Senhor. Dar esmola, partilhar, é amar ao próximo como a nós mesmos, o segundo mandamento da lei de Deus e a manifestação mais inequívoca de igualdade e justiça social: o outro é igual a mim e eu sou igual ao outro.

Liberdade e Igualdade são os dois princípios sobres os quais assenta a vida humana nas vertentes individual e social. A liberdade é o valor sobre o qual assenta a vida do indivíduo como um ser único autónomo, independente, válido em si mesmo; a Igualdade o valor sobre o qual assenta a vida do indivíduo como parte de uma comunidade.

A difícil harmonia entre estes dois valores só se consegue quando se exercem ou praticam no contexto do amor. Somos livres quando amamos sobre todas as coisas a Deus, que é Pai, e somos iguais quando amamos, como a nós mesmos, os outros filhos do mesmo Deus Pai, e portanto nossos irmãos.

Mas o evangelho de quarta-feira de cinzas propõe-nos para toda a Quaresma um terceiro acto, o Jejum. Para que serve o Jejum e que tem ele que ver com o Orar e o Dar esmola?
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de janeiro de 2013

Fé, Missão e Martírio

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Eu vim lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que ele já se tivesse ateado! Lucas 12.49
Em sintonia com o ano da fé, proclamado pelo Papa Bento XVI, Fé Missão e Martírio é o tema anual, de reflexão, para toda a família Consolata. Este tema percorre transversalmente e inspira as nossas actividades, encontros e retiros para este ano.

A fé verdadeira é mais que uma cosmovisão - uma forma de ver e interpretar o mundo e a vida; mais que um assentimento intelectual à crença na existência de um Deus, Criador do Céu e da Terra e Salvador em Cristo seu único filho; mais que um sentimento de amor por Deus e pelo próximo; mais que uma opção fundamental, pois transversalmente penetra tudo o que somos, sentimos e fazemos. A fé é tudo isto, mas é também, e sobretudo, um dom de Deus. Tal fé encontra na Missão a sua expressão natural. Parafraseando o apóstolo, Tiago 2,17, a fé sem Missão é uma fé morta.

Missão e martírio são uma e a mesma coisa. Missão não é fundamentalmente pregar a palavra de Deus, nem fazer obras de caridade, Missão é dar testemunho da nossa relação íntima de amor com Cristo, e oferece-la aos outros. Ninguém pode dar o que não tem, se não possuímos uma relação intima, pessoal e amorosa com Cristo não podemos, nem devemos ser missionários.

Testemunho em Grego é “martirete”; o missionário é o que dá testemunho de Cristo, quaisquer que sejam as circunstâncias, a tempo e a destempo, a propósito e a desproposito, como diz São Paulo. Esse dar testemunho pode significar uma vida curta, como a de Cristo, dar a vida num minuto; ou pode significar uma vida longa, sendo fiel minuto a minuto, todos os minutos da nossa vida.

Há portanto duas formas de martírio, como há duas formas de combustão: combustão viva, “poner toda la carne en el assador”, ou combustão lenta, como quando se faz carvão vegetal, lentamente a madeira transforma-se em carvão, que por sua vez lentamente vai ardendo e aquecendo quem tem frio.

Na verdade, quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, há-de salvá-la. Marcos 8, 35

Missão apela à vida, martírio apela à morte. Em Cristo, vida e morte encontram-se harmonizadas: “What is not worth dying for is not worth living for”. Não ocupes a tua vida com coisas pelas quais não estás disposto a morrer; que a razão da tua vida seja a razão da tua morte e vice-versa.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de janeiro de 2013

Dimensão Cristã do Tempo

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Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e pelos séculos. Hebreus 13,8

Eu sou o Alfa e o Ómega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim. Apocalipse 22, 13

O tempo cósmico, o Circulo, – Partindo do objectivamente observável, na Antiga Grécia e no Extremo Oriente prevaleceu sempre uma compreensão circular do tempo: do ponto de vista cósmico, os 365 dias que a terra leva a dar uma volta ao sol; do ponto de vista da Natureza, mais propriamente das mudanças climatéricas, as quatro estações do ano, Primavera, Verão, Outono e Inverno. A partir destes factos, nasceu para a Filosofia o mito do “eterno retorno”, para a Ciência a ideia de que “Não há nada de novo de baixo do sol” e para a Religião a crença na “reencarnação”.

O tempo humano, a Recta – Do ponto de vista existencial e humano, cada dia que passa é um dia mais que vamos viver e um dia menos do que nos resta de vida. Conceber o tempo como uma recta, que vem do passado, passa pelo presente e se dirige ao futuro, não é nada que se possa observar na natureza. O tempo em linha recta é o tempo da história individual e comunitária, o tempo que integra a ideia de progresso: hoje foi melhor que ontem, amanhã será melhor que hoje. Na Filosofia, a máxima “não nos banhamos duas vezes nas águas do mesmo rio” de Heraclito partilha desta compreensão do tempo, verificando-se o mesmo na Cosmologia e na Religião que veiculam as noções do princípio e do fim do mundo.

Esta é também a concepção judaica do tempo: a saída do Egipto (terra de escravidão), a passagem pelo deserto (lugar do sofrimento, penitência, purificação e esforço) e a entrada na Terra prometida, onde corre leite e mel (terra da liberdade, do esforço recompensado e da obra acabada). Este é o arquétipo do progresso e da vida humana preconizado, até, pelo teoria de Karl Marx, na qual: o Egipto seria o capitalismo, o deserto seria a ditadura do proletariado e a terra prometida seria o socialismo e a sociedade sem classes.

O tempo Cristão, a Espiral – É a síntese entre a recta e o círculo, dado que é um círculo em contínuo movimento para a frente. O dicionário da língua Portuguesa define espiral como sendo “uma linha curva, ilimitada, descrita por um ponto que dá voltas em torno de um polo e do qual se afasta progressivamente” como uma hélice, uma mola ou uma escada em caracol. Este é o tempo cristão e, inclusive, o humano (é de notar que é sob a forma espiral que o ADN do nosso código genético é representado). Como indica a figura, cada ano constitui-se por 365 dias à volta do Sol – Sol que é Cristo, que ilumina e dá sentido à nossa vida, que é o princípio e é o fim, quer do Universo como das nossas vidas individuais.

O tempo cristão, portanto, nem é um círculo nem é uma recta, ou seja, cada Natal e cada Páscoa são diferentes, dado que o ano em que estamos e as condições situacionais em que vivemos são diferentes. No entanto, Cristo é a constante durante toda a nossa vida, Ele é o eixo à volta do qual gravitamos, “É nele, realmente, que vivemos, nos movemos e existimos” (Actos dos Apóstolos 17,28). Cada ano que passa meditamos em torno do mistério de Cristo, desde a sua Encarnação até à sua Morte, Ressureição e Ascensão aos céus. Em última análise, para irmos saindo do nosso “Egipto” pessoal, configurando a nossa vida cada vez mais à Dele, no sentido um dia chegarmos à Terra Prometida e podermos dizer como São Paulo: “Já não sou eu que vivo é Cristo que vive em mim”. (Gálatas 2,20). Feliz Ano Novo amigos!
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de dezembro de 2012

"Ah se eu fosse homem!..."

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Depois de ter deixado a família na Igreja para a Missa do Galo, um agricultor Canadiano regressava a casa fugindo da tempestade de neve que se avizinhava. De nada tinha valido a insistência da sua mulher para participar na missa. Para ele a encarnação de Deus não fazia sentido. Enquanto dormitava ao calor da lareira, foi sobressaltado pelo embate de Gansos na porta e nas janelas. Afastados pelo temporal da sua trajetória migratória para o Sul, estavam completamente desnorteados.

Movido de compaixão, abriu os portões do grande celeiro e começou a correr, a esbracejar, a assobiar, a gritar e a enxotá-los para que se abrigassem até a tormenta passar. No entanto, os gansos esvoaçavam em círculos, sem entenderem o que significariam o celeiro aberto e os gestos dramáticos do desesperado agricultor (que nem com migalhas de pão espalhadas na direcção do celeiro os tinha convencido). Derrotado no intento da salvação das pobres criaturas, suspirou: “Ah, se eu fosse ganso! Se eu falasse a sua linguagem!”. Ao ouvir o seu próprio lamento, recordou a pergunta que tinha feito à sua esposa: “Por que razão havia Deus de querer ser homem?”. E, sem querer, balbuciou a resposta: “Para o salvar!”... E foi Natal.

“Religião” vem do latim “religare”, que significa relacionar-se, estabelecer uma relação. Desde a sua natureza, o homem sempre foi religioso e perspectivo que sempre o será. Sabendo-se precário e necessitado, o ser humano procurou sempre os favores da “divindade”. Assim, em todas as culturas, surgiram indivíduos que, considerados como tendo uma especial sensibilidade para se relacionar com o divino, se sentiram enviados por Deus – os profetas, na tradição hebraica.

Estes profetas nunca conseguiram, verdadeiramente, estabelecer uma ponte de comunicação entre o divino e o humano. Isto porque a Palavra de Deus, sendo transmitida por eles (homens com as suas características pessoais e inseridos num determinado contexto sociocultural), acabou por sofrer influência de muitas variáveis mediadoras (personalidade, preconceitos, estereótipos, padrões sociais), perdendo-se o significado da mensagem original.

Isto continua a acontecer mesmo depois de Cristo. Por exemplo, quando São João menciona o número de vezes que Jesus apareceu depois da sua morte, não considerou a primeira aparição que foi feita a Maria Madalena; concomitantemente, São Paulo também não menciona esta aparição e, além disto, refere uma outra à qual nenhum evangelista faz menção - a que foi feita a Pedro.

Ao longo da história da humanidade, Deus, apesar da sua omnipotência, encontrou-se na mesma situação de impotência do homem que não conseguia estabelecer comunicação com os gansos para os salvar; por isso, chegada a plenitude dos tempos exclamou ah se eu fosse homem!... “E Deus fez-se Homem e habitou entre nós….

Cristo, sendo simultaneamente Deus e Homem, é a verdadeira ponte que une a humanidade e a divindade, é o ponto de encontro, é a comunicação plena, sem viés ou influências. Na Sua palavra, no Seu comportamento, nas Suas obras e na Sua vida como homem, Deus disse-nos tudo o que precisamos de saber sobre Ele próprio e sobre o ser (e o dever ser) do homem. FELIZ NATAL!

Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de dezembro de 2012

O sentido da Vida

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O ser e o nada
Todo o homem e mulher que vem a este mundo pergunta-se: de onde venho? Para onde vou? Que sentido tem a vida? O ateu diz que vem do nada e volta ao nada. Que sentido pode ter algo que começa no nada e termina no nada?

A ciência e a técnica melhoraram a nossa vida nos últimos anos, mas não nos dizem, nem podem dizer-nos, qual é o sentido da vida. Contudo, a necessidade de dar um significado à nossa existência é comum a todos os mortais. De uma forma consciente ou inconsciente, todos tratamos de encontrar um propósito para a nossa existência e, de alguma forma, justificá-la.

Os que perdem ou nunca encontram o sentido da vida acabam por deprimir-se, sentindo a náusea do vazio, e frequentemente buscam pôr termo à vida. Depressa se apercebem de que uma vida sem sentido não vale a pena ser vivida.

Caminhante sem caminho
"Caminante, son tus huellas el camino y nada más;
Caminante, no hay camino se hace camino al andar.
" – António Machado

Por um lado, cada homem e cada mulher, que vem a este mundo nasce com um código genético único, que nunca existiu antes ao longo dos cinco milhões de anos de existência da espécie humana, nem existirá depois, até ao fim da história da humanidade.

Neste sentido, cada ser humano que vem a este mundo inicia um caminho novo, uma vida nova, que é sua e só sua. É nisto que consiste a dignidade da pessoa humana e a sua liberdade: pode viver a vida como quiser, encontrar e seguir o seu próprio caminho, que não existe previamente, como se estivesse predestinado, mas que vai sendo feito ao caminhar.

Como é ele quem faz o caminho, como intuiu o poeta espanhol, o único caminho que existe são as suas pegadas, ou seja, o percurso que vai traçando. Tal como os caminhos que surgem formados pelo facto de muitas pessoas passarem pelo mesmo lugar, feitos sem máquinas e sem intenção de os criar.

Por outro lado, ninguém chega aqui completamente isolado do que o precedeu. Tal como o nosso ADN é composto por material genético do nosso pai e da nossa mãe, também somos herdeiros de tudo o que a humanidade já fez ao longo da sua história. Cada indivíduo da espécie humana, consciente ou inconscientemente, acede ao que Jung chamava de inconsciente coletivo, que funciona como uma espécie de base de dados que contém a idiossincrasia da raça humana.

Neste sentido, cada ser humano que chega a este mundo dá continuidade ao que veio antes. Tal como numa corrida de estafetas, recebemos um testemunho, uma herança, uns talentos e, com a nossa vida, damos continuidade aos projetos que já existiam, imprimindo-lhes o nosso cunho pessoal e elevando-os a um nível mais alto.

É nesta continuidade que se acrescenta o nosso toque pessoal. Einstein recebeu a física mecanicista de Newton e, com a teoria da relatividade, elevou-a a um novo patamar. Mozart dedicou a sua vida à música e levou-a a um nível elevado; no fim da sua vida, passou o testemunho a Beethoven, que a elevou ainda mais. Cada atleta, em cada modalidade, estabelece novos recordes com base nos anteriores.

Caminho, verdade e vida
Todo o ser humano que vem a este mundo tem em Cristo o caminho, a verdade e a vida (João 14:6); ou seja, somos chamados a viver em Cristo, por Cristo e com Cristo. Humanismo e cristianismo são uma e a mesma coisa; o cristão é a medida do humano, e o humano é a medida do cristão.

"Quem não está comigo está contra mim, e quem não junta comigo, dispersa." (Lucas 11:23). Não existem dois humanismos, duas formas de viver a vida humana. Não há alternativa igualmente válida a Cristo; não existe outra forma de autorrealização, de viver a vida humana em plenitude e alcançar a felicidade. Portanto, quem não está com Ele, não está com outro, pois esse outro modelo alternativo não existe; assim, quem não está com Ele, está contra Ele.

No entanto, isso não significa que, sendo Cristo o modelo para todos os que querem ser autenticamente humanos, nos transforme em clones que se comportam como marionetas ou autómatos, com o mesmo tipo de personalidade, que pensam, atuam e vivem a vida da mesma maneira.

Quando afirmamos que Cristo é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus, estamos a dizer que, até agora, na humanidade, só Deus em Cristo conseguiu ser autenticamente, plenamente, 100% humano. Só Jesus de Nazaré conseguiu realizar plenamente o projeto de humanidade que Deus tinha para o homem quando o criou. Só Jesus de Nazaré conseguiu realizar plenamente o sonho de Deus e torná-lo realidade.

“Deus fez-se homem para que o homem se tornasse Deus” (Sto. Ireneu); eis a razão da Encarnação. Sem Deus, o homem nunca seria plenamente humano.

Diferentes na igualdade, ou iguais na diferença
Sendo 100% homem, Cristo representa a totalidade do ser humano; é o padrão pelo qual todos nos medimos, o horizonte, a meta, o objetivo simultaneamente alcançável e inalcançável da vida humana. Alcançável, porque está ao alcance de todos; inalcançável, porque ninguém jamais o igualará completamente.

Mesmo São Francisco de Assis, chamado por alguns teólogos de "alter Christus", não chegou a ser 100% como Cristo. Cada santo, ou seja, cada cristão que atinge o sucesso espiritual, vive uma parte da humanidade de Cristo, tanto em quantidade como em qualidade.

"Aqueles que recebem a semente em boa terra são os que ouvem a palavra, a acolhem, dão fruto e produzem a trinta, a sessenta e a cem por um." (Marcos 4:20). Em quantidade, porque, como sugere a parábola da semente que cai em boa terra, uns produzem sessenta, outros trinta por cento. Dependendo de um número ilimitado de variantes, vicissitudes e circunstâncias, alguns imitam Cristo em 60%, enquanto outros apenas em 30%. Não importa a quantidade, como parece sugerir a parábola, mas sim ter Cristo sempre como o único referencial da nossa vida.

"(…) Com medo, fui esconder o teu talento na terra. Aqui está o que te pertence." (Mateus 25:25). Em qualidade, porque Cristo possui a totalidade dos talentos; nós recebemos alguns talentos e não outros. Todos recebem talentos suficientes para tornar a sua vida viável, mas ninguém recebe todos os talentos. O importante é desenvolver e fazer frutificar os talentos recebidos, em vez de os esconder, admirar ou invejar os talentos dos outros, tentando viver a vida deles, o que nunca é possível.

Francisco de Assis e Francisco Xavier são ambos santos e até têm o mesmo nome, mas são bastante diferentes no caminho de santidade que seguiram. Francisco de Assis imitou Cristo na sua humildade, enquanto Francisco Xavier o imitou na sua impulsividade.

Existe uma teoria psicológica chamada Eneagrama, que defende que há nove tipos de personalidade diferentes e que cada ser humano pertence a um desses nove tipos. Cada um destes tipos desenvolve uma qualidade humana em detrimento de outras. Esta teoria sugere que Cristo, sendo 100% homem, incorpora a realização completa de todas essas qualidades.

Como Jesus é o modelo a seguir, o padrão da humanidade, a sua personalidade é formada pelo conjunto dos nove tipos. Na encarnação, Ele aceitou e viveu plenamente todas as formas da personalidade humana, por isso pode ser modelo e paradigma para todos os tipos de personalidade; caminho, verdade e vida para todos seguirem, cada um à sua maneira.

Conclusão - O sentido da vida reside em encontrar o nosso caminho único, inspirado por Cristo como modelo de plena humanidade, desenvolvendo os talentos recebidos e vivendo de forma autêntica e consciente.

Pe. Jorge Amaro, IMC


16 de novembro de 2012

Celebrar e viver a fé

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Se fores, portanto, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem algo contra ti, deixa a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois volta para apresentar a tua oferta. Mateus 5:23-24

Alguém dizia que a vida do cristão decorre entre a Igreja e o mercado. "Ite missa est", dizia o sacerdote em latim ao despedir os cristãos após a celebração eucarística dominical. Esta expressão não só significa que a missa terminou, mas também que estamos em missão. O cristão ou está em missa, celebrando a sua fé, ou em missão, vivendo a sua fé. A celebração e a vida são inseparáveis. Celebramos o que vivemos e vivemos o que celebramos.

Não é possível ser cristão sem ter uma relação pessoal com Cristo, que se expressa na oração, e sem celebrar esse mesmo Cristo na Eucaristia, em comunhão com os outros que partilham a mesma fé. Se a oração e a penitência são a celebração individual de Cristo, a Eucaristia é a celebração comunitária de Cristo com a comunidade à qual pertencemos, pois não se pode ser cristão sozinho.

Celebra-se o que se vive, vive-se o que se celebra
Iludimo-nos ao pensar que, mesmo sem qualquer manifestação pública ou privada da nossa fé, continuamos a ser católicos. Mas isso não é verdade. Quem não consegue viver conforme aquilo em que acredita, tarde ou cedo começa a acreditar conforme vive.

Tudo o que é valioso na vida só se alcança com esforço; a passividade, o “dolce fare niente”, não nos leva a lado nenhum, pois na vida o que é bom ou custa dinheiro, ou custa esforço, ou ambas as coisas.

Os motores de um avião não só o impulsionam para a frente, como também o mantêm no ar. De facto, quando o piloto quer fazer o avião descer, o primeiro que faz é reduzir a potência dos motores, e assim o avião vai descendo gradualmente. Porém, se reduzir a potência para menos de 200 km/h, o avião cai. Neste mundo, pela lei da gravidade, o que não tem força para subir, desce.

A nossa natureza caída e os nossos instintos já exercem sobre nós uma força gravitacional para o mal; para vencermos o mal e crescermos como pessoas, temos de nos esforçar e contrariar essa força. A oração, o confronto com a Palavra de Deus e todas as práticas religiosas são uma ajuda essencial. Sem elas, estamos à mercê dos nossos instintos e dos valores que a sociedade promove. “Vigiai e orai para não cairdes em tentação.”

“O espírito está pronto, mas a carne é débil.” (Mateus 26:41). O próprio Jesus experimentou que a fraqueza da natureza humana requer a ajuda da oração como exercício de autoconsciência, para nos mantermos em estado constante de alerta, e como solicitação da assistência divina, pois, como disse Jesus: “Sem mim, nada podeis fazer” (João 15:5).

Dizer que alguém é "católico não praticante" é um contrassenso, uma falácia. Não há pianistas, cantores ou futebolistas "não praticantes". Os dons, talentos ou aptidões que temos, se não os utilizarmos, perdemo-los. A fé é um desses dons que só se mantêm na medida em que são vividos e exercitados. “O que não se usa, atrofia-se”, diz o provérbio.

“O amor é como a lua: quando não cresce, mingua.” A fé também é assim: ou está a crescer e a fortificar-se, ou está a minguar e a enfraquecer. A liturgia da fé são os sacramentos, sobretudo a Eucaristia, a oração e a escuta da Palavra de Deus.

O amor também tem as suas liturgias: se não se expressa em palavras, poesia, canções, carícias e intimidade, começa a decrescer. A fé leva à prática das boas obras, e estas fazem a fé crescer. O amor é a mesma coisa; amar é querer o bem do outro e colocar-se ao serviço desse bem.

Eucaristia e Caridade
O pão eucarístico repartido é uma imagem ou um ato simbólico que nos recorda que, para sermos cristãos, outros Cristos, devemos repartir o nosso pão com os necessitados. Neste sentido, a Eucaristia, além de ser a celebração da paixão, morte e ressurreição do Senhor, é também um sacramento da memória.

Não apenas dos factos históricos, mas um ato simbólico que nos lembra outros gestos de Cristo (como montar num jumento em Jerusalém, lavar os pés aos discípulos ou expulsar os vendilhões do templo). Tudo isso nos mostra que a celebração da Eucaristia ritual só tem valor para quem celebra também a Eucaristia existencial, ou seja, quem reparte o pão com os pobres.

O cristão autêntico, o cristão a 100%, é aquele que celebra a memória do Senhor com a comunidade na Igreja, mas também individualmente na sua vida, dando esmola, ajudando e pondo em prática as palavras de Mateus 25: "Tive fome e deste-me de comer…". Quem reparte o pão apenas na Igreja, mas não o faz na vida, é meio cristão, assim como quem reparte o pão na vida, mas não o faz na Igreja.

Cristo está no pão que se dá em alimento; assim também nós devemos transformar-nos em pão para os outros. Devemos repartir o nosso tempo, energias e recursos, até nos darmos a nós mesmos. Cristo é pão, o pão é Cristo, e o pão que repartimos é Cristo dado aos outros. Deste modo, a prática cristã une-se à praxis cristã. A Eucaristia estende-se pela vida. "Ite missa est": termina o ritual e começa o existencial. Quando repartimos o pão físico, após o espiritual, reconhecemos Cristo nos outros.

Conclusão – A fé é uma atitude ante a vida que se celebra nos sacramentos especialmente na eucaristia, e se vive na caridade para com os outros. Não se pode divorciar a vida da celebração nem a celebração da vida. Quem não celebra o que vive não vive o que celebra.

Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de novembro de 2012

Fé: A Moeda das relações humanas

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Pois andamos pela fé, e não pela vista
. 2 Coríntios 5:7

O ser humano não é apenas um ser autónomo, livre e independente, mas também um ser profundamente relacional. Nascemos de uma relação de amor, crescemos como seres humanos se formos amados incondicionalmente. Podemos ter tudo na vida, mas sem amor, nada temos. Podemos alcançar o topo da sociedade mas, se não amamos e não somos amados, não seremos felizes. Mais importante do que saber por que vivemos é compreender para quem vivemos.

A vida humana nasce e desenvolve-se no seio das relações com os outros. Estas relações podem ser analisadas pelas ciências, especialmente pelas ciências humanas, mas possuem algo que ultrapassa o âmbito científico. A ciência serve para conhecer as coisas, mas não é suficiente para conhecer as pessoas. A fé e o amor são os alicerces das relações humanas, e nenhum dos dois pode ser objeto de estudo científico.

Conhecer e amar
Conhecer algo implica domínio e controlo. Se sei o princípio que regula a chuva, posso manipulá-la, como fizeram os chineses antes da abertura dos Jogos Olímpicos para garantir que não chovesse durante a cerimónia. No entanto, Deus não se conhece dessa maneira. Conhece-se a Deus como se conhecem as pessoas: através da intimidade e da relação.

Uma pessoa só se revela e se dá a conhecer quando é amada. Pelo contrário, quando um inimigo nos conhece, tornamo-nos vulneráveis. Tal como uma pessoa, Deus só se revela àqueles que O amam. Não podemos conhecer a Deus ou a outra pessoa sem nos envolvermos pessoalmente. Deus e as pessoas humanas não podem ser reduzidos a objetos de laboratório. Amar implica um compromisso; o conhecimento sem amor torna-se manipulação.

A fé: a base da confiança nas relações humanas
A fé é um salto razoável, sustentado pela razão. É como quem caminha por um caminho e, ao chegar a um precipício, precisa saltar para o outro lado. Fé é avançar rumo ao futuro ou ver o presente a partir de uma realidade ainda não concretizada. É como navegar sem uma rota visível ou, como uma criança que se lança para os braços do seu pai ou mãe, confiando que será apanhada.

No âmbito do conhecimento, a fé não se encaixa na análise lógica dedutiva. Relaciona-se mais com a síntese e o conhecimento intuitivo. Ter fé é intuir que algo é correto, mesmo sem garantias absolutas; é como passar um cheque em branco, emprestar dinheiro ou um livro, confiando que será devolvido. Fé é arriscar e apostar no incerto.

A teoria da relatividade geral de Einstein foi, durante muito tempo, um ato de fé, nascido de uma intuição do próprio Einstein e só recentemente conseguimos obter provas da sua veracidade.

Quando aceito um cheque por um serviço prestado, acredito que ele tem cobertura. Seria ofensivo e poderia perder um amigo se o recusasse. Ao entrar num avião, confio que as autoridades fizeram o seu trabalho para evitar qualquer perigo e que os pilotos estão preparados e bem-intencionados. Ao comer num restaurante, confio na qualidade da comida, sem exigir que seja analisada previamente. Em algumas culturas, como na Etiópia, a cozinheira prova a comida à frente dos convidados para garantir segurança, mostrando como a confiança está no centro de todas as interações humanas.

No casamento, acredito que a união será para toda a vida. Mesmo num empréstimo bancário, o banco, após a devida análise, concede crédito baseado na confiança de que o cliente devolverá o montante. Até o cartão de crédito funciona com base na fé. Fala-se em "fé nos mercados" como se fala em "fé em Deus".

Até a autoestima se relaciona com fé em nós mesmos. Podemos acreditar ou não nas nossas capacidades e essa crença influencia como nos lançamos na vida. Muitas vezes, arriscamos sem ter certezas, esperando que o sucesso confirme os nossos talentos.

Se Deus não existe, a vida humana carece de sentido
(...) Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé (...) aqueles que morreram em Cristo perderam-se. E, se esperamos em Cristo apenas para esta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens.
1 Coríntios 15:17-19

O enigma da existência humana está profundamente ligado à existência de Deus. Se Deus não existe, o ser humano, de certa forma, também deixa de existir como pessoa, e a sua vida perde o sentido. Filósofos que seguiram a ideia da "morte de Deus" — Jean-Paul Sartre, Albert Camus e Søren Kierkegaard — afirmaram que, sem a existência de um ser superior, a vida se torna absurda. Para que a vida tenha sentido, é necessário que existam critérios que guiem a nossa existência e que não sejam fruto da criação humana — princípios que transcendam a nossa origem e que possuam autoridade sobre nós.

Sartre afirmou: "O inferno são os outros". Assim como os soldados do sumo sacerdote prenderam Cristo, Deus foi aprisionado por Feuerbach, julgado por Marx e Freud — que, ironicamente, tal como Anás e Caifás, também eram judeus — e, por fim, condenado à morte e executado pelo "Pilatos" de Nietzsche.

Ironia do destino, com a morte de Deus, morreu também o ser humano, pois a vida perdeu o seu sentido. Após Nietzsche, os filósofos tornaram-se pensadores do absurdo e da náusea, como Sartre, não tanto em resposta ao "cadáver de Deus", que não possui corpo, mas ao do Homem.

Contudo, após reconhecermos que a existência do ser humano está intrinsecamente ligada à existência de Deus, e embora Deus preexista e exista independentemente do homem, o ser humano é a criatura para a qual Deus existe. Apenas uma criatura consciente de si própria pode atingir a consciência da existência de Deus.

Tal como mencionámos ao falar do animismo, foi a constatação da morte do nosso corpo físico que originou o nosso "eu" espiritual; foi o reconhecimento da morte como um fim que moldou a nossa compreensão da existência como um "ser". A existência é temporal, mas o "ser" é eterno. O desejo de eternidade, em contraste com a realidade da nossa temporalidade, fez-nos acreditar na existência de Deus, criador de tudo e de todos, e alimentou a nossa sede de O conhecer.

Outra ironia do destino: agora, o outro, o meu semelhante, com quem vivia em harmonia na sociedade, como afirma Sartre, transformou-se num inferno para mim. E, segundo ele, a única forma de sair deste inferno seria eliminá-lo.

No auge do absurdo, estes pensadores chegam a negar a natureza trinitária do ser humano. Um ser humano não existe isoladamente, mas em coexistência com outros dois — o pai e a mãe. Ou existem três, ou não existe nenhum. Como podem os outros ser o inferno? É o amor ao próximo, como a nós mesmos, que garante a igualdade, um princípio fundamental para a sociedade e para o ser humano como ser social e integrante dela.

Sem o amor ao próximo, a vida em sociedade seria impossível e, sem esta, a própria vida individual cessaria de existir. Se todos pensassem como Sartre, este mundo seria verdadeiramente um inferno.

Por outro lado, é o amor a Deus acima de todas as coisas e pessoas que nos garante a verdadeira liberdade, um princípio essencial para a dignidade da pessoa humana. Sem liberdade, não há vida humana plena, não há indivíduo. Só nos libertamos das coisas e das pessoas quando entregamos o nosso coração a Deus e aceitamos o Seu senhorio.

Se não rendemos vassalagem a Deus, que nos faz livres, acabamos por nos submeter a outras realidades humanas e mundanas — o poder, o prazer, a riqueza, a popularidade, a beleza física — tornando-nos escravos dessas realidades e, consequentemente, idólatras, ou seja, adoradores de ídolos.

Conclusão – Sem Fé, a vida humana não é possível. Para viver como indivíduo livre, autónomo e independente, o ser humano precisa de confiar em si mesmo. Para viver em sociedade, na família, na comunidade, na sociedade em geral, é essencial confiar nos outros.

Pe.Jorge Amaro, IMC

16 de outubro de 2012

Física quântica e Fé

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Se a mecânica quântica não te chocou profundamente, é porque ainda não a compreendeste. Tudo o que chamamos de real é formado por coisas que verdadeiramente não podem ser entendidas como reais. 
Niels Bohr

A física é a mãe da ciência
A física é, por si só, uma cosmovisão, ou seja, a matriz do nosso pensamento. Não é o mesmo observar o mundo pela perspetiva mecanicista e materialista de Newton, do que vê-lo sob o prisma da física quântica.

O pensamento contemporâneo já não explica a realidade com base na física mecanicista de Newton, mas sim na teoria da relatividade e na física quântica. No entanto, a maior parte dos pensadores, cientistas e até teólogos ainda têm as suas mentes formatadas pela física newtoniana.

O mundo da política, das universidades, dos meios de comunicação e da economia é um mundo de causa e efeito, onde uma causa gera sempre o mesmo efeito; por isso, é um mundo ateu, materialista e mecanicista. A física quântica, sendo uma novidade, demorará ainda a estabelecer-se como a nova cosmovisão e, quando o fizer, será muito mais fácil acreditar.

As universidades, a política e os intelectuais estão, assim, desfasados, atrasados e fora de sintonia com a nova realidade. Vivem numa cosmovisão obsoleta. Para se atualizarem, devem divorciar-se de Newton e casar-se com Heisenberg. O mundo não é nem funciona da forma que eles acreditam.

Falar dos milagres de Jesus à luz da física mecanicista de Newton, onde a realidade funciona como uma máquina perfeita na rotina inalterável de um relógio, é mais difícil do que abordar os mesmos temas sob a ótica da teoria da relatividade e da física quântica, onde já não existem leis fixas e absolutas da natureza, mas sim probabilidades estatísticas.

O princípio de Heisenberg vai ainda mais longe ao sugerir que a realidade, longe de ser fixa e previsível, tem um elevado grau de incerteza e imprevisibilidade. A física quântica desafia até o senso comum.

Para Einstein, a matéria é uma forma de energia e a energia é uma forma de matéria; 95% do universo é constituído por matéria negra, que é invisível. Quão mais fácil se torna falar da ressurreição do corpo glorioso de Cristo e do corpo espiritual que teremos após a morte!

A mecânica quântica
A mecânica quântica altera profundamente os nossos paradigmas, desafiando a lógica que tem governado a ciência e a nossa vida, destruindo fronteiras que antes nos pareciam intransponíveis e acabando com dualismos que opunham realidades que julgávamos opostas, como:

•    Matéria e energia;
•    Estático e móvel;
•    Visível e invisível;
•    Tangível e intangível;
•    Previsível e imprevisível;
•    Material e espiritual;
•    Científico e filosófico.

Vejamos algumas destas oposições mais detalhadamente:
Matéria/Energia – O coração da matéria é tão intangível quanto a energia. O mundo dos átomos e partículas subatómicas é essencialmente energia. Embora possamos medir e pesar os átomos, as partículas que os compõem são constituídas por cargas elétricas e estão em movimento, exibindo assim as propriedades da energia. Em essência, a matéria é descritível e quantificável, mas, em existência, é energia, pois reage, cria ondas e manifesta uma potência voltaica.

A matéria visível e sólida é composta por elementos invisíveis e, quanto mais penetramos no centro da matéria, menos encontramos massa e mais espaço vazio. As partículas subatómicas são, de facto, manifestações de energia. Portanto, o que antes parecia sólido e visível, agora reduz-se a ondas eletromagnéticas. Assim, o nosso corpo e tudo o que existe materialmente não são mais do que energia vibratória condensada.

Matéria/Espírito – O materialismo perde a razão de ser, já que a matéria é constituída por elementos invisíveis, quase espirituais. O átomo, que é a "alma" da matéria, é tão invisível quanto a alma humana no corpo. Portanto, não são apenas os seres humanos que têm alma; a matéria também a possui.

Inerte/Vivo – Não é mais evidente que apenas a matéria orgânica tem vida. As partículas subatómicas mostram-nos que a vida pode existir também ao nível dos quarks, embora de forma distinta da vida que conhecemos.

Visível/Invisível – A fronteira entre o visível e o invisível também se esbate. A massa de um átomo corresponde a menos de 1% do seu volume total; o resto é vazio, o espaço entre o núcleo e o eletrão.

Estático/Móvel – A matéria que compõe os objetos parece estática, mas isso é uma ilusão. Na realidade, tudo está em movimento. O eletrão orbita o núcleo de um átomo a 2 200 quilómetros por segundo.

Em mecânica quântica, a matéria visível é composta por elementos invisíveis, é aparentemente estática quando, de facto, está em movimento e, embora pareça diferente da energia, é apenas uma forma desta.

A dignidade da pessoa humana
"Fizeste-nos, Senhor, para Ti, e o nosso coração andará inquieto enquanto não descansar em Ti."
Santo Agostinho

O ateísmo são conjeturas intelectuais, enquanto o agnosticismo é uma preguiça intelectual, típica de uma pequena minoria que vive acomodada no consumismo de uma sociedade de abundância. A maior parte da população mundial é crente, e assim tem sido ao longo da História e em todas as culturas.

A evolução das espécies resultou num ser humano pensante, que se opõe ou sobrepõe ao resto da Criação, tal como o polegar se opõe aos outros dedos da mão. Este fato indica que o ser humano tem um destino diferente do resto dos seres vivos.

Só o homem anseia pela eternidade e tem sede de Deus. Se existe sede, deve existir água para a saciar. Logo, o desejo de Deus, presente em todo o ser humano, é prova da sua existência.

Acreditar é uma escolha livre
Apesar de todos os esforços dos cientistas para compreender os mistérios do universo e reduzir o campo da religião, nunca encontraram uma prova inequívoca que obrigue as pessoas a acreditar ou não acreditar. A ciência estuda o "como", mas não o "porquê". As respostas a essas questões pertencem à fé e à religião.

Conclusão
Enquanto os intelectuais estiverem presos à física mecanicista e materialista de Newton, o ateísmo parecerá uma escolha fácil. No entanto, à luz da física quântica, essa visão torna-se desatualizada. A realidade é muito mais fluida e imprevisível, onde as fronteiras entre o material e o espiritual, o visível e o invisível, se esbatem. A física quântica oferece uma nova perspetiva que desafia o pensamento ateísta e abre caminho para uma compreensão mais profunda da fé.

Enquanto a física newtoniana, com o seu materialismo mecanicista, pavimenta o caminho para o ateísmo, a física quântica desmantela essa visão limitada da realidade, dissolvendo as barreiras entre o visível e o invisível. Ao desafiar o materialismo, torna a fé na existência de Deus não apenas mais plausível, mas uma hipótese racionalmente mais coerente do que a crença na sua inexistência.

Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de outubro de 2012

Acreditar depois de Nietzsche

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"É pelas nossas virtudes que somos mais severamente punidos." - Nietzsche

Nietzsche aborda a sua crítica à religião partindo da moral ou ética, compreendendo que a moral não deriva da verdadeira natureza humana, mas sim de uma religião que impede o Homem de ser feliz. São as nossas próprias virtudes, ou o esforço que fazemos para as incarnar, que nos punem e nos tornam infelizes.

Biografia de Friedrich Nietzsche (1844-1900)

Nietzsche fez da moral e da religião o alvo dos seus combates, considerando que a sua guerra pessoal contra ambos foi a sua maior vitória. "Além do Bem e do Mal" é o centro dessa guerra, sendo o primeiro livro entre os seus escritos negativos e críticos, conforme ele próprio declara em Ecce Homo (1888), publicado postumamente.

Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em Röcken, Alemanha, a 15 de outubro de 1844. Era filho, neto e bisneto de pastores protestantes. Aos cinco anos, perdeu o pai e ficou aos cuidados da mãe, da avó e da irmã mais velha. Em 1869, com 25 anos, foi contratado pela Universidade da Basileia como catedrático de Filologia Clássica.

A Moral dos Senhores vs. a Moral dos Escravos
Nos seus livros Genealogia da Moral e Para Além do Bem e do Mal, Friedrich Nietzsche demonstra que a moral não é inata, imutável, nem derivada da natureza humana, mas sim um produto da História. Na pré-história, quando a linha entre o humano e o animal ainda não estava bem definida, alguns homens subjugavam outros pela lei do mais forte e mais capaz, uma regra que vigorava entre os animais. Os vitoriosos tornavam-se senhores, enquanto os derrotados se tornavam escravos.

Os senhores, ao triunfarem, julgavam a realidade com base em si mesmos e nos seus atos, devido à posição privilegiada que conquistavam após a vitória. Para eles, o "bom" era tudo aquilo que representava a sua forma de ser e agir: a violência, a guerra, a aventura, o risco, o poder, o prazer, a crueldade, a força física, a ação, a liberdade e a autonomia. Estes valores é que os colocavam numa posição de superioridade em relação aos outros.

Os senhores, aqueles que podem, querem e mandam, exteriorizam todos os seus instintos, agindo sem limitações. Podem matar, roubar, violar, banquetear-se e embebedar-se, pois ninguém os questiona — são eles que ditam a lei. Um exemplo disso, ainda nos dias de hoje, é o patrão, que tem mais liberdade para expressar os seus instintos em comparação com o empregado.

Os sacerdotes, ressentidos pela derrota e desejosos de vingança, ao não conseguirem vencer fisicamente os nobres, elaboram um plano para os superar mentalmente. Como a raposa que, não conseguindo alcançar as uvas, as declara verdes, assim fazem os sacerdotes à moral dos senhores.

Desta forma, nasce a moral dos escravos, que, não conseguindo impor-se no mundo real, inventam um mundo ideal, ascético, espiritual — Deus. Refugiam-se em mosteiros e negam a vida real, afirmando ser esta um "vale de lágrimas", para se concentrarem na vida do Além, onde serão felizes novamente. Negam a terra para afirmarem o céu, transferindo o valor da vida para fora da própria existência.

Em nome de Deus e da vida futura, abdicam desta vida, dos seus instintos sexuais, do poder, do prazer, e de tudo o que antes possuíam quando eram senhores. Os valores passam a ser o pacifismo, a humildade, a obediência, a pobreza, a prudência, o jejum, a abstinência, a igualdade e a fraternidade.

Nietzsche identifica os judeus como um "povo sacerdotal", e a moral dos escravos é, de facto, a moral do judaico-cristianismo, que gradualmente se impôs. Tanto o judaísmo quanto o cristianismo nasceram da escravidão: os judeus foram escravos no Egito, e os cristãos, durante séculos, foram a classe mais pobre, perseguida pelo Império Romano, até prevalecer sobre ele.

A moral dos senhores é autónoma, com valores definidos a partir da experiência individual; já a moral dos escravos é heterónoma, com valores impostos externamente, surgindo de normas como "Deus disse" ou "a Bíblia manda". A moral dos senhores é vital, baseada no corpo e nas suas necessidades e apetites; enquanto a moral dos escravos é abstrata, negando e sacrificando a vida real.

Critica à génese da ética de Nietzsche
A dicotomia de Nietzsche entre a moralidade de senhores e escravos é inegavelmente original e provocadora, lançando luz sobre as dinâmicas históricas da ética humana. Contudo, também corre o risco de simplificar em demasia a complexidade e riqueza dos sistemas morais. A sua associação da moralidade de escravos a valores como humildade, altruísmo e submissão — que ele afirma derivarem do ressentimento, uma postura reativa e vingativa contra os poderosos — pode diminuir injustamente as motivações genuínas e proativas por detrás dessas virtudes. Estes valores estão muitas vezes enraizados não na fraqueza ou no ressentimento, mas num profundo reconhecimento da interconexão e vulnerabilidade humanas.

As origens destes chamados valores de "moralidade de escravos" poderiam ser mais bem explicadas pela própria natureza humana, em vez de um quadro moral reacionário. Empatia, cooperação e o desejo de justiça são características profundamente enraizadas na evolução humana, essenciais para a sobrevivência e o florescimento das comunidades. A crítica de Nietzsche ignora estes aspetos naturais e construtivos do desenvolvimento moral.

Por outro lado, a moralidade de senhores que Nietzsche celebra, com a sua ênfase na dominância, força e autoafirmação, parece imitar a "lei da selva" ou a sobrevivência do mais apto. Esta perspetiva é problemática, pois pode ser usada para justificar sistemas ou comportamentos opressivos, priorizando os poderosos em detrimento dos vulneráveis. Essa valorização corre o risco de promover uma visão do mundo que desumaniza os considerados fracos e legitima a exploração, minando o progresso moral que visa garantir dignidade, igualdade e justiça para todos.

Além disso, a ênfase de Nietzsche no individualismo da moralidade de senhores em detrimento dos valores comunitários revela um ponto cego na sua filosofia. A sua famosa proclamação da "morte de Deus" e a celebração do Übermensch (Super-Homem) refletem a sua rejeição da moralidade tradicional e das obrigações comunitárias. No entanto, essa rejeição parece alheia às realidades da interdependência humana, onde as sociedades prosperam com o apoio mútuo e a responsabilidade coletiva.

Não obstante, a crítica de Nietzsche mantém o seu valor pela originalidade e pelo desafio que coloca às suposições morais inquestionadas. Ele identifica corretamente os perigos dos sistemas morais que retratam o mundo natural como um "vale de lágrimas" e desencorajam a agência humana. Contudo, uma abordagem mais equilibrada poderia procurar harmonizar os pontos fortes das moralidades de senhores e de escravos, enfatizando o florescimento individual juntamente com o bem-estar coletivo. Tal integração honraria os insights de Nietzsche, ao mesmo tempo que abordaria as dimensões mais amplas e ricas da ética humana.

Teísmo e Ateísmo
No que diz respeito à existência de Deus, Nietzsche segue os passos dos seus predecessores ateus. Para ele, a fé em Deus provém de um sentimento de impotência que o Homem experimenta em relação às realidades que o cercam.

Feuerbach, Marx e Freud, por exemplo, tiveram ligações ao cristianismo, seja pela sua formação teológica ou pela conversão dos seus pais. Parece que o ateísmo nasce do teísmo, ou é uma espécie de teísmo invertido, uma dialética semelhante à relação entre matéria e antimatéria no universo.

O ateu vive insatisfeito, sempre assombrado pela dúvida, à procura de mais provas para se convencer de que Deus não existe. O teísta também duvida, mas essa dúvida culmina num cogito ergo sum. O teísta opta por acreditar, encontrando na fé um sentido para o universo, o mundo e a sua própria vida, enquanto o ateu se instala no vazio, o que pode causar tormento e sofrimento.

Nietzsche, por exemplo, acabou os seus dias louco. Outros ateus preenchem esse vazio com a busca de poder, prazer, beleza ou dinheiro, dedicando-se quase religiosamente a essas causas. Muitos ateus, na verdade, podem ser considerados mais politeístas do que propriamente ateus.

Conclusão – Contrariamente à proposta de Nietzsche, a moralidade de senhores — enraizada na exaltação dos instintos e no individualismo descontrolado — não traz verdadeira felicidade, podendo antes fomentar injustiça social e conflito. Em contraste, a moralidade cristã, longe de ser submissão, assenta no amor e em valores que elevam a dignidade humana. O amor, como pedra angular da ética cristã, oferece um caminho para a transcendência, guiando os indivíduos além da mera sobrevivência para uma vida de significado e propósito autênticos.

Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de setembro de 2012

Acreditar depois de Sigmund Freud

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A religião e o sentimento religioso permeiam todas as esferas do pensamento e da vida humana. Karl Marx viu os efeitos da religião ou de uma certa religião na economia e na relação entre pobres e ricos. Freud vê a mesma religião desde uma outra perspetiva, a dos traumas sobretudo os de origem sexual.

Se para Marx a religião aliena o ser humano desde uma perspetivas sociologia e económica, para Freud a alienação atua a nível inconsciente e psíquico, a religião é neste sentido uma ideologia que impede o ser humano de ser livre, de ser ele mesmo, de aceitar a realidade e de se aceitar como tal.

Biografia de Sigmund Freud (1856- 1939)
Sigmund Schlomo Freud nasceu em Freiberg, na Morávia, então pertencente ao Império Austríaco, no dia 6 de maio de 1856. Filho de Jacob Freud, pequeno comerciante, e de Amalie Nathanson, de origem judaica, foi o primogênito de sete irmãos.

Tal como o pai de Marx, o pai de Freud também era um cristão convertido do judaísmo. A este respeito chegou a dizer que sempre se tinha considerado alemão, até ao dia em que os judeus começaram a ser perseguidos. Já refugiado em Londres, considerava-se judeu.

Aos quatro anos de idade, sua família mudou-se para Viena, onde os judeus tinham melhor aceitação social e melhores perspetivas econômicas. Na universidade de Viena se formou em medicina e mais tarde um mestrado em neuropatologia. Da neurologia passou para a psiquiatria e desta para a +psicologia ao estudar o inconsciente até se dedicar exclusivamente à psicanalise.

Durante dez anos, Freud trabalhou sozinho no desenvolvimento da psicanálise. Em 1906, a ele juntou-se Adler, Jung, Jones e Stekel, que em 1908 se reuniram no primeiro Congresso Internacional de Psicanálise, em Salzburg.

A religião como neurose obsessiva
Freud vê a religião como uma repressão dos instintos básicos do homem, sobretudo do sexual. Isto acontece porque a religião perverte os instintos naturais do ser humano, declara-os maus, impuros feios, sujos e animalescos e, como tal, devem ser reprimidos.

A religião é também um código moral que culpa os indivíduos de sentirem e expressarem os seus instintos. - Este tema vai ser retomado por Nietzsche na sua contraposição moral dos escravos, ou seja, entre a moral judaico-cristã e a moral dos Senhores, por outras palavras, a ética natural.

Segundo Freud, esta repressão conduz inexoravelmente a uma neurose obsessiva: o corpo pede algo, a mente não lho dá, esta acaba por entrar em curto-circuito e os fusíveis fundem-se. Tal como para Marx o socialismo e o comunismo seriam a solução para a alienação da religião, para Freud a psicanálise vai resolver a questão - removendo os traumas do passado, a pessoa reconcilia-se com ela mesma e com a sua verdadeira natureza.

Tal como acontecia com Marx, também Freud pouco sabia de religião, olhando mais o papel desta numa sociedade repressora e puritana. A sua teoria é mais que tudo uma reação ao puritanismo, como a de Marx era uma reação ao capitalismo desumano da época resultante da primeira revolução industrial na Inglaterra onde até crianças trabalhavam nas fábricas de sol a sol.  

Até agora, o único que tratou o assunto religioso do ponto de vista teórico foi Feuerbach na sua obra “A essência da religião”. Parafraseando o título desta obra, Marx e Freud trataram o assunto religioso desde o ponto de vista existencial, ou seja, de como a religião era uma arma dos ricos contra os pobres (Marx) ou uma repressão da natureza humana pela ideologia puritana para controlar os instintos básicos.

A religião como uma ilusão infantil
Para Freud o sentimento religioso é uma ilusão infantil, algo assim como acreditar no Pai natal. A maturidade humana acontece quando a criança abandona o Princípio do Prazer e abraça o Princípio da realidade. A religião mantém o ser humano numa eterna infantilidade porque é uma ilusão não é real.

Na sua obra “O futuro de uma ilusão”, Freud está convencido de que a religião nada mais é do que uma quimera que teve a sua função no mundo antigo, mas da qual agora nos devemos livrar para encontrar a verdade. À medida que a ciência avança, o futuro desta ilusão tornar-se-á cada vez mais incerto.

O seu amigo pastor protestante Pfister provavelmente tendo em mente Pascal responde a esta obra dizendo: Se a realidade se resume a uma visão materialista e aleatória da vida, que futuro podemos esperar? Ao contrário, se a este mundo gelado e materialista veio um Deus de sabedoria e amor podemos desejar a felicidade aqui e agora e esperar por um futuro risonho.

O burro tem esperança de poder a vir a trincar a cenoura; a esperança é o que o motiva a esperança é o que lhe dá uma razão de vida. É a esperança em poder vir a comer a cenoura que motiva o seu presente que o faz andar para o futuro. O presente de andar para alcançar a cenoura é motivado pela esperança de a alcançar. Sem essa esperança o presente não teria sentido.

Quem não tem futuro, quem não tem esperança anda a roda. Dá voltas sobre si mesmo e dessa forma atinge o aborrecimento de sempre o mesmo, o enjoo e a náusea da qual os filósofos do nada falam, Nietzsche e Sarte. Sem futuro, o presente é nauseabundo por mais prazenteiro que seja. Assim o experimentou Sartre, Nietzsche antes dele e Camus depois dele: “se vens do nada, não há Fé, se vais para o nada, não há Esperança o mais certo é que não haja Caridade pelo que a vida carece de sentido, é nauseabunda.

Não tem sentido a vida do ateu que afirma que vem nada e vai para o nada. O que vive instalado na pura mundanidade, vive num presente sem passado nem futuro como aconselham as filosofias e espiritualidades do extremo oriente como o Budismo. Só os animais não têm passado memoria histórica e futuro um objetivo para a vida. Os humanos só são humanos se vivem os três tempos, passado presente e futuro em harmonia.  

A Fé em Deus Pai abre-nos à Esperança que encontramos no Filho pela sua ressurreição e motiva um presente de Caridade, fazendo-nos ver a Cristo em cada irmão. E quem vê o Filho vê o Pai, como Jesus disse a Filipe. A Esperança é a filha unigénita da mãe Fé, como Cristo é Filho de Deus Pai e, tal como o Espírito Santo procede do Pai e do Filho, assim a Caridade procede da Fé e da Esperança.

As três virtudes funcionam na nossa vida como um GPS: a Fé, conecta-nos com Deus, a nossa estrela orientadora ou satélite, dizendo-nos onde estamos e o que somos, ou seja, pecadores. A Esperança diz-nos para onde queremos ir e o que queremos ser, isto é, Santos. A Caridade é o único meio e roteiro para chegar à santidade.

Freud parece não saber que o sonho comanda a vida
Eles não sabem que o sonho /é uma constante da vida/tão concreta e definida/como outra coisa qualquer, /como esta pedra cinzenta/em que me sento e descanso, /como este ribeiro manso, /em serenos sobressaltos, /como estes pinheiros altos, /que em oiro se agitam, /como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.


Eles não sabem que o sonho/é vinho, é espuma, é fermento, /bichinho alacre e sedento, /de focinho pontiagudo, /que foça através de tudo/num perpétuo movimento. (…)

Eles não sabem, nem sonham, /que o sonho comanda a vida. /Que sempre que o homem sonha /o mundo pula e avança /como bola colorida /entre as mãos de uma criança.
António Gedeão

Como diz António Gedeão, no extrato da sua poesia acima citado, o sonho comanda a vida. A ilusão é sonho de facto em espanhola ilusão não tem sentido de quimera de imaginação de algo falso, mas sim sentido de sonho de sonhar com um futuro melhor e já no presente fazer por ele, ou seja, trabalhar para que esse sonho se torne realidade.

O ser humano não se coloca problemas que não tenham solução, se existe um problema é porque existe a solução para ele, porque o que não tem solução, como diz o povo, solucionado está. Da mesma forma o Homem não sonha com impossíveis, não sonharia com a água se a água não existisse.

A própria teoria da relatividade de Einstein foi um sonho, foi uma intuição. Neste sentido o sonho é a antessala da realidade. O sonho é uma utopia no sentido grego da palavra, algo que não é realidade agora, mas que pode ser e muitas vezes é no futuro.

O melhor está para vir
É provável que o Senhor tenha criado a esperança no mesmo dia em que criou a primavera. Bern Williams

Não caminhamos para o ocaso das nossas vidas, mas para a aurora da vida eterna. Por isso, por mais felizes que estejamos, o melhor está para vir; por mais sofrimento que tenhamos, decrépitos, limitados, enfermos e velhos, o melhor está sempre para vir, não é aqui nas circunstâncias e vicissitudes do aqui e agora que colocamos a nossa confiança, pois sabemos que não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura (Hebreus 13,14)

Conta-se que uma paroquiada, mulher de muita fé e esperança na vida eterna, padecia de uma doença incurável pela qual lhe restava pouco tempo de vida. Preparou o seu funeral de tal forma que fosse para todos uma lição sobre a fé e a esperança que a animava. No caixão entre os dedos das suas mãos em vez de estar o Rosário, empunhavam uma faca e um garfo.

O sacerdote explicou ao povo que estava estupefacto pela sua ousadia e disse que ela durante os anos da sua vida não perdeu um jantar de gala da paroquia e que sempre que ia a devolver o prato como talher lhe diziam fique com o garfo e com a faca porque o melhor está para vir.

A morte, portanto, não é o fim, mas a passagem para o melhor que está para vir. Isso motiva a vida do cristão por mais doloroso e limitado que seja o seu presente.

Conclusão – Freud diz que a religião é uma ilusão infantil, como acreditar no Pai Natal… Mas o Pai Natal em que as crianças acreditam existe mesmo… é a imagem de Deus Pai que tanto amou o mundo que enviou o Seu Filho e foi Natal.

Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de setembro de 2012

Acreditar depois de Karl Marx

Sem comentários:

"Até aqui, os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diversas maneiras; o que importa é modificá-lo."Karl Marx

Karl Marx é mais sociólogo e economista do que filósofo. Embora continue a reflexão filosófica ateísta, aceita as ideias de Feuerbach e procura aplicá-las nos campos da economia e sociologia na sua crítica ao capitalismo. Como ele próprio afirma, não está interessado em teorias que não tenham uma aplicação prática com o intuito de mudar o mundo.

Está interessado em compreender qual tem sido o desempenho da religião ao longo do tempo, para que tem servido e a quem tem servido. Descobre que tem sido um instrumento de opressão usado pelas classes dominantes contra os mais pobres. Esta é uma visão simplista, que até o próprio Marx deve ter reconhecido, mas é a que melhor serve a sua teoria. Ou seja, o materialismo dialético ao serviço do materialismo histórico.

Biografia de Karl Marx (1818-1883)
Karl Marx nasceu em 1818 na cidade de Tréveris, então território da Prússia, no seio de uma família de classe alta alemã. O seu pai foi um bem-sucedido advogado e conselheiro de governo. Aos dezassete anos, Marx ingressou no curso de Direito na Universidade de Bonn, seguindo os passos do pai.

No entanto, o jovem universitário envolveu-se em festas e numa vida boémia. Para interromper esse estilo de vida, Heinrich Marx, seu pai, transferiu-o para a Universidade de Berlim. Lá, o contestatário e desafiador Marx descobriu a Filosofia, área em que se licenciaria.

Aos 23 anos, Marx defendeu a sua tese em Filosofia, obtendo o título de doutor, o que lhe permitiu ingressar na carreira académica. Contudo, devido às suas críticas ao governo prussiano, foi impedido de lecionar em universidades, obrigando-o a trabalhar como jornalista.

As posições radicais de Marx levaram a que fosse expulso de vários territórios prussianos, alemães e franceses, sendo definitivamente expulso de Colónia, na Alemanha, em 1848. Já na Inglaterra, nesse mesmo ano, publicou o "Manifesto Comunista" em conjunto com Engels. Desde 1843 até ao fim da sua vida, Marx sobreviveu das heranças, da ajuda de Friedrich Engels e de artigos que escrevia ocasionalmente para jornais. Foi em Londres que escreveu a sua obra mais importante: "O Capital".

A Religião como Ópio do Povo

Filho de um judeu convertido ao cristianismo protestante, Marx chegou a casar-se pela Igreja. No entanto, foi um revolucionário. Na sua obra emblemática, “O Capital”, analisou os males do capitalismo e viu na religião um obstáculo ao progresso, ou seja, à evolução do capitalismo em direção ao socialismo e comunismo.

Marx concorda plenamente com Feuerbach: Deus é uma projeção do homem, e a religião é então “o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, o espírito de uma época sem espírito. Ela é o ópio do povo.” Além de ser uma projeção, a religião é uma droga, um comportamento alienante que nos impede de sermos nós mesmos, de tomarmos as rédeas do nosso destino ou o leme do nosso barco. Em conclusão, constitui um entrave ao progresso.

O ateísmo de Marx é mais económico e social do que filosófico. Ele não tem interesse na essência da religião, seja ela judaica ou cristã, e de facto desconhece Cristo e os princípios sociais do cristianismo.

O que lhe interessa é o papel que a religião desempenha na sociedade. Portanto, o ateísmo de Marx pode dever-se ao tipo de religião praticada naquela época, que em si mesma poderia ter pouco a ver com o cristianismo de Cristo. De facto, a sociedade comunista sem classes do futuro poderia muito bem ser a Terra Prometida dos judeus, o Reino de Deus de Jesus de Nazaré e dos cristãos.

O que em Feuerbach era apenas uma ideia filosófica, em Marx é um manifesto, uma ideia operativa. No entanto, é preciso ressalvar que Marx acreditava firmemente que tanto o capitalismo quanto a religião cairiam por si só, sem necessidade de intervenção, como um fruto que amadurece, apodrece e cai da árvore.

Contudo, os seus seguidores entenderam que era preciso dar-lhes um empurrão, e foi precisamente isso que Lenine, Estaline e Mao Tsé-Tung fizeram com o ateísmo militante, que resultou na morte de milhões de pessoas durante a maior parte do século XX. O pobre Marx, ao perceber ainda em vida que havia tantas versões das suas teorias, chegou mesmo a declarar-se não marxista.

Escuta, Marx
A Marx, eu diria que até agora foram mais os religiosos que trouxeram benefícios à humanidade do que os ateus, que trouxeram gulags, ditaduras e perseguições religiosas, resultando na morte de cerca de 30 milhões de pessoas durante o século passado. A religião pode ser vivida como ópio do povo quando desligada da vida e da realidade social; porém, ópio do povo, na sua essência, não é.

Como dizia Karl Marx, o ser humano é o momento em que a Natureza ganha consciência de si mesma. De todos os seres vivos, somos os únicos com capacidade para pensar e com algum domínio sobre o nosso destino e a nossa vida. Não faz sentido que o nosso destino seja o mesmo do piolho e da pulga: o nada. Se assim fosse, eu e muitos outros preferiríamos não ter nascido, a partilhar com o piolho, a barata e a pulga o mesmo destino: o nada.

Aqui se verifica o absurdo do ateísmo: não faz sentido que um Universo ordenado inteligentemente, que progrediu até à vida humana, tenha o mesmo destino que o resto dos seres vivos. Para que teríamos chegado até aqui? Para termos maior consciência da nossa miséria e sofrermos mais que todos os seres vivos?

Precisamente no momento em que temos consciência de nós mesmos, da nossa existência e do poder relativo que temos sobre ela, também nos damos conta de que um dia morreremos, ou seja, de que um dia deixaremos de existir. Ao menos os animais, que também morrem, são poupados a este sofrimento. Não pensam, não sabem que existem e não sabem que hão de morrer.

Por que motivo temos consciência? Para experimentarmos de forma masoquista o sofrimento, a dor, a angústia e a ansiedade perante a morte, a nossa condição miserável em relação aos outros seres vivos?

Os animais não têm nenhum poder sobre as suas próprias vidas: a Natureza colocou-lhes no sistema um “chip”, o instinto, que governa automaticamente as suas vidas. Os seres vivos viajam em piloto automático; não podem enganar-se, nunca estão certos nem errados, ou melhor, estão sempre certos, sempre realizam a vocação para a qual foram criados. Ao contrário deles, os seres humanos têm algum poder sobre as suas vidas e podem transformá-las num céu ou num inferno ao se equivocarem. Não seria melhor vivermos também nós em piloto automático, visto que todos temos o mesmo destino?

Para os animais, a Natureza é uma mãe pródiga, que tudo lhes dá e até os veste. Ao sair do ventre das suas mães, já têm tudo o que precisam para viver. O ser humano nasce como o mais vulnerável e desamparado de todos os seres vivos e leva muito tempo até atingir a idade adulta: anos de educação, escola e universidade, e depois, para sobreviver, tem de trabalhar grande parte do dia para ganhar o pão com o suor do seu rosto, enquanto os nossos congéneres animais comem, dormem e se divertem. Para quê tudo isto? Não seria melhor a vida do animal se tudo acabasse em águas de bacalhau?

Conclusão
Embora certo tipo de religião possa tornar-se alienante, a religião de Jesus, longe de ser ópio, é o fermento de um mundo mais fraterno, baseado na igualdade e na justiça.o isto? Não seria melhor a vida do animal se tudo acabasse em águas de bacalhau?

Pe. Jorge Amaro, IMC


 

1 de agosto de 2012

Acreditar depois de Feuerbach

Sem comentários:

O sentimento religioso pertence à natureza humana, faz parte desta, e refere-se em geral a Deus como amigo do homem – toda a religião tende a estabelecer uma relação de amizade com Deus. Pelo contrário, os ateísmos negam que o sentimento religioso seja conatural ao ser humano e tendem a ver Deus como um inimigo do homem, um obstáculo à sua autorrealização, crescimento e progresso.

Já houve culturas e civilizações sem ciência e tecnologia, mas nunca houve uma sem sentimento religioso, sem religião. Porque a autoconsciência, que ocorre na vida humana por volta dos 6 ou 7 anos, é contemporânea da certeza de que um dia morreremos.

Por causa do cogito ergo sum, penso logo existo, sei que um dia deixarei de existir. As três perguntas que todo o ser humano se faz – de onde venho, para onde vou e que sentido tem a vida – afloram à nossa consciência no dia em que nos tornamos autoconscientes. A religião é a resposta a essas três perguntas.  

Biografia de Ludwig Feuerbach (1804-1872)
Nascido em Rechenberg em 1804, Ludwig Andreas Feuerbach foi um filósofo alemão conhecido pelo estudo da teologia humanista. Foi aluno do filósofo Hegel, mas abandonou os estudos hegelianos para, em 1828, iniciar estudos em ciências naturais.

A sua obra mais importante chama-se a “Essência do cristianismo” na qual discute a verdadeira essência ou antropologia da religião e conclui que toda a religião é uma forma de alienação na qual as pessoas projetam o seu conceito de “ideal humano” num ser superior. Feuerbach faz a transição do idealismo alemão para o materialismo histórico de Karl Marx e para o materialismo cientificista da segunda parte do século XIX.

A religião como projeção do Homem
Homo homini Deus est - O cristianismo fixou para si mesmo a meta de satisfazer os desejos inatingíveis do homem mas, por essa mesma razão, ignorou os seus desejos atingíveis. Prometendo ao homem a vida eterna, privou-o da vida temporal, ensinando-o a confiar na ajuda de Deus, retirou-lhe a confiança nos seus próprios poderes; ao dar-lhe a fé numa vida melhor no Céu, destruiu-lhe a fé numa vida melhor na Terra e o esforço para alcançar essa mesma vida. O cristianismo deu ao homem o que a sua imaginação deseja mas, por essa mesma razão, não lhe deu o que ele realmente deseja.

Para Feuerbach, a teologia é pura antropologia, pois não foi Deus que criou o Homem à sua imagem e semelhança mas, ao contrário, foi o Homem que criou a Deus à sua imagem e semelhança. Tudo o que se diz de Deus pertence ao homem, as imagens de Deus e tudo o que dele sabemos é antropomórfica. O Homem projeta, fora de si mesmo, num ser abstrato a que chama Deus, todas as suas aspirações, desejos e ideais. “Deus nada mais é do que o espírito humano projetado para o infinito.”

“O meu primeiro pensamento foi Deus, o meu segundo pensamento foi a razão, o meu terceiro e último pensamento foi o homem”.  Este brilhante filósofo começou a sua carreira como estudante de teologia, abandonando-a mais tarde para se tornar discípulo de Hegel. Feuerbach foi o primeiro grande ateu dos tempos modernos. Uma autêntica labareda de fogo, é o que o seu nome significa. Na verdade, julgo que todos os que vieram depois dele pouco ou nada disseram de verdadeiramente novo, apenas repetiram as suas ideias basilares por outras palavras.

Por esta razão, Feuerbach é o grande inspirador e é o precursor de Karl Marx, no sentido em que é o primeiro a proclamar e lutar pela emancipação do homem da tutela da religião que o enfraquece e priva do seu próprio poder. Para Feuerbach “A moralidade que não visa a felicidade é uma palavra desprovida de significado.” E avisa-nos de que “sempre que a moralidade se baseia na teologia, sempre que o correto se torna dependente da autoridade divina, as coisas mais imorais, injustas e infames podem ser justificadas e impostas.”

Por brilhante que possa parecer, a crítica que Feuerbach faz à fé e à religião, não passa de um sofisma. A projeção do Homem fora de si nada diz sobre a existência ou não existência de Deus: este pode existir com projeção ou sem ela.

A projeção humana, precisamente porque é humana, tem mais a ver com a natureza humana que com a natureza de Deus. Assim sendo, a projeção humana pode explicar por que motivo o pensamento de Deus sempre existiu na mente de todos os homens em todos os tempos; mas não tem nada a dizer sobre a hipotética existência de Deus. Pelo contrário, a persistência do próprio pensamento de Deus na nossa mente é mais uma prova da existência de Deus que uma prova da sua não existência.

Se uma pessoa tem sede ou desejo de beber água é porque deve haver água; é mais lógico pensar que a água cria o desejo que pensar que o desejo cria a água; até porque, cronologicamente na história do Universo, quando ainda estava longe a aparição do Homem, já havia água; portanto, a água preexiste ao desejo de a beber. Tenho para mim que se não existisse a água também não existiria a sede.

Voltando à sequência dos pensamentos de Feuerbach de Deus ao Homem, infelizmente, Feuerbach não parou no terceiro pensamento, Deus – razão – homem. Depois de ter rebaixado e degradado Deus à categoria de pura conjetura humana, não parou aí e continuou com o seu quarto pensamento que foi o sensível, com o quinto que foi a natureza e com o sexto que foi a matéria, chegando estupidamente a afirmar “o homem é o que come”.

Ou seja, quando se degrada Deus, acaba por degradar-se em consequência a criatura por Ele criada à sua imagem e semelhança. De acordo com o livro de Génesis, Deus tirou-nos da matéria (argila) e constituiu-nos como pessoas à sua própria imagem e semelhança. Se negamos a existência de Deus como pessoa, também negamos a nossa existência como pessoas, pois a Ele a devemos.

Se nós não somos uma pessoa, então voltamos ao que éramos antes de Deus nos ter criado, ou seja, matéria. Em conclusão, o que Feuerbach faz com o ser humano é uma involução darwinista...

Conclusão – Feuerbach argumenta que o Homem criou Deus à sua imagem, projetando nele as suas aspirações e ideais, e não o contrário. No entanto o desejo humano por algo transcendente pode ser uma prova da existência de Deus. Não existe sede sem agua nem agua sem sede.

Pe. Jorge Amaro, IMC

 












1 de julho de 2012

Ano da Fé

1 comentário:

¿Qué tengo yo, que mi amistad procuras?
¿Qué interés se te sigue, Jesús mío,
que a mi puerta, cubierto de rocío,
pasas las noches del invierno oscuras?

¡Oh, cuánto fueron mis entrañas duras,
pues no te abrí! ¡Qué extraño desvarío,
si de mi ingratitud el hielo frío
secó las llagas de tus plantas puras!

¡Cuántas veces el ángel me decía:
«Alma, asómate ahora a la ventana,
verás con cuánto amor llamar porfía»!

¡Y cuántas, hermosura soberana,
«Mañana le abriremos», respondía,
para lo mismo responder mañana!
Lope de Vega

Sempre ouvimos dizer que a fé é um dom de Deus e assim é de certa forma pois como diz São Paulo é o Espírito Santo que grita dentro de nós Aba Pai (Gálatas 4,6); ou como diz Jesus em João 15, 16, “Não foste vós que me escolhestes, fui eu que vos escolhi…”; No entanto, se a fé é fundamentalmente um dom de Deus, não seria Deus injusto porque não deu esse dom aos que se dizem ateus ou agnósticos?

Deus só ama os que o amam, gosto eu de repetir retoricamente nos meus sermões. É claro que é falso mas só é falso em teoria na prática é como se fosse verdadeiro. O que nos aquece não é o sol diretamente mas sim o feedback ou resposta da terra. De facto quanto mais alto e longe da terra estivermos mais frio temos (já todos vimos nos painéis informativos que a temperatura exterior de um avião que vai a 10.000 metros de altitude é de 50 graus negativos).

A salvação é gratuita mas não é automática; Deus alimenta as aves do céu mas não lhes deita a comida no ninho; elas têm que procurá-la. O que nos salva não é tanto a fé como dom de Deus mas sim a fé como opção e como resposta ao dom de Deus. Deus ama a toda a gente por igual; amava a Hitler e a Francisco de Assis da mesma maneira. A diferença entre estes reside na sua resposta ao dom de Deus: negativa no primeiro, positiva no segundo.

Eis que estou à porta e bato, se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo. Apocalipse 3:20

A porta só se abre por dentro, Jesus não tem como abri-la por fora. É na aceitação da graça de Deus que somos salvos, é na rejeição de Deus que somos condenados. A fé pode ser um dom de Deus, mas é também uma escolha humana. Diante da nossa liberdade, Deus Todo-Poderoso é impotente porque nos criou livres.

Pe. Jorge Amaro, IMC