15 de outubro de 2026

Missionário da Consolata para consolar a sua mãe

Ele consola-nos em todas as nossas tribulações, para podermos também nós consolar os que se encontram na tribulação. 2 Coríntios 1, 4

Como conceptualizo a génese da minha vocação
Hoje, à distância de muitos anos, quando olho para trás para a génese da minha vo
cação, consigo entender dois provérbios que explicam como Deus está sempre em ação na História dos homens e como consegue sempre “puxar a brasa à sua sardinha” ou “levar a água ao seu moinho”, mesmo quando a situação é adversa, pois Deus quer conduzir a História dos homens pelo caminho que leva à salvação.

“Deus escreve direito por linhas tortas” – Conhecido e traduzido praticamente em todas as línguas, é um provérbio português cuja origem remonta o século XVI. Usado e até abusado em teologia para dizer que, apesar de serem enviesados os caminhos dos homens, Deus consegue sempre que a sua vontade seja feita. Não precisa de linhas direitas para escrever direito; sempre escreve direito até mesmo quando as linhas são tortas. Escreve nas linhas e nas entrelinhas, conduzindo a História dos homens a um final feliz.

“Há males que vêm por bem” – É a versão portuguesa do provérbio espanhol bastante mais radical, “No hay males que por bien no vengan”. Significa praticamente a mesma coisa que o provérbio anterior. Deus consegue tirar partido até do mal; para Deus não há impossíveis, como diz a Escritura. Este pensamento já estava na mente de Sto. Agostinho quando chamou “Félix culpa” ao pecado de Adão. Adão pecou e isso foi mau, mas Deus “tirou partido”, engendrou um plano B ao preparar o mundo para o envio do seu Filho.

Promessa ou graça?
Decorria o ano santo de 1951, quando no dia 13 de outubro, aos 35 anos de idade, com mais 13 anos que o meu pai, a minha mãe se casou às 3h00 horas da manhã, fugida de casa, na Igreja paroquial da minha terra, Loriga, na Serra da Estrela. Não podendo ser celebrada a missa antes da aurora, partiram para Fátima em peregrinação. Lá, só Deus sabe se a minha mãe fez uma promessa ou se pediu uma graça, já não se recordava quando falámos sobre o assunto.

Pediu a graça de ter um filho sacerdote ou, com medo de não poder ter filhos dada a idade avançada com que se casava, prometeu que se os tivesse, um seria sacerdote. O meu irmão mais velho entrou no seminário do Verbo Divino de Tortosendo, mas, passado um ano, estava em casa. Não era aquela a sua vocação. 

Por aqueles tempos, às voltas com o complexo de Édipo, eu vivia na crença de que a minha mãe não gostava de mim, em parte porque era muito parca em carícias físicas ou verbais. Quase nunca me tocava a não ser para me dar uma bofetada; mas pior ainda, era muito trocista comigo, chegando a fazer coro com os meus dois irmãos mais velhos. E colocava-me alcunhas de fazer rir toda a família, coisa a que eu não achava graça nenhuma. 

Hoje sei que a minha mãe sempre me amou, mas à sua maneira, um amor que se manifestava mais em obras, que em expressões físicas ou verbais. Também vim a saber pelo meu pai que ela sofria por não saber ou poder expressar os seus sentimentos. Vi isso na maneira fria como ela tratava os meus sobrinhos, os seus netos. Mas este foi o mal do qual Deus se serviu para me chamar desde criança.

Esta frieza e distância contrastavam com o muito afeto que me tinha a minha professora, a Dona Soledade que, ao contrário da minha mãe, era muito afetiva, especialmente comigo. Eu não me sentia bem recebendo afeto de quem não tinha de mo dar e não o recebendo de quem tinha de mo dar. Revoltado com tanta amabilidade, um dia dei um pontapé à minha professora e recordo com pena que ela chorou e deitou sangue do nariz; puniu-me, mas não se vingou nem deixou de gostar de mim.

Coisas de criança?
Por causa do meu irmão sair do seminário, a minha mãe chorou durante uma semana pelo incumprimento da promessa ou não concretização da graça. Vendo que os dias passavam e as lágrimas não secavam, julguei, na minha mente de criança ser aquela a ocasião mais favorável para conquistar o amor da minha mãe. Foi então que lhe disse que não se preocupasse, que eu entraria no seminário e chegaria a sacerdote. 

A minha mãe não deu muita importância àquela promessa, deve ter pensado que eram coisas de crianças. Mas há crianças que determinam ou decidem a sua vida bem cedo; eu não fui a única. De facto, comparo-me a uma outra criança, canadiana que, com a mesma idade que eu, também decidiu o resto da sua vida. 

Chama-se Ryan Hreljac que, ao ouvir que a causa principal da morte de muitas crianças era a falta de água potável, angariou fundos para construir um poço em África. Depois do primeiro, outros se seguiram; hoje, ainda não tem 30 anos, é engenheiro hidráulico e continua a construir poços em África.

Durante os meus anos de escola, a promessa feita à minha mãe não foi um pensamento recorrente, diria até que foi esquecido, que se me varreu da mente. Vivi normalmente a minha infância, como um potro selvagem, sempre metido em aventuras com os meus amigos. Por aqueles tempos não havia sítio que eu não conhecesse. 

Recordo que olhava para a minha terra com certo desprezo, rodeada de montanhas, sem grandes horizontes: eu chamava a Loriga uma tigela. Quando subia à Portela de Arão e olhava para a imensidão de terras que dali se avistava para os lados de Seia, Viseu, e Guarda, recordo que esse horizonte me atraía…

De facto, o gosto pela aventura e pelo mundo desconhecido fez-me um dia tentar uma fuga. Por esses dias estava provavelmente cheio da minha família, da escola onde o professor me batia todos os dias. Na família, a minha mãe troçava de mim, assim como os meus irmãos mais velhos, o meu pai era muito severo, o que fazia com que eu levasse porrada quase todos os dias. 

Um dia levantei-me sorrateiramente, combinado com um amigo e fui para o coberto escuro da escola. Ali nos aninhámos os dois, esperando a primeira luz do dia para empreender viagem rumo a esse horizonte… 

Só que a minha mãe tinha ouvido a porta ranger e mandou o meu pai ver se os filhos estavam todos na cama. O meu pai deu o alarme, faltava eu. Esse dia era de feira. Foi direito ao coberto da escola, chamou-me e perguntou-me o que eu estava a fazer. Eu não disse nada, mas ele pensou que eu tinha ido esperar os feirantes, pois tinham-me prometido que nesse dia iam comprar-me umas botas novas na feira. A verdade é que eu ia fugir de casa e isso os meus pais, até ao dia de hoje, nunca souberam.

Além disso, a vida era dura, a minha família era pobre. A sardinha era dividida em três, muitas vezes à noite íamos para a cama só com um prato de papas de milho, sem açúcar nem leite. Recordo que eu e os meus irmãos apanhámos um dia uma cobra com uma truta na boca; matámos a cobra e trouxemos a truta para casa, pensando que a íamos comer… 

Mas não foi isso que aconteceu, já que, precisamente naquele dia, a minha mãe não tinha nada para fazer o jantar que eu iria levar ao meu pai na fábrica; a truta veio à minha mãe como anel ao dedo. 

Um ovo misturado com muita farinha e uns pedaços de bacalhau era comida para toda a família. Não era costume, mas eu sempre fiz questão de celebrar o meu dia de anos e esse dia exigia comer um ovo sozinho. Chegou o meu dia de anos e não havia ovos em casa. Fui ver das galinhas, já que muitas vezes era eu que as tratava. 

Apalpei uma e vi que tinha ovo prestes a pôr; já não a larguei, seguia-a para o palheiro e ela aninhou-se no meio do feno. Fiquei ali também perto dela e, como tardasse em pôr o ovo, adormeci e acordei quando senti algo quente na minha mão: era o ovo que ela tinha posto mesmo na minha mão. Corri para casa e lá satisfiz a tradição por mim estabelecida. Ainda hoje festejo os meus anos com um ovo estrelado.

Mais ou menos por esta época, um missionário visitou a nossa escola e falou-nos das suas aventuras em África; fiquei logo cativado. Eu era um aluno medíocre e provavelmente não seria apresentado a exame se, um belo dia, o professor Coutinho não tivesse perguntado o que é que queríamos ser depois da escola primária. Fui pronto a responder: queria ser missionário. 

O meu professor tinha sido seminarista e era uma pessoa crente que não faltava à uma missa dominical; ao ouvir a minha resposta mudou-me de lugar e colocou-me bem perto da sua secretária. Vi logo que ele, embora não desse um chavo por mim, ia agora apertar-me para me preparar para o exame final da quarta classe. Assim aconteceu, com a sua ajuda passei o exame final que me dava acesso ao ciclo preparatório. 

Sabia o que queria
Depois do exame final da escola primária, vindo eu a correr da escola como era habitual com a notícia de “aprovado”, a minha mãe perguntou “E agora o que é que queres fazer?” “Quero ser missionário”, foi logo a minha resposta. A minha mãe rejeitou a ideia dizendo “Queres fazer como o teu irmão? Entras e nem o ano terminas como ele fez?! “Não”, respondi eu, “eu chego ao sacerdócio!” disse eu, Não te lembras da promessa que eu fiz?” É provável que ela ainda se recordasse da promessa, são dessas coisas que as mães guardam no seu coração, pois o facto é que, ao recordar-lhe a promessa, ela passou a levar a sério as minhas palavras.

Tratámos logo de buscar seminário, contactámos o antigo seminário onde o meu irmão fracassara. Não havia vaga ou as condições e as propinas eram muito altas; o mesmo sucedeu com os Combonianos de Viseu. Não conseguindo nada com estas duas congregações missionárias, a minha mãe pediu ajuda ao Pe. Barreiros, o pároco da minha terra. Este, esquecendo a minha vocação missionária, tratou de me mandar para o seminário diocesano do Fundão. 

Para a minha mãe era o mesmo, mas eu deixei-a envergonhada quando me neguei veementemente a entrar na diocese; o meu sonho era ser missionário, o que ela entendeu porque pelos vistos ela tinha, em tempos de donzela, considerado essa vocação. 

Entrámos num impasse que durou dias, em que o meu pároco queria mandar-me para a diocese com a meia aprovação da minha mãe, mas eu não cedi. Por fim, cedeu o meu pároco, dizendo à minha mãe que tinha encontrado uma congregação missionária mais favorável, que eram os Missionários da Consolata de Fátima, com seminário menor em Vila Nova de Poiares, perto de Coimbra.

Feitos os devidos contactos, ali entrei. Quando em outubro deixei a minha terra pela primeira vez e o meu pai me foi lá pôr com 10 anos, o mundo desabou sob os meus pés quando o vi ir embora. Na minha terra vivia muito independente dos meus pais, mas eles, os meus amigos e irmãos eram tudo o que eu tinha. 

Quando o meu pai se foi embora, fiquei só, sem a minha família, sem os meus amigos e chorei amargamente; era este o preço que tinha que pagar. No entanto, nunca à minha cabeça veio o pensamento de abandonar, de voltar para a familiaridade da minha casa.

Fatores determinantes na minha vocação para além da minha mãe
Pensando bem, para que a génese da minha vocação não fosse só a minha mãe, teria que haver outros fatores que contribuíssem para eu ser hoje o que sou. Esses fatores existem e a minha mãe foi talvez só o gatilho que me fez decidir. Deixem-me então enumerar esses fatores, de caráter negativo e positivo. 

Eu era um miúdo feliz no meu grupo de rua com os meus amigos e amigas; éramos 3 Jorge(s) duas Fernanda(s) e um Carlitos. Na escola, era mau aluno e muito infeliz apanhando reguadas quase todos os dias. Muitas vezes, não ia à escola e nunca ninguém sabia, pois saía de casa como quem vai para a escola e voltava a casa como quem vem da escola; mas o dia passava-o sozinho nos montes. 

Para além destes dois fatores negativos, há outros positivos que orientaram a minha vida. Um missionário visitou a minha escola e falou-nos de África e das suas aventuras lá, deixou-nos a todos entusiasmados e a mim em particular que sempre gostei de aventuras e terras desconhecidas. 

A minha mãe tinha sido catequista e cantora na paróquia e confessou na família que em certa altura da sua vida tinha pensado em fazer-se missionária.  

Os filmes e bandas desenhadas de cowboys sempre me tinham fascinado pelas aventuras neles descritas em que o cowboy sempre desempenhava o papel de bom, de salvador, sem pedir nada para si mesmo. Fascinava-me o facto de depois de libertar a cidade de bandidos, o cowboy nunca aceitar casar-se com a moça que, entretanto, se apaixonara por ele, nem aceitar a estrela de xerife que lhe ofereciam os habitantes da cidade. O filme acabava sempre com a despedida dele, cavalgando para ocidente, em busca de outra cidade onde a justiça e a paz precisassem de ser restabelecidas.

No ano em que devia fazer a quarta e última classe da escola primária e porque me considerava mau aluno, o professor Coutinho colocou-me nas últimas carteiras da turma, junto com os alunos que ele tinha decidido não propor ao exame nacional da quarta classe. Um belo dia, porém, a uns meses desse exame, perguntou aos alunos o que queriam ser depois da quarta classe. Eu disse que queria ser missionário. O professor ouviu e calou.

No dia seguinte, quando chegou à escola, chamou-me e mudou-me de carteira, colocou-me na carteira junto à sua mesa. Isso significava que ia levar-me a exame e que ia puxar por mim, dando-me uma preparação especial para eu passar no exame, o que acabou por acontecer. Mais tarde, vim a saber que ele tinha sido seminarista. 

É minha ou é da minha mãe esta vocação?
Terminados os anos de Poiares, fui para Fátima, depois para Abrantes, depois para o Cacém, Valladolid, Madrid. Fui vendo, os meus colegas abandonarem os estudos e eu sem uma única crise vocacional. Uma crise forjei-a eu para me certificar de que retirava a minha mãe da minha vocação depois de terminar o liceu de Abrantes: convencia-a de que saía e durante todo o verão ela pensou que de facto eu tinha saído; ou então não acreditou em mim ou não fez grande questão…. 

Terminadas as férias de verão, fui para a faculdade no Cacém, escolha minha e não dela. A outra crise foi-me provocada artificialmente pelo Pe. Dário que me convenceu de que esta não era a minha vida; foi tão convincente que eu aceitei…. Passei talvez a única noite da minha vida em vigília e durante a noite dei-me conta de que não era verdade, que a minha vocação era mesmo esta e disse-lho. Ele aceitou, pelo que não se concretizou a minha saída.

Depois de muitas vicissitudes e dúvidas por parte dos meus formadores, nunca da minha parte, aos 28 anos, no dia 4 de maio de 1985, um mês depois do meu dia de anos, fui ordenado na capela do nosso seminário em Fátima pelo então bispo da Guarda Dom António dos Santos. Tudo tinha começado em Fátima pela promessa da minha mãe e tudo se cumpriu em Fátima. 

Hoje, quando as pessoas me perguntam como nasceu a minha vocação, esperam uma resposta bem diferente da que lhes dou, pois pensam que ela nasceu na juventude como acontece com muitas de hoje, ou já mesmo na idade adulta. Ficam pasmadas quando lhes digo que aos seis anos de idade eu quis ser o que hoje sou. 

Conclusão – A necessidade de consolar a minha mãe levou-me a descobrir a minha vocação como missionário da Consolata, vocação esta que me tem dado a oportunidade de levar a consolação do Evangelho a milhares de pessoas.  

Pe. Jorge Amaro, IMC



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