“Ichthus”, o primeiro símbolo do cristianismo
Durante os primeiros 9 séculos do cristianismo, os artistas não pintaram nem esculpiram a cruz de Cristo, pois era tida como um instrumento brutal de tortura. O filme “A paixão de Cristo”, de Mel Gibson, ilustra bem a realidade e a brutalidade desta forma de execução romana.
Obedeceu até a morte, e morte de cruz. (Filipenses 2, 8) Com diz São Paulo, a palavra fez-se carne, fez ser humano e aceitou todas as limitações e vicissitudes inerentes a essa condição, até a mesma morte e, entre tantas formas de morte, a pior de todas, a morte na cruz.
Por isso, o primeiro símbolo que o cristianismo adotou foi o peixe; não tanto porque os primeiros discípulos eram pescadores ou porque parte do ministério de Cristo foi realizado à beira do lago, mas porque a confissão de fé por extenso, de Jesus Cristo, Filho de Deus, salvador do mundo, nas suas iniciais em grego formava a palavra “Ichthus” que significa peixe.
De facto, o símbolo do peixe desenhado no ar ou na terra era usado como palavra-passe, senha e contra-senha por dois estranhos para se identificarem entre si como cristãos, no tempo em que o cristianismo era uma religião clandestina e portanto proibida.
Cruz de Cristo e mandamentos
Mesmo quando o evangelho os convidava a abraçar a Cruz, os primeiros cristãos fugiram dela. Ainda hoje, os nossos irmãos protestantes não gostam de representar a Cristo na Cruz, pois dizem que Ele ressuscitou e não está na cruz. Nós católicos, não somos masoquistas, sabemos que ressuscitou, mas não queremos esquecer o que Ele passou por nós.
A cruz de Cristo é a nossa bandeira, o Norte, o Sul o Este e o Oeste da nossa existência. Feita de duas hastes, uma vertical e outra horizontal, simboliza também os dois mandamentos do amor: amar a Deus sobre todas as coisas que nos convida a uma vida ascendente, a ascender sobre tudo e so
bre todos, provando só assim que somos livres, autónomos e independentes de tudo e de todos.
O amor subjuga-nos ao objeto amado; se o objeto do nosso amor é primeiramente Deus acima de todos os outros, pessoas e coisas, então somos verdadeiramente livres. E o segundo mandamento do amor, amar ao próximo como a nós mesmos, leva-nos ao princípio da igualdade: eu não sou inferior nem superior a ninguém, pelo que perante Deus somos todos iguais, sendo Ele nosso Pai, nós somos todos irmãos.
Miséria e misericórdia
Tenho sempre diante de mim as minhas culpas. (Salmo 50, 5) - Ao olhar para a cruz de Cristo devemos ver a nossa fealdade. O que levou Cristo à cruz foram os pecados dos homens do seu tempo e de todos os tempos: estupidez, raiva, desconfiança, corrupção institucional, traição de um amigo, negação de outro, fuga dos restantes, crueldade, injustiça, busca de bode expiatório, medo, inveja etc., a coleção completa da disfunção humana.
Na cruz de Cristo, a disfunção humana é revelada, exposta. São Pedro coloca esta mesma ideia claramente dizendo: Matastes o Príncipe da vida, mas Deus ressuscitou-o de entre os mortos: disso nós somos testemunhas. (Atos 3, 15). Em definitiva, o autor da vida veio e nós matámo-lo; pelo que à luz da cruz de Cristo ninguém é inocente. Foi morto pelos nossos pecados, os nossos pecados O mataram, pelos nossos pecados Ele morreu.”
Na cruz de Cristo encontramos o nosso pecado patente, a nossa miséria, mas também vemos nela a divina misericórdia. Jesus tomou sobre si o nosso pecado que acabou por matá-l´O; se permanecesse morto seria o seu fim e o nosso, mas como ressuscitou, na sua ressurreição devolveu-nos a vida que o pecado nos tirara e tiraria.
Na cruz de Cristo encontram-se a miséria humana com a misericórdia divina; na cruz de Cristo a misericórdia divina vence a miséria humana. Na árvore do paraíso venceu a miséria humana; na cruz de Cristo vence a misericórdia divina.
Salvação e saúde
Assim como Moisés ergueu a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do Homem seja erguido ao alto, a fim de que todo o que nele crê tenha a vida eterna. João 3, 14-15
Salvação e saúde têm em latim o mesmo termo, “salus”. Segundo a leitura, o símbolo da medicina é de facto também um símbolo religioso. O próprio Cristo se identificou com aquela serpente que Moisés ergueu no deserto para curar os judeus que tinham sido mordidos por serpentes venenosas.
Em Adão e Eva todo o género humano foi mordido pela serpente que espalhou o seu veneno e infetou a raça humana. Neste episódio do Livro dos Números que Jesus cita e com o qual se identifica, vemos já a ideia que levaria mais tarde os cientistas a descobrir que o antídoto contra o veneno de uma serpente é tirado desse mesmo veneno.
Injetado o veneno num corpo volumoso como o do cavalo, este reage criando anticorpos. Estes anticorpos injetados no corpo de alguém mordido por uma serpente vão neutralizar o efeito do veneno.
Há um tipo de glóbulos brancos no nosso sangue que se chamam neutrófilos e que, perante uma invasão de bactérias ou vírus, ingerem essas mesmas bactérias, germes ou vírus, causando-lhes a morte e evitando assim uma infeção generalizada; morrem para nos salvar.
“Vida por vida”, como diz o lema dos bombeiros. Cristo, como um neutrófilo, tomou sobre si o veneno da antiga serpente espalhado pela espécie humana, engoliu-o e este matou-o. Mas, do seu lado, saiu sangue e água que são os anticorpos de que precisamos para combater o pecado. A água do batismo e o sangue da eucaristia vencem o pecado.
Conclusão – Os grandes pecados que os protagonistas da morte de Cristo cometeram, são os mesmos que ainda hoje cometemos. Cristo morreu pelos nossos pecados porque foram os nossos pecados que O mataram.
Pe. Jorge Amaro, IMC
