Toda a esperança abandonai, ó vós que aqui entrais
Canto III O Inferno, A Divina Comédia, Dante Alighieri
Já são raros os pregadores que fazem sermões sobre o inferno; ninguém deseja abordar a questão. Parece que também aqui se aplica a lei do uso-abuso-fora de uso. De facto, outrora era tema obrigatório de um bom sermão… Naqueles tempos, o temor de Deus interpretado como medo levava mais gente à Igreja que agora o amor de Deus.
Apesar de ser palavra recorrente em toda a Bíblia, há já muitos cristãos e até teólogos e sacerdotes que não acreditam na existência do inferno. O inferno é aqui, dizem alguns. E é verdade, nós humanos temos a capacidade de fazer da nossa vida e da dos outros um céu ou um inferno. Mas nem este Céu nem este inferno são os últimos: “não há mal que sempre dure nem bem que sempre ature”.
A misericórdia de Deus é infinita, o seu amor não tem medida; de Deus é muitíssimo mais o que não sabemos que o que sabemos. Condenar-se-á alguém? Em que termos? Nem de Hitler podemos dizer que esteja no inferno.
No entanto, temos que admitir que existe uma possibilidade real de condenação. Se Cristo veio para nos salvar, veio para nos salvar de algo. Se não, a sua vinda não teria sentido. Se há salvação, então tem de haver condenação, a existência de um dos conceitos supõe a existência do outro.
Se não existisse a possibilidade de condenação, não seríamos verdadeiramente livres; não seria possível rejeitar a Deus; não haveria alternativa; seríamos umas marionetas condenadas a fazer o que Deus quisesse que fizéssemos.
Se não existisse a possibilidade de condenação, não haveria prémios nem castigos, nem existiria qualquer diferença entre o bem e o mal. É óbvio que uma ação sem objetivo é fútil e não faz sentido; se uma coisa não é boa para alguma coisa, não vale de nada. A bondade não pode ter valor por si mesma, tem que valer para algo além de si própria.
Banir a ideia de recompensa e castigo da religião equivale a dizer que a injustiça tem a última palavra. Não é lógico que o fim do homem que se esforçou toda a sua vida por ser bom, seja o mesmo do que, não só não se esforçou, mas foi deliberadamente mau.
Significaria que Deus não se importa se os homens são bons ou maus. Digamo-lo de uma forma grosseira e sem rodeios: olhando para o mundo à nossa volta, será que adianta ser bom? Se calhar é até mais proveitoso ser mau, corrupto, desonesto, mentiroso, irresponsável, ladrão, criminoso e cruel.
A ideia de inferno existe em todas as culturas e religiões deste planeta. Por mais simplista que pareça, sem um juízo final no fim desta vida e a existência da eternidade do Céu para os bons e da eternidade do Inferno para os maus, cairia por terra neste mundo a ideia do bem e do mal, do justo e do injusto. E se esta ideia desaparecesse do nosso coeficiente mental não haveria neste mundo polícia nem exércitos suficientes para manter a ordem e organização na nossa sociedade e conter os baixos instintos do ser humano. Seria a barbárie, reinaria a lei da selva, ou seja, a lei do mais forte.
Sorte têm os ateus e agnósticos por viverem num mundo onde a maior parte das pessoas é religiosa e acredita na existência de um Deus que é justo e bom e que as recompensará pelos muitos esforços, sofrimentos e por não terem tomado a justiça nas próprias mãos, apesar das injustiças sofridas. O inferno existe, mas pode não ser como a gravura mostra e a maior parte das pessoas pensam.
O que é o inferno
A ideia de um inferno que arde eternamente, onde as almas se queimam sem nunca se queimarem totalmente, onde sofrem os tormentos da morte sem nunca morrer, tem aterrorizado incontáveis gerações de pessoas ao longo da História da humanidade.
Sabemos que não é Deus que condena, mas sim o homem que se autocondena, quando livremente escolhe o mal. Mesmo assim, como pode um Deus, descrito na Bíblia como pai misericordioso e amoroso presenciar, impávido e sereno, um espetáculo de eterna tortura? As pessoas que estão a ser torturadas pedem a morte ao seu algoz para acabar o seu sofrimento; recusaria Deus dar um golpe de misericórdia se Lho pedissem?
Quando nenhum tribunal na Terra condena à tortura o mais criminoso dos criminosos, quando a tortura mais leve e pelo mais curto espaço de tempo está totalmente proibida no mundo, como pode um Deus que é amor criar uma câmara de tortura eterna?
Nos tribunais humanos, a punição é proporcional ao crime. Uma eternidade de tortura como punição não é proporcional nem sequer a uma vida de 100 anos toda ela votada ao crime. Como pode o tribunal divino ser infinitamente mais injusto que os tribunais humanos?
Na Bíblia, o inferno não vem descrito só como sofrimento eterno, mas também como morte eterna. De facto, das 54 vezes que a palavra inferno é nomeada, só em 12 significa lugar de fogo e tormento; nas restantes significa sepulcro, ou seja, morte eterna.
Como o homem teme mais o sofrimento que a morte, não é descartável um intuito pedagógico ao apresentar o inferno como sofrimento eterno, sabendo que, mais que a morte, o que o homem verdadeiramente teme é o sofrimento. Isto é claro na parábola do rico epulão e do pobre Lázaro, (Lucas 16,19-31).
Logicamente, à vida eterna contrapõe-se a morte eterna, não o sofrimento eterno. “Tanto amou Deus o mundo que enviou o seu próprio Filho para que todo o que crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. O texto diz não pereça ou morra, não diz não sofra, João 3,16. Tudo o que arde é combustível e o combustível não pode arder eternamente sem se extinguir ou queimar; isso iria contras as leis da termodinâmica.
… Lançado à Geena, onde o verme não morre e o fogo não se apaga. Marcos 9,48
A Geena era a lixeira de Jerusalém; o fogo nunca se acabava porque sempre estava a chegar outro lixo; o verme nunca morria porque o lixo se decompõe dando origem aos vermes. Ezequiel 18,4 Malaquias 4,1-3 e os Salmos 37,10 68,2; Mateus 13,40 sugerem que o fogo acaba com a existência, não os tortura indefinidamente.
Antropologia hebraica
Que o Deus da paz vos santifique totalmente, e todo o vosso ser - espírito, alma e corpo - se conserve irrepreensível para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. 1 Tessalonicenses 5, 23
A antropologia hebraica, subjacente à antropologia bíblica, é fundamentalmente unitária. Isto significa que pretende contemplar toda a realidade pessoal de uma determinada perspetiva. E assim a pessoa humana é, toda ela basal, isto é, carne.
Em segundo lugar, a pessoa humana é nefes, isto é, possui uma personalidade que podemos abordar do ponto de vista psicológico (psique).
E, finalmente, a pessoa humana é também toda ela, ruah, isto é, espírito, na medida em que nos entendemos como um ser aberto ao transcendente. Desta antropologia do Antigo Testamento e, em última análise, unitária, pois contempla toda a realidade humana de uma determinada perspetiva, encontramos um testemunho claro em 1 Tessalonicenses 5.23.
A única objeção ao inferno entendido como morte eterna é a crença grega da eternidade da alma que infetou o cristianismo até aos dias de hoje e que não tem nada a ver com a antropologia judaica, na base da qual está escrita a Bíblia. Na antropologia judaica, o homem não tem um corpo mortal e uma alma imortal; o homem é todo ele mortal se está fora de Deus e imortal se está com Deus.
Não tenhais medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Tende, antes, medo de quem pode destruir a alma e o corpo na Geena. Mateus 10, 28
Jesus que conhecia bem a antropologia hebraica, é bem claro neste texto, explicando que o ser humano é todo mortal quando vive fora de Deus e contra Deus e todo imortal quando vive com Deus e pauta a sua vida pela Palavra de Deus. O que vive em Cristo e morre em Cristo, ressuscita como Cristo para a vida eterna.
Se a alma é imortal, então o inferno é tortura eterna, se a alma é mortal o inferno é morte eterna, pois à vida eterna não se contrapõe tortura eterna, mas sim morte eterna. Alguns teólogos católicos chegam a dizer que o inferno é o nada, mas não um nada nihilista pós-moderno. Será algo como um analgésico que nos pouparia ao sofrimento de não ter vivido a vida que Deus nos tinha reservado, será um nada, mas um nada que dói como o fogo. Acho esta posição pouco diferente da clássica católica: o nada não pode doer e se dói não é nada, mas sim um eterno sofrimento.
O Inferno como anti-génese ou morte eterna
Todas as vidas me pertencem, tanto a vida do pai como a do filho, todas me pertencem. O que pecou é que morrerá. Ezequiel 18, 4
Mas agora, que estais libertos do pecado e vos tornastes servos de Deus, produzis frutos que levam à santificação, e o resultado é a vida eterna. É que o salário do pecado é a morte; ao passo que o dom gratuito que vem de Deus é a vida eterna, em Cristo Jesus, Senhor nosso. Romanos 6, 22-23
O homem que se converteu numa alma vivente pelo sopro divino, Génesis 2,7 é advertido pelo mesmo Deus de que, se comer do fruto proibido, morrerá Génesis 2,16-17; S. Paulo corroborando tantos outros textos bíblicos, afirma perentoriamente que o salário do pecado é a morte (Romanos 6,23).
O inferno, entendido como morte eterna, preserva tanto a bondade de Deus como a liberdade do homem. Mas o que é a morte eterna? É regressar ao nada de onde tudo foi criado. Regressa livremente ao nada quem responde “Nada” às 3 perguntas que todo o ser humano se faz quando atinge a idade de autoconsciência: De onde vimos? Para onde vamos? Que sentido tem a vida?
Os físicos do Universo dizem que há nele buracos negros que absorvem estrelas e galáxias; estas desaparecem neles. O inferno seria como um buraco negro onde o ser deixa de ser e se transforma em não-ser.
Quem nega a existência de Deus na sua mente e no seu coração, dizendo que vimos do nada e vamos para o nada e depois o nega também no decorrer da sua vida, cultivando valores temporais caducos em vez de valores eternos, a morte eterna como regresso ao nada será o resultado lógico da sua vida. É difícil encontrar alguém que negue a Deus de uma forma tão radical na sua mente, no seu coração e nas suas obras e só estes se condenariam.
O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Por isso, todos os valores humanos (amor, paz, justiça, música, arte, etc.) são atributos de Deus. Com o pecado reteve a imagem, mas perdeu a semelhança. Mas, à medida que cultiva, ou seja, que dá aos valores eternos a sua temporalidade, estes dão-lhe a sua eternidade e a semelhança com Deus.
Quem cultiva valores caducos como o poder, a riqueza, o prazer, está a viver só para si mesmo e, em vida, já está a cultivar a morte; está a investir na sua vida, comprando ações que não valem nada no mercado de valores do Céu; cultiva o nada e, quando eventualmente morrer, que poderá esperar? Nada…
Conclusão – Contrária à vida eterna é a morte eterna. Regressa ao nada de onde Deus o tirou, quem crê que veio do nada, vai para o nada, se nada foi o que fez em vida.
Pe. Jorge Amaro, IMC
