1 de outubro de 2023

VII Mistério: A mediação de Maria nas bodas de Caná de Galileia

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Três dias depois, celebravam-se bodas em Caná da Galileia, e achava-se ali a mãe de Jesus. Também foram convidados Jesus e os seus discípulos. Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: “Eles já não têm vinho”. Respondeu-lhe Jesus: “Mulher, isso compete-nos a nós? A minha hora ainda não chegou”. Disse, então, a sua mãe aos serventes: “Fazei o que ele vos disser”. João, 2, 1-12

No evangelho de São João, ao fim do capítulo anterior, Jesus disse a Natanael “verás coisas maiores do que esta” (João 1, 50). As bodas das quais nos fala o capítulo seguinte deram-se em Caná da Galileia, precisamente a cidade de Natanael. O último vinho que nas bodas normais é o pior, nestas bodas que são também um símbolo das bodas nas quais Deus Pai casa o seu filho com a humanidade (Lucas 14, 15-24), o último vinho é o melhor.

Natanael foi declarado por Jesus como “Um verdadeiro israelita no qual não há falsidade” (João 1, 47). Portanto podemos concluir que, neste texto, Natanael representa o povo judeu no seu melhor. Para este povo, que também é comparado à Vinha do Senhor (Salmo 79), o melhor estava para vir; pelo que o último vinho é o próprio Jesus, o vinho novo para o qual é preciso ter odres novos, ou seja, mentes novas e abertas para poder conter a potência de um vinho cheio de espírito.

Havia seis potes de água de pedra; e ao comando de Jesus a água neles transformou-se em vinho. De acordo com os judeus, sete é o número que é completo e perfeito; e seis é o número que é inacabado e imperfeito.  Pelo que, os seis potes de água em pedra representam todas as imperfeições da lei judaica. Jesus veio acabar com as imperfeições da lei e colocar no seu lugar o novo vinho do evangelho da sua graça. Jesus transformou a imperfeição da lei na perfeição da graça.

A quantidade de vinho é astronómica: 680 litros de vinho. Em nenhuma boda neste planeta se poderia beber tal quantidade; o que João quer dizer é que a graça que veio em Jesus e por Jesus é tamanha que chega para todos em todo o mundo para todos os tempos e ainda sobra, pois é ilimitada como o próprio Deus. “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (João 10, 10).

Para esta boda estavam convidados a mãe de Jesus e os seus irmãos. Jesus provavelmente convidou os seus discípulos também. Nesta boda, Jesus deixa de ser o filho de Maria para ser o Senhor, o mestre dos seus discípulos. É uma boda de despedida em que Jesus se embrenha na sua vida pública e corta o cordão umbilical que o une à família. Mais tarde, como sabemos, estes dois grupos, os irmãos do Senhor e os seus discípulos, não vão dar-se bem até a questão ser dirimida no Concílio de Jerusalém, presidido não por Pedro mas por Tiago, o menor e irmão do Senhor.

“Eles já não têm vinho”
Maria, a mãe do Senhor, depois que visitou a sua prima Isabel, continua a visitar o seu povo, em Fátima, Guadalupe e Lourdes e em tantos outros sítios, porque ela é um bom samaritano (Lucas 10, 25-37). Ela é uma boa observadora, tal como Deus Pai, das necessidades dos outros (Êxodo 3, 7) e, tal como Deus Pai, compadece-se do pobre e do aflito.   

O Senhor dos exércitos fará neste monte para todos os povos um banquete de manjares substanciosos, de vinhos bons, de carnes gordas e tenras, de vinhos escolhidos e depurados. Isaías, 25, 6

Naquele tempo, como em todos os tempos, faltar vinho numa boda era um autêntico desastre. O vinho tem lugar numa boda, tal como a carne. Uma boa comida sem vinho não apetece. Seria uma desonra para os noivos e um mau presságio que o vinho acabasse sem que os convivas se sentissem saciados. Maria anteviu tudo isto e dirigiu-se ao seu filho para que ele resolvesse a situação. É ele o salvador, não ela; é ele que pode fazer alguma coisa, remediar a situação, salvar a reputação dos noivos, não ela.

Maria que é a medianeira da Graça principal que é a vinda de Deus ao mundo, pois por ela veio e nela incarnou, provou, neste episódio das bodas de Caná, ser a medianeira de todas as graças pequenas ou grandes. Tudo o que Maria pede ao seu filho este concede. Maria é a nossa intercessora no Céu, ela observa o que nos falta e reporta ao seu filho.

A Vinha do Senhor que representa a casa de Israel (Salmo 79) já deu o que tinha a dar, já não produz fruto. Deus que manda sucessivos profetas à procura do fruto da uva não o encontra e, finalmente, manda o seu filho e os vinhateiros têm a ousadia de o matar fora da vinha. (Marcos 12, 1-12). O vinho na Bíblia significa geralmente alegria. Eis alguns dos muitos textos que testemunham isto mesmo:

Regressarão entre gritos de alegria às alturas de Sião, acorrendo aos bens do Senhor: ao trigo, ao vinho e ao óleo, ao gado menor e ao maior. Sua alma se assemelha a jardim bem regado, e sua fraqueza cessará. Jeremias 31, 12

Fazeis brotar a relva para o gado, e plantas úteis ao homem, para que da terra possa extrair o pão e o vinho que alegra o coração do homem, o óleo que lhe faz brilhar o rosto e o pão que lhe sustenta as forças. Salmos 103, 14-15

E as árvores disseram à videira: “Vem tu, reina sobre nós!”. Mas a videira respondeu: Poderia eu renunciar ao meu vinho que faz a alegria de Deus e dos homens, para colocar-me acima das outras árvores? Juízes 9, 12-13

Faz-se festa para se divertir; o vinho alegra a vida… Eclesiastes 10, 19

Afastaram-se a alegria e o regozijo dos vergéis da terra de Moab; fiz com que secasse o vinho nos lagares; já não se amassam as uvas entre gritos de alegria… Jeremias 48, 33

Já não beberei mais do fruto da vinha até ao dia em que o beberei de novo convosco no Reino de meu Pai. Mateus, 26, 29

Maria é a humilde filha de Sião, a virgem que deu à luz o vinho novo, Deus connosco, é a esperança de Israel, um rebento novo de uma vinha seca que já não produz vinho. Dela jorrará um vinho que é a salvação e sanação da humanidade. Nela e por ela, a vinha volta a produzir e há alegria já não só para Israel, mas para o mundo inteiro.

“Mulher, isso compete-nos a nós?”
Maria é uma mãe que corta o cordão umbilical com o seu filho e, em vez de o reter para si, o lança para a vida ainda antes de este, hesitante, pensar que já tenha chegado a sua hora. Faz recordar as andorinhas que lançam os seus filhos para fora do ninho pois chegou a altura de voarem para poderem emigrar para terras mais quentes quando o inverno vier.

As andorinhas não levantam voo do chão; por isso, o primeiro voo fora do ninho, se correr mal, pode também ser o último. Maria corre esse risco com Jesus, de o lançar demasiado cedo. Mas também ela era assistida pelo Espírito Santo, pelo que atuou com audácia e determinação.

A inicial relutância de Jesus em fazer o milagre é pedagógica, como acontece no caso da mulher sírio- fenícia. O que quer dizer é que mesmo que Jesus não queira ou que não esteja nos seus planos ajudar-nos, se fizermos o pedido por intermédio da sua Mãe Santíssima, ele não vai recusá-lo pois agora não é só um pedido nosso é também um pedido dela. Ela, por nós, coloca todo o seu peso, todo o seu valor, toda a sua importância e poder de influência nesse pedido, por isso Jesus não pode recusá-lo.

A desculpa de Jesus de que a falta de vinho não nos diz respeito a nós, é de facto a desculpa de todo o mau samaritano. Maria faz seu o problema dos outros, é empática. Muitas pessoas veem as necessidades dos outros e tal como os sacerdotes na parábola do bom samaritano, passam ao largo, pois pensam que o problema não é seu. Hoje sou eu que tenho uma necessidade, amanhã podes ser tu; por isso, o que queres que os outros te façam, faz tu aos outros: esta é a regra de ouro positiva de Jesus. (Mateus 7, 12)

“A minha hora ainda não chegou”

Jesus vê a sua vida como uma missão: não tem mãos a medir, o tempo é curto, não tem passatempos nem mata o tempo. É neste sentido que devemos entender esta frase, a sua missão ainda não começou, ainda está no tempo da preparação para ela. Lucas descreve a vida de Jesus numa peregrinação para Jerusalém; e, nesta peregrinação, todos os lugares e eventos apontam para a hora final da sua morte e redenção da humanidade.

Jesus parece ter sempre uma agenda cheia e tudo está devidamente organizado, controlado e calculado:

Vamos às aldeias vizinhas, para que eu pregue também lá, pois, para isso é que vim”. Ele retirou-se dali, pregando em todas as sinagogas e por toda a Galileia, e expulsando os demónios. Marcos 1, 38-39

Disse-lhes ele: “Ide dizer a essa raposa: eis que expulso demónios e faço curas hoje e amanhã; e ao terceiro dia terminarei a minha vida. É necessário, todavia, que eu caminhe hoje, amanhã e depois de amanhã, porque não é admissível que um profeta morra fora de Jerusalém. Lucas 13, 32-33

“Fazei o que ele vos disser”
A resposta de Jesus ao apelo da sua mãe, foi duplamente negativa; a primeira sacudindo a água do capote, dizendo que o problema não era nem seu nem dela e a segunda dizendo que, mesmo que pudesse e quisesse fazer alguma coisa, ainda não tinha chegado a sua hora.

Grande é a fé de Maria como a da mulher sírio-fenícia do evangelho (Mateus 15, 21-28) que não se desencoraja pelas negativas de Jesus e continua a acreditar que ele pode curar a sua filha e vai curá-la. Maria também faz ouvidos surdos às palavras negativas de Jesus e está tão certa de que ele vai fazer alguma coisa para solucionar o problema, remediar a situação, que imediatamente diz ela aos serventes que se coloquem à disposição do seu filho, para fazerem de imediato o que ele lhes ordenar.

É como se Maria nos dissesse, a cada coisa que lhe pedimos, “considera-o já feito o que acabas de me pedir”, ainda antes de referir a matéria ao Seu filho, porque sabe que um bom filho nunca recusa o pedido de uma mãe. Por outro lado, a nossa querida mãe do Céu não incomoda o seu filho por qualquer coisa, mas apenas quando se trata de um problema grave; e aquele problema das bodas de Caná era grave.

Podemos interpretar à letra este evangelho – faltar vinho numa boda – ou interpretá-lo metaforicamente, ou seja, a humanidade sem o vinho novo que é Jesus não tem alegria de viver, vive deprimida e sem sentido; e a depressão como sabemos, pode levar ao suicídio.

Fazer a vontade de Jesus é de facto a atitude do verdadeiro discípulo; mais que isso, é a condição “sine qua non” para sermos ou não sermos discípulos de Jesus: Mateus 23, 3 – Lucas 11, 28 – Mateus 6, 1 – João 13, 17 – Mateus 7, 23 - João 3, 21 – Mateus 7, 21-24 – Mateus 28, 18-20 – Lucas 11, 28.

Jesus tinha como alimento fazer a vontade do Pai (João 4, 34) o verdadeiro discípulo de Jesus não pode ter outro alimento senão ouvir a Palavra, digeri-la (Jeremias 15, 16) e fazer dela vida, ou seja, encarnando-a em todos e cada um dos seus atos, a ponto de poder ser outro Cristo na terra e assim continuar a sua obra de salvação.

Conclusão: Como embaixadora, Maria, informa o seu Filho das necessidades dos homens - “Não têm vinho…”; e informa os homens do que precisam de fazer para que essas necessidades sejam satisfeitas – “Fazei tudo o que ele vos disser…”

Pe. Jorge amaro, IMC












 

15 de setembro de 2023

VI Mistério: A Sagrada Família, triângulo de amor e harmonia 2ª Parte

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Três dias depois acharam-no no templo, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. Todos os que o ouviam estavam maravilhados com a sabedoria das suas respostas. Quando eles o viram, ficaram admirados. E sua mãe disse-lhe: “Meu filho, que nos fizeste?! Eis que teu pai e eu andávamos à tua procura, cheios de aflição.Lucas 2, 46-48

Observam sem julgar
Parece que os pais de Jesus conheciam já as normas da comunicação não violenta, pois não julgam, não criticam nem castigam o comportamento de Jesus. Apenas se limitam a observar o comportamento do seu filho e a comunicar-lhe essa observação. Ao passarem para Jesus a sua observação, fazem-no assertivamente, não agressivamente, tendo o cuidado de se responsabilizarem pelo sentimento de aflição, sem acusar Jesus de ser o causador dessa aflição.

Não pretendem ter a última palavra
Respondeu-lhes ele: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?”. Eles, porém, não compreenderam o que ele lhes dissera. Lucas 2, 49-50

Nas nossas famílias, durante a nossa infância, eram sempre os nossos pais que tinham a última palavra. O mesmo não acontece com a Sagrada Família de Nazaré. Neste episódio, é Jesus que tem a última palavra; a ignorância e a falta de compreensão dos pais de Jesus sobre a sua vida e ministério não os faz violentos nem quererem ter sempre razão.

Como diz S. Paulo, não usou os seus pergaminhos, rebaixando-se até à morte e morte de cruz
Em seguida, desceu com eles a Nazaré e era-lhes submisso. Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração. E Jesus crescia em estatura, em sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens. Lucas 2, 51-52

Jesus deve ter sido um menino prodigioso, como tantos no nosso mundo. Precoce em muitas coisas que decerto causavam admiração nos seus pais e vizinhos. No entanto, além de todos os talentos que Jesus possuía, era inerente à sua pessoa uma atitude de humildade que o fazia acatar com obediência as ordens dos seus pais.

José, o sonhador
Um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito; fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar”. José levantou-se durante a noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito. Ali permaneceu até à morte de Herodes, para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta: do Egito chamei meu filho (Os 11,1). Mateus 2, 13- 15

José transcendeu o seu próprio ego e ouviu a palavra de Deus à qual obedeceu prontamente, tendo partido para o Egito para salvar a vida do seu filho. A Sagrada Família sabe o que é ser perseguida politicamente, e sabe o que é ser refugiada política e emigrante num país que não é o seu. Fugiam de um genocídio que é coisa que sempre aconteceu e ainda acontece no nosso mundo. E o pior genocídio do nosso tempo é o aborto. O ser humano é o único animal que mata as suas próprias crias.

Herodes, o grande, pensou que era justificado aos olhos dos seus súbditos matar tantos inocentes pelo medo de que um destes pequenos inocentes lhe roubasse o trono. Líderes como este sempre encheram e enchem o mundo: pessoas que se apaixonam pelo poder conquistado e não mais o largam, sendo capazes de tudo para o ter e manter.

Quando cada membro da família põe de lado os seus projetos pessoais, como José, para obedecer ao projeto comum que é sempre aquele que Deus inspira nas nossas almas e corações, então todos os membros da família encontram a felicidade e a autorrealização. Herodes amava Herodes e as suas próprias ambições; e isso levou-o até a assassinar os seus próprios filhos.

José está sempre ao serviço da família, por isso a família está em primeiro lugar. Herodes coloca os seus projetos em primeiro lugar e a família fica em último; temos exemplos de grandes políticos que têm filhos problemáticos porque as suas famílias são disfuncionais por causa dos pais que, à semelhança de Herodes, colocam os seus projetos em primeiro lugar. Os filhos dos famosos raramente são famosos como os pais…

Muitos pais, nos seus trabalhos, fazem horas extraordinárias porque o patrão os faz pensar que são imprescindíveis: os pais aceitam de bom grado, pois assim têm mais meios financeiros para a sua família. Dizem que não querem que lhes falte nada mas, na realidade, falta-lhes o mais importante: a presença e o amor que não se concretiza sem esta. A falácia é que se o trabalhador morrer ou ficar doente, o patrão depressa o substitui. É na família, como pai ou mãe, que um trabalhador ou trabalhadora é verdadeiramente insubstituível.

O que pensam os familiares de Jesus
Quando os seus o souberam, saíram para o reter; pois diziam: “Ele está fora de si.Marcos 3, 21

Uma mãe que toda a sua vida guarda silêncio e guarda no seu coração com respeito todas as coisas que não entende da vida e do ministério do seu filho, não vai ter uma atitude como a que nos descreve o evangelista S. Marcos. São os outros familiares, os primos de Jesus, um deles provavelmente Tiago que depois foi o líder da primeira comunidade cristã de Jerusalém, foram estes familiares de Jesus, não a sua mãe, que se antagonizaram com o seu ministério. E que mais tarde se antagonizariam com os discípulos de Jesus.

Numa monarquia, quem sucede ao rei é um familiar do rei, se este não deixar descendência. O líder da comunidade cristã não era Pedro, como poderíamos pensar que fosse por ordem do Mestre, mas sim o primo de Jesus, Tiago. Vê-se claramente isto no concílio de Jerusalém, quando se debate sobre obrigar ou não os cristãos que anteriormente tinham sido judeus a respeitar as leis judaicas ou não. Pedro inspira a decisão, mas quem decide é Tiago, pois é este que tem a última palavra.

A divisão entre familiares de Jesus e discípulos de Jesus poderia ter acontecido na Igreja como aconteceu entre os muçulmanos: os xiitas descendentes do profeta por via de Fátima, a sua filha preferida, e os sunitas descendentes dos primeiros discípulos do profeta.

Jesu deixou bem claro que o verdadeiro discípulo, ou seja, o que ouve a sua palavra e a põe em prática é que é a sua mãe, irmão e irmã. (Lucas 8, 21)

E para que não ficassem dúvidas, chamou a João filho da sua própria mãe e a esta mãe do seu discípulo   preferido. (João 19, 26)

A Mãe de Jesus e nossa mãe
Quando Jesus viu sua mãe e, perto dela, o discípulo que amava, disse à sua mãe: “Mulher, eis aí o teu filho.” Depois disse ao discípulo: “Eis aí a tua mãe”. E dessa hora em diante o discípulo a recebeu como sua mãe. João 19, 26-27

Os evangelhos apresentam um Jesus às vezes distante e com pouca consideração pela sua mãe. Porém, a prova de que isto não é verdade está aqui. Mesmo no auge do seu sofrimento na cruz, Jesus não esquece a sua mãe, não esquece que, tal como a viúva de Naim a quem ele tinha devolvido a vida do filho, a sua mãe era viúva, estava a assistir à morte do seu único filho e se preparava para ficar sozinha no mundo.

A avó, com as suas mãos trémulas, deixou um dia cair um prato de fina louça chinesa de sua filha, em casa de quem vivia. A filha ficou furiosa com a própria mãe e mandou o seu filho comprar um prato de plástico no qual ela deveria comer doravante. O rapaz olhou para a sua mãe com ar de desaprovação e recusou-se a ir comprar o prato de plástico. No entanto, acabou por ter de obedecer e lá foi. Ao voltar a casa, apresentou dois pratos de plástico sobre a mesa. A mãe irritada perguntou por que havia comprado dois quando lhe tinha dito que comprasse só um. “O outro,” disse o moço, “é para ti quando fores idosa como a avó.”

Os pais amparam os filhos na sua infância e estes devem amparar os pais na sua velhice. Mas nem sempre assim acontece neste mundo onde o que conta é ser consumidor e produtor. Quando não se pode ser nem uma coisa nem outra, deixamos de ter lugar na sociedade.

Conclusão – Tal como Jesus é para nós, enquanto indivíduos, Caminho, Verdade e Vida, a sua família, a Sagrada Família é também para nós, membros de uma família, modelo de vida familiar a imitar.

Pe. Jorge amaro, IMC



1 de setembro de 2023

VI Mistério: A Sagrada familia, triângulo de amor e harmonia - 1ª Parte

Sem comentários:

Deus é único e trino, porém nenhum mistério do santo Rosário contempla esta realidade de que Jesus de Nazaré, que vinha de uma família celestial constituída por Deus Pai, Filho e Espírito Santo, como o filho unigénito de Deus Pai, nasceu numa família terrena, teve pais humanos com os quais viveu em perfeita harmonia e amor, crescendo em sabedoria e em graça como nos dizem as escrituras, como qualquer rapaz do seu tempo.

Normativo para os cristãos não é só Jesus como pessoa individual, Caminho, Verdade e Vida, mas, como o ser humano tem uma dimensão social, a vida social e familiar de Jesus, a sua família constituída pela sua mãe e pelo seu pai humano adotivo, também é normativa para nós, pois não há vida humana fora da família.

Deus é uno e trino, o ser humano criado à imagem e semelhança de Deus é também, naturalmente, uno e trino. Pai-Mãe-Filho, não há vida humana para além deste triângulo. Todos os humanos são pai, ou mãe ou filho(a). Somos, ao mesmo tempo, um ser individual e social, porque somos um todo, como seres individuais e em parte como membros de uma família humana.

Cada uma das três categorias humanas, pai-mãe-filho(a), implica a existência das outras duas. Ou seja, nenhum homem é pai sem ter uma esposa e um(a) filho(a), assim como nenhuma mulher é mãe sem ter um esposo e um(a) filho(a); por último, um(a) filho(a) de mãe solteira tem de ter um pai. A existência de um implica a existência dos outros dois. Jesus diz sobre o matrimónio, “Os dois serão uma só carne”, precisamente quando os dois são únicos e estão compenetrados no ato conjugal ou sexual, tornam-se três. Daí o ser humano ser uno e trino ao mesmo tempo.

Mãe sem cordão umbilical
Seus pais iam todos os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa. Tendo ele atingido doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa. Acabados os dias da festa, quando voltavam, ficou o menino Jesus em Jerusalém, sem que os seus pais o percebessem. Pensando que ele estivesse com os seus companheiros de comitiva, andaram caminho de um dia e o buscaram entre os parentes e conhecidos. Mas não o encontrando, voltaram a Jerusalém, à procura dele. Lucas 2, 41-45

Mãe galinha, péssima futura sogra
Um pai, mesmo sendo o progenitor da criança, é sempre um pai adotivo porque é a mãe que concebe no seu corpo a criança e a nutre durante 9 meses e depois durante dois anos ao seu peito. Ao nascer, a criança só conhece a mãe e conhece-a até pelo cheiro; o pai é-lhe apresentado mais tarde. E quando isso acontece, o filho e o pai olham-se mutuamente como dois estranhos e, se a criança for do sexo masculino, até como dois rivais, mais tarde.

Ao contrário da maternidade, a paternidade carece de experiência física, pois só acontece a nível celular microscópico e fora do corpo do homem. Por isso, S. José que foi para Jesus um pai adotivo, pode ser perfeitamente o modelo de paternidade e o padroeiro de todos os pais, progenitores e não progenitores. Ao fim e ao cabo, também Deus Pai que está no Céu é nosso Pai adotivo, pois Ele só tem um Filho que é unigénito e nós somos criaturas adotadas por Deus Pai, pelos méritos de Jesus Cristo que se tornou no nosso irmão mais velho.

Ser pai e ser mãe tem as suas vantagens e inconvenientes. O facto de o pai ser adotivo, sempre mantém uma distância entre si e o seu filho, pois a paternidade não se dá ao nível fisico. A maternidade, ao contrário, dá-se ao nível instintivo, pelo qual, uma mãe sempre encontra dificuldade em ver o seu filho como separado de si e muitas nunca chegam a cortar o cordão umbilical, olhando sempre o seu filho não como uma pessoa distinta, mas como uma extensão do seu ser.  

Gosto muito de anedotas e nunca vi uma anedota contra os sogros; todas as anedotas são contra as sogras. Uma mãe galinha tem a tendência de ser uma péssima sogra, de procurar interferir na vida do filho mesmo até quando este já está casado e formou uma família.

O texto acima citado denota que Maria e José davam bastante liberdade ao seu filho, ao ponto de passarem dias sem o ver. Podemos concluir que Maria não era uma mãe galinha, mas uma mãe que sabia ocupar o seu lugar e olhar para o seu filho como distinto de si e não como uma extensão de si mesma.

O objetivo da educação de um filho é torná-lo livre, independente e autónomo. Por outras palavras um pai e uma mãe devem ter como objetivo tornar-se eles mesmo obsoletos e desnecessários quando os filhos atingem a maioridade, a maturidade e a autonomia. Amar como dizia S. Tomás de Aquino é querer o bem do outro tal como o outro vê o seu bem, e não como nós o vemos.

É certo que o pai procure que o filho chegue onde o pai não conseguiu, mas nem por isso deve impedir o filho de escolher a sua vida porque é ele que a vai viver. Conheci muitos pais que fizeram todo o tipo de chantagem para evitar que os filhos seguissem a sua vocação, sobretudo a vocação religiosa, apesar de serem eles mesmos profundamente religiosos.

A família e os valores da liberdade – igualdade – fraternidade
A liberdade – é o valor sobre o qual assenta a vida da pessoa humana, enquanto ser independente e autónomo. Sem liberdade não existe vida humana; para se realizar como pessoa humana, um indivíduo deve ser livre, não dependente de nada nem de ninguém. Livre de constrangimentos externos, mas também livre de restrições internas, como vícios.... Portanto, há duas liberdades: uma externa e outra interna.

A igualdade – é o valor sobre o qual assenta a vida do indivíduo que vive em sociedade. Nenhum indivíduo é uma ilha, porque todos os indivíduos nasceram de uma relação de dois indivíduos, um pai e uma mãe. Pelo que todo o indivíduo é e sempre será parte de uma família, de um clã, de uma tribo, de um país...

A fraternidade – um quark é a união de vários gluões; vários quarks formam um protão que é um dos três elementos de um átomo. O glúten é uma proteína que faz com que um cereal como o trigo pareça uma cola depois de amassado. Temo que a intolerância ao glúten comece a ser igualmente proporcional ao individualismo na sociedade e desapareça o amor que faz de todos os humanos irmãos.

Família, a única escola de vida
Tal como o ser humano, a família é o resultado de milhões de anos de evolução. Na evolução, os répteis não necessitam de família, nascem de ovos; as aves e os mamíferos necessitam por alguns meses; quanto mais perto do ser humano estiver um animal na evolução das espécies, mais tempo de convivência familiar necessitará até ser livre, independente e autónomo.

O ser humano é o ser vivo que necessita de mais tempo, pelo que a família é o único lugar onde pode existir vida humana. A família é o “habitat” da vida humana, tal como o mar o é para a baleia e o tubarão, o Polo Sul para os pinguins, o Pólo Norte para os ursos polares e a savana para o leão. Como o ser humano não nasce no estado adulto, como o resto dos seres vivos, sem família não há vida humana.

Os seres humanos não nascem, fazem-se. Uma criança filha de pais humanos, tem todas as potencialidades para se tornar numa pessoa humana. Porém, estas potencialidades devem ser cultivadas no seio de uma família, pelos pais e pelos irmãos mais velhos. Tudo no ser humano é aprendido, o andar ereto, o falar, o amar, tudo na vida humana é aprendido havendo muito pouco de inato.

Uma criança sem o contacto com os homens nunca aprenderia a andar nem a falar, como sugere o mito de Tarzan; se uma criança fosse criada por chimpanzés seria um chimpanzé sem pelo; se fosse por uma loba seria um lobo para todos os efeitos, com apenas uma aparência humana.

São precisos muitos anos de estudo para formar um médico, um engenheiro ou um arquiteto; e precisando o mundo mais de bons pais que destas profissões, Como é possível que não há sequer um curso de fim de semana para aprender a ser pai e mãe?

A educação é “área” e contínua
“Filho és, pai serás, como fizeres assim acharás”

Ao contrário das outras escolas, em que há períodos de lição e períodos de intervalo, na escola da vida, da família, não há férias. Todos os momentos e situações familiares são educativos, para bem ou para mal. A educação é “aérea” e contínua; na escola da vida, a criança está sempre na sala de aula.

Porque a educação é “aérea”, a família é uma escola onde as crianças aprendem não o que lhes dizem, mas o que veem; é a sementeira onde o crescimento pode ser controlado e guiado. Fazer um bebé é fácil, a dificuldade é fazer de uma criança um ser humano. Uma coisa é ser progenitor, outra é ser pai ou mãe.  

Na família aprendemos as atitudes principais pelas quais viveremos; por isso, os pais devem ter em conta que uma criança imita mais que aprender. Uma criança que vê o pai bêbado bater na mãe, dizer coisas obscenas, ter comportamentos imaturos, imorais e ilegais, muito provavelmente reproduzirá esses mesmos comportamentos na vida adulta.  

Todos nos lembramos de frases dos nossos pais que marcaram a nossa vida, umas positivas, outras negativas. “Quem semeia ventos colhe tempestades”, “semeia amor e colherás amor; semeia ódio e ódio será o que colherás”, “uma criança é como um campo, só produzirá o que nela for semeado”, “filho de peixe, sabe nadar”. Ninguém dá o que não tem; um pai não pode passar para o seu filho o que ele não tem. O filho de um patife, será um patife assim como o filho de um ladrão será um ladrão.

Educar um filho é uma responsabilidade imensa para o próprio, perante o filho e a sociedade. O mundo melhora não tanto por revoluções, mas por conversões, quando os homens se tornam melhores; é o nosso contributo para o mundo. Quantos pais tomam a sua tarefa com ligeireza? Um pai deve procurar passar ao filho as suas virtudes e não os seus defeitos. Se os teus filhos e filhas forem como tu ou piores do que tu, qual é o sentido da tua vida?

"De pequenino se torce o pepino"
Para as crianças, a família é como uma estufa, uma vez que as crianças não estão preparadas para viver no mundo aberto; na estufa, podemos controlar o seu crescimento, temperatura, humidade combater as pestes, etc.

O mundo fora da família é um lugar inóspito, para o qual a família nos prepara, nos fortalece ou nos enfraquece. A escola e a rua, más ou boas, são iguais para todos: há rufias, há drogas, há crime em potência e nelas sucumbem os que não têm uma família forte e significativa onde reina o amor, a harmonia e a paz.

Para além de ser uma estufa, a família é também um hospital onde se recuperam os adolescentes, os jovens e até os adultos das feridas que a sociedade lhes infligiu. Na família passam a sua convalescença, até poderem voltar à sociedade, fortalecidos e com lições aprendidas.

"An Englishman’s home is his castle” (o lar do inglês é o seu castelo”). É uma expressão muito interessante sobre a dedicação que os pais devem ter ao espaço sagrado que é a família. Hoje, há muitos inimigos da família, até o próprio governo pode chegar a ser inimigo da família. Os pais não devem cuidar só dos inimigos de fora: a TV, a Internet, o telemóvel ou o computador, podem ser hoje como um autêntico cavalo de Troia, que boicota a educação e os valores que os pais querem transmitir.

Amor incondicional.
Como habitat e escola da vida humana, a atitude, o valor mais importante a aprender é o amor incondicional. Só na família nos amam incondicionalmente pelo que só na família podemos aprender a amar incondicionalmente. Aprende a amar incondicionalmente quem é amado incondicionalmente pelos seus pais e irmãos.

O amor é incondicional ou não é amor. A família é o único lugar onde és amado sem condições, sejas mau ou bom, feio ou bonito, inteligente ou burro. Deus ama incondicionalmente, mas quem não for incondicionalmente amado pelos seus pais, dificilmente descobrirá a incondicionalidade do amor de Deus. Muitos cristãos pensam que devem ser bons para serem amados por Deus. Quem não aprende a amar incondicionalmente nunca poderá viver em plenitude e ser autêntica e genuinamente humano.

Conheci uma moça que, em criança, recebia beijos e abraços dos seus pais só quando era bem-sucedida na escola. Aprendeu a confundir amor com sucesso escolar que mais tarde se transformou em sucesso profissional. Hoje, já adulta, é muito bem-sucedida profissionalmente, mas não tanto na vida amorosa, pelo que é infeliz. Não há nada mais importante que o amor. Quem não ama nunca viveu porque viver é amar.

Conclusão – O mito de Tarzan revela-nos que, na vida humana, muito pouco é inato, quase tudo é aprendido no seio da família que é a única e insubstituível escola de vida.

Pe. Jorge Amaro, IMC



1 de agosto de 2023

V Mistério: A profecia de Simeão sobre Maria e o Seu Filho - 2ª Parte

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Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua mãe: “Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de surgimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal de contradição, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada trespassará a tua alma. Lucas 2, 34-35

Há muitas interpretações sobre esta espada, algumas demasiado espirituais ou teológicas. Eu prefiro ver nesta profecia o puro sofrimento humano de Maria. “Em guerra, caça e amor, por um prazer cem dores”. Assim foi com Maria: Jesus deu-lhe mais dor que alegria, desde a conceição à sua morte e ressurreição.

O nascimento, vida e morte de Jesus foram para Maria uma paixão contínua de dor e sofrimento. Tudo começou no dia em que deixou de ser possível esconder a sua gravidez ou explicá-la.

Natal de Jesus, paixão de Maria
Na volta da visita à sua prima Isabel que durou vários meses, Maria apareceu grávida. Que podia ela dizer? Como podia ela explicar o sucedido? Engravidar por obra e graça do Espírito Santo não tinha precedente, era um acontecimento único na história da humanidade; nunca acontecera, nem nunca mais ia acontecer. Esperava-se que o Messias, que o povo de Israel aguardava e ainda aguarda, surgisse de uma forma natural na casa de David.

O Natal de Jesus foi a Páscoa ou paixão de Maria. A paixão do Senhor foi também a paixão de Maria. Ainda hoje, mesmo numa sociedade não puritana nem machista, o escândalo sexual faz as delícias da boca de muita gente. Parece que a nossa autoestima cresce, quando vemos os outros a afundarem-se. Não há nada mais degradante e estigmatizante que o escândalo sexual: todos te apontam o dedo, vives sem honra nem bom nome, é como morrer em vida.

“Calunia, que algo queda” diz um provérbio espanhol; lança a dúvida sobre alguém em áreas de comportamento sexual que a má fama dessa pessoa a acompanhará até à sepultura. Pode até vir a provar-se que era mentira, não importa, as pessoas ficarão sempre na dúvida, agarrar-se-ão à primeira notícia como sendo verdadeira e ao desmentido como sendo mentira. Estes escândalos abrem os noticiários da televisão e fazem primeira página nos jornais; os desmentidos aparecem como um quadradinho perdido dentro do jornal que ninguém lê.

A morte física por apedrejamento esteve também muito perto… Maria era considerada uma adúltera, pois era prometida de José e, embora estes ainda não vivessem juntos, para os efeitos da lei ela já estava casada. Uma tal relação já não era separável, a menos que houvesse divórcio. Bem sabemos qual era o castigo que sofriam as adúlteras… (João 8, 1-11) eram apedrejadas.

Acontecia em Israel regularmente o que ainda hoje acontece nalguns países muçulmanos, onde se aplica a lei da Sharia; aí estão os vídeos em certos sites da Internet que documentam estes tristes factos em pleno século XXI.

Já muitos, sedentos de sangue, tinham as pedras na mão, preparadas, esperando José, o ofendido, para lançar a primeira pedra. Lançar a primeira pedra era um direito que pertencia ao ofendido. Lançar a primeira pedra era, ao mesmo tempo, a declaração do veredito pela pessoa injuriada e o primeiro ato da execução da sentença que os hipócritas, ávidos de sangue, cumpriam com prazer.

Para Jesus, no episódio da mulher adúltera (João 8, 1-11), o direito a lançar a primeira pedra, ou seja, a julgar e aprovar uma sentença de morte, não é direito do injuriado nem do que tem autoridade por delegação ou eleição, mas sim do que tem autoridade moral, ou seja, do que não tem pecado.

Jesus não acredita na justiça retributiva, pois é apenas uma vingança legalizada, é o antigo “olho por olho e dente por dente”. Jesus acredita na justiça reparadora, aquela que Deus pratica, pois não quer a morte do pecador, mas que este se converta e viva. (Ezequiel 18,23-32)

Jesus, o filho de Maria
Maria, conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração (Lucas 2,19) e sofria em silêncio, não podendo defender-se das calúnias… O sofrimento durou toda a sua vida, como é natural nestes casos.

Aqui e além no evangelho, este estigma transparece, por exemplo numa das polémicas que Jesus tem com os fariseus, no evangelho de João. A um dado momento, estes dizem «Nós não nascemos da prostituição” (João 8, 41) subentendendo “como tu nasceste”.

“Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós?” Marcos 6, 3.

Numa sociedade patriarcal, ninguém é conhecido como filho de sua mãe, ou seja, ninguém é conhecido por referência à sua mãe, mas sim por referência ao seu pai. Recordemos que Jesus, ao dirigir-se a Pedro de uma forma pessoal para lhe perguntar se O ama, chama-o pelo seu nome de família, por referência ao pai de Pedro e não à sua mãe: “Simão, filho de João… (João 21, 15-19).

O evangelista Marcos, apesar de ser hebreu de Jerusalém, escreve o seu evangelho em Roma para romanos e não está com meias medidas: relata a verdade tal como ela é. Jesus é chamado por referência à sua mãe e não por referência ao seu pai. Mesmo que o pai tivesse morrido, nunca um hebreu seria chamado por referência à sua mãe; se o fizeram, foi porque Jesus era, para os do seu tempo, filho de pai incógnito, para vexame de sua mãe e d’Ele próprio.

Mateus, o evangelho escrito para os judeus, corrige e diz: “Não é Ele o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas?” (Mateus 13, 55-56). Lucas, no seu evangelho, também menciona o episódio da visita do Senhor à sua terra natal, porém, por respeito ao Senhor não copia Marcos, mas também não diz uma mentira como Mateus, pelo que, omite o que os seus conterrâneos lhe chamaram.

Maria e a viúva de Naim
No dia seguinte, dirigiu-se Jesus a uma cidade chamada Naim. Iam com ele diversos discípulos e muito povo. Ao chegar perto da porta da cidade, eis que levavam um defunto a ser sepultado, filho único de sua mãe que era viúva; acompanhava-a muita gente da cidade. Vendo-a o Senhor, movido de compaixão para com ela, disse-lhe: “Não chores!”. E, aproximando-se, tocou no esquife, e os que o levavam pararam. Disse Jesus: “Moço, eu te ordeno, levanta-te. Lucas 7, 11-14

É dos poucos milagres que Jesus faz sem que ninguém lho peça, e sem inquirir sobre a fé da pessoa que vai ser agraciada com o milagre. A alta capacidade de empatia de Jesus faz com que entenda que o sofrimento daquela pobre viúva era tão grande que não podia comportar dialogar com ninguém. Vemos neste evangelho a empatia de Lucas na forma como descreve a cena. Concentra o máximo de sofrimento num mínimo de palavras: 

“levavam a sepultar um rapaz filho único de sua mãe que era viúva”. Não deve haver sofrimento maior do que o de uma mãe que perde um só dos seus filhos, pois vai contra a natureza da vida. Espera-se que os filhos sepultem os pais e não que os pais sepultem os filhos. Uma mãe que está disposta a morrer pelo seu filho, ter de o ver morrer sem poder fazer nada, é sofrimento que não cabe no coração humano.

Dentro desta categoria, o sofrimento desta mulher é ainda agravado pelo facto de ela já ser viúva e de este ser o único filho. Era ele a única garantia de ficar viva na sociedade, pois as mulheres daquele tempo não podiam viver sozinhas uma vez que não podiam deter propriedade. Por isso, o seu único filho era também a sua garantia de vida.

Jesus devolve a vida ao rapaz... Sempre vi neste episódio uma projeção pessoal de Jesus; Jesus viu na viúva de Naim a sua própria mãe, que dentro em pouco também sepultaria o seu filho único, sendo ela, Maria, já viúva.

Conclusão: Por causa do seu filho, a vida de Maria foi uma contínua paixão e morte. Tudo começou no dia em que deixou de ser possível esconder a sua gravidez ou explicá-la. Não há no mundo pior calúnia que aquela que Maria sofreu toda a sua vida.

Pe. Jorge Amaro, IMC





1 de julho de 2023

V Mistério: A profecia de Simeão sobre Maria e o Seu Filho - 1ª Parte

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O seu pai e a sua mãe estavam admirados pelas coisas que dele se diziam. Lucas 2, 33

Grandes surpresas aguardavam Maria na apresentação do seu filho no templo. O evangelho diz várias vezes que Maria guardava tudo no seu coração. Em relação ao seu filho, Maria não compreendia muitas coisas. Caminhou a vida inteira na fé de que tudo correria bem, mesmo quando via que tudo se voltava contra ele e contra ela. O seu filho não parou de a surpreender e causar admiração, desde a sua conceição até à sua morte e ressurreição. Maria não compreendia, mas aceitava em silêncio e seguia fielmente o seu filho, de perto ou de longe.

A apresentação do seu filho no Templo deve ter deixado na boca de Maria um sabor simultaneamente amargo e doce. A alegria de Simeão e de Ana que tão pacientemente esperaram este momento de ver o libertador com os próprios olhos, deve ter causado alegria também no coração de Maria. A ambiguidade da profecia de Simeão que se apresentou como alguém que tinha boas e más notícias, deve ter causado bastante perplexidade e dor no coração de Maria que, que segundo Simeão, seria atravessado por uma espada.

Jesus de Nazaré convulsionou Israel e o mundo
Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua mãe: “Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de surgimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal de contradição, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada trespassará a tua alma. Lucas 2, 34-35

Jesus de Nazaré entrou na história da humanidade como um meteorito, que ao esbarrar com o oceano faz círculos concêntricos que se fazem sentir primeiro onde o mesmo cai e depois até aos confins da Terra. O maior impacto foi sentido em Israel há dois mil anos, porém a sua influência alastrou-se no tempo e no espaço, de tal forma que ainda hoje se faz sentir e se fará sentir até ao fim dos tempos, pois ele mesmo disse: Eu estarei convosco até ao fim dos tempos, (Mateus 28, 20)

Tal foi o impacto de Jesus no o mundo que dividiu a História da humanidade em duas eras. Antes de Cristo (AC) Depois de Cristo (AD), ano da graça de nosso Senhor… Cristo é, portanto, o centro da história da humanidade, pois tudo o que acontece neste mundo vem referenciado como acontecendo antes de Cristo ou depois de Cristo. Incomodados, os agnósticos e ateus do mundo ocidental têm substituído o AC por “antes da era comum” e o AD por “era comum”.

Porém, se alguém no espírito de querer saber, como as crianças no tempo em que questionam tudo e bombardeiam os adultos com perguntas, os questionarem, os senhores da “era comum” vão ter de explicar o que é isso da “era comum” e por que é comum, e quando começou. Se forem honestos, o que nem sempre acontece nos dias que correm, vão ter que mencionar o nome de Cristo. A “era comum” tem como ponto de partida o nascimento de Cristo. Não é, portanto, arbitrária ou convencional, como a escala Fahrenheit para medir a temperatura ambiente.

Jesus: causa de queda ou pedra de tropeço para muitos em Israel
Ide e contai a João o que ouvistes e o que vistes: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, o Evangelho é anunciado aos pobres... Bem-aventurado aquele para quem eu não for ocasião de queda! Mateus 11, 4-6

A palavra grega “escândalo” significa pedra de tropeço. As palavras de Jesus são duras contra os escandalosos, porém Ele mesmo tem que admitir que escandalizou muita gente no bom sentido. Muitos não conseguiram digerir e aceitar muitas das suas ideias; mesmo quando estas eram provadas com atos prodigiosos. Contra factos não há argumentos, diz o povo. Porém, os judeus no tempo de Jesus encontravam argumentos até nos factos, ao dizerem que expulsava os demónios com o poder de Satanás. “Não há pior cego que aquele que não quer ver”.

Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. Mas a todos aqueles que o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus… João 1, 11-12
 
Não é Deus que julga o homem, o homem julga-se a si mesmo. O seu julgamento é a sua reação a Jesus Cristo. Se, ao ser confrontado com Jesus a sua resposta for positiva, tem fé e aceita o seu amor, é salvo e entra no reino dos Céus. Se, porém, permanecer friamente indiferente e imóvel ou mesmo ativamente hostil, é condenado, ou seja, condena-se a si mesmo.

Em relação a Jesus de Nazaré não se pode assumir uma posição neutra. Ou temos fé n’Ele e nos rendemos a Ele ou estamos em guerra com Ele. Para muitos, o orgulho vai impedi-los de optarem pela rendição que os levaria à vitória.

Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no nome do Filho Unigénito de Deus. João 3, 18

No tempo de Jesus, os fariseus, os sumos sacerdotes, os ricos, os abusadores do poder, os exploradores dos pobres tropeçaram na pedra Jesus e pensaram que, retirando a pedra do caminho, como fizeram matando a Jesus, se veriam livres d’Ele. Mas isso não aconteceu, pois o mesmo Jesus, na pessoa dos seus seguidores, tornou-se para eles uma pedra no sapato que incomoda eternamente. Uma vez vindo ao mundo, veio para ficar.

Jesus:  causa de surgimento, pedra de degrau e pedra angular para muitos em Israel
Este Jesus é pedra rejeitada por vós, os construtores, a qual se tornou pedra angular. Atos 4, 11

Cristo, verdadeiro Deus, verdadeiro homem, é o único caminho de Deus para os homens e dos homens para Deus. Na Bíblia, Jericó representa o pecado, por isso, o que caiu nas mãos dos salteadores descia de Jerusalém para Jericó, caiu da graça para o pecado. Jesus visita Jericó e cura Zaqueu ao entrar e, ao sair, cura o cego Bar Timeu que se juntou à grande multidão que com ele subia para a salvação e graça, em direção a Jerusalém celeste.

Caminho, Verdade e Vida, Cristo é o modelo, o paradigma da vida humana. Cristo, nas suas palavras, obras e comportamento pessoal é normativo, pois possui 100% de humanidade. Quem quiser ser autêntica e genuinamente humano, é em comparação com Cristo e com nenhum outro que tem que se avaliar. O que é humano é cristão, o que é cristão é humano, pois não existe uma ética humana e uma moral cristã.

Quem não está comigo, está contra mim
“Mestre, vimos um homem que expulsava demónios em teu nome, e nós lho proibimos, porque não é dos nossos”. Mas Jesus disse-lhe: “Não lho proibais; porque, o que não é contra vós é a vosso favor”. Lucas 9, 49-50

Quem não está comigo está contra mim; e quem não se junta comigo, espalha. Mateus, 12, 30

Estes dois textos parecem estar em contradição; porém, se olharmos ao contexto em que Jesus diz duas frases opostas uma à outra, conseguimos entender. Jesus diz que tem outras ovelhas que não são deste redil, por isso é possível que pessoas fora da Igreja façam também o bem, os tais cristãos anónimos. Quem, por outras vias e sem ser do nosso grupo, contribui para a construção do reino, é cristão mesmo sem o saber porque são cristãs ou humanas as suas atitudes.

A segunda afirmação é feita no contexto de que ninguém vai ao Pai se não por mim (João 14, 6-14). Ou seja, como Cristo é a medida do humano e do divino, só quem se assemelha a Ele se salva, porque, como diz a seguir, quem não junta comigo espalha, dispersa, pois não há outro com quem se juntar. Não existe alternativa igualmente válida a Cristo.

Não a paz, mas a espada
Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa. Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a mim não é digno de mim. Quem ama seu filho mais que a mim não é digno de mim. Mateus, 10, 34-37

O amor divide o que estava unido e une o que estava dividido. Tomemos como exemplo o amor clássico de Romeu e Julieta. As famílias destes dois amantes eram inimigas viscerais, em guerra uma contra a outra. Antes de se conhecerem, cada um dos amantes vivia em paz, harmonia e amor com as respetivas famílias.

Quando a chispa de amor surgiu entre os dois, também a divisão e a discórdia se instalou com as respetivas famílias por causa da união do que antes estava dividido. O mesmo acontece nas famílias onde alguns dos seus membros decidem seguir Jesus e os outros não. É neste sentido que Jesus, o príncipe da paz, sem querer, em vez de trazer a paz traz a guerra e a discórdia ao seio das mesmas famílias onde antes d’Ele reinava o amor e a harmonia.

Maldição de Deus?
Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se tivessem sido feitos em Tiro e em Sidónia os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas se teriam arrependido sob o cilício e a cinza. Por isso, vos digo: no dia do juízo, haverá menor rigor para Tiro e para Sidónia que para vós! E tu, Cafarnaum, serás elevada até ao céu? Não! Serás atirada até ao inferno! Porque, se Sodoma tivesse visto os milagres que foram feitos dentro dos teus muros, subsistiria até este dia. Por isso, te digo: no dia do juízo, haverá menor rigor para Sodoma do que para ti! Mateus, 11, 21-24

A maldição de Deus é um antropomorfismo, ou seja, uma forma de entender a Deus à maneira do homem. Deus é incapaz de amaldiçoar, Deus só sabe abençoar. A maldição é o voltar as costas à bênção de Deus. Muito milagre fez Jesus em Corazim, Betsaida e Cafarnaum, pois eram grandes cidades no tempo de Jesus. Hoje só existem restos arqueológicos destas cidades. Ao contrário, Nazaré e Belém eram pequenas e diminutas e hoje são grandes cidades.

“Quem de Deus se não lembra, todo o bem lhe falta”. No seu discurso ao povo depois da saída do Egito, Moisés colocou diante do povo a bênção e a maldição. A bênção para os que aceitam Deus e seguem os seus mandamentos, a maldição ipso facto para os que não seguem os desígnios de Deus. A bênção vem de Deus, a maldição resulta da rejeição da bênção, não de um castigo de Deus porque Deus não castiga.

Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os teus filhos, como a galinha reúne os seus pintainhos debaixo das suas asas... e tu não quiseste! Pois bem, a vossa casa vos é deixada deserta. Mateus, 23, 37-38

Jesus chora de raiva, pena e impotência pela ruína que estava para cair sobre Jerusalém. Uma ruína causada pelos próprios moradores da cidade que não souberam reconhecer em Jesus o messias esperado pelas nações. O messianismo político e militar dos judeus trouxe-lhes a ruína, a invasão das hostes romanas, a destruição da cidade e do templo e a dispersão pelo resto do mundo durante séculos, até ao surgimento do estado de Israel em 1948, por pena e misericórdia das potências cristãs que ganharam a guerra.

Conclusão: sendo Cristo a medida do que é autêntica e genuinamente humano, não se pode ser neutro e indiferente a Ele; a indiferença, é já, em si mesma, uma rejeição.

Pe. Jorge Amaro, IMC














15 de junho de 2023

IV Mistério - Maria dá à luz a Jesus, Deus connosco - 2ª parte

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Disse-lhe Filipe: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta”. Respondeu Jesus: “Há tanto tempo que estou convosco e não me conheceste, Filipe! Aquele que me viu, viu também o Pai. João 14, 8-9

Gerado não criado consubstancial ao Pai
Deus só tem um Filho que, como diz o Credo, é gerado não criado. Se o Credo falasse de nós, diria criados não gerados. (Deus) nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, Efésios 1, 5 

Todos os humanos são criaturas de Deus e por Jesus Cristo resgatados a preço de sangue, tornados filhos adotivos de Deus. Unidos pela mesma natureza humana, a dignidade é devida a todos os seres humanos, sem distinção de grupos étnicos.

E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados. Romanos 8, 17 – Segundo o direito romano que fundamentalmente é o usado em todo o mundo, o filho adotivo tem os mesmos direitos na herança que o filho gerado.

Jesus chama a Deus Pai, mas só no núcleo dos apóstolos e nunca fora dele. O que significa que a paternidade divina está disponível só para aqueles que aceitam a Jesus como filho de Deus e irmão, nosso irmão maior, pois só em Cristo filho unigénito de Deus é que nós somos filhos adotivos.

O banquete messiânico
O Natal é a festa que une os homens com Deus, é a festa que une a Terra com o Céu. A encarnação é um matrimónio entre o Filho Unigénito de Deus e a Humanidade, o Natal é um banquete de bodas que celebra esta união indivisível e para sempre. Um matrimónio é a união de dois destinos num só destino. No Natal, Deus Pai casa o seu Filho com a Humanidade, ou seja, une a natureza da segunda pessoa da Santíssima Trindade à Natureza Humana.

A união das duas naturezas numa só pessoa deu-se no seio de Maria. Ela é, com todo o direito, a Mãe da criança que vai nascer, pois não só emprestou o seu seio, como também contribuiu com o seu material genético. Deus, por obra e graça do Espírito Santo, é o Pai tanto da segunda pessoa da Santíssima Trindade como desta mesma encarnada em Jesus de Nazaré.

Jesus de Nazaré que nasce em Belém é o resultado dessa união, é a união inseparável e indivisível das duas naturezas: humana e divina. Deus fez-se filho do Homem, único título que Jesus dá a si mesmo, para que o Homem, que é criatura de Deus, se faça também filho de Deus.

O tempo de Jesus entre nós corresponde ao banquete messiânico profetizado muitos séculos antes por Isaías 25, e declarado por Jesus numa das suas parábolas em Mateus 22, 1-14. Por ser o tempo do banquete messiânico, é um facto que a vida pública de Jesus começa com um banquete de bodas em Canaã da Galileia e termina no banquete Eucarístico na Quinta-feira Santa, em Jerusalém, no qual Ele é a comida. Entres estes dois banquetes, Jesus participou em muitos com os seus discípulos e muitos dos seus ditos foram proferidos no contexto de uma refeição.

Depois, foram ter com Ele os discípulos de João, dizendo: «Porque é que nós e os fariseus jejuamos e os teus discípulos não jejuam?» Jesus respondeu-lhes: «Porventura podem os convidados para as núpcias estar tristes, enquanto o esposo está com eles? Porém, hão-de vir dias em que lhes será tirado o esposo e, então, hão-de jejuar. Mateus 9, 14-15

Por ser o tempo de Jesus entre nós, o tempo do banquete messiânico, os seus discípulos, ou seja, os amigos do esposo, não devem jejuar, mas devem celebrar. É tempo de festa, tempo de celebração, não tempo de penitência nem de tristeza.

Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, como teria dito eu que vos vou preparar um lugar? E quando eu tiver ido e vos tiver preparado lugar, virei novamente e hei de levar-vos para junto de mim, a fim de que, onde eu estou, vós estejais também. João 14, 3

Os dias de jejum virão em que o esposo voltará para a casa do Pai, levando com Ele a nossa natureza humana redimida na sua pessoa e pela sua pessoa, sentando à direita do Pai.

E o verbo se fez homem e habitou entre nós
Depois de ter deixado a família na Igreja para a Missa do Galo, um agricultor canadiano regressava a casa, fugindo da tempestade de neve que se avizinhava. De nada tinha valido a insistência da sua mulher para participar na missa. Para ele, a encarnação de Deus não fazia sentido. Enquanto dormitava ao calor da lareira, foi sobressaltado pelo embate de gansos na porta e nas janelas. Afastados pelo temporal da sua trajetória migratória para o Sul, estavam completamente desnorteados.

Movido de compaixão, abriu os portões do grande celeiro e começou a correr, a esbracejar, a assobiar, a gritar e a enxotá-los para que se abrigassem até a tormenta passar. No entanto, os gansos esvoaçavam em círculos, sem entenderem o que significariam o celeiro aberto e os gestos dramáticos do desesperado agricultor (que nem com migalhas de pão espalhadas na direção do celeiro os convencera). 

Derrotado no intento da salvação das pobres criaturas, suspirou: “Ah, se eu fosse ganso! Se eu falasse a sua linguagem!”. Ao ouvir o seu próprio lamento, recordou a pergunta que tinha feito à sua esposa: “Por que razão havia Deus de querer ser homem?”. E, sem querer, balbuciou a resposta: “Para o salvar!” … E foi Natal.

Sempre houve pessoas com uma sensibilidade especial para comunicar com Deus. Na tradição bíblica, os profetas eram os catalisadores dos desígnios de Deus para o povo e das petições do povo a Deus. A comunicação, no entanto, não se fazia sem dificuldades: tal como no campo das telecomunicações, havia muitas “interferências”. A personalidade e caráter do profeta, defeitos e preconceitos, filtravam a mensagem que não chegava ao destinatário tal como tinha saído do emissor. Por outro lado, estes profetas entendiam frequentemente que o Céu estava fechado e Deus envolto em silêncio.

Estes profetas nunca conseguiram, verdadeiramente, estabelecer uma ponte de comunicação entre o divino e o humano. Isto porque a Palavra de Deus, sendo transmitida por eles (homens com as suas características pessoais e inseridos num determinado contexto sociocultural), acabou por sofrer influência de muitas variáveis mediadoras (personalidade, preconceitos, estereótipos, padrões sociais), perdendo-se o significado da mensagem original. 

Há ouro na areia do rio, mas nem toda a areia do rio é ouro. Por isso, precisamos de peneirar a areia para identificar dentro dela algumas pepitas de ouro. Também a Palavra de Deus está na Bíblia, mas nem toda a Bíblia é palavra de Deus. Como a Bíblia é o encontro de Deus tal qual Ele é com o Homem, há na Bíblia muito de humano, muitos antropomorfismos, ou seja, exemplos de como entender a Deus à maneira do homem, apesar de na mesma Bíblia se dizer “os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, diz o Senhor” … 

No peneirar da Bíblia para encontrar a palavra de Deus, temos que identificar a personalidade do autor do livro em questão, as suas crenças, preconceitos, estereótipos, padrões sociais, etc. para encontrar a ipsissima Dei Verbum. 

Por tudo isto, era mester que Deus encarnasse para falar diretamente ao homem sem interferências e, mais que falar, para demonstrar na sua vivência e obras como deve o ser humano viver para readquirir a semelhança de Deus perdida com Adão e Eva. 

Oportunidade para readquirir a semelhança de Deus
Foi por essa razão que o Verbo de Deus se fez Homem - para que o Homem se tornasse filho de Deus.
Sto. Ireneu de Lyon

Sendo o Cristianismo a religião que tem mais seguidores e sendo o Natal a festa mais popular no mundo cristão, podemos facilmente concluir que o Natal é a festa mais celebrada de todas as festas celebradas neste planeta. É sem dúvida a que reúne mais pessoas a nível mundial, não só na sociedade ocidental.

Jesus de Nazaré é o caminho pelo qual Deus vem até nós para nos falar ao ouvido, para nos falar ao coração em pé de igualdade, não de cima para baixo, mas de irmão para irmão, de homem para homem. O criador faz-se criatura para falar de dentro da natureza humana; para falar com autoridade, como notaram os homens do tempo de Jesus, porque falava e fazia, porque falava e cumpria, porque falava e as coisas aconteciam.

Como verdadeiramente homem, Cristo é a nossa oportunidade para reaver a semelhança que tínhamos com Deus antes do pecado de Adão e Eva. Quem quiser ser autêntica e genuinamente humano mede-se em relação a Cristo, Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida, Ele é o modelo, o protótipo, o paradigma de humanidade. Ninguém em toda a história dos homens concentra em si mesmo mais humanidade que Jesus. 

João 15, 16 – Não fostes vós que me escolhestes - Como se diz em teologia, a nossa não é uma religião, pois não se trata do esforço que o homem faz para chegar até Deus, mas é antes uma revelação, porque é Deus que vem primeiro até nós, e se nos revela. Por isso, Jesus pode dizer ao apóstolo Filipe, “quem me vê, vê o Pai”.  

1 João 4:10 - Assim, nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados. Amor com amor se paga, diz o povo; o nosso amor por Deus é uma resposta ao amor divino, a única resposta, pois não cabe nenhuma outra. Portanto, porque a iniciativa é de Deus, a nossa não é uma religião, mas sim uma revelação.

Jesus: caminho pelo qual os homens vão a Deus
“Ninguém vem ao Pai senão por mim” - João 14, 6

Se Jesus de Nazaré é o Cristo, o filho de Deus, Ele é o único caminho pelo qual Deus veio até nós. Por isso mesmo, não pode haver outro caminho pelo qual o homem possa ir até Deus. Não faria sentido que um fosse o caminho pelo qual Deus veio até nós, e outro fosse o caminho pelo qual o homem vai até Deus. Todos os caminhos são de ida e volta, por isso, se Deus veio até nós por meio de Cristo, por meio do mesmo Cristo nós iremos até Deus.

O propósito da encarnação de Deus pode ser lido na entrada e saída de Jesus na cidade de Jericó. Jericó é a cidade mais antiga do mundo, 8 000 anos de existência e é também curiosamente a mais baixa da terra, 500 metros abaixo do nível do mar. Por estas duas caraterísticas, Jericó representa na Bíblia o mundo em pecado. Isto mesmo sugere a parábola do bom Samaritano; o homem que foi assaltado por ladrões e malfeitores, descia de Jerusalém para Jericó, ou seja, descia da graça para o pecado.

Jesus entra em Jericó, ou seja, entra no mundo pecaminoso e vai instalar-se em casa de Zaqueu, ou seja, de um pecador. Jesus instalou-se no mundo pecador, chamou os pecadores a si, viveu, comeu com eles e tratou-os com a dignidade de filhos de Deus (Lucas 19, 1-2). Quando saía de Jericó, seguia-o uma grande multidão, no caminho ascendente do pecado para a graça em Jerusalém (Marcos 10, 46-52). Assim se cumpria a razão da encarnação: Deus, por Cristo, veio ao mundo para que o mundo, pelo mesmo Cristo, fosse a Deus.

Conclusão: Por Cristo veio Deus aos homens, por Cristo vão os homens a Deus. Quem vive em Cristo e como Cristo é autenticamente humano, pois Ele é a única referência e paradigma de humanidade.

Pe. Jorge Amaro, IMC





1 de junho de 2023

IV Mistério: Maria dá à luz a Jesus, Deus connosco - 1ª Parte

Sem comentários:

Meu Deus, clamo por ti durante o dia e não me respondes; durante a noite, e não tenho sossego. (…) O meu coração murmura por ti, os meus olhos te procuram; é a tua face que eu procuro, Senhor. Salmo 22, 2; 27, 8.

Religião e revelação
O povo de Israel nunca se contentou com esta comunicação, tão deficitária, e vivia num contínuo desassossego. Religião, do latim “religare”, significa relação com Deus e com o próximo. Desde que a espécie humana tomou consciência de si mesma que acredita na possível existência de um ser superior, transcendente a tudo e a todos, por ser Criador de tudo e de todos. Em todo o tempo e em todo o lugar, o homem procurou comunicar-se com este ser superior, Deus, para obter o seu beneplácito.

As ondas de telemóvel, de televisão e de rádio cruzam o nosso espaço e nós não as ouvimos nem as vemos, mas sabemos que existem porque, quando temos os instrumentos adequados, as captamos. De forma análoga, Deus também procurou comunicar-se com o homem e o homem com Deus. Mas também esta comunicação não é acessível a todos, é preciso ter uma sensibilidade especial para entrar nesta comunicação.

Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por ele. Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não crê no nome do Filho único de Deus João 3, 17-18

O cristianismo não é uma religião, pois não representa apenas o esforço ou tentativas do homem para chegar a Deus. Pelo contrário, o cristianismo é uma revelação porque é Deus que busca o homem e se revela a ele. Como diz Jesus no evangelho, não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos escolhi a vós e vos destinei a ir e a dar fruto, e fruto que permaneça; e assim, tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome Ele vo-lo concederá. João 15, 16

No Natal celebramos a grande verdade, que Deus não está envolto em silêncio, mas sim em panos e depositado numa manjedoura. Com o nascimento de Jesus, Deus rompe o silêncio, elimina a distância e desfaz a inacessibilidade. Jesus é o Emanuel, Deus connosco, à nossa beira, companheiro de viagem na nossa vida, como o foi com os discípulos de Emaús.

Filho de Deus versus último profeta
Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas. Ultimamente nos falou por seu Filho, que constituiu herdeiro universal, pelo qual criou todas as coisas. Hebreus 1, 1-2

Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, resume todas as religiões que em relação à religião cristã ocupam o lugar que o Antigo Testamento ocupa na Bíblia. Todas elas são acerca de profetas enviados por Deus; o cristianismo não apresenta mais um profeta, mas sim o próprio Deus connosco, o Emanuel.

O Islão aceita como válida a tradição religiosa judaica descrita no Antigo Testamento que eles consideram também seu. Maomé é, portanto, o último dos profetas que Deus enviou ao mundo, sendo o penúltimo Jesus.

Se a humanidade viver mais 10 000 ou 20 000 anos, que sentido faz que o último tenha vindo no ano 524? Mais mudanças sofreu o mundo e a humanidade desde o ano 524 que em todos os milhões de anos anteriores; porque será que os profetas se sucediam uns aos outros com frequência e depois do ano 524 deixaram de ser precisos?

No caso do Cristianismo, mesmo que a humanidade viva até ao ano 20 000, faz sentido que a revelação tenha acontecido no ano zero. Como explica o autor da carta aos Hebreus, “O enviado” não é mais um profeta, mas sim o próprio Deus que vem viver entre nós.

Há aqui um salto qualitativo; os profetas trazem mensagens para um tempo, a palavra de Deus é eterna para todos os tempos e lugares, porque Deus não precisa de falar duas vezes. Por outro lado, Cristo não é só uma palavra proferida, é uma palavra vivida e só se vive uma vez.

Em que sentido é o último profeta? É porque o Islão tem uma doutrina mais refinada e um caminho ascendente que já chegámos ao topo? Mas o topo até parece o cristianismo com uma narrativa muito mais humana e humanizante, como por exemplo o amor aos inimigos. O Islão na sua prática e doutrina até se assemelha mais ao Antigo Testamento que ao Novo, quando pensamos que ainda hoje se apedrejam mulheres e Cristo foi contra isso já nos seus dias.

O Islão é, em si, violento por natureza, pois não se trata de amar a Deus que nos amou primeiro, não se trata de “amor com amor se paga”; Deus no Islão é o senhor do Antigo Testamento que ordena submissão, Islão significa submissão, a pessoa submete-se a Deus, não ama a Deus que já não nos chama servos, mas amigos. De facto, a forma histórica como o Islão se expandiu não foi pela missionação ou catequese, mas pela força e submissão armada ou pelo negócio.

Natal, festa do Pai
De tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. João 3, 16

Como a Igreja tem reservado o domingo depois de Pentecostes para celebrar a Santíssima Trindade, a união e comunhão das três pessoas divinas, é justo que tenha uma solenidade para cada uma das três pessoas divinas. Ao ver que Pentecostes é claramente a celebração de Deus Espírito Santo, desejei ver nas outras duas, Páscoa e Natal, as celebrações do Pai e do Filho, e deparei-me com o problema de que as duas, tanto o Natal como a Páscoa, parecem ser celebrações do Filho, ficando o Pai sem celebração individual.

Não é justo que o Filho tenha duas festas e o Pai nenhuma, por isso pensei qual das duas dar ao Pai e com que critério; podia ser a Páscoa, porque Jesus morre fazendo a vontade do Pai (Lucas 22, 42) ou o Natal, pelo que o próprio Jesus diz no seu diálogo com Nicodemos: “Porque Deus tanto amou o mundo que lhe deu o seu Filho Unigénito (João 3, 16-21).

Para dirimir a questão, recorremos à gramática e ao que esta nos diz sobre voz ativa e voz passiva. Na Páscoa, parece que é Jesus que dirige a ação quando diz, “não são eles que me tiram a vida sou eu que a dou” (João 10,18). Na Páscoa, Jesus é o ator principal, ninguém tem maior amor que o que dá a vida pelos seus amigos (João 15,13). Não há a menor dúvida então que a Páscoa é a festa do Filho, pois nela é Ele o protagonista.

O mesmo já não acontece no Natal, Jesus não é o protagonista do Natal, porque gramaticalmente é pessoa passiva, Jesus não nasce, é dado à luz. Por isto, nunca gostei da formulação do terceiro mistério gozoso que em todas as línguas diz “contemplamos o nascimento de Jesus”. Como se Jesus tivesse caído do Céu de paraquedas ou como se Ele mesmo tivesse provocado o seu nascimento. Este mistério deveria dizer: “No terceiro mistério gozoso contemplamos Maria que dá à luz a Jesus”.

O Natal tem dois grandes protagonistas um divino e outro humano. Deus Pai é o protagonista divino e Maria é a protagonista humana. A ação começa em Deus Pai que envia o seu Filho unigénito ao mundo. Se bem que entre o Pai e o Filho não haja ordem de importância, do ponto de vista gramatical e humano, é mais importante quem envia do que quem é enviado; quem envia provoca a ação, quem é enviado sofre a ação.

Maria, a protagonista humana, não é passiva, também é ativa; ela representa toda a Humanidade que diz “Sim” ao plano de Deus. Um “Sim” livre porque foi dito de uma forma ponderada e sem nenhuma coação por parte de Deus que o propôs; um “Sim” que, por ser livre, podia ter sido “Não”. Tão importante é o que envia como o que recebe. Se um Rei envia um mensageiro a um outro Rei, este último é livre de receber ou não receber o mensageiro enviado.

A figura do Pai Natal
"Jesus is the reason for the season" - "Jesus é a razão da estação" (Slogan protestante do Natal)

Jesus não é a razão da época ou quadra do Natal, o Pai é que é. Nesta festa, Jesus é dado à luz: os verbos que se referem a Jesus nesta quadra vêm em voz passiva. O Natal, como encontro entre Deus e a Humanidade, tem uma protagonista humana, uma mãe, Maria, que recebeu Jesus no seu seio e contribuiu com o seu material genético; e tem um Pai divino, Deus.  

Noutro tempo, também eu critiquei a importância que a sociedade civil dá à figura mítica do Pai Natal. Hoje entendo que é um desses casos de “voz do povo, voz de Deus”. O Pai Natal representa Deus Pai que enviou o seu Filho ao mundo. Venerável senhor idoso que não esconde a idade nem quer aparentar ser mais jovem, e que se desfaz em amabilidades dando presentes às crianças, acariciando-as e tomando-as ao colo. No imaginário de todas as pessoas, Deus Pai é sempre representado como um homem idoso de cabeleira e barba branca. O Pai Natal coincide com este imaginário coletivo.

As suas vestes são vermelhas como as de um bispo porque, historicamente, o Pai Natal está associado ao Bispo São Nicolau, razão pela qual se chama Santa Claus em inglês ou apenas Santa. Vive no Polo Norte, lugar apartado de tudo e de todos, numa região branca, num mundo puro que apela ao imaginário coletivo da forma como se conceptualiza o Céu, morada de Deus.  

Visita-nos durante a noite, pois, como dissemos, a noite é tempo de salvação. Nunca é visto, mas fala pelas suas obras traduzidas nas graças e presentes que nós, como crianças e seus filhos, lhe pedimos. Podendo entrar por janelas ou portas, entra sempre pela chaminé porque se desloca voando, vem de cima para baixo e entra pela única parte da casa que está sempre aberta e em vigia, assinalando que nós devemos estar sempre em oração, abertos ao Altíssimo, olhando para cima de onde nos vem o auxílio.

De repente, juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste, louvando a Deus e dizendo: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado. (…) os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, conforme lhes fora anunciado. Lucas 6, 13-14, 20

Conclusão: o Natal, por ser a festa de Deus Pai, foi celebrado nos Céus pelos anjos que disseram Glória a Deus nas alturas, e na Terra pelos pastores que voltaram de Belém glorificando e louvando a Deus.

Pe. Jorge Amaro, IMC



15 de maio de 2023

III Mistério - Visita de Maria à sua prima Isabel - 2ª Parte

Sem comentários:

A Anunciação evoca a escuta da Palavra de Deus – A Visitação evoca o encarnar da Palavra
Na Anunciação, Maria está atenta à escuta da palavra de Deus que lhe é transmitida por intermédio do anjo Gabriel. Esta é a atitude do verdadeiro discípulo, como Maria de Betânia aos pés do Senhor, escolhendo, segundo o Mestre, a melhor parte. Na Anunciação, Maria tem a mesma experiência que o profeta Jeremias, para quem a palavra de Deus é doce ao paladar, tão doce como o mel.

A Visitação é o tratar de encarnar a Palavra, de a colocar em prática para assim sermos não só discípulos do Mestre, mas também familiares íntimos d’Ele a de sua mãe, que passou pelo mesmo processo, bem como os seus irmãos e irmãs. Quem ouve a Palavra e não a faz comportamento do dia a dia, não a encarna, não a coloca em prática, é como o que construiu a sua casa na areia. (Mateus 7, 24-27)

A Palavra revela-nos a vontade de Deus a nosso respeito; colocá-la em prática é fazer a vontade de Deus que era já para Jesus o seu próprio alimento, pelo que assim deve ser também para nós. A Palavra, como diz a Bíblia, é viva e eficaz, é na sua prática que ela se transforma em vida e em eficácia.

Nem todo aquele que me diz: "Senhor, Senhor", entrará no reino dos céus, mas o que faz a vontade do meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: "Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizámos? Não foi em teu nome que expulsámos demónios? Não foi em teu nome que fizemos numerosas ações poderosas?". Confessar-lhes-ei então: "Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade! Mateus 7, 21-23

Senhor, abre-nos", então, respondendo, ele vos dirá: "Não sei de onde vós sois". Começareis, então, a dizer: "Comemos e bebemos na tua presença, e ensinaste nas nossas praças". E ele dir-vos-á: "Não sei de onde vós sois. Afastai-vos de mim, todos os que praticais a injustiça"
. Lucas 13, 25-27

Comentando e parafraseando os textos acima, "Senhor, Senhor" é o equivalente a ouvir a Palavra de Deus. Se o Senhor nos conhece ou não, depende da prática da Palavra de Deus. Deus não nos conhece da nossa prática religiosa na igreja, mas pela forma como nos comportamos na rua. O texto de Mateus acima citado é seguido pela metáfora de construir sobre a arei ou sobre a rocha. Aquele que põe a palavra em prática constrói sobre a rocha, não sobre a areia como aquele que não pratica aquilo em que diz acreditar.

Jesus não nos conhece quando lhe dizemos “Senhor, Senhor,” mas quando o visitamos no próximo, nos necessitados, nos mais pequenos, onde Ele está escondido. Parafraseando S. João, na escuta da Palavra amamos a Deus que não vemos, na visitação do próximo vemos a Deus a quem amamos.

Se a Anunciação evoca a semente e a sementeira da Palavra – A Visitação evoca o terreno onde a Palavra cai e frutifica
Na parábola do semeador, a Palavra de Deus é comparada a uma semente de qualidade que tem em si mesma a potencialidade de dar fruto; uma semente que pode até ser tão pequena como um grão de mostarda, mas que se transforma numa árvore suficientemente grande para as aves do céu fazerem ninho e procriarem, gerando assim mais vida.

A semente é a palavra de Deus e o semeador é Cristo; depende do terreno se esta semente vai dar fruto ou não. Não é culpa da semente nem do semeador, mas sim do terreno em que a semente cai. O trigo que Deus semeou no seio de Maria tornou-se para nós pão de vida eterna.

Se a Anunciação evoca a fé e a esperança – A Visitação evoca a caridade
"De que aproveitará, irmãos, a alguém dizer que tem fé, se não tiver obras? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se a um irmão ou a uma irmã faltarem roupas e o alimento quotidiano, e algum de vós lhes disser: “Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos”, mas não lhes der o necessário para o corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se não tiver obras, é morta em si mesma.

Queres ver, ó homem vão, como a fé sem obras é estéril? Abraão, nosso pai, não foi justificado pelas obras, oferecendo o seu filho Isaac sobre o altar? Vês como a fé cooperava com as suas obras e era completada por elas. Assim se cumpriu a Escritura, que diz: Abraão creu em Deus e isto lhe foi tido em conta de justiça, e foi chamado amigo de Deus (Gn 15,6). 24. Vedes como o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé?"
Tiago 2, 14- 24

Esta é uma questão que divide protestantes e católicos e que eu entendo que é um grande equívoco. S. Paulo, nos seus escritos, não tem em conta muitas partes do evangelho, sobretudo o juízo final de Mateus 25 que é sobre as obras e não sobre a fé. Todas as perguntas que nesse juízo se fazem são referentes ao amor ao próximo não ao amor a Deus.

No meu entender, quando S. Paulo fala das obras que por si sós não nos salvam, refere-se às obras inspiradas ou feitas pela obediência formal à lei de Moisés, essa mesma lei que o concílio de Jerusalém decidiu não impor aos cristãos vindos do paganismo. Os fariseus pensavam que se salvavam pela obediência formal à lei de Moisés; enquanto que para o cristão o que o salva é o ser como Jesus, praticando obras de misericórdia, mesmo que não acredite n’Ele.

Baseados nesse passo da escritura, se tivéssemos que escolher entre o amor ao próximo e o amor a Deus, devíamos escolher o amor ao próximo, pois amando ao próximo estamos a amar a Deus indiretamente; amando só a Deus estamos certamente muito enganados, pois o Deus que pensamos que amamos é Pai do nosso próximo a quem nós ignoramos. O caminho mais seguro para a salvação não é portanto amar a Deus diretamente mas sim indiretamente através do amor pelo nosso próximo.

O amor a Deus sem amor ao próximo é uma religião ópio do povo, é uma fé sem verificação nem confirmação, pois o próximo vê-se e Deus não se vê. Deste modo, é uma imagem falsa de Deus aquela que não te leva a amar o próximo. Se a fé é a conta, a caridade, o amor ao próximo é a prova dos nove dessa conta, a confirmação de que está exata; por isso, só pelas obras se pode verificar se a fé é autêntica.

"A caridade jamais acabará. As profecias desaparecerão, o dom das línguas cessará, o dom da ciência findará. (…) Por ora subsistem a fé, a esperança e a caridade – as três. Porém, a maior delas é a caridade." I Coríntios 13, 8, 13

Se a Anunciação evoca a liberdade – A Visitação evoca a fraternidade e igualdade
Na Anunciação, Maria estava rezando, em contacto com Deus e exercendo o amor a Deus sobre todas as coisas. Estava, portanto, exercendo o valor humano da liberdade onde assenta a vida individual de cada ser humano.

Só somos verdadeiramente livres quando amamos a Deus sobre todas as coisas e sobre todas as pessoas. Quando O adoramos, ou seja, quando nos submetemos só a Ele, quando só Ele é o Senhor a quem prestamos homenagem e vassalagem, quando isto acontece somos verdadeiramente livres de tudo e de todos.

A ideia que aflora à nossa mente quando se fala de liberdade é a de viver de forma independente e autónoma, sem constrangimentos. A liberdade, no sentido de autonomia, é inerente a todo o tipo de vida ou matéria orgânica; é fazer coisas por si mesmo, é ser autónomo e independente como a célula, ou como a árvore que produz o seu próprio alimento pleo processo da fotossíntese.

Muito mais que para os animais, a liberdade é “condictio sine qua non” da vida humana. Os animais ou plantas fazem o que a natureza tem predestinado para eles, não saem fora desses moldes, pelo que não têm poder sobre a própria vida, não têm poder de opção.

O ser humano, pelo contrário, não está predestinado pela Natureza nem esta exerce poder sobre ele. O ser humano não tem propriamente um “habitat”, um ambiente propício à vida humana, ou seja, um único lugar onde a vida humana é possível. Em vez de se adaptar à Natureza, o ser humano tem a capacidade de adaptar a Natureza às suas necessidades.

Hoje a palavra “artificial” tem má fama, soa a plástico, nocivo para a saúde… Porém, a palavra na sua origem é boa pois significa “ars facere” do latim, fazer arte. Para o ser humano, o artificial é natural, o natural é artificial. O que é natural no ser humano é a criatividade de usar a Natureza a seu favor.

Os animais estão vivos; o ser humano não só está vivo, como vive, porque pode fazer da sua vida e com a sua vida o que quiser, orientá-la como quiser e até acabar com ela se assim o decidir. O ser humano tem a sua vida nas próprias mãos, não porque a possui, mas porque tem a capacidade de a administrar como quer, de a dirigir, de a gastar toda num projeto, uma opção fundamental para a qual tem talento e se sente chamado. Assim fez Beethoven ao dedicar a sua vida à música, Picasso à pintura, Ghandi à independência da Índia sem violência.

Na Visitação, Maria está em contacto com o próximo, exercendo o seu amor pelo próximo na pessoa da sua prima Isabel. Estava a ser uma boa samaritana pois estava a socorrer a sua prima mesmo sem esta lho pedir, como aliás fez nas bodas de Caná mais tarde. Sem que ninguém lho pedisse, ela solucionou o problema do vinho: provavelmente deu-se conta antes do noivo da existência de tal problema e, num ato de profunda empatia para com o noivo e a sua família, resolveu o problema, envolvendo o seu Filho e o seu poder de fazer novas todas as cosias.

Como primeiro valor da Revolução Francesa, a liberdade dizia respeito à relação entre indivíduo e sociedade; como segundo, dizia respeito à relação entre os indivíduos no interior da sociedade. O ser humano é um ser pessoal, individual, mas não é uma ilha: sempre faz parte de uma família, de um clã, de uma tribo, de uma nação.

Como já refletimos num texto anterior, o ser humano é uno e trino, tal como Deus e a sua criação. São precisos dois seres humanos para dar origem a um, pelo que um não existe, mas coexiste com outros dois. Se o valor base de um ser humano como ser pessoal e individual é a liberdade, o valor onde assenta o ser humano como ser social é a igualdade.

Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor. Levítico 19, 18

Não há em todo o mundo uma definição melhor de igualdade. O outro é um alter ego, ou seja, é um outro eu; não um tu, uma entidade externa, estranha, estrangeira, distante, mas sim o meu próximo, tão próximo que é um outro eu, um alter-ego, de onde provém a palavra altruísmo.

O que me é devido a mim, é-lhe devido a ele, pois é um ser humano como eu e todos viemos do mesmo tronco comum, nascido no Vale do Rift há 5 milhões de anos. A igualdade e a convivência na sociedade assentam no princípio de que os meus direitos são os deveres do meu próximo e os meus deveres são os direitos do meu próximo.

Não julgueis, para não serdes julgados; pois, conforme o juízo com que julgardes, assim sereis julgados; e, com a medida com que medirdes, assim sereis medidos. Mateus 7, 1

– É uma exortação divina à igualdade não nos colocarmos acima dos outros, julgando-os, pois somos todos iguais. Ninguém nos constituiu juízes, e só o seríamos, só poderíamos atirar uma pedra, se não tivéssemos pecado. Mas pecámos e frequentemente julgamos os outros pelos mesmos pecados e defeitos que nós temos, pelo que o nosso julgamento é hipócrita.

Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus. Gálatas 3, 28

– Jesus curou estrangeiros e frequentemente exaltou a sua fé. Tratava o homem e a mulher de igual para igual, foi o único Rabino que teve discípulas. Nas parábolas que contava procurava um equilíbrio entre os homens e as mulheres como protagonistas. Combateu o cliché de que a mulher devia dedicar-se exclusivamente ao trabalho doméstico, tendo como única vocação ser mãe. Desta forma, 2000 anos antes, já Jesus era a favor da integração da mulher no mundo do trabalho, ao lado do homem. (Cf.  Lucas 10, 38-42, Lucas 11, 17)

As visitas de Maria
Explicamos e justificamos que Maria é medianeira e nossa intercessora no Céu com o episódio das bodas de Caná (João 2, 1-11), no qual ela apresenta as necessidades dos convivas ao seu Filho, ao mesmo tempo que os exorta a fazer tudo o que Ele disser. Por que não explicar e justificar as visitas de Maria com o episódio da visita à sua prima Isabel? (Lucas 1, 39-45)

Nas suas visitas, Maria não traz um evangelho novo, uma mensagem nova, mas tal como o Espírito Santo de quem ela é Esposa, recorda partes esquecidas da mensagem (Cf. João 14, 26) do seu Filho e reinterpreta-as no “aqui e agora” da história dos homens. De facto, um dos fatores importantes da genuinidade destas mensagens é a sua concordância com o evangelho.

Maria continua a visitar aqueles de quem ela é mãe em momentos fulcrais da História dos seus filhos, para ajudar a encarnar nesses momentos e lugares a Palavra eterna do seu filho.

Guadalupe – Apoio à evangelização
Como iam os indígenas, em 1531, aceitar de bom grado a religião dos conquistadores, exploradores e assassinos espanhóis, se Maria não tivesse aparecido a um indígena. De facto, os indígenas até àquele tempo reticentes ao cristianismo, converteram-se em massa depois das aparições.

Lourdes – O Céu confirmou
Parte importante da mensagem de Lourdes é a confirmação do Céu, no ano de 1858, do dogma da Imaculada Conceição instituído pelo papa Pio IX quatro anos antes em 1854.

Fátima – “Penitência e Oração” são a solução
Entre duas guerras mundiais, Maria propôs em Fátima, entre outras coisas, a “Penitência e a Oração” como meios para fazer frente ao ateísmo militante, naquele tempo e ainda hoje.

Conclusão: depois da doação total de si mesma a Deus na Anunciação, Maria doa-se em igual medida ao próximo, ao visitar a sua prima Isabel.

Pe. Jorge Amaro, IMC









1 de maio de 2023

III Mistério - Visita de Maria à sua prima Isabel - 1ª Parte

Sem comentários:

"Naqueles dias, Maria levantou-se e foi às pressas às montanhas, a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Ora, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. E exclamou em alta voz:

“Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor? Pois assim que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu seio. Bem-aventurada és tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas!
”. Lucas, 1:39-45

A notícia de que a prima Isabel ia já no sexto mês de gravidez foi dada pelo anjo como prova de que a Deus nada é impossível. Maria, porém, sem comentar a notícia com o anjo, guardou-a e quando terminou o encontro com o mensageiro de Deus imediatamente partiu para Ein Karen, a 145 km de Nazaré. A viagem foi feita em caravana, na companhia de outros viandantes e deve ter demorado entre 7 e 10 dias.

Com o encontro e as palavras de Isabel a Maria completa-se a primeira metade de uma oração muito querida e repetida pelos católicos – Ave Maria – que na sua primeira parte é composta pelas palavras do anjo, seguidas das palavras de Isabel e terminando em Jesus que é o centro da oração, como sempre foi o centro da vida de Maria.

A segunda parte desta oração reflete o que Maria é para nós e o seu papel na História da Salvação do género humano e de cada um de nós individualmente. Por isso lhe pedimos que peça, que ore a Deus por nós “agora” em todos os “agora(s)” da nossa vida e, sobretudo, naquele “agora” derradeiro da nossa passagem deste mundo para o Pai. Como ela esteve aos pés da cruz do seu filho na sua agonia, assim nos acompanhe a nós na nossa.

Anunciação/Visitação
Há uma dialética entre a anunciação do anjo à Nossa Senhora e a visitação da Nossa Senhora à sua prima Santa Isabel, que faz com que estes dois mistérios tanto gozosos como marianos sejam inseparáveis um do outro, ou seja não possam nem devam ser entendidos individualmente, mas sempre em relação um com o outro.

Nestes dois mistérios e no que eles podem significar e evocar, vai toda a vida do cristão, ou seja, sintetizam em si a vida do cristão. Por isso, Maria é para nós modelo de vida cristã; ela de facto não foi só Mãe do Senhor, foi também sua discípula. Mãe porque discípula, discípula porque mãe. (Lucas 8, 21). Assim, pois, se:

Se a Anunciação evoca o “Ora”, a oração, a Visitação evoca o “Labora”, a prática de boas obras
Um dia, um grande rei visitou o seu mestre espiritual e perguntou-lhe, “Como posso alcançar a União com Deus? Quero que me respondas com uma só frase, pois sou um homem muito ocupado”. “O mestre disse-lhe: Até lho posso dizer numa só palavra”. “Qual é a palavra?” perguntou o rei”. “É o silêncio”, respondeu o mestre espiritual. “E como posso alcançar o silêncio”? “Através da oração”. “E o que é a oração?” “É silêncio”, respondeu o mestre.

No silêncio encontro-me a mim próprio e encontro a Deus no fundo do meu ser. No ruído perco-me a mim próprio e perco a Deus. O filho pródigo fez o que fez porque andava divorciado de si mesmo; quando caiu em si, voltou a Deus; então estar com Deus e connosco próprios implicam-se mutuamente. Quem está fora de si mesmo, está fora de Deus. Porque, como dizia Sto. Agostinho, “Deus intimior intimo meo”. Deus está mais fundo que o meu íntimo, está para além do meu íntimo, ou seja, não posso chegar a Deus sem passar por mim mesmo.

O “conhece-te a ti mesmo” do filósofo Sócrates, não é possível sem a oração. Sem um tempo dedicado à oração, como fazia Maria e o seu filho, não chegamos a conhecer os nossos talentos, as nossas virtudes e os nossos defeitos e limitações. Uma vida não autorreflexiva, dizia também Sócrates não vale e pena ser vivida. Pois é na autoconsciência que podemos exercer controlo sobre os nossos impulsos e maus instintos. Sem autoconsciência, não há autocontrolo.

Os Evangelhos apresentam frequentemente, sobretudo nas escolhas decisivas, Jesus que se retira sozinho para um lugar longe das multidões e dos próprios discípulos, para rezar no silêncio e viver o seu relacionamento filial com Deus. O silêncio é capaz de escavar um espaço interior em nós mesmos, dizia o Papa Bento XVI, para fazer habitar Deus esse espaço, para que a sua Palavra permaneça em nós, para que o amor por Ele se enraíze na nossa mente e no nosso coração, e anime a nossa vida.

Portanto, a primeira direção: reaprender o silêncio, a abertura para a escuta, que nos abre para o alto, para a Palavra de Deus. Como dizia Karl Rhaner, o grande teólogo jesuíta do século XX, os cristãos do futuro ou são místicos ou não são cristãos.

Alguém dizia que a vida do cristão decorre entre a Igreja como templo e a praça ou o mercado. No templo, o cristão está em oração e contemplação de Deus e de si mesmo; no mercado, o cristão está vivendo a sua fé na caridade e no amor ao próximo. Mesmo os monges contemplativos que dedicam muito tempo à oração “Orat”, também têm atividade, “laborat”.

"Intimamo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, a que eviteis a convivência de todo o irmão que leve vida ociosa e contrária à tradição que de nós tendes recebido. Sabeis perfeitamente o que deveis fazer para nos imitar. Não temos vivido entre vós desregradamente, nem temos comido de graça o pão de ninguém. Mas, com trabalho e fadiga, labutamos noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós.

Não porque não tivéssemos direito a isso, mas foi para vos oferecer em nós mesmos um exemplo a imitar. Aliás, quando estávamos convosco, nós vos dizíamos formalmente: quem não quiser trabalhar não tem o direito de comer. Entretanto, soubemos que entre vós há alguns desordeiros, vadios, que só se preocupam em intrometer-se em assuntos alheios. A esses indivíduos ordenamos e exortamos a que se dediquem tranquilamente ao trabalho para merecerem ganhar o que comer. Vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem.
" II Tessalonicenses, 3, 6-13

Para S. Paulo, não há profissionais nem da oração nem do anúncio do Evangelho. Isto deve ser tarefa de todos. Ele mesmo, como refere o texto, trabalhava, fazia tendas para ganhar o próprio sustento, não vivia nem à custa da oração nem da evangelização. Era, pois, contrário àquela divisão tradicional das classes sociais na Idade Média, em que o clero, rezava, os nobres protegiam o povo e o povo trabalhava para o sustento do clero e da nobreza. Mesmo já nesta Idade Média, os que muito se dedicavam à oração, os monges Beneditinos e Cistercienses, trabalhavam não só para o próprio sustento, mas também para o sustento das povoações vizinhas, às quais ensinavam práticas agrícolas.

Se a Anunciação evoca o “amar a Deus sobre todas as coisas” – A Visitação evoca o “amar ao próximo como a ti mesmo”.
Escuta, Israel! O Senhor é nosso Deus; o Senhor é único! Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Estes mandamentos que hoje te imponho estarão no teu coração. Repeti-los-ás aos teus filhos e refletirás sobre eles, tanto sentado em tua casa, como ao caminhar, ao deitar ou ao levantar. Atá-los-ás, como símbolo, no teu braço e usá-los-ás como filactérias entre os teus olhos. Escrevê-los-ás sobre as ombreiras da tua casa e nas tuas portas.» Deuteronómio 6, 4-8

Jesus disse à samaritana que não era nem no monte Gerasim, onde Jacob tinha construído um santuário Bétel, nem em Jerusalém, onde Salomão tinha construído o templo. Adora-se a Deus em espírito e em verdade. E noutro sítio da escritura, Jesus até diz que quem quiser rezar, entre no seu quarto. Na oração exercemos o nosso amor a Deus. É certo que em todo momento o amamos, porém, a oração é a manifestação desse amor que em todo o tempo sentimos.

Para todos os efeitos, o Criador sabe sempre mais da criatura que a criatura sabe de si mesma. O Criador ama mais a criatura que a criatura se ama a si mesma. O Criador sabe tudo da criatura, passado, presente e futuro, por isso, mais que a criatura, está capacitado para defender os seus interesses.

Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim. Mateus 10, 37

Tudo o que a criatura pode e deve fazer é entregar-se nas mãos do Criador, tal como um bebé sem hesitação se lança nos braços do pai. Assim, podemos entender o texto clássico do amor a Deus que é o credo, que todo o judeu recita quando se levanta de manhã. O amor a Deus é sobre todas as coisas, sobre todas as pessoas, completa e absolutamente exclusivo, acima do amor que temos por nós mesmos.

Deus só ama os que o amam
Ao entrardes numa casa, saudai-a. Se a casa for digna, venha sobre ela a vossa paz, mas se não for digna, volte para vós a vossa paz. Mateus 10, 12-13

Frequentemente em sermões, para obter a atenção dos que estão meio adormecidos, lanço uma granada no meio da audiência dizendo “Deus só ama a quem O ama”. Em seguida, os que se consideram teólogos objetam e dizem que não, que Deus ama a todos por igual, e até me citam a Bíblia, que faz chover sobre o justo e sobre o injusto.

E é verdade, em teoria Deus amou tanto a Hitler como a Francisco de Assis. No entanto, a vida dos dois não foi a mesma; se os dois tiveram a mesma quantidade e qualidade de amor de Deus, por que foram tão distintos? Francisco aceitou o amor de Deus, fez-se eco dele amando a Deus; Hitler não. O sol, antes de chegar ao nosso planeta e de o aquecer e iluminar, passa pelo espaço onde a temperatura é de 300 graus negativos. Porquê? Porque está vazio, nada há nele que faça eco e acolha essa luz e esse calor. A única forma de fazer-se eco do amor de Deus é amá-l’O também.

“Amor com amor se paga” – Como diz a escritura, Deus amou-nos primeiro e sempre nos ama, mas se eu não faço eco do Seu amor em mim, é como se Ele não me amasse. Só com o amor podemos fazer eco do amor de Deus em nós. Ao amor, ou se responde com amor ou somos ingratos. Por isso, se bem que em teoria Deus ama a todos por igual, só o que aceita esse amor, só o que está aberto ao amor de Deus, sente os efeitos desse amor. O ato de aceitar o amor de Deus, o estar aberto ao amor de Deus, é amar a Deus.

Como o texto bíblico acima citado (Mateus 10: 12-13) sugere, a bênção volta para quem bendiz quando não é bem recebida. Assim, é com o amor de Deus que não encontra um coração aberto para receber o amor que Deus tem para dar.

Amar e ser amado
Amar e ser amado é a primeira necessidade humana, depois das necessidades físicas. Não há vida humana sem amor; viver é amar. Durante toda a nossa vida teremos esta necessidade. Por isso, por ser uma necessidade humana e por não haver vida humana autêntica sem amor, amar é, ao mesmo tempo, um dever e um direito.

Como necessidade inerente à natureza humana e à dignidade da pessoa humana, todos os seres humanos têm o direito de ser amados e o dever de amar. Como crianças, a prioridade é sermos amados, pois é sendo amados incondicionalmente que aprendemos a amar incondicionalmente. Como adultos, a prioridade é amar; se um adulto tem como prioridade ser amado mais que amar, não é um adulto maduro. É um desses tipos de adultos que vemos nas telenovelas, que usam mil e um estratagemas para obter a estima de alguém e pouco ou nada fazem para amar alguém.

A nível educacional, o amor é um dever dos adultos para com as crianças, um direito inerente e inato das crianças em relação aos adultos. Fora do âmbito educacional, a necessidade de amar e ser amado permanece para o resto da vida, pelo que é sempre, simultaneamente, um direito, ainda que não o reivindiquemos, e um dever, ainda que não o exercitemos.

Porém, Deus continuamente nos perguntará “onde está o teu irmão?” (Génesis 4, 9). Responder que não somos o guardião do nosso irmão não é uma resposta que satisfaça a Deus nem à nossa consciência. Convém também lembrar que a matéria do Juízo Final é a mesma matéria da vida: o amor. Se amaste, viveste; se não amaste, não viveste, eras um morto vivo, ou seja, o corpo estava vivo, mas a alma já estava morta. Com a morte do corpo, regressas ao nada a partir do qual Deus te tinha criado para fazer de ti alguma coisa; mas tu não colaboraste com a Sua graça.

Conclusão: Se na Anunciação Maria manifesta o seu amor a Deus, na Visitação à sua prima manifesta o seu amor ao próximo. Nestes dois mistérios gozosos e marianos se resume a vida do cristão.

Pe. Jorge Amaro, IMC