1 de outubro de 2022

Perfil do missionário do século XXI - 1ª Parte

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Ter uma relação íntima e pessoal com Cristo O que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram relativamente ao Verbo da Vida, (…) isso vos anunciamos. 1ª João 1, 1,3

O Teólogo Karl Rhaner disse que os cristãos do futuro ou são místicos ou não são cristãos. Ser cristão é fundamentalmente ter uma relação afetiva com Cristo como a tiveram os primeiros cristãos, os seus discípulos, que Ele escolheu primariamente não para serem continuadores da sua obra, mas para que vivessem com Ele. (Marcos 3, 14).

O cristianismo não é, portanto, uma doutrina ou uma filosofia de vida; é uma relação afetiva com Cristo que leva a uma relação afetiva com todos os que nos rodeiam. Para o cristão de hoje, como sempre, o afetivo tem de ser efetivo, ou seja, tem de mudar a vida e dar ao cristão de hoje autorrealização e felicidade.

O principal papel de um missionário é evangelizar, não é catequizar nem fazer caridade, mas sim testemunhar a relação pessoal e íntima de amor que tem com o Senhor e oferecer essa mesma experiência aos outros. Ninguém dá o que não tem; se não temos essa relação, não podemos nem devemos ser missionários.

O evangelizador que anuncia Aquele com o qual não tem uma relação íntima é como um papagaio; fala do que aprendeu e, em vez de se colocar ao serviço da Palavra, coloca a Palavra ao seu serviço, ou seja, usa-a subliminarmente para se pavonear e promover.

Dom de palavra
O missionário deve ser o que em inglês se chama um “motivacional speaker” (orador motivacional), empolgante, cheio de ardor e entusiasmo. Um bom comunicador até banha da cobra consegue vender. O nosso produto, a Palavra de Deus, já deu ao longo de mais de 2000 anos provas da sua excelência.

Uma Palavra de Vida comunicada sem vida desautoriza-se a si mesma. Nós, mais que ninguém, temos razões para estar alegres pois possuímos uma fé que dá sentido ao nosso existir aqui e agora e nos lança para o futuro, cheios de Esperança, sem nada que temer.

Conhecer a Bíblia
Todo o doutor da Lei instruído acerca do Reino do Céu é semelhante a um pai de família, que tira coisas novas e velhas do seu tesouro Mateus 13, 52.

O evangelizador do nosso tempo deve ser um bom conhecedor da Sagrada Escritura e ser capaz de trazer a realidade à Escritura para nela encontrar iluminação, respostas e soluções ou levar a Escritura à realidade para que a Palavra de Deus encarne em atitudes, comportamentos e ações concretas.

Muitas seitas cristãs e os coptas na Etiópia colocam o Novo Testamento ao lado do Antigo, dando igual importância a um e a outro. Isto é errado porque o Novo Testamento, a Nova Aliança, não pode ter o mesmo valor que a anterior; se assim fosse, não precisávamos dela. A Nova Aliança veio substituir e dar cumprimento à antiga. O Antigo Testamento deve ser lido a partir da perspetiva do Novo e na medida em que concorda com o Novo.

O Antigo Testamento contextualiza o Novo, por isso não se entende o Novo Testamento sem entender o Antigo; assim como não se entende o Antigo Testamento sem conhecer e entender a história do povo de Israel.

Conhecer a nossa cultura
O cristianismo começa com o Natal; o missionário é aquele que faz nascer a Cristo, ou seja, encarna a Palavra de Deus em cada momento e em cada lugar. Para este efeito, precisa de possuir um conhecimento profundo da cultura e do momento histórico que o povo atravessa. Ter “o jornal numa mão e a Bíblia na outra” como dizia o grande teólogo protestante Karl Barth.

Encarnar a Palavra é saber encontrar nela a salvação para o “aqui e agora” de um povo; ou seja, a resposta às questões e a solução para os problemas do momento presente. Neste sentido, o missionário está chamado a ser um profeta, o homem que sabe ler os sinais dos tempos; “the man of the year” (o homem do ano), o líder natural, um Moisés que pode guiar o povo pelo caminho da salvação, ou seja, da plena saúde espiritual, física, mental e moral.

Conclusão – Como o bispo diz na ordenação de um diácono ao entregar-lhe os Evangelhos, assim deve ser um missionário de hoje: “Recebe o Evangelho de Cristo, que tens missão de proclamar. Crê no que lês, ensina o que crês e vive o que ensinas.”

Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de setembro de 2022

Rejeitar a Igreja é rejeitar a Cristo

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Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, também quem de verdade me come viverá por mim. (…) Depois de o ouvirem, muitos dos seus discípulos disseram: «Que palavras insuportáveis! Quem pode entender isto?» (…) A partir daí, muitos dos seus discípulos voltaram para trás e já não andavam com Ele. João 6, 56-57, 60, 66

Não aceitar a eucaristia, comer o corpo e o sangue do Senhor, foi o que fez com que alguns deixassem de andar com Jesus, de ser seus amigos e seus discípulos.

Lamentavelmente, ainda hoje é assim; a participação ou não na eucaristia dominical, distingue um católico praticante de um não praticante. Destes católicos, uns pensam que podem pertencer à Igreja sem participar na Eucaristia; outros pensam que podem rejeitar a Igreja sem rejeitar a Cristo. Algo assim como muitos protestantes que pensam que dão mais valor a Jesus retirando importância a Maria, sua mãe.

Não é possível amar a Cristo odiando a Igreja que ele fundou. Se Jesus de Nazaré é o Cristo histórico, a Igreja é a presença de Cristo na história. Jesus disse-lhe: «Há tanto tempo que estou convosco, e não me ficaste a conhecer, Filipe? Quem me vê, vê o Pai. Como é que me dizes, então, 'mostra-nos o Pai'? (João 14, 9). Se Cristo representa a Deus Pai, a Igreja representa bem ou mal, mas sempre representa a Cristo, porque é o seu corpo místico. Esta representação pode em tempos ser boa ou má, mas é sempre uma representação.

A Igreja corpo místico de Cristo – pluribus unum
Tal como o nosso corpo é constituído por 300 triliões de células e todas elas são diferentes, pois formam tecidos diferentes como o tecido do estômago, do cérebro, dos ossos, da pele, do fígado, do coração, etc., todas elas estão unidas num único corpo porque, apesar de serem muitas e muito diferentes, têm algo em comum: o ADN, o código genético.

Da mesma forma, nós os cristãos que somos mais de mil milhões e muito diferentes uns dos outros, vivemos em diferentes latitudes e longitudes, falamos diferentes línguas, somos de diferentes grupos humanos, culturas, nacionalidades, temos idiossincrasias e personalidades diferentes, mas com algo em comum: a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo. Isto faz de nós uma comunidade, um só corpo, uma só família.

Cristo, em forma física e humana, só podia viver e morrer uma vez. No entanto, a ação salvífica patente no conjunto da sua vida terrestre não era só para os homens do seu tempo e do lugar em que viveu, mas sim para os homens de qualquer tempo e lugar. A Igreja foi por Ele fundada para estender a todo tempo e lugar a Sua ação salvífica. Igreja é Cristo no tempo e no espaço; a Igreja é Cristo aqui e agora. Em Israel, há dois mil anos, Cristo existiu sem a sua Igreja; depois da sua vida terrena, nem a Igreja existe sem Cristo nem Cristo existe no tempo e no espaço sem a sua Igreja.

A Igreja, como corpo místico de Cristo, inspirada pelo Espírito Santo, é a voz, o coração, a mente, as mãos e os pés do Senhor atuando aqui e agora, em todo o tempo e lugar a mesma ação salvífica que Jesus realizou do ano zero ao 33 em Israel.
 

"Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas, porque vou para junto do Pai." João, 14, 12

A Eucaristia, corpo sacramental de Cristo
Um clube, uma empresa, uma instituição, um povo que não se reúne, não existe como tal. A Eucaristia, corpo sacramental de Cristo, é a razão pela qual o corpo místico de Cristo se reúne. No mesmo lugar, instituiu o mesmo Cristo a Eucaristia e a Igreja, pelo que uma não existe sem a outra.

O dia que acabasse uma, acabaria também a outra. Como outrora, nos tempos de Jesus, foi a rejeição da Eucaristia a razão pela qual deixaram de andar com Jesus; nos nossos tempos, continua a ser esta a razão. Quem abandona a Eucaristia abandona a Igreja e vice-versa. Quem abandona a Igreja abandona a Cristo e vice-versa.

Muitos grãos de trigo fazem um só pão; muitos bagos de uva fazem um só vinho; muitos cristãos fazem um só corpo. Cristo escolheu o Pão e o Vinho para simbolizar e significar o seu sacrifício por nós; a Eucaristia é o memorial da vida, paixão, morte e ressurreição do Senhor.

É a Igreja que celebra a Eucaristia; a Eucaristia é a razão de ser da Igreja, porque é ela que congrega os cristãos em resposta ao mandato do Senhor, “fazei isto em minha memória” Lucas 22,19. A Eucaristia faz memória do Senhor e faz presente a ação salvífica de Cristo. Ao participar na Eucaristia nós recolhemos os frutos da redenção.

Cristo é o corpo entregue e o sangue derramado por toda a Humanidade; Cristo é o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. A redenção está disponível para todos, é para todos, salvam-se os que tomam parte nela. Deus alimenta as aves do céu, mas não lhes deita a comida nos seus ninhos, as aves, têm que sair e procura-la na natureza. O mesmo acontece com a Eucaristia que oferece salvação a todos, mas tu tens de a ir buscar participando nela.

Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes mesmo a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu hei de ressuscitá-lo no último dia, porque a minha carne é uma verdadeira comida e o meu sangue, uma verdadeira bebida. João 6, 53-55

A Eucaristia é o coração da Igreja. No corpo humano, a função do coração é a de ser o motor que move o sangue das células ao coração e do coração às células. Do mesmo modo, a vida do cristão é um vaivém entre a Eucaristia e o mundo. Quando a missa era em latim, no final o sacerdote dizia “Ite missa est” que queria dizer “podeis ir, a missa terminou”, mas também significava “terminou a missa, começa a missão”.

A Eucaristia está para a Igreja, a Igreja está para a eucaristia como a galinha está para o ovo, e o ovo está para a galinha. De facto, tanto a Eucaristia, nascida em quinta-feira Santa, como a Igreja nascida em Pentecostes tiveram lugar na mesma sala de cima. A Eucaristia foi o momento de conceção da Igreja e o Pentecostes o momento do seu nascimento. O corpo místico de Cristo encontra-se para celebrar o corpo sacramental de Cristo e para comunitariamente se alimentar do seu corpo, do seu sangue e da sua Palavra.

Ao desaparecer uma desaparece a outra. Por isso, aquele que, de ânimo leve, fazendo parte do corpo místico de Cristo, que é a Igreja, deixa de frequentar a Eucaristia, abandonou a Igreja e, quando já não houver gente que celebre a eucaristia, já não haverá Igreja. O dia em que a eucaristia deixar de ser celebrada, esse mesmo dia desaparece a Igreja.

Se isto algum dia acontecer, Cristo terá morrido na história da humanidade sem nunca mais ressuscitar, pois é a Igreja que conserva a sua memória e celebra a Eucaristia em sua memória como Ele mandou (Lucas 22, 19). Quando no mundo já não houver ninguém que faça memória de Cristo, celebrando a eucaristia, Cristo deixa de ter na terra, um corpo físico que o represente (pés, mãos, coração e boca) e continue a sua obra de redenção de geração em geração.

Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica

Os protestantes não entendem como os católicos podem incluir no Credo, a fé na Igreja, depois de professar a fé em Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo. Nós acreditamos na Igreja porque ela foi fundada por Cristo e representa a Cristo e, através dela, Cristo faz com que ainda hoje a sua salvação esteja presente no mundo. Por tudo isto, na sua essência e pelo seu fundador, ela é santa. Ao dizer “creio na Igreja”, afirmo acreditar em tudo o que acabo de dizer.

Santa e meretriz, disse um teólogo católico. Sim, a Igreja tem tanto de santa como de pecadora. Santa na sua essência porque foi fundada por Cristo, pecadora na sua existência porque é constituída, desde o seu início, por homens e mulheres pecadores. Se o homem como o define Sto. Agostinho é simul justus ed peccator, ao mesmo tempo justo e pecador, assim é a Igreja. Mas não a rejeito porque é a minha mãe, ninguém rejeita a sua mãe por esta ter defeitos.

Solus Christus, sola fede, sola scritura
O grave erro de Lutero foi deixar fora a Igreja. Como dissemos anteriormente, hoje sem a Igreja não existe Cristo.

Solus Christus
Foi Cristo que a fundou, por isso Lutero rejeita o que Cristo fundou. Foi Cristo que deu vida à Igreja e ainda dá vida à Igreja, mas também é a Igreja que dá vida a Cristo pois ela O representa aqui e agora, porque ela concretiza aqui e agora o mesmo que Cristo concretizou no seu tempo – foi para isso que Cristo fundou a Igreja. Portanto Cristo dá vida à Igreja, a Igreja dá vida a Cristo.

Sola fede
Quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra? Lucas 18, 8

Da Igreja depende que Cristo encontre ainda fé na terra quando Ele voltar para julgar a vivos e a mortos. Dela depende porque é ela que passa a fé em Cristo de geração em geração, como numa corrida de estafetas se passa o testemunho.

Isto porque é a Igreja que é a depositária da fé em Cristo. Isto porque a nossa fé é apostólica, ou seja, a fé em que Cristo ressuscitou dos mortos é apostólica porque nós acreditamos no testemunho dos apóstolos: eles viram, ouviram e tocaram o corpo espiritual ou glorioso de Cristo. Depois deles, ninguém mais O viu, tocou ou ouviu como eles O viram tocaram e ouviram (1 João 1, 3). Tal como hoje não existe Cristo sem a Igreja, nem a Igreja sem Cristo, também não existe fé sem Igreja, nem Igreja sem fé.

Sola scritura
O Cristo que temos é o Cristo da Igreja. Foi ela que deu à luz o Cristo para o mundo depois da sua morte e ressurreição – se pensarmos que o Novo Testamento foi escrito pelas comunidades cristãs, é Cristo que detém os direitos de autor. O grupo dos apóstolos era já Igreja, a sua pregação deu origem a novos fiéis e, alguns destes fiéis reunidos em pequenas comunidades cristãs, escreveram os evangelhos.

As cartas dos apóstolos, sobretudo as de Paulo, eram autênticas cartas porque tinham um remetente, S. Paulo que as endereçou às pequenas comunidades de Corinto, de Éfeso, de Tessalónica, etc. Por isso, no que respeita ao Novo Testamento, não existe escritura sem Igreja.

Unus christianus nulus christianus - Dizia Sto. Agostinho, fundador da ordem religiosa da qual Lutero era membro, “um único cristão, é um cristão nulo”. O cristianismo nasceu em comunidade e só pode viver-se em comunidade. Sem comunidade, não há cristianismo. Como todos os animais têm um habitat onde vivem e prosperam, assim o cristão só pode viver e prosperar no seio da comunidade cristã.

Conclusão – Quem deixa de frequentar a Eucaristia, abandona a Igreja e quem rejeita a Igreja rejeita Aquele que a fundou como sendo o Seu corpo místico, pois representa a Cristo no aqui e agora da história, de geração em geração. Como Ele disse, “as portas do inferno nada poderão contra ela” (Mateus 16, 17) porque “Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos”. (Mateus 28, 20)

Pe. Jorge Amaro, IMC







1 de setembro de 2022

Cristo e as religiões do mundo

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Está hoje muito divulgada a ideia de que todas as religiões são iguais e valem o mesmo; para os não crentes todas são más; para os crentes todas são boas e levam à salvação, cada um pode escolher a que mais lhe convier ou a que culturalmente melhor se adapte à sua idiossincrasia.

É verdade que cada cultura tem a sua forma particular de conceptualizar e adorar a Deus. Verificamos isso até no seio de uma única religião como o cristianismo. Na Europa, onde nasceu e floresceu, a leste tornou-se ortodoxa e a ocidente manteve-se católica, por um tempo até que se deu uma rutura. Desta vez o Norte fez-se protestante e o Sul manteve-se católico.

Porém, hoje, com a globalização crescente das culturas, as diferenças ou nuances passaram a ser pequenas no viver e atuar, uma única natureza humana que não varia no tempo nem no espaço. Prova disso, e para o tema que nos ocupa, podemos organizar todas as religiões, presentes ou passadas, segundo três grandes categorias: animistas, politeístas e monoteístas.

Isto é possível porque, como existe uma só natureza humana invariável no tempo e no espaço, também existe um único modelo de desenvolvimento. Ou seja, não existe um modelo de desenvolvimento alternativo ao que temos hoje, que passa pela descoberta da eletricidade, do movimento automotor, da descoberta da imprensa escrita, da rádio, da televisão, da Internet, etc.

Evolução do sentimento religioso
Logo que o ser humano tomou consciência de si mesmo, foi como se tivesse despertado de um grande sonho e, ao olhar para a realidade que o rodeava, a primeira crença que teve foi de que tudo o que o rodeava também estava consciente de si mesmo, tinha um espírito, uma anima. Assim surgiu o animismo como primeira etapa na evolução do sentimento religioso.

Animismo
Um pouco como a magia, o animismo baseia-se na crença de que o mundo, tanto na sua totalidade como nas suas partes, tem uma alma ou espírito; até mesmo o ar que respiramos, está povoado por espíritos que são forças impessoais e que podem ser invocados ou convocados e manipulados por xamãs, médiuns, magos, feiticeiros, bruxas, usando fórmulas, rituais e palavras mágicas.

Apesar de ser apenas a primeira etapa da evolução do sentimento religioso, é ainda hoje praticado por tribos indígenas onde estas ainda existem: na América tanto do Norte como do Sul, na Ásia, em África, na Austrália e nas ilhas do Pacífico.

Para além destas, no mundo moderno, todas as formas de superstição e adivinhação, como a astrologia, a cartomancia, a bruxaria, a feitiçaria, são resquícios de animismo que têm uma enorme aceitação popular. Objetos que dão sorte e outros que dão azar, rituais para conjurar a sorte e rituais para evitar o azar, continuam a fazer parte do nosso dia a dia. Entrar com o pé direito, a crença no poder dos cornitos, das ferraduras, das figas…

A religião New Age que pretende ser a síntese de todas as religiões, tem muito de neopaganismo ou animismo. Se quisermos, até a espiritualidade franciscana pode ser vista sob esta perspetiva, ao chamar irmão ao lobo e ao sol, e irmã à água e à lua. S. Francisco estava a devolver a estas realidades a alma que antes possuíam.

Depois do banho de materialismo que tem vindo a aumentar desde o Renascentismo, hoje a maioria das pessoas dá-se conta de que um objeto material não pode ter poder espiritual. Só um ser espiritual tem poder espiritual. Porém, ainda há quem seja supersticioso, recordando-nos sempre do animismo dos nossos antepassados.

Se compararmos a evolução da noção de Deus com o amadurecimento do homem, o animismo corresponde à infância - as crianças têm de facto a tendência para ver tudo o que as rodeia com alma, falam com os seus bonecos e brinquedos, vivem num mundo animado de fadas, bruxas e papões e acreditam no Pai Natal e na magia; Walt Disney, nos seus filmes para crianças, soube explorar este lado da fantasia infantil.

Politeísmo
À medida que o ser humano vai conhecendo e dominando o ambiente que o rodeia, este vai-se materializando. Todas as realidades que o ser humano conhece, controla e domina perdem a sua alma e o poder que têm sobre ele. Aquele que conhece exerce o seu poder e controlo sobre a realidade conhecida. Desta forma se vai reduzindo a esfera do mundo espiritual fora da própria pessoa.

Há, porém, certas realidades que o ser humano não domina com o conhecimento e ainda se sente impotente e desamparado, à mercê delas, dá-lhes o nome de deuses. Assim surge um deus para cada realidade que o ser humano não domina, o deus da guerra, Marte, o deus do mar, Neptuno, a deusa do amor, Vénus, etc.

Monoteísmo
A pré-história do monoteísmo acontece quando o ser humano agrupa todos estes deuses e lhes dá um líder – Zeus, na mitologia grega e Júpiter, na mitologia romana; estes são o pai dos deuses. O primeiro ser humano a proclamar que só há um deus foi um faraó do Egito chamado Akhenaten, também conhecido por Amenhotep IV, que reinou no Egito no século XIV AC. A ideia não progrediu entre os egípcios daquele tempo, mas foi acolhida anos mais tarde por um povo, na altura escravo, na terra do Egito – o povo judeu.

A descoberta do povo hebreu, neste sentido, é a de um Deus pessoal que concentra em si tudo o que são aspirações humanas, o bom e o perfeito. Como os judeus eram nómadas e os nómadas não podem ter deuses locais, já que se deslocam de um lado para o outro e seria muito incómodo carregarem os seus ídolos, pensaram então numa realidade concreta que estivesse em todos os lugares. Olharam para cima e encontraram-na no Céu.

Os povos sedentários têm tendência a ser politeístas; os povos nómadas, pelo contrário, são monoteístas. Os turkana, um povo nómada do norte do Quénia, têm a mesma palavra para designar Céu e Deus. Os mongóis, os turcos e os tártaros adoravam um deus comum chamado Tengri, o deus do céu azul.

O cristianismo não é mais uma religião, mas sim a revelação de Deus
Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por meio de quem fez o mundo. Hebreus 1, 1-2

É certo que todas as religiões adoram o mesmo Deus e visam humanizar o Homem. Por isso, a Igreja já não se apresenta ao mundo como única tábua de salvação e reconhece em todas as religiões “semina verbum”, pedaços fragmentados de verdade. Há, portanto, salvação sem Igreja, mas não pode haver salvação sem Cristo, porque sendo ele Deus feito homem é a verdade plena e, portanto, válida para todo o tempo e lugar.

À semelhança dos profetas do Antigo Testamento, os fundadores de todas as religiões, foram descortinadores da vontade de Deus e dos anseios do povo, num determinado momento da sua história, liderando-o pelo caminho certo.

Cristo, mais que um profeta, ou seja, o homem certo para um momento concreto, é o homem certo para todo o tempo e lugar. Ele não veio evangelizar o povo judeu para que fosse fiel à sua fé, Ele não veio purificar a fé do povo judeu. Ele nasce entre o povo judeu, mas não veio para o povo judeu, como muito bem profetizou o profeta Isaías, Ele veio para todos os povos.

Religião, do verbo religar, é todo o esforço que o ser humano fez ao longo dos tempos para atrair o beneplácito de Deus, por intermédio de sacrifícios, rituais e liturgias. A religião é, portanto, uma iniciativa do género humano. A revelação é de iniciativa divina; já não é o homem a fazer caminho para Deus, mas sim Deus a fazer caminho para o Homem. Não fostes vós que me escolhestes; fui eu que vos escolhi a vós. João 15, 16

Como Cristo não é um profeta mais, em relação às outras religiões, o cristianismo é um salto qualitativo e, desta forma, todas as religiões são para o cristianismo o que o Antigo Testamento da Bíblia é para o Novo Testamento.

A nível individual
“Ninguém vai ao Pai se não por mim disse (João 14, 6-14) quem me conhece a mim conhece o Pai (João 14, 7)”, o que equivale a dizer que quem não me conhece a mim não conhece o Pai. “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida (João 14, 6)” o que equivale a dizer que não há outro caminho, verdade e vida alternativo. Quem não recolhe comigo, dispersa, diz também.

A nível social
Jesus de Nazaré sabe que homens novos fazem sociedades novas e sociedades novas, pela educação, fazem homens novos, pelo que é preciso atuar a ambos níveis. O cristianismo não é como o budismo que só visa a perfeição pessoal e se desinteressa dos outros, ou como o judaísmo que só visa a salvação do povo judeu e a condenação dos pagãos não judeus.

No monte Sião, o Senhor do universo prepara para todos os povos um banquete de carnes gordas,
acompanhadas de vinhos velhos, carnes gordas e saborosas, vinhos velhos e bem tratados. Isaías 25, 6)

Cristo veio com um projeto para todos os povos, o Reino de Deus, como bem predisse o profeta Isaías no banquete para todos os povos. Mais tarde, Jesus explica o que é o reino em parábolas, onde frequentemente utiliza a imagem do banquete aberto a todos. (Mateus 22, 1-14)

O cristianismo é uma revolução social e uma psicoterapia individual
Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egito, e ouvi o seu clamor diante dos seus inspetores; conheço, na verdade, os seus sofrimentos. Desci a fim de o libertar da mão dos egípcios e de o fazer subir desta terra para uma terra boa e espaçosa, para uma terra que mana leite e mel… Êxodo 3, 7-9

Jesus, como novo Moisés, vem tirar o ser humano de todas as escravidões, vem oferecer-se como modelo a seguir para que o homem seja verdadeiramente livre. Como Cristo, Deus feito homem, encarnou em vida o modelo mais perfeito de humanidade, Ele é a referência do ser humano; todo o que busca e se esforça por ser homem autêntico, seja qual for o seu credo ou a sua religião, sem ter que professar a fé cristã, é com Cristo que tem de se comparar e não com mais ninguém.

Jesus entra na história humana como um meteorito no meio do mar e faz ondas em forma de círculos concêntricos, desde o centro até às margens mais longínquas. Como foi um meteorito que acabou com o reinado dos grandes répteis, os dinossauros, dando estes lugar aos mamíferos de pequeno porte dos quais resultou por evolução a raça humana, assim Cristo é o Rei do Universo que vem restabelecer o seu reino na Terra que Ele antes, com o Pai e o Espírito Santo, havia criado.

Inspirados ainda na metáfora do meteorito que faz círculos concêntricos com a sua queda, Cristo irrompe no meio da história humana dividindo-a em dois períodos: o antes da sua vinda e o depois da sua vinda, sendo o seu nascimento o ano zero.

Seja porque os cristãos são o grupo mais numeroso, ou porque a cultura ocidental de matriz cristã se universalizou por ser mais avançada, o facto é que por muito que os judeus, os ateus e os agnósticos lhe chamem Era Comum, o nascimento de Cristo é o ano zero a partir do qual se conta a história humana para trás e para a frente.

Cristo é a pedra angular (Atos 4, 11) da história da salvação. Ele veio para salvar vivos e mortos a todos os que viveram antes d’Ele (Efésios 4,9-10), tendo até pensado (João 20, 24-29) e rezado por aqueles que viveriam depois d’Ele (João 17, 20).

Porque Ele, fundamentalmente, não veio fundar uma nova religião, mas sim ensinar o homem e ser homem e a relacionar-se com os outros, de forma a melhorar o mundo, transformando-o no reino de Deus, ou seja, numa sociedade onde reina a justiça e a paz.

Tive fome, sede, era forasteiro, estava nu, na prisão ou no hospital e prestaste-me ou não me prestaste assistência… (Mateus 25, 31-46). No juízo final, igual para todos os povos, não nos perguntam a que religião pertencemos, o que somos, o sucesso que tivemos na nossa vida ou quanta prática religiosa tivemos. O julgamento é pouco religioso porque não contém perguntas de índole religiosa, mas exclusivamente de índole social.

Desde que Deus assumiu a natureza humana, todos os seres humanos se transformaram ipso facto em seus irmãos. Já não há ninguém neste mundo que esteja só, que não tenha quem o defenda, Jesus permanece escondido em cada um de nós, sobretudo nos mais pobres e desfavorecidos. Por este juízo final ficamos a saber que a assistência que prestamos ou não prestamos aos que se cruzaram no nosso caminho durante a nossa vida, foi a Ele que a prestámos ou não prestamos.  
 
Por outro lado, nenhum ateu ou agnóstico negaria que não há vida humana sem amor e que viver é amar. Ora, pois, Jesus só tem um mandamento que diz isso mesmo: amar a Deus sobre todas as coisas, sobre ti mesmo e sobre todos, amar a ti mesmo como Deus te ama e amar os outros como te amas a ti mesmo. Que há de religioso nisto? Interpretando este mandamento, Santo Agostinho chega a dizer: Ama ed fac quod vis ou ama e faz o que quiseres…

Conclusão - Todas as religiões antes de Cristo são Antigo Testamento, pelo que Cristo é o Novo Testamento para todas elas. Há salvação fora da Igreja, mas não há salvação fora de Cristo, pois Ele é o único Caminho, Verdade e Vida para Deus Pai; como Ele próprio disse, ninguém vai ao Pai senão por Ele.

Pe. Jorge Amaro, IMC


1 de agosto de 2022

Fugitivos, Vagabundos, ou Peregrinos?

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Deixar a vida pelo mundo em pedaços repartida…Camões

Coordenadas da vida humana
O ser humano é um ser espácio-temporal. Ocupa um espaço durante um tempo, pelo que, tal como acontece no universo e na natureza que nos rodeia e envolve, nada há de estático nem de permanente na vida humana. Não podemos instalar-nos no tempo nem no espaço: a vida implica movimento, é processo, é devir, é caminho, é mudança.

Pela forma como usamos e nos situamos no tempo ou nos relacionamos com ele, podemos ser fugitivos ou vagabundos; o evangelho, porém, exorta-nos a ser peregrinos.

A vida é larga, mas curta. Larga em possibilidades, em muitas e diversas formas de usar o nosso tempo, mas curta no tempo. Por isso, não há coisa pior que um passatempo, ou matar tempo, como se tivéssemos mais do desejado, o que não é verdade. Não há tempo para matar nem tempo para perder, pois o tempo é escasso.

Fugitivos, vagabundos ou peregrinos, têm em comum o não estarem apegados a pessoas, coisas ou lugares. Nunca estão quietos no mesmo sítio, facilmente se movem de lugar para lugar. Por isso, também têm em comum a forma como se instalam no tempo e como vivem o momento presente. Mas diferem na forma como se relacionam com os outros dois tempos da vida humana: o passado e o futuro.

O peregrino vive bem as três dimensões do tempo, enquanto que o fugitivo vive amarrado de pés e mãos ao passado e teme o futuro. O vagabundo, pessoa sem eira nem beira, não tem passado nem presente nem futuro, vive suspenso no tempo como cana agitada pelo vento.

O tempo humano é tridimensional: passado – presente – futuro
Os três tempos em que a vida decorre são interativos: nem o passado passou completamente nem o futuro está todo por chegar. Os dois estão presentes no presente e interagem com ele. Assim sendo, o presente nem sempre se refere ao presente, tanto pode referir-se ao passado como ao futuro. Assim como o passado e o futuro visitam o presente, o presente também pode deslocar-se ao futuro e ao passado. O presente em si é o que está a ocorrer, mas quando pensamos no que está a ocorrer, já é passado.

O passado passou, mas nunca passa; o futuro chega, mas nunca chega, desloca-se para a frente como a cenoura à frente do nariz do burro. Enquanto existirmos, os três existem connosco e só deixamos de ter presente e passado quando deixamos de ter futuro, ou seja, quando morremos. Como vivem os três juntos, também morrem os três juntos, com poucos segundos de diferença. Morremos da frente para trás: primeiro morre o futuro, depois o presente e só depois o passado.  

Somos uma flecha que alguém disparou no passado. Segundo as circunstâncias da vida, nós mesmos podemos ter algum controlo sobre a direção que a flecha toma, mas sabemos que “Todos os caminhos vão dar a Roma”, que o destino é comum, que a morte é certa e incerta. Certa, porque é a única coisa que sabemos com certeza do nosso futuro, como diz Heidegger, somos um ser para a morte. Incerta porque não sabemos onde nem quando nem de que forma morreremos e julgo que ninguém estará interessado em saber.

No caso de haver vida eterna, como acreditamos enquanto cristãos, então morre o futuro e o passado também, porque deixam de ser interativos no presente. A vida feita do tempo a correr deixa de ser uma realidade. O que fomos, somos. O que hoje somos assume tanto o bem como o mal que contribuíram para o que hoje somos. Os acontecimentos do passado são os andaimes da construção do edifício. Quando acaba a construção, com a nossa morte, os andaimes já não são precisos: o que chegamos a ser é agora o que seremos para sempre na eternidade.

Pertence também à categoria de andaime o nosso corpo físico, pois por ele e com ele construímos o nosso ser, o nosso corpo espiritual e, quando este está construído, cessa o tempo na sua dimensão de futuro e passado e mantém-se na sua dimensão de presente, um eterno presente em Deus e com Deus.

Viver é deixar
Os que falam inglês como primeira língua diferenciam muito bem estes dois verbos ao pronunciá-los; os estrangeiros, porém, têm a tendência a pronunciá-los da mesma forma. Apesar de serem completamente diferentes no significado, “to live” significa viver e “to leave” significa deixar. O facto de os pronunciar da mesma forma, levou-me a descobrir uma relação intrínseca entre eles.

Viver significa e implica deixar, largar o lugar onde estamos e partir para outro. O peregrinar está impresso em nós já a nível celular e cromossomático. Os tubos dos testículos onde se formam os espermatozoides, todos ligados num só, estender-se-iam por mais de 70 cm.

O espermatozoide X ou Y que nos deu a vida, viajou por estes tubos e, ao ser ejaculado, viajou ainda pelo sistema reprodutivo da nossa mãe até chegar à sua outra metade com a qual se uniu nas trompas de Falópio e formou um novo ser. Ali se deu a conceção; mas 4 dias depois, o novo ser teve de abandonar esse lugar para poder viver e viajar até ao útero onde se aninhou por nove meses até completar o seu crescimento.

Ao nascer, o bebé deixa o seio da sua mãe e passa para o seio de uma família que o ama incondicionalmente e que, como tal, se torna num segundo seio materno até que chega o dia em que tem de ir para a escola onde já não é amado incondicionalmente. É duro o primeiro dia de escola. Eu recordo que ficava com o olhar fixo na minha mãe, à medida que me ia afastando da casa até dobrar a esquina ao fundo da rua.

Quando a escola primária se torna familiar, é tempo de a abandonar para ir para a secundária; para mim foi o seminário. Para o primeiro dia, o meu pai levou-me, mas quando se veio embora, o mundo desabou para mim… e chorei amargamente…. Um dia deixa-se a família para constituir outra família; deixa-se a terra para buscar emprego noutro lugar.

Os imigrantes deixam a sua terra para buscar um futuro melhor para si e para os seus. Deixar o princípio do prazer pelo o princípio da realidade; deixar pai e mãe para se unir à sua esposa; deixar tudo para seguir o mestre. Quem não deixa, como o jovem rico, não encontra a vida.

No tempo somos fugitivos, vagabundos ou peregrinos
Como seres temporais, a nossa vida ocorre dentro das três dimensões do tempo: o passado, o presente e o futuro. Dependendo da idade, as pessoas tendem a privilegiar uma dimensão em detrimento das outras duas.

As crianças e os jovens - Colocando de lado o passado, vivem o presente como preparação de um futuro com o qual sonham e no qual se projetam. Porque o futuro pode nunca chegar, cada dia deve valer por si mesmo, não desligado do futuro, é certo, mas também não vivido inteiramente em função dele. Viver o presente na caridade.

Os idosos – Quando objetivamente já não há muito que esperar, vivem de memórias. A lembrança da felicidade passada não dá felicidade mas sim tristeza. É certo que a vida se entende para trás, mas vive-se para a frente. Mesmo na terceira idade, a esperança cristã nos diz que o melhor está sempre para vi, por isso o que pode fazer-se deve fazer-se. Viver o futuro não na ansiedade, mas na esperança.

Os adultos – Vivem instalados no presente, não querem saber do passado nem do futuro. De facto, vivem como se nunca tivessem que morrer. Tudo fazem para deter o tempo e os estragos que este faz à vida: operações plásticas para manter a aparência jovem quando já não se é jovem,  desporto, dietas, cuidados com a saúde, demasiado concentrados em si mesmos. Devemos integrar o passado e o futuro nas nossas vidas de maneira a viver o presente em caridade e não olhando para o espelho ou para o nosso umbigo.

O fugitivo
O SENHOR replicou: «Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até mim. De futuro, serás amaldiçoado pela terra, que, por causa de ti, abriu a boca para beber o sangue do teu irmão. Quando a cultivares, não voltará a dar-te os seus frutos. Serás vagabundo e fugitivo sobre a terra.» Génesis 4, 10-12

Deus disse a Caim “porque mataste o teu irmão, serás fugitivo sobre a terra”. O fugitivo é perseguido pelos remorsos de algo que fez no passado. Fugido da polícia, não tem presente nem futuro. What goes around comes around ou cá se fazem, cá se pagam… Caim é fugitivo porque foge de um passado que o persegue no presente. O seu caminhar é determinado pelos seus perseguidores, não por ele mesmo; por isso não tem presente nem tem futuro. Ficou entalado por algo que fez no passado e que se faz omnipresente em forma de remorsos, de tal forma que lhe nega a vida.

Hunted by his past (assombrado pelo seu passado) é uma expressão inglesa que denota bem as circunstâncias em que vive o fugitivo. Como presa de caça, vive a vida temendo ser caçado. Os assuntos que não ficaram resolvidos no passado perseguem-no no presente. Águas passadas não movem moinhos, mas muita gente, contradizendo esta lei da natureza, tem os seus moinhos, as suas cabeças a moer com águas passadas, porque não pediram desculpa nem perdoaram, ou porque foram traumatizados ou abusados e reprimem ou fingem que nada aconteceu.

“Já perdoaste aos nazis tudo o que nos fizeram quando éramos prisioneiros em Auschwitz”?  perguntou um ex-prisioneiro ao seu amigo, depois de muitos anos sem se verem. “Eu?” respondeu o amigo “nem perdoei nem nunca perdoarei a esses sacanas! “Ah sim?” respondeu o primeiro, “então ainda lá estás, em Auschwitz.”

O que não perdoa vive no passado, busca fugir desse passado que o persegue sempre e que determina negativamente o seu presente. A si mesmo se ilude, pensando que o passado ficou no passado, a verdade é que o que conhecemos e assumimos do nosso passado é redimido e, como tal, podemos controlar. O que desconhecemos e não assumimos ou perdoamos do nosso passado, precisamente porque está reprimido e fora da nossa consciência do dia a dia, controla-nos a nós, irrompendo no nosso presente de mil e uma maneiras. Ao projetar os fantasmas do passado no presente, podemos pensar que estamos a lutar contra os nossos inimigos, quando objetivamente estamos a lutar contra moinhos de vento, como o Dom Quixote de la Mancha.

Quem não deve não teme; o fugitivo deve, por isso teme, desconfia de tudo, de todos e de si mesmo, vive ancorado no passado que o traumatizou e reproduz continuamente no presente esse passado, vive numa prisão. O que foi abusado será um abusador, a questão é abusar sem ser apanhado; os ladrões só se consideram como tal se forem apanhados. Quem tem esqueletos no armário nunca vive seguro.

O vagabundo
O vagabundo no tempo corresponde ao turista no espaço. Vimos do nada, vamos para o nada; a vida não tem sentido assim, pelo que o agnóstico e o ateu são fundamentalmente vagabundos. Nos dias de hoje, há sem-abrigo que o são por opção, filósofos que querem essa vida, não se comprometendo com nada nem com ninguém, nem sequer com a própria sobrevivência.

Carpe diem passou a ser o lema de muita gente depois do filme “O clube dos poetas mortos”. O vagabundo vive instalado no presente, mas não no presente consciente e omnisciente das filosofias orientais, mas sim num presente consumista, hedonista e inconsciente: morra Marta, morra farta. Sem lhe importar o passado que já foi e o futuro que ainda não é e pode não vir a ser, o vagabundo caminha no círculo vicioso de um eterno retorno. “Para quem não sabe para onde há de ir, não há ventos favoráveis.”

Não prometo para não falhar, ouvimos tantas vezes. O vagabundo não promete nada a ninguém nem se compromete com nada nem com ninguém, porque isso significaria contar com o futuro. Mas o vagabundo não conhece a palavra futuro; vive no momento e para o momento. Em relação ao passado e ao futuro tem a atitude da avestruz, coloca a cabeça debaixo da areia, reprime, nega a sua existência, prefere não pensar e por isso abstrai-se, usando a diversão ou o trabalho como droga para não pensar nem se confrontar consigo mesmo.

Não tem passado nem futuro, vive instalado no mundo como se fosse de cá. Vive como se nunca tivesse de morrer e morre como se nunca tivesse vivido (Dalai Lama). Com uma taxa de divórcio em Portugal superior a 70%, ninguém quer comprometer-se; o compromisso é visto com um hipotecar do futuro, como limitador da minha liberdade.

Os jovens querem ter as suas opções em aberto e por isso vivem instalados na rotunda ou no cruzamento da vida. Como nunca tomam rumo, são como o hamster que roda sem cessar nunca chegando a lado nenhum. Porque escolher uma rota significa dizer não a todas as outras. Mas se passas a vida sem te comprometeres com nada nem com ninguém, és como um carro que tem o motor ligado mas não vai a lado nenhum.

Viver é caminhar para algum lado, não em círculos; é estar sempre a sair do Egito atravessando o deserto, na esperança de entrar na Terra Prometida. Para isso, precisamos de um guia; mas os vagabundos, como não vão a lado nenhum, não precisam de guia, não aceitam conselhos de ninguém. Para quem não sabe para onde ir, não há ventos favoráveis.

O peregrino
Felizes os que em Vós encontram a sua força, os que trazem no coração os caminhos do santuário.Ao atravessar o vale seco, transformam-no em oásis, que logo as primeiras chuvas cobrirão de bênçãos. Vão caminhando com entusiasmo crescente, até verem Deus em Sião. Salmo 84, 6-8

Na pré-história da nossa fé há inúmeras peregrinações: Abraão, arameu errante que só possuiu uma sepultura que comprou para a sua mulher; da sua cidade na Mesopotâmia até Canaã, o povo hebreu do Egipto, terra da escravidão para a terra prometida da liberdade e prosperidade, as idas a Jerusalém pela Páscoa.

Depois de Cristo, as peregrinações dos cristãos à Terra Santa, a Roma e a Santiago de Compostela; na tradição ortodoxa, o Peregrino Russo; já nos nossos tempos, as peregrinações a Guadalupe, no México, a Lurdes, em França, a Fátima, em Portugal, a Chestocova, na Polónia; a peregrinação é uma prática cristã muito importante porque, de alguma forma, é uma parábola da vida. Viver é peregrinar, o cristão deve comportar-se com o mundo à sua volta e com os seus semelhantes como peregrinos.

A peregrinação é uma metáfora ou parábola de como deve ser vivida a vida humana. Abraão, o nosso Pai na fé, era um arameu errante; o povo hebreu, ao sair do Egipto, atravessar o deserto em direção à Terra Prometida onde corriam leite e mel, estabeleceu o paradigma da vida humana.
•    Karl Marx – capitalismo, ditadura do proletariado, sociedade sem classes
•    Mandela – Apartheid, 30 e tal anos de cadeia, presidente de uma sociedade em igualdade
•    Vício – limpeza, síndrome de abstinência – liberdade

Contrariamente ao fugitivo, o peregrino vive reconciliado com o seu passado, por isso não depende dele; contrariamente ao vagabundo, tem uma meta, um objetivo que pretende atingir, por isso vive com intensidade o momento presente, sabendo sempre quem é, de onde vem e para onde vai, nunca está desnorteado nem desorientado, pois a sua vida é regulada como se tivesse um GPS.

O homem bíblico - Na língua hebraica a palavra “Nikud” significa, ao mesmo tempo, futuro e costas; por outro lado, a palavra “quedem” tanto quer dizer passado como oriente. Assim sendo, podemos concluir que o homem bíblico tem o passado à sua frente e o futuro nas suas costas, ou seja, caminha com o peito e a cara voltada para o passado, de costas para o futuro.

De olhos no passado porque é lá que estão as nossas raízes, o nosso ser, a nossa identidade, vivemos caminhando para o futuro, mas entendemos a nossa vida olhando para o passado e pelo passado nos orientamos para o futuro. Do futuro, pouco ou nada sabemos, por isso caminhamos de costas, ou seja, às cegas; a única coisa que temos como certa no nosso futuro é a morte, mas mesmo assim, não sabemos como nem quando nem onde ocorrerá. Para o peregrino recordar não é viver; por isso olha para o passado não para o reviver, mas para se orientar usando no presente o que aprendeu das experiencias do passado para encontrar o melhor caminho para o futuro

Não há mal que sempre dure nem bem que sempre ature – Sabe que a vida é feita de altos e baixos, como a linha de um eletroencefalograma ou eletrocardiograma, sabe que no caminho para Deus pode encontrar céu e inferno, mas também sabe que tudo é passageiro, pelo que, quando está nos pícaros da vida não perde a cabeça e, quando está deprimido, não perde a esperança. Em todo o momento, em todo lugar, vive sob a proteção do Senhor, por isso é constante, paciente e fiel.

Conclusão - O Peregrino não é como o fugitivo porque, não tem remorsos, não está atado ao seu passado. Também não é como o vagabundo, porque vive comprometido no presente entregando-se a uma causa e a pessoas concretas com a mesma intensidade, como se fosse o seu último dia.

Ao contraio do Fugitivo, atado a um passado do qual foge, ou do vagabundo que, descomprometido com o presente, vive sem futuro, o Peregrino orgulha-se do seu passado, caminha para o futuro com esperança e enche o seu presente com obras de caridade.

Pe. Jorge Amaro, IMC



1 de julho de 2022

Colonos, Turistas ou Peregrinos?

Sem comentários:

Não temos aqui cidade permanente, mas procuramos a futura Hebreus 13,14

Coordenadas da vida humana
O ser humano é um ser espácio-temporal. Ocupa um espaço durante um tempo, pelo que, tal como acontece no universo e na natureza que nos rodeia e envolve, nada há de estático nem de permanente na vida humana. Não podemos instalar-nos no tempo nem no espaço: a vida implica movimento, é processo, é devir, é caminho, é mudança.

Pela forma como usamos e nos situamos no espaço ou nos relacionamos com ele, podemos ser colonos ou turistas; o evangelho, porém, exorta-nos a ser peregrinos.

Colonos, turistas e peregrinos, têm em comum o facto de não serem oriundos do lugar que habitam durante o tempo da sua vida; mas têm formas diferentes de se relacionar com o meio ambiente que os rodeia durante o tempo em que nele habitam.  

As pessoas foram criadas para serem amadas, as coisas para serem usadas. Só o peregrino encarna esta verdade na sua vida: ou seja, para ele as coisas são um meio, por isso devem ser usadas e não amadas, ao passo que as pessoas são um fim em si mesmas, pelo que não devem ser usadas para nenhum fim, mas amadas pelo simples facto de serem pessoas.

Os colonos têm como fim enriquecer o mais rapidamente possível. O fim são as coisas pois estão enamorados delas e é a elas a quem amam; as pessoas são rivais a eliminar ou a usar como meios para atingir a finalidade de serem ricos. Provavelmente abandonarão o lugar depois de o terem explorado suficientemente, assim como os nativos que nele habitam.

Os turistas vivem centrados em si mesmos e nas suas experiências, pelo que o objetivo são eles mesmos e as experiências prazenteiras que vão tendo e acumulando. As pessoas são coisas e as coisas são pessoas. É como aquele que diz amar os seus animais de estimação e se relaciona com eles como se fossem filhos ou amigos, ou seja, usa a mesma terminologia que usa com as pessoas e ao fazê-lo está a coisificar as pessoas e a personificar coisas ou animais. O importante é o prazer que tanto as coisas como as pessoas podem proporcionar-lhe.

O lugar em que habitamos
Com a Revolução Industrial, a mecanização da agricultura, a expansão do comércio e a globalização, o mundo ocidental e depois os países em vias de desenvolvimento e os países pobres experimentaram um desenvolvimento sem precedentes a todos os níveis: aumentou a produção, aumentou a população, aumentou o consumo, aumentou a necessidade de energia, aumentaram os meios de transporte, sobretudo o avião e o carro, a ponto de cada família dos países ricos ter mais de um carro. A poluição e a deterioração ambiental foram consequências inevitáveis deste desenvolvimento.

Só não aumentou o nosso planeta e, como este não aumentou, depressa surgiram os resultados deste crescimento tão rápido e desmesurado, sobretudo por causa da filosofia do “usa e deita fora” que vigorou por várias décadas. O conceito da reciclagem é recente e ainda não entrou em muitas mentes, o que é bem estranho, pois reciclar foi sempre a filosofia de vida do nosso planeta. No entanto, os seus habitantes viveram e muitos ainda vivem segundo a filosofia de “usa e deita fora” - é mais barato comprar novo que consertar. Para quem é mais barato? Para a economia ou para o planeta?

O nosso planeta é a nossa casa comum. O ser humano ainda não arranjou forma de colonizar outros planetas, pelo que ou cuidamos deste único que temos ou podemos cometer um suicídio cultural e ecológico, degradando as condições de habitabilidade até um nível insustentável.

A ideia do desenvolvimento sustentável surgiu na I Conferência das Nações Unidas sobre o meio ambiente e desenvolvimento, Rio de Janeiro 1992. É simples saber se o que fazemos é sustentável: basta que nos perguntemos se podemos continuar a fazer isto uma e outra vez, para sempre? A primeira instância a inquirir é o meio ambiente - compromete o meio ambiente para as próximas gerações? Em segundo lugar devemos perguntar se conduz a um crescimento económico.

E, em terceiro, se esse benefício económico abrange a todos ou só a alguns, se promove a paz, a justiça e a estabilidade social. Até agora, a riqueza que uns produzem é proporcional à pobreza que causa, ou seja, quanto mais riqueza mais pobreza.

O desenvolvimento visto unicamente como crescimento económico destruiu o meio ambiente e causou profundas desigualdades sociais. Para o desenvolvimento ser sustentável, tem de ser tridimensional, ou seja, os aspetos de justiça social e proteção ambiental devem ser tão importantes quanto o crescimento económico.

Colonos
Veni vidi et vincit, como diria o conquistador César Augusto, o colono vem para conquistar e possuir tanto as pessoas como as coisas. Conquista, explora tudo e todos sem escrúpulos: os recursos do planeta sem se importar com a ecologia. Neste sentido, possui a mentalidade do burro que dizia, “Depois de eu morrer que não cresça mais erva sobre a terra”. Também explora os outros, regulando-se pela única regra que conhece: o lucro e o interesse pessoal.

O colono veio para ficar ou fixar-se por um tempo determinado até esgotar os recursos da riqueza que procura. No tempo em que está não se move, agarra-se às coisas e às pessoas como uma carraça. Pode fazer amizade com as pessoas, mas é sempre uma amizade interesseira, é um falso amigo porque não se coloca ao serviço de ninguém nem de nenhuma causa humana; pelo contrário, coloca os outros ao seu serviço.

Na Bíblia, o colono está representado por Caim que é agricultor e, portanto, sedentário, deixou de buscar, deixou de caminhar e vive instalado na vida como se tivesse chegado já à Terra Prometida, disfrutando de tudo o que a vida lhe dá como se nunca tivesse de a deixar. Deus rejeitou Caim e aceitou Abel que era pastor, caminhante, peregrino, destacado de tudo e de todos.

O colono vive instalado no ter cada vez mais, vive a vida amealhando, aumentando desmesuradamente meios de vida, pensando erradamente que por ter mais meios de vida vai ter uma vida mais longa. Instalado neste mundo e nesta vida como se nunca tivesse de a deixar, acaba por morrer sem nunca ter vivido, ou seja, sem nunca ter sabido o que é verdadeiramente a vida. Não cultivou o ser, mas o ter, não a vida eterna, mas a vida temporal e finita na pura mundanidade.

Turistas
Ao contrário do colono, o turista vive superficialmente. Tudo tem o mesmo valor: coisas e pessoas. Procura divertir-se, não está interessado em possuir nada nem ninguém, apenas fotografias de tudo e de todos, vídeos e recordações dos lugares que visitou e que lhe proporcionaram prazer ou mesmo alegria.

Para o turista tudo é paisagem e, sendo passageiro, o valor das coisas mede-se pelo potencial que tem de divertir ou satisfazer os seus cinco sentidos. Por isso, tudo o que é exótico, erótico, invulgar, excêntrico, que produz emoções fortes e espevita a adrenalina é que tem valor.

O turista não chega a penetrar na realidade, vê o mundo como se fosse um teatro ou um cinema que o diverte, mas não sabe nem está interessado no que se passa nos bastidores. Não se compromete com nada nem com ninguém, busca diversão e foge de tudo o que tenha que ver com sofrimento e compromisso. O turista no espaço corresponde ao vagabundo no tempo: não se compromete com nada nem com ninguém, é superficial.

O colono vive instalado no ter, o turista vive instalado no prazer; as coisas têm valor consoante o gozo que dão e anda à procura de prazeres cada vez mais sofisticados e refinados. O passado é fotográfico, o futuro ainda não foi. Não está em lado nenhum, goza aqui e ali, vive centrado em si mesmo.

Superficial e snob faz-me lembrar naquele casal em lua de mel pela Amazónia que viajava numa canoa; estava tão absorvido pela beleza da floresta tropical que perdeu o contacto com a verdadeira realidade. Enquanto a canoa se afundava e vindos das margens do rio os crocodilos mergulhavam, a esposa comentou, “Oh querido, isto é tudo tão bonito e tão chique que até os nadadores salvadores são da Lacoste!”   

O peregrino
Sabeis o que ocorreu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo que João pregou: como Deus ungiu com o Espírito Santo e com o poder a Jesus de Nazaré, o qual andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com Ele. Atos dos Apóstolos 10, 37-38

Jesus, como modelo de ser humano, deve ser imitado não só no que disse e no que fez, mas também na forma como se comportou em relação às coisas, ao espaço e às pessoas. Passou pelo mundo fazendo o bem, não se fixou num lugar onde já tinha ganhado fama e popularidade, como os seus discípulos pretendiam (Marcos 1, 38). Nem ficou com aqueles sobre quem já tinha ganhado poder e que o queriam fazer rei (João 6,15).

Comprometido com o reino de Deus e a sua justiça, Jesus não viveu apegado a nada nem a ninguém, passou pelo mundo fazendo o bem, semeando as sementes do reino sem se sentar.

Era uma vez um homem que todos os dias ia buscar água ao rio com um balde em cada mão. Um dos baldes estava furado, pelo que chegava a casa só com metade da água. Por esta razão sentia-se triste, inferiorizado e até envergonhado diante do seu colega. Ao referir isto mesmo ao seu senhor, este sorriu e disse: “Já reparaste que o caminho do teu lado está cheio de flores e não há nenhumas do lado contrário? Como eu sabia que estavas quebrado, semeei flores do teu lado e tu cada dia te encarregavas de as regar...”

Na nossa peregrinação para o ocidente, para o ocaso, como os discípulos de Emaús, deixemo-nos alcançar por Jesus, que Ele seja o nosso companheiro de caminho, que nos explique as escrituras e nos diga o sentido das coisas. Ele é Caminho, é Verdade, é Vida, entremos, convidemo-l’O para cear, para ficar connosco e Ele repartirá o pão.

Não colonos, mas sim imigrantes que vão para explorar o peregrino, apanhar aqui e soltar ali, como o pucarinho que perde a água e deixa flores; deixar algo de si mesmo por onde passa. Um pároco de Loriga na visita pascal visitando a casa de todos os seus paroquianos, tanto ricos como pobres, recolhia o dinheiro que lhe era dado em casa dos ricos e deixava-o na casa dos pobres. Dessa forma, no dia de Páscoa ele passava o raseiro pela sua paróquia nivelando a riqueza, sendo fator de igualdade.

O peregrino não possui coisas nem pessoas como o colono, nem as usa e deita fora como o turista; não está instalado no aqui e agora como o colono, nem caminha desinteressado com o turista. No seu caminhar, compromete-se, entregando-se totalmente a pessoas e a causas humanas concretas, mas como não busca ser amado, mas amar, dá-se sem se prender às pessoas que ama.

Muitos dos peregrinos de Santiago eram jograis que deixavam música e alegria por onde passavam. A nossa língua, o galaico-português, nasceu destas cantigas de amigo, amor, escárnio e mal dizer. Por outro lado, o caminho português está embelezado por pontes e igrejas românicas; o caminho francês, por igrejas e grandes catedrais góticas. 

Um rabino visitou um peregrino da Terra Santa e, ao verificar que vivia pobremente, perguntou: “Rabino, onde estão os teus móveis? O rabino olhou-o fixamente e respondeu: “E onde estão os teus?” “Os meus?” respondeu o peregrino, “Eu sou peregrino” ... “Eu também, respondeu o rabino” ...

A gramática do peregrino
(...) todos quantos em Cristo fostes batizados, de Cristo vos revestistes. Não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. Gálatas 3, 27-29

Como não busca possuir, o peregrino não usa pronomes possessivos, nem com pessoas nem com coisas.

Com as pessoas - Usa pronomes de relação. Por isso, em vez de dizer “o meu pai”, diz, “para mim é pai, pois esta mesma pessoa para a minha mãe é marido, para o meu avô é filho, para o meu tio é irmão, para o patrão é operário, etc.”

Com as coisas - Usa pronomes administrativos, pois tem consciência de que em verdade não somos proprietários de coisa nenhuma; de todos os recursos que dizemos possuir, inclusive da “nossa” vida, apenas somos administradores e desta administração daremos um dia contas ao verdadeiro proprietário que é Deus Senhor de tudo e de todos.

Os pronomes pessoais - São só três: EU, porque me reconheço como uma pessoa livre e independente de tudo e de todos, com direitos e deveres. TU, o meu semelhante a quem considero um alter ego e, por ser igual a mim, devo amá-lo como me amo a mim mesmo. NÓS, uma vez que, tal como na trindade divina, o Espírito Santo procede do Pai e do Filho, na trindade humana o filho procede do Pai e da Mãe e na trindade dos pronomes pessoais, o nós procede do eu e do tu unidos.

Os pronomes discriminativos – São os restantes pronomes chamados “pessoais”, porque qualquer que seja o contexto em que os usemos, discriminam. O ele e ela são pessoas que não são da minha relação, o que não é bom pois devo estar aberto a todos; o vós, são os outros que não são do nosso grupo, que não são como nós, e eles ainda soa mais distante que o vós. Deus é Pai de todos, todos somos seus filhos, todos somos irmãos.

Narcisismo das pequenas diferenças – É como chama Freud às diferenças que artificialmente buscamos, como se, para defender a nossa idiossincrasia, tivéssemos que aniquilar a do outro... É muito mais o que nos une do que o que nos divide de facto; se houvesse uma ameaça extraterrestre  num dado momento, todos nós, habitantes deste planeta, esqueceríamos essas pequenas diferenças e nos transformar íamos no que sempre fomos e sempre seremos: um grande NÓS.

Conclusão - O colono instalado no Ter, vive acumulando coisas; o turista instalado no prazer, vive acumulando experiências prazenteiras. O peregrino pode ser rico como o colono e gozar a vida como o turista, mas não vive apegado a nada nem a ninguém, porque vai deixando um pouco de si mesmo nos lugares e nas pessoas com quem se encontra.

O Peregrino não se prende com coisas ou pessoas, como o colono, mas também não vive sem compromissos como o turista. O peregrino compromete-se com pessoas e causas sem se prender a elas, permanecendo livre e independente de tudo e de todos.

Fr. Jorge Amaro, IMC