1 de setembro de 2022

Cristo e as religiões do mundo

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Está hoje muito divulgada a ideia de que todas as religiões são iguais e valem o mesmo; para os não crentes todas são más; para os crentes todas são boas e levam à salvação, cada um pode escolher a que mais lhe convier ou a que culturalmente melhor se adapte à sua idiossincrasia.

É verdade que cada cultura tem a sua forma particular de conceptualizar e adorar a Deus. Verificamos isso até no seio de uma única religião como o cristianismo. Na Europa, onde nasceu e floresceu, a leste tornou-se ortodoxa e a ocidente manteve-se católica, por um tempo até que se deu uma rutura. Desta vez o Norte fez-se protestante e o Sul manteve-se católico.

Porém, hoje, com a globalização crescente das culturas, as diferenças ou nuances passaram a ser pequenas no viver e atuar, uma única natureza humana que não varia no tempo nem no espaço. Prova disso, e para o tema que nos ocupa, podemos organizar todas as religiões, presentes ou passadas, segundo três grandes categorias: animistas, politeístas e monoteístas.

Isto é possível porque, como existe uma só natureza humana invariável no tempo e no espaço, também existe um único modelo de desenvolvimento. Ou seja, não existe um modelo de desenvolvimento alternativo ao que temos hoje, que passa pela descoberta da eletricidade, do movimento automotor, da descoberta da imprensa escrita, da rádio, da televisão, da Internet, etc.

Evolução do sentimento religioso
Logo que o ser humano tomou consciência de si mesmo, foi como se tivesse despertado de um grande sonho e, ao olhar para a realidade que o rodeava, a primeira crença que teve foi de que tudo o que o rodeava também estava consciente de si mesmo, tinha um espírito, uma anima. Assim surgiu o animismo como primeira etapa na evolução do sentimento religioso.

Animismo
Um pouco como a magia, o animismo baseia-se na crença de que o mundo, tanto na sua totalidade como nas suas partes, tem uma alma ou espírito; até mesmo o ar que respiramos, está povoado por espíritos que são forças impessoais e que podem ser invocados ou convocados e manipulados por xamãs, médiuns, magos, feiticeiros, bruxas, usando fórmulas, rituais e palavras mágicas.

Apesar de ser apenas a primeira etapa da evolução do sentimento religioso, é ainda hoje praticado por tribos indígenas onde estas ainda existem: na América tanto do Norte como do Sul, na Ásia, em África, na Austrália e nas ilhas do Pacífico.

Para além destas, no mundo moderno, todas as formas de superstição e adivinhação, como a astrologia, a cartomancia, a bruxaria, a feitiçaria, são resquícios de animismo que têm uma enorme aceitação popular. Objetos que dão sorte e outros que dão azar, rituais para conjurar a sorte e rituais para evitar o azar, continuam a fazer parte do nosso dia a dia. Entrar com o pé direito, a crença no poder dos cornitos, das ferraduras, das figas…

A religião New Age que pretende ser a síntese de todas as religiões, tem muito de neopaganismo ou animismo. Se quisermos, até a espiritualidade franciscana pode ser vista sob esta perspetiva, ao chamar irmão ao lobo e ao sol, e irmã à água e à lua. S. Francisco estava a devolver a estas realidades a alma que antes possuíam.

Depois do banho de materialismo que tem vindo a aumentar desde o Renascentismo, hoje a maioria das pessoas dá-se conta de que um objeto material não pode ter poder espiritual. Só um ser espiritual tem poder espiritual. Porém, ainda há quem seja supersticioso, recordando-nos sempre do animismo dos nossos antepassados.

Se compararmos a evolução da noção de Deus com o amadurecimento do homem, o animismo corresponde à infância - as crianças têm de facto a tendência para ver tudo o que as rodeia com alma, falam com os seus bonecos e brinquedos, vivem num mundo animado de fadas, bruxas e papões e acreditam no Pai Natal e na magia; Walt Disney, nos seus filmes para crianças, soube explorar este lado da fantasia infantil.

Politeísmo
À medida que o ser humano vai conhecendo e dominando o ambiente que o rodeia, este vai-se materializando. Todas as realidades que o ser humano conhece, controla e domina perdem a sua alma e o poder que têm sobre ele. Aquele que conhece exerce o seu poder e controlo sobre a realidade conhecida. Desta forma se vai reduzindo a esfera do mundo espiritual fora da própria pessoa.

Há, porém, certas realidades que o ser humano não domina com o conhecimento e ainda se sente impotente e desamparado, à mercê delas, dá-lhes o nome de deuses. Assim surge um deus para cada realidade que o ser humano não domina, o deus da guerra, Marte, o deus do mar, Neptuno, a deusa do amor, Vénus, etc.

Monoteísmo
A pré-história do monoteísmo acontece quando o ser humano agrupa todos estes deuses e lhes dá um líder – Zeus, na mitologia grega e Júpiter, na mitologia romana; estes são o pai dos deuses. O primeiro ser humano a proclamar que só há um deus foi um faraó do Egito chamado Akhenaten, também conhecido por Amenhotep IV, que reinou no Egito no século XIV AC. A ideia não progrediu entre os egípcios daquele tempo, mas foi acolhida anos mais tarde por um povo, na altura escravo, na terra do Egito – o povo judeu.

A descoberta do povo hebreu, neste sentido, é a de um Deus pessoal que concentra em si tudo o que são aspirações humanas, o bom e o perfeito. Como os judeus eram nómadas e os nómadas não podem ter deuses locais, já que se deslocam de um lado para o outro e seria muito incómodo carregarem os seus ídolos, pensaram então numa realidade concreta que estivesse em todos os lugares. Olharam para cima e encontraram-na no Céu.

Os povos sedentários têm tendência a ser politeístas; os povos nómadas, pelo contrário, são monoteístas. Os turkana, um povo nómada do norte do Quénia, têm a mesma palavra para designar Céu e Deus. Os mongóis, os turcos e os tártaros adoravam um deus comum chamado Tengri, o deus do céu azul.

O cristianismo não é mais uma religião, mas sim a revelação de Deus
Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por meio de quem fez o mundo. Hebreus 1, 1-2

É certo que todas as religiões adoram o mesmo Deus e visam humanizar o Homem. Por isso, a Igreja já não se apresenta ao mundo como única tábua de salvação e reconhece em todas as religiões “semina verbum”, pedaços fragmentados de verdade. Há, portanto, salvação sem Igreja, mas não pode haver salvação sem Cristo, porque sendo ele Deus feito homem é a verdade plena e, portanto, válida para todo o tempo e lugar.

À semelhança dos profetas do Antigo Testamento, os fundadores de todas as religiões, foram descortinadores da vontade de Deus e dos anseios do povo, num determinado momento da sua história, liderando-o pelo caminho certo.

Cristo, mais que um profeta, ou seja, o homem certo para um momento concreto, é o homem certo para todo o tempo e lugar. Ele não veio evangelizar o povo judeu para que fosse fiel à sua fé, Ele não veio purificar a fé do povo judeu. Ele nasce entre o povo judeu, mas não veio para o povo judeu, como muito bem profetizou o profeta Isaías, Ele veio para todos os povos.

Religião, do verbo religar, é todo o esforço que o ser humano fez ao longo dos tempos para atrair o beneplácito de Deus, por intermédio de sacrifícios, rituais e liturgias. A religião é, portanto, uma iniciativa do género humano. A revelação é de iniciativa divina; já não é o homem a fazer caminho para Deus, mas sim Deus a fazer caminho para o Homem. Não fostes vós que me escolhestes; fui eu que vos escolhi a vós. João 15, 16

Como Cristo não é um profeta mais, em relação às outras religiões, o cristianismo é um salto qualitativo e, desta forma, todas as religiões são para o cristianismo o que o Antigo Testamento da Bíblia é para o Novo Testamento.

A nível individual
“Ninguém vai ao Pai se não por mim disse (João 14, 6-14) quem me conhece a mim conhece o Pai (João 14, 7)”, o que equivale a dizer que quem não me conhece a mim não conhece o Pai. “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida (João 14, 6)” o que equivale a dizer que não há outro caminho, verdade e vida alternativo. Quem não recolhe comigo, dispersa, diz também.

A nível social
Jesus de Nazaré sabe que homens novos fazem sociedades novas e sociedades novas, pela educação, fazem homens novos, pelo que é preciso atuar a ambos níveis. O cristianismo não é como o budismo que só visa a perfeição pessoal e se desinteressa dos outros, ou como o judaísmo que só visa a salvação do povo judeu e a condenação dos pagãos não judeus.

No monte Sião, o Senhor do universo prepara para todos os povos um banquete de carnes gordas,
acompanhadas de vinhos velhos, carnes gordas e saborosas, vinhos velhos e bem tratados. Isaías 25, 6)

Cristo veio com um projeto para todos os povos, o Reino de Deus, como bem predisse o profeta Isaías no banquete para todos os povos. Mais tarde, Jesus explica o que é o reino em parábolas, onde frequentemente utiliza a imagem do banquete aberto a todos. (Mateus 22, 1-14)

O cristianismo é uma revolução social e uma psicoterapia individual
Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egito, e ouvi o seu clamor diante dos seus inspetores; conheço, na verdade, os seus sofrimentos. Desci a fim de o libertar da mão dos egípcios e de o fazer subir desta terra para uma terra boa e espaçosa, para uma terra que mana leite e mel… Êxodo 3, 7-9

Jesus, como novo Moisés, vem tirar o ser humano de todas as escravidões, vem oferecer-se como modelo a seguir para que o homem seja verdadeiramente livre. Como Cristo, Deus feito homem, encarnou em vida o modelo mais perfeito de humanidade, Ele é a referência do ser humano; todo o que busca e se esforça por ser homem autêntico, seja qual for o seu credo ou a sua religião, sem ter que professar a fé cristã, é com Cristo que tem de se comparar e não com mais ninguém.

Jesus entra na história humana como um meteorito no meio do mar e faz ondas em forma de círculos concêntricos, desde o centro até às margens mais longínquas. Como foi um meteorito que acabou com o reinado dos grandes répteis, os dinossauros, dando estes lugar aos mamíferos de pequeno porte dos quais resultou por evolução a raça humana, assim Cristo é o Rei do Universo que vem restabelecer o seu reino na Terra que Ele antes, com o Pai e o Espírito Santo, havia criado.

Inspirados ainda na metáfora do meteorito que faz círculos concêntricos com a sua queda, Cristo irrompe no meio da história humana dividindo-a em dois períodos: o antes da sua vinda e o depois da sua vinda, sendo o seu nascimento o ano zero.

Seja porque os cristãos são o grupo mais numeroso, ou porque a cultura ocidental de matriz cristã se universalizou por ser mais avançada, o facto é que por muito que os judeus, os ateus e os agnósticos lhe chamem Era Comum, o nascimento de Cristo é o ano zero a partir do qual se conta a história humana para trás e para a frente.

Cristo é a pedra angular (Atos 4, 11) da história da salvação. Ele veio para salvar vivos e mortos a todos os que viveram antes d’Ele (Efésios 4,9-10), tendo até pensado (João 20, 24-29) e rezado por aqueles que viveriam depois d’Ele (João 17, 20).

Porque Ele, fundamentalmente, não veio fundar uma nova religião, mas sim ensinar o homem e ser homem e a relacionar-se com os outros, de forma a melhorar o mundo, transformando-o no reino de Deus, ou seja, numa sociedade onde reina a justiça e a paz.

Tive fome, sede, era forasteiro, estava nu, na prisão ou no hospital e prestaste-me ou não me prestaste assistência… (Mateus 25, 31-46). No juízo final, igual para todos os povos, não nos perguntam a que religião pertencemos, o que somos, o sucesso que tivemos na nossa vida ou quanta prática religiosa tivemos. O julgamento é pouco religioso porque não contém perguntas de índole religiosa, mas exclusivamente de índole social.

Desde que Deus assumiu a natureza humana, todos os seres humanos se transformaram ipso facto em seus irmãos. Já não há ninguém neste mundo que esteja só, que não tenha quem o defenda, Jesus permanece escondido em cada um de nós, sobretudo nos mais pobres e desfavorecidos. Por este juízo final ficamos a saber que a assistência que prestamos ou não prestamos aos que se cruzaram no nosso caminho durante a nossa vida, foi a Ele que a prestámos ou não prestamos.  
 
Por outro lado, nenhum ateu ou agnóstico negaria que não há vida humana sem amor e que viver é amar. Ora, pois, Jesus só tem um mandamento que diz isso mesmo: amar a Deus sobre todas as coisas, sobre ti mesmo e sobre todos, amar a ti mesmo como Deus te ama e amar os outros como te amas a ti mesmo. Que há de religioso nisto? Interpretando este mandamento, Santo Agostinho chega a dizer: Ama ed fac quod vis ou ama e faz o que quiseres…

Conclusão - Todas as religiões antes de Cristo são Antigo Testamento, pelo que Cristo é o Novo Testamento para todas elas. Há salvação fora da Igreja, mas não há salvação fora de Cristo, pois Ele é o único Caminho, Verdade e Vida para Deus Pai; como Ele próprio disse, ninguém vai ao Pai senão por Ele.

Pe. Jorge Amaro, IMC


1 de agosto de 2022

Fugitivos, Vagabundos, ou Peregrinos?

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Deixar a vida pelo mundo em pedaços repartida…Camões

Coordenadas da vida humana
O ser humano é um ser espácio-temporal. Ocupa um espaço durante um tempo, pelo que, tal como acontece no universo e na natureza que nos rodeia e envolve, nada há de estático nem de permanente na vida humana. Não podemos instalar-nos no tempo nem no espaço: a vida implica movimento, é processo, é devir, é caminho, é mudança.

Pela forma como usamos e nos situamos no tempo ou nos relacionamos com ele, podemos ser fugitivos ou vagabundos; o evangelho, porém, exorta-nos a ser peregrinos.

A vida é larga, mas curta. Larga em possibilidades, em muitas e diversas formas de usar o nosso tempo, mas curta no tempo. Por isso, não há coisa pior que um passatempo, ou matar tempo, como se tivéssemos mais do desejado, o que não é verdade. Não há tempo para matar nem tempo para perder, pois o tempo é escasso.

Fugitivos, vagabundos ou peregrinos, têm em comum o não estarem apegados a pessoas, coisas ou lugares. Nunca estão quietos no mesmo sítio, facilmente se movem de lugar para lugar. Por isso, também têm em comum a forma como se instalam no tempo e como vivem o momento presente. Mas diferem na forma como se relacionam com os outros dois tempos da vida humana: o passado e o futuro.

O peregrino vive bem as três dimensões do tempo, enquanto que o fugitivo vive amarrado de pés e mãos ao passado e teme o futuro. O vagabundo, pessoa sem eira nem beira, não tem passado nem presente nem futuro, vive suspenso no tempo como cana agitada pelo vento.

O tempo humano é tridimensional: passado – presente – futuro
Os três tempos em que a vida decorre são interativos: nem o passado passou completamente nem o futuro está todo por chegar. Os dois estão presentes no presente e interagem com ele. Assim sendo, o presente nem sempre se refere ao presente, tanto pode referir-se ao passado como ao futuro. Assim como o passado e o futuro visitam o presente, o presente também pode deslocar-se ao futuro e ao passado. O presente em si é o que está a ocorrer, mas quando pensamos no que está a ocorrer, já é passado.

O passado passou, mas nunca passa; o futuro chega, mas nunca chega, desloca-se para a frente como a cenoura à frente do nariz do burro. Enquanto existirmos, os três existem connosco e só deixamos de ter presente e passado quando deixamos de ter futuro, ou seja, quando morremos. Como vivem os três juntos, também morrem os três juntos, com poucos segundos de diferença. Morremos da frente para trás: primeiro morre o futuro, depois o presente e só depois o passado.  

Somos uma flecha que alguém disparou no passado. Segundo as circunstâncias da vida, nós mesmos podemos ter algum controlo sobre a direção que a flecha toma, mas sabemos que “Todos os caminhos vão dar a Roma”, que o destino é comum, que a morte é certa e incerta. Certa, porque é a única coisa que sabemos com certeza do nosso futuro, como diz Heidegger, somos um ser para a morte. Incerta porque não sabemos onde nem quando nem de que forma morreremos e julgo que ninguém estará interessado em saber.

No caso de haver vida eterna, como acreditamos enquanto cristãos, então morre o futuro e o passado também, porque deixam de ser interativos no presente. A vida feita do tempo a correr deixa de ser uma realidade. O que fomos, somos. O que hoje somos assume tanto o bem como o mal que contribuíram para o que hoje somos. Os acontecimentos do passado são os andaimes da construção do edifício. Quando acaba a construção, com a nossa morte, os andaimes já não são precisos: o que chegamos a ser é agora o que seremos para sempre na eternidade.

Pertence também à categoria de andaime o nosso corpo físico, pois por ele e com ele construímos o nosso ser, o nosso corpo espiritual e, quando este está construído, cessa o tempo na sua dimensão de futuro e passado e mantém-se na sua dimensão de presente, um eterno presente em Deus e com Deus.

Viver é deixar
Os que falam inglês como primeira língua diferenciam muito bem estes dois verbos ao pronunciá-los; os estrangeiros, porém, têm a tendência a pronunciá-los da mesma forma. Apesar de serem completamente diferentes no significado, “to live” significa viver e “to leave” significa deixar. O facto de os pronunciar da mesma forma, levou-me a descobrir uma relação intrínseca entre eles.

Viver significa e implica deixar, largar o lugar onde estamos e partir para outro. O peregrinar está impresso em nós já a nível celular e cromossomático. Os tubos dos testículos onde se formam os espermatozoides, todos ligados num só, estender-se-iam por mais de 70 cm.

O espermatozoide X ou Y que nos deu a vida, viajou por estes tubos e, ao ser ejaculado, viajou ainda pelo sistema reprodutivo da nossa mãe até chegar à sua outra metade com a qual se uniu nas trompas de Falópio e formou um novo ser. Ali se deu a conceção; mas 4 dias depois, o novo ser teve de abandonar esse lugar para poder viver e viajar até ao útero onde se aninhou por nove meses até completar o seu crescimento.

Ao nascer, o bebé deixa o seio da sua mãe e passa para o seio de uma família que o ama incondicionalmente e que, como tal, se torna num segundo seio materno até que chega o dia em que tem de ir para a escola onde já não é amado incondicionalmente. É duro o primeiro dia de escola. Eu recordo que ficava com o olhar fixo na minha mãe, à medida que me ia afastando da casa até dobrar a esquina ao fundo da rua.

Quando a escola primária se torna familiar, é tempo de a abandonar para ir para a secundária; para mim foi o seminário. Para o primeiro dia, o meu pai levou-me, mas quando se veio embora, o mundo desabou para mim… e chorei amargamente…. Um dia deixa-se a família para constituir outra família; deixa-se a terra para buscar emprego noutro lugar.

Os imigrantes deixam a sua terra para buscar um futuro melhor para si e para os seus. Deixar o princípio do prazer pelo o princípio da realidade; deixar pai e mãe para se unir à sua esposa; deixar tudo para seguir o mestre. Quem não deixa, como o jovem rico, não encontra a vida.

No tempo somos fugitivos, vagabundos ou peregrinos
Como seres temporais, a nossa vida ocorre dentro das três dimensões do tempo: o passado, o presente e o futuro. Dependendo da idade, as pessoas tendem a privilegiar uma dimensão em detrimento das outras duas.

As crianças e os jovens - Colocando de lado o passado, vivem o presente como preparação de um futuro com o qual sonham e no qual se projetam. Porque o futuro pode nunca chegar, cada dia deve valer por si mesmo, não desligado do futuro, é certo, mas também não vivido inteiramente em função dele. Viver o presente na caridade.

Os idosos – Quando objetivamente já não há muito que esperar, vivem de memórias. A lembrança da felicidade passada não dá felicidade mas sim tristeza. É certo que a vida se entende para trás, mas vive-se para a frente. Mesmo na terceira idade, a esperança cristã nos diz que o melhor está sempre para vi, por isso o que pode fazer-se deve fazer-se. Viver o futuro não na ansiedade, mas na esperança.

Os adultos – Vivem instalados no presente, não querem saber do passado nem do futuro. De facto, vivem como se nunca tivessem que morrer. Tudo fazem para deter o tempo e os estragos que este faz à vida: operações plásticas para manter a aparência jovem quando já não se é jovem,  desporto, dietas, cuidados com a saúde, demasiado concentrados em si mesmos. Devemos integrar o passado e o futuro nas nossas vidas de maneira a viver o presente em caridade e não olhando para o espelho ou para o nosso umbigo.

O fugitivo
O SENHOR replicou: «Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até mim. De futuro, serás amaldiçoado pela terra, que, por causa de ti, abriu a boca para beber o sangue do teu irmão. Quando a cultivares, não voltará a dar-te os seus frutos. Serás vagabundo e fugitivo sobre a terra.» Génesis 4, 10-12

Deus disse a Caim “porque mataste o teu irmão, serás fugitivo sobre a terra”. O fugitivo é perseguido pelos remorsos de algo que fez no passado. Fugido da polícia, não tem presente nem futuro. What goes around comes around ou cá se fazem, cá se pagam… Caim é fugitivo porque foge de um passado que o persegue no presente. O seu caminhar é determinado pelos seus perseguidores, não por ele mesmo; por isso não tem presente nem tem futuro. Ficou entalado por algo que fez no passado e que se faz omnipresente em forma de remorsos, de tal forma que lhe nega a vida.

Hunted by his past (assombrado pelo seu passado) é uma expressão inglesa que denota bem as circunstâncias em que vive o fugitivo. Como presa de caça, vive a vida temendo ser caçado. Os assuntos que não ficaram resolvidos no passado perseguem-no no presente. Águas passadas não movem moinhos, mas muita gente, contradizendo esta lei da natureza, tem os seus moinhos, as suas cabeças a moer com águas passadas, porque não pediram desculpa nem perdoaram, ou porque foram traumatizados ou abusados e reprimem ou fingem que nada aconteceu.

“Já perdoaste aos nazis tudo o que nos fizeram quando éramos prisioneiros em Auschwitz”?  perguntou um ex-prisioneiro ao seu amigo, depois de muitos anos sem se verem. “Eu?” respondeu o amigo “nem perdoei nem nunca perdoarei a esses sacanas! “Ah sim?” respondeu o primeiro, “então ainda lá estás, em Auschwitz.”

O que não perdoa vive no passado, busca fugir desse passado que o persegue sempre e que determina negativamente o seu presente. A si mesmo se ilude, pensando que o passado ficou no passado, a verdade é que o que conhecemos e assumimos do nosso passado é redimido e, como tal, podemos controlar. O que desconhecemos e não assumimos ou perdoamos do nosso passado, precisamente porque está reprimido e fora da nossa consciência do dia a dia, controla-nos a nós, irrompendo no nosso presente de mil e uma maneiras. Ao projetar os fantasmas do passado no presente, podemos pensar que estamos a lutar contra os nossos inimigos, quando objetivamente estamos a lutar contra moinhos de vento, como o Dom Quixote de la Mancha.

Quem não deve não teme; o fugitivo deve, por isso teme, desconfia de tudo, de todos e de si mesmo, vive ancorado no passado que o traumatizou e reproduz continuamente no presente esse passado, vive numa prisão. O que foi abusado será um abusador, a questão é abusar sem ser apanhado; os ladrões só se consideram como tal se forem apanhados. Quem tem esqueletos no armário nunca vive seguro.

O vagabundo
O vagabundo no tempo corresponde ao turista no espaço. Vimos do nada, vamos para o nada; a vida não tem sentido assim, pelo que o agnóstico e o ateu são fundamentalmente vagabundos. Nos dias de hoje, há sem-abrigo que o são por opção, filósofos que querem essa vida, não se comprometendo com nada nem com ninguém, nem sequer com a própria sobrevivência.

Carpe diem passou a ser o lema de muita gente depois do filme “O clube dos poetas mortos”. O vagabundo vive instalado no presente, mas não no presente consciente e omnisciente das filosofias orientais, mas sim num presente consumista, hedonista e inconsciente: morra Marta, morra farta. Sem lhe importar o passado que já foi e o futuro que ainda não é e pode não vir a ser, o vagabundo caminha no círculo vicioso de um eterno retorno. “Para quem não sabe para onde há de ir, não há ventos favoráveis.”

Não prometo para não falhar, ouvimos tantas vezes. O vagabundo não promete nada a ninguém nem se compromete com nada nem com ninguém, porque isso significaria contar com o futuro. Mas o vagabundo não conhece a palavra futuro; vive no momento e para o momento. Em relação ao passado e ao futuro tem a atitude da avestruz, coloca a cabeça debaixo da areia, reprime, nega a sua existência, prefere não pensar e por isso abstrai-se, usando a diversão ou o trabalho como droga para não pensar nem se confrontar consigo mesmo.

Não tem passado nem futuro, vive instalado no mundo como se fosse de cá. Vive como se nunca tivesse de morrer e morre como se nunca tivesse vivido (Dalai Lama). Com uma taxa de divórcio em Portugal superior a 70%, ninguém quer comprometer-se; o compromisso é visto com um hipotecar do futuro, como limitador da minha liberdade.

Os jovens querem ter as suas opções em aberto e por isso vivem instalados na rotunda ou no cruzamento da vida. Como nunca tomam rumo, são como o hamster que roda sem cessar nunca chegando a lado nenhum. Porque escolher uma rota significa dizer não a todas as outras. Mas se passas a vida sem te comprometeres com nada nem com ninguém, és como um carro que tem o motor ligado mas não vai a lado nenhum.

Viver é caminhar para algum lado, não em círculos; é estar sempre a sair do Egito atravessando o deserto, na esperança de entrar na Terra Prometida. Para isso, precisamos de um guia; mas os vagabundos, como não vão a lado nenhum, não precisam de guia, não aceitam conselhos de ninguém. Para quem não sabe para onde ir, não há ventos favoráveis.

O peregrino
Felizes os que em Vós encontram a sua força, os que trazem no coração os caminhos do santuário.Ao atravessar o vale seco, transformam-no em oásis, que logo as primeiras chuvas cobrirão de bênçãos. Vão caminhando com entusiasmo crescente, até verem Deus em Sião. Salmo 84, 6-8

Na pré-história da nossa fé há inúmeras peregrinações: Abraão, arameu errante que só possuiu uma sepultura que comprou para a sua mulher; da sua cidade na Mesopotâmia até Canaã, o povo hebreu do Egipto, terra da escravidão para a terra prometida da liberdade e prosperidade, as idas a Jerusalém pela Páscoa.

Depois de Cristo, as peregrinações dos cristãos à Terra Santa, a Roma e a Santiago de Compostela; na tradição ortodoxa, o Peregrino Russo; já nos nossos tempos, as peregrinações a Guadalupe, no México, a Lurdes, em França, a Fátima, em Portugal, a Chestocova, na Polónia; a peregrinação é uma prática cristã muito importante porque, de alguma forma, é uma parábola da vida. Viver é peregrinar, o cristão deve comportar-se com o mundo à sua volta e com os seus semelhantes como peregrinos.

A peregrinação é uma metáfora ou parábola de como deve ser vivida a vida humana. Abraão, o nosso Pai na fé, era um arameu errante; o povo hebreu, ao sair do Egipto, atravessar o deserto em direção à Terra Prometida onde corriam leite e mel, estabeleceu o paradigma da vida humana.
•    Karl Marx – capitalismo, ditadura do proletariado, sociedade sem classes
•    Mandela – Apartheid, 30 e tal anos de cadeia, presidente de uma sociedade em igualdade
•    Vício – limpeza, síndrome de abstinência – liberdade

Contrariamente ao fugitivo, o peregrino vive reconciliado com o seu passado, por isso não depende dele; contrariamente ao vagabundo, tem uma meta, um objetivo que pretende atingir, por isso vive com intensidade o momento presente, sabendo sempre quem é, de onde vem e para onde vai, nunca está desnorteado nem desorientado, pois a sua vida é regulada como se tivesse um GPS.

O homem bíblico - Na língua hebraica a palavra “Nikud” significa, ao mesmo tempo, futuro e costas; por outro lado, a palavra “quedem” tanto quer dizer passado como oriente. Assim sendo, podemos concluir que o homem bíblico tem o passado à sua frente e o futuro nas suas costas, ou seja, caminha com o peito e a cara voltada para o passado, de costas para o futuro.

De olhos no passado porque é lá que estão as nossas raízes, o nosso ser, a nossa identidade, vivemos caminhando para o futuro, mas entendemos a nossa vida olhando para o passado e pelo passado nos orientamos para o futuro. Do futuro, pouco ou nada sabemos, por isso caminhamos de costas, ou seja, às cegas; a única coisa que temos como certa no nosso futuro é a morte, mas mesmo assim, não sabemos como nem quando nem onde ocorrerá. Para o peregrino recordar não é viver; por isso olha para o passado não para o reviver, mas para se orientar usando no presente o que aprendeu das experiencias do passado para encontrar o melhor caminho para o futuro

Não há mal que sempre dure nem bem que sempre ature – Sabe que a vida é feita de altos e baixos, como a linha de um eletroencefalograma ou eletrocardiograma, sabe que no caminho para Deus pode encontrar céu e inferno, mas também sabe que tudo é passageiro, pelo que, quando está nos pícaros da vida não perde a cabeça e, quando está deprimido, não perde a esperança. Em todo o momento, em todo lugar, vive sob a proteção do Senhor, por isso é constante, paciente e fiel.

Conclusão - O Peregrino não é como o fugitivo porque, não tem remorsos, não está atado ao seu passado. Também não é como o vagabundo, porque vive comprometido no presente entregando-se a uma causa e a pessoas concretas com a mesma intensidade, como se fosse o seu último dia.

Ao contraio do Fugitivo, atado a um passado do qual foge, ou do vagabundo que, descomprometido com o presente, vive sem futuro, o Peregrino orgulha-se do seu passado, caminha para o futuro com esperança e enche o seu presente com obras de caridade.

Pe. Jorge Amaro, IMC



1 de julho de 2022

Colonos, Turistas ou Peregrinos?

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Não temos aqui cidade permanente, mas procuramos a futura Hebreus 13,14

Coordenadas da vida humana
O ser humano é um ser espácio-temporal. Ocupa um espaço durante um tempo, pelo que, tal como acontece no universo e na natureza que nos rodeia e envolve, nada há de estático nem de permanente na vida humana. Não podemos instalar-nos no tempo nem no espaço: a vida implica movimento, é processo, é devir, é caminho, é mudança.

Pela forma como usamos e nos situamos no espaço ou nos relacionamos com ele, podemos ser colonos ou turistas; o evangelho, porém, exorta-nos a ser peregrinos.

Colonos, turistas e peregrinos, têm em comum o facto de não serem oriundos do lugar que habitam durante o tempo da sua vida; mas têm formas diferentes de se relacionar com o meio ambiente que os rodeia durante o tempo em que nele habitam.  

As pessoas foram criadas para serem amadas, as coisas para serem usadas. Só o peregrino encarna esta verdade na sua vida: ou seja, para ele as coisas são um meio, por isso devem ser usadas e não amadas, ao passo que as pessoas são um fim em si mesmas, pelo que não devem ser usadas para nenhum fim, mas amadas pelo simples facto de serem pessoas.

Os colonos têm como fim enriquecer o mais rapidamente possível. O fim são as coisas pois estão enamorados delas e é a elas a quem amam; as pessoas são rivais a eliminar ou a usar como meios para atingir a finalidade de serem ricos. Provavelmente abandonarão o lugar depois de o terem explorado suficientemente, assim como os nativos que nele habitam.

Os turistas vivem centrados em si mesmos e nas suas experiências, pelo que o objetivo são eles mesmos e as experiências prazenteiras que vão tendo e acumulando. As pessoas são coisas e as coisas são pessoas. É como aquele que diz amar os seus animais de estimação e se relaciona com eles como se fossem filhos ou amigos, ou seja, usa a mesma terminologia que usa com as pessoas e ao fazê-lo está a coisificar as pessoas e a personificar coisas ou animais. O importante é o prazer que tanto as coisas como as pessoas podem proporcionar-lhe.

O lugar em que habitamos
Com a Revolução Industrial, a mecanização da agricultura, a expansão do comércio e a globalização, o mundo ocidental e depois os países em vias de desenvolvimento e os países pobres experimentaram um desenvolvimento sem precedentes a todos os níveis: aumentou a produção, aumentou a população, aumentou o consumo, aumentou a necessidade de energia, aumentaram os meios de transporte, sobretudo o avião e o carro, a ponto de cada família dos países ricos ter mais de um carro. A poluição e a deterioração ambiental foram consequências inevitáveis deste desenvolvimento.

Só não aumentou o nosso planeta e, como este não aumentou, depressa surgiram os resultados deste crescimento tão rápido e desmesurado, sobretudo por causa da filosofia do “usa e deita fora” que vigorou por várias décadas. O conceito da reciclagem é recente e ainda não entrou em muitas mentes, o que é bem estranho, pois reciclar foi sempre a filosofia de vida do nosso planeta. No entanto, os seus habitantes viveram e muitos ainda vivem segundo a filosofia de “usa e deita fora” - é mais barato comprar novo que consertar. Para quem é mais barato? Para a economia ou para o planeta?

O nosso planeta é a nossa casa comum. O ser humano ainda não arranjou forma de colonizar outros planetas, pelo que ou cuidamos deste único que temos ou podemos cometer um suicídio cultural e ecológico, degradando as condições de habitabilidade até um nível insustentável.

A ideia do desenvolvimento sustentável surgiu na I Conferência das Nações Unidas sobre o meio ambiente e desenvolvimento, Rio de Janeiro 1992. É simples saber se o que fazemos é sustentável: basta que nos perguntemos se podemos continuar a fazer isto uma e outra vez, para sempre? A primeira instância a inquirir é o meio ambiente - compromete o meio ambiente para as próximas gerações? Em segundo lugar devemos perguntar se conduz a um crescimento económico.

E, em terceiro, se esse benefício económico abrange a todos ou só a alguns, se promove a paz, a justiça e a estabilidade social. Até agora, a riqueza que uns produzem é proporcional à pobreza que causa, ou seja, quanto mais riqueza mais pobreza.

O desenvolvimento visto unicamente como crescimento económico destruiu o meio ambiente e causou profundas desigualdades sociais. Para o desenvolvimento ser sustentável, tem de ser tridimensional, ou seja, os aspetos de justiça social e proteção ambiental devem ser tão importantes quanto o crescimento económico.

Colonos
Veni vidi et vincit, como diria o conquistador César Augusto, o colono vem para conquistar e possuir tanto as pessoas como as coisas. Conquista, explora tudo e todos sem escrúpulos: os recursos do planeta sem se importar com a ecologia. Neste sentido, possui a mentalidade do burro que dizia, “Depois de eu morrer que não cresça mais erva sobre a terra”. Também explora os outros, regulando-se pela única regra que conhece: o lucro e o interesse pessoal.

O colono veio para ficar ou fixar-se por um tempo determinado até esgotar os recursos da riqueza que procura. No tempo em que está não se move, agarra-se às coisas e às pessoas como uma carraça. Pode fazer amizade com as pessoas, mas é sempre uma amizade interesseira, é um falso amigo porque não se coloca ao serviço de ninguém nem de nenhuma causa humana; pelo contrário, coloca os outros ao seu serviço.

Na Bíblia, o colono está representado por Caim que é agricultor e, portanto, sedentário, deixou de buscar, deixou de caminhar e vive instalado na vida como se tivesse chegado já à Terra Prometida, disfrutando de tudo o que a vida lhe dá como se nunca tivesse de a deixar. Deus rejeitou Caim e aceitou Abel que era pastor, caminhante, peregrino, destacado de tudo e de todos.

O colono vive instalado no ter cada vez mais, vive a vida amealhando, aumentando desmesuradamente meios de vida, pensando erradamente que por ter mais meios de vida vai ter uma vida mais longa. Instalado neste mundo e nesta vida como se nunca tivesse de a deixar, acaba por morrer sem nunca ter vivido, ou seja, sem nunca ter sabido o que é verdadeiramente a vida. Não cultivou o ser, mas o ter, não a vida eterna, mas a vida temporal e finita na pura mundanidade.

Turistas
Ao contrário do colono, o turista vive superficialmente. Tudo tem o mesmo valor: coisas e pessoas. Procura divertir-se, não está interessado em possuir nada nem ninguém, apenas fotografias de tudo e de todos, vídeos e recordações dos lugares que visitou e que lhe proporcionaram prazer ou mesmo alegria.

Para o turista tudo é paisagem e, sendo passageiro, o valor das coisas mede-se pelo potencial que tem de divertir ou satisfazer os seus cinco sentidos. Por isso, tudo o que é exótico, erótico, invulgar, excêntrico, que produz emoções fortes e espevita a adrenalina é que tem valor.

O turista não chega a penetrar na realidade, vê o mundo como se fosse um teatro ou um cinema que o diverte, mas não sabe nem está interessado no que se passa nos bastidores. Não se compromete com nada nem com ninguém, busca diversão e foge de tudo o que tenha que ver com sofrimento e compromisso. O turista no espaço corresponde ao vagabundo no tempo: não se compromete com nada nem com ninguém, é superficial.

O colono vive instalado no ter, o turista vive instalado no prazer; as coisas têm valor consoante o gozo que dão e anda à procura de prazeres cada vez mais sofisticados e refinados. O passado é fotográfico, o futuro ainda não foi. Não está em lado nenhum, goza aqui e ali, vive centrado em si mesmo.

Superficial e snob faz-me lembrar naquele casal em lua de mel pela Amazónia que viajava numa canoa; estava tão absorvido pela beleza da floresta tropical que perdeu o contacto com a verdadeira realidade. Enquanto a canoa se afundava e vindos das margens do rio os crocodilos mergulhavam, a esposa comentou, “Oh querido, isto é tudo tão bonito e tão chique que até os nadadores salvadores são da Lacoste!”   

O peregrino
Sabeis o que ocorreu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo que João pregou: como Deus ungiu com o Espírito Santo e com o poder a Jesus de Nazaré, o qual andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com Ele. Atos dos Apóstolos 10, 37-38

Jesus, como modelo de ser humano, deve ser imitado não só no que disse e no que fez, mas também na forma como se comportou em relação às coisas, ao espaço e às pessoas. Passou pelo mundo fazendo o bem, não se fixou num lugar onde já tinha ganhado fama e popularidade, como os seus discípulos pretendiam (Marcos 1, 38). Nem ficou com aqueles sobre quem já tinha ganhado poder e que o queriam fazer rei (João 6,15).

Comprometido com o reino de Deus e a sua justiça, Jesus não viveu apegado a nada nem a ninguém, passou pelo mundo fazendo o bem, semeando as sementes do reino sem se sentar.

Era uma vez um homem que todos os dias ia buscar água ao rio com um balde em cada mão. Um dos baldes estava furado, pelo que chegava a casa só com metade da água. Por esta razão sentia-se triste, inferiorizado e até envergonhado diante do seu colega. Ao referir isto mesmo ao seu senhor, este sorriu e disse: “Já reparaste que o caminho do teu lado está cheio de flores e não há nenhumas do lado contrário? Como eu sabia que estavas quebrado, semeei flores do teu lado e tu cada dia te encarregavas de as regar...”

Na nossa peregrinação para o ocidente, para o ocaso, como os discípulos de Emaús, deixemo-nos alcançar por Jesus, que Ele seja o nosso companheiro de caminho, que nos explique as escrituras e nos diga o sentido das coisas. Ele é Caminho, é Verdade, é Vida, entremos, convidemo-l’O para cear, para ficar connosco e Ele repartirá o pão.

Não colonos, mas sim imigrantes que vão para explorar o peregrino, apanhar aqui e soltar ali, como o pucarinho que perde a água e deixa flores; deixar algo de si mesmo por onde passa. Um pároco de Loriga na visita pascal visitando a casa de todos os seus paroquianos, tanto ricos como pobres, recolhia o dinheiro que lhe era dado em casa dos ricos e deixava-o na casa dos pobres. Dessa forma, no dia de Páscoa ele passava o raseiro pela sua paróquia nivelando a riqueza, sendo fator de igualdade.

O peregrino não possui coisas nem pessoas como o colono, nem as usa e deita fora como o turista; não está instalado no aqui e agora como o colono, nem caminha desinteressado com o turista. No seu caminhar, compromete-se, entregando-se totalmente a pessoas e a causas humanas concretas, mas como não busca ser amado, mas amar, dá-se sem se prender às pessoas que ama.

Muitos dos peregrinos de Santiago eram jograis que deixavam música e alegria por onde passavam. A nossa língua, o galaico-português, nasceu destas cantigas de amigo, amor, escárnio e mal dizer. Por outro lado, o caminho português está embelezado por pontes e igrejas românicas; o caminho francês, por igrejas e grandes catedrais góticas. 

Um rabino visitou um peregrino da Terra Santa e, ao verificar que vivia pobremente, perguntou: “Rabino, onde estão os teus móveis? O rabino olhou-o fixamente e respondeu: “E onde estão os teus?” “Os meus?” respondeu o peregrino, “Eu sou peregrino” ... “Eu também, respondeu o rabino” ...

A gramática do peregrino
(...) todos quantos em Cristo fostes batizados, de Cristo vos revestistes. Não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. Gálatas 3, 27-29

Como não busca possuir, o peregrino não usa pronomes possessivos, nem com pessoas nem com coisas.

Com as pessoas - Usa pronomes de relação. Por isso, em vez de dizer “o meu pai”, diz, “para mim é pai, pois esta mesma pessoa para a minha mãe é marido, para o meu avô é filho, para o meu tio é irmão, para o patrão é operário, etc.”

Com as coisas - Usa pronomes administrativos, pois tem consciência de que em verdade não somos proprietários de coisa nenhuma; de todos os recursos que dizemos possuir, inclusive da “nossa” vida, apenas somos administradores e desta administração daremos um dia contas ao verdadeiro proprietário que é Deus Senhor de tudo e de todos.

Os pronomes pessoais - São só três: EU, porque me reconheço como uma pessoa livre e independente de tudo e de todos, com direitos e deveres. TU, o meu semelhante a quem considero um alter ego e, por ser igual a mim, devo amá-lo como me amo a mim mesmo. NÓS, uma vez que, tal como na trindade divina, o Espírito Santo procede do Pai e do Filho, na trindade humana o filho procede do Pai e da Mãe e na trindade dos pronomes pessoais, o nós procede do eu e do tu unidos.

Os pronomes discriminativos – São os restantes pronomes chamados “pessoais”, porque qualquer que seja o contexto em que os usemos, discriminam. O ele e ela são pessoas que não são da minha relação, o que não é bom pois devo estar aberto a todos; o vós, são os outros que não são do nosso grupo, que não são como nós, e eles ainda soa mais distante que o vós. Deus é Pai de todos, todos somos seus filhos, todos somos irmãos.

Narcisismo das pequenas diferenças – É como chama Freud às diferenças que artificialmente buscamos, como se, para defender a nossa idiossincrasia, tivéssemos que aniquilar a do outro... É muito mais o que nos une do que o que nos divide de facto; se houvesse uma ameaça extraterrestre  num dado momento, todos nós, habitantes deste planeta, esqueceríamos essas pequenas diferenças e nos transformar íamos no que sempre fomos e sempre seremos: um grande NÓS.

Conclusão - O colono instalado no Ter, vive acumulando coisas; o turista instalado no prazer, vive acumulando experiências prazenteiras. O peregrino pode ser rico como o colono e gozar a vida como o turista, mas não vive apegado a nada nem a ninguém, porque vai deixando um pouco de si mesmo nos lugares e nas pessoas com quem se encontra.

O Peregrino não se prende com coisas ou pessoas, como o colono, mas também não vive sem compromissos como o turista. O peregrino compromete-se com pessoas e causas sem se prender a elas, permanecendo livre e independente de tudo e de todos.

Fr. Jorge Amaro, IMC



15 de junho de 2022

Saramago já deve saber...

2 comentários:


 


Os filhos de Israel subiram à cidade, cada um pela brecha que tinha na sua frente e tomaram a cidade. Votaram-na ao anátema, passando ao fio da espada quanto nela encontraram, homens e mulheres, crianças e velhos, e os bois, as ovelhas e os jumentos. Josué 6, 20-21

Mas, se não expulsardes da vossa frente todos os habitantes do país, aqueles que tiverdes poupado serão como espinhos nos vossos olhos e como aguilhões nos vossos flancos; atormentar-vos-ão no território que ocupardes e eu tratar-vos-ei a vós como tinha resolvido tratá-los a eles. Números 33, 55-56

Nestes textos de uma violência extrema Deus não só ordena o genocídio dos cananeus como fica irado por terem sido poupados alguns. No capítulo 15 do 1º livro de Samuel lemos que o rei Saul perde a confiança de Deus, que passa para David, por ter sido bom demais e ter poupado alguns amalequitas, quando o mandamento de Deus era exterminar todos, inclusive as mulheres, as crianças e os idosos.

O Antigo Testamento está repleto de histórias de violência que contradizem a ideia de um Deus compassivo e misericordioso do Novo Testamento. Não é sem razão, portanto que o finado Saramago (Prémio Nobel da Literatura em1998) disse que a Bíblia era um livro violento. Embora em número menor, mesmo no Novo Testamento também encontramos algumas imperfeições que poderiam envergonhar-nos.

História de Israel e natureza humana
No que se refere ao Antigo Testamento, a Bíblia contém a história de Israel e a idiossincrasia do povo judeu, tal e qual ele foi ao longo dos tempos. Neste sentido, a Bíblia é uma obra literária que é para os judeus o que “Os Lusíadas” de Camões, é para os portugueses.

Para além da história e idiossincrasia de um povo, na Bíblia descreve-se a natureza caída do ser humano: o ser humano tal qual ele é, com os seus altos e baixos, perfeições e imperfeições. Apesar de inspirados por Deus, os autores da Bíblia não esconderam esta natureza caída debaixo do tapete, pois o que não é assumido não é redimido, como disse mais tarde Sto. Atanásio.  

O episódio dos fariseus que trouxeram a Jesus uma mulher apanhada em flagrante ato de adultério (João 8, 1-11) pode ser lido como uma metáfora do que a Bíblia é: o encontro de Deus com o Homem, ou seja, o encontro da misericórdia divina com a miséria humana.

Desde o princípio, logo depois do primeiro pecado, Deus não abandonou o homem a si mesmo, mas foi pedagogicamente acompanhando-o e enviando-lhes profetas, preparando-o para a Sua própria vinda como ser humano modelo ao encontro do ser humano caído em desgraça.

Jesus de Nazaré assumiu a natureza humana, pois foi em tudo igual a nós exceto no pecado, porque o pecado não pertence à natureza humana tal como Deus idealizou e criou, mas sim à natureza humana que o homem arruinou com o pecado. Jesus, Deus feito homem, assume e aceita esta natureza humana caída, entrando em comunhão com os pecadores, comendo com eles nas suas casas e andando na sua companhia, sem lhes exigir que mudem de vida. São eles que decidem mudar de vida ao verem-se incondicionalmente aceites por Jesus tal como são, como se vê no episódio de Zaqueu (Lucas 19, 1-10).

Ouvistes o que foi dito… eu digo-vos
Ouvistes o que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, digo-vos: Não oponhais resistência ao mau. Mas, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. Se alguém quiser litigar contigo para te tirar a túnica, dá-lhe também a capa. Mateus 5, 38-40

Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Mateus 5, 43-44

No Sermão da Montanha, Jesus contrapõe a sua doutrina, à qual metaforicamente se refere como vinho novo, à doutrina de Moisés e aos costumes do Antigo Testamento. Também estabelece uma nova e eterna aliança que revoga a antiga.

Por isso, a norma para nós é o que diz o Novo Testamento e o que no Antigo Testamento está em linha com o Novo. Neste último, é o próprio Deus, através do seu filho Jesus Cristo, a falar à natureza humana, a partir do interior da natureza humana. Com Cristo e a sua doutrina em mente, interpreta mal a Bíblia quem pretenda com ela justificar atos de violência.

Ler a Bíblia da frente para trás
Ninguém, nem no céu nem na terra, nem debaixo da terra era capaz de abrir o livro nem de olhar para ele. (…) O Cordeiro aproximou-se e recebeu o livro da mão direita do que estava sentado no trono (…) Tu, és digno de receber o livro e de abrir os selos; porque foste morto e, com teu sangue, resgataste para Deus, homens de todas as tribos, línguas, povos e nações; Apocalipse 5, 3, 7, 9

Ao contrário dos outros livros, a Bíblia deve ser lida da frente para trás. É Cristo, cordeiro imolado, que pode “abrir”, ou seja, interpretar a Bíblia. É a partir d’Ele, palavra definitiva do Pai, que tudo deve ser lido, pois tudo aponta para Ele. Ele e só Ele tem a chave da sua interpretação.

A Bíblia deve ser lida da frente para trás, ou seja, o Antigo Testamento deve ser lido a partir do Novo, a partir da perspetiva que adquirimos com a leitura do Novo. Neste caso, a chave de interpretação destes textos é a figura de Cristo como o cordeiro de Deus sacrificado.

Ler o Antigo Testamento em sentido metafórico
Face a isto, os textos violentos, sobretudo os que apelam ao genocídio, podem ter um valor simbólico e metafórico. Neste sentido, Israel representa a vontade de Deus, o fermento do Reino de Deus, o povo que Deus chamou para com Ele começar uma história de salvação para toda a humanidade. Os inimigos de Israel, cananeus, filisteus, amalequitas, babilónios ou assírios, são os inimigos do plano universal de salvação. A luta deixa de ser física e passa a ser espiritual.

Quando se luta contra o mal, chame-se este como se chamar, não podemos usar meias medidas, pois não é com meias medidas que se erradica o mal, mas sim com o radicalismo de o arrancar pela raiz. Acabar com os inimigos de Israel, matando homens, mulheres e crianças e até os seus animais domésticos tem agora o sentido de erradicar o mal pela raiz. O vício do tabaco, do álcool ou qualquer outro também não se combate com meias medidas, mas com radicalismo e determinação. 

Conclusão: O finado escritor José Saramago, ateu e Prémio Nobel da Literatura de 1998, já deve saber que Deus existe de facto e que a Bíblia é constituída por dois testamentos – o Antigo, representa o homem tal como é e o Novo o homem como deve ser, à imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo.   

Pe. Jorge Amaro, IMC

 

1 de junho de 2022

Para que serve a Religião?

1 comentário:

Há cada vez menos pessoas religiosas. Será que a religião não serve para nada? Que dizem as estatísticas sobre a vida dos que são religiosos e dos que não são? Quais deles são mais felizes? Quais os melhor preparados para enfrentar o infortúnio?

Uma chamada à autotranscendência
Os antigos olhavam à noite para as estrelas e isso elevava o seu pensamento para além dos afazeres e preocupações do dia-a-dia; um olhar mais além de si mesmos e do mundo para a transcendência levava naturalmente a uma maior auto-transcendência. Nestes tempos modernos, os homens já não olham para as estrelas, mas sim para a televisão.

A televisão em geral, nos horários de maior audiência ou no chamado horário nobre, apresenta os programas menos nobres. Longe de ser um chamamento à autotranscendência, a TV leva o homem a imiscuir-se mais do que está no mais imediato e urgente, nos assuntos do dia-a-dia. Alguém dizia que os homens contemporâneos andam em círculos, às turras uns com os outros, porque deixaram de olhar para o céu.

Numa aldeia havia um moço que atirava pedras à lua; é claro que nunca a atingiu a sua diana a Lua, mas era, de todos os moços, o que atirava pedras mais longe. Por isso o que aparentemente parece algo sem sentido como atirar pedras à lua levou o moço à autossuperação e fez dele o melhor atirador de pedras. O mesmo acontece com a religião que aparentemente não serve para nada, mas a longo prazo os seus efeitos notam-se e são indiscutíveis.

Busca de sentido
A religião deixou de estar presente no dia-a-dia das pessoas, pois já não explica nada nem tem aplicações práticas que tornem a vida melhor e mais aprazível. Ao contrário, a ciência explica cada vez mais coisas e tem aplicações práticas para o dia-a-dia que tornam a nossa vida mais confortável.

A ciência de facto explica muitas coisas, mas não explica o mais importante: diz-nos que o mundo começou com um “Big Bang,” mas não nos diz quem provocou essa grande explosão ou o que havia antes dela, e para que foi prvocada; diz-nos que, desde essa grande explosão, o mundo continua em expansão e vai expandir-se até gastar toda a sua energia e acabar, mas não nos diz o que há para além do fim do mundo. Por fim, o que é mais importante, entre o “Big Bang” e o fim do mundo não nos diz que sentido tem a vida, para que existimos ou por que existimos.

É certo que podemos muito bem viver sem estas questões, como aliás fazem os agnósticos que metem a cabeça debaixo da areia; acham que ignorar as questões é a melhor maneira de responder a elas. Com esta atitude não passaríamos da cepa torta em todos os ramos do saber. A ciência nasce do questionar e buscar razões.

O espírito do ser humano é como a criança que acaba de chegar à idade da razão. Pelos 7 anos de idade, a criança ganha autoconsciência e descobre que existe. Então questiona tudo e todos, buscando razões para satisfazerem o seu espírito inquieto. Normalmente, agarra-se aos pais ou a algum adulto em quem confia e bombardeia-o como uma sucessão de porquês, à procura da razão última ou primigénia da causa não causada.

Frequentemente leva os adultos, que não querem admitir a Deus como causa não causada e razão primordial de tudo e de todos, a um beco sem saída. Neste momento, mandam-na calar e chamam-lhe chata. Assim, a criança pára de questionar-se e de questionar e, como os adultos seus mentores, põe fim a este exercício de buscar o porquê de cada coisa e contenta-se com viver na pura mundanidade, como aliás fazem o resto dos seres vivos que também não se questionam.

A ciência e o resto dos saberes e instâncias da sociedade desentendem-se quanto ao problema da morte. Só a religião apresenta uma solução coerente. Os mais intelectuais, como Karl Marx, dizem que não deve preocupar-nos, pois enquanto nós formos, ela não é; quando ela for, nós não seremos…. Os mais materialistas dizem “Morra Marta morra farta” porque “Enquanto dura é doçura”.

O confronto entre a ciência e a religião é como o confronto entre o amor e o dinheiro. Ninguém nega que ter dinheiro sempre foi e é cada vez mais importante, pois com ele tem-se acesso a uma infinidade cada vez maior de confortos e prazeres. Apesar da inegável importância do dinheiro para a vida, todos concordam que o amor é ainda mais importante. O dinheiro não compra amor, mas o amor pode comprar dinheiro; sem dinheiro a vida ainda tem sentido, mas sem amor não o tem.

Técnica, espiritualidade e ética
Se a ciência, teoria geral das coisas, se traduz pela técnica em aplicações práticas que nos facilitam a vida, a religião, teoria mais geral ainda e mais englobante que a ciência, traduz-se no dia-a-dia em espiritualidade e em ética.

A ciência pela técnica não nos diz como viver a vida e leva a uma forma de materialismo e consumismo, ou seja, a encher a casa de tralhas.

A religião não só dá sentido à vida como, pela espiritualidade e pela ética, nos mostra o caminho que leva à vida em plenitude, à auto-realização, ou seja, à felicidade que todos desejamos. O que a técnica é para a ciência, a espiritualidade e a ética são para a religião.

Se a técnica contribui para o bem-estar material do corpo, a espiritualidade contribui para o bem-estar da alma. Enquanto a ciência e a técnica só se preocupam com o bem-estar material do homem, a espiritualidade visa o bem-estar da pessoa como ser individual, a ética visa o bem-estar do indivíduo como ser social e parte integrante de uma comunidade

Os que vivem na pura mundanidade dirão que tanto a espiritualidade como a ética podem existir e subsistir sem a religião. De facto é essa a tendência do homem pós-moderno.

Isto leva-nos de volta à criança inquisitiva que acima comparámos com o verdeiro espírito do ser humano. Perante uma ética sem religião, somos obrigados a concluir que se o que verdadeiramente conta é o que se passa aqui em baixo, não há uma razão última para as coisas e, se não a há, por que devo ser bom se, sendo mau, obtenho mais coisas, mais dinheiro e mais prazeres?

A espiritualidade sem religião é algo assim como o budismo, o caminho para a iluminação, um aperfeiçoamento pessoal individualista e egoísta que definitivamente leva à sociedade de elites e castas que ainda vigoram na terra natal do budismo. A religião chama a espiritualidade ao altruísmo, a dizer que devemos amar os outros como nos amamos a nós mesmos; ou seja, tudo o que de bom buscamos para nós mesmos, devemos buscá-lo em igual medida para os outros.

Conclusão: Como o ser humano é naturalmente religioso, a vida na pura mundanidade é uma religião politeísta que consta do amor pelo poder, pela fama e pelo prazer e que tem o dinheiro como Zeus, o pai dos deuses.

A religião faz-nos livres do apego aos bens materiais, quando amamos a Deus sobre todas as coisas; dá-nos a alegria de viver quando nos amamos a nós mesmos como Deus nos ama, constrói uma sociedade justa e pacífica quando amamos o próximo como a nós mesmos.  

Pe. Jorge Amaro, IMC