1 de agosto de 2022

Fugitivos, Vagabundos, ou Peregrinos?

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Deixar a vida pelo mundo em pedaços repartida…Camões

Coordenadas da vida humana
O ser humano é um ser espácio-temporal. Ocupa um espaço durante um tempo, pelo que, tal como acontece no universo e na natureza que nos rodeia e envolve, nada há de estático nem de permanente na vida humana. Não podemos instalar-nos no tempo nem no espaço: a vida implica movimento, é processo, é devir, é caminho, é mudança.

Pela forma como usamos e nos situamos no tempo ou nos relacionamos com ele, podemos ser fugitivos ou vagabundos; o evangelho, porém, exorta-nos a ser peregrinos.

A vida é larga, mas curta. Larga em possibilidades, em muitas e diversas formas de usar o nosso tempo, mas curta no tempo. Por isso, não há coisa pior que um passatempo, ou matar tempo, como se tivéssemos mais do desejado, o que não é verdade. Não há tempo para matar nem tempo para perder, pois o tempo é escasso.

Fugitivos, vagabundos ou peregrinos, têm em comum o não estarem apegados a pessoas, coisas ou lugares. Nunca estão quietos no mesmo sítio, facilmente se movem de lugar para lugar. Por isso, também têm em comum a forma como se instalam no tempo e como vivem o momento presente. Mas diferem na forma como se relacionam com os outros dois tempos da vida humana: o passado e o futuro.

O peregrino vive bem as três dimensões do tempo, enquanto que o fugitivo vive amarrado de pés e mãos ao passado e teme o futuro. O vagabundo, pessoa sem eira nem beira, não tem passado nem presente nem futuro, vive suspenso no tempo como cana agitada pelo vento.

O tempo humano é tridimensional: passado – presente – futuro
Os três tempos em que a vida decorre são interativos: nem o passado passou completamente nem o futuro está todo por chegar. Os dois estão presentes no presente e interagem com ele. Assim sendo, o presente nem sempre se refere ao presente, tanto pode referir-se ao passado como ao futuro. Assim como o passado e o futuro visitam o presente, o presente também pode deslocar-se ao futuro e ao passado. O presente em si é o que está a ocorrer, mas quando pensamos no que está a ocorrer, já é passado.

O passado passou, mas nunca passa; o futuro chega, mas nunca chega, desloca-se para a frente como a cenoura à frente do nariz do burro. Enquanto existirmos, os três existem connosco e só deixamos de ter presente e passado quando deixamos de ter futuro, ou seja, quando morremos. Como vivem os três juntos, também morrem os três juntos, com poucos segundos de diferença. Morremos da frente para trás: primeiro morre o futuro, depois o presente e só depois o passado.  

Somos uma flecha que alguém disparou no passado. Segundo as circunstâncias da vida, nós mesmos podemos ter algum controlo sobre a direção que a flecha toma, mas sabemos que “Todos os caminhos vão dar a Roma”, que o destino é comum, que a morte é certa e incerta. Certa, porque é a única coisa que sabemos com certeza do nosso futuro, como diz Heidegger, somos um ser para a morte. Incerta porque não sabemos onde nem quando nem de que forma morreremos e julgo que ninguém estará interessado em saber.

No caso de haver vida eterna, como acreditamos enquanto cristãos, então morre o futuro e o passado também, porque deixam de ser interativos no presente. A vida feita do tempo a correr deixa de ser uma realidade. O que fomos, somos. O que hoje somos assume tanto o bem como o mal que contribuíram para o que hoje somos. Os acontecimentos do passado são os andaimes da construção do edifício. Quando acaba a construção, com a nossa morte, os andaimes já não são precisos: o que chegamos a ser é agora o que seremos para sempre na eternidade.

Pertence também à categoria de andaime o nosso corpo físico, pois por ele e com ele construímos o nosso ser, o nosso corpo espiritual e, quando este está construído, cessa o tempo na sua dimensão de futuro e passado e mantém-se na sua dimensão de presente, um eterno presente em Deus e com Deus.

Viver é deixar
Os que falam inglês como primeira língua diferenciam muito bem estes dois verbos ao pronunciá-los; os estrangeiros, porém, têm a tendência a pronunciá-los da mesma forma. Apesar de serem completamente diferentes no significado, “to live” significa viver e “to leave” significa deixar. O facto de os pronunciar da mesma forma, levou-me a descobrir uma relação intrínseca entre eles.

Viver significa e implica deixar, largar o lugar onde estamos e partir para outro. O peregrinar está impresso em nós já a nível celular e cromossomático. Os tubos dos testículos onde se formam os espermatozoides, todos ligados num só, estender-se-iam por mais de 70 cm.

O espermatozoide X ou Y que nos deu a vida, viajou por estes tubos e, ao ser ejaculado, viajou ainda pelo sistema reprodutivo da nossa mãe até chegar à sua outra metade com a qual se uniu nas trompas de Falópio e formou um novo ser. Ali se deu a conceção; mas 4 dias depois, o novo ser teve de abandonar esse lugar para poder viver e viajar até ao útero onde se aninhou por nove meses até completar o seu crescimento.

Ao nascer, o bebé deixa o seio da sua mãe e passa para o seio de uma família que o ama incondicionalmente e que, como tal, se torna num segundo seio materno até que chega o dia em que tem de ir para a escola onde já não é amado incondicionalmente. É duro o primeiro dia de escola. Eu recordo que ficava com o olhar fixo na minha mãe, à medida que me ia afastando da casa até dobrar a esquina ao fundo da rua.

Quando a escola primária se torna familiar, é tempo de a abandonar para ir para a secundária; para mim foi o seminário. Para o primeiro dia, o meu pai levou-me, mas quando se veio embora, o mundo desabou para mim… e chorei amargamente…. Um dia deixa-se a família para constituir outra família; deixa-se a terra para buscar emprego noutro lugar.

Os imigrantes deixam a sua terra para buscar um futuro melhor para si e para os seus. Deixar o princípio do prazer pelo o princípio da realidade; deixar pai e mãe para se unir à sua esposa; deixar tudo para seguir o mestre. Quem não deixa, como o jovem rico, não encontra a vida.

No tempo somos fugitivos, vagabundos ou peregrinos
Como seres temporais, a nossa vida ocorre dentro das três dimensões do tempo: o passado, o presente e o futuro. Dependendo da idade, as pessoas tendem a privilegiar uma dimensão em detrimento das outras duas.

As crianças e os jovens - Colocando de lado o passado, vivem o presente como preparação de um futuro com o qual sonham e no qual se projetam. Porque o futuro pode nunca chegar, cada dia deve valer por si mesmo, não desligado do futuro, é certo, mas também não vivido inteiramente em função dele. Viver o presente na caridade.

Os idosos – Quando objetivamente já não há muito que esperar, vivem de memórias. A lembrança da felicidade passada não dá felicidade mas sim tristeza. É certo que a vida se entende para trás, mas vive-se para a frente. Mesmo na terceira idade, a esperança cristã nos diz que o melhor está sempre para vi, por isso o que pode fazer-se deve fazer-se. Viver o futuro não na ansiedade, mas na esperança.

Os adultos – Vivem instalados no presente, não querem saber do passado nem do futuro. De facto, vivem como se nunca tivessem que morrer. Tudo fazem para deter o tempo e os estragos que este faz à vida: operações plásticas para manter a aparência jovem quando já não se é jovem,  desporto, dietas, cuidados com a saúde, demasiado concentrados em si mesmos. Devemos integrar o passado e o futuro nas nossas vidas de maneira a viver o presente em caridade e não olhando para o espelho ou para o nosso umbigo.

O fugitivo
O SENHOR replicou: «Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até mim. De futuro, serás amaldiçoado pela terra, que, por causa de ti, abriu a boca para beber o sangue do teu irmão. Quando a cultivares, não voltará a dar-te os seus frutos. Serás vagabundo e fugitivo sobre a terra.» Génesis 4, 10-12

Deus disse a Caim “porque mataste o teu irmão, serás fugitivo sobre a terra”. O fugitivo é perseguido pelos remorsos de algo que fez no passado. Fugido da polícia, não tem presente nem futuro. What goes around comes around ou cá se fazem, cá se pagam… Caim é fugitivo porque foge de um passado que o persegue no presente. O seu caminhar é determinado pelos seus perseguidores, não por ele mesmo; por isso não tem presente nem tem futuro. Ficou entalado por algo que fez no passado e que se faz omnipresente em forma de remorsos, de tal forma que lhe nega a vida.

Hunted by his past (assombrado pelo seu passado) é uma expressão inglesa que denota bem as circunstâncias em que vive o fugitivo. Como presa de caça, vive a vida temendo ser caçado. Os assuntos que não ficaram resolvidos no passado perseguem-no no presente. Águas passadas não movem moinhos, mas muita gente, contradizendo esta lei da natureza, tem os seus moinhos, as suas cabeças a moer com águas passadas, porque não pediram desculpa nem perdoaram, ou porque foram traumatizados ou abusados e reprimem ou fingem que nada aconteceu.

“Já perdoaste aos nazis tudo o que nos fizeram quando éramos prisioneiros em Auschwitz”?  perguntou um ex-prisioneiro ao seu amigo, depois de muitos anos sem se verem. “Eu?” respondeu o amigo “nem perdoei nem nunca perdoarei a esses sacanas! “Ah sim?” respondeu o primeiro, “então ainda lá estás, em Auschwitz.”

O que não perdoa vive no passado, busca fugir desse passado que o persegue sempre e que determina negativamente o seu presente. A si mesmo se ilude, pensando que o passado ficou no passado, a verdade é que o que conhecemos e assumimos do nosso passado é redimido e, como tal, podemos controlar. O que desconhecemos e não assumimos ou perdoamos do nosso passado, precisamente porque está reprimido e fora da nossa consciência do dia a dia, controla-nos a nós, irrompendo no nosso presente de mil e uma maneiras. Ao projetar os fantasmas do passado no presente, podemos pensar que estamos a lutar contra os nossos inimigos, quando objetivamente estamos a lutar contra moinhos de vento, como o Dom Quixote de la Mancha.

Quem não deve não teme; o fugitivo deve, por isso teme, desconfia de tudo, de todos e de si mesmo, vive ancorado no passado que o traumatizou e reproduz continuamente no presente esse passado, vive numa prisão. O que foi abusado será um abusador, a questão é abusar sem ser apanhado; os ladrões só se consideram como tal se forem apanhados. Quem tem esqueletos no armário nunca vive seguro.

O vagabundo
O vagabundo no tempo corresponde ao turista no espaço. Vimos do nada, vamos para o nada; a vida não tem sentido assim, pelo que o agnóstico e o ateu são fundamentalmente vagabundos. Nos dias de hoje, há sem-abrigo que o são por opção, filósofos que querem essa vida, não se comprometendo com nada nem com ninguém, nem sequer com a própria sobrevivência.

Carpe diem passou a ser o lema de muita gente depois do filme “O clube dos poetas mortos”. O vagabundo vive instalado no presente, mas não no presente consciente e omnisciente das filosofias orientais, mas sim num presente consumista, hedonista e inconsciente: morra Marta, morra farta. Sem lhe importar o passado que já foi e o futuro que ainda não é e pode não vir a ser, o vagabundo caminha no círculo vicioso de um eterno retorno. “Para quem não sabe para onde há de ir, não há ventos favoráveis.”

Não prometo para não falhar, ouvimos tantas vezes. O vagabundo não promete nada a ninguém nem se compromete com nada nem com ninguém, porque isso significaria contar com o futuro. Mas o vagabundo não conhece a palavra futuro; vive no momento e para o momento. Em relação ao passado e ao futuro tem a atitude da avestruz, coloca a cabeça debaixo da areia, reprime, nega a sua existência, prefere não pensar e por isso abstrai-se, usando a diversão ou o trabalho como droga para não pensar nem se confrontar consigo mesmo.

Não tem passado nem futuro, vive instalado no mundo como se fosse de cá. Vive como se nunca tivesse de morrer e morre como se nunca tivesse vivido (Dalai Lama). Com uma taxa de divórcio em Portugal superior a 70%, ninguém quer comprometer-se; o compromisso é visto com um hipotecar do futuro, como limitador da minha liberdade.

Os jovens querem ter as suas opções em aberto e por isso vivem instalados na rotunda ou no cruzamento da vida. Como nunca tomam rumo, são como o hamster que roda sem cessar nunca chegando a lado nenhum. Porque escolher uma rota significa dizer não a todas as outras. Mas se passas a vida sem te comprometeres com nada nem com ninguém, és como um carro que tem o motor ligado mas não vai a lado nenhum.

Viver é caminhar para algum lado, não em círculos; é estar sempre a sair do Egito atravessando o deserto, na esperança de entrar na Terra Prometida. Para isso, precisamos de um guia; mas os vagabundos, como não vão a lado nenhum, não precisam de guia, não aceitam conselhos de ninguém. Para quem não sabe para onde ir, não há ventos favoráveis.

O peregrino
Felizes os que em Vós encontram a sua força, os que trazem no coração os caminhos do santuário.Ao atravessar o vale seco, transformam-no em oásis, que logo as primeiras chuvas cobrirão de bênçãos. Vão caminhando com entusiasmo crescente, até verem Deus em Sião. Salmo 84, 6-8

Na pré-história da nossa fé há inúmeras peregrinações: Abraão, arameu errante que só possuiu uma sepultura que comprou para a sua mulher; da sua cidade na Mesopotâmia até Canaã, o povo hebreu do Egipto, terra da escravidão para a terra prometida da liberdade e prosperidade, as idas a Jerusalém pela Páscoa.

Depois de Cristo, as peregrinações dos cristãos à Terra Santa, a Roma e a Santiago de Compostela; na tradição ortodoxa, o Peregrino Russo; já nos nossos tempos, as peregrinações a Guadalupe, no México, a Lurdes, em França, a Fátima, em Portugal, a Chestocova, na Polónia; a peregrinação é uma prática cristã muito importante porque, de alguma forma, é uma parábola da vida. Viver é peregrinar, o cristão deve comportar-se com o mundo à sua volta e com os seus semelhantes como peregrinos.

A peregrinação é uma metáfora ou parábola de como deve ser vivida a vida humana. Abraão, o nosso Pai na fé, era um arameu errante; o povo hebreu, ao sair do Egipto, atravessar o deserto em direção à Terra Prometida onde corriam leite e mel, estabeleceu o paradigma da vida humana.
•    Karl Marx – capitalismo, ditadura do proletariado, sociedade sem classes
•    Mandela – Apartheid, 30 e tal anos de cadeia, presidente de uma sociedade em igualdade
•    Vício – limpeza, síndrome de abstinência – liberdade

Contrariamente ao fugitivo, o peregrino vive reconciliado com o seu passado, por isso não depende dele; contrariamente ao vagabundo, tem uma meta, um objetivo que pretende atingir, por isso vive com intensidade o momento presente, sabendo sempre quem é, de onde vem e para onde vai, nunca está desnorteado nem desorientado, pois a sua vida é regulada como se tivesse um GPS.

O homem bíblico - Na língua hebraica a palavra “Nikud” significa, ao mesmo tempo, futuro e costas; por outro lado, a palavra “quedem” tanto quer dizer passado como oriente. Assim sendo, podemos concluir que o homem bíblico tem o passado à sua frente e o futuro nas suas costas, ou seja, caminha com o peito e a cara voltada para o passado, de costas para o futuro.

De olhos no passado porque é lá que estão as nossas raízes, o nosso ser, a nossa identidade, vivemos caminhando para o futuro, mas entendemos a nossa vida olhando para o passado e pelo passado nos orientamos para o futuro. Do futuro, pouco ou nada sabemos, por isso caminhamos de costas, ou seja, às cegas; a única coisa que temos como certa no nosso futuro é a morte, mas mesmo assim, não sabemos como nem quando nem onde ocorrerá. Para o peregrino recordar não é viver; por isso olha para o passado não para o reviver, mas para se orientar usando no presente o que aprendeu das experiencias do passado para encontrar o melhor caminho para o futuro

Não há mal que sempre dure nem bem que sempre ature – Sabe que a vida é feita de altos e baixos, como a linha de um eletroencefalograma ou eletrocardiograma, sabe que no caminho para Deus pode encontrar céu e inferno, mas também sabe que tudo é passageiro, pelo que, quando está nos pícaros da vida não perde a cabeça e, quando está deprimido, não perde a esperança. Em todo o momento, em todo lugar, vive sob a proteção do Senhor, por isso é constante, paciente e fiel.

Conclusão - O Peregrino não é como o fugitivo porque, não tem remorsos, não está atado ao seu passado. Também não é como o vagabundo, porque vive comprometido no presente entregando-se a uma causa e a pessoas concretas com a mesma intensidade, como se fosse o seu último dia.

Ao contraio do Fugitivo, atado a um passado do qual foge, ou do vagabundo que, descomprometido com o presente, vive sem futuro, o Peregrino orgulha-se do seu passado, caminha para o futuro com esperança e enche o seu presente com obras de caridade.

Pe. Jorge Amaro, IMC



1 de julho de 2022

Colonos, Turistas ou Peregrinos?

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Não temos aqui cidade permanente, mas procuramos a futura Hebreus 13,14

Coordenadas da vida humana
O ser humano é um ser espácio-temporal. Ocupa um espaço durante um tempo, pelo que, tal como acontece no universo e na natureza que nos rodeia e envolve, nada há de estático nem de permanente na vida humana. Não podemos instalar-nos no tempo nem no espaço: a vida implica movimento, é processo, é devir, é caminho, é mudança.

Pela forma como usamos e nos situamos no espaço ou nos relacionamos com ele, podemos ser colonos ou turistas; o evangelho, porém, exorta-nos a ser peregrinos.

Colonos, turistas e peregrinos, têm em comum o facto de não serem oriundos do lugar que habitam durante o tempo da sua vida; mas têm formas diferentes de se relacionar com o meio ambiente que os rodeia durante o tempo em que nele habitam.  

As pessoas foram criadas para serem amadas, as coisas para serem usadas. Só o peregrino encarna esta verdade na sua vida: ou seja, para ele as coisas são um meio, por isso devem ser usadas e não amadas, ao passo que as pessoas são um fim em si mesmas, pelo que não devem ser usadas para nenhum fim, mas amadas pelo simples facto de serem pessoas.

Os colonos têm como fim enriquecer o mais rapidamente possível. O fim são as coisas pois estão enamorados delas e é a elas a quem amam; as pessoas são rivais a eliminar ou a usar como meios para atingir a finalidade de serem ricos. Provavelmente abandonarão o lugar depois de o terem explorado suficientemente, assim como os nativos que nele habitam.

Os turistas vivem centrados em si mesmos e nas suas experiências, pelo que o objetivo são eles mesmos e as experiências prazenteiras que vão tendo e acumulando. As pessoas são coisas e as coisas são pessoas. É como aquele que diz amar os seus animais de estimação e se relaciona com eles como se fossem filhos ou amigos, ou seja, usa a mesma terminologia que usa com as pessoas e ao fazê-lo está a coisificar as pessoas e a personificar coisas ou animais. O importante é o prazer que tanto as coisas como as pessoas podem proporcionar-lhe.

O lugar em que habitamos
Com a Revolução Industrial, a mecanização da agricultura, a expansão do comércio e a globalização, o mundo ocidental e depois os países em vias de desenvolvimento e os países pobres experimentaram um desenvolvimento sem precedentes a todos os níveis: aumentou a produção, aumentou a população, aumentou o consumo, aumentou a necessidade de energia, aumentaram os meios de transporte, sobretudo o avião e o carro, a ponto de cada família dos países ricos ter mais de um carro. A poluição e a deterioração ambiental foram consequências inevitáveis deste desenvolvimento.

Só não aumentou o nosso planeta e, como este não aumentou, depressa surgiram os resultados deste crescimento tão rápido e desmesurado, sobretudo por causa da filosofia do “usa e deita fora” que vigorou por várias décadas. O conceito da reciclagem é recente e ainda não entrou em muitas mentes, o que é bem estranho, pois reciclar foi sempre a filosofia de vida do nosso planeta. No entanto, os seus habitantes viveram e muitos ainda vivem segundo a filosofia de “usa e deita fora” - é mais barato comprar novo que consertar. Para quem é mais barato? Para a economia ou para o planeta?

O nosso planeta é a nossa casa comum. O ser humano ainda não arranjou forma de colonizar outros planetas, pelo que ou cuidamos deste único que temos ou podemos cometer um suicídio cultural e ecológico, degradando as condições de habitabilidade até um nível insustentável.

A ideia do desenvolvimento sustentável surgiu na I Conferência das Nações Unidas sobre o meio ambiente e desenvolvimento, Rio de Janeiro 1992. É simples saber se o que fazemos é sustentável: basta que nos perguntemos se podemos continuar a fazer isto uma e outra vez, para sempre? A primeira instância a inquirir é o meio ambiente - compromete o meio ambiente para as próximas gerações? Em segundo lugar devemos perguntar se conduz a um crescimento económico.

E, em terceiro, se esse benefício económico abrange a todos ou só a alguns, se promove a paz, a justiça e a estabilidade social. Até agora, a riqueza que uns produzem é proporcional à pobreza que causa, ou seja, quanto mais riqueza mais pobreza.

O desenvolvimento visto unicamente como crescimento económico destruiu o meio ambiente e causou profundas desigualdades sociais. Para o desenvolvimento ser sustentável, tem de ser tridimensional, ou seja, os aspetos de justiça social e proteção ambiental devem ser tão importantes quanto o crescimento económico.

Colonos
Veni vidi et vincit, como diria o conquistador César Augusto, o colono vem para conquistar e possuir tanto as pessoas como as coisas. Conquista, explora tudo e todos sem escrúpulos: os recursos do planeta sem se importar com a ecologia. Neste sentido, possui a mentalidade do burro que dizia, “Depois de eu morrer que não cresça mais erva sobre a terra”. Também explora os outros, regulando-se pela única regra que conhece: o lucro e o interesse pessoal.

O colono veio para ficar ou fixar-se por um tempo determinado até esgotar os recursos da riqueza que procura. No tempo em que está não se move, agarra-se às coisas e às pessoas como uma carraça. Pode fazer amizade com as pessoas, mas é sempre uma amizade interesseira, é um falso amigo porque não se coloca ao serviço de ninguém nem de nenhuma causa humana; pelo contrário, coloca os outros ao seu serviço.

Na Bíblia, o colono está representado por Caim que é agricultor e, portanto, sedentário, deixou de buscar, deixou de caminhar e vive instalado na vida como se tivesse chegado já à Terra Prometida, disfrutando de tudo o que a vida lhe dá como se nunca tivesse de a deixar. Deus rejeitou Caim e aceitou Abel que era pastor, caminhante, peregrino, destacado de tudo e de todos.

O colono vive instalado no ter cada vez mais, vive a vida amealhando, aumentando desmesuradamente meios de vida, pensando erradamente que por ter mais meios de vida vai ter uma vida mais longa. Instalado neste mundo e nesta vida como se nunca tivesse de a deixar, acaba por morrer sem nunca ter vivido, ou seja, sem nunca ter sabido o que é verdadeiramente a vida. Não cultivou o ser, mas o ter, não a vida eterna, mas a vida temporal e finita na pura mundanidade.

Turistas
Ao contrário do colono, o turista vive superficialmente. Tudo tem o mesmo valor: coisas e pessoas. Procura divertir-se, não está interessado em possuir nada nem ninguém, apenas fotografias de tudo e de todos, vídeos e recordações dos lugares que visitou e que lhe proporcionaram prazer ou mesmo alegria.

Para o turista tudo é paisagem e, sendo passageiro, o valor das coisas mede-se pelo potencial que tem de divertir ou satisfazer os seus cinco sentidos. Por isso, tudo o que é exótico, erótico, invulgar, excêntrico, que produz emoções fortes e espevita a adrenalina é que tem valor.

O turista não chega a penetrar na realidade, vê o mundo como se fosse um teatro ou um cinema que o diverte, mas não sabe nem está interessado no que se passa nos bastidores. Não se compromete com nada nem com ninguém, busca diversão e foge de tudo o que tenha que ver com sofrimento e compromisso. O turista no espaço corresponde ao vagabundo no tempo: não se compromete com nada nem com ninguém, é superficial.

O colono vive instalado no ter, o turista vive instalado no prazer; as coisas têm valor consoante o gozo que dão e anda à procura de prazeres cada vez mais sofisticados e refinados. O passado é fotográfico, o futuro ainda não foi. Não está em lado nenhum, goza aqui e ali, vive centrado em si mesmo.

Superficial e snob faz-me lembrar naquele casal em lua de mel pela Amazónia que viajava numa canoa; estava tão absorvido pela beleza da floresta tropical que perdeu o contacto com a verdadeira realidade. Enquanto a canoa se afundava e vindos das margens do rio os crocodilos mergulhavam, a esposa comentou, “Oh querido, isto é tudo tão bonito e tão chique que até os nadadores salvadores são da Lacoste!”   

O peregrino
Sabeis o que ocorreu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo que João pregou: como Deus ungiu com o Espírito Santo e com o poder a Jesus de Nazaré, o qual andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com Ele. Atos dos Apóstolos 10, 37-38

Jesus, como modelo de ser humano, deve ser imitado não só no que disse e no que fez, mas também na forma como se comportou em relação às coisas, ao espaço e às pessoas. Passou pelo mundo fazendo o bem, não se fixou num lugar onde já tinha ganhado fama e popularidade, como os seus discípulos pretendiam (Marcos 1, 38). Nem ficou com aqueles sobre quem já tinha ganhado poder e que o queriam fazer rei (João 6,15).

Comprometido com o reino de Deus e a sua justiça, Jesus não viveu apegado a nada nem a ninguém, passou pelo mundo fazendo o bem, semeando as sementes do reino sem se sentar.

Era uma vez um homem que todos os dias ia buscar água ao rio com um balde em cada mão. Um dos baldes estava furado, pelo que chegava a casa só com metade da água. Por esta razão sentia-se triste, inferiorizado e até envergonhado diante do seu colega. Ao referir isto mesmo ao seu senhor, este sorriu e disse: “Já reparaste que o caminho do teu lado está cheio de flores e não há nenhumas do lado contrário? Como eu sabia que estavas quebrado, semeei flores do teu lado e tu cada dia te encarregavas de as regar...”

Na nossa peregrinação para o ocidente, para o ocaso, como os discípulos de Emaús, deixemo-nos alcançar por Jesus, que Ele seja o nosso companheiro de caminho, que nos explique as escrituras e nos diga o sentido das coisas. Ele é Caminho, é Verdade, é Vida, entremos, convidemo-l’O para cear, para ficar connosco e Ele repartirá o pão.

Não colonos, mas sim imigrantes que vão para explorar o peregrino, apanhar aqui e soltar ali, como o pucarinho que perde a água e deixa flores; deixar algo de si mesmo por onde passa. Um pároco de Loriga na visita pascal visitando a casa de todos os seus paroquianos, tanto ricos como pobres, recolhia o dinheiro que lhe era dado em casa dos ricos e deixava-o na casa dos pobres. Dessa forma, no dia de Páscoa ele passava o raseiro pela sua paróquia nivelando a riqueza, sendo fator de igualdade.

O peregrino não possui coisas nem pessoas como o colono, nem as usa e deita fora como o turista; não está instalado no aqui e agora como o colono, nem caminha desinteressado com o turista. No seu caminhar, compromete-se, entregando-se totalmente a pessoas e a causas humanas concretas, mas como não busca ser amado, mas amar, dá-se sem se prender às pessoas que ama.

Muitos dos peregrinos de Santiago eram jograis que deixavam música e alegria por onde passavam. A nossa língua, o galaico-português, nasceu destas cantigas de amigo, amor, escárnio e mal dizer. Por outro lado, o caminho português está embelezado por pontes e igrejas românicas; o caminho francês, por igrejas e grandes catedrais góticas. 

Um rabino visitou um peregrino da Terra Santa e, ao verificar que vivia pobremente, perguntou: “Rabino, onde estão os teus móveis? O rabino olhou-o fixamente e respondeu: “E onde estão os teus?” “Os meus?” respondeu o peregrino, “Eu sou peregrino” ... “Eu também, respondeu o rabino” ...

A gramática do peregrino
(...) todos quantos em Cristo fostes batizados, de Cristo vos revestistes. Não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. Gálatas 3, 27-29

Como não busca possuir, o peregrino não usa pronomes possessivos, nem com pessoas nem com coisas.

Com as pessoas - Usa pronomes de relação. Por isso, em vez de dizer “o meu pai”, diz, “para mim é pai, pois esta mesma pessoa para a minha mãe é marido, para o meu avô é filho, para o meu tio é irmão, para o patrão é operário, etc.”

Com as coisas - Usa pronomes administrativos, pois tem consciência de que em verdade não somos proprietários de coisa nenhuma; de todos os recursos que dizemos possuir, inclusive da “nossa” vida, apenas somos administradores e desta administração daremos um dia contas ao verdadeiro proprietário que é Deus Senhor de tudo e de todos.

Os pronomes pessoais - São só três: EU, porque me reconheço como uma pessoa livre e independente de tudo e de todos, com direitos e deveres. TU, o meu semelhante a quem considero um alter ego e, por ser igual a mim, devo amá-lo como me amo a mim mesmo. NÓS, uma vez que, tal como na trindade divina, o Espírito Santo procede do Pai e do Filho, na trindade humana o filho procede do Pai e da Mãe e na trindade dos pronomes pessoais, o nós procede do eu e do tu unidos.

Os pronomes discriminativos – São os restantes pronomes chamados “pessoais”, porque qualquer que seja o contexto em que os usemos, discriminam. O ele e ela são pessoas que não são da minha relação, o que não é bom pois devo estar aberto a todos; o vós, são os outros que não são do nosso grupo, que não são como nós, e eles ainda soa mais distante que o vós. Deus é Pai de todos, todos somos seus filhos, todos somos irmãos.

Narcisismo das pequenas diferenças – É como chama Freud às diferenças que artificialmente buscamos, como se, para defender a nossa idiossincrasia, tivéssemos que aniquilar a do outro... É muito mais o que nos une do que o que nos divide de facto; se houvesse uma ameaça extraterrestre  num dado momento, todos nós, habitantes deste planeta, esqueceríamos essas pequenas diferenças e nos transformar íamos no que sempre fomos e sempre seremos: um grande NÓS.

Conclusão - O colono instalado no Ter, vive acumulando coisas; o turista instalado no prazer, vive acumulando experiências prazenteiras. O peregrino pode ser rico como o colono e gozar a vida como o turista, mas não vive apegado a nada nem a ninguém, porque vai deixando um pouco de si mesmo nos lugares e nas pessoas com quem se encontra.

O Peregrino não se prende com coisas ou pessoas, como o colono, mas também não vive sem compromissos como o turista. O peregrino compromete-se com pessoas e causas sem se prender a elas, permanecendo livre e independente de tudo e de todos.

Fr. Jorge Amaro, IMC



15 de junho de 2022

Saramago já deve saber...

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Os filhos de Israel subiram à cidade, cada um pela brecha que tinha na sua frente e tomaram a cidade. Votaram-na ao anátema, passando ao fio da espada quanto nela encontraram, homens e mulheres, crianças e velhos, e os bois, as ovelhas e os jumentos. Josué 6, 20-21

Mas, se não expulsardes da vossa frente todos os habitantes do país, aqueles que tiverdes poupado serão como espinhos nos vossos olhos e como aguilhões nos vossos flancos; atormentar-vos-ão no território que ocupardes e eu tratar-vos-ei a vós como tinha resolvido tratá-los a eles. Números 33, 55-56

Nestes textos de uma violência extrema Deus não só ordena o genocídio dos cananeus como fica irado por terem sido poupados alguns. No capítulo 15 do 1º livro de Samuel lemos que o rei Saul perde a confiança de Deus, que passa para David, por ter sido bom demais e ter poupado alguns amalequitas, quando o mandamento de Deus era exterminar todos, inclusive as mulheres, as crianças e os idosos.

O Antigo Testamento está repleto de histórias de violência que contradizem a ideia de um Deus compassivo e misericordioso do Novo Testamento. Não é sem razão, portanto que o finado Saramago (Prémio Nobel da Literatura em1998) disse que a Bíblia era um livro violento. Embora em número menor, mesmo no Novo Testamento também encontramos algumas imperfeições que poderiam envergonhar-nos.

História de Israel e natureza humana
No que se refere ao Antigo Testamento, a Bíblia contém a história de Israel e a idiossincrasia do povo judeu, tal e qual ele foi ao longo dos tempos. Neste sentido, a Bíblia é uma obra literária que é para os judeus o que “Os Lusíadas” de Camões, é para os portugueses.

Para além da história e idiossincrasia de um povo, na Bíblia descreve-se a natureza caída do ser humano: o ser humano tal qual ele é, com os seus altos e baixos, perfeições e imperfeições. Apesar de inspirados por Deus, os autores da Bíblia não esconderam esta natureza caída debaixo do tapete, pois o que não é assumido não é redimido, como disse mais tarde Sto. Atanásio.  

O episódio dos fariseus que trouxeram a Jesus uma mulher apanhada em flagrante ato de adultério (João 8, 1-11) pode ser lido como uma metáfora do que a Bíblia é: o encontro de Deus com o Homem, ou seja, o encontro da misericórdia divina com a miséria humana.

Desde o princípio, logo depois do primeiro pecado, Deus não abandonou o homem a si mesmo, mas foi pedagogicamente acompanhando-o e enviando-lhes profetas, preparando-o para a Sua própria vinda como ser humano modelo ao encontro do ser humano caído em desgraça.

Jesus de Nazaré assumiu a natureza humana, pois foi em tudo igual a nós exceto no pecado, porque o pecado não pertence à natureza humana tal como Deus idealizou e criou, mas sim à natureza humana que o homem arruinou com o pecado. Jesus, Deus feito homem, assume e aceita esta natureza humana caída, entrando em comunhão com os pecadores, comendo com eles nas suas casas e andando na sua companhia, sem lhes exigir que mudem de vida. São eles que decidem mudar de vida ao verem-se incondicionalmente aceites por Jesus tal como são, como se vê no episódio de Zaqueu (Lucas 19, 1-10).

Ouvistes o que foi dito… eu digo-vos
Ouvistes o que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, digo-vos: Não oponhais resistência ao mau. Mas, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. Se alguém quiser litigar contigo para te tirar a túnica, dá-lhe também a capa. Mateus 5, 38-40

Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Mateus 5, 43-44

No Sermão da Montanha, Jesus contrapõe a sua doutrina, à qual metaforicamente se refere como vinho novo, à doutrina de Moisés e aos costumes do Antigo Testamento. Também estabelece uma nova e eterna aliança que revoga a antiga.

Por isso, a norma para nós é o que diz o Novo Testamento e o que no Antigo Testamento está em linha com o Novo. Neste último, é o próprio Deus, através do seu filho Jesus Cristo, a falar à natureza humana, a partir do interior da natureza humana. Com Cristo e a sua doutrina em mente, interpreta mal a Bíblia quem pretenda com ela justificar atos de violência.

Ler a Bíblia da frente para trás
Ninguém, nem no céu nem na terra, nem debaixo da terra era capaz de abrir o livro nem de olhar para ele. (…) O Cordeiro aproximou-se e recebeu o livro da mão direita do que estava sentado no trono (…) Tu, és digno de receber o livro e de abrir os selos; porque foste morto e, com teu sangue, resgataste para Deus, homens de todas as tribos, línguas, povos e nações; Apocalipse 5, 3, 7, 9

Ao contrário dos outros livros, a Bíblia deve ser lida da frente para trás. É Cristo, cordeiro imolado, que pode “abrir”, ou seja, interpretar a Bíblia. É a partir d’Ele, palavra definitiva do Pai, que tudo deve ser lido, pois tudo aponta para Ele. Ele e só Ele tem a chave da sua interpretação.

A Bíblia deve ser lida da frente para trás, ou seja, o Antigo Testamento deve ser lido a partir do Novo, a partir da perspetiva que adquirimos com a leitura do Novo. Neste caso, a chave de interpretação destes textos é a figura de Cristo como o cordeiro de Deus sacrificado.

Ler o Antigo Testamento em sentido metafórico
Face a isto, os textos violentos, sobretudo os que apelam ao genocídio, podem ter um valor simbólico e metafórico. Neste sentido, Israel representa a vontade de Deus, o fermento do Reino de Deus, o povo que Deus chamou para com Ele começar uma história de salvação para toda a humanidade. Os inimigos de Israel, cananeus, filisteus, amalequitas, babilónios ou assírios, são os inimigos do plano universal de salvação. A luta deixa de ser física e passa a ser espiritual.

Quando se luta contra o mal, chame-se este como se chamar, não podemos usar meias medidas, pois não é com meias medidas que se erradica o mal, mas sim com o radicalismo de o arrancar pela raiz. Acabar com os inimigos de Israel, matando homens, mulheres e crianças e até os seus animais domésticos tem agora o sentido de erradicar o mal pela raiz. O vício do tabaco, do álcool ou qualquer outro também não se combate com meias medidas, mas com radicalismo e determinação. 

Conclusão: O finado escritor José Saramago, ateu e Prémio Nobel da Literatura de 1998, já deve saber que Deus existe de facto e que a Bíblia é constituída por dois testamentos – o Antigo, representa o homem tal como é e o Novo o homem como deve ser, à imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo.   

Pe. Jorge Amaro, IMC

 

1 de junho de 2022

Para que serve a Religião?

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Há cada vez menos pessoas religiosas. Será que a religião não serve para nada? Que dizem as estatísticas sobre a vida dos que são religiosos e dos que não são? Quais deles são mais felizes? Quais os melhor preparados para enfrentar o infortúnio?

Uma chamada à autotranscendência
Os antigos olhavam à noite para as estrelas e isso elevava o seu pensamento para além dos afazeres e preocupações do dia-a-dia; um olhar mais além de si mesmos e do mundo para a transcendência levava naturalmente a uma maior auto-transcendência. Nestes tempos modernos, os homens já não olham para as estrelas, mas sim para a televisão.

A televisão em geral, nos horários de maior audiência ou no chamado horário nobre, apresenta os programas menos nobres. Longe de ser um chamamento à autotranscendência, a TV leva o homem a imiscuir-se mais do que está no mais imediato e urgente, nos assuntos do dia-a-dia. Alguém dizia que os homens contemporâneos andam em círculos, às turras uns com os outros, porque deixaram de olhar para o céu.

Numa aldeia havia um moço que atirava pedras à lua; é claro que nunca a atingiu a sua diana a Lua, mas era, de todos os moços, o que atirava pedras mais longe. Por isso o que aparentemente parece algo sem sentido como atirar pedras à lua levou o moço à autossuperação e fez dele o melhor atirador de pedras. O mesmo acontece com a religião que aparentemente não serve para nada, mas a longo prazo os seus efeitos notam-se e são indiscutíveis.

Busca de sentido
A religião deixou de estar presente no dia-a-dia das pessoas, pois já não explica nada nem tem aplicações práticas que tornem a vida melhor e mais aprazível. Ao contrário, a ciência explica cada vez mais coisas e tem aplicações práticas para o dia-a-dia que tornam a nossa vida mais confortável.

A ciência de facto explica muitas coisas, mas não explica o mais importante: diz-nos que o mundo começou com um “Big Bang,” mas não nos diz quem provocou essa grande explosão ou o que havia antes dela, e para que foi prvocada; diz-nos que, desde essa grande explosão, o mundo continua em expansão e vai expandir-se até gastar toda a sua energia e acabar, mas não nos diz o que há para além do fim do mundo. Por fim, o que é mais importante, entre o “Big Bang” e o fim do mundo não nos diz que sentido tem a vida, para que existimos ou por que existimos.

É certo que podemos muito bem viver sem estas questões, como aliás fazem os agnósticos que metem a cabeça debaixo da areia; acham que ignorar as questões é a melhor maneira de responder a elas. Com esta atitude não passaríamos da cepa torta em todos os ramos do saber. A ciência nasce do questionar e buscar razões.

O espírito do ser humano é como a criança que acaba de chegar à idade da razão. Pelos 7 anos de idade, a criança ganha autoconsciência e descobre que existe. Então questiona tudo e todos, buscando razões para satisfazerem o seu espírito inquieto. Normalmente, agarra-se aos pais ou a algum adulto em quem confia e bombardeia-o como uma sucessão de porquês, à procura da razão última ou primigénia da causa não causada.

Frequentemente leva os adultos, que não querem admitir a Deus como causa não causada e razão primordial de tudo e de todos, a um beco sem saída. Neste momento, mandam-na calar e chamam-lhe chata. Assim, a criança pára de questionar-se e de questionar e, como os adultos seus mentores, põe fim a este exercício de buscar o porquê de cada coisa e contenta-se com viver na pura mundanidade, como aliás fazem o resto dos seres vivos que também não se questionam.

A ciência e o resto dos saberes e instâncias da sociedade desentendem-se quanto ao problema da morte. Só a religião apresenta uma solução coerente. Os mais intelectuais, como Karl Marx, dizem que não deve preocupar-nos, pois enquanto nós formos, ela não é; quando ela for, nós não seremos…. Os mais materialistas dizem “Morra Marta morra farta” porque “Enquanto dura é doçura”.

O confronto entre a ciência e a religião é como o confronto entre o amor e o dinheiro. Ninguém nega que ter dinheiro sempre foi e é cada vez mais importante, pois com ele tem-se acesso a uma infinidade cada vez maior de confortos e prazeres. Apesar da inegável importância do dinheiro para a vida, todos concordam que o amor é ainda mais importante. O dinheiro não compra amor, mas o amor pode comprar dinheiro; sem dinheiro a vida ainda tem sentido, mas sem amor não o tem.

Técnica, espiritualidade e ética
Se a ciência, teoria geral das coisas, se traduz pela técnica em aplicações práticas que nos facilitam a vida, a religião, teoria mais geral ainda e mais englobante que a ciência, traduz-se no dia-a-dia em espiritualidade e em ética.

A ciência pela técnica não nos diz como viver a vida e leva a uma forma de materialismo e consumismo, ou seja, a encher a casa de tralhas.

A religião não só dá sentido à vida como, pela espiritualidade e pela ética, nos mostra o caminho que leva à vida em plenitude, à auto-realização, ou seja, à felicidade que todos desejamos. O que a técnica é para a ciência, a espiritualidade e a ética são para a religião.

Se a técnica contribui para o bem-estar material do corpo, a espiritualidade contribui para o bem-estar da alma. Enquanto a ciência e a técnica só se preocupam com o bem-estar material do homem, a espiritualidade visa o bem-estar da pessoa como ser individual, a ética visa o bem-estar do indivíduo como ser social e parte integrante de uma comunidade

Os que vivem na pura mundanidade dirão que tanto a espiritualidade como a ética podem existir e subsistir sem a religião. De facto é essa a tendência do homem pós-moderno.

Isto leva-nos de volta à criança inquisitiva que acima comparámos com o verdeiro espírito do ser humano. Perante uma ética sem religião, somos obrigados a concluir que se o que verdadeiramente conta é o que se passa aqui em baixo, não há uma razão última para as coisas e, se não a há, por que devo ser bom se, sendo mau, obtenho mais coisas, mais dinheiro e mais prazeres?

A espiritualidade sem religião é algo assim como o budismo, o caminho para a iluminação, um aperfeiçoamento pessoal individualista e egoísta que definitivamente leva à sociedade de elites e castas que ainda vigoram na terra natal do budismo. A religião chama a espiritualidade ao altruísmo, a dizer que devemos amar os outros como nos amamos a nós mesmos; ou seja, tudo o que de bom buscamos para nós mesmos, devemos buscá-lo em igual medida para os outros.

Conclusão: Como o ser humano é naturalmente religioso, a vida na pura mundanidade é uma religião politeísta que consta do amor pelo poder, pela fama e pelo prazer e que tem o dinheiro como Zeus, o pai dos deuses.

A religião faz-nos livres do apego aos bens materiais, quando amamos a Deus sobre todas as coisas; dá-nos a alegria de viver quando nos amamos a nós mesmos como Deus nos ama, constrói uma sociedade justa e pacífica quando amamos o próximo como a nós mesmos.  

Pe. Jorge Amaro, IMC



15 de maio de 2022

Maria, a nova Arca da Aliança

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Muitos dos títulos que se aplicam a Maria nas ladainhas que rezamos depois do Rosário podem ter origem na imaginação e na devoção do povo de Deus. Maria como Arca da Aliança tem as suas raízes na Bíblia. Assim a apresenta o evangelista S. Lucas.

Origem e função da Arca da Aliança
Como regra geral, o judaísmo rejeita manifestações públicas de espiritualidade, preferindo concentrar-se nas ações e crenças. Na verdade, a história do judaísmo começa com Abraão que, de acordo com fontes antigas, destruiu os ídolos que eram o método convencional da observância religiosa na época.

A adoração de imagens ou esculturas é severamente condenada em toda a Torá; o maior pecado que os israelitas, coletivamente, cometeram foi a construção do bezerro de ouro (Êxodo 32), destinado a servir como um intermediário material entre eles e Deus.

Mas na história do povo judeu, houve uma exceção a esta regra. Um objeto feito pelo homem foi considerado intrinsecamente sagrado – a Arca da Aliança.

Construída durante a travessia do deserto, foi utilizada até à destruição do primeiro templo. A Arca era o símbolo mais importante da fé judaica e serviu como manifestação material e concreta de Deus na Terra. As lendas associadas a esse objeto – e as penas severas atribuídas a quem abusasse dele – confirmam a centralidade da Arca para a fé judaica daquele período.

A construção da Arca é ordenada por Deus a Moisés, enquanto os judeus ainda estavam acampados no Sinai (Êxodo 25). A Arca era uma caixa de dois côvados e meio de comprimento, um côvado e meio de largura e um côvado e meio de altura. Feita de madeira de acácia revestida por lâminas de ouro puro, por dentro e por fora.

Na parte inferior da caixa, quatro argolas de ouro foram anexadas, através das quais as duas varas, também feitas de acácia e revestidas a ouro, eram colocadas. A família de Kehath, da tribo de Levi, levaria a Arca em ombros, usando dois varões.

A caixa estava coberta pelo kapporet, de ouro puro, de dois côvados e meio por um e meio. Fixados ao kapporet estavam dois querubins esculpidos, também em ouro puro. Os dois querubins estavam frente a frente, e as suas asas, que envolviam os seus corpos, tocavam-se.

A lenda diz que a Arca caminhava à frente do povo, queimando escorpiões, cobras e espinhos com jatos de fogo que surgiam dela, preparando assim o caminho para o povo de Deus. Também acompanhava os soldados para a guerra; de facto, foi uma vez tomada pelos Filisteus numa batalha.

Do ponto de vista espiritual, a Arca era a manifestação da presença física de Deus na Terra (a Shekhinah). Quando Deus falava com Moisés na Tenda do Encontro no deserto, fazia-o entre os dois querubins (Números. 7, 89). Depois de a Arca ser transferida para o espaço mais sagrado e privado do Tabernáculo, e mais tarde no templo, passou a ficar acessível apenas uma vez por ano e apenas por uma pessoa. No Yom Kippur, o sumo-sacerdote (Kohen Gadol) podia entrar nesse espaço para pedir perdão para si e para toda a nação de Israel (Levítico 16:2).

Maria é a nova Arca
A Virgem Maria é a Arca da Nova Aliança pois, "O Espírito Santo desceu sobre ela, e a força do Altíssimo envolveu-a com a sua sombra. Por isso o santo que nasceu dela foi chamado Filho de Deus." Lucas 1,35.

A descrição de que Maria foi coberta com a sombra e o poder de Deus é a mesma e única descrição encontrada na passagem sobre a Arca que lemos no Êxodo: Então a nuvem cobriu a tenda de reunião e a glória do Senhor encheu o tabernáculo. (Êxodo 40,34). Era no tabernáculo que se encontrava a Arca.

A Arca viajou para a região montanhosa de Judá para descansar na casa de Obede-edom (2 Samuel 6:1-11). Maria viajou para a região montanhosa de Judá para a casa de Isabel (Lucas 01:39).

David perguntou: “como é que a Arca do Senhor vem ter comigo?” (2 Samuel 6, 9). Isabel pergunta, “por que me foi concedido a mim, que a mãe do meu Senhor venha a mim?” (Lucas 1:43).

Vestido com uma estola sacerdotal, o rei David aproximou-se da Arca e dançou e pulou de alegria (2 Samuel 6:14). João Batista, filho de um sacerdote, pulou de alegria no ventre de Isabel aquando da aproximação de Maria, a nova Arca (Lucas 1:43).

A Arca permaneceu na casa de Obede-edom durante 3 meses (2 Samuel 06:11). Maria permaneceu na casa de sua prima Isabel por 3 meses (Lucas 1:56).

A casa de Obede-edom foi abençoada pela presença da a Arca (2 Samuel 6:11). A palavra abençoada é usada 3 vezes em Lucas 1:39-45 sobre Maria na casa de Isabel.

A Arca voltou ao seu santuário e eventualmente terminou em Jerusalém, onde a presença e a glória de Deus foram reveladas no templo recém-construído 2 Samuel 06:12; 1 Reis 8:9-11. Maria retornou a casa depois de visitar Isabel e eventualmente veio a Jerusalém, onde apresentou o filho a Deus, no templo (Lucas 01:56; 02:21-22).

O conteúdo da Arca
Prova final de que de facto Maria é a Arca da Nova e eterna Aliança é-nos dada pelo conteúdo da Arca. Que continha então a Arca da Antiga Aliança e que conteve Maria, a Arca da Nova e eterna Aliança?

Lei antiga e lei nova – Maria é a Arca da Nova Aliança, pois assim como a Arca guardava as tábuas da lei (Hebreus 9,4), Maria guardou Cristo, a nova lei. A antiga Arca continha as tábuas da lei, os dez mandamentos; Cristo é a nova lei, a lei do amor que resume os mandamentos e vai mais além destes, pois nos convida a amar sem medida enquanto, os mandamentos só nos diziam o que não fazer.

Jesus também é apresentado no evangelho de Mateus, especialmente no Sermão da Montanha (o novo Sinai) como o novo Moisés e aquele que diz: Ouvistes o que foi dito ao aos antigos ... mas eu digo-vos... (Mateus 5:21-22).

O Maná é o verdadeiro pão descido dos céus – Maria é a Arca da Nova Aliança, pois assim como a Arca guardou o Maná, o pão descido do céu (Hebreus 9,4), Maria guardou Jesus em seu ventre, o verdadeiro Pão que dá a vida eterna, pois os que comeram o maná, morreram.

O Maná é o pão que os judeus comiam para logo voltarem a ter fome. O verdadeiro pão é aquele que, uma vez comido, faz com que nunca mais se tenha fome; é o verdadeiro pão descido dos céus que é Cristo. Este pão foi semeado no seio de Maria, como diz um cântico de Fátima:

 “O Trigo que Deus semeou no seio de Maria, tornou-se para nós o pão que nos dá vida e salvação eterna…. Maria é a terra onde germina essa semente a 100%. Ela é também o forno que o cozinhou por nove meses e o apresentou.

Os Pastores Moisés e Aarão e o Bom Pastor – Maria é a Arca da Nova Aliança, pois assim como a Arca continha o cajado de Aarão e de Moisés com o qual apascentaram o povo de Israel (Hebreus 9,4), Maria conteve no seu seio o novo e derradeiro Moisés, aquele que é o Bom Pastor, aquele que dá a vida pelas suas ovelhas.

Se a antiga Arca continha o cajado de Moisés com o qual guiava o seu povo e operava prodígios, a nova Arca contém o Bom Pastor, o que dá a vida pelas ovelhas e nos diz que só devemos reconhecer uma autoridade, um Pai, um Mestre, um Senhor que é Deus.

Conclusão: Se Arca da Aliança que apenas continha sinais da glória de Deus, foi venerada, duplamente venerada deve ser Maria, Nova Arca da Aliança, por ter contido o próprio Deus.

Pe. Jorge Amaro, IMC



 

1 de maio de 2022

Theotokos ou Mater Dei?

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Um entusiasmado prosélito protestante entra num autocarro e diz, “esta é a carta e este é o envelope que a continha, ficamos com a carta e atiramos com o envelope para o lixo. Cristo é a carta, Maria é o envelope. “A tua mãe também é um envelope que atiras para o lixo?”, alguém perguntou, e não obteve resposta…

Até ao século V, a reflexão da Igreja situava-se à volta da identidade de Cristo. Mas ainda antes do Concílio de Calcedónia, em 451, no qual se define a Cristo como verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, a reflexão da Igreja já estava a voltar-se para a sua mãe. De facto, já no ano 431 o Concílio de Éfeso tinha chamado a Maria “teotokos”.

“Ave, o Theotokos! Ave, o Mater Dei! Ave, Ave Maria! Ave, Ave, Maria!”, reza um cântico de Fátima, traduzindo o termo grego “Teotokos” pelo latino “Mater Dei”, mas não é assim. “Teotokos” significa portadora de Deus que não é a mesma coisa que mãe de Deus.

História da reprodução humana
Até ao princípio do século XX, desconhecia-se que o ser humano era o resultado da fusão numa célula de duas meias células – o espermatozoide do homem e o óvulo da mulher – algum tempo depois do ato conjugal.

Na longa evolução desde o aparecimento do homo sapiens, há 5 milhões de anos, até aos nossos dias, houve um tempo em que se desconhecia a génese de um novo ser humano. Na sua reduzida inteligência, o homem primitivo, não aplicava o princípio de causa/efeito que associava o ato sexual ao nascimento de uma criança nove meses depois.

Durante este tempo, apesar de o homem ter mais força física, quem governava o mundo era a mulher, pois era dela e só dela que vinha o futuro da espécie humana; era ela e só ela que assegurava a sobrevivência do ser humano. As sociedades eram matriarcais; em todas as línguas ainda hoje o nome Terra, Natureza são palavras femininas; Deus era conceptualizado como mulher como uma grande mãe.

Com a descoberta do papel do homem na reprodução, passámos abruptamente de um matriarcado para o patriarcalismo. Afinal a mulher não tinha arte nem parte na reprodução; pelo contrário, era o homem que colocava o novo ser nela e ela era só o terreno fértil onde este crescia. Deixou-se de pensar em Deus como mãe, mas sim como pai, e o homem relegou para segundo plano a mulher até aos dias de hoje.

A definição de Maria como “Teotokos” ou portadora de Deus está em concordância com o que se pensava no tempo do Concílio de Éfeso acerca do papel da mulher no ato da reprodução humana. A mulher é só o terreno fértil onde a semente cresce; é o homem que implanta esta semente que é o espermatozoide que, em si mesmo, era entendido como homúnculo, ou seja, um ser humano em tamanho reduzido, mas já completo em si mesmo. Se esta crença estivesse ainda em vigor, Maria seria, como todas as mulheres, uma “barriga de aluguer”.

Santa Maria, Mãe de Deus…
Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob o domínio da Lei… Gálatas 4, 4    

S. Paulo não diz nascido por intermédio de uma mulher, mas sim nascido de mulher. Mãe é aquela que acolhe uma criança no seu seio e contribuiu geneticamente para a sua formação; Maria é mãe nestes dois sentidos.

Lendo a encarnação de Cristo à luz do que hoje sabemos sobre a génese do ser humano, podemos afirmar então que o espermatozoide vem por via do Espírito Santo, pelo que Cristo era verdadeiramente Deus, e que o óvulo era de Maria, pelo que Cristo era verdadeiramente homem. Ora se Maria é mãe de Jesus e Jesus é Deus, Maria é mãe de Deus; um silogismo perfeito e incontornável.

Não é mãe de Deus no sentido de ser ela a origem de Deus, ou de ser mais velha que Deus e origem da divindade de Jesus. É mãe de Deus porque acolheu a Deus no seu seio, e porque contribuiu com material genético para a forma humana que Deus tomou em Jesus de Nazaré.

Voltando ao envelope
Maria não é só “Teotokos”, portadora de Deus; é como a nossa mãe, que nos acolheu e transportou por nove meses, mas contribuiu também com metade do material genético que nos forma. Maria não é, portanto, só envelope que conteve a Deus mas é mesmo mãe de Deus.

“Quem os meus filhos beija, minha boca adoça”. Uma mãe fica contente quando tratam bem os seus filhos e triste quando os tratam mal; o mesmo se pode dizer de um filho com respeito à sua mãe. Como podem os protestantes amar o filho e desrespeitar a mãe ou ignorá-la?

Mas usando ainda a metáfora do envelope, os amantes que guardam as cartas de amor guardam-nas com os respetivos envelopes. Cristo é uma carta de amor de Deus para a humanidade. Maria é esse envelope florido e colorido que contém essa carta; quem é mãe, sempre é mãe.

Por outro lado, no remetente os envelopes contêm a direção de quem envia a carta. Precisamos dela para responder, como precisamos da mediação de Maria pois, como foi mediadora da graça primigénia que foi Jesus Cristo, é mediadora de todas as graças.

Conclusão: Maria não é só Teotokos porque acolheu a Jesus no seu seio; é também Mãe porque contribuiu com o seu próprio material genético. Neste sentido, Jesus, é carne da sua carne, sangue do seu sangue. Se, para entendernos, a divindade de Jesus procede de Deus, a sua humanidade vem de Maria.

Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de abril de 2022

O corpo com que ressucitamos

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Isto é tudo muito confuso; explique-me lá, senhor padre: quando morremos o nosso corpo vai para a terra, a nossa alma vai para o céu, e nós? Para onde vamos nós?

A morte como passagem – Páscoa
Do ponto de vista da nossa fé, não devemos usar a palavra morte como se fosse um destino final. Os finados são os mortos; finado indica fim, findado, acabado. Isto não é verdade no âmbito da nossa fé.

Neste âmbito, a morte não é a última coisa que pode acontecer-nos, mas sim a penúltima. A morte é mais uma etapa de crescimento, a passagem da vida espácio-temporal para uma vida eterna além do espaço e do tempo. Acreditamos haver vida para além do espaço e do tempo. Porque Deus o Senhor da vida vive para além do espaço e do tempo por ele criados.

Já na Natureza a morte não é nunca um estado definitivo, mas sim uma passagem entre uma forma de vida e outra forma de vida. Segundo Lavoisier, na Natureza nada se cria, nada se destrói, tudo se transforma. A morte de um ser vivo dá sempre lugar à vida de outro. A vida é um círculo eterno de morte e vida, porque a vida se alimenta de vida, todo o ser vivo é alimento de outro ser vivo.

Nasce a erva que morre nos dentes da gazela que dela se alimenta. A erva não morre, transforma-se em gazela, que depois se transformará em leão, que ao morrer será comido pelos abutres e pelas hienas, que ao morrer darão vida a inúmeros vermes, que ao morrer fecundarão a – terra onde volta a nascer a erva.

A morte não é um estado, mas uma passagem. Aqueles que têm experiências de quase morte falam de um túnel e da luz no fim de um túnel. O mesmo acontece quando nascemos: há um túnel e a luz e dizemos em português que deu à luz. O nosso nascimento pode ser visto como a nossa primeira morte, morte à vida que tínhamos no seio da nossa mãe. Do mesmo modo, a nossa morte pode ser vista como o nosso nascimento para a vida eterna, para o seio de Deus

A morte é uma passagem de uma forma de vida para outra forma de vida, de estar no seio ligados à nossa mãe pelo cordão umbilical para vir para a luz, respirando por nós mesmos. A vida é um dom de Deus, é o ar que inalamos pelas nossas narinas e que nos leva a começar a viver até ao dia em que expiramos esse ar e voltamos para Ele.

A metáfora da borboleta
Na Natureza, há seres vivos que mudam de forma durante a sua vida. A rã é um deles, a borboleta é outro. A mudança de forma obriga também a uma mudança de meio, tanto no caso da rã como no caso da borboleta. A borboleta nasce sendo uma lagartixa que arrasta o seu ventre pela terra, comendo folhas até ao dia em que, aparentemente, morre.

O que aparentemente é uma morte é só uma mudança de forma que, guardando semelhanças com a anterior, é diferente dela. A nossa vida na Terra é como a da lagartixa, a nossa vida no céu é como a da borboleta; o nosso corpo físico é como o da lagartixa, muito apegado à terra, o nosso corpo espiritual é como o da borboleta, mais livre, voando de flor em flor.

A lagartixa é uma metáfora da nossa vida na Terra, do nosso corpo físico que está dependente da Terra. Como a lagartixa, arrastamos o nosso corpo pela terra, mas estamos chamados a ter uma vida superior, somos potenciais borboletas. Para chegar a ser borboletas e a realizar o sonho do Homem de poder voar, temos de passar pela quase morte. Não podemos ser lagartixa e borboleta; para sermos borboleta temos de deixar de ser lagartixa.

A vida como borboleta, voando num mar de diferentes flores, com outras borboletas de diferentes cores, num dia cálido de primavera, por campos, vales e valados à luz do sol radiante das primeiras horas da manhã, esta é a vida à qual todos estamos chamados: o Céu.

A metáfora da água
Uma outra metáfora que a Natureza nos dá para nos ajudar a conceptualizar a Ressurreição, são os três estados físicos da água. A água, sem deixar de ser o que é, ou seja, sem se transformar em outro elemento, existe na Natureza em três diferentes estados que são tão distintos entre si que poderíamos até pensar que se trata de diferentes elementos quando os comparamos entre si.

Vem do oceano e é vapor que não pode ser visto. Condensa-se e cai sobre a Terra, penetra nela e nasce em forma de surgente, formando regatos, ribeiros e rios. É enterrada e brota novamente, correndo e formando rios, dando vida à sua passagem, até voltar ao mar.

Em vez de chuva, pode cair em forma de neve; a 0 graus congela, ficando rija como uma rocha; a 100 graus ferve e evapora-se e, sem deixar de ser o que é, passa a existir em estado gasoso, invisível aos nossos olhos e intangível ao nosso tato. Podemos voltar a vê-la e a tocar-lhe se a fizermos condensar numa superfície mais fria que a temperatura do ar.  

Se a água, sem deixar de ser o que é, pode existir numa forma invisível e intangível, diríamos quase espiritual, como não podemos também existir invisível e intangivelmente nós que até temos um corpo que é formado por 80% deste elemento?

Os 17 corpos físicos da nossa vida
O primeiro ser vivo que habitou este planeta era um ser unicelular; ainda existem seres vivos que são unicelulares, como por exemplo a ameba. A ontogénese recapitula a filogénese, ou seja, os milhões de anos da História da vida neste planeta recapitulam-se ou repetem-se abreviadamente na história individual de cada ser humano que vem a este mundo.

Também nós já fomos uma única célula formada por meia célula do nosso pai, o espermatozoide, e meia célula da nossa mãe, o óvulo. Unidas as duas, nascemos nós, uma célula humana com um código genético único na História da humanidade; em pouco tempo, esta célula subdividiu-se em outras células para formar um corpo humano adulto, constituído por 300 triliões de células.

Cada uma das nossas células segue a lei geral que rege a vida neste planeta: nascer, crescer, reproduzir-se e morrer. Assim se explica o crescimento e envelhecimento do nosso corpo. De facto, à exceção das células do nosso cérebro, os neurónios, todas as outras seguem a regra geral – podemos dizer que a cada 5 anos mudamos, a cada 5 anos temos um corpo biologicamente diferente.

Numa vida média de 85 anos, temos 17 corpos diferentes. Com qual dos 17 ressuscitaríamos? Com nenhum deles, pois não é o corpo físico que ressuscita, mas sim o corpo espiritual que é uma síntese de todos eles, mas nenhum deles em particular.

O que é o corpo espiritual?
Sabemos, com efeito, que, quando a nossa morada terrestre, a nossa tenda, for destruída, temos uma habitação no Céu, obra de Deus, uma casa eterna, não construída por mãos humanas. E por isso, gememos nesta tenda, ansiando por revestir-nos daquela habitação celeste, contanto que nos encontremos vestidos e não nus. 2 Coríntios 5, 1-3

De uma forma simples e sem rodeios, o corpo espiritual é constituído pelos tesouros que durante toda a nossa vida acumulamos no Céu. (Mateus 6, 19-34). Esses tesouros, esses bens espirituais, que ao fim da nossa vida formam um corpo que é a nossa história, são as boas obras, são o que conseguimos espiritualizar com os nossos recursos materiais e os nossos talentos espirituais.

Diz o povo que quem dá aos pobres empresta a Deus, ou seja, que o dinheiro ou qualquer bem material temporal, quando é usado para um fim espiritual, se transforma num bem eterno, se espiritualiza, tornando-se num tesouro acumulado no Céu.

Usando uma metáfora que todos entendemos, a nossa vida é como uma destilaria. A destilação é um processo onde os bens materiais se evaporam pela fervura, retirando-se deles a sua essência. Para obter a essência de um perfume é necessário destilar toneladas de uma flor particular, adquirindo-se assim umas poucas gotas de essência. O álcool resultante da destilação da uva ou da cevada chama-se em inglês “spirit”, o whiskey e o brandy ou conhaque   são chamados desta forma porque resultam do processo de destilação.

Reza a história que uma mulher estava habituada neste mundo a todos os luxos e bajulação das pessoas porque era famosa. Morreu um dia e, quando chegou ao Céu, S. Pedro levou-a pela mão para a conduzir à sua habitação celestial.

Passaram por muitas mansões encantadoras, ao estilo de Beverly Hills e a mulher pensou que seria uma daquelas que lhe tinha sido atribuída. Depois chegaram aos subúrbios e aos edifícios altos com apartamentos e ela pensou “Bem, será pelo menos um daqueles”, mas não...

Depois chegaram aos bairros de lata do Céu e S. Pedro mostrou-lhe uma cabana feita de cartão e lata. "Esta é a sua casa", disse S. Pedro. "O quê?", disse a mulher, “aquilo? Não posso viver nessa espelunca! “Sinto muito", disse S. Pedro, mas foi isto que conseguimos construir para si com os materiais que durante a sua vida nos enviou".


Tenho para mim que quanto mais a ciência desvenda os mistérios da Natureza, mais fácil se torna acreditar em Deus que tudo fez, na vida para além da morte. No contexto da física mecanicista de Newton, onde matéria é matéria e energia é energia, era difícil acreditar na Ressurreição.

Com Einstein, que descobriu que a matéria e a energia são a mesma coisa, ou seja, que a matéria pode transformar-se em energia e que a energia pode transformar-se em matéria, é bem mais fácil acreditar que o nosso corpo físico material pode transformar-se num corpo energético espiritual.

Pe. Jorge Amaro, IMC


1 de abril de 2022

Religião e Ciência

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A ciência descobre; a religião interpreta. A ciência dá conhecimentos e poder ao homem; a religião dá-lhe sabedoria e controlo. A ciência é acerca de factos; a religião é acerca de valores. As duas não são rivais; são complementares. A ciência faz com que a religião não caia no irracionalismo, no fanatismo e no obscurantismo paralisante. A religião impede a ciência de cair no pântano do materialismo obsoleto e niilismo moral." Rev. Martin Luther King

Ciência e técnica como nova religião
Uns crescentes números de pessoas têm vindo a substituir a fé na omnipotência de Deus, pela fé na pseudo- omnipotência da ciência e da técnica. A ciência descobre, a técnica aplica, e a nossa vida torna-se mais confortável do ponto de vista material. Para além da matéria, o ser humano também é espírito, um espírito que questiona o porquê e o para quê da vida e de tudo o que nos rodeia. A ciência nunca terá respostas para estas questões, a religião tem.

O agnóstico dirá que a ninguém importa saber o “porquê” e “para quê”. É verdade, como dizem os ateus, que o homem é o momento em que a natureza tomou consciência de si mesma. Precisamente desde esse momento, o ser humano busca sentido para o seu viver. Todo o indivíduo, no momento em que toma consciência de que existe, por volta dos 6 ou 7 anos de idade, se pergunta de onde vem, para onde vai e que sentido tem a vida; só os animais não o fazem e apenas porque não têm consciência de que existem.

São cada vez mais os que abandonaram a Deus para idolatrarem a ciência e a técnica. Está instalada na opinião pública de hoje a ideia de que a religião não é mais que uma forma ignorante e primitiva de investigar os mistérios do mundo. O episódio da condenação de Galileu valeu à Igreja a fama de obscurantista que prevalece até hoje.

Galileu foi condenado, por um lado porque os obtusos líderes da Igreja naquele tempo ainda não se tinham dado conta de que a Bíblia não revela verdades científicas, mas apenas verdades relativas à natureza humana. Por outro lado, como dizem alguns historiadores, Galileu não apresentou provas que confirmassem a sua teoria. Porque estamos na Terra, não nos apercebemos do movimento desta e parece que é o sol que se move; o mesmo nos acontece quando viajamos de carro ou de comboio – nós que estamos em movimento parecemos não nos mover e a paisagem que está fixa parece mover-se diante dos nossos olhos.

Einstein foi também criticado por alguns cientistas do seu tempo porque a sua teoria da relatividade carecia de provas empíricas, pois foi uma elucubração intuitiva da mente de Einstein. Só agora começam a aparecer provas empíricas que demostram a veracidade desta teoria.

A fé e a razão
Se Deus existe é o Criador de tudo e de todos; como criaturas que somos, não é lógico que a nossa mente possa abarcar a mente de Deus, que a parte possa compreender o todo. Deus não pode ser nunca objeto da ciência; aliás, nem o Homem o é. Por outro lado, o mistério não envolve só Deus e o Homem, é comum a todas as áreas do saber.

Nenhuma ciência ou área do saber, pode vangloriar-se de já ter descoberto tudo o que há para conhecer no seu campo; quanto mais se sabe, mais se pode saber; por isso, o verdadeiro sábio considera-se ignorante. Nicolau de Cusa chamava-lhe a douta ignorância: face à imensidade do que há para se conhecer, só sei que nada sei.

A ciência investiga a Natureza, a religião também investiga a Natureza de Deus. A verdadeira ciência sabe que quanto mais se sabe mais há para saber. A religião sabe e vai investigando o mistério de Deus, mas nunca poderá abrangê-lo na sua totalidade.

Historicamente, a razão foi-se constituindo e instituindo como ciência, que é o processo de determinar o comportamento da matéria ou do universo usando a observação, a experimentação e a razão. Historicamente, a fé foi-se constituindo e instituindo como religião, que é um sistema organizado de crenças, ideias ou respostas sobre a causa, natureza e finalidade do universo que não são nem podem ser objeto de ciência.

Nem só de religião vive a fé, nem só de ciência vive a razão. Fé e razão fazem parte e precisamos de ambas no nosso dia-a-dia. Praticamente todos os atos contêm um pouco de razão e um pouco de fé. Na nossa vida, a razão analisa, a fé decide. Sem a razão decidiríamos prematuramente e faríamos mais erros do que os que já fazemos; sem a fé nunca chegaríamos a decidir, a arriscar uma solução para os nossos problemas, pois sempre pensaríamos que algo poderia ter escapado à nossa análise e cairíamos num imobilismo.

Quando aceito um cheque por um serviço prestado, acredito que tem cobertura, seria indelicado e poderia perder um amigo se o recusasse. Quando embarco num avião, acredito que os polícias fizeram um bom trabalho no sentido de evitar que alguém tenha colocado uma bomba na bagagem e acredito que os pilotos estão bem preparados e são bem-intencionados.

Quando me sento para comer num restaurante, confio que a comida está em boas condições e não exijo que seja analisada em laboratório antes de a consumir; é a falta de fé e o medo do envenenamento que faz com que na Etiópia a cozinheira sempre prove a comida à frente dos convidados.

Conhecer e amar
Conhecer significa dominar e controlar. Se eu sei qual é o princípio que regula a chuva, eu posso fazer chover, como de facto fizeram os chineses uns dias antes da abertura dos Jogos Olímpicos, para evitar que chovesse no dia da abertura. A Deus não se pode conhecer do mesmo modo. Conhece-se a Deus como se conhecem as pessoas humanas.

Uma pessoa só se revela, só se dá a conhecer se a amarmos. Pelo contrário, se for um inimigo que nos conhece, ficamos vulneráveis perante ele. Como todas as pessoas, Deus só se dá a conhecer a quem o ama. Não se pode conhecer a Deus ou a uma pessoa sem nos implicarmos pessoalmente com ela. Não podemos colocar Deus nem as pessoas humanas dentro de um tubo de ensaio. Amar é implicar-se com a pessoa amada; entre os humanos, o conhecimento sem amor é manipulador.

Igreja, sociedade e ciência
No caso do aborto, é a Igreja que está com a ciência, e é o mundo político-social, culto ou não culto, que está contra ela. Não há nenhum cientista que negue que a vida humana começa na conceção, quando meia célula constituída por 23 cromossomas – o espermatozoide – se une a outra meia célula constituída pelo mesmo número de cromossomas – o óvulo – formando uma união indivisível, uma célula humana de 46 cromossomas com um código genético único na história do Universo.

Esta célula humana imediatamente se subdivide em réplicas de si mesma, pois todas as células que compõem o corpo humano contêm o mesmo ADN. Muitos, seguindo as suas conveniências, não a ciência, decidem que esta vida embrionária não é vida humana ainda, como se o tempo pudesse transformar algo que não é humano em algo que o é, e algo que o é pudesse não o ser ainda para o ser depois, ou pudesse ser num tempo para o não ser depois. Esquecem-se estes amantes e ignorantes da ciência que eles mesmos já passaram por esta fase embrionária e que eram, naquele tempo, eles mesmos não humanos?

O aborto é um homicídio legal, uma conveniência para alguns, e um negócio para outros. Não tem qualquer base científica, moral ou humana essa matança e, no entanto, a ciência que sabe que a vida humana começa na sua conceção também se cala por conivência. Este é o Galileo Galilei da sociedade e da ciência, a hipocrisia levada ao mais alto nível.

A Igreja não teme a ciência
Longe de temer a ciência, a Igreja até a promove. No século XIX, o frade agostinho Gregório Mendel foi o pai da genética. A única teoria aceitável sobre o começo do Universo é da autoria de Georges Lemaître, sacerdote católico belga. Segundo ele, um “Big Bang” marca o começo do Tempo, do Espaço e da Matéria.  

Como no Universo e na Natureza nada se cria a si próprio, é perfeitamente plausível que tenha sido Deus, alguém exterior à criação, a causa não causada que ao exteriorizar a sua criatividade e amor, fez explodir o átomo que previamente tinha criado e, com esta grande explosão, criou o tempo, o espaço e a matéria.

O Big Bang é o pontapé de saída para uma infinita sucessão de causas causadas e causadoras, até chegar ao momento em que aparece o ser humano. Como a Igreja não é adversa à ciência, já o Papa Pio XII, na sua encíclica Humanae Generis, refere que a teoria da evolução das espécies de Darwin não está em contradição com o livro do Genesis, o qual, usando uma linguagem mitológica, diz que o homem foi o último ser vivo a ser criado. Se foi criado diretamente ou como fim de um processo evolutivo, faz pouca diferença.

Quanto mais avança a ciência, mais fácil é acreditar. Durante séculos, a Bíblia e a Igreja foram ridicularizadas por falarem no fim do mundo; hoje, é científico afirmar que o Universo teve um começo e terá um fim. Creio firmemente que a ciência nunca chegará a provar que a fé está equivocada, muito pelo contrário, quanto mais descobre a ciência, mais fácil, mais razoável é crer que não crer, pelo que não crer vai ficar reduzido a uma obstinação mais orgulhosa e ignorante que científica ou ilustrada. Não estamos longe do tempo em que poderemos afirmar que, com toda a evidência científica de que dispomos, só não acredita quem não quer acreditar.

Falar dos milagres que Jesus fez no quadro da física mecanicista de Newton, segundo o qual a realidade funciona como uma máquina perfeita na rotina inalterável de um relógio, é mais difícil que falar dos mesmos temas no quadro da teoria da relatividade e da física quântica, onde já não se fala de leis fixas e absolutas da natureza, mas sim de probabilidades estatísticas. O princípio de Heisenberg vai ainda mais além, quando sugere que a realidade, longe de ser fixa e sujeita a uma rotina, tem um alto grau de incerteza e imprevisibilidade.

Para Einstein, a matéria é uma forma de energia, e a energia é uma forma de matéria; 95% do Universo é constituído por matéria negra que é invisível. Que fácil passa a ser falar da ressurreição, do corpo glorioso de Cristo e do corpo espiritual que possuiremos depois da morte!

 Conclusão: A ciência descobre, a técnica aplica, e a nossa vida torna-se mais confortável. A religião descobre o sentido da vida, a ética os valores que definem a natureza humana, a espiritualidade mostra-nos o caminho para a autorrealização e a felicidade enquanto filhos e filhas de Deus.

P. Jorge Amaro, IMC